Ideias de Chirico


notas

Estou ocupado com vários textos ao mesmo tempo, mas não gostaria de deixar este espaço emarasmado. Aqui vai uma curadoria de minhas publicações do meu perfil @arlon@harpia.red, de status de Whatsapp ou rascunhos de rascunhos, i. e., pensamentos que tive durante a escrita desta Ideia de Chirico. Por puro acaso, enquanto editava este texto, percebi que a maioria destas notas falam somente de tecnologia e de Fediverso. O post desta vez é sem foto; estou com um problema na nuvem.

Sobre moda e intimidade esmartefônica

Interpreto capinha como “roupa de telefone”.

Quando ele está em casa, fica sem nada, peladinho como veio ao mundo.

Offline-first

Após ler um ensaio do @ploum@mamot.fr imaginando a construção de um computador que dure 50 anos ― onde também se fala do princípio de #offlinefirst / #localfirst ―, tive ganas de criar um diretório local de arquivos para consulta rápida e sem internet.

Já baixei alguns mapas (América do Sul, Brasil, Ceará etc.). Tentei baixar o mapa de infraestrutura da minha cidade pelo Open Street Maps, mas não consegui direitinho. Penso em baixar o repositório inteiro da Wikipédia, que pesa em média 50 GB. Antes dessa ideia, eu já tinha debaixo da manga dois dicionarinhos de regência ― nominal e verbal ―, do Celso Luft. Nunca se sabe quando será necessário saber se se tem “esperança por algo” ou “esperança de algo”. Nada garante que nessa ocasião haverá internet disponível.

Citação

Você já viu um viciado em crack dizer que está sem dinheiro para comprar drogas? Não, ele levanta e faz acontecer.

– Algum coach em algum lugar do mundo.

Via @NoahLoren@ayom.media

Furo fediversal

Descobriram um bugue no desenvolvimento do Pixelfed, no qual caso um usuário dessa plataforma siga uma conta privada de outra plataforma, essa conta passa a ser pública para os seguidores do usuário que a seguiu.

Pixelfed leaks private posts from other Fediverse instances.

Dizem que bugues no Pixelfed são frequentes. Cheguei a ter um perfil nessa que é a análoga fediversal do Instagram, e, apesar de não ter publicado tanto nela, gostaria de que tivesse sucesso, já que, de todas as plataformas do protocolo ActivityPub, tem a interface mais amigável e com mais apelo familiar.

Nuvem não é becape

Um fio absurdo do Mastodon com o relato de uma conta de nuvem pela Oracle que foi desativada sem aviso prévio, porque a conta estava “inativa” ― provavelmente a sincronização estava ativada.

After realizing that my servers were offline since the 25th of January 2025, I've been in contact with Oracle support in a multitude of ways trying to figure out why this happened and how we can recover both the account and data.

I wasn't told that my account was disabled. I didn't receive an E-Mail or anything. When logging in, I was simply told that my username or password was incorrect. After (successfully) resetting my password twice, I realized it wasn't about the password. Oracle had just deleted my account without any notice.

This is a public service announcement to never ever use Oracle

Leiam-no inteiro e lembrem-se da máxima do @manualdousuario@mastodon.social

Nuvem não é becape.

Sobre deixar uma “coleirinha” no notebook

Outra noite tive um sonho no qual eu perdia meu notebook, alguém o encontrava, mas, em vez de deixar nos achados e perdidos, acabava se apropriando dele já que o aparelho “não tinha nome”.

Ato contínuo, acordo, abro a tampa da minha máquina e coloco meu e-mail e o meu número de telefone na aba “usuário” do sistema.

Nunca se sabe em que mãos estarão nossos pertences perdidos. Na dúvida, é melhor arriscar a privacidade para ter a chance de ter o objeto de volta, do que perder o objeto e a privacidade...

O gozo da tecnologia responsiva

Resolver um problema no sistema operacional é análogo a afiar uma faca ou engraxar um rolamento; demanda muito tempo, mas ao fim dá aquela sensação de alívio de ter de volta um instrumento como uma extensão do corpo.

Sobre Ghost

Estou animado por Ghost, plataforma de newsletter que entrou para o protocolo ActivityPub. Mas acho a logo deles tão edgy, meio intimidador mesmo, algo que só a logo de X do Twitter me provocou; me lembra também daqueles signos que os alienígenas de “A Chegada” faziam.

Essa logo da Ghost contrasta com as das plataformas fediversais, que têm um aspecto mais amigável e convidativo.

Apesar disso, gostaria de experimentá-la, cruzando-lhe meus posts destas Ideias de Chirico para convertê-los em newsletter. Também espero que haja algum rebranding dela conforme fique mais próxima do éthos fediversal.

Sonho de consumo no Fediverso

Abrir o texto de um link como se fosse um post e ter a opção de compartilhá-lo na linha do tempo com ou sem comentários como se viesse de um perfil.

Desabafo sobre a mídia pendrive

A mídia mais pau mole que existe é o pendrive.

Não dá segurança ao ser carregado, pode ser perdido facilmente, não tem tatilidade alguma e não tem nada de especial em si. O fato também de ser regravável o torna banal. Por tudo isso, é impossível apegar-se a um pendrive como se apega a um disco, a uma fita ou a um CD. Por acaso, você já recebeu um pendrive de presente de alguém? Não, né? O pendrive não tem sex-appeal, é uma mídia demasiado pau mole.

Não é obviedade dizer que só no Brasil que pendrive é chamado de pendrive. Esse nome é irascível. É da coleção de nomes em inglês que são só faladas no Brasil. Direção Caneta? Nos Estados Unidos ele é literalmente vara USB [USB stick]. Nem por isso ele ganha sex-appeal. Pau USB. Pau mole USB.

Sobre Smithereen

Desativei minha conta Smithereen, a rede fediversal inspirada no Facebook clássico. Ao menos por enquanto. Precisava de uma plataforma que permitisse uma leitura de textos mais longos, que fugisse da lógica seguidores/seguindo e que ao mesmo tempo tivesse um leiaute limpo. Smithereen resolve muito bem esse problema.

No entanto, há uma série de recursos que, talvez propositalmente, não foram implementados. É o caso das hashtags. O desenvolvedor principal do projeto disse que limitou o uso de hashtag para evitar ao máximo que o usuário veja conteúdo de fora de sua federação.

Além disso, faltam implementações básicas do tipo ajuste de letra e modos noturno e diurno. Como a hashtag, esse recurso aparentemente está deliberadamente ignorado.

Agora é esperar até que apareça alguma instância #Friendica brasileira estável.Estou atento por exemplo à f.capivarinha.club. Essa será a próxima rede que experimentarei. Pelo que sei, Friendica é um hub, que permite a leitura e compartilhamento de notícias de feeds RSS.

Rede social fez um mal danado...

Pagando um psicólogo pra tentar me convencer de que não é porque um texto meu não teve muitos compartilhamentos que isso significa que ele seja ruim.

Outra proposta de aportuguesamento

Fork → Garfo

Ex.

O Linux Lite é um sistema garfo do Xubuntu.

P. S.: sugestão do @eltonfc@bertha.social é de utilizar a palavra “forquilha”.

Segundo o dicionário Dicio, “forquilha” é

  1. Ferramenta agrícola composta por uma haste de duas ou três pontas, semelhantes às pontas de um garfo, usada para remexer mato ou palha; garfo, forca, forqueta, forcado; 2. Tronco com uma bifurcação na ponte; forqueta; 3. objeto bifurcado, com duas pontas, como um Y.

Exemplo de uso:

Fizeram uma forquilha do cliente oficial do Pixelfed.

O Mastodon foi recentemente forquilhado.

A comunidade fediversal

são os tuiteiros que amadureceram e fizeram psicoterapia.

Um desejo

Cantar o 4’33” do John Cage em um karaokê…

A alegria de descobrir e o mistério de compartir (e vice-versa)

Baixar coisas é tão legal!

De alguma forma misteriosa você pega um arquivo de alguém desconhecido de algum lugar ignoto do planeta e bota isso diretamente no seu computador. E aí pode ter acesso ao arquivo sem internet!

Isso não é legal?!

Citação

se o Estado te obriga a ter um celular para acessar serviços públicos o Estado deveria dar celulares e powerbanks e acesso ilimitado à internet pra todas as pessoas. Que mundo bizarro e maluco que a gente se enfiou com essas tranqueiras tecnológicas, é enlouquecedor

― Citação da sempre genial @apropriagui@masto.donte.com.br

#notas #tecnologia


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Imagem de uma piscina em um condomínio fechado. À direita há um parquinho para crianças

Espaço liminal?

Como ando sem pauta, aqui vai um copicola de algumas publicações do meu perfil pessoal do Fediverso, o @arlon@harpia.red. Isso é bom para quem não é da bolha fediversal, e é bom para quem é da bolha fediversal, mas não pôde me acompanhar nos últimos dias. Intercalam esses “tuítes” algumas fotos que tirei nos últimos dois meses.

Proposta de aportuguesamento

Noob = nube.

“Nube” também sugere nuvem. “Nubar” é ser nube, mas ao mesmo tempo sugere “anuviar”, “nublar” etc.

P.S.: “Nube”, ao contrário de outros aportuguesamentos, não tem excedente de caracteres em relação ao seu relativo estrangeiro, o que o pode tornar mais sugestivo.

Pode cagar.

Instagram em modo saudável

Experimentando navegar pelo Instagram somente pela versão web, através da linha do tempo cronológica, evitando os reels nem os stories.

Fosse só isso, seria uma ótima rede social.

Última leitura

Terminei a leitura de “Walden”, de Henri David Thoreau ― mas parece que sigo o lendo…

Desde “Em louvor das sombras”, do Tanizaki Junichiro, não tinha lido um livro tão influente sobre meu comportamento em relação às coisas e aos espaços em geral.

Foto de uma lambreta de cor azul-bebê. Ao fundo, um bosque universitário.

Bibi.

Mais uma dúvida de língua portuguesa respondida

O professor Pasquale me respondeu mais uma dúvida de língua portuguesa!

Ele mantém um programa na Rádio CBN, que se chama A Nossa Língua de Todo Dia, na qual tira dúvidas sobre LP e toca música boa.

A descrição do episódio é a seguinte:

Um ouvinte tem dúvidas sobre o uso dos verbos na forma infinitiva em avisos falados e escritos ou para expressar ordens. Os auxílios luxuosos são ‘Desesperar, Jamais’, com Roberto Ribeiro, e ‘Renascer’, com Zizi Possi.

Aqui o arquivo dele.

Xubuntu é uma merda, mas é bom

Nada como um sistema 100% responsivo. Não é este o caso do Xubuntu.

Estou com ele instalado em um laptop Positivo pré-adolescente (com ~13 anos). Por alguma razão o sistema volta e outra congela. O menu Whisker às vezes demora a responder.

O sistema mais responsivo que peguei até hoje foi o grande Linux Lite. Uma pena só que eu tenha de ir com muita frequência ao terminal. A vantagem do Xubuntu é que ele é muito prático e a maior parte do programas instalo em uma lojinha do sistema.

Pessoa deitada em duas poltronas. Está de casaco. Suas duas mãos estão postas dentro dos bolsos do casaco, enquanto sua cabeça está escondida na toca do casaco.

Performance artística não intencional na Uece, campus de Fátima.

Locais ideais para estudo

Estou estudando e lendo no bloco de música da Uece.

É perfeito. Música ao vivo e “natural” (i.e., sem algum grande evento por trás) é como um limpador sonoro. Há sons de tudo enquanto ao redor do bloco, desde cachorros até ares-condicionados. Mas enquanto há música orgânica, mesmo que improvisada, ela é o que interessa.

Vez ou outra ouço algum trechinho perdido de alguma peça que conheço e às vezes até me dá vontade de ir à sala de estudo, abrir a porta e perguntar: “Onde irão apresentar essa peça?”

#notas


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Estava pensando no final de “Manhattan” (1979), de Woody Allen.

Sempre que penso em cinema clássico, é a cena final de “Manhattan” que me vem à cabeça. Posso não ter visto suficientes filmes, mas sinto que é como se Woody Allen tivesse criado com essa sequência o paradigma de final de filme romântico.

É magistral a montagem inteira do filme; a sincronia entre música e fotografia; sem falar dos diálogos, que têm um taime e um ritmo maravilhosos.

Infelizmente Allen nunca conseguiu repetir o que fez em “Manhattan”. “Manhattan” é o paroxismo alleniano. Não há outro filme como “Manhattan”.

#notas #cultura


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Imagem de vários pixels soltos formando duas mãos escrevendo sobre uma máquina de escrever

Imagem: Serenity Strull/BBC/Getty Images.

Reportagens dos últimos dois anos:

Os “telefones burros” voltaram? (vídeo da CNBC, março de 2023).

Porque as câmeras digitais estão retornando (vídeo da TODAY, fevereiro de 2023).

As fitas cassete voltaram, o dilema é encontrar um toca-fitas. (matéria da New York Times, outubro de 2024)

Por que as máquinas de escrever estão tendo um renascimento na era digital (vídeo da PBS NewsHour, outubro de 2024).

Uma tiktoker de 23 anos faz vídeos sobre como e porquê voltou à mídia impressa (artigo da Slate, setembro de 2023).

Graças a entusiastas do minidisc, é possível adicionar músicas do seu smartphone em um tocador de minidisc (matéria da The Verge, outubro de 2024).

Por que tem se falado tão pouco desse súbito renascimento de várias tecnologias de comunicação antigas? De um lado uma indústria gastando rios de dinheiro na promoção das realidades virtual e aumentada, na streaminguização e na bluetoothização das coisas, e, é claro, na inteligência artificial; de outro, a nova geração reciclando aqui e ali várias tecnologias analógicas, como a máquina de escrever, ou tecnologias eletrônicas “ultrapassadas”, como a câmera digital ou mesmo como os blogues, que participam do movimento da chamada Web Revival, da qual estas Ideias de Chirico fazem parte. Tolice pensar que isso é moda de gente saudosista e ludista...

Essa não parece ser simplesmente uma onda sazonal e gratuita, concentrada em estética. Não é também como a moda hipster dos anos 2010, entusiasta sobretudo do vinil e da máquina de escrever ― eventualmente da fita cassete, como em 2016. Essa nova onda revivalista investe em muito mais tecnologias. Não é organizada em um movimento, mas dela pode se apontar um recorte geracional, nacional e de classe ― gente do norte global, de classe média, com idades em torno de 25 a 35 anos.

Há uma ímpar, crescente e geral insatisfação pelas tecnologias digitais ― seja por conta da bostificação, seja por conta do lock in, seja por conta da economia de atenção. O que esse pequeno movimento (mesmo que nichado) diz a respeito do Vale do Silício? O que posso dizer é que, definitivamente, o analógico é o novo hi-tech. E o offline é o novo online. Não é por outra razão que o filme “Dias Perfeitos” fez sucesso com o público abaixo de 30 anos... Eis aí todo um mundo ocultado pela digitalização compulsiva da vida. “O futuro do futuro é o presente”, já dizia o midiólogo Marshall McLuhan ― o que implica em dizer que o futuro do presente é o passado. Enquanto uma nova tecnologia for ofertada, não como ferramenta, mas imposta como meio de exclusão social (tal como o carro), o analógico seguirá como vanguarda.

#cultura #tecnologia #notas


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Foto da silhueta de alguns postes de luz contra a luz do final da tarde. No céu, degradês em lilás, amarelo e azul escuro.

Entardecer em Fortaleza. Foto minha.

Como ando meio sem ideia do que publicar, eis um compilado de postagens do meu microblogue Akkoma, conversas de e-mail, ivesdropes e outros fragmentos de pensamentos que não renderiam uma publicação, mas que valem a pena compartilhar, além de eventuais recomendações.

Sobre o estado das Ideias de Chirico

Com frequência tenho um desejo de escrever ― sem saber o quê. É mais uma vontade de escrever por escrever ― como se assovia em vez de cantar. Uma pena que não dá para fazer “estudos” com escrita, como se faz com pintura por exemplo, ou “improvisos melódicos” como com um instrumento musical. Às vezes o que quero é escrever só pelo prazer de linguagem.

Ter um blogue tem me ensinado que a visibilidade vem através do tempo, e não através de um só espaço, e que às vezes ela não apresenta sinais ― como curtidas e compartilhamentos. Blogar tem me educado a não desanimar quando as coisas publicadas não causam “ruído” de primeira.

O que interessa é você deixar pontes visíveis para a sua produção. Sejam hashtags ou hiperlinkagens, se há pontes, as pessoas vão circular por ali.

Veículo para vídeos curtos

Assistir a vídeos curtos pelo computador é dez vezes melhor do que assistir pelo telefone. Assim dá para dividir a tela em duas, deixar o feed em um lado, e outra aba em outro, onde se pode pesquisar alguma recomendação ou abrir algum perfil enquanto o vídeo roda. Acho também que assim me sinto menos preso. Recomendo bastante.

National rock

Nomes de bandas brasileiras de pop-rock ― meio desprezadas ― escritos em inglês soam como qualquer outra banda estadunidense que o povo paga pau por aí:

New Cloth;

Initial Capital;

Assassins Mamonas;

Urban Legion;

Hawaii's Engineers;

Red Baron;

The Success' Mudguards

Twenty Two CPM.

Please, come to Brazil ― and make money!

Estava ouvindo o pessoal do podcast mimimídias ― aqui o corte do episódio ― falando sobre a nova música do Offspring, Come to Brazil, e Clara Matheus falou uma coisa que faz sentido.

Uma vez que o público brasileiro engaja em publicações de gringos falando sobre o Brasil (essa coisa toda de Brazil mentioned), agora os artistas internacionais, caso estejam precisando de uma grana, na dúvida metem o nosso país em uma nova produção.

Essa música do Offspring por exemplo parece ser puro suco de turismo barato, coisa de quem só ouviu falar do Rio de Janeiro, de mulher bonita, caipirinha, churrasco, samba etc.

Ouvir o mundo falar do Brasil é legal, mas tem de se ver se é um movimento genuíno, de alguém que conhece o país, e se, afinal, não é uma forma de nos transformar em massa de manobra para descolar um cachê...

E-mail para o Professor Pasquale

Religiosa e diariamente acompanho “A Nossa Língua de Todo Dia”, programa da Rádio CBN que ouço via podcast, apresentado pelo lendário Professor Pasquale. Neste programa, Pasquale responde, de segunda à sexta, a dúvidas de gramática. Como forma de ilustrar as regras gramaticais, ele roda ótimas músicas ― ou, como ele chama, “auxílios luxuosos”.

Em meados de setembro enviei uma mensagem na qual, além de pedir a solução de uma dúvida, também comentei sobre outro boletim seu, cujo título era “É correto aplicar o plural em frases que citam o número zero?” ― aqui o episódio. Aí, Pasquale faz uma confusão sobre a ironia em construções, muito comum entre a juventude, do tipo “Tal notícia surpreendeu um total de zero pessoas”, aplicando a mais rançosa das gramáticas normativas.

No começo deste mês de outubro, Pasquale respondeu minha dúvida. Entretanto, por uma questão de economia de tempo, não leu o meu comentário a respeito de sua má interpretação sobre construções com “zero”. Como forma de pôr a discussão para frente, aqui vai o meu e-mail na íntegra:

Boa tarde, professor Pasquale e equipe CBN! Quem escreve outra vez Arlon de Serra Grande, aquele que enviou a pergunta do programa do dia 7 de junho, sobre o uso do verbo ser em “Deus é contigo”. Antes de fazer minha nova pergunta, gostaria de dar meus dois centavos sobre a dúvida/discussão levantada no programa do dia 29 de agosto, a respeito de expressões com “zero”.

Expressões do tipo “O evento recebeu zero pessoas”, “Estou estagiando com a remuneração de zero centavos” etc., são muito comuns entre a geração de cristal (também conhecida por geração Z) e pode entrar no rol das expressões figurativas, logo, não deve ser lida de modo literal.

Me explico: quem o diz provavelmente tem plena consciência de que as palavras seguidas de zero não são flexionadas no plural. Ainda assim essa pessoa o faz para enfatizar a ineficácia ou a frustração de um evento esperado. Tanto é que em geral, quando as pessoas falam essa expressão, sublinham-na com o tom da voz: “Eu estou ganhando duro e ganhando ZERO centavos por isso, acredita?”.

Há ainda outra expressão neste formato: “A nossa festa recebeu um total de zero pessoas”. Ora, quando se fala de “total”, fala-se de soma, mas a expectativa de que há alguma quantia somável é quebrada pelo “zero”, que é ainda enfatizada pelo plural cinicamente flexionado. Então, dito isso, defendo que essa construção de suposto desvio é consciente, fruto de sarcasmo.

À parte disso, gostaria de lhe perguntar sobre outra coisa. Tenho percebido que há uma série de palavras em LP terminadas em “bundo”. Sua significação é quase que intuitiva para o falante. Por exemplo:“furibundo” é aquele que está com fúria; “meditabundo” é aquele que medita, ou que está pensativo; “moribundo” é aquele que está por morrer. Não nos esqueçamos ainda do conhecidíssimo “vagabundo”, aquele que vaga, que é associado ao ócio.

Mas, afinal, de onde vem e o que significa esse “bundo” grudado nessas palavras? Por que há variações dessas palavras mais simplificadas, como “furioso” e “meditativo”? Faço essa pergunta porque sei que você é uma figura muito afeita à filologia (ciência também conhecida como linguística histórica ― cuidado para não pronunciarem “linguiça”, hein!), e dúvidas filológicas são difíceis de serem sanadas através da internet.

É tudo. Se não for pedir demais, gostaria de que mandassem um abraço a Yuri Bravos, grande companheiro da internet fediversal, também daqui de Fortaleza, e, assim como eu, ouvinte assíduo da Nossa Língua de Todo Dia.

Abraços!

Readymades de ônibus

Frases roubadas de pichações, conversas, telas de telefone ou outras quase-interjeições que ouvi/li enquanto tomava condução coletiva.

“Vivo isso, não disso”.

“Prefiro me vestir igual um mendigo do que ficar igual um mendigo depois”.

“Não tenha medo de peidar enquanto mija ― não há chuva sem trovão. Mas cuidado com o deslizamento de terra...”.

“Não estou dizendo nada, só estou falando”.

#cotidiano #notas


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Imagem de uma teia de aranha molhada por orvalho

Alguns dos linques mais interessantes que encontrei durante o mês de setembro, com alguma reflexão que eles me trouxeram... Para quem não fala o idioma inglês, infelizmente eles não servirão de muita coisa.

Rewind Museum, uma “Wikipédia” de eletrônicos domésticos antigos ― de rádio à fita cassete, dos primeiros microcomputadores ao gramofone, de televisões analógicas aos videogames. É legal para mostrar para o Enzo que não tem ideia de como as coisas eram antes do esmartefone.

Lista de fotografias consideradas as mais importantes. Autoexplicativo. De vez em quando me pego vendo esta lista e acho uma das coisas mais fascinantes da Wiki.

Sítio web de “Dias Perfeitos”, filme teuto-japonês sobre o qual já escrevi nestas Ideias de Chirico. Sua página inicial promete mostrar “353 dias da vida de Hirayama não mostradas no filme”. Não é para tanto. Há, porém, outras informações relevantes: créditos completos, trilha sonora, entrevistas, dados sobre o estafe e referências de livros.

A visita acima de tudo vale a pena por ser uma obra prima de sítio. Muito caprichado mesmo. Esse é um tipo de material que satisfaz um pouco aquela necessidade de “extras” que vinham junto nos discos DVD, como cortes não incluídos no filme e faixa com comentários do diretor. Quem dera se essa moda de desenhar sítios web para filmes pegasse!

Como ter um banho mais sustentável? Essa é a pergunta levantada pelo ambientalista Kris de Decker em seu novo texto no blogue Low-Tech Magazine, “Communal Luxury: The Public Bathhouse”. Para pensar sobre o impacto ambiental desse costume ordinário e universal, Kris faz um levantamento histórico dos hábitos banhistas na Europa e na Ásia ― completamente em casas de banho público ― e qual a diferença de uso de recursos naturais dessa cultura em comparação com o atual e ubíquo costume do “banho privado”.

Recomendo a leitura. Kris escreve muito bem e é muito interessante ver como o hábito de tomar banho mudou com o tempo, e como, se quisermos ter uma vida sustentável, teremos de mudar drasticamente nossa cultura. Durante a leitura do texto também fiquei pensando na hipótese de nós brasileiros nos sentirmos extremamente vexados ao estarmos nus na frente de outras pessoas pelo fato de não termos tido uma cultura de banho público.

Isto é mais uma dica do que uma recomendação de sítio web. Sempre estranhei o fato de que no Instagram pelo computador você só consegue visualizar as postagens recomendadas pelo algoritmo. No aplicativo móvel pelo menos há uma opçãozinha escondida para ver a lista de favoritos (para ver publicações de perfis selecionados pelo usuário) e a lista de seguindo (para ver as últimas publicações em ordem cronológica). Na versão mobile nenhum desses feeds mostra propagandas e são menos viciantes, já que eles “têm fim”, digamos.

Durante esta semana, no entanto, eu soube que há, sim, um modo de acompanhar postagens recentes e a lista de favoritos pela versão desktop do Instagram, só que os desenvolvedores, claro, a fim de limitar os recursos dessa versão e forçar o usuário ao retorno da versão mobile, simplesmente ocultaram a droga dos botões. Bigtech sendo Bigtech, como sempre.

Na versão desktop, para você entrar na lista de favoritos, tem de pôr <?variant=favorites> depois de , e para entrar na lista das últimas postagens, tem de pôr <?variant=following> depois do mesmo domínio. Ficando assim:

https://www.instagram.com/?variant=following

https://www.instagram.com/?variant=favorites

Praticamente uma easter egg. Cada dia que passa mais eu desejo o fim do predomínio desta que é talvez a rede social mais mal feita da web 2.0. Deixo avisado que a experiência do Instagram por computador é muito mais positiva, já que é menos viciante (por ter mais espaço de tela), e por a gente ter a possibilidade de não ver propagandas. Neste último caso, recomendo a instalação da extensão Ublock, disponível para Mozilla Firefox e Google Chrome.

Que tal zapear por alguns canais do Youtube como se fosse por uma tevê analógica? Essa é a proposta de YTCH. Como a própria sigla acusa (Youtube Channel), a ideia do sítio é mostrar, à moda televisual, uma reprodução ininterrupta e aleatória de canais interessantes do Youtube.

Há separação por categorias como “ciência”, “documentário”, “comida” etc. Independente de qual seja a categoria, os vídeos sempre surpreendem pela qualidade. Sua edição em geral tem aquele quê de canais educativos que é bem relaxante… A sacada é genial e espero que inspire projetos para outras plataformas que necessitam urgentemente de uma curadoria humana de conteúdo, como o TikTok.

#cultura #tecnologia #notas #surfandoweb


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Imagem de Yui Kamiji, uma mulher amarela cadeirante, usando boné branco e camisa vermelha, fazendo um lance de tênis com uma raquete em mãos.

Imagem: Yui Kamiji, tenista japonesa, jogando durante os Jogos Paralímpicos (ou Paraolímpicos?).

Você sabe porque falamos “paralimpíadas” e não “paraolimpíadas” ou, o que seria mais natural, “parolimpíadas”?

Para responder essa questão, não é necessário nenhuma explicação gramatical mirabolante.

Segundo o Pasquale Cipro Neto, no programa “A nossa língua de todo dia” da Rádio CBN da semana passada¹, o Comitê Paralímpico Internacional (sediado nos EUA) “pediu” que todas as variantes vocabulares das línguas de países envolvidos com esses jogos seguissem o padrão anglófono “paralympic”. Fim. É isso. Essa é a razão pela qual falamos “paralimpíadas”.

A maior representação de colonialismo foi, segue sendo e será expressa pela língua de um povo.


¹: Ouça o episódio através deste linque. Para saber mais das discussões a respeito desse termo, leia este artigo do sítio Ciberdúvidas.

#cultura #notas


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Ainda que a cultura de um modo geral esteja em baixa, aquém do ramo da tecnologia em termos de inovação, vez ou outra encontramos algo de fresco em produções das últimas duas décadas.

Em certa manhã de 2022, enquanto eu ia ao trabalho, pela Rádio Universitária de Fortaleza ouvi a jazzista Léa Freire pela primeira vez. O ônibus deslizava sobre um viaduto, a deixar que um sol limpo de nuvens, atravessando edifícios, lá dentro entrasse. Esta é a cena a qual associo o seu “Brincando com Théo”, e que, ao meu ver, melhor o representa.

Mais tarde, pesquisei no Youtube a composição original (para piano solo). Ao azar, tombei com uma versão à voz e piano de Tatiana Parra e Andrés Beeuwsaert no disco “Aqui”, de 2011 ― assista ao seu trailer.

Desde que o conheci, me derreto a cada escuta. Só consigo pensar em beleza ao o ouvir. Andrés, um João Gilberto do piano, bate seu instrumento, mas gom um togue gendil, como se seus martelos fossem espumas. Já Tatiana, em seu canto, ainda que sem texto, fala. Mas fala como o pássaro fala. Farfala.

Os arranjos são simples: vez ou outra aparecem flauta (que Léa Freire toca), violoncelo ou violão ― cada um por vez. A voz e o piano predominam como intrumentos, valem, porém, por vários ― às vezes o piano arrebenta feito bateria ou, sus, suspira como uma segunda voz.

Como o primeiro disco de Rodrigo Campos sobre o qual escrevi, “Aqui” é feito para o movimento, para as gentes, para as cidades. Nas suas interpretações, de tons maiores ― abertas tal sóis ―, seu som é denso, sem ser tenso. Raro herdeiro vivo da bossa-nova, “Aqui” é maximalismo disfarçado de minimalismo.

#cultura #notas


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Imagem de uma folha em branco com uma lapiseira ao lado sobre uma mesa de madeira.

Após apresentar “O Pequeno Príncipe” de Saint-Exupéry à turma de 7° série, o professor de redação pediu-lhes para que apresentassem uma síntese do livro. O único comando que ele dispôs no quadro negro foi “Escrevam apenas o essencial da história”.

Enquanto toda a sala rascunhava rapidamente sobre seus papéis, o pior aluno entregou uma folha em branco. O professor, contrariado, indagou do que se tratava aquilo. E o aluno timidamente respondeu:

― Professor, é que eu aprendi com o Pequeno Príncipe que

O essencial é invisível aos olhos.

Este aluno recebeu a melhor nota da turma.

#cotidiano #notas


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Imagem de uma feira de frutas no interior do Brasil.

“Olha a informação! Informação fresquinha!”

Gosto de pensar a internet como essa grande feira de sites. Nas feiras, se você quer um produto, haverá alguém que conhece um alguém que conhece um alguém que tem o que você quer. São como aqueles galos do João Cabral de Melo Neto. Visita-se um site, e este o direciona para outro, que aponta para outro etc. Essa é a graça inclusive de ter um blogue: participar ativamente dessa rede, seja reconectando-a, seja contribuindo com ela.

Outro dia compartilhei o Internet Artifact, que me chamou a atenção por conta de sua arqueologia internáutica. Agora compartilho outros endereços curiosos envolvendo descoberta e publicação de artes, que já publiquei via #SurfandoWeb pelo meu perfil Akkoma ― que tem sido um grande laboratório para as publicações destas Ideias de Chirico.

Todo som ao mesmo tempo e em todo lugar

Não sabe que música ouvir numa noite aleatória ou quer conhecer novos gêneros musicais dos mais diversos cantos do mundo? Conheça Every Noise At Once.

Ao carregar a página, verá uma nuvem quase infinita de gêneros musicais correlatos por nacionalidade ou por ritmo. Ao tocar em um deles, a página executará um exemplar de mais ou menos 10 segundos de cada gênero. Dica de ouro: dê um Ctrl + F e escreva um gênero ou nacionalidade pelo qual você se interessa, e daí poderá conhecer outros similares.

Every Noise At Once lembrou-me a proposta de Radiooooo que executa sucessos radiofônicos da década e do país da escolha do visitante. No entanto, ao tempo que Radiooooo compartilha sucessos de todas as épocas, Every Noise At Once concentra-se na cena underground contemporânea.

O que pode 10kb?

A Galeria 10kb é um compêndio de imagens com tantos bites quanto este texto que vocês leem ― ou até mesmo mais leve. Visitá-la me faz pensar nas reais necessidades de espaço de disco para a comunicação digital.

Por que afinal queremos tudo em HD 4K? Às vezes 10kb já dá conta do recado! Afinal, é preciso que também nos acostumemos com pouco. Em um mundo ávido por informação em alta-definição, não podemos perder a sensibilidade das coisas em baixa-definição ― mais próximas das tecnologias analógicas e da vida mesmo.

Além de tudo, é interessante ver respostas criativas ao desafio de se criar uma imagem tão leve quanto um arquivo de texto. Como escreve Mike Grindle comentando sobre o porquê de se fazer um site compatível ao espaço de um disquete,

Ao meu ver, nada inspira mais criatividade do que limitações. Isso não só lhe deixa pensando “fora da caixa”, mas também lhe estabelece limites nos quais trabalhar.

Essa, inclusive, também é a graça de escrever sob padrões ou limitações precisas, como os velhos 140 caracteres de um tuíte ou como o verso dodecassílabo de um soneto... A ideia de densificar o pensamento e escrever coisas complexas em um espaço limitado é de uma sedução irresistível!

Infelizmente a Galeria está há um bom tempo sem atualizações, porque o organizador está concentrado em outros projetos. Mas já temos um bom arsenal.

Conheço também outros endereços análogos a ela, como o 1MB Club, que ranqueia sites que, de fato, caberiam em um disquete.

Estériques

Ficou curioso a respeito de uma estética específica de um período? Quer entender melhor de um dado zeitgeist? Quer se inspirar para projetar à la um certo “ismo”? Indico o Consumer Aesthetics Research Institute (CARI).

O CARI é como um Radiooooo visual. Ao entrar na sua página inicial, você terá várias abas de filtros para curadoria, como período, palavras-chaves ou ordem alfabética.

Claro, como o próprio nome diz, ele é voltado à estética do consumo, não à estética artística, que se preocupa com o puro prazer... estético. No entanto, esta é muito influenciado por aquela, e até a inspira! Vide o pop-art ou, um pouco atrás, o art-nouveau.

#cultura #notas


CC BY-NC 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter