Uma ode à moeda

― Próximo!

Diz a atendente entre sonolenta e entediada. O cliente anterior ainda está às tantas com as sacolas.

Nesse meio tempo, lá vai o “próximo” passar as mercadorias para o balcão de metal liso. Bip, bip, bip. Com a prática, a balconista passa todos os pacotes num minuto. E o dito-cujo lá com o focinho na tela abrindo o aplicativo do banco.

― Só um minuto, que o 4G está lento.

Opa, abriu o aplicativo. A funcionária lança o código QR da compra. E o camarada que parece que não saber estabilizar a câmera do telefone...

Leu? Beleza. E dá-lhe rede móvel.

E a fila se avolumando.

― Graças a Deus!

Foi-se embora o carinha do telefone. Aí vem outra bendita com um telefone enorme e lerdo. Dessa vez sem internet.

― Qual é a senha do wi-fi daqui mesmo, hein?

No ar aquele clima de banco ou de lotérica, cheia de gente resmungando. A culpa já não é mais nem dos atendentes.

Na minha vez, dou “bom dia”, passo as mercadorias.

― Deu R$ 12.75, moço.

Cato duas cédulas, umas moedas. Babau.

― Próximo...


Lembro de quando o Pix começou a entrar na vida do brasileiro. Eu que sou um tecnófilo, sou bastante refratário a qualquer invenção bombástica. Parece uma contradição, mas não é. Toda invenção requer não só um período de educação do usuário, mas também um tempo para pôr à prova a sua utilidade.

Rapidamente, o recurso chegou aos rincões mais recônditos deste nosso país tão desindustrializado. “Até bar de estrada agora aceita Pix”, dizia-se com admiração.

De qualquer forma, com o tempo, antes mesmo de eu utilizar o cartão de débito, comecei a usar o Pix no dia a dia. Pagar boletos era mais prático. Não precisava mais carregar o troco enorme de moedas. O registro das transações ficava registrado no histórico do aplicativo e as chaves Pix podiam ser favoritadas.

Daqui a pouco é um não mais terminar de filas em mercados, feiras, padarias, bodegas. E casos de gente que fez transações por engano, para destinatários desconhecidos ou com valores incorretos. E estabelecimentos que não se dão o trabalho de voltar troco ou até mesmo que só aceitam pagamento em Pix.

Aí o desencanto bateu.


Parte do sucesso do Pix está na acessibilidade do smartphone. Porém, com a concentração de funções no telefone moderno, há um risco cada vez maior de se ficar na mão.

Imagina que você esteja em um aeroporto e precise: 1. passar o passaporte e mostrar sua documentação; 2. fotografar; 3. escutar música; 4. enviar mensagens; 5. pagar por uma refeição; 6. ler. Se seu dispositivo tiver somente 17% de bateria, deverá escolher uma dessas funções. A prioridade, lógico, estará no dinheiro e nos documentos. O resto se ajeita.

Já ouvi o caso de uma pessoa que não portava carteira ao sair de casa ― resolvia tudo por aproximação de cartão virtual e Pix. Certa vez o seu aparelho descarregou bem na fila do cinema, e aí teve de pedir dinheiro emprestado para uma amiga que a acompanhava. A situação seria ainda pior se estivesse sozinha.

O melhor, decidi, é tornar o dinheiro um objeto analógico.

Desde o começo do ano, adotei outra vez as cédulas. A ideia era manter um dinheiro “livre”, sem uma destinação específica, para usar em estabelecimentos informais ― nunca gostei de passar meu cartão em qualquer maquininha.

As cédulas também são uma mão na roda caso falte eletricidade, bateria, internet ou a minha paciência no ponto comercial. As tão evitadas moedas agora são bastante desejadas e cuidadosamente guardadas em um porta-níqueis que carrego junto da carteira.

Ao menos duas vezes ao mês, aproveitando algum passeio pela rua, saco dinheiro da máquina do banco.

Nem tudo são flores, lógico.

Como se utiliza menos dinheiro nas transações em cidades grandes, a tendência é dos bancos emitirem notas maiores. O que interessa em ter dinheiro é a praticidade, então é bem melhor ter o dinheiro trocado.

Com muita pesquisa, percebi que alguns estabelecimentos tendem a aceitar voltar troco sem muito muxoxo: supermercados, bancas de jornal e grandes redes de farmácia. Logo que saco a grana, vou logo em um desses lugares.

Restaurantes, bares e lanchonetes tendem a não trocar dinheiro ou mesmo a recusar pagamento em espécie. Caso neguem troco, tenho do meu lado o Código de Defesa do Consumidor, que proíbe no artigo 39, inciso IX:

recusar a venda de bens ou a prestação de serviços mediante pronto pagamento.

Não obstante, a lei estadual do Ceará nº 16685 obriga estabelecimentos comerciais a garantir troco em moeda. Imagino que cada estado brasileiro deva ter alguma legislação desse tipo também.


Na última viagem que fiz à terra natal, me chamou atenção a frequência com que a cédula aparecia nas transações nas cidades de interior. Em feiras populares onde se vendem frutas, verduras e grãos, simplesmente não se usam Pix ou cartão ― só dinheiro. Até pensei em perguntar para alguns dos feirantes a razão para isso, mas, de tão intuitiva, ela há de ser simples: a moeda é prática e fiável.

Além de tudo, como não atravessa um intermediário digital, ela ainda preserva os dados pessoais. Não por acaso, tomo a cédula de dinheiro como um ícone offpunk.

A moeda é a prova de que nem sempre a opção digital é a mais conveniente.

O pagamento por Pix em uma tenda dessas, de duas uma: ou faria mais filas ou, com o ruído, poderia se comunicar o valor errado ou a chave incorreta. Além disso, que ideia de Chirico sacar o telefone em plena rua movimentada!

Por outro lado, na cidade grande... filas e mais filas, roubos de aparelhos etc., etc.

Sim, a invenção é maravilhosa. Sim, bancarizou uma centena de milhões de trabalhadores informais. Não, não agilizou os serviços como prometia. No dia a dia, o dinheiro e, em algum grau, o cartão de crédito ainda ficam na vanguarda.

#cotidiano #tecnologia


CC BY-SA 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter