Ideias de Chirico

tecnologia

― Próximo!

Diz a atendente entre sonolenta e entediada. O cliente anterior ainda está às tantas com as sacolas.

Nesse meio tempo, lá vai o “próximo” passar as mercadorias para o balcão de metal liso. Bip, bip, bip. Com a prática, a balconista passa todos os pacotes num minuto. E o dito-cujo lá com o focinho na tela abrindo o aplicativo do banco.

― Só um minuto, que o 4G está lento.

Opa, abriu o aplicativo. A funcionária lança o código QR da compra. E o camarada que parece que não saber estabilizar a câmera do telefone...

Leu? Beleza. E dá-lhe rede móvel.

E a fila se avolumando.

― Graças a Deus!

Foi-se embora o carinha do telefone. Aí vem outra bendita com um telefone enorme e lerdo. Dessa vez sem internet.

― Qual é a senha do wi-fi daqui mesmo, hein?

No ar aquele clima de banco ou de lotérica, cheia de gente resmungando. A culpa já não é mais nem dos atendentes.

Na minha vez, dou “bom dia”, passo as mercadorias.

― Deu R$ 12.75, moço.

Cato duas cédulas, umas moedas. Babau.

― Próximo...


Lembro de quando o Pix começou a entrar na vida do brasileiro. Eu que sou um tecnófilo, sou bastante refratário a qualquer invenção bombástica. Parece uma contradição, mas não é. Toda invenção requer não só um período de educação do usuário, mas também um tempo para pôr à prova a sua utilidade.

Rapidamente, o recurso chegou aos rincões mais recônditos deste nosso país tão desindustrializado. “Até bar de estrada agora aceita Pix”, dizia-se com admiração.

De qualquer forma, com o tempo, antes mesmo de eu utilizar o cartão de débito, comecei a usar o Pix no dia a dia. Pagar boletos era mais prático. Não precisava mais carregar o troco enorme de moedas. O registro das transações ficava registrado no histórico do aplicativo e as chaves Pix podiam ser favoritadas.

Daqui a pouco é um não mais terminar de filas em mercados, feiras, padarias, bodegas. E casos de gente que fez transações por engano, para destinatários desconhecidos ou com valores incorretos. E estabelecimentos que não se dão o trabalho de voltar troco ou até mesmo que só aceitam pagamento em Pix.

Aí o desencanto bateu.


Parte do sucesso do Pix está na acessibilidade do smartphone. Porém, com a concentração de funções no telefone moderno, há um risco cada vez maior de se ficar na mão.

Imagina que você esteja em um aeroporto e precise: 1. passar o passaporte e mostrar sua documentação; 2. fotografar; 3. escutar música; 4. enviar mensagens; 5. pagar por uma refeição; 6. ler. Se seu dispositivo tiver somente 17% de bateria, deverá escolher uma dessas funções. A prioridade, lógico, estará no dinheiro e nos documentos. O resto se ajeita.

Já ouvi o caso de uma pessoa que não portava carteira ao sair de casa ― resolvia tudo por aproximação de cartão virtual e Pix. Certa vez o seu aparelho descarregou bem na fila do cinema, e aí teve de pedir dinheiro emprestado para uma amiga que a acompanhava. A situação seria ainda pior se estivesse sozinha.

O melhor, decidi, é tornar o dinheiro um objeto analógico.

Desde o começo do ano, adotei outra vez as cédulas. A ideia era manter um dinheiro “livre”, sem uma destinação específica, para usar em estabelecimentos informais ― nunca gostei de passar meu cartão em qualquer maquininha.

As cédulas também são uma mão na roda caso falte eletricidade, bateria, internet ou a minha paciência no ponto comercial. As tão evitadas moedas agora são bastante desejadas e cuidadosamente guardadas em um porta-níqueis que carrego junto da carteira.

Ao menos duas vezes ao mês, aproveitando algum passeio pela rua, saco dinheiro da máquina do banco.

Nem tudo são flores, lógico.

Como se utiliza menos dinheiro nas transações em cidades grandes, a tendência é dos bancos emitirem notas maiores. O que interessa em ter dinheiro é a praticidade, então é bem melhor ter o dinheiro trocado.

Com muita pesquisa, percebi que alguns estabelecimentos tendem a aceitar voltar troco sem muito muxoxo: supermercados, bancas de jornal e grandes redes de farmácia. Logo que saco a grana, vou logo em um desses lugares.

Restaurantes, bares e lanchonetes tendem a não trocar dinheiro ou mesmo a recusar pagamento em espécie. Caso neguem troco, tenho do meu lado o Código de Defesa do Consumidor, que proíbe no artigo 39, inciso IX:

recusar a venda de bens ou a prestação de serviços mediante pronto pagamento.

Não obstante, a lei estadual do Ceará nº 16685 obriga estabelecimentos comerciais a garantir troco em moeda. Imagino que cada estado brasileiro deva ter alguma legislação desse tipo também.


Na última viagem que fiz à terra natal, me chamou atenção a frequência com que a cédula aparecia nas transações nas cidades de interior. Em feiras populares onde se vendem frutas, verduras e grãos, simplesmente não se usam Pix ou cartão ― só dinheiro. Até pensei em perguntar para alguns dos feirantes a razão para isso, mas, de tão intuitiva, ela há de ser simples: a moeda é prática e fiável.

Além de tudo, como não atravessa um intermediário digital, ela ainda preserva os dados pessoais. Não por acaso, tomo a cédula de dinheiro como um ícone offpunk.

A moeda é a prova de que nem sempre a opção digital é a mais conveniente.

O pagamento por Pix em uma tenda dessas, de duas uma: ou faria mais filas ou, com o ruído, poderia se comunicar o valor errado ou a chave incorreta. Além disso, que ideia de Chirico sacar o telefone em plena rua movimentada!

Por outro lado, na cidade grande... filas e mais filas, roubos de aparelhos etc., etc.

Sim, a invenção é maravilhosa. Sim, bancarizou uma centena de milhões de trabalhadores informais. Não, não agilizou os serviços como prometia. No dia a dia, o dinheiro e, em algum grau, o cartão de crédito ainda ficam na vanguarda.

#cotidiano #tecnologia


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Imagem de um telefone móvel com display em preto e branco. Nele se vê o aplicativo Whatsapp com o nome dos contatos borrados. Ao fundo, uma calçada de casa

Decidi retirar as cores do meu telefone e não consigo usá-lo de outra forma.

Em meados de 2024, escrevi um texto relatando como foi a minha experiência de fotografar com a display do meu telefone em preto e branco.

• Um mundo em preto e branco (Ideias de Chirico).

Naquele tempo eu fazia um experimento mais estético do que tecnológico-comportamental, queria sobretudo entender como explorar a ausência de cores em fotografias. Prometi naquela vez uma publicação futura explicando o porquê daquela minha escolha ― sem saber que ela se tornaria a minha configuração padrão para telas pequenas desde então.

Linko outra vez o texto por onde tive o ímpeto para adotar essa modificação.

• Pessoas estão tirando as cores da tela do smartphone para usá-lo menos (Manual do Usuário)

O recurso de “escala de cinza” é na verdade um recurso de acessibilidade para usuários com daltonismo. Em seu texto, Rodrigo Ghedin menciona vários especialistas em design que sugerem aos usuários de smartphone que tirem as cores de seus aparelhos caso queiram estar menos “viciados”.

Segui esta sugestão. Com o tempo, porém, percebi benefícios e alguns prejuízos em outros campos.

Neste texto os relatarei e explicarei porque por mais de dois anos decidi manter meu telefone em preto e branco, além de outras reflexões sobre essa modificação.

O primeiro efeito que percebi ao tirar as cores do meu telefone foi a fluidez com que passei a executar minhas tarefas.

Sem cores, a navegação por aplicativos não é errante. Como apontado no link do Manual no início deste post, as cores são organizadas em produtos de consumo de modo a fisgar a atenção do potencial cliente. Quando se as nivela em escala cinzenta, neutraliza-se esse efeito.

Em cores emudecidas, vídeos já não são tão atrativos. Os textos escritos, por sua vez, ficam incólumes em escala cinzenta, isso porque a escrita funciona muito bem com uma só cor. Vejam os monitores de computadores antigos, mormente dedicados à escrita (de texto ou de código), emanavam luz verde sobre o fundo negro do próprio display. Não faria diferença para a compreensão textual se fosse uma luz branca.

Para reforçar a intencionalidade com o telefone, retirei todas as notificações e mantive o volume zerado por padrão. Desse modo, o foco do meu aparelho passou a ser escrita de mensagens e leitura de textos médios.

Menor agressividade visual

Não exagero em dizer que minha vista ficou menos cansada desde que mantive a escala de cinza em dispositivos portáteis. Em alguns aparelhos, inclusive, o modo noturno pode ser programado a fim de ativar esse recurso.

Quando as pessoas me emprestam seus telefones, não suporto olhar o display por mais de um minuto. É como se eu estivesse olhando diretamente para um letreiro em neon a poucos centímetros de distância.

Com os meus aparelhos, entretanto, consigo permanecer mais tempo em alguma tarefa sem que fique com a vista cansada (o ideal mesmo seria uma tela “papel” no modelo Kindle). A partir do momento em que aciono as cores do meu telefone momentaneamente, comparando sua tela com a de outros dispositivos, percebo o problema: as telas de telefones têm cores mais vibrantes do que a de outros aparelhos...

Economia de bateria

Assumo, este tópico é um pouco controverso...

Não sei se por estar menos propenso a ficar pouco tempo com o display aberto por conta da monocromia, ou pela própria configuração visual fazer com que se economize as cores, o fato é que gradualmente percebi que retirá-las fez com que a sua bateria durasse mais tempo do que antes.

Naquele mesmo ano de 2024, adquiri um outro telefone mais básico, de tela menor, o Multilaser Elite 2, de quatro polegadas. Cansado tela enorme do aparelho anterior e um pouco preocupado em portar dados tão sensíveis em público, o plano era de tornar o novo dispositivo um “telefone de bolso”, para sair de casa. O outro, de cerca de sete polegadas, ficaria em casa mantendo aplicativos de banco e outros dados pessoais em segurança.

Quando fui configurar as cores do dispositivo recém-adquirido, não o consegui pela via comum (no meu Motorola, o caminho é: Configurações > Acessibilidade > Cor e movimento > Correção de cor > Escala de cinza), mas sim da seguinte forma: Configurações > Bateria > Função de escala de cinza. Curioso, não?

Porém, a própria descrição da opção diz que “Este recurso é experimental e pode afetar o desempenho”. Afeta positivamente ou negativamente? Não se diz claramente. O que interessa é que esse recurso, segundo o que os desenvolvedores da Multilaser entendem, altera de algum modo o gerenciamento de energia do aparelho.

Fotografia de um telefone móvel de tela pequena tendo uma parede cor de salmão como fundo; no display, vemos a aba de gerenciamento de bateria aberta; na parte inferior da tela, vemos uma opção de Função escala de cinza

Meu Multilaser afirma que a função escala de cinza “é experimental”. Experimental para quem? Para mim, esse é o padrão!

Outros argumentam que a escala de cinza tem o potencial de economizar bateria, porque o display não teria que operar com muitas modificações de tons. No entanto, isso só faz sentido para aparelhos que têm tela AMOLED. Segundo a Technode, em displays com essa tecnologia,

Quando um pixel precisa exibir a cor preta, ele simplesmente se desliga. Isso representa economia real de energia, especialmente em interfaces com fundo escuro.

O fato é que o meu telefone “de casa” segura a bateria por pelo menos cinco dias em uso de moderado a pouco frequente. Tenho de mencionar também que outras configurações entram em jogo, como o modo avião sempre acionado.

E quanto a vídeos e imagens coloridas?

Tenho um leitor digital Kindle, e desde que passei a ler muitos artigos da internet por esse eletrônico, percebi o quanto, na maioria das vezes, as cores não são essenciais para a compreensão de uma imagem. Afinal, há pelo menos um século, fotografias em preto e branco são estampadas em jornais...

Alguns adeptos dessa configuração argumentam que ativam as cores quando vão assistir a vídeos no Youtube. Aí penso: se a proposta de desligar as cores é tornar um aparelho menos tentador, porque ativá-las para ver vídeos numa plataforma que é desenhada para manter o visitante o máximo de tempo possível? O melhor é nem mesmo mantê-la ativada! Eu mesmo prefiro baixar no computador os vídeos para serem vistos depois ― sigo um princípio de offline-first nos meus aparelhos.

As únicas imagens em que as cores fazem falta são as de artes visuais, sobretudo pintura, e de textos multimodais, como gráficos. Há casos curiosos também em que as cores funcionam como traços distintivos entre objetos dentro de uma foto. Certa vez fotografei uma fonte de pedras dentro de um tanque de peixes. Em preto e branco, a fonte parecia um estrogonofe de carne! Infelizmente o telefone inteligente ainda segue como melhor ferramenta de edição de vídeos. Não há outra forma de fazê-lo que não por uma tela colorida.

Além desses três casos, retorno à configuração padrão quando estou em uma videochamada. Porque aí ver a amada em preto e branco também é de lascar...

No mais, em raros momentos em que as cores são de fato necessárias para a compreensão, as envio para a nuvem, a fim de serem apreciadas por uma tela maior e colorida.

Breve comentário sobre uma estética da sobriedade

Imagem de um telefone sem cores. No seu display, há o menu inicial com vários ícones de aplicativos

“Sexy sem ser vulgar”.

(Convenhamos, o telefone fica mais elegante sem cores, tomando uma beleza “fria” e descompromissada, como as de uma escultura moderna e de uma embalagem de perfumes. Gosto de quando as coisas atraem sem implorarem por atenção ou se imporem nos espaços... “Chique é ser simples”, já dizia um rapper brasileiro. Sempre me atraio por uma beleza difícil...)

Só o telefone sem cores?

O fato de que sinto essa necessidade de tirar as cores somente em uma tela menor ainda me deixa um pouco encucado ― nunca tive vontades de tornar meu computador e um antigo tablet monocromáticos.

Posso passar horas com meu computador, mesmo conectado, sem me sentir fisgado. Nesse dispositivo, sinto que estou mais “no comando” do que em outros.

O fato de dispositivos mais portáteis terem cores mais vivas explica somente metade do problema. Será que o desenho dos aplicativos também auxiliam em tornar telefones mais viciantes? Infelizmente não tenho letramento suficiente em design ou programação para resolver essa questão. Quem souber explicar melhor, por favor, entre em contato pelo e-mail no rodapé desta publicação.

E por que comprar dispositivos minimalistas?

Além de ter tornado o meu telefone monocromático, também desinstalei aplicativos nativos da Google e de redes sociais, lhe tirei as notificações e o silenciei, mantendo somente o toque de chamada, para casos de urgência. Ao fim e ao cabo, o transformei em um “telefone minimalista”, algo próximo de um Mudita Kompakt.

Por mais que eu respeite bastante projetos como Mudita Kompakt e Light Phone por terem apresentado essa ideia, tenho por mim que o que empresas e estartapes de “telefones minimalistas” vendem não é smartphone, mas letramento digital. O que se compra, por exemplo, de um Mudita Kompakt não é o dispositivo, mas o tempo que se leva para configurá-lo de modo a ficar funcional e até privativo.

O objetivo de tratar dispositivos como ferramentas e não como brinquedos, como querem corporações tecnológicas, é, no fim das contas, uma atitude de anticonsumo.

Sendo assim, qual o sentido de gastar dinheiro com mais dispositivos? O melhor é entender como eles funcionam, como nos afetam e transformá-los naquilo que são: objetos. E, claro, compartilhar o saber-fazer e, como se tem feito na Europa, pressionar empresas de tecnologia para que produzam produtos que sejam feitos para durar, tendo o usuário e o meio ambiente como prioridades.

#tecnologia


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Cartum em que há um homem sem roupa em frente a uma plateia, que diz 'Cheguei em São Paulo em 1997, só com a roupa do corpo'

Imagem: André Dahmer.

Depois de um período um pouco autocentrado, publicando somente coisas minhas, volto a compartilhar alguns links, dicas e citações que coletei nos últimos ~2 meses. Alguns artigos são de assuntos, digamos, em baixa, mas que não deixam de ter alguma relevância. Outros até que são recentes, mas que passaram batidos por mim, e que pensei que, de qualquer forma, fosse interessante de mostrar ― vai que algum leitor destas Ideias é distraído que nem eu?

Linkroll

A maior parte da população leitora no Brasil é constituído por mulheres não brancas, é o que mostra a pesquisa Panorama do Consumo de Livros.

• Quem consome livros no Brasil? Os dados são surpreendentes (Farofafá).

Diego Lafuente reconstitui o fluxo da informação digital desde a era do BBS e pensa neste belíssimo ensaio como a Web e os hábitos podem se modificar a partir da IA:

I still write because writing helps me think. That may become the main reason to write. Not traffic. Not SEO. Not audience growth. Not discovery through search.

• The web is going to dissapear (minid.net)

Já reparou que os telefones modernos são pouco explorados ou até ignorados nos filmes dos últimos anos? Neste primoroso vídeo-ensaio, Eddache reflete sobre as razões pelas quais os diretores tomam essa decisão.

• Why Are Movies Afraid Of Phones? (Eddache ― Youtube).

Ensaio de Paula Lúcio sobre como a estética do agreste nordestino se formou e como se comunica.

• A gramática visual do sertão (Paula Lúcio ― Substack).

New York Times ranqueia os 48 hinos de nações da Copa (e dá primeiro lugar ao hino brasileiro!)

• Ranking all 48 World Cup national anthems (New York Times).

A arte da tradução, por mais enigmática que seja o sentido dessa expressão, tem, assim, um papel político importante, mas parece que hoje ninguém precisa dela, e não se trata de cinismo, (...) mas, antes, de absoluta impossibilidade de prestar atenção na arte em geral, qualquer que seja ela.

• Trocar tradutores por IA é retrocesso gigantesco para literatura (Dirce Waltrick do Amarante ― Folha de São Paulo).

Artigo bem humorado da Business Insider refletindo sobre as vantagens ~secretas de se ter um Kindle: desde ler “escondido” livros embaraçosos até não evidenciar posições políticas a partir de capas de impressos.

• Read Embarassing Kindle Books in Public (Business Insider).

Dica cultural

Loja de discos. Um homem cabeludo e de camiseta de banda de rock observa com aflição para uma mulher com roupas formais que analisa um disco que pretende comprar.

Cena de “Durval Discos” (2002), com participação especial de Rita Lee.

Ontem assisti outra vez ao “Durval Discos” (2002), um desses filmes brasileiros que, por alguma razão, não é tão conhecido, apesar de ser family-friendly e do gênero comédia. Com estreia da diretora Anna Muylaert, é um primor no quesito de técnica de fotografia, trilha sonora (parte de André Abujamra) e escrita de roteiro.

O longa-metragem nos mostra o cotidiano de Durval, um hippie quarentão que mantém uma loja de discos na frente de sua casa em um pacato bairro de Pinheiros, São Paulo, durante o fim dos anos 90. A indústria fonográfica de então investia mais e mais na produção de discos compactos (CD) em oposição aos discos de vinil (LP), a especialidade da loja Durval Discos.

Além do pouco movimento de vendas em seu comércio e da constante cobrança de clientes por CDs, Durval ainda tem que lidar com a gerência da casa. Solteiro, morando com sua mãe já envelhecida, o protagonista decide contratar uma trabalhadora doméstica ― uma jornada que o irrompe de sua rotina. A partir daí, os problemas em sua casa (e até na vida do bairro) escalam pouco a pouco. O clímax de “Durval Discos” foi um daqueles que mais me impactaram nos últimos 10 anos.

Disponível no Youtube.

• Durval Discos – Trailer (Youtube).

Citações

Cartum mostrando um homem sobre um palco de karaokê, atrás dele há o título 'song: 4'33'', artist: John Cage', uma composição na qual os instrumentistas não tocam absolutamente nada. Em primeiro plano há um homem que diz 'Esse cara de novo, não...'

Imagem: asher (via The New Yorker)

Todo mundo quer profetizar o futuro pós LLM baseado em livro de ficção científica, eu prefiro olhar para um campo do conhecimento humano que convive com tais máquinas pelo menos desde a década de 1990: o xadrez. O fato de existirem máquinas que jogam melhor que os humanos não acabou com o esporte e não extinguiu a profissão de enxadrista.

@felipesiles@ayom.media

Meu fácil me enfada. Meu difícil me guia. [...] O que eu sei fazer me entedia; o que não sei fazer me entristece.

― Paul Valéry.

The only way to keep your health is to eat what you don't want, drink what you don't like, and do what you'd rather not.

― Mark Twain.

#notas #tecnologia #cotidiano


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Escrevi o Manifesto Offpunk com @ploum@mamot.fr, mas tomei a liberdade de desenhar os signos que o anunciariam. Como não tenho certeza de que esses estão claros para todos, decidi dissertar um pouco sobre o porquê de minhas escolhas.

Alguns desses comentários vêm de conversas que tive com @diegopds@bolha.us ― que, aliás, escreveu um pouco sobre o meu texto.

O primeiro símbolo que pensei relacionado ao estar desconectado que pensei seria o ícone de rede sem fio com uma haste de proibição. Porém, lembrei já quase de imediato da moda oportunista, e rapidamente caída no ostracismo, da frase “Não temos wi-fi, conversem entre vocês” posta nos cafés e restaurantes dos primeiros anos da Web 2.0.

Queria, então, trabalhar com uma ideia ambígua a partir desse ícone, que não o anulasse, mas que, ao mesmo tempo, o subvertesse. A melhor opção, então, seria invertê-lo.

Por um lado a rede sem fio invertida lembra um pouco a pirâmide. Aí se estabeleceria um ideograma (isto é, dois ícones cruzados para dar ideia de um terceiro): a inversão por um lado indica que a conectividade sugere um exercício de poder (do usuário, que tem nesta um símbolo de prestígio, mas também das empresas de tecnologia, concentradoras do capital desse mercdo); por outro, “inverter” a rede é uma atitude iconoclasta, análoga a retirar-lhe a importância.

É como os ateus que invertem a cruz cristã. Assim como a cruz cristã invertida, o símbolo “Offpunk” apontam para o chão, para o inferno.

Há uma contradição no meio disso tudo: a internet sempre foi a promessa do transcendente; o sinal de wi-fi, porém, aponta para baixo, o que indicia o terreno e o imanente. O signo do Offpunk não resolve essa contradição, e até o perturba ainda mais: postura que almeja uma presença plena, apontando para cima, tende a dar, por sua vez, ideia de transcendência.

Porém, tudo isso vem de um esforço também de não se definir pela negação. Como dito há pouco, em um primeiro momento, rascunhei uma logo de “Proibido wi-fi”. Isso soaria como um discurso bem conservador. O “anti-tudo” não cria, só descria.

Mas o que me motivou mesmo a mantê-lo é que ele passa a ideia ploumiana de “offline-first”, como expresso em seu “Computador feito para durar 50 anos”. Ao ler o manifesto do Forever Computer, percebi que ir contra a conectividade compulsória e compulsiva não é defender o fim da internet, mas apropriar-se da conectividade e adequá-la ritmo da vida.

Como eu disse no Manifesto, o Offpunk enquanto estética ainda não é estabelecido. O ícone de rede invertida é o primeiro passo nessa direção.

#notas #tecnologia #cultura


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Sinal do Manifesto Offpunk, um símbolo de rede sem fio de cabeça para baixo.

A revolução não será digitalizada.

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Ao tempo que se aponta para a hiperconexão como um sintoma de um futuro inescapável, um movimento tímido e incômodo se insinua: o da desconexão proposital e propositiva. A adoção por “telefones burros” tem crescido nos últimos anos; câmeras digitais voltaram a ser utilizadas, assim como as fitas cassete e também as máquinas de escrever! Há também um estranho movimento de adoção do jornal... de papel. Até o minidisc, que foi esquecido por conta do tocador de .mp3, renasceu das cinzas

No início do século, a internet era a promessa do último ato da “Aldeia Global”, preconizado por Marshall McLuhan. Computadores, caros e escassos (por isso, às vezes, coletivos), eram portais de um além-mundo. Governos, despendendo um bom valor, buscavam garantir que classes pobres fossem “incluídas” digitalmente.

Chegamos lá. Agora caminhamos para a marca de três dispositivos conectados por pessoa em todo o mundo, segundo estimativas da Cisco Visual Network Index para a década de 2020.

O digital é ubíquo e tido como garantido. Inclusos digitais à revelia, já não nos conectamos mais à internet. Simplesmente vivemos nela.

Qual como se vestíssemos um uniforme, guardamos o telefone no bolso para trabalhar, para viver, para amar.

A tecnologia digital deixou de ser ferramenta para se tornar ambiente ― um ambiente do qual não se pode fugir. Isto é, uma prisão.


“Garantir o não digital é um dever, não um retorno ao passado”, Giulio Cavalli.


Neste cenário de conectividade compulsória, às vezes gratuita, a verdadeira dissidência não é burlar o sistema — é simplesmente recusar-se a fazer parte dele.

Como o escritor belga de sci-fi e desenvolvedor de software Ploum defende, os punks da nossa era são aqueles que ousam viver sem smartphone ― ou “offpunks”, como agora prefiro chamar.

Conexão como arma de guerra

Fruto de um desenvolvimento tecnológico centralizado e monopolista, a distribuição de internet ou de serviços digitais tornou-se uma arma de guerra. Quando países com hard power entram em conflito, buscam interromper não apenas o fornecimento de água e de gás ― cortam internet como tática bélica. A Rússia o fez em investidas contra a Ucrânia; Israel o faz dentro da Palestina.

No fim de 2025, o juíz francês Nicolas Guillou da Corte Penal Internacional perdeu todo o acesso a vários serviços digitais americanos ― como hospedaria, compras online e banco ― fornecidos por empresas americanas como AirBNB, Amazon e PayPal. Os Estados Unidos justificaram tal sanção porque Guillou abriu mandados de prisão contra o primeiro ministro israelense, Benyamin Nétanyahou, e seu ministro da defesa, Yoav Gallant, por conta de ataques israelenses de cunho genocida em território palestino. Os Estados Unidos são o principal país apoiador das ações de Israel na Ásia Central.

A postura offpunk nasce de uma constatação simples e incômoda: o reino do digital é frágil. Ao mesmo tempo, toda a vida social é forçosamente imbuída dentro desse ambiente. Logo, tal postura leva em consideração que é preciso não depender totalmente dos serviços virtuais sob o risco de um deles ser sancionado ou não estar disponível. Exemplos como a queda de servidores da Microsoft que impactou serviços bancários em todo o mundo em meados de 2024, a sanção do Twitter/X pelo governo brasileiro em fins de 2024, e a queda global dos servidores da Amazon e da Cloudfare em fins de 2025, que levou vários domínios na internet à queda, escancararam, não só a sua fragilidade, mas a nossa dependência a esses serviços.

Quando o sistema cai ― por sanção política, por pane ou por guerra ―, o que existe em linha simplesmente evapora. Fica-se de mãos amarradas se a única opção é o digital.

Afinal de contas, a conexão ininterrupta não é uma garantia, principalmente em países do Sul global ou sob conflito político interno ou externo, ou mesmo em situação de paz ― na cidade de São Paulo, Brasil, por conta de sua política de fornecimento de energia terceirizado da Itália, em dias de chuva possui constantes quedas de energia. Nesses territórios, é preciso sempre contar com o analógico como um plano B.

Minimalismo digital e offpunk

É preciso não confundir offpunk com minimalismo digital.

O minimalismo digital é uma abordagem liberal sobre a desconexão, totalmente voltado à autoagência, sem criticar estruturas de poder.

Como não se pode ter uma vida offline tranquila, tira-se dela todo o digital imersivo (ou “viciante”), a fim de se configurarem os ambientes conectados para serem simulacros de uma vida analógica. Off, ma non troppo.

O que precisamos mesmo é da possibilidade de uma desconexão total; o direito de ir e vir sem que precisemos de portar um telefone inteligente de última geração com carga de bateria e dados móveis suficientes a fim de estarmos conectados por 24/7.

Trine Syvertsen demonstra muito bem em seu “Detox Digital: a política da desconexão” (2020) como o minimalismo digital participa de uma agenda neoliberal de redirecionamento da responsabilidade de solução de problemas estruturais (anteriormente ao cargo de órgãos coletivos) para indivíduos comuns ― o usuário médio de um telefone moderno. Além disso, a autora identifica que o motivo pelo qual as pessoas buscam esse tipo de detox pode ser resumido em três pês: presença, produtividade e privacidade ― todas pautas individuais.

Ou seja, se você perde os momentos de socialização por conta do telefone, se não produz na empresa ou em projetos pessoais por conta de notificações ou se está de saco cheio de ser monitorado e objetificado pela Big Tech, isso tudo é culpa exclusiva sua por não se disciplinar o suficiente e nem estudar formas de torná-lo menos atraente ― não por conta de um modelo de negócios baseado em economia de atenção, vigilância em massa e software propositalmente viciante.

Essa delegação de responsabilidade por letramento coaduna com a leitura sobre a sociedade contemporânea feita do intelectual teuto-coreano Byung-Chul Han em seu “Agonia de Eros” que diz que

A autoexploração é muito mais eficiente do que a exploração alheia, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade.

Um outro sintoma dessa delegação de responsabilidade são totens de autoatendimento em supermercados, farmácias e bancos, que incumbem ao cliente a tarefa de fazer sua própria operação mercantil ou bancária, na maioria das vezes sem um auxiliar, fazendo o trabalho de um funcionário e sem ganhar nenhum desconto na compra; caso se cometa um erro durante a compra, isso vai para a conta do cliente, não para a empresa.

O offpunk, ao contrário, por mais que seja um comportamento provindo de um alto letramento digital, defende uma desconexão despretensiosa, sem o prejuízo de se estar à margem de atividades sociais e do exercício da cidadania.

Por fim, enquanto que o minimalismo digital vê a desconexão como um meio de produzir mais, o offpunk não vê o detox digital como um meio de maior produtividade, porque na verdade ele é uma atitude de anticonsumo.

Definições

Offpunk não é um estilo de vida. É uma postura diante do digitalização, é a busca por uma coletivização possível do detox digital, explorando o caráter político-social da desconexão. Ela reinvidica o lazer, a cidadania e a comunicação sem a obrigatoriedade de um intermediário digital; não luta pelo fim da internet, mas batalha por uma vida possível sem a conexão ininterrupta.

E como postura que é, o offpunk está mais próximo de uma tática secular, como a meditação e a guerrilha.

Além disso, percebe-se que cada vez mais os meandros do trabalho moderno, mesmo aqueles que envolvem atividades analógicas, como o ensino, estão cada vez mais invadidos por processos digitais. Na década de 2020, o uso comum da internet só pode ser associado ao trabalho, ao tempo que a desconexão só pode ser associada ao lazer.

Desse modo, uma postura offpunk defende a vida além do trabalho.

Paradoxalmente, todas essas camadas desnecessárias de digitalização em nosso cotidiano tornam a interação analógica e direta cada vez mais eficaz ou fluida na solução de nossos problemas do dia a dia (ver “instrumentos offpunk”).

São offpunks: uma adolescente que adota um telefone básico e ingressa em um clube ludista; um audiófilo que, insatisfeito com o Spotify, decide adquirir um toca-discos ou um tocador de mp3; um expert que utiliza sistemas ciberseguros minimalistas; militantes que lutam contra a obsolescência programada, que instalam Linux ou ROMs dedicadas em dispositivos que poderiam ser descartados; um trabalhador autônomo que desativa redes sociais comerciais como Instagram e Facebook para se concentrar em seus clientes diretos; uma pessoa idosa que resiste ao telefone inteligente e que consegue meios de driblar a digitalização.

Offpunk não é nostalgia. Não é tecnofobia ingênua nem fuga romântica para um passado imaginário. É, antes de tudo, busca por soberania e autoagência. Parafraseando o escritor brasileiro Eduardo Fernandes, enquanto offpunk,

Revolução tecnológica não é revolucionária, desatualizar não é reacionário.

A estética offpunk

O offpunk ainda não tem um rosto, mas temos algumas pista de como ele pode ser. A primeira delas pode vir de uma definição recente de Ploum sob sua própria ação na internet: “techpunk”, um tecnófilo antissistema.

Como falado anteriormente, offpunk trata-se de uma postura diante do estado de tecnologia no mundo contemporâneo, não de uma utopia/distopia ou uma estética visual que participam de um movimento cultural mais abrangente como “solarpunk” ou “cyberpunk”.

Alguns exemplares offpunk:

1) na informática, o navegador Offpunk, para protocolo Gemini, que batiza este manifesto;

2) no design, o conceito de “Forever Computer” e o telefone Mudita Kompakt;

3) na sociedade, o clube ludista de Nova York;

4) na literatura, “Bikepunk” (2025);

5) no cinema, “Uma Batalha Atrás da Outra” (2025).

Em Uma Batalha Após a Outra, a “obsolescência”, o downgrade é uma estratégia de liberdade. Os personagens recorrem a aparelhos velhos e modificáveis pra criar uma rede de comunicação e segurança paralela. Quando as tecnologias recentes (como smartphones) aparecem, são pra colocar a vida em risco, pra reprimir e impedir planos de se concretizarem.

Eduardo Fernandes (Texto Sobre Tela).

No filme teuto-japonês “Dias Perfeitos” (2023), assistimos à rotina idílica de Hirayama, um zelador da Tokyo Project de banheiros públicos, que nas horas livres tira fotos com filme, ouve música com fita cassete, pedala, lê um livro antes de dormir e aprecia cada momento de seus dias ― desconectado e muito-bem-obrigado.

O Japão, famoso por ser um país que consegue equilibrar o moderno e o tradicional, provém totens de pagamento em dinheiro vivo, comunicação empresarial via telefonia pública, retrocomputação utilizada por grandes empresas ― como fax e disquete. Na Índia, onde há talvez o melhor serviço de telefonia do mundo, o cidadão médio faz em torno de 90 ligações por dia.

Reinvidicações

São pautas relacionadas ao offpunk:

1) o combate contra a superprodução;

2) o combate contra a obsolescência programada;

3) o combate contra a “internet das coisas”, buscando quebrar o círculo vicioso entre dispositivos interconectados que tomam nosso tempo e sugam nossos dados a fim de alimentar Big Data;

4) o combate contra economia de atenção;

5) a redução da escala de trabalho, que pouco a pouco enfia cada vez mais a atividade laboral no campo virtual;

6) o direito ao lazer, à cidadania e ao trabalho sem a necessidade de um dispositivo digital;

7) a emergência de uma inclusão digital plena das classes mais pobres e de populações idosas, o que conta não só com a acessibilidade de um dispositivo eletrônico, mas também com o letramento digital para a utilização e manutenção autônomas desse mesmo dispositivo, visando uma menor dependência de terceiros.

Defende o colunista italiano Giulio Cavalli:

É verdade: a digitalização simplifica, agiliza, e uniformiza procedimentos. Mas somente para quem consegue estar dentro dela. Para todos os demais o futuro é uma porta fechada.

“Garantir o não digital é um direito, não um retorno ao passado” (lettera43)

Instrumentos offpunk:

1) o dinheiro vivo ― é prático, não demanda nem de eletricidade e nem de internet e garante que os dados pessoais não sejam armazenados, agregados ou revendidos em/por sistemas de Big Data;

2) meios analógicos ― garantem que uma comunicação independente da internet seja possível ou que o objeto seja de fato seu (e não alugado), pois tangível: discos, livros, rádio, jornais impressos;

3) meios digitais revividos, independentes e descentralizados ― e-mail, sites “brutalistas” de baixo custo, feed RSS, câmeras digitais, tocadores de mp3/mp4, telefones “burros”;

4) meios de armazenamento e transferência de arquivos ― garantem que dados digitais não sejam surrupiados com uma eventual queda de conexão ou que dependam da boa vontade de uma servidor proprietário: discos rígidos, cartões de memória, pendrives, serviços de nuvem autogeridos e locais.

5) protocolos de comunicação alternativa: mensageiros via Bluetooth (Bitchat), Gemini, e-mail criptografado, navegação em cebola (Tor), XMPP.

Desafios:

1) ultrapassar as conveniências do digital (pesquisa, tradução de textos, entretenimento fácil, pagamento à distância);

2) acessar espaços sociais que requerem cada vez mais um dispositivo digital (concertos, estacionamentos, cinemas, estádios ou clubes esportivos, restaurantes);

3) fazer redes de trabalho sem intermédio do digital.


Defendemos o direito inegociável a um mundo não digital, o direito de compartilhar sem intermédio de algoritmos, e de se organizar socialmente sem plataformas centralizadas, e o direito de resistir ao imperativo da presença em linha.

Enquanto houver monopólio de tecnologia nas garras de umas poucas empresas do Norte Global; enquanto houver vigilância de massa com anuência do Estado; enquanto houver coleta massiva de dados ― e a ausência de transparência quanto ao uso dos dados coletados ―; enquanto houver economia de atenção, que usurpa o nosso valioso tempo livre a fim de que vejamos alguns anúncios em serviços digitais essenciais; enquanto houver infraestruturas impedindo a soberania digital em países do Sul global; enquanto houver digitalização compulsória em um mundo onde a internet não é tratada como direito básico inalienável ― a revolução não será digitalizada.

Este texto foi escrito originalmente em português e é assinado por Arlon de Serra Grande e Lionel Dricot (t.c.c @ploum@mamot.fr).

Verão de 2026.

#tecnologia


CC BY-SA 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter


Logo of offpunk Manifesto, a up-side down symbol of wireless internet

The revolution will not be digitized.

Versão em portuguêsVersion française

At a time when hyper-connectivity is pointed to as a symptom of an inescapable future, a shy and uncomfortable movement is insinuating itself: that of purposeful and intentional disconnection. The adoption of “dumb phones” has grown in recent years. Digital cameras are being used again. As are cassette tapes. And also typewriters... There is also a movement towards adopting the newspaper. Even the minidisc, forgotten because of the mp3 player, has risen from the ashes.

At the beginning of the century, the internet was the promise of the final act of the “Global Village,” advocated by Marshall McLuhan. Computers, expensive and scarce (hence, sometimes communal), were portals to an otherworld. Governments, spending considerable sums, sought to ensure that poor classes were digitally “included.”

We got there. We are now heading towards the mark of three connected devices per person worldwide, according to Cisco Visual Network Index estimates for the 2020s.

The digital is ubiquitous and taken for granted. Included digitally whether we like it or not, we no longer connect to the internet. We simply live in it.

As if wearing a uniform, we keep our phones in our pockets to work, to live, to love.

Digital technology has ceased to be a tool and has become an environment — an environment from which one cannot escape. That is, a prison.


“Ensuring the non-digital is a duty, not a return to the past,” Giulio Cavalli.


In this scenario of compulsory, sometimes unnecessary, connectivity, true dissent isn't bypassing the system — it's simply refusing to be part of it.

As the belgian sci-fi writer and software developer Ploum argues, the “punks” of our era are those who dare to live without a smartphone — or “offpunks,” as I now prefer to call them.

Connection as a Weapon of War

The result of centralized, monopolistic technological development, the distribution of internet or digital services has become a weapon of war. When countries with “hard power” enter conflict, they seek to disrupt not only water and gas supplies — they cut off the internet as a wartime tactic. Russia did so in offensives against Ukraine; Israel does so within Palestine.

At the end of 2025, French judge Nicolas Guillou of the International Criminal Court lost all access to several American digital services — such as hosting, online shopping, and banking — provided by American companies like Airbnb, Amazon, and PayPal. The United States justified this sanction because Guillou issued arrest warrants against Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu and his Defense Minister Yoav Gallant, due to Israeli attacks of a genocidal nature in Palestinian territory. The United States is the main country supporting Israel's actions in Central Asia.

The offpunk stance is born from a simple and uncomfortable observation: the digital realm is fragile. At the same time, all social life is forcibly embedded within this environment. Therefore, this stance takes into account that one must not depend entirely on virtual services, at the risk of one of them being sanctioned or becoming unavailable. Examples like the Microsoft server outage that impacted banking services worldwide in mid-2024, the sanction of Twitter/X by the Brazilian government in late 2024, and the global outage of Amazon and Cloudflare servers in late 2025, which took down numerous domains on the internet, laid bare not only its fragility but also our dependence on these services.

When the system goes down — due to political sanction, outage, or war — what exists online simply evaporates. You are left helpless if your only option is digital.

After all, uninterrupted connection is not a guarantee, especially in countries of the global South or those under internal or external political conflict, or even in peace situation ― in the city of São Paulo, Brasil, due to its policy of outsourcing its energy supply from Italy, there are frequent power outages on rainy days. In these countries, one must always count on analog as a Plan B.

Digital Minimalism and Offpunk

It's important not to confuse “offpunk” with digital minimalism.

Digital minimalism is a liberal approach to disconnection, entirely focused on individual agency, without criticizing power structures.

Since a peaceful offline life is not possible, it strips away all immersive (or “addictive”) digital elements from it, in order to configure connected environments to be simulacra of an analog life. Off, ma non troppo.

What we truly need is the possibility of total disconnection; the right of going around without the needing of carrying the newest smartphone and being available for 24/7 communication.

Trine Syvertsen demonstrates very well in her “Digital Detox: The Politics of Disconnecting” (2020) how digital minimalism participates in a neoliberal agenda of shifting the responsibility for solving structural problems (previously the purview of collective institutions) onto ordinary individuals — an average user of a modern phone. Furthermore, the author identifies that the reason people seek this type of detox can be summarized by three P's: presence, productivity, and privacy — all individual agendas.

In other words, if you miss moments of socialization because of your phone, if you don't produce at work or on personal projects due to notifications, or if you're fed up with being monitored and objectified by Big Tech, it's all exclusively your fault for not disciplining yourself enough and not studying ways to make it less appealing — not because of a business model based on the economy attention, mass surveillance, and by-design addictive software.

This delegation of responsibility for literacy aligns with the German-Korean intellectual Byung-Chul Han’s analysis of contemporary society in his book The Agony of Eros, in which he states that

Self-exploitation is far more efficient than exploitation by others, as it goes hand in hand with a sense of freedom.

Another symptom of this delegation of responsibility is the self-service kiosks found in supermarkets, pharmacies, and banks, which entrust customers with the task of conducting their own retail or banking transactions, most often without an assistant, doing the work of an employee and without receiving any discount on their purchase; if a mistake is made during the transaction, it is charged to the customer’s account, not the company’s.

Offpunk, on the other hand, even though it's a tech-savvy behavior, advocates for unpretentious disconnection, without the detriment of being on the edge of social activities and the exercise of citizenship.

Finally, while digital minimalism sees disconnection as a means to produce more, offpunk does not view digital detox as a means to greater productivity, because it is, in fact, an attitude of anti-consumption.

Definitions

Offpunk is not a lifestyle. It is a stance towards digitalization, the pursuit of a possible collectivization of digital detox, exploring the social and political character of disconnection. It reclaims leisure, citizenship, and communication without the obligation of a digital intermediary; it does not fight for the end of the internet, but battles for a practible life without uninterrupted connection.

And as a stance, offpunk is closer to a secular tactic, like meditation and guerrilla warfare.

Furthermore, it is noticeable that the intricacies of modern work, even those involving analog activities like teaching, are increasingly invaded by digital processes. In the 2020s, the common use of internet can only be associated with work, as disconnection can only be associated with leisure.

Thus, an offpunk stance defends life beyond work.

On the other hand, with so many unnecessary layers of digitalization in our daily lives, at certain moments one finds in the analog more fluid and direct means of solving problems (read the section “offpunk instruments”).

Offpunks include: a teenager who adopts a basic phone and joins a luddite club; an audiophile who, dissatisfied with Spotify, decides to acquire a record player or an mp3 player; an expert who uses cybersecurity systems; those who fight electronic device obsolescence by installing Linux or custom ROMs on their devices; a self-employed worker who deactivates their commercial social media like Instagram and Facebook; an elderly person who resists using smartphone and finds ways to circumvent digitalization.

Offpunk is not nostalgia. It is not a naive technophobia nor a romantic escape to an imaginary past. It is, above it all, a search for sovereignty and self-managing. Paraphrasing Eduardo Fernandes, as an offpunk:

Technological revolution is not revolutionary, becoming outdated is not reactionary.

The Offpunk Aesthetic

Offpunk doesn't have a face yet, but we have some clues as to what it might look like. The first one might come from a recent definition by Ploum of his own action on internet: “technopunk,” an anti-system technophile.

As mentioned earlier, offpunk is about a stance towards the state of technology in the contemporary world, not an utopia/dystopia or a visual aesthetic that participate of wider cultural movement such as “solarpunk” or “cyberpunk.”

Some offpunk examples:

1) in computing, the Offpunk browser for the Gemini protocol, which names this manifesto; 2) in design, the concept of the “Forever Computer” and the Mudita Kompakt phone; 3) in society, the New York Luddite Club; 4) in literature, “Bikepunk” (2025); 5) in cinema, “One Battle After Another” (2025).

In One Battle After Another, “obsolescence,” the downgrade is a strategy for freedom. The characters resort to old, customisable devices to create a parallel communication and security network. When new technologies (such as smartphones) emerge, they’re meant to put lives at risk, to suppress people, and to prevent plans from coming to fruition.

Eduardo Fernandes (Texto Sobre Tela).

In the German-Japanese film “Perfect Days” (2023), we watch the idyllic routine of Hirayama, a cleaner for the Tokyo Project public toilets, who, in his free time, takes photographs, listens to music on cassette players, rides a bicycle, reads books before sleeping, and appreciates every moment of his days — disconnected and doing fine.

Japan, famous for being a country that manages to balance the modern and the traditional, provides cash payment kiosks, business communication via landline telephone, retrocomputing used by large companies — like fax and floppy disks. In India, which perhaps has the best telephone system in the world, the average citizen makes around 90 calls per day.

Demands

Issues related to offpunk include:

1) the fight against overproduction;

2) the fight against planned obsolescence;

3) the fight against the “internet of things,” seeking to break the vicious circle of interconnected devices that consume our time and drain our data to feed Big Data;

4) the fight against the economy attention;

5) reducing working hours, which gradually push labor activity further into the virtual field;

6) the right to leisure, to citizenship, and to work without the needing of a digital device;

7) the urge of a wide inclusion of the poorest and elderly segments of the population to the digital world, which depends not only on acessing an electronic device but also on digital literacy for their independent use and maintenance of that device, aiming a decreasing dependence on others.

Italian columnist Giulio Cavalli argues:

It's true: digitalization simplifies, speeds up, and standardizes procedures. But only for those who can be part of it. For everyone else, the future is a closed door.

“Ensuring the non-digital is a right, not a return to the past” (lettera43)

Offpunk Instruments:

1) cash — it's practical, requires neither electricity nor internet, and ensures personal data isn't stored in Big Data systems;

2) analogue media – ensure that communication independent of the internet is possible, or that the item is actually yours (and not rented), as it is a physical object: records, mp3/mp4 players, radio, printed newspapers;

3) revived digital media — email, low-cost “brutalist” websites, digital cameras, “dumb” phones;

4) file storage and transfer media — they ensure digital data isn't lost in the event of a connection outage: hard drives, memory cards, USB drives, self-managed local cloud services;

5) alternative communication protocols: messengers via Bluetooth (Bitchat), Gemini, encrypted email, onion browsing (Tor), XMPP.

Challenges:

1) overcoming digital conveniences (searching, text translation, easy entertainment, remote payment);

2) accessing social spaces permitted or facilitated only through digital means (concerts, cinemas, restaurants);

3) building professional networks without digital intermediation.


We defend the non-negotiable right to the non-digital. The right to share without the intermediation of algorithms, to organize socially without the mediation of platforms, to resist the imperative of online presence.

As long as a handful of companies in the Global North maintain a monopoly on technology; as long as mass surveillance continues with the state’s consent; as long as there is widespread data collection — and a lack of transparency regarding the use of the collected data — ; as long as there is an economy attention that usurps our valuable free time to force us view some ads on essential digital services; as long as there are infrastructures hindering digital sovereignty in Global South countries; as long as there is compulsory digitalization in a world where the internet is not treated as a basic, inalienable right — the revolution will not be digitized.

This text was originally written in Brazilian Portuguese and is signed by Arlon de Serra Grande and Lionel Dricot (a.k.a. @ploum@mamot.fr).

Fall 2026.

#tecnologia


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que mais parece um blogroll.

Um notebook submerso na água de rio

Com o novo formato de posts que estou mantendo na aba Recados, não creio que seja muito interessante eu voltar a escrever microposts nas Notas Costuradas. Ao menos desta vez, irei compartilhar somente laços que acumulei nos últimos tempos.

20 palavras japonesas para a chuva

Miya Ando colecionou e ilustrou em livro 2000 palavras e expressões japonesas relacionadas à chuva. O MIT Press publicou ao menos 20 delas no laço abaixo:

• 20 Japanese Words for Rain (The MIT Press Reader).

Algumas dessas expressões são:

Kabashira Tateba, Ame: observar uma nuvem de mosquitos ― sinal de chuva;

Giu: chuva falsa;

Ama ga Nukeru: o céu abre, aí chove canivetes;

Kitsune no Yomeiri: o dia quando as raposas têm a sua cerimônia de casamento (talvez se referindo à chuva com sol);

O que é interessante nesse tipo de texto é notar o quanto as línguas se adequam ao ambiente do falante. É como pensar nos dialetos nordestinos e na quantidade de expressões que se tem para falar do sol, do calor e das formas do vento.

Arrobas Pralamentar

Sítio que divulga nomes de parlamentares que votaram em projetos de lei impopulares e suas formas de contato (e-mail e redes sociais), além de outras informações, como partido político e onde foi eleito.

• Arrobas Pralamentar: O pior congresso da história, por enquanto...

Um soco inglês com materiais imitando dentes e gengiva

O quão pior a internet pode ficar?

A teoria da enshittification de Cory Doctorow parte da premissa de que criamos uma maravilha tecnológica e que a ganância corporativa a arruinou. Mas e se não for esse o caso?

Resenha do romancista e ensaísta estadunidense Jacob Bacharach do livro “Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It”, de Cory Doctorow.

• O quão pior a internet pode ficar?, por Jacob Bacharach (Carbono ― UFRGS)

Linhas nada positivas sobre o livro, mas reflexões muito boas. Me junto completamente à “resenha desta resenha” escrita pelo sol2070.

Computação e ergonomia

When interfacing is painful, change yourself or change the computer? The Body and The Computer: Customizations, hacks, unlikely imaginings. How we make computers and computers make us.

Um bloco do Are.na que encontrei outro dia. Uma coletânea de imagens com projetos de ergonomia computacional ou de computação curiosa. Um “bloco” seria o conjunto de ideias, laços, pdfs, vídeos e sons que cada usuário do are.na reune em torno de um só recipiente. O Are.na é um sítio ao qual vou quando quero explorar, recomendo bastante.

• Are.na / Fletcher Bach / Ergonomic Computing

Smartphones fantásticos

Uma série de instalações interativas desenvolvidas por estudantes do bacharelado em Design de Mídia e Interação do Écal, investigando de maneira crítica e distanciada nossa relação com os smartphones e a maneira com a qual eles influenciam nosso comportamento cotidiano.

• Fantastic Smartphones (École Cantonale d'Art de Lausanne ― ÉCAL)

Mantendo os disquetes vivos

Há uma corrida contra o tempo para salvar tesouros históricos presos em antigos disquetes

Matéria da Folha de São Paulo falando sobre o trabalho hercúleo de pesquisadores para manter o arquivo digital do cientista Stephen Hawking, que foi um early adopter do computador pessoal e sempre salvou suas coisas em mídias removíveis ― agora abandonadas.

• Os disquetes esquecidos de Stephen Hawking por trás da corrida para evitar 'Idade das Trevas' digital (Folha de São Paulo).

Quem olhará pelos orelhões?

Pequeno documentário amador sobre a história dos telefones públicos no Brasil, os chamados “orelhões”.

Desde que vi este vídeo, peguei uma obsessão por “retrotelefonia”, telefones fixos, memórias associadas à ligações etc. Ando até mesmo pensando em comprar um telefone fixo. Me julguem!

• O auge e a queda dos orelhões no Brasil (Canal 90 ― Youtube).

Uberizando

Texto dA Pública mostrando os critérios absurdos da Uber para cobrar mais em viagens ― ao tempo que paga menos aos motoristas.

• O que você deve fazer para pagar menos no Uber – e aprender no caminho (Natalia Viana ― A Pública)

Geriatria da tecnologia

Como o filme Uma Batalha Após a Outra retrata a guerra entre tecnologias.

Eduardo Fernandes reflete sobre como temos de lidar com camadas e mais camadas de tecnologias e como velhas tecnologias estão se tornando “resistência” na era da ultradigitalização.

Geriatria da tecnologia (Texto Sobre Tela ― Substack).

Cada homem é árbitro de suas próprias virtudes.

― William Faulkner em “O Som e a Fúria”.

#notas #cultura #tecnologia


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Filipe Saraiva, desenvolvedor e veterano fediversal, fala sobre por que abandonou o Micro.blog, uma plataforma social dentro do ecossistema ActivityPub ― t.c.c. Fediverso.

• RT/Boost/Repost é um componente prejudicial para redes sociais “tranquilas”? (filipe.saraiva.tec.br).

Com “tranquilas” Filipe faz menção àquelas redes que

desabilitam funcionalidades viciantes, que fazem com que o usuário fique cada vez mais tempo na plataforma, e também funcionalidades que o estimulam a criar uma “audiência” cada vez maior em torno do conteúdo.

Filipe teve o lampejo desse suposto efeito danoso dos compartilhamentos automáticos (chamado de “RT” em seu texto) desde que começou a frequentar Micro.blog.

Micro.blog, como seu próprio nome diz, é tipificado como microblogue, mas, ao contrário de seus análogos Twitter, Threads, Bluesky e Mastodon,

doesn’t have like counts or follower counts. It’s not a popularity contest

Isso mesmo. No seu fluxo principal, não mostra número de favoritos, compartilhamentos e comentários. Nem mesmo a contagem de seguidores. Somente as publicações de seus membros. Só. That's all, folks. C'est tout.

Não obstante, também não incentiva o compartilhamento automático. Como mostrado no laço do blogue do Filipe Saraiva do início deste texto, quem quiser compartilhar a publicação de um “microblogueiro”, que insira o endereço da publicação na caixa de texto.

Assim, a seco, Micro.blog manifesta sua ojeriza ao número virtual e entra na escassa lista de redes sociais que não têm em si o número como incentivo para a interação virtual ou termômetro de um perfil. Dentro dessa mesma lista só se encontrariam o Lemmy e algumas plataformas de macroblogue, entre as quais o WriteFreely, aquele pelo qual publico neste exato momento. O WriteFreely mesmo, só registra o número de visitas em uma página, visível somente para aquele que publicou.

O Instagram mesmo há um tempo deu a possibilidade de ocultar o número de curtidas dos posts. A razão?, não é clara, alguns dizem que é para diminuir a pressão de comparar-se com outro perfil, um argumento insatisfatório, já que ainda há o número de seguidores a serem comparados; outros interpretam que é uma tentativa da rede para se focar mais no conteúdo. A minha hipótese é de que não se queria que empresas que fossem divulgar sua marca na rede social ficassem “abaixo” dos influenciadores, que carregam em si milhares de seguidores.

Seja como for, a simples presença do registro de atividades em uma plataforma social muda completamente nossa relação com os seus membros. Com a presença de empresas nas redes sociais, bem como de influenciadores (indivíduos que têm introjetado a lógica empresarial), o número tomou outro teor dentro dos social media.

Entre um dos efeitos diretos do número em redes sociais, eu apontaria para o incentivo à

performance

Isso porque há um ímpeto no usuário de que ele alcance mais números. Com a contabilidade de seguidores, curtidas, compartilhamentos e tudo quanto, o usuário deixa de ser um membro de uma comunidade para se tornar um empresário de um mercado.

A numerabilização incentiva a competição. Sem a contabilização, não há corrida, corre-se às cegas, sob especulações. Através da contabilização há o mercado, há a bolsa de valores, há o ranqueamento da “qualidade” de ensino de escolas privadas. O número possibilita a comparação e, por conseguinte, a competição. E em uma rede social não se compete outra coisa que não audiência ― alcançada através da performance de uma personalidade unívoca e monotemática. Daí essa infinidade de

perfis nichados

que se encontra no TikTok, Twitter, Youtube. Nas redes sociais voltadas à perfilagem, identidades saltam aos olhos; o usuário larga mão de sua profundeza pessoal para performar uma identidade coesa, sem manifestação de interesses e de problemas vários.

Se a uniformização identitária não resolve, performa-se uma irreverência que se traduz em ragebait, provocações, polemismos baratos.

Em plataformas nas quais o anônimo (o perfil não numerificado) é mais presente, tende-se a ter um espaço mais pacífico e mais resistente à performatividade e ao ragebaitimo; isso é o que percebo em espaços como o Órbita, fórum do Manual do Usuário, no Lemmy, principal rede fediversal de discussão, e nos fios do Gemini, protocolo de internet que tem, como veículo principal, o texto.

Por falar em identidade, outra consequência não tão evidente da contabilização nas redes sociais é o

foco na atividade individual em lugar da coletiva.

Em um fluxo linear de publicações de estilo “microblog”, seja algorítmico, seja cronológico, ainda que intuitivamente, sua estrutura faz focar, não em comunidades, mas em perfis individuais. Esses perfis forçosamente não chamam atenção para questões coletivas, mas em questões pessoais; mesmo quando se exprime a respeito de questões coletivas, o que está em primeiro plano é sua relação pessoal com essa questão coletiva. Nesses fluxos, a terceira pessoa (”você”, “vocês”) fica em segundo plano; resta em primeiro, a primeira pessoa (“eu”, o “nós”). Aqui satura-se a opinião, nunca o diálogo. Satura-se o indivíduo, nunca a comunidade. A

cultura do influenciador

mesmo, tão combatida no Fediverso, é um efeito colateral das redes sociais numéricas. Quando se salienta o indivíduo em lugar de uma comunidade, surge o desejo de influenciar, de reger sobre o comportamento do outro. Afinal de contas, é difícil haver diálogo em um espaço em que há a amplificação de vozes individuais.

“E o blogue?”

você deve me perguntar.

O blogue é também a amplificação de uma voz individual, mas não está organizado no espaço virtual em um recipiente coletivo. Claro, o próprio WriteFreely é uma espécie de blogue de blogues. Mesmo assim, é difícil haver uma competição entre dois perfis writefreelyanos, até pela escassez de perfis.

Cada blogue e cada sítio blogueiro adquire o seu próprio direito de existir; respeita a horizontalidade do espaço virtual; e, como se não bastasse, tende a apontar para outros. A natureza blogueira é hipertextual, não autorreferencial, como perfis microblogueiros de um Twitter ou de um Mastodon ― que, inclusive, por não aderirem a linguagens de formatação como HTML e Markdown, não comportam bem hyperlinks.

Além disso, o blogue, por princípio, não é numérico; não põe a nu os números de visitas e de compartilhamentos; não pode ser comparado um ao outro, porque, para isso, todos deveriam ter estruturas e registros estatísticos similares.

Explorados os problemas da contabilização nas redes sociais, faço agora eco à preocupação de Filipe Saraiva quanto aos

compartilhamentos automáticos.

Quando entrei no Mastodon em meados de 2023, imaginava encontrar um espaço virtual “tranquilo” ― no conceito de Filipe. Apesar de ter uma linha de fluxo cronológica, as publicações eram organizadas de forma caótica. Não havia o menor sentido de ler sobre uma publicação de food porn ou gatinhos seguida de uma notícia de Gaza ou do avanço do fascismo nos Estados Unidos. Estamos tão insensibilizados com o atual estado da internet que não percebemos o absurdo que é organizar as informações dessa forma, em uma só cumbuca.

Uma maneira que encontrei de “neutralizar” e até de tornar o Mastodon mais interessante era “garimpando” perfis. Era o que eu costumava fazer mesmo no meu tempo de Twitter pré-algoritmo. Conhecendo um usuário interessante, eu tendia a perscrutar sua atividade, observar quais perfis seguia, quais publicações compartilhava, com quais pessoas interagia. Isso fazia com que eu criasse uma rede comunitária mesmo em um espaço que tem em primeiro plano a dinâmica individual sobre a coletiva.

Em outras palavras, o que eu buscava era

“bloguificar” o microblogue.

Daí, passei a criar listas de perfis e etiquetas (#), que acabavam por se assemelhar às comunidades do Lemmy: havia coerência, previsibilidade e recursividade. Se eu quisesse ler sobre geopolítica, buscava perfis sobre esse tema; se queria ver memes, abria um perfil que estava de bom humor; se queria ver recomendações de filmes, seguia a etiqueta temática # tercinema, na qual os membros de comunidades mastodontes indicam filmes sobre um determinado tema, debatido em enquetes.

Tudo era lindo, maravilhoso, delicioso, uhu... mas aos poucos fui cansando. A internet, como os recursos elétricos em geral, até um certo ponto nos permite configurar seus ambientes ao nosso bel-prazer. O problema é que as coisas “raqueadas” funcionam feito gambiarras. É possível frequentar o Mastodon como um espaço no qual o indivíduo não esteja em destaque, mas isso demanda paciência e letramento.

Mais fácil seria então manter

um blogue “de verdade”.

Afinal, coerência, previsibilidade e recursividade são da natureza blogueira. Além disso, introvertido que sou, eu não estava mais interessado em trabalhar para manter uma audiência em rede social.

Nesse ínterim, recuperei meu interesse em fóruns de discussão, um tipo de espaço que frequentei bastante quando era adolescente. Em um fórum, nunca se veem opiniões empurradas goela abaixo, nem piadas forçadas, lamentações ou ragebait― porque aí o indivíduo está em segundo plano.

Passei então a abrir mais o meu e-mail (doravante “e-meio”), por onde eu recebia comentários do meu blogue e notificação de respostas em fóruns de discussão, e a seguir mais as publicações por RSS, por onde eu acompanhava sítios de que gosto.

Assim estabeleci o

meu guia de orientação de atividade virtual

que é basicamente:

  1. evitar plataformas que tenham fluxo de publicações algoritmado ― como Instagram, Tiktok e Youtube;

  2. evitar redes que tenham um fluxo de publicações centralizado e que não deem a oportunidade de o usuário fazer a sua própria curadoria refinada de conteúdo ― como Instagram e TikTok;

  3. evitar redes que foquem em expressão em detrimento do diálogo ― Mastodon, Instagram e tudo quanto;

  4. manter a atividade principal em mídias que não destaquem o registro numérico da atividade dos usuários: RSS, blogue, fóruns e mensageiros (o e-meio incluso).

Para além dessas diretrizes, sempre busco como que “raquear” a estrutura das redes: costumo usar o Freetube, que permite assistir a vídeos do Youtube sem propagandas e que dá a oportunidade de criar listas mesmo sem ter um perfil na plataforma; e visito o Imginn quando preciso visitar um perfil do Instagram sem estar logado nessa rede.

Não estou mais interessado em aparecer, mas sim em fazer aparecer o outro na minha palavra.

Só me interessa o que não é meu

― Oswald de Andrade.

#tecnologia


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Um homem de pé diante de um computador de mesa; ao fundo, um espaçoso apartamento

Imagem: cena de “Her” (2013).

Ressalva. Em meados deste ano, assisti ao filme “Her” e durante a assistida, redigi algumas notas em um gravador de voz, a partir das quais eu gostaria de organizar uma crítica melhor organizada. Como o filme já foi bastante discutido, decidi que não valeria a pena tanto o esforço ― além de que as notas, como vocês verão, estão suficientemente estruturados, apesar da coloquialidade que não é comum na minha escrita. Por conta do filme ser bastante conhecido, me abstenho de qualquer introdução sua. Tentei deixá-las quase da mesma forma que foram transcritas automaticamente, somente com algumas adições e revisões de algumas expressões que o programa áudio-transcritor não conseguiu compreender bem.

Notas de voz sobre “Her” (2013)

Após 12 anos, desde o lançamento de “Her”, estamos cada vez mais próximos de criar um sistema operacional baseado em inteligência artificial. Então é a hora de discutir como poderia ser essa inteligência artificial.

Nas primeiras vezes em que lhe assisti, encantou-me a estética, sobretudo a fotografia e o setape de computadores que aparecem no filme. Todo o longa-metragem foi recebido por mim e por outros tecnófilos quase como uma espécie de futuro desejado.

A partir do atual estado de arte da sociedade e da tecnologia ― e sobretudo da inteligência artificial ―, outros lampejos me surgiram. Chamou-me atenção em especial em como é representado sua sociedade: inapta a expressar amor, necessitada de um redator profissional para redigir cartas afetuosas, uma necessidade provinda sobretudo de pessoas mais velhas. Além disso, há nesse cenário um fundo pouco explícito, mas hoje em dia conjecturável por conta das BigTech, no qual empresas lucram com solidão em massa.

Mas, por outro lado, vejo um ideal de relação entre tecnologia e seres humanos em “Her”: uma relação amigável, de acolhimento e de confiança, na qual o dispositivo é sobretudo uma ferramenta responsiva, ainda que tenha “sentimentos”.

Nota-se que a voz é o maior meio de orientar de comunicação com o computador, o que torna o filme mais envolvente. O som é um veículo mais acolhedor do que a visão, requer mais participação de quem tem contato com o veículo, o que faz todo o sentido no contexto do filme. Uma interface puramente visual tornaria o filme mais abstrato e menos envolvente.

Outra coisa também muito interessante sobre esse filme é que, apesar de ele ter sido feito em 2013, em um período da ascensão das redes sociais, quando redes como o Facebook e o Twitter estava em alta, o diretor preferiu não as citar. A maior parte do tempo, as personagens do filme falam em e-meios e mesmo o e-meio é um veículo de notícias, então eles têm a newsletter como um veículo de comunicação de massas também.

Essa escolha é lógica, eu creio que tenha a ver com o fato de que as redes sociais naquele tempo já eram um veículo muito abrasivo e, eliminando-as, a gente teria um filme mais cozy, essa coisa agradável, acolhedora, né? Sem tanta abrasividade, sem um cenário tão corrosivo que as redes sociais promovem.

Tem algo também que me incomoda muito nesse filme, que explica o seu sucesso entre os homens, é que da personagem protagonista, um homem sensível, feminino, não se têm suas fragilidades mostradas no filme; a gente não entende porque é tão rejeitado, como é que ele tem tanta dificuldade com a sua relação com as mulheres.

Um dos perigos que “Her” mostra certamente. Primeiro, que as empresas de tecnologia poderiam lucrar com a nossa solidão e com a nossa carência. Isso é indiscutível. Mas também relembra a importância de que, apesar da inteligência artificial, a gente mantenha a tecnologia em sua função de ferramenta, e não de brinquedo ou de meio de entretenimento. Afinal de contas, tudo no filme começa a desandar quando Theodore passa a se distrair com a “humanidade” sintética de “Samantha”, como é chamado o computador.

Acho que é importante também lembrar que Sam Altman designou uma IA sua, a partir do conceito de “Her”. Isso faz pensar sobre como a gente tem que cuidar com a própria gramática visual dos nossos filmes criticando da tecnologia.

Também percebo como algumas discussões são azeitadas no filme como, por exemplo, a questão da criatividade, não é? Em dado momento, quando o protagonista está em um passeio com seu computador, este compõe uma peça musicial que “combina com a situação”. Por nenhum no momento Theodore pensa sobre como a arte produzida por Samantha é sintética, sob quais parâmetros ela é designada.

Então há uma certa aceitação sobre a criação por um inteligência artificial nesse cenário. Porque também ajuda a promover a IA com uma coisa positiva, cria toda essa gramática visual de “tecnopositividade” e seduz as pessoas, inclusive, né? Azeita a crítica a respeito da tecnologia.

Eu gosto desse filme também por conta da relação agradável e azeitada com a tecnologia, mas também como ele promove a concepção de uma slow web, de uma slow tech, também por conta do e-meio ser o veículo principal de comunicação. Há sempre um momento para se receber notícias, e a IA percebe isso muito bem. Ela sabe o momento de dar certas notícias durante a interação, e isso também é positivo.

#tecnologia #cultura #notas


CC BY-SA 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter


Longa ressalva: Sou contra qualquer inovação tecnológica que coloque os trabalhadores pobres ao subjugo de grandes empresas. Assim como também sou contra qualquer tecnologia e qualquer inovação tecnológica que subjugue a natureza, ou tenda a esgotar seus recursos. Este é o caso da inteligência artificial comercial, que nos últimos anos, explorou mão de obra barata para o treinamento e seleção de dados e usou e abusou dos mananciais para a refrigeração dos seus data centers. No entanto, acredito que, malgrado este estado de arte, ela seja uma ferramenta que pode ajudar a classe trabalhadora e cujos uso, produção e desenvolvimento podem ser éticos, possíveis e distantes de grandes empresas. A China o mostrou e é disso que será tratado neste texto de Grise Bouille.

Grise Bouille (@gee@framapiaf.org) é um escritor, cartunista e rádio-colunista francês, com formação em ciências da computação. Conheci-o através do Mastodon do magnífico @ploum@mamot.fr, que endossou Bouille. Ploum, inclusive, já teve tradução minha aqui nas Ideias de Chirico, em que ele defende o conceito de um computador que combata a obsolescência programada, a partir de uma forte ideologia de código aberto e de faça-você-mesmo, inspirado pelo legado da máquina de escrever.

Grise Bouille, por estar transmitindo sua mensagem por rádio, não perde a oportunidade de usar expressões idiomáticas, gírias e até mesmo palavrões ― mas tudo sustentado em um francês padrão. O francês possui três registros linguísticos bem estabelecidos: o corrente (courant), do dia a dia; o familiar (familier), usado dentro de casa e entre amigos; e o monitorado (soutenu), usado nos contextos jurídico, acadêmico ou literário. O português brasileiro, por outro lado, possui somente os registros formal e informal que vão variando em um degradê de dois polos, e que, a depender da situação, deslizam um ao outro, conforme o efeito que se quer causar.

Emular em português esse mesmo estilo de Bouille de descontração calcada em uma língua padrão me foi impossível, então preferi tender ao estilo informal, imaginando como um escritor brasileiro se expressaria pelo rádio. Devo me desculpar, no entanto, por esta tradução ter ficado mais séria em comparação com o texto original, já que não consegui encontrar relativas em português de uma parte das expressões idiomáticas que o autor usa.

Agradeço fortemente à minha aluna beninense de PLE, Eunice Houeze, que matou muitas charadas de tradução e de informações culturais sem o qual este texto sairia. Toda a sorte para ela na prova de proficiência de língua portuguesa (Celpe-Bras) e no seu vindouro curso de medicina!

Aqui o texto:

A IA não sumirá

Publicado em 26 de junho de 2025 por GEE no JUKEBOX ― a publicação original.

Olá a vocês, público do Libre à vous.

Bom. Sinto muito, mas é preciso que se fale disso. Sim, é necessário ainda que se fale de inteligência artificial. Gostaria de um assunto mais leve e divertido para a minha última coluna da temporada, mas, que você quer? De qualquer forma, é o assunto do momento.

Contei: já é minha quarta coluna sobre IA, a primeiríssima datando de março de 2023, em plena explosão da popularidade do ChatGPT. E não sou o único a falar disso regularmente, tanto no rádio quanto em outro lugar.

Então, quando um livrista [1] como eu fala de IA, em geral, oscila entre três eixos:

  1. É perigoso, é ecocida, é pipi, é totô, é capitalista. O que é verdade. Daí você boicota a coisa e convoca boicote massivo;

  2. Não é nada, veja, tudo vai bem, ChatGPT não sabe contar e erra adivinhas para crianças. O que é verdade também. Aí você fica de melhor humor, brinca mostrando que, apesar dos resultados serem às vezes impressionantes, ainda assim isso rapidamente nos põe em dúvidas. Bem, eu comecei cedo nesse modo, né? Escute de novo minha primeira coluna sobre o tema para estarem certos disso;

  3. É uma moda, uma bolha, é como o Metaverso e os NFT, da qual se vê em todo canto, é insuportável, mas vai acabar por passar.

O que é parcialmente verdadeiro: é insuportável. Em compensação... bom, quanto mais o tempo passa, mais me parece bastante otimista pensar que a IA vai acabar por simplesmente desaparecer, pois insustentável, pois tudo quanto.

Então, fui o primeiro a dizer diversas vezes que a IA era uma bolha, que ela acabaria por explodir. E sigo a defender isso hoje, penso que a IA é uma bolha financeira, mas não se deve interpretar mal o que isso significa: ao fim dos anos 90, havia uma coisa que se chamava “bolha.com” e que estourou no início dos anos 2000. No entanto, correndo o risco de lhe surpreender, a internet ainda está aí. Pior: o valor e o peso da internet atual superariam os de antes da bolha por uma encantadora experiência sociológica.

Então, não é porque a bolha financeira da IA acabará por estourar que é preciso imaginar que a IA desaparecerá logo em seguida sem deixar traços. Quando a bolha estourar, ela causará sem dúvidas uma bela confusão econômica e social ― enfim, uma reconfiguração no mercado, como se diz entre os imbe... entre os neoliberais. Mas a IA não sumirá. Há mesmo um risco, como com a internet, de que ela acabe por retornar mais forte do que nunca.

O fato de ela ser ecologicamente insustentável é fora de propósito: o sistema capitalista é intrinsecamente ecologicamente insustentável e isso jamais o impediu de dirigir o curso do mundo. Para a sua perda, sim, sem dúvidas, mas você vê bem que isso não é suficiente para pará-lo.

Quanto a um modelo economicamente viável, tenho cada vez menos dificuldade em crer que a OpenAI e companhia o encontrarão: estamos ainda na fase “A primeira dose é gratuita”. Mas não nos enganemos, essa é uma droga devastadora, da qual milhões de pessoas já se tornaram dependentes em alta velocidade.

Não se deve deixar que nossa própria bolha ― uma bolha de filtro dessa vez ― faça-nos esquecer que o ChatGPT tornou-se, em alguns meses, o serviço com a taxa de adoção mais rápida da história da informática, ganhando mais de 100 milhões de usuários(as) por mês. A pertinência de comparações com o Metaverso e os NFT deveria ficar aí.

Se o ChatGPT parar de fornecer uma versão gratuita, aposto que a taxa de adoção da versão paga será também vertiginosa. E a gente vai ver florescer ofertas “pacote internet + assinatura de ChatGPT”, como hoje a Orange oferece “pacote internet + assinatura de Dezzer”. E vai dar certo.

Pois a IA generativa tornou-se já uma necessidade incontornável para milhões de pessoas, a começar pelos mais jovens. Um estudo publicado na última quinta-feira [19 jun. 25] indica que 42% daqueles entre 18 e 25 anos declararam utilizar IA todos os dias, 80% utilizam ao menos uma vez por semana [2]. Um uso que, na minha humilde opinião, tenderá simplesmente a se alinhar à taxa de uso de esmartefones, com ChatGPT se tornando um aplicativo tão comum quanto Whatsapp ou Youtube, se esse já não for o caso.

No instituto técnico onde dou algumas aulas, quase todos os alunos estão sempre com uma aba do ChatGPT no navegador. Isso se tornou uma ferramenta tão usual quanto um navegador. Embora nem todos os alunos usem do mesmo jeito; há aqueles que o utilizam com parcimônia, com resistência; e ainda aqueles que copicolam os enunciados, depois copicolam as respostas sem entender nada com nada... mas que mesmo assim se viram. Esses alunos não têm os mesmos perfis, inclusive. Mas voltarei a isso depois.

Em todo caso, não consigo me ressentir com eles: em seu lugar, do alto dos meus 18 anos, teria, sem dúvida, feito algo parecido. Apesar disso, a primeira fornada de estudantes que obtiveram seus diplomas delegando a maior parte de seus estudos a uma IA chega já, e chega ligeiro, não em cinco anos, mas agora. Esses serão os mesmos jovens adultos para as quais a questão de prescindir da IA não será mais uma opção: se for preciso pagar, assim será.

Claro, alguém vai replicar dizendo que falo sobre um instituto técnico, que é ainda uma bolha um pouco particular, e, sim, claro. Mas você tem mais ou menos os mesmos ecos em facul de direito, de línguas, de economia... e até de medicina, né?, que a mim me inquieta um pouco as competências de nossos futuros médicos.

Além disso, falo de jovens adultos que estão estudando, mas, entre aqueles com 12-17 anos, tem-se 45% de jovens que declaram ter já utilizado IA em sua vida escolar ou privada. Sim, porque um caso de uso aparentemente bastante difundido é a IA como confidente, à qual se conta da vida, com a qual se dialoga como se com um bom parceiro. Mas além disso, um bom parceiro que está sempre disponível, sempre educado, que lhe fala sempre com benevolência e paciência.

Uma grande parte da geração atual de estudantes não pode mais imaginar sua vida profissional sem IA; uma grande parte da geração atual de colegiais em breve não poderá imaginar sua vida sem IA.

Logo, a IA não sumirá. Nesse sentido, os apelos ao boicote contra IA me parecem, quando muito, anacrônicos: sinto muito, mas é tarde demais para o boicote. Não é mais questão de impedir a ascensão da IA, é questão de saber como se continua a lutar pela emancipação, pela justiça, pela ecologia e pela igualdade social em um mundo onde a IA é onipresente.

Meu camarada Pierre-Yves Gosset, da Framasoft, chegou até mesmo a dizer, em sua última conferência sobre IA, que poder boicotar a IA era coisa de privilegiado. Sim, para você e eu, boicotar a IA é fácil, crescemos sem ela, não precisávamos dela. Da mesma maneira, particularmente defendo um boicote ao carro por razões ecológicas. Claro, isso é fácil para mim, vivo em um canto bem servido de transportes públicos, não tenho filhos e trabalho de casa.

Um grande erro que vejo frequentemente nos meios livristas consiste em ver a IA como um gadget de “techbros”, como se diz, um brinquedinho tecnológico para jovens executivos ricos, como os óculos conectados ou a cadeia de blocos. E se a IA é de fato em sua origem uma ideia de techbros e dos gigantes da tecnologia, por outro lado, ao meu ver, é nas classes populares que ela tem mais impacto.

Voltando ao instituto técnico. Um instituto de tecnologia não é exatamente a mesma coisa que uma faculdade de cientistas da computação: há uma mistura social muito mais significativa, com rapazes/moças que vêm da escola comum, de outras escolas tecnológicas ou profissionalizantes, filhos de operários misturados com filhos de pequenos servidores públicos ou outros... Com níveis extremamente heterogêneos, onde todo o desafio para os professores é conseguir fazer com que os mais debilitados não sejam ultrapassados pelos que estão mais tranquilos.

E, bom, isto pode lhe surpreender, mas muitas vezes são os meninos que têm mais dificuldade, frequentemente vindos de meios pobres, aqueles que usam e abusam da IA. Os alunos que vêm de meios mais favorecidos, em geral, são os mais críticos a essa tecnologia. Em um curso sobre Android, percebemos recentemente com meus alunos, que o Android Studio, o programa de desenvolvimento, adicionava às suas mensagens de erro “ask Gemini”, “pergunte ao Gemini”, a IA da Google. E, bom, meu aluno Thomas, vindo de colégio comum, de jeans e camiseta, 16 anos em média, reagiu com um “Pfff, que bobagem”. De qualquer forma ele tentou a princípio, mas logo viu que o Gemini enchia linguiça, e, ao ler a mensagem de erro, entendeu rapidamente e se corrigiu por conta própria.

Mais tarde, durante o exame no qual todas as anotações eram autorizadas ― porque não se vê interesse de fazer decorar pela programação ―, Brandon, de colégio tecnológico, de jaqueta esportiva e tênis, com média 8 [3], respondeu às questões da seguinte maneira: ele tinha uma pequena anotação onde havia metido todo o curso em ChatGPT, depois ele tinha lhe pedido para gerar dezenas e mais dezenas de questões possíveis. E durante o exame, ai!, pesquisava os termos das questões em sua pequena anotação, encontrava uma questão suficientemente parecida e copicolava a resposta. Dada a rapidez com que ele fez, não penso que tenha lido sequer uma de minhas questões. Não estou nem mesmo certo de que ele tenha entendido do que o curso tratava.

Mas ele tirou 11 no seu exame. Eu tinha proibido internet, mas autorizei todas as anotações, ele seguiu as instruções, não entendo porque deveria penalizá-lo. Thomas, que tinha 17 anos utilizando somente seus conhecimentos, terá também o mesmo diploma. (Aproveito para esclarecer que eu mudei os nomes, né?, para não expôr meus alunos em público).

Porém, é no mercado de trabalho que Thomas e Brandon se distinguirão, e, espóiler: bem, mais uma vez é o Brandon que vai se dar mal.

Porque, de um(a) profissional de computação que só sabe digitar comandos, se vê que não há pretensões salariais de bac+3 [4].Porque a IA será, ao fim, apesar das ilusões, um agravador de desigualdades sociais, um acelerador do empobrecimento das classes mais baixas. E, ao mesmo tempo, que tenho de melhor a propôr a Brandon? Quais são as minhas chances de conseguir fazer ele “boicotar” a IA que lhe permitiu desenrolar um diploma sem a qual sem dúvidas ele não conseguiria? Enquanto que todos os seus colegas fazem a mesma coisa?

O ChatGPT permitiu a um monte de gente péssima em expressão, em ortografia e em gramática escrever cartas de motivação perfeitas e parar de ser reprovada antes mesmo da entrevista de emprego: quem sou, eu, do alto do meu doutorado e do meu capital cultural de filho de professor, para pedir-lhes para boicotar?

Então, sim, eu sei, o mundo será melhor quando pararmos de considerar que gente sem diploma merece ficar pobre, ou mesmo quando suprirmos essas idiotices de cartas de motivação, tem razão! Mas isso é como derrubar o capitalismo: sei bem que vamos chegar lá na semana que vem, é uma questão de dias, né? Mas enquanto se espera, o que fazer? O que se faz com os alienados(as) esperando que seja abolida a alienação? O que se faz para esta geração que integrou a IA como nós mesmos tínhamos integrado a internet, como as gerações mais antigas tinham integrado a eletricidade ou a água corrente? O que se faz com toda essa gente que utiliza a IA para seguir melhor, para melhorar suas vidas, para se sair de suas condições sociais?

Ah, é um saco de questão, né? Não, mas tampouco eu gostaria de ter de pensar nisso. Também eu gostaria de que se tivesse impedido a OpenAI e companhia de desenvolver suas porcarias. Também eu gostaria de que esse furacão não tivesse chegado. Mas aí está, está por toda parte e isso não sumirá tão cedo. Boicotar, isto é, fazer nada de fato, é uma boa resposta a título individual, mas é como dar o gás na ecologia: já é preciso ter a possibilidade de fazer isso, mas, principalmente, isso não será suficiente em escala coletiva.

Para agir contra a hegemonia, é necessário então parar com a negação, observar esta realidade difícil de frente, mas sem cair, no entanto, na resignação ou derrotismo, enfim, manter a esperança de que nós temos, ainda assim, o poder de melhorar nosso mundo. E, por isso, gosto bastante de citar este diálogo do Senhor dos Anéis. É Frodo que se lamenta da guerra para a qual ele foi arrastado e diz: “Gostaria de que isso não tivesse acontecido no meu tempo”. Ao que Gandalf, o mágico, lhe responde: “Eu também, e o mesmo vale para todos aqueles que vivem em tempos parecidos. Mas não lhes cabe decidir. Tudo o que nos cabe decidir é o que pretendemos fazer do tempo que nos é concedido”.

Agora, amigo(a) livrista, em face à IA, como ao resto, eu lhe deixo para o verão essa pergunta: “O que vamos fazer do tempo que nos é concedido?”

[1]: Do original “libriste”, partidário do chamado culture libre, movimento pela cultura livre, de código e acesso livres e abertos. Como não há relativo desse nome em português, utilizei “livrista” como forma de o discernir dos “liberais”, partidários do liberalismo. Para saber mais, leia o artigo da Wiki em francês, ou sua versão lusófona linkada.

[2]: Essa é uma pesquisa que pode refletir o uso no Norte global. A situação no Brasil é diferente, como mostra a mais recente pesquisa da Datafolha com a Fundação Itaú. No entanto, o argumento de que a IA tornou-se uma necessidade incontornável para aqueles que a utilizam desde 2023, mesmo no Brasil, é considerável.

• Maioria dos brasileiros não usa IA generativa, como ChatGPT, mostra Datafolha (Folha de São Paulo).

[3]: Na transcrição e na locução do texto é pronunciado claramente “huit de moyenne”, ou seja, “oito anos em média”. Não sei se não conheço o sistema escolar francófono europeu, mas é pouco factível que uma criança estaria fazendo cursos de programação. De qualquer forma, decidi manter.

Post-scriptum: obrigado @hydrochoerus@cwb.social pela ajuda com esse deslize na tradução! Aqui o comentário que el_ me enviou via Fediverso:

quando o autor original disse “huit de moyenne”, provavelmente se referia a “um aluno de média 8”, e não um aluno de 8 anos. Geralmente na França as notas escolares vão de 0 a 20 e a pontuação necessária para passar é 10.

[4]: “Bac+3” é literalmente “baccalaurêat mais três”. “Baccalaurêat” é a prova vestibular para ingressar em uma graduação no sistema de ensino francês. Com “mais três” o autor se refere aos três primeiros anos na faculdade pelos quais alguém consegue o grau de “licenciatura”, a partir do qual pode ensinar.

#tecnologia #tradução


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