Ideias de Chirico

Offpunk

― Próximo!

Diz a atendente entre sonolenta e entediada. O cliente anterior ainda está às tantas com as sacolas.

Nesse meio tempo, lá vai o “próximo” passar as mercadorias para o balcão de metal liso. Bip, bip, bip. Com a prática, a balconista passa todos os pacotes num minuto. E o dito-cujo lá com o focinho na tela abrindo o aplicativo do banco.

― Só um minuto, que o 4G está lento.

Opa, abriu o aplicativo. A funcionária lança o código QR da compra. E o camarada que parece que não saber estabilizar a câmera do telefone...

Leu? Beleza. E dá-lhe rede móvel.

E a fila se avolumando.

― Graças a Deus!

Foi-se embora o carinha do telefone. Aí vem outra bendita com um telefone enorme e lerdo. Dessa vez sem internet.

― Qual é a senha do wi-fi daqui mesmo, hein?

No ar aquele clima de banco ou de lotérica, cheia de gente resmungando. A culpa já não é mais nem dos atendentes.

Na minha vez, dou “bom dia”, passo as mercadorias.

― Deu R$ 12.75, moço.

Cato duas cédulas, umas moedas. Babau.

― Próximo...


Lembro de quando o Pix começou a entrar na vida do brasileiro. Eu que sou um tecnófilo, sou bastante refratário a qualquer invenção bombástica. Parece uma contradição, mas não é. Toda invenção requer não só um período de educação do usuário, mas também um tempo para pôr à prova a sua utilidade.

Rapidamente, o recurso chegou aos rincões mais recônditos deste nosso país tão desindustrializado. “Até bar de estrada agora aceita Pix”, dizia-se com admiração.

De qualquer forma, com o tempo, antes mesmo de eu utilizar o cartão de débito, comecei a usar o Pix no dia a dia. Pagar boletos era mais prático. Não precisava mais carregar o troco enorme de moedas. O registro das transações ficava registrado no histórico do aplicativo e as chaves Pix podiam ser favoritadas.

Daqui a pouco é um não mais terminar de filas em mercados, feiras, padarias, bodegas. E casos de gente que fez transações por engano, para destinatários desconhecidos ou com valores incorretos. E estabelecimentos que não se dão o trabalho de voltar troco ou até mesmo que só aceitam pagamento em Pix.

Aí o desencanto bateu.


Parte do sucesso do Pix está na acessibilidade do smartphone. Porém, com a concentração de funções no telefone moderno, há um risco cada vez maior de se ficar na mão.

Imagina que você esteja em um aeroporto e precise: 1. passar o passaporte e mostrar sua documentação; 2. fotografar; 3. escutar música; 4. enviar mensagens; 5. pagar por uma refeição; 6. ler. Se seu dispositivo tiver somente 17% de bateria, deverá escolher uma dessas funções. A prioridade, lógico, estará no dinheiro e nos documentos. O resto se ajeita.

Já ouvi o caso de uma pessoa que não portava carteira ao sair de casa ― resolvia tudo por aproximação de cartão virtual e Pix. Certa vez o seu aparelho descarregou bem na fila do cinema, e aí teve de pedir dinheiro emprestado para uma amiga que a acompanhava. A situação seria ainda pior se estivesse sozinha.

O melhor, decidi, é tornar o dinheiro um objeto analógico.

Desde o começo do ano, adotei outra vez as cédulas. A ideia era manter um dinheiro “livre”, sem uma destinação específica, para usar em estabelecimentos informais ― nunca gostei de passar meu cartão em qualquer maquininha.

As cédulas também são uma mão na roda caso falte eletricidade, bateria, internet ou a minha paciência no ponto comercial. As tão evitadas moedas agora são bastante desejadas e cuidadosamente guardadas em um porta-níqueis que carrego junto da carteira.

Ao menos duas vezes ao mês, aproveitando algum passeio pela rua, saco dinheiro da máquina do banco.

Nem tudo são flores, lógico.

Como se utiliza menos dinheiro nas transações em cidades grandes, a tendência é dos bancos emitirem notas maiores. O que interessa em ter dinheiro é a praticidade, então é bem melhor ter o dinheiro trocado.

Com muita pesquisa, percebi que alguns estabelecimentos tendem a aceitar voltar troco sem muito muxoxo: supermercados, bancas de jornal e grandes redes de farmácia. Logo que saco a grana, vou logo em um desses lugares.

Restaurantes, bares e lanchonetes tendem a não trocar dinheiro ou mesmo a recusar pagamento em espécie. Caso neguem troco, tenho do meu lado o Código de Defesa do Consumidor, que proíbe no artigo 39, inciso IX:

recusar a venda de bens ou a prestação de serviços mediante pronto pagamento.

Não obstante, a lei estadual do Ceará nº 16685 obriga estabelecimentos comerciais a garantir troco em moeda. Imagino que cada estado brasileiro deva ter alguma legislação desse tipo também.


Na última viagem que fiz à terra natal, me chamou atenção a frequência com que a cédula aparecia nas transações nas cidades de interior. Em feiras populares onde se vendem frutas, verduras e grãos, simplesmente não se usam Pix ou cartão ― só dinheiro. Até pensei em perguntar para alguns dos feirantes a razão para isso, mas, de tão intuitiva, ela há de ser simples: a moeda é prática e fiável.

Além de tudo, como não atravessa um intermediário digital, ela ainda preserva os dados pessoais. Não por acaso, tomo a cédula de dinheiro como um ícone offpunk.

A moeda é a prova de que nem sempre a opção digital é a mais conveniente.

O pagamento por Pix em uma tenda dessas, de duas uma: ou faria mais filas ou, com o ruído, poderia se comunicar o valor errado ou a chave incorreta. Além disso, que ideia de Chirico sacar o telefone em plena rua movimentada!

Por outro lado, na cidade grande... filas e mais filas, roubos de aparelhos etc., etc.

Sim, a invenção é maravilhosa. Sim, bancarizou uma centena de milhões de trabalhadores informais. Não, não agilizou os serviços como prometia. No dia a dia, o dinheiro e, em algum grau, o cartão de crédito ainda ficam na vanguarda.

#cotidiano #tecnologia #offpunk


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Reprodução de tela do navegador Offpunk. Uma tela com fundo escuro, e texto em branco. O título do texto está em vermelho e os “links” estão em azul. Abaixo, há uma imagem borrada que parece ser de um coelho.

Em um mundo compulsoriamente conectado, passei a interagir mais com páginas web desconectado através de Offpunk, um navegador desenhado para um uso humano da internet. Imagem: offpunk.net

Seguir feeds por RSS é complicado. “Complicado” não no sentido de ser difícil de usar. Falo da diversidade de conteúdo que o protocolo proporciona. Esse protocolo flexibiliza bastante o rol de publicações as quais pode se acompanhar, mas, exatamente por serem diversas, requerem dispositivos que se adequem a essa diversidade.

Já há mais ou menos quatro anos que tento distribuir meus feeds através de pelo menos três aparelhos: um telefone, um leitor digital Kindle e um computador.

Falei da minha experiência de [Kindle com RSS através deste artigo]

• Leia mais com Kindle + RSS + calibre (Ideias de Chirico)

Entretanto, com tanta variedade midiática, é difícil organizar os conteúdos adequados para cada dispositivo.

Publicações curtos (microblogues, sobretudo) ficam no telefone; aquelas que tinham imagens como centro das publicações ficam no computador; outras que tinham textos mais longos, ficam no Kindle.

Lateralmente a esse fator, ainda havia o critério de conexão. A grande sacada do RSS em uma era perpassada pelo algoritmo e pela coleta massiva de dados é que ele apresenta uma internet que prescinde de conexão ininterrupta, que pode ser acessada posteriormente, sem acesso à conexão.

Alguns feeds, porém, exigiam essa conexão constante para que as imagens fossem carregadas. A grande maioria dos agregadores não as baixam em cache como ocorre com textos ou áudios (como é o caso de podcasts, que também são veiculados por RSS).

Além desses problemas, ainda havia o da contabilização dos posts não lidos. Já escrevi nestas Ideias de Chirico sobre a minha ojeriza contra a metrificação e a numeralização da vida digital.

• Abandonando redes sociais “numéricas” (Ideias de Chirico)

Em todos os agregadores de feed que experimentei se quantifica quantos artigos ainda estão na fila de leitura; em consequência há um ímpeto de zerá-la a todo custo.

Não obstante tudo isso, a minha leitura se restringia somente àquilo que foi baixado, sem poder abrir links anexados caso estivesse offline ou momentaneamente sem conexão.

Foi aí que experimentei o navegador Offpunk.

Offpunk... Esse nome lhe deve ser familiar, não é? Afinal, foi esse navegador que batizou o Manifesto que publiquei mês passado.

Esse projeto foi desenvolvido por @ploum@mamot.fr, que também me ajudou a escrever o texto citado acima. Sua ideia era criar um meio de navegar entre os protocolos HTML, Gopher, Gemini e RSS (!), dentro de um terminal de computador (!), através de uma sincronização que poria todo o conteúdo carregado em cache temporário (!). (Tudo isso ainda somado com o bônus de os novos artigos não serem notificados ou numerados de alguma forma como acontece com a imensa maioria dos agregadores...)

Eu já conhecia o projeto, o experimentando por algumas páginas e me encantou muito a sua filosofia offline first, que atualmente aplico a basicamente todos os meus dispositivos. A experiência havia permanecido somente no campo da curiosidade. Mas somente agora dei uma chance real para inclui-lo dentro da minha rotina.

O foco principal do navegador Offpunk é o texto, mas veja só: ele permite o download de imagens! A minha jornada com RSS teve um final feliz. Com alguns desafios, porém.

Processo de adaptação

O primeiro desses desafios foi adequar-se à dinâmica do terminal. A minha experiência com esse recurso era até então um pouco superficial, ao qual eu recorria só para instalar algum programa de fora do repositório dedicado ao meu sistema operacional.

No início a interação com texto puro é esquisita, mas aos poucos o aspecto simplificado do terminal atrai e se acaba por criar simpatia pelo texto verde sobre um fundo preto. Além de tudo, a atividade no meu computador é mais orientada ao teclado do que ao mouse.

Dentro do navegador Offpunk, não há interação com qualquer recurso visual do tipo “botão” ou “campo de texto” por intermédio do mouse, a não ser para cópia de texto. Somado a isso, Ploum optou por acionar alguns comandos provindos do editor Vim para rolar pela página. Vim é tido como um dos editores de texto mais otimizados para teclado. Por eu já estar estudando Vim há um tempo, pude utilizar o que aprendi dentro do navegador. Mas deixo avisado que o conhecimento nesse software não é necessário para a navegação plena no Offpunk.

O segundo dos desafios foi o volume de comandos. Só para se ter ideia, para interagir com links dentro de uma página, há três possibilidades: “v” apresenta sua url; “t” adiciona-o a uma fila de leitua; por fim, ao escrever o seu número correspondente a um link, abre-se a página linkada, se ela já estiver em cache.

Porém, Ploum fez um ótimo trabalho de instrução com o seu tutorial; além disso, cada comando retorna uma descrição detalhada quando seguida de um “help”; todos os comandos documentados pela versão do usuário são listados quando se lança o comando “help” sozinho.

Junta a esses auxílios, a leitura dos workflow na página oficial do projeto dentro do protocolo Gemini me ajudou muito a entender as formas com as quais posso me apropriar do navegador. Destaco em especial o workflow de Ploum, que é, ao meu ver, o mais informativo de todos.

• How I use Offpunk ― by Ploum (offpunk.net)

Salvei a página acima dentro de uma lista de “bookmarks” para, sempre que tiver algum tempo livre ou alguma dúvida, fazer uma leitura da página e experimentar algum comando novo.

Eu diria que a curva de aprendizado com esse navegador não ultrapassa uma semana se se praticar todos os dias com as instruções disponibilizadas no sítio oficial.

A fim de apresentar a forma com a qual navego com o programa, os recursos de que dispõe e como ele se comporta, apresentarei agora o meu próprio workflow, baseado no modelo citado.

Meu fluxo com Offpunk

Logo que acordo, ligo o computador. Minha rede sem fio é desativada por padrão, através de uma chave no teclado. Quando a ativo, abro o terminal, aciono o Offpunk e digito:

sync 50000

O número se refere ao tempo em minutos e atualiza todas as listas. 50 mil minutos é mais ou menos o tempo desde a última vez em que li todos os feeds. A minha lista de leitura é atualizada ao menos uma vez ao dia.

Como o Offpunk baixa não só texto, mas também imagens, ele custa um pouco a terminar o processo, mas não mais do que o tempo de fazer um café da manhã.

Uma vez que o carregamento acaba e o meu café está pronto, digito:

off

para garantir que nenhum outro dado seja carregado. Isso é importante para poupar e aproveitar os dados já em cache. A fim também de poupar bateria do meu computador, desativo a rede sem fio através daquele mesmo atalho no teclado.

Para seguir com artigos que foram carregados da minha lista RSS ou que salvei na fila de leitura (chamado de “tour”), escrevo

t

Caso o artigo seja legal, mas eu não tenho tempo o suficiente naquele momento, o direciono para a minha lista de “ler depois”:

add ler

Decidi nomear esta lista como “ler” porque é mais prático de ser digitado do que qualquer outro nome.

Às vezes, para me forçar à leitura, posso também adicionar o artigo à lista “tour” outra vez:

add tour

Ao fim do “tour”, vejo os artigos que estão na lista “ler” com

list ler

Após a leitura, arquivo o artigo:

archive

Isso garante que, caso eu precise retomar o texto lido, não precise revisitar o histórico, que pode ser acessado por

history

Essa última lista tem um limite de 200 sítios da web.

Alguns artigos vêm com imagens em formato de miniatura pixelada, como mostrada na reprodução no começo desta publicação. Caso eu queira abri-la em alta definição, digito

open X

onde “X” é seu número correspondente. Ela abrirá no leitor de imagens padrão do sistema, que no meu caso é o Ristretto. Se ela me interessar, faço uma cópia com Ctrl + S.

Caso eu queira ver para onde vai um link posto em um texto, posso ver a sua url com

v X

em que “X” é o número do link. Se ele parecer legal, ponho-o na lista de sincronização com

t X

e aí na próxima vez que o Offpunk for atualizado, o artigo poderá ser visitado através de um “tour”. Quer dizer, não só o artigo, mas os links que estão conectados àquela página.

Se o sítio for interessante, talvez eu queira compartilhá-lo com um amigo por e-mail:

share

(para abrir o meu cliente de e-mail com o link no corpo de texto) ou

share email@dominio.com

(para direcionar o endereço direto para algum contato específico).

Posso também seguir o sítio por RSS, caso o navegador forneça um feed:

add rss

A lista “rss” é atualizada com “sync” e seus novos artigos são postos em “tour”. Mas tenho uma outra lista que é atualizada, mas seus artigos só podem ser lidos caso eu os visite:

list news

Essa é útil para fontes que são muito noticiosas ou que às vezes vêm com a visualização quebrada (sobretudo perfis do Mastodon).

Caso eu já tenha visto tudo, checo ainda se não há mais nada a ser lido com

list tour

e saio da aplicação com Ctrl + D.

E a navegação conectada?

Quanto à pesquisa, Offpunk é focado em artigos publicados no protocolo Gemini, através do motor de busca Kennedy.

Há uma forma de modificar o motor de busca padrão, mas até agora não encontrei nenhum que rodasse dentro do Offpunk. Tampouco faço buscas constantes no protocolo Gemini. Talvez eu devesse lhe dar mais chance.

Caso eu precise buscar alguma informação conectado, abro meu navegador padrão (Librewolf), vejo se há alguma página que me seja útil e daí, se eu não tiver disponibilidade para uma leitura aprofundada, abro o navegador Offpunk, colo o endereço da página e em seguida escrevo

tour

Assim, tem-se não só um navegador, mas um agregador de feeds e uma pasta de leituras pendentes potencializados com imagens e links anexados salvos em cache, e munidos de uma navegação privada, já que as páginas não são carregadas em uma interface visual com Javascript ativo.

Definitivamente, Offpunk é um navegador desenhado para um uso humano da internet, no qual o usuário, não um terceiro (algoritmo, notificação ou plataforma), é quem decide o seu caminho a ser trilhado e a frequência de seu acesso.

Cruzadinha com as palavras 'Gopher', 'Gemini', 'RSS', 'Offline first', 'Smol web' e 'Terminal' que formam a palavra 'Resist'

Imagem: offpunk.net

#tecnologia #offpunk


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Sinal do Manifesto Offpunk, um símbolo de rede sem fio de cabeça para baixo.

A revolução não será digitalizada.

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Ao tempo que se aponta para a hiperconexão como um sintoma de um futuro inescapável, um movimento tímido e incômodo se insinua: o da desconexão proposital e propositiva. A adoção por “telefones burros” tem crescido nos últimos anos; câmeras digitais voltaram a ser utilizadas, assim como as fitas cassete e também as máquinas de escrever! Há também um estranho movimento de adoção do jornal... de papel. Até o minidisc, que foi esquecido por conta do tocador de .mp3, renasceu das cinzas

No início do século, a internet era a promessa do último ato da “Aldeia Global”, preconizado por Marshall McLuhan. Computadores, caros e escassos (por isso, às vezes, coletivos), eram portais de um além-mundo. Governos, despendendo um bom valor, buscavam garantir que classes pobres fossem “incluídas” digitalmente.

Chegamos lá. Agora caminhamos para a marca de três dispositivos conectados por pessoa em todo o mundo, segundo estimativas da Cisco Visual Network Index para a década de 2020.

O digital é ubíquo e tido como garantido. Inclusos digitais à revelia, já não nos conectamos mais à internet. Simplesmente vivemos nela.

Qual como se vestíssemos um uniforme, guardamos o telefone no bolso para trabalhar, para viver, para amar.

A tecnologia digital deixou de ser ferramenta para se tornar ambiente ― um ambiente do qual não se pode fugir. Isto é, uma prisão.


“Garantir o não digital é um dever, não um retorno ao passado”, Giulio Cavalli.


Neste cenário de conectividade compulsória, às vezes gratuita, a verdadeira dissidência não é burlar o sistema — é simplesmente recusar-se a fazer parte dele.

Como o escritor belga de sci-fi e desenvolvedor de software Ploum defende, os punks da nossa era são aqueles que ousam viver sem smartphone ― ou “offpunks”, como agora prefiro chamar.

Conexão como arma de guerra

Fruto de um desenvolvimento tecnológico centralizado e monopolista, a distribuição de internet ou de serviços digitais tornou-se uma arma de guerra. Quando países com hard power entram em conflito, buscam interromper não apenas o fornecimento de água e de gás ― cortam internet como tática bélica. A Rússia o fez em investidas contra a Ucrânia; Israel o faz dentro da Palestina.

No fim de 2025, o juíz francês Nicolas Guillou da Corte Penal Internacional perdeu todo o acesso a vários serviços digitais americanos ― como hospedaria, compras online e banco ― fornecidos por empresas americanas como AirBNB, Amazon e PayPal. Os Estados Unidos justificaram tal sanção porque Guillou abriu mandados de prisão contra o primeiro ministro israelense, Benyamin Nétanyahou, e seu ministro da defesa, Yoav Gallant, por conta de ataques israelenses de cunho genocida em território palestino. Os Estados Unidos são o principal país apoiador das ações de Israel na Ásia Central.

A postura offpunk nasce de uma constatação simples e incômoda: o reino do digital é frágil. Ao mesmo tempo, toda a vida social é forçosamente imbuída dentro desse ambiente. Logo, tal postura leva em consideração que é preciso não depender totalmente dos serviços virtuais sob o risco de um deles ser sancionado ou não estar disponível. Exemplos como a queda de servidores da Microsoft que impactou serviços bancários em todo o mundo em meados de 2024, a sanção do Twitter/X pelo governo brasileiro em fins de 2024, e a queda global dos servidores da Amazon e da Cloudfare em fins de 2025, que levou vários domínios na internet à queda, escancararam, não só a sua fragilidade, mas a nossa dependência a esses serviços.

Quando o sistema cai ― por sanção política, por pane ou por guerra ―, o que existe em linha simplesmente evapora. Fica-se de mãos amarradas se a única opção é o digital.

Afinal de contas, a conexão ininterrupta não é uma garantia, principalmente em países do Sul global ou sob conflito político interno ou externo, ou mesmo em situação de paz ― na cidade de São Paulo, Brasil, por conta de sua política de fornecimento de energia terceirizado da Itália, em dias de chuva possui constantes quedas de energia. Nesses territórios, é preciso sempre contar com o analógico como um plano B.

Minimalismo digital e offpunk

É preciso não confundir offpunk com minimalismo digital.

O minimalismo digital é uma abordagem liberal sobre a desconexão, totalmente voltado à autoagência, sem criticar estruturas de poder.

Como não se pode ter uma vida offline tranquila, tira-se dela todo o digital imersivo (ou “viciante”), a fim de se configurarem os ambientes conectados para serem simulacros de uma vida analógica. Off, ma non troppo.

O que precisamos mesmo é da possibilidade de uma desconexão total; o direito de ir e vir sem que precisemos de portar um telefone inteligente de última geração com carga de bateria e dados móveis suficientes a fim de estarmos conectados por 24/7.

Trine Syvertsen demonstra muito bem em seu “Detox Digital: a política da desconexão” (2020) como o minimalismo digital participa de uma agenda neoliberal de redirecionamento da responsabilidade de solução de problemas estruturais (anteriormente ao cargo de órgãos coletivos) para indivíduos comuns ― o usuário médio de um telefone moderno. Além disso, a autora identifica que o motivo pelo qual as pessoas buscam esse tipo de detox pode ser resumido em três pês: presença, produtividade e privacidade ― todas pautas individuais.

Ou seja, se você perde os momentos de socialização por conta do telefone, se não produz na empresa ou em projetos pessoais por conta de notificações ou se está de saco cheio de ser monitorado e objetificado pela Big Tech, isso tudo é culpa exclusiva sua por não se disciplinar o suficiente e nem estudar formas de torná-lo menos atraente ― não por conta de um modelo de negócios baseado em economia de atenção, vigilância em massa e software propositalmente viciante.

Essa delegação de responsabilidade por letramento coaduna com a leitura sobre a sociedade contemporânea feita do intelectual teuto-coreano Byung-Chul Han em seu “Agonia de Eros” que diz que

A autoexploração é muito mais eficiente do que a exploração alheia, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade.

Um outro sintoma dessa delegação de responsabilidade são totens de autoatendimento em supermercados, farmácias e bancos, que incumbem ao cliente a tarefa de fazer sua própria operação mercantil ou bancária, na maioria das vezes sem um auxiliar, fazendo o trabalho de um funcionário e sem ganhar nenhum desconto na compra; caso se cometa um erro durante a compra, isso vai para a conta do cliente, não para a empresa.

O offpunk, ao contrário, por mais que seja um comportamento provindo de um alto letramento digital, defende uma desconexão despretensiosa, sem o prejuízo de se estar à margem de atividades sociais e do exercício da cidadania.

Por fim, enquanto que o minimalismo digital vê a desconexão como um meio de produzir mais, o offpunk não vê o detox digital como um meio de maior produtividade, porque na verdade ele é uma atitude de anticonsumo.

Definições

Offpunk não é um estilo de vida. É uma postura diante do digitalização, é a busca por uma coletivização possível do detox digital, explorando o caráter político-social da desconexão. Ela reinvidica o lazer, a cidadania e a comunicação sem a obrigatoriedade de um intermediário digital; não luta pelo fim da internet, mas batalha por uma vida possível sem a conexão ininterrupta.

E como postura que é, o offpunk está mais próximo de uma tática secular, como a meditação e a guerrilha.

Além disso, percebe-se que cada vez mais os meandros do trabalho moderno, mesmo aqueles que envolvem atividades analógicas, como o ensino, estão cada vez mais invadidos por processos digitais. Na década de 2020, o uso comum da internet só pode ser associado ao trabalho, ao tempo que a desconexão só pode ser associada ao lazer.

Desse modo, uma postura offpunk defende a vida além do trabalho.

Paradoxalmente, todas essas camadas desnecessárias de digitalização em nosso cotidiano tornam a interação analógica e direta cada vez mais eficaz ou fluida na solução de nossos problemas do dia a dia (ver “instrumentos offpunk”).

São offpunks: uma adolescente que adota um telefone básico e ingressa em um clube ludista; um audiófilo que, insatisfeito com o Spotify, decide adquirir um toca-discos ou um tocador de mp3; um expert que utiliza sistemas ciberseguros minimalistas; militantes que lutam contra a obsolescência programada, que instalam Linux ou ROMs dedicadas em dispositivos que poderiam ser descartados; um trabalhador autônomo que desativa redes sociais comerciais como Instagram e Facebook para se concentrar em seus clientes diretos; uma pessoa idosa que resiste ao telefone inteligente e que consegue meios de driblar a digitalização.

Offpunk não é nostalgia. Não é tecnofobia ingênua nem fuga romântica para um passado imaginário. É, antes de tudo, busca por soberania e autoagência. Parafraseando o escritor brasileiro Eduardo Fernandes, enquanto offpunk,

Revolução tecnológica não é revolucionária, desatualizar não é reacionário.

A estética offpunk

O offpunk ainda não tem um rosto, mas temos algumas pista de como ele pode ser. A primeira delas pode vir de uma definição recente de Ploum sob sua própria ação na internet: “techpunk”, um tecnófilo antissistema.

Como falado anteriormente, offpunk trata-se de uma postura diante do estado de tecnologia no mundo contemporâneo, não de uma utopia/distopia ou uma estética visual que participam de um movimento cultural mais abrangente como “solarpunk” ou “cyberpunk”.

Alguns exemplares offpunk:

1) na informática, o navegador Offpunk, para protocolo Gemini, que batiza este manifesto;

2) no design, o conceito de “Forever Computer” e o telefone Mudita Kompakt;

3) na sociedade, o clube ludista de Nova York;

4) na literatura, “Bikepunk” (2025);

5) no cinema, “Uma Batalha Atrás da Outra” (2025).

Em Uma Batalha Após a Outra, a “obsolescência”, o downgrade é uma estratégia de liberdade. Os personagens recorrem a aparelhos velhos e modificáveis pra criar uma rede de comunicação e segurança paralela. Quando as tecnologias recentes (como smartphones) aparecem, são pra colocar a vida em risco, pra reprimir e impedir planos de se concretizarem.

― Eduardo Fernandes (Texto Sobre Tela).

No filme teuto-japonês “Dias Perfeitos” (2023), assistimos à rotina idílica de Hirayama, um zelador da Tokyo Project de banheiros públicos, que nas horas livres tira fotos com filme, ouve música com fita cassete, pedala, lê um livro antes de dormir e aprecia cada momento de seus dias ― desconectado e muito-bem-obrigado.

O Japão, famoso por ser um país que consegue equilibrar o moderno e o tradicional, provém totens de pagamento em dinheiro vivo, comunicação empresarial via telefonia pública, retrocomputação utilizada por grandes empresas ― como fax e disquete. Na Índia, onde há talvez o melhor serviço de telefonia do mundo, o cidadão médio faz em torno de 90 ligações por dia.

Reinvidicações

São pautas relacionadas ao offpunk:

1) o combate contra a superprodução;

2) o combate contra a obsolescência programada;

3) o combate contra a “internet das coisas”, buscando quebrar o círculo vicioso entre dispositivos interconectados que tomam nosso tempo e sugam nossos dados a fim de alimentar Big Data;

4) o combate contra economia de atenção;

5) a redução da escala de trabalho, que pouco a pouco enfia cada vez mais a atividade laboral no campo virtual;

6) o direito ao lazer, à cidadania e ao trabalho sem a necessidade de um dispositivo digital;

7) a emergência de uma inclusão digital plena das classes mais pobres e de populações idosas, o que conta não só com a acessibilidade de um dispositivo eletrônico, mas também com o letramento digital para a utilização e manutenção autônomas desse mesmo dispositivo, visando uma menor dependência de terceiros.

Defende o colunista italiano Giulio Cavalli:

É verdade: a digitalização simplifica, agiliza, e uniformiza procedimentos. Mas somente para quem consegue estar dentro dela. Para todos os demais o futuro é uma porta fechada.

― “Garantir o não digital é um direito, não um retorno ao passado” (lettera43)

Instrumentos offpunk:

1) o dinheiro vivo ― é prático, não demanda nem de eletricidade e nem de internet e garante que os dados pessoais não sejam armazenados, agregados ou revendidos em/por sistemas de Big Data;

2) meios analógicos ― garantem que uma comunicação independente da internet seja possível ou que o objeto seja de fato seu (e não alugado), pois tangível: discos, livros, rádio, jornais impressos;

3) meios digitais revividos, independentes e descentralizados ― e-mail, sites “brutalistas” de baixo custo, feed RSS, câmeras digitais, tocadores de mp3/mp4, telefones “burros”;

4) meios de armazenamento e transferência de arquivos ― garantem que dados digitais não sejam surrupiados com uma eventual queda de conexão ou que dependam da boa vontade de uma servidor proprietário: discos rígidos, cartões de memória, pendrives, serviços de nuvem autogeridos e locais.

5) protocolos de comunicação alternativa: mensageiros via Bluetooth (Bitchat), Gemini, e-mail criptografado, navegação em cebola (Tor), XMPP.

Desafios:

1) ultrapassar as conveniências do digital (pesquisa, tradução de textos, entretenimento fácil, pagamento à distância);

2) acessar espaços sociais que requerem cada vez mais um dispositivo digital (concertos, estacionamentos, cinemas, estádios ou clubes esportivos, restaurantes);

3) fazer redes de trabalho sem intermédio do digital.


Defendemos o direito inegociável a um mundo não digital, o direito de compartilhar sem intermédio de algoritmos, e de se organizar socialmente sem plataformas centralizadas, e o direito de resistir ao imperativo da presença em linha.

Enquanto houver monopólio de tecnologia nas garras de umas poucas empresas do Norte Global; enquanto houver vigilância de massa com anuência do Estado; enquanto houver coleta massiva de dados ― e a ausência de transparência quanto ao uso dos dados coletados ―; enquanto houver economia de atenção, que usurpa o nosso valioso tempo livre a fim de que vejamos alguns anúncios em serviços digitais essenciais; enquanto houver infraestruturas impedindo a soberania digital em países do Sul global; enquanto houver digitalização compulsória em um mundo onde a internet não é tratada como direito básico inalienável ― a revolução não será digitalizada.

Este texto foi escrito originalmente em português e é assinado por Arlon de Serra Grande e Lionel Dricot (t.c.c @ploum@mamot.fr).

Verão de 2026.

#tecnologia #offpunk


Logo of offpunk Manifesto, a up-side down symbol of wireless internet

The revolution will not be digitized.

• Versão em português • Version française • Versión en español • 中文版本 • Versione italiana • Deutsche Fassung

At a time when hyper-connectivity is pointed to as a symptom of an inescapable future, a shy and uncomfortable movement is insinuating itself: that of purposeful and intentional disconnection. The adoption of “dumb phones” has grown in recent years. Digital cameras are being used again. As are cassette tapes. And also typewriters... There is also a movement towards adopting the newspaper. Even the minidisc, forgotten because of the mp3 player, has risen from the ashes.

At the beginning of the century, the internet was the promise of the final act of the “Global Village,” advocated by Marshall McLuhan. Computers, expensive and scarce (hence, sometimes communal), were portals to an otherworld. Governments, spending considerable sums, sought to ensure that poor classes were digitally “included.”

We got there. We are now heading towards the mark of three connected devices per person worldwide, according to Cisco Visual Network Index estimates for the 2020s.

The digital is ubiquitous and taken for granted. Included digitally whether we like it or not, we no longer connect to the internet. We simply live in it.

As if wearing a uniform, we keep our phones in our pockets to work, to live, to love.

Digital technology has ceased to be a tool and has become an environment — an environment from which one cannot escape. That is, a prison.


“Ensuring the non-digital is a duty, not a return to the past,” Giulio Cavalli.


In this scenario of compulsory, sometimes unnecessary, connectivity, true dissent isn't bypassing the system — it's simply refusing to be part of it.

As the belgian sci-fi writer and software developer Ploum argues, the “punks” of our era are those who dare to live without a smartphone — or “offpunks,” as I now prefer to call them.

Connection as a Weapon of War

The result of centralized, monopolistic technological development, the distribution of internet or digital services has become a weapon of war. When countries with “hard power” enter conflict, they seek to disrupt not only water and gas supplies — they cut off the internet as a wartime tactic. Russia did so in offensives against Ukraine; Israel does so within Palestine.

At the end of 2025, French judge Nicolas Guillou of the International Criminal Court lost all access to several American digital services — such as hosting, online shopping, and banking — provided by American companies like Airbnb, Amazon, and PayPal. The United States justified this sanction because Guillou issued arrest warrants against Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu and his Defense Minister Yoav Gallant, due to Israeli attacks of a genocidal nature in Palestinian territory. The United States is the main country supporting Israel's actions in Central Asia.

The offpunk stance is born from a simple and uncomfortable observation: the digital realm is fragile. At the same time, all social life is forcibly embedded within this environment. Therefore, this stance takes into account that one must not depend entirely on virtual services, at the risk of one of them being sanctioned or becoming unavailable. Examples like the Microsoft server outage that impacted banking services worldwide in mid-2024, the sanction of Twitter/X by the Brazilian government in late 2024, and the global outage of Amazon and Cloudflare servers in late 2025, which took down numerous domains on the internet, laid bare not only its fragility but also our dependence on these services.

When the system goes down — due to political sanction, outage, or war — what exists online simply evaporates. You are left helpless if your only option is digital.

After all, uninterrupted connection is not a guarantee, especially in countries of the global South or those under internal or external political conflict, or even in peace situation ― in the city of São Paulo, Brasil, due to its policy of outsourcing its energy supply from Italy, there are frequent power outages on rainy days. In these countries, one must always count on analog as a Plan B.

Digital Minimalism and Offpunk

It's important not to confuse “offpunk” with digital minimalism.

Digital minimalism is a liberal approach to disconnection, entirely focused on individual agency, without criticizing power structures.

Since a peaceful offline life is not possible, it strips away all immersive (or “addictive”) digital elements from it, in order to configure connected environments to be simulacra of an analog life. Off, ma non troppo.

What we truly need is the possibility of total disconnection; the right of going around without the needing of carrying the newest smartphone and being available for 24/7 communication.

Trine Syvertsen demonstrates very well in her “Digital Detox: The Politics of Disconnecting” (2020) how digital minimalism participates in a neoliberal agenda of shifting the responsibility for solving structural problems (previously the purview of collective institutions) onto ordinary individuals — an average user of a modern phone. Furthermore, the author identifies that the reason people seek this type of detox can be summarized by three P's: presence, productivity, and privacy — all individual agendas.

In other words, if you miss moments of socialization because of your phone, if you don't produce at work or on personal projects due to notifications, or if you're fed up with being monitored and objectified by Big Tech, it's all exclusively your fault for not disciplining yourself enough and not studying ways to make it less appealing — not because of a business model based on the economy attention, mass surveillance, and by-design addictive software.

This delegation of responsibility for literacy aligns with the German-Korean intellectual Byung-Chul Han’s analysis of contemporary society in his book The Agony of Eros, in which he states that

Self-exploitation is far more efficient than exploitation by others, as it goes hand in hand with a sense of freedom.

Another symptom of this delegation of responsibility is the self-service kiosks found in supermarkets, pharmacies, and banks, which entrust customers with the task of conducting their own retail or banking transactions, most often without an assistant, doing the work of an employee and without receiving any discount on their purchase; if a mistake is made during the transaction, it is charged to the customer’s account, not the company’s.

Offpunk, on the other hand, even though it's a tech-savvy behavior, advocates for unpretentious disconnection, without the detriment of being on the edge of social activities and the exercise of citizenship.

Finally, while digital minimalism sees disconnection as a means to produce more, offpunk does not view digital detox as a means to greater productivity, because it is, in fact, an attitude of anti-consumption.

Definitions

Offpunk is not a lifestyle. It is a stance towards digitalization, the pursuit of a possible collectivization of digital detox, exploring the social and political character of disconnection. It reclaims leisure, citizenship, and communication without the obligation of a digital intermediary; it does not fight for the end of the internet, but battles for a practible life without uninterrupted connection.

And as a stance, offpunk is closer to a secular tactic, like meditation and guerrilla warfare.

Furthermore, it is noticeable that the intricacies of modern work, even those involving analog activities like teaching, are increasingly invaded by digital processes. In the 2020s, the common use of internet can only be associated with work, as disconnection can only be associated with leisure.

Thus, an offpunk stance defends life beyond work.

On the other hand, with so many unnecessary layers of digitalization in our daily lives, at certain moments one finds in the analog more fluid and direct means of solving problems (read the section “offpunk instruments”).

Offpunks include: a teenager who adopts a basic phone and joins a luddite club; an audiophile who, dissatisfied with Spotify, decides to acquire a record player or an mp3 player; an expert who uses cybersecurity systems; those who fight electronic device obsolescence by installing Linux or custom ROMs on their devices; a self-employed worker who deactivates their commercial social media like Instagram and Facebook; an elderly person who resists using smartphone and finds ways to circumvent digitalization.

Offpunk is not nostalgia. It is not a naive technophobia nor a romantic escape to an imaginary past. It is, above it all, a search for sovereignty and self-managing. Paraphrasing Eduardo Fernandes, as an offpunk:

Technological revolution is not revolutionary, becoming outdated is not reactionary.

The Offpunk Aesthetic

Offpunk doesn't have a face yet, but we have some clues as to what it might look like. The first one might come from a recent definition by Ploum of his own action on internet: “technopunk,” an anti-system technophile.

As mentioned earlier, offpunk is about a stance towards the state of technology in the contemporary world, not an utopia/dystopia or a visual aesthetic that participate of wider cultural movement such as “solarpunk” or “cyberpunk.”

Some offpunk examples:

1) in computing, the Offpunk browser for the Gemini protocol, which names this manifesto; 2) in design, the concept of the “Forever Computer” and the Mudita Kompakt phone; 3) in society, the New York Luddite Club; 4) in literature, “Bikepunk” (2025); 5) in cinema, “One Battle After Another” (2025).

In One Battle After Another, “obsolescence,” the downgrade is a strategy for freedom. The characters resort to old, customisable devices to create a parallel communication and security network. When new technologies (such as smartphones) emerge, they’re meant to put lives at risk, to suppress people, and to prevent plans from coming to fruition.

— Eduardo Fernandes (Texto Sobre Tela).

In the German-Japanese film “Perfect Days” (2023), we watch the idyllic routine of Hirayama, a cleaner for the Tokyo Project public toilets, who, in his free time, takes photographs, listens to music on cassette players, rides a bicycle, reads books before sleeping, and appreciates every moment of his days — disconnected and doing fine.

Japan, famous for being a country that manages to balance the modern and the traditional, provides cash payment kiosks, business communication via landline telephone, retrocomputing used by large companies — like fax and floppy disks. In India, which perhaps has the best telephone system in the world, the average citizen makes around 90 calls per day.

Demands

Issues related to offpunk include:

1) the fight against overproduction;

2) the fight against planned obsolescence;

3) the fight against the “internet of things,” seeking to break the vicious circle of interconnected devices that consume our time and drain our data to feed Big Data;

4) the fight against the economy attention;

5) reducing working hours, which gradually push labor activity further into the virtual field;

6) the right to leisure, to citizenship, and to work without the needing of a digital device;

7) the urge of a wide inclusion of the poorest and elderly segments of the population to the digital world, which depends not only on acessing an electronic device but also on digital literacy for their independent use and maintenance of that device, aiming a decreasing dependence on others.

Italian columnist Giulio Cavalli argues:

It's true: digitalization simplifies, speeds up, and standardizes procedures. But only for those who can be part of it. For everyone else, the future is a closed door.

— “Ensuring the non-digital is a right, not a return to the past” (lettera43)

Offpunk Instruments:

1) cash — it's practical, requires neither electricity nor internet, and ensures personal data isn't stored in Big Data systems;

2) analogue media – ensure that communication independent of the internet is possible, or that the item is actually yours (and not rented), as it is a physical object: records, mp3/mp4 players, radio, printed newspapers;

3) revived digital media — email, low-cost “brutalist” websites, digital cameras, “dumb” phones;

4) file storage and transfer media — they ensure digital data isn't lost in the event of a connection outage: hard drives, memory cards, USB drives, self-managed local cloud services;

5) alternative communication protocols: messengers via Bluetooth (Bitchat), Gemini, encrypted email, onion browsing (Tor), XMPP.

Challenges:

1) overcoming digital conveniences (searching, text translation, easy entertainment, remote payment);

2) accessing social spaces permitted or facilitated only through digital means (concerts, cinemas, restaurants);

3) building professional networks without digital intermediation.


We defend the non-negotiable right to the non-digital. The right to share without the intermediation of algorithms, to organize socially without the mediation of platforms, to resist the imperative of online presence.

As long as a handful of companies in the Global North maintain a monopoly on technology; as long as mass surveillance continues with the state’s consent; as long as there is widespread data collection — and a lack of transparency regarding the use of the collected data — ; as long as there is an economy attention that usurps our valuable free time to force us view some ads on essential digital services; as long as there are infrastructures hindering digital sovereignty in Global South countries; as long as there is compulsory digitalization in a world where the internet is not treated as a basic, inalienable right — the revolution will not be digitized.

This text was originally written in Brazilian Portuguese and is signed by Arlon de Serra Grande and Lionel Dricot (a.k.a. @ploum@mamot.fr).

Fall 2026.

#tecnologia #offpunk


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Texto alternativo: um homem de roupa da moda dos anos 1960 manuseando sentado no chão um computador de mesa assentado em um cenário rural

Imagem: Jeff Ball (via are.na). Este sou eu escrevendo esta ideia de Chirico.

Aquela publicação que lanço quando quero escrever sobre o que tenho lido, discutido e pensado sem precisar de algum fio condutor. Provavelmente a última do ano. Até o próximo, estarei pensando em

Um vindouro manifesto

Isso porque penso seriamente em abrir um novo blogue chamado Offpunk, onde eu manteria um diário de bordo mostrando formas de resistir à digitalização, de viver sem a alta tecnologia e abrir caminhos para uma vida desconectada, independente das Big Tech; ou, como nas palavras de Eduardo Fernandes da newsletter Texto sobre Tela (veja a ponte no na seção Linkroll), buscando “a obsolescência como uma estratégia de liberdade”.

Tomo esse nome de empréstimo de um navegador feito para, acima de tudo, funcionar offline, que foi desenhado pelo escritor e desenvolvedor belga @ploum@mamot.fr.

• Offpunk, an offline-first command-line browser.

Mas penso em antes desenvolver um postura e uma estética em cima desse conceito. Penso em organizar referências culturais, apontar exemplos e caminhos nessa direção. O que nele se diferenciaria do “minimalismo digital” é que estaria relacionado a coisas como: voltar-se ao “low tech”, ao comunitário, ao analógico, ao não elétrico, à permacomputação; manter um estilo de vida de anticonsumo; e utilizar a internet de forma mais intencional, seguindo o ritmo da Slow Web. Para tanto, acho que vale pensar também em dispositivos configurados para esse propósito. Nesse sentido um texto do Ploum que traduzi chamado “Um computador feito para durar 50 anos” vai nessa direção.

• “O computador feito para durar 50 anos”, de Ploum (Ideias de Chirico).

Os argumentos são os de sempre: ter uma vida mais balanceada, mais presente, menos vigiada e com os dados menos explorados, sem se abster totalmente, no entanto, dos serviços digitais. Porém, ao contrário da postura neoliberal e individualista de buscar um “detox digital” em prol da produtividade, gostaria de dar um teor político a essa postura, defendendo o acesso à cidadania e ao lazer sem o intermédio do digital, e o direito à privacidade, a uma infância e uma velhice desdigitalizadas e a uma vida lenta.

Estou retirando muitas ideias dos textos que leio do Ploum, do Low-Tech Magazine (também de origem belga inclusive), bem como de um livro chamado “Digital Detox: a política da desconexão” (da escritora norueguesa Trine Syvertsen) ― que, se não me engano, ainda não foi traduzido para português (leio-o em inglês).

Acho que no começo do ano que vem faço ao menos um pequeno ”manifesto offpunk”, que pretendo traduzir em inglês e em francês. Escrevo isso mentalmente até lá. Aliás, o Ploum mesmo já se propôs a me ajudar na escrita.

Ainda sobre tecnopunkicidades...

Incrível como o simples fato de eu não acessar o Instagram faz algumas pessoas pensarem que sou um eremita, que vivo nas cavernas.

O produtor gráfico do meu livro falou mais cedo:

Não se você sabe, já que não usa mais o Instagram, mas aqueles casos de feminicídio estão sendo bastante discutidos...

(Eu li e ouvi sobre os casos pelo rádio, pela televisão e por podcasts ― com algum atraso talvez, mas soube no meu tempo).

Espera só para ouvir o que vão falar quando eu apagar meu perfil da plataforma... O que está me segurando lá é o que me faz refletir.

Ouvindo sobre o Pessoa

Não tenho falado muito de literatura neste blogue, mas me peguei muito preso neste episódio do podcast 451 FM, da revista 451:

451 MHz: # 174 Fernando Pessoa: todos os sonhos do mundo — 90 anos da morte do poeta.

Não sou muito de Fernando Pessoa, curto mais o que ele influenciou. Posso não gostar de Pessoa, mas gosto de quem gosta de Pessoa. Então por tabela gosto de Pessoa.

Mas o que se diz a respeito do autor nesse episódio fez-me ficar ainda mais interessado pela sua única obra que me interessa, “Livro do Desassossego”.

O livro são várias anotações do diário de Bernardo Soares, um pseudônimo pessoano, um “simples ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa”. Trata-se de uma “narrativa sem narração” ― alguns diriam uma prosa poética, outros um romance moderno. Na primeira vez em que o folheei (há dez anos), me agradou o caráter fragmentário e imagético do livro. Nas aulas de literatura portuguesa do curso de Letras, nosso professor sugeriu que lêssemos não linearmente, pulando à página do nosso gosto.

Mas voltando ao episódio da 451 em si, recomendo a escuta mesmo àqueles que já conhecem o autor português. Acho que há uma infinidade de coisas sobre as quais não sabemos tão facilmente e que o áudio-programa destrincha bem. Infelizmente, até por conta da ocasião do aniversário de morte do poeta, não tocaram no seu discurso racista.

Fast web

Estou prestes a enviar um meme por e-meio. Este é o atual estado digital.

Já disseram que parei no tempo. Só estou cansado de fast web.

Desejos para 2026

  1. usar mais dinheiro vivo, pois detesto depender de eletricidade e de internet para pagar minhas coisas em balcões;

  2. arrumar um “trabalho de verdade” (com alguma formalidade e constância);

  3. estar cronicamente offline;

  4. encerrar a imersão no francês (ano que vem completará dois anos que estou nesse idioma);

  5. e começar a estudar alemão.

(“Desejos”, porque quem tem meta é empresa).

O desconhecido na língua estrangeira

Por que é menos desesperador ver uma palavra desconhecida na língua materna do que ver uma palavra desconhecida em língua estrangeira?

Estava aqui dando uma lida no meu agregador de RSS e fui clicando nas notícias. Aquelas em inglês eu batia o olho e na primeira palavra estranha eu desistia e ia para a próxima notícia. Aquelas em português, mesmo que eu não soubesse o que significava o termo, seguia na leitura.

Já tenho uma boa jornada com inglês, e sei que com paciência eu saco o significado das palavras na hora. Um dicionário médio também serve. Ainda assim, tenho muita resistência a ler nessa língua. Não sou capaz de dizer agora se o mesmo acontece em outras línguas que aprendi.

Será que isso acontece só comigo? Duvido.

Questão de didática (sobre outros punks)

Pergunto-me por que os punks dos anos 2000 não chamavam o “sistema” simplesmente de “capitalismo”. Isso seria bem mais didático.

Linkroll

Seção em que faço uma curadoria de pontes que encontro pela internet.

Ouvi falar que o Pinterest tem enchido a si mesmo de lixo de IA. Tenho-lhe um substituto: are.na.

A plataforma é autodescrita como um lugar de “playlists, só que de ideias” ou “um palácio de memórias da internet”. Em poucas palavras, é um recanto de curadoria, seja de música, de sítios web, de imagens ou de vídeos ― algumas listas têm tudo isso junto e misturado.

Outra vantagem do Are.na é o seu repositório. Algumas listas datam de 2014. Ah, e não precisa de conta para navegar e nem tem loginwall como o Pinterest.

Esqueci de publicar essa ponte no último linkroll: um sítio lindíssimo mostrando com o efeito granulado (dithering) funciona. O efeito granulado, para quem não conhece, é uma forma de tornar uma imagem mais leve, pixelizando-a totalmente no degradê entre duas cores (em geral, preto e branco).

Dithering, part 1 (Visualrambling).

Tornei-me um fã desse efeito desde que comecei a acompanhar as publicações do Low-Tech Magazine, citado lá em cima, ilustradas com imagens em dithering. Cheguei a tentar publicar somente fotos com essa estética aqui nas Ideias, mas dá um baita trabalho editá-las e deixá-las em um servidor estável.

A sedutora, esquisita e colossal beleza da indústria: desde fábricas de bonecas sexuais nos EUA, centros de pesquisa nuclear, fazendas de maconha na Dinamarca e fábricas de sapatos na Indonésia.

The Unintended Beauty of Big Industry in the 21st Century – in Photographs (Flashbak).

Um sítio que divulga notebooks costumizados com adesivos e os organiza por temas:

Stickertop.

Essas artes são bem antigas (de meados da década de 2010), mas acho que ainda vale a divulgação: pôsteres imaginando propagandas de plataformas de entretenimento e redes sociais como se fossem tecnologias dos anos 1950. Gosto desse estilo retrofuturista e de como plataformas como Youtube e Facebook ainda eram vistas com uma certa simpatia...

Vintage social media ads as retro campaign (Brand Constructors).

Crescer entediado com os celulares está matando o poder transformador do tédio (ihu.unisinos.br).

Texto de newsletter pensando sobre resistência digital a partir da sutil guerra entre tecnologias no filme “Uma batalha atrás da outra” (2025), no qual “aparelhos analógicos aparecem como uma estratégia pra fugir da vigilância digital”.

Geriatria da tecnologia (Texto sobre tela ― Substack).

Considero “Uma batalha atrás da outra”, aliás, como um filme exemplar do que chamo de #offpunk.

Vídeo: “Sesame Street – Computer E/e”.

Citações

O smartphone é hoje um lugar de trabalho digital e um confessionário digital. Todo dispositivo, toda técnica de dominação gera artigos cultuados que são utilizados à subjugação. É assim que a dominação se consolida. O smartphone é o artigo de culto da dominação digital. Como aparelho de subjugação age como um rosário e suas contas; é assim que mantemos o celular constantemente nas mãos. O like é o amém digital. Continuamos nos confessando. Por decisão própria, nos desnudamos. Mas não pedimos perdão, e sim que prestem atenção em nós.

― Byung-Chul Han, filósofo teuto-coreano.

Não há condições de ensinar para uma mosca que mel é melhor do que bosta”

― meu psicoterapeuta.

Se uma árvore cai em um bosque e não há ninguém para a ouvir, ela faz ruído?

― Koan, um exercício mental budista.

Pedidos

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#notas


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Close no rosto de um homem japonês. Ele tem cabelos longos, ao estilo dos anos 50. Tem uma mão apoiada no queixo e olha, de pálpebras baixas, para um ponto baixo. Foto em preto e branco.

O terno olhar de Osamu Dazai, escritor moderno japonês.

Uma daquelas publicações sem temas específicos, apenas com textos soltos que escrevo por aí, curadoria de links e citações.

Pensar em um computador desconectado

Depois de ler um texto do @ploum@mamot.fr falando sobre a construção de um computador que dure 50 anos ― onde também se fala do princípio de offlinefirst / localfirst ―, tive ganas de criar um repertório de documentos para deixar no disco rígido para consulta rápida e sem internet.

Já baixei alguns mapas (América do Sul, Brasil, Ceará etc.) e alguns dicionários. Tentei baixar o mapa de infraestrutura da minha cidade pelo OpenStreetMaps, mas não consegui direitinho. Penso em baixar o repositório da Wikipédia.

O mundo de fantasia dos motéis japoneses

O sítio web Flashbak, voltado a curiosidades históricas, publicou um artigo com algumas fotografias do francês François Prost mostrando a arquitetura de motéis do Japão.

Aí vê-se de tudo: navios, OVNIs, castelos encantados.

Se no mundo ocidental ou ocidentalizado, a discrição é essencial para um espaço sexual, não é este o caso dos motéis japoneses.

• Sex In A Japanese Love Hotel

Reclames sobre um podcast

Odiei um recente episódio da Radio Ambulante, podcast hispanófono que conta crônicas da América Latina. Foi sobretudo com esse programa de áudio que aprendi a língua espanhola. Desde o período que comecei a o escutar ― 2022 ―, a vaibe do programa têm piorado muito.

Costumo pensar dez vezes antes de escutar algum episódio, porque com frequência ao fim dos episódios fica aquele clima de melancolia, de evento mal resolvido. Um episódio recente, La concursante, foi além disso, ele relata o assassinato de uma jovem adulta que participou de um populista programa de auditório do Peru, e que morreu por isso.

Estou espoilerando exatamente porque a escuta não vale a pena, apesar de que a construção narrativa do episódio seja muito bem tecida, e o trabalho de sonoplastia seja impecável, uma das especialidades da Radio Ambulante.

No entanto, afora o clima extremamente apelativo da história, que beira aos programas policiais, os produtores não nos contaram sobre como os meios de comunicação peruanas reagiram depois do episódio de assassinato, dos quais eles próprios foram catalisadores.

Uma pena.

Coisas de que mais gosto no Fediverso

  1. a comunidade capivarinha.club;

  2. a comunidade ayom.media e o seu ecossistema;

  3. o humor incessante do @miugnutos@bolha.one;

  4. a disponibilidade e gentileza geral dos membros;

  5. a diversidade de integrantes ― eu não tinha interagido na internet com pessoas neurodivergentes, surdas ou cegas até eu chegar aqui;

  6. a não hegemonia de usuários de língua inglesa;

  7. o tino slow web, com posts concentrados que só com muito esforço podem viciar o integrante fediversal;

  8. a autogestão;

  9. o respeito à privacidade em todos os sentidos ― você não precisa mostrar nenhuma informação pessoal se quiser, mas se quiser pode;

  10. Jefferson, flearows e bamblers;

  11. a infinidade de opções de plataformas e de interfaces disponíveis para interagir ― código aberto é poder!;

  12. o fato de que ninguém nunca obterá este espaço como mercadoria ou poderá censurá-lo, já que ele é 🌠 descentralizado 🌠 ;

  13. instâncias bem, bem barristas, tipo a masto.nyc (para usuários de Nova York) e a mastodon.bahia.no (para usuários da Bahia);

  14. e por falar em bairrismo e identidade, gosto também de como cada instância pode ter uma cara própria, com emojis próprios e uma cultura própria;

  15. a polyglot.city, que é a minha comunidade espiritual;

  16. o fato das redes fediversais serem de baixa manutenção, ou seja, você não precisa estar entrando todo dia nem de se esforçar para conseguir seguidores para, a curto ou longo prazo, ter uma boa experiência;

  17. ah, já ia me esquecendo do principal: não há influenciadores, trolls, propagandas ou empresas;

  18. a curadoria musical do @gaviota@weatherishappening.network (te amo, Gaviota!);

  19. como o Fediverso nunca segura o membro em seu espaço, já que estamos sempre nos redirecionando para outros sítios web;

De todas as filias, a pior é a filIA

Li em um blogue a seguinte frase:

Nós que somos entusiastas de IA.

Entusiastas de IA. Entusiastas de IA. Entusiastas de IA. Entusiastas de IA...

Incrível é como é comum encontrar esse perfil dentro da neoblogosfera!

Novamente o computador

Não sou de ter saudade, mas sinto falta de quando o computador era a grande tecnologia do momento. Com o computador como portal único da internet, havia um limite entre estar desconectado e conectado. Todos os meus esforços para tornar meu telefone um aparelho offline first provavelmente vá nesse sentido...

Offpunk

Estou simplesmente encantado pelo navegador #Offpunk/ #XKCDpunk, desenhado pelo escritor belga @ploum@mamot.fr. É um navegador para protocolo #Gemini, que roda totalmente no #terminal do sistema e que pode funcionar sem internet, mantendo páginas visitadas ou agendadas em cache.

Agora passo a maior parte do meu tempo no computador desconectado e a sensação é ótima.

Você pode saber como clonar ou instalar o Offpunk por aqui.

Explicando o Fediverso

Como vcs explicam pra alguém de forma simples o q é o fediverso?

Fediverso é Twitter, Youtube, Facebook e Instagram, tudo junto e misturado, só que sem influenciador, parente e nem bilionário.

Outra imagem do mesmo homem, mostrando o seu dorso. Ele está vestido em um kimono, na mesma posição. Tem seu punho sobre uma mesa, no qual pende uma pena, e abaixo do qual está um papel. Ele olha diretamente para a câmera.

Outra vez Osamu Dazai.

Youtube formicapunk

Partindo de um conceito vindo do @bouletcorp2@mastodon.social, o formicapunk ― aqui a arte de onde vem o conceito ―, o @ghettobastler@mastodon.art desenhou e executou o 3615-Youtube, um gravador de vídeos do Youtube para fitas VHS a partir de um Minitel, um terminal francês de vídeo-texto de 1978.

Aqui o vídeo do projeto sendo operado: https://www.youtube.com/watch?v=kMp8XH5ZHtM

Fotografia do projeto 3615-Youtube, um terminal de vídeo-texto, um computador bem simples somente com teclado de membrana, sobre um aparelho de fita VHS. Na tela do terminal, há a tela inicial do programa, onde é possível ler “3615-Youtube”.

Favoritismos

No último dia 14, fui à palestra do escritor cearense de biografias Lira Neto sobre seu recém-lançado “Oswald de Andrade: Mau Selvagem”, no auditório da reitoria da UFC. No último momento da palestra, na rodada de perguntas, elaborei uma questão que pensara durante toda a sua fala. Saquei o telefone do bolso, no bloco de notas escrevi

Eu me interesso por Oswald de Andrade, porque me interesso por Décio Pignatari, cujos amigos denominaram o “Oswald magro”. Como um fio puxa outro, queria saber se, em suas andanças acadêmicas, houve alguma relação entre você e Pignatari, mesmo que bibliograficamente. Além disso, poderia falar mais sobre a relação entre Oswald de Andrade e o movimento de Poesia Concreta?

e o guardei.

Passaram-se duas falas de pessoas célebres da cultura de Fortaleza; outras de pessoas não tão célebres, mas próximas ao autor; outras de pessoas nem tão célebres e nem tão próximas ao autor, mas arrumadinhas. Quando o meu sinal para a pergunta foi notado, o organizador da palestra disse que o tempo para perguntas já havia encerrado. Com o livro debaixo do braço, humildemente saí do auditório, sabendo que essa pergunta não seria respondida ali. De qualquer forma, na maioria das vezes a audiência não é tão interessante quanto o palestrante.

Publico essa dúvida neste espaço na esperança de que alguém me a responda e como forma de protesto contra eventos literários, que sempre parecem ser feitas para dez pessoas.

Imagem da capa do livro “Oswald de Andrade: Mau Selvagem”. Imagem da capa: um homem velho e ranzinza de braços cruzados olha para a câmera.

Na palestra. Flagra do ator Ricardo Guilherme, no canto superior direito da foto.

Frasezinhas e ready-mades

Openbar é pá pimbar.

― Ouvi de relance em algum lugar.

Vantagens de ensinar para adultos: eles se comportam e prestam atenção na aula. Desvantagens de ensinar para adultos: eles não desenham o professor e nem lhe escrevem cartinhas.

Eu não sou pobre, eu sou sóbrio, de bagagem leve. Vivo com apenas o suficiente para que as coisas não roubem minha liberdade.

— Pepe Mujica (R.I.P.), esse Hirayama do Uruguai.

Lidar só com gente simpática em Fortaleza ― meu Deus... que solidão.

O bom de falar em LIBRAS é que ninguém cospe no outro.

Interpreto capinha como “roupinha de telefone”. Quando ele está em casa, fica sem nada, peladinho como veio ao mundo.

#notas #tecnologia #cultura


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Imagem: pintura de Giorgio de Chirico. Paisagem urbana italiana vazia, com apenas dois homens ao fundo, e um grande monumento em primeiro plano

Imagem: pintura de Giorgio de Chirico.

O que é isto?

Este é um blogue mantido por Arlon de Serra Grande, federado no Fediverso e mantido em servidor WriteFreely coletivo da Ayom Media.

Temas

Estas Ideias de Chirico voltam-se em três grandes eixos temáticos: #cultura, #cotidiano e #tecnologia. Às vezes também faço #tradução. Textos curtos ou sem um tema específico estão sinalizados como #notas. Textos sobre uma abordagem não digitalizada / não conectada da tecnologia são sinalizados como #offpunk ― a respeito disso, sugiro a leitura do Manifesto Offpunk.

Quem escreve?

Arlon de Serra Grande, cujo nome é Arlon e Serra Grande é de onde veio. Tem 30 anos, é um profissional da área de Letras e publicou um livro de ensaio e poesia ― o “Estudando Poesia” ―, por vias independentes.

Está professor escolar de língua portuguesa, mas pretende algum dia lecionar na universidade e participar do mercado editorial. Apesar de ensinar português, também fala outras línguas ― que aprendeu por conta própria.

Ideia de Chirico?

O título deste blogue vem de uma piada interna envolvendo a idiomática “ideia de jerico” e Giorgio de Chirico, o famoso pintor surrealista grecoitaliano. Muita vez costuma-se dizer que algo é uma “ideia de Chirico” quando o que há em jogo é tão absurdo que chega a ser surrealista.

Giorgio de Chirico lhe olhando quando você o inspira!

Imagem: Giorgio de Chirico olhando para você quando você o inspira com alguma ideia de jerico!

Escrever um blogue?

Estimulado por colegas do Fediverso, que tiveram a corajosa iniciativa de abrir macroblogues em plena era do algoritmo e da microinformação, decidiu também fazê-lo, porque precisava escrever para alguém que não fossem meus professores e outra coisa que não fossem trabalhos curriculares.

Mas o motivo deste blogue é sobretudo manter a palavra aquecida e possibilitar exercícios de escrita. Isso explica textos que fogem do estilo e dos temas ordinários do blogue. Quando quero escrever, mas não tenho pauta, solto algumas #notas, a fim de também organizar minha atividade virtual. Acredito que a internet é mais curadoria do que criação.

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