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from Ideias de Chirico

Ressalva: cada língua nova que se aprende é um amigo novo que se faz. Cada uma das quatro línguas que aprendi me trouxe algo que eu não poderia adquirir sendo monolíngue, alguma informação importante de outra parte do mundo, alguma forma de pensar ou de organizar o pensamento, ou mesmo uma forma diferente de experienciar a vida.

Lógico ainda dizer que este “amigo novo” traz outros amigos na vida real. Minha vida social aqueceu-se bastante graças aos estudos de línguas estrangeiras, sobretudo por conta dos encontros do Clube Poliglota.

Um desses meus “amigos” distantes, com o qual se tem um encontro uma vez na vida, é a língua italiana. Li muito pouco nesta língua (Um livrinho do Italo Calvino, quadrinhos do Corto Maltese e Dylan Dog, e outros artigos soltos por aí), assisti ainda menos com ela (acho que não sou inteligente o suficiente para o cinema italiano!), e ouvi pouco também. Música, digo. Porque há muitos anos tenho ouvido bastante um desses comunicadores incríveis que sabem utilizar o meio digital de forma interessante. Seu nome é Rick DuFer, mantenedor do canal Daily Cogito, onde publica ensaios sobre cultura, filosofia, e, não raro, tecnologia.

Apesar de pouco frequentada, o italiano ainda me traz algumas pérolas. Uma delas é o recente episódio de Daily Cogito chamado “Il CULTO dell'Upgrade: LooksMaxxing, Saggezza e l'Umannità Obsoleta”, em que Rick fala sobre como a ambientação de diversas “extensões” do corpo humano (i. e., tecnologias) em nosso cotidiano impeliu-nos a tecnificar nosso próprio corpo e nossa mente, tornando-os “atualizáveis”. Rick DuFer, no entanto, faz um elogio ao velho e ao duradouro, sem os quais não existem a sabedoria e a humanidade.

Decidi traduzir a transcrição do vídeo também para refletir melhor sobre este belo vídeo-ensaio de Rick DuFer e, é claro, aprender um pouco mais da língua italiana. Como na fala de Rick há ênfases com a voz ou com o corpo, tentei anunciá-las com marcações em itálico, negrito ou pontuações.

Boa leitura!

O culto ao upgrade: looksmaxxing, sabedoria e humanidade obsoleta

Mas... você se lembrou de atualizar? “Mas como assim?” O seu celular, as suas opiniões sobre geopolítica, as maçãs do seu rosto, o seu maxilar, o seu modo de falar, enfim, você mesmo! Certo, em que versão está agora? 17? 18? 18 Pro Max? Diga, de outra forma você não tem nenhum valor.

[...]

Na Califórnia, em Livermore, há um quartel de bombeiros. Pendurado no sótão, há uma lâmpada que está acesa desde 1901. Sim, você entendeu bem, desde 1901. Ela passou por duas guerras mundiais, a viagem à lua, o nascimento da internet e ela está ainda ali, acesa. Tem até uma webcam exclusiva, e todo dia alguém de alguma parte do mundo se conecta para vê-la. Uma lâmpada que não faz nada de extraordinário, simplesmente dura e continua a funcionar.

Agora saltemos para Genebra, em dezembro de 1924. Em torno de uma mesa, sentam-se os representantes dos maiores produtores de lâmpadas do mundo: Osram, Philips e os colossos americanos, britânicos e japoneses. Nasce um acordo que passará à história como o “Cartel Phoebus”, e estabelecem uma coisa muito simples, mas enorme: as lâmpadas não devem durar mais do que mil horas. Quem as produzir mais duradouras, paga uma multa.

Em um certo ponto da história, alguém decidiu em acordo prévio que um objeto deveria morrer antes do tempo. Isso se chama “obsolescência programada”, e aquela morte programada era um ótimo negócio.

Duas lâmpadas, dois mundos. De um lado, a lâmpada que dura e que por isso mesmo torna-se uma atração, uma curiosidade a ser assistida online como se assiste a um animal raro; do outro, uma lâmpada projetada para... acabar!

E há uma pergunta que zumbe na minha cabeça há um tempo: como chegamos a um ponto no qual uma coisa que simplesmente dura parece exótica, curiosa e rara? Quando é que a durabilidade, que por milênios foi sinal de valor das coisas, tornou-se uma estranheza, quase um defeito? Afinal, hoje vivemos em uma obsessão muito particular. Não é só a obsessão pelo novo, o amor pela inovação, é algo mais traiçoeiro e, ao meu ver, inquietante: é a obsessão pelo upgrade, pela atualização, e é disso que vamos falar a partir de agora.

[...]

Partamos da palavra, que é já todo um programa: atualização [aggiornamento]. Confesso que é uma palavra que não suporto, e creio também que entendi o porquê. Em italiano, “aggiornamento” tem dois significados.

O primeiro usamos continuamente: trazer algo ao momento presente, torná-lo atual, alinhá-lo ao hoje (“devo me atualizar sobre algo”).

Mas há um segundo, mais antigo, que sobrevive na linguagem burocrática: “adiar uma sessão” [aggiornare una seduta] quer dizer postergá-la, movê-la a um outro dia ― “a reunião foi adiada para terça-feira” [“la riunione è aggiornata a martedì”].

E vejam que maravilha involuntária: a atualização tecnológica faz exatamente essas duas coisas: traz você ao hoje, e, simultaneamente, deixa a conclusão para amanhã. Toda vez que você atualiza o telefone, o computador, o app, recebe uma mensagem implícita: “Esta versão está boa hoje, agora, mas a adequada, a de fato concluída, é a próxima”. A plenitude é sempre adiada [aggiornata] a outro dia, é uma reunião que nunca chega de fato.

Depois há a palavra inglesa upgrade. Dentro há grade, que vem do latim gradus, o “degrau”. E um degrau é uma coisa estranha: não foi feito para se estar acima, foi feito para ser superado ― ninguém vive em um degrau. Veja só, os objetos que compramos hoje são degraus, e, como veremos, não só os objetos.

Não existe mais “o telefone”, existe o telefone 17, o 17 Pro, o 17 Pro Max. Esse número é uma data de vencimento declarada. Quando compra o 17, sabe já que existirá um 18, e se tem o 18, há o 18 Pro, e ainda o Pro Max, e depois a atualização do Pro Max e assim sucessivamente. O objeto guarda a própria obsolescência escrita em si como uma etiqueta. Não nasce como uma coisa, nasce como uma versão.

Para entender o quanto é estranho esta situação, que tomamos por garantida, demos um passo para trás. Em grande parte da história humana, e em muitíssimas culturas ainda hoje, o valor tinha a ver sempre com o tempo.

O vinho bom é o envelhecido; a madeira valorizada é a do carvalho que levou um século para crescer; o móvel de valor é aquele com pátina, passado de mão em mão; as catedrais eram construídas por gerações que sabiam muito bem que nem sequer as veriam concluídas; as relações tomadas de exemplo eram aquelas longevas, que restavam às intempéries e aos imprevistos; e o ancião na vila, na família, era a pessoa a quem se escutava.

Por quê? Não por sentimentalismo, mas por uma razão muito precisa: a duração era uma prova. Se uma coisa resistiu cem anos, superou um exame que nenhuma publicidade poderá substituir. O tempo era o juíz mais severo que tínhamos e o que durava mostrava valor.

Hannah Arendt em “Vida ativa” distingue dois modos com os quais nos relacionamos com as coisas: há o consumo que devora o que produz (come-se o pão, desaparece e amanhã é necessário fazer outro) e há o fabricar objetos feitos para durar (uma mesa, uma casa, um livro). “Estas coisas”, diz Arendt, “formam um mundo, um mundo que precede e sobrevive”.

E tem uma observação belíssima em Arendt: a estabilidade das coisas nos servem. Nós, seres humanos, mudamos continuamente, somos instáveis, mas encontramos a nossa identidade é nos voltando às mesmas coisas: a mesma cadeira, a mesma mesa, a mesma casa, talvez velha. Em suma, as coisas que duram restituem a nós mesmos. O seu diagnóstico da sociedade dos consumos é que estamos tratando os objetos de uso como se fossem pão, coisas a serem consumidas e substituídas. E se as coisas não duram mais, o risco é que não tenhamos mais um mundo estável no qual nos reconhecermos.

Aqui precisa se conter, hein?, nem pensar, porque seria muito fácil dizer “Antes se amava o que dura, hoje se ama o novo, que tragédia”. Não é verdade ― ou ao menos, não é verdade nesse sentido. A modernidade ama o novo há séculos, não fomos nem mesmo nós que a inventamos.

Em 1909 Filippo Tommaso Marinetti publica o “Manifesto do Futurismo” e escreve que “Um carro de corrida é mais belo do que a 'Vitória de Samotracia'”. Era necessário destruir os museus, as bibliotecas, as universidades. Nada de upgrade! O futurismo queria botar fogo no passado ― gente bem... moderada.

E, para ser honesto, é preciso considerar uma outra coisa. O culto ao antigo nem sempre foi inocente. “Sempre se fez assim” foi por séculos uma fórmula de poder. A tradição serviu também para calar, para excluir, a manter paradas as coisas quando deviam se mover. Então não, não estou fazendo elogio aos “bons e velhos tempos”.

Mas exatamente o confronto de Marinetti faz ver o que há de fato de novo hoje. Vejam, o futurista odiava o passado, odiava, então o via, queria uma ruptura, um salto, e reconhecia nisso o peso insustentável. O passado, o homem do upgrade nem sequer odeia, simplesmente não o vê, não percebe, não liga.

Para ele, o passado não é um “inimigo a ser combatido”, é uma “versão precedente”, uma coisa não mais compatível, “obsoleta”, como se diz na informática. E sobretudo o upgrade não requer nenhuma ruptura, requer o mesmo objeto, mas um pouco mais: um pouco mais veloz, um pouco mais sofisticado, um pouco mais potente. O novo, mas sem a novidade.

Talvez então o motor mudou. O futurismo era movido pelo desejo pelo novo, pelo verdadeiramente novo. Nós somos movidos pelo medo de ficar para trás. Não corremos em direção ao futuro, escapamos da obsolescência, sabendo que os primeiros obsolescidos seremos... nós.

E tem um filósofo que viu tudo isso com uma antecedência impressionante, aliás o primeiro de fato noivo e marido de Hannah Arendt: chamava-se Günther Anders. E em 1956 publica um livro que é já uma sentença: “O homem é antiquado”.

Anders conta que observou um amigo em visita a uma exposição técnica: diante das máquinas, o amigo parecia sentir embaraço, quase vergonha. E Anders dá um nome a esse sentimento: “vergonha prometeica”.

Que é isso? É a vergonha que o ser humano sente diante dos produtos que ele mesmo construiu. As máquinas são precisas, fiáveis, replicáveis, podem ser corrigidas, melhoradas, substituídas peça por peça. E nós? Nós somos imprecisos, nos fascinamos, nos cansamos, envelhecemos, sobretudo não podemos ser atualizados. Envergonhamo-nos, diz Anders, de termos nascido em lugar de sermos fabricados.

Pensem em quanto tudo isso soa atual. Anders escrevia quando os computadores ocupavam cômodos inteiros, hoje vivemos rodeados de inteligências artificiais que estão em um microchip, que saem em uma versão nova a cada poucos meses, a cada vez um pouco melhores escrevendo, raciocinando, programando.

E a pergunta que ouço repetidamente em todo lugar é: “Quais trabalhos se tornarão obsoletos? quais competências humanas não servirão mais?”

Notem a bola de neve: partimos das coisas obsoletas e chegamos às pessoas obsoletas, ou seja, o homem antiquado. A lógica da atualização [aggiornamento] nasce para julgar os objetos e acaba por julgar quem as utiliza.

Em um cômodo cheio de dispositivos que se atualizam sozinhos, o objeto mais lento a se atualizar... é você! E é aqui que a vergonha prometeica deixa de ser uma teoria e torna-se um sentimento cotidiano: a sensação de não ser veloz o suficiente, atualizado o suficiente, em dia o suficiente. Lido hoje, o título de Anders não soa mais como uma provocação, soa como uma constatação.

E assim o upgrade faz o passo sucessivo: entra dentro de nós. De fato, se pensar bem nisso, falamos de nós mesmos com a mesma linguagem do software: “Torne-se a melhor versão de si mesmo”, “Preciso me resetar”. A biografia se torna um registro das alterações: “Versão 2.0” depois do divórcio, “Versão 3.0” depois da troca de emprego...

Parecem modos de dizer, mas escondem uma mudança profunda psicologicamente falando. Há uma diferença enorme entre amadurecer e se atualizar. O amadurecimento conserva: o menino que você foi ainda está dentro do adulto que é ― transformado mas presente. Atualização, ao contrário, sobrescreve: a versão nova acaba com a precedente. Não há sedimento, há substituição; não é mais uma geologia, é só superfície. Não há continuidade nem duração, há só substituição de um presente contínuo que, porém, encontrará seu sentido amanhã.

E vejam o que sucede a uma figura que por milênios foi central: o ancião. Por quase toda a história humana, o saber escorria do velho ao jovem: era o velho que sabia quando plantar, como curar uma febre, como comportar-se em uma crise. Hoje, pela primeira vez, o fluxo inverteu-se: o avô não é mais o sábio, é o desatualizado, o boomer, aquele que pergunta ao neto como se manda um áudio.

Obviamente não estou dizendo que o avô não deva aprender a usar o telefone, nem pensar; estou dizendo que deixamos de reconhecer o tipo de saber que não se atualiza, aquele que vem do vivido. A sabedoria necessita de tempo sedimentado, de geologia. O upgrade necessita de tempo apagado. As duas coisas não podem estar juntas.

E quando o upgrade entra na identidade, é inevitável que chegue também ao corpo. De fato, o corpo é talvez o terreno onde se vê essa lógica de modo mais cru. Já ouviram falar de looksmaxxing? É uma subcultura nascida online, divulgada sobretudo entre rapazes bem jovens, que busca maximizar o próprio aspecto. Começa-se com práticas em aparência inócuas como o mewing, uma postura da língua que poderia redesenhar o maxilar [...].

E chega-se à cirurgia ou às práticas abertamente autolesivas. Mas a coisa que mais me pega é linguagem, a de um jogo: se faz maxxing, melhoram as próprias estatísticas, o rosto recebe uma pontuação em uma escala numérica. O corpo não é mais algo que você é, é uma configuração a melhorar, uma carcaça a atualizar, um hardware.

E não se trata só de um ou outro rapaz num fórum: existe uma versão adulta e perfeitamente aceita ― o retoque preventivo, o preenchedor aos 25 anos para impedir uma ruga que ainda não apareceu, os peptídeos usados como bombonzinhos no asilo.

Notem: não se repara um dano, se antecipa a obsolescência. É a lógica do upgrade, tal qual, hein! Quero deixar claro: não estou julgando quem escolhe intervir no próprio corpo, cada qual faz aquilo que quer com o próprio corpo. O problema não é o gesto sozinho, é a lógica que deixa o corpo perpetuamente incompleto, sempre à espera da próxima versão, da constante atualização que na realidade esconde uma insatisfação eterna.

O rosto, porém, quero fazer-lhes notar, é o lugar em que o tempo escreve: uma ruga é uma biografia, é a marca de todas as vezes que você riu, que se preocupou, que apertou os olhos diante do sol. É a duração ― da qual falava Hannah Arendt ― escrita na pele. O upgrade do rosto é a tentativa de se ter uma face sem versão precedente, uma face cuja história foi apagada.

E aqui retorna Anders: muitos cirurgiões contam sobre pacientes que se apresentam com uma referência precisa, não a foto de um ator, mas o próprio rosto processado por um filtro. A vergonha prometeica torna-se literal: nos envergonhamos de não nos assemelharmos com a nossa imagem reelaborada por uma máquina! Incrível...

Uma última observação: já repararam que os smartphones, com tantas atualizações, acabam por se assemelharem todos? Retângulos pretos, brancos, cinzas, azuis ― idênticos. Veja só, acontece o mesmo com os rostos otimizados: convergem para um único modelo. Quem persegue a versão melhor de si frequentemente chega à mesma versão de todos os demais.

Existe uma alternativa? Não quero encerrar com nostalgia, que seria só outra forma de não pensar, quero encerrar com uma imagem.

No Japão existe uma prática que se chama kintsugi [“emenda de ouro”]: quando um vaso de cerâmica se quebra, não é jogado fora, conserta-se juntando os fragmentos com uma laca mesclada com pó de ouro. O resultado é um vaso atravessado de frestas douradas, e esse vaso, depois da ruptura, vale mais. A fenda não fica escondida, vem em destaque, valorizada; torna-se a parte mais preciosa do objeto, mas não pelo ouro, né? Mas pela marca da sua história.

Se pensarem nisso, é o exato oposto do upgrade: o upgrade substitui o objeto para apagar seu defeito e assim apagar também sua história. O kintsugi conserva o objeto mesmo graças à história do seu defeito, do evento que o rompeu. E pense no rosto do qual falávamos antes: as rugas são as veias de ouro de uma face, podem agradar ou não agradar, seguramente nos lembram que a um certo ponto morreremos, mas são fundamentais para a nossa identidade.

Consertar, no fundo, é um gesto filosófico: significa escolher permanecer se relacionando com uma coisa em vez de substituí-la. Significa dizer: “Esta coisa tem uma história, e a sua história é também a minha, e eu também tenho uma história, e respeito essa história mesmo quando me marca”. Não é por acaso que também movimentos no plano político: a União Europeia começou a reconhecer por lei o direito ao conserto. Veja só, talvez não estejamos condenados a descartar tudo.

Deixo-lhes então uma pergunta para levar consigo hoje: há algo na sua vida ― um objeto, um hábito, uma relação ― que você manteve tempo suficiente para torná-lo realmente seu? E se não tem, que coisa lhe impediu de o ter?

Para terminar, retornemos à lâmpada de Livermore. Há um detalhe que eu não lhes disse: essa lâmpada hoje dá pouquíssima luz; fraca, brilha por cerca de quatro Watt, uma luz baça, quase uma vela. Como lâmpada, digamos, é péssima, ninguém a compraria para iluminar a sala de estar, não o conseguiria. No entanto, as pessoas se juntam para observá-la, não pelo seu serviço, mas porque permaneceu.

Talvez o valor que tenhamos esquecido seja justamente este: não a performance, mas a fidelidade; não ser sempre a melhor versão, mas continuar ali, continuar presente. Em um mundo que nos exige que nos atualizemos constantemente, como se fosse uma fuga para frente, permanecer pode se tornar um pequeno ato de resistência, quase revolucionário. Nem tudo que dura é precioso, mas nada torna-se precioso sem durar: esta é a regra que gostaria de tirar deste episódio.

[...]

#offpunk #tecnologia #cultura #tradução

 
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from alecrim

Um pequeno relato de um caso antigo de admiração

Meu primeiro contato com o mundo Linux foi em 2001. Na ocasião vi rodando num computador de um colega de trabalho. Muito ainda era na base de código e isso me assustou muito. No entanto, a filosofia de ser gratuito, acessível a quem quiser e com uma comunidade crescente de colaboradores.

Mais tarde, em 2009, instalei uma versão do Fedora num PC antigo para rodar na igreja. Em 2012 conheci o Ubuntu e cheguei a instalar em um notebook velho, em casa. Na ocasião eu usava um MacBook Pro 2009. Em 2014 recebi um Notebook Windows do serviço, que acabei ganhando quando saí. Foi nele que instalei o Manjaro pela primeira vez. Foi uma versão da comunidade chamada Deepin. Paixão ao primeiro login. Usei o Manjaro XFCE para ressuscitar meu MacBook Pro de 2009 e deu muito certo. Por fim, em 2019 ganhei meu notebook atual e em março de 2020 instalei, em dual boot, o Manjaro XFCE, pois meu Macbook parou de funcionar por problemas de hardware. Comecei, gradualmente, a migrar minha produção de conteúdo para o mundo Linux. Em junho decidi testar a versão KDE do Manjaro e em fevereiro de 2021 fui levado ao Gnome para, depois de muito tempo, migrar para o PopOs em março de 2026.

Não se preocupe se você não sabe o que são os termos em negrito acima: de maneira bem simples, Fedora, Ubuntu, Manjaro e PopOs são a distribuições do Linux e XFCE, KDE e Gnome é a maneira como essa distribuição gerencia a área de trabalho, aplicativos e recursos. Cada distribuição possuí design e estruturas próprias, mas os gerenciadores, se podemos chamar assim, XFCE, KDE e Gnome tornam o uso baseado em algum padrão. Para mim, que saí do Windows e MacOs para o Linux, o XFCE foi a escolha natural. Mais leve, mais parecido com Windows. O KDE veio por conta da facilidade de gerenciar gráficos e vídeos. No entanto, quando cheguei ao Gnome, posso dizer que coloquei os dois pés no Linux. O Gnome me parece ser o que há de mais Linux em tudo isso.

Que lindo, mas… e as dificuldades?

Uma das dificuldades que tive mais recorrente foi a de acertar uma suíte Office que me atendesse. A OnlyOffice foi a escolhida. A mudança do Microsoft Office 365 para a OnlyOffice exige certa curva de aprendizagem para alguns detalhes mais técnicos, mas geralmente, é tranquila. Ainda espero que a Microsoft venha para o Linux. Seria fantástico ter o Office 365 para minhas rotinas de escrita e trabalho, gosto muito da suíte da Microsoft. Uso online, mas não é mesma coisa.

Outra curva de aprendizagem que exige um pouco de atenção são as configurações do sistema. Se você é curioso, vai se dar bem, mas se você está com pressa para resolver algo logo, aí vai precisar de mais dedicação. Nada de mais. Apenas adaptações normais.

Com isso tudo, quero dizer a você que sair do padrão do mercado para algo que não é tão capilarizado é um exercício de aprendizado e adaptação. Não pretendo escrever artigos técnicos, quero apresentar o mundo Linux na perspectiva de um usuário que não sabe quase nada de programação, mas que descobriu que existe uma maneira mais leve de usar a tecnologia e o Linux, nesse sentido, é o que mais tem me ajudado a me concentrar no que realmente é necessário para eu produzir meus materiais. Espero em breve escrever e falar mais da minha rotina de escritor usando o PopOs.

 
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from alecrim

Há muito venho repensando a razão da minha escrita pública. Tenho atuado na escrita de livros, coletâneas, artigos, crônicas, contos, ghostwriter, copywriter, projetos acadêmicos, resumos, sinopses, feito revisão e edição de texto para publicação em revistas e periódicos. Tudo isso para terceiros.

Desde o fechamento do meu Substack e o ostracismo do meu Medium, tenho sentido falta de um lugar longe das empresas para publicar livremente.

Escrever é preciso, não para ser divulgado, viralizado, mas para dar forma às minhas palavras. Elas estão em minha mente, alma e coração, vagando soltas e desconexas, por vezes deformadas e mudas. Este espaço surge como uma plataforma de organizar e manifestá-las aos que me leem.

E como ele surge? Foi preciso uma fagulha nas retinas para que ele surgisse. E a fagulha veio com mais uma onda migratória no Mastodon. O assunto blog veio junto, o que me despertou para a necessidade de voltar a escrever para mim, por mim, comigo e, de certa maneira, para quem me lê.

Por óbvio, trarei alguns textos já publicado em outras plataformas, mas focarei na escrita lenta e com propósito, ou seja: escreverei sem uma agenda de escrita e sem esperar grandes reverberações.

Se você me leu até aqui, agradeço sua leitura deste breve manifesto de abertura deste espaço.

Até mais.

 
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from Ideias de Chirico

Assunto: Sobre telefones públicos no Brasil Data: Sat, 31 Oct 2026 21:51:25 -0300 De: Arlon de Serra Grande arlondeserragrande@disroot.org Para: Diego diegopds@xxxxxx.xxx

Fala, Di!

Fiz o que tu me sugeriste e busquei um mapa mostrando o atual estado dos telefones públicos e a situação é aterradora.

Encontrei este artigo aqui do G1 mostrando dados diacrônicos da quantidade de orelhões no Brasil. Há mais embaixo um mapinha com um campo de pesquisa para ver quantos aparelhos existem em uma dada cidade.

https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2026/01/20/fim-orelhoes-mapa-cidades.ghtml

O número de telefones públicos em funcionamento em Fortaleza é... zero!

Lembrando que os dados são da Anatel. Então acho que vai ser muito difícil encontrar algo a mais. Vou continuar atento de qualquer forma. Acho que isso se deve porque a maior parte dos orelhões disponíveis são/eram da Oi, que, segundo o gráfico foi aquele cujo número caiu vertiginosamente. A empresa, que era a maior fornecedora de telefones públicos, simplesmente ligou o foda-se nos últimos seis anos. Todos os orelhões de Fortaleza são/eram da Oi, então já viu...

As demais operadoras mantiveram seus números de orelhões estáveis durante a pesquisa.

Veja também que no mapa que as cidades mais escuras (com maior número de aparelhos) estão no estado de São Paulo, sobremaneira no seu interior! Se bem que a cidade que mais tem aparelhos de todas é a própria cidade de São Paulo... Em resumo, é muito mais provável que encontres um orelhão funcionando do que eu.

Caso seja isso que aconteça, por favor, me ligue!

Encontrei também esse endereço da Anatel que mostra em mapa mais refinado quais orelhões são operáveis. Pelo menos na hora em que envio esta mensagem, o sítio estava em manutenção.

https://sistemas.anatel.gov.br/fiqueligado/index.html?bounds=-15%2C-57&zoom=4

Além disso, achei massa essa discussão no Reddit (de dez anos atrás) sobre quem (ainda) utilizava orelhão. Os argumentos ainda seriam válidos em nossos dias. Lembrei daquele meu episódio em uma aglomeração que fez com que todos os sinais de telefonia móvel caíssem e eu ficasse preso com a minha bicicleta sem poder me comunicar. Um orelhão nessas horas salvaria visto que usa cabos e não estrutura de torres.

https://www.reddit.com/r/brasil/comments/55oa96/algu%C3%A9m_ainda_utiliza_telefone_p%C3%BAblico/

Lembrando que mesmo cidades que tem telefones públicos operando terão esse sistema até 2028. Então não tenho muitas esperanças de ter um último registro de uma ligação feita a partir de orelhão... Espero que outras pessoas o façam por mim.

Certamente há um pouco de nostalgia nessa minha atitude, mas pressinto que acontecerá algo semelhante ao que aconteceu com a televisão analógica: encerra-se um serviço, põe-se um outro mais ou menos desenvolvido, mas nem de longe mais acessível. Acaba-se com uma tecnologia, junto toda uma memória e uma cultura construídas em torno da ferramenta. Em breve infelizmente veremos gigantes cascos azuis de tartarugas nos museus...

P.S.: vou publicar esta mensagem no blogue, porque achei as pontes muito boas!

Abraços,

— Arlon de Serra Grande

https://www.blog.ayom.media/ideiasdechirico


P.S. 2: (não enviado): com telefones públicos em funcionamento, certamente teríamos mais uma ferramenta offpunk!

#tecnologia #offpunk


 
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from Ideias de Chirico

Ao fim de uma quinta-feira, eu sentia um prazer particular dos ciclistas: pedalar por entre corredores de carro. Que bom nessas horas ter uma bicicleta!

Além do fato de ser horário de pico, o “encarrafamento” dava-se por conta de uma manifestação pró-democracia ― para onde eu ia. O ponto de encontro era em uma esquina de um bairro nobre de Fortaleza ― visto que um ato anteriormente agendado próximo dali foi sabotado.

Fui lá pedalando com gosto de gás. Estava acostumado a ir de bici em atos políticos. Nas últimas duas vezes, fui ao ponto combinado e segui caminhando com as pessoas. Sem problema.

Só que desta vez, cheguei mais cedo do que de hábito. Não havia ninguém no ponto onde estava e ali fiquei. Afinal, a minha expectativa era de que as pessoas iriam se movimentar em direção à orla da praia, cartão postal da cidade, próximo dali. Como a pessoa com quem combinei não estava nem perto de chegar, fiquei na minha, observando o movimento perto de um paredão de som.

Quando o som estava simplesmente insuportável, decidi sair de onde estava. Lógico que não tinha como retornar por onde eu viera, porque a aglomeração estava cada vez maior. Daí o jeito foi... seguir, e seguir para onde havia mais aglomeração!

Por ser um verdadeiro carnaval, havia desde gente com glíter e maquiagem, bandeira de bloco carnavalesco e até biquíni! A minha bicicleta ali parecia mais uma “fantasia”:

― O movimento foi tão forte que até as bicicletas vieram! ― disse alguém.

Sem opção, tive de encostar em um desses carrinhos de venda de bebidas. Não havia jeito, era de um lado gente reclamando (às vezes só com olhares) que eu pegava muito espaço, do outro o próprio dono de um carrinho reclamando que eu estava atrapalhando as vendas.

― Meu senhor, tenha calma que já eu saio daqui! ― eu dizia.

Um trio de mulheres “estacionadas” atrás desse carrinho perguntou se eu não gostaria que elas ficassem com a bicicleta por perto, já que elas estavam com mais folga. Isso salvou a noite. Pude ficar um pouco conversando com elas enquanto o movimento esvaziava.

Encontrei um colega perdido que estava tentando abrir um litro de cachaça. Tentei, nada. Aí o dono do carrinho, bruto que só o cão, conseguiu; um homem detrás da gente comentou:

― Esse aí abre até o sigilo do Flávio!

E aquele meu amigo com que eu iria me encontrar? Bem, com a multidão, o sinal da minha operadora estava sobrecarregada, às vezes sumindo, e eu não tinha acesso aos dados móveis. Fiquei em torno de duas horas incomunicável, sem poder sair do lugar. Desesperado, eu olhava para todo lado o procurando.

Quando o espaço entre as pessoas foi aos poucos aumentando, aproveitei para sair da aglomeração e ir a um lugar mais vago, onde talvez não houvesse congestionamento de serviço de dados móveis. Mesmo com sinal, só pude enviar SMS!

Com isso, soube que meu amigo estava a dois quarteirões dali, que na prática seria uma distância muito maior por conta da multidão. Como estava muito dispersa, imaginei que ela não iria se movimentar mais. Além disso, eu tinha fome e sede. Não dava mais para seguir. Decidi comer em um Bebelu aí perto e ir embora.

Fica a lição: não vá de bicicleta a uma aglomeração, mas se tiver de ir, não conte com internet móvel para contatar e pagar. Ou melhor: não vá a aglomeração de jeito nenhum! A não ser que seja para defender a democracia.

E olha como tudo é relativo: se estar de bicicleta antes da manifestação era sinônimo de liberdade, estar com ela durante a manifestação significava prisão.

Faço minhas as palavras de um motoqueiro que no meio da multidão, segurando dois capacetes, disse:

― Pô, saí correndo do meu trabalho, deixei minha moto lonjão, se esse Lula não virar, vou ficar muito p#&%!


Sou Arlon de Serra Grande, professor, ensaísta, poeta, entusiasta de Linux e autor do livro autopublicado “Estudando Poesia” em que reflito sobre como se dá o aprendizado da linguagem poética. Se quiser adquirir um exemplar, fazer uma contribuição para este blogueiro, fazer recomendações, sugerir correções de texto ou comentar este post, clique no link abaixo.


#cotidiano

 
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from felipe siles

Logo do Acorda Cosmópolis, criado por @maduxhd

O resultado do primeiro turno das eleições brasileiras, em 2026, configurou um cenário no mínimo preocupante para pessoas de todo o espectro político da esquerda. Flávio Bolsonaro foi o 1º colocado, ficando bem perto de vencer no primeiro turno; além de seu partido, o PL, conseguir no legislativo ampla maioria no Senado e na Câmara. A hipotética vitória do miliciano podendo controlar as principais casas legislativas e indicar pelo menos quatro ministros do STF acendeu nas esquerdas um alerta e, a partir daí, começou uma ampla mobilização em torno da campanha de Lula e contra Flávio. Houve uma série de manifestações populares em diversos centros urbanos, e uma forte mobilização nas redes sociais, capitaneada por nomes como Janones e Erika Hilton. No meio disso, foi aprovada, por pressão popular, e por quase unanimidade o fim da escala 6x1, que representou uma grande vitória para a classe trabalhadora. Esse texto é uma tentativa de olhar para o fenômeno por outra ótica que não as capitais e grandes centros urbanos, já que essa visão já predomina nos principais veículos de imprensa e mídia.

Nesse contexto de mobilização contra o avanço do fascismo, surgiu em minha cidade, Cosmópolis, interior de São Paulo, região metropolitana de Campinas, cidade de 70 mil habitantes, da noite para o dia, um movimento antifascista chamado “Acorda Cosmópolis” puxado, em sua maioria, por jovens secundaristas, mas que depois foi ganhando adesão de outros setores, até da esquerda partidária. O grupo surgiu há poucas semanas (é difícil precisar a data), mas já se mobilizou para confeccionar, imprimir e colar cartazes; participar de manifestações; e criar conteúdos para as redes sociais. No dia 11/10 o grupo se dividiu, uma parte foi para Campinas para engrossar a “Marcha pela Democracia”, que se concentrou no Largo Rosário a partir das 9h da manhã, e marchou pelas ruas do centro da cidade. Outra parte ficou em Cosmópolis, onde houve uma manifestação na cidade, na Praça da Bíblia, puxada pelo PT e PSB, únicos partidos de esquerda e centro-esquerda com diretórios na cidade.

Tenho conversado muito com os integrantes do movimento, do qual me tornei um colaborador recorrente. Percebo neles um espírito muito diferente daquele das jornadas de 2013, muitos deles se assumem como pessoas de esquerda e antifascistas. Vários deles inclusive se identificam com o comunismo. Figuras da esquerda proeminentes na internet, como Jones Manoel e Erika Hilton, são as grandes referências deles. Tenho a impressão que eles se identificam com a esquerda por vários motivos, por se tratar de uma cidade pequena, a política é sentida muito mais no dia-a-dia e percebo que vários deles, se não todos, são beneficiários das políticas públicas, sinto que essa é a principal motivação do posicionamento deles. Também há a questão da identificação com as chamadas “pautas identitárias”, mas também com as pautas do trabalhador, essa dualidade que existe na cabeça de alguns caciques da esquerda parece não fazer nenhum sentido para eles, sinto que eles vêem as lutas trabalhistas e identitárias como intimamente conectadas (inclusive, me identifico com essa visão).

A pauta da soberania digital volta e meia aparece, mas não ganha adesão e corpo, mas só do fato de estar no radar já me deixa satisfeito. Fizemos um grupo no Signal e consegui arrastar uma pessoa do movimento para a instância do Mastodon que administro, a Ayom. Como alguém que ativamente se articula contra a big tech, a favor da liberdade e transparência tecnólogica, tenho aprendido com esse movimento a ter um pouco de paciência. O Instagram não vai perder importância para as pessoas do dia para a noite, e eu sinto que essa juventude tem a sua subjetividade fortemente moldada e conectada a ele. Acho que precisamos de várias frentes: a ocupação estratégica e inteligente dessas redes pela esquerda; a denúncia jurídica das arbitrariedades cometidas pela big tech e interferência nas nossas eleições; e a criação e gestão de espaços alternativos, construindo a internet na qual acreditamos e queremos estar. É nessa última frente que trabalho e reconheço a importância do trabalho nas outras duas também.

Dito isso, caso você utilize Instagram e/ou TikTok, eu te convido a seguir as páginas do movimento, e também ajudar a engajar o conteúdo deles, curtindo, compartilhando, comentando, etc, vocês já sabem o roteiro. O conteúdo varia de denúncias às mentiras de Flávio Bolsonaro; registros da mobilização na cidade; e também alguns conteúdos de humor, numa linguagem bem típica do TikTok:

https://www.instagram.com/acordacosmopolis/ https://www.tiktok.com/@acordacosmopolis

Por último, coloquei o título deste texto como “Primavera Caipira” porque conversando com algumas pessoas do movimento e também com outros colegas, estou com a sensação de que estão pipocando diversos movimentos de características semelhantes pelo interior paulista, sei que em Conchal também há um desses, com envolvimentos de umas 200 pessoas. Participei da “Marcha pela Democracia” em Campinas, e conversei com algumas trabalhadoras dos comércios na rodoviária, e elas me disseram que a movimentação de gente chegando e indo para o ato foi gigantesca. Tenho a impressão que essas pequenas células no interior paulista ajudaram a inflar o ato em Campinas. Não tenho a dimensão das proporções reais desse fenômeno, mas achei válido fazer o registro dele aqui pelo interior paulista, começando por Cosmópolis, mas pretendo fazer um breve raio-x de outros movimentos similares. Se você conhece algum movimento com essas características, no interior de São Paulo, ou mesmo no interior de outros estados, naquilo que chamam de “Brasil Profundo”, mande um e-mail para felipesiles@anartist.org, vamos conversar, e quem sabe você me fornece material para continuar a série. Acredito que é muito importante esses movimentos eclodirem no interior, que é completamente abandonado pela maioria dos intelectuais acadêmicos e pelas esquerdas institucionais. Partidos como UP, PSOL, PCdoB e PCB sequer possuem diretórios por aqui. Se queremos conquistar os corações das multidões para o lado esquerdo da força é de vital importância estar nesses territórios, espero que as esquerdas aprendam essa lição, e este texto é uma humilde contribuição nesse sentido.

 
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from Ideias de Chirico

Nesta publicação, vou me limitar a indicar alguns links. Afora uma tradução de um vídeo-ensaio em italiano em andamento, não rabisquei nada demais entre um texto e outro. De qualquer forma, espero que gostem das minhas recomendações!

Tetris: ordenando o aleatório

Fissurei com o jogo soviético Tetris, projetado pelo engenheiro de software russo Alexey Pajitnov em 1985. Nos últimos dias fiquei buscando toda espécie de informação a respeito dele.

Tudo começou quando vi um vídeo do @nada.pratico@instagram.com recomendando o filme “Êxtase de Ordem: os mestres de Tetris” (2011) e comentando sobre os benefícios de “tetrisar”, que vão desde exercitar a capacidade de reconhecer padrões, passando por tratar episódios de estresse pós-traumático ou de vício em cigarro e álcool, até desenvolver o tamanho do córtex do lobo frontal esquerdo do cérebro, responsável por planejar e coordenar movimentos voluntários.

Buscando por outros materiais, comecei a ver um documentário da BBC mostrando como foram os trâmites para trazer o game para o mercado ocidental (depois de anos circunscrito no eixo soviético).

• Tetris: from Russia with love (Youtube ― The Video Game Reviewer Archive)

Mais recentemente li um artigo muito bom da mesma BBC falando sobre um feito de um adolescente no clássico Tetris da Nintendo: o de “zerar” o jogo ― algo que só a IA havia feito. O mesmo artigo reflete sobre o conceito de “evolução cultural”, a capacidade de seres sociais de adquirir e aprimorar habilidades através da “cópia” de um outro.

• Tetris: como adolescente conseguiu 'o impossível' no clássico dosgames (BBC Brasil)

Para quem é das computarias, recomendo o pacote vitetris, um Tetris desenvolvido para jogar no emulador de terminal. É o modelo de jogo com o qual tenho praticado. Fica aí a dica.

Post-scriptum: contatei @nada.pratico@instagram.com para saber onde assistir ao filme mencionado e recebi o seguinte link:

• Ecstasy of Order: The Tetris Masters (2011) (lookmovie2.to)

Brasil na alma de um violino

Imagem de uma mulher branca de cabelo ondulado. Ao fundo vê-se uma paisagem nordestina com sol cactos e pequenas figuras do cotidiano brasileiro como uma cadeira de bar, um copo de cerveja e outro de café

Enquanto escrevo estas linhas, escuto o disco “Caprichoso Brasil” lançado neste ano pela gaúcha Paloma Pitaya. Tive notícias dessa peça ouvindo a Rádio MEC, por onde a musicista dava uma entrevista.

• Violinista e compositora Paloma Pitaya lança “Caprichoso Brasil” (radionacional.ebc.com.br)

Pitaya é de formação clássica, mas por conta de seu projeto de pesquisa cobrindo os ritmos brasileiros, passou a compor peças da música popular brasileira e argentina para violino ― de frevo à baião, de samba à milonga.

Todas as canções são nomeadas como “Caprichos”, sendo tocadas em violino solo ou acompanhado de um outro instrumento ― em geral violão.

“Capricho”, vale dizer, é um gênero musical consagrado pelo violinista virtuoso Niccolò Paganini no qual se mostra uma habilidade extraordinária em um dado instrumento musical.

O disco completo está disponível no Spotify e na página oficial da artista no Youtube.

Do disco, indico a escuta de cara de “Capricho Frevo”, uma das primeiras faixas que ouvi do rádio.

• Capricho Frevo • Paloma Pitaya (Youtube ― Paloma Pitaya)

Blogroll

A banda cearense “Os Bardos”, inicialmente uma banda de rock progressivo e atualmente fazendo experimentos com música eletrônica, fez um site LINDO bem ao estilo neocities (roda sem Javascript, aliás). No botão “início” é possível encontrar um link para download dos dois álbuns lançados até o momento. Recomendo a visita e a escuta!

• nós – Os Bardos (osbardos.com)

Lista imensa feita na Wikipédia de músicos que se opuseram ao uso indevido de Trump de suas canções. Vai de A à Z. Literalmente.

• Musicians who oppose Donald Trump's use of their music (en.wikipedia.org)

O autoritarismo não precisa mais se apresentar com a estética do autoritarismo do século passado. Aliás, vem embalada no rótulo de uma grande empresa de tecnologia.

― Gastão Cassel em resenha sobre o filme “O Aniversário”

Depois de solicitar aos organizadores, a tradução do artigo “Como e porquê parei de comprar notebooks novos” do Low Tech Magazine que traduzi há alguns anos foi publicado no site original no último mês.

• Como e por que parei de comprar notebooks novos (Low←Tech Magazine)

Aproveitei a ocasião para ver outros artigos traduzidos para português e me deparei com esse falando sobre o processo de criarem um sítio web de baixo custo. Recomendo bastante para aqueles que são mantenedores de servidores e/ou tem simpatia pela causa ambiental.

• Como construir um site low-tech? (Low←Tech Magazine)

Citações

Podiam refazer aquele adesivo do “Sorria, você está sendo manipulado”, mas ao invés do símbolo da Globo coloca as logos do YouTube, Instagram, WhatsApp

― @felipesiles@ayom.media

Uma das melhores coisas sobre ser muito é o luxo de pensar pouco.

― Marshall McLuhan.

Morador de rua que não aceita pix vai morrer de fome.

― Anônimo.

Quando um homem quer detonar um tigre, chama isso de esporte; quando o tigre quer detonar o homem, chama isso de selvageria.

― Shaw, “Massime per rivoluzionari”

tava pensando agora que não se fala mais no 4chan e tava pensando que talvez não se fale mais porque o ecossistema digital mainstream inteiro virou um 4chan

― @mathek@tilde.zone em tute

Há três regras para escrever um romance. Infelizmente ninguém sabe quais são elas.

― Somerset Maugham.

(Outro dia fiquei fascinado pelo ditado “O peixe é o último a descobrir a água”, e, buscando sobre suas origens, desenterrei uma série de outras citações envolvendo os signos água e peixe, que estão a seguir).

O indivíduo costuma estar tão profundamente imerso em sua cultura que mal a vê como uma força modeladora em sua vida. Como alguém disse, “O peixe é o último a descobrir a água”. Pessoas que não conhecem outro padrão cultural que não o seu tendem a vê-lo como divino ou intrinsecamente certo.

― James C. Coleman.

O que faz um peixe saber sobre a água sob a qual nadou a vida inteira?

― Albert Einstein.

Era uma vez um peixe inventivo que descobriu a água.

― Roger Pocock.

(Re)leia outras ideias de Chirico

• A sedução pelas sombras (setembro de 2024)

Ensaio em que penso sobre como nossa cultura está organizada em torno da luz enquanto fenômeno e enquanto símbolo.

• Ao som dos planetas de Alberto Continentino e Vivian Muller (novembro de 2024)

Resenha do primeiro disco do baixista Alberto Continentino, que é basicamente cócegas no ouvido.

• Como tornar a tecnologia divertida de novo? (março de 2025)

Onde dou meu relato sobre como foi minha experiência com a informática e sobre como melhorar nossa relação com essas “extensões do corpo humano”.

#notas


 
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Capa do livro '60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento', de Ivan Jerônimo. O título está contornado por um retângulo vermelho. Ao fundo, uma ilustração de uma visão panorâmica feita em aquarela.

Imagem: capa do livro “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”. Cortesia do autor.

Quem já leu o meu blogroll sabe o quanto admiro a escrita de Ivan Jerônimo ― designer, fotógrafo e jornalista nascido em São Paulo, mas radicado em Florianópolis. Além de grande cronista, Ivan também é um bom curador, sempre lançando ótimas recomendações de leituras no seu Mastodon @ivanjeronimo@bolha.one.

Seu texto blogal, longe de ser mera descrição de suas ilustrações, tem um frescor próprio de quem cresceu com a nata da crônica brasileira e que, não só aprendeu as lições de um Paulo Mendes Campos ou de um Carlos Drummond de Andrade, mas também soube como tornar célebre o célere, ao tempo que amalgama imagem e escrita. É isso que primeiramente me marcou na leitura do seu “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento” (2025).

Já há alguns meses vínhamos trocando e-mails quando decidimos trocar também livros: eu lhe enviaria o meu autopublicado “Estudando Poesia” (2025) e ele me enviaria o seu também autopublicado “60 dias dentro de casa”.

Imagem. O mesmo livro, só que aberto em sua contracapa, onde se vê um macerador com um pilão de pedra desenhado. Sobre isso lê-se 'Para Arlon, Obrigado por propor uma troca ― real ― nestes tempos de compartilhamentos efêmeros. Boa leitura! Ivan Jerônimo. Florianópolis, 2/8/26

Imagem: dedicatória do livro (incrível aliás como a tinta escrita se assemelha à tinta impressa!).

“60 dias” foi escrito em um contexto de isolamento severo durante o período de maior urgência da pandemia de Covid-19, a partir daquele fatídico março de 2020 até maio do mesmo ano. Ivan, participante ativo dos Urban Sketchers ― grupos ao redor do mundo que costumam se encontrar para desenhar as cidades (logo, uma atividade outdoor) ―, viu-se em uma condição indoor na qual não poderia desenhar outra coisa a não ser seu apartamento.

Organizou seus registros no livro em quatro seções: “Da janela”, “Objetos”, “Ambientes” e “Autorretratos”. Interessante aliás sua ordem de seleção: suas artes partem do exterior (a vista da janela, a rua, o terraço), passam pelos objetos e espaços internos (cafeteira, cozinha) e culminam numa série de autorretratos ― ou, diríamos, “o interior do interior”. É como se com a urgência do isolamento, sair do “modo piloto” diário tivesse o forçado a voltar-se menos ao mundo e mais a si mesmo; e é como se, a partir do passeio que fez no seu entorno e em sua casa, desse também um passeio em si mesmo.

Livro aberto ao meio, onde se vê ilustrações de um par de tênis de tênis do lado direito, e do lado direito, headphones. Abaixo de cada desenho, um texto detalhando o processo criativo de cada um.

Imagem: ilustrações em “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”.

Não se pode dizer ao certo se é um livro de artes com descrições ou um livro de crônicas ilustradas. Já naquele tempo, sua escrita se revelava despojada e íntima. Junto de cada ilustração, vemos a descrição do processo ilustrativo, o que cada objeto lhe remete, e, por fim, a descrição das ferramentas utilizadas. A miríade de técnicas utilizadas (analógicas e digitais) revelam um artista experimental e curioso.

Como se não bastasse o seu conteúdo, a qualidade da impressão e o papel escolhido (cuchê fosco) conferem ainda mais valor ao livro enquanto objeto.

Livro aberto ao meio, em que se vê outro desenho em aquarela mostrando uma visão panorâmica da cidade de Florianópolis. A ilustração toma duas páginas.

Imagem: ilustrações em “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”.

Em cada página, Ivan dá à vista a vitalidade de espaços ou objetos que costumamos ignorar: a máquina de lavar roupa, o poste, o banheiro. Assim, desautomatizamos nosso olhar diante do banal e do cotidiano, vendo beleza até mesmo nas pequenas engrenagens de nossos utensílios.

Não posso deixar de enxergar nesse foco no minúsculo e no imediato como uma tentativa também de suportar o horror da pandemia, com especial atenção ao Brasil, cujo saldo de mortos pandêmicos ultrapassou 700 mil em dois anos, presente de um governo autoritário e anticientífico que, aliás, ainda tem a audácia de querer retornar nestas eleições.

Livro aberto ao meio, onde se vê ao lado esquerdo, no topo da página, uma ilustração de um toca discos feito em unipin. No restante do espaço, vê-se texto detalhando o processo do desenho.

Imagem: ilustrações em “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”.

“60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento” é uma tímida lição de como a arte pode nos dar abrigo, mas também é a memória íntima de um período de descaso sanitário, o qual não poderemos nunca nos esquecer.


Sou Arlon de Serra Grande, professor, ensaísta, poeta, entusiasta de Linux e autor do livro autopublicado “Estudando Poesia” em que reflito sobre como se dá o aprendizado da linguagem poética. Se quiser adquirir um exemplar, fazer uma contribuição para este blogueiro, fazer recomendações, sugerir correções de texto ou comentar este post, clique no link abaixo.


#cultura

 
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from felipe siles

O Guia alimentar para a população brasileira do Ministério da Saúde foi, sem dúvida, um dos livros mais importantes que li na minha vida. O qual continua reverberando até hoje, depois de anos da primeira leitura, nos meus hábitos e na maneira de me relacionar com a comida. Para quem não leu, recomendo fortemente: é um antídoto poderoso contra a forma como influenciadores têm conduzido a alimentação no senso comum, focando apenas na racionalidade cartesiana e na nutrição, com objetivo de vender wheys e outros alimentos ultraprocessados supostamente saudáveis. Comida não é apenas um punhado de vitaminas e proteínas; é afeto, preparo, conhecimento, tradição, socialização, identidade, cultura, soberania e política. O Guia Alimentar me chamou a atenção para o conhecimento ancestral e civilizatório que as diferentes culturas brasileiras carregaram ao longo dos anos. Esse saber envolveu o desenvolvimento de tecnologias para alimentar os seus, promovendo tudo aquilo relacionado ao alimento.

Sou ovolactovegetariano desde criança. Segundo minha mãe, quando descobri o que era carne não quis mais comer, no que foi respeitado por ela. Como não havia outros vegetarianos na família, e minha condição social era precária, a minha alimentação na infância e na adolescência foi muito restrita, baseando-se sempre nos mesmos pratos, basicamente: arroz, feijão, salada e ovo. Não que essa alimentação seja ruim — longe disso; a partir do que aprendi com o Guia Alimentar, parece-me bem saudável e balanceada. Porém, foi só depois de entrar na universidade pública que pude ampliar o meu leque cultural (e, consequentemente, o alimentício) para culinárias com ampla riqueza de pratos vegetarianos, como a indiana, a chinesa e a árabe, entre outras. Mas, embora ame essas culinárias, é difícil conectar-se com pessoas do cotidiano por esses pratos; o público que conhece e usufrui dessa culinária é altamente restrito.

A partir da leitura do Guia, comecei a ficar mais atento aos pratos brasileiros originalmente sem carne ou facilmente adaptáveis para versões vegetarianas, com o objetivo principal de me conectar com as pessoas. Afinal, um dos maiores entraves para os vegetarianos é o aspecto social da alimentação, que é fundamental. Somos vistos de fora como pessoas radicais, contra o consumo da carne, que querem mudar os outros. Pelo que eu observo, é justamente o contrário: a maioria de nós somos pessoas bem tranquilas que respeitam os hábitos e culturas das outras pessoas, e normalmente são os outros que querem e tentam nos mudar. Inclusive, tenho muito respeito por todas as culturas que têm a carne como uma de suas bases alimentares e festivas, incluindo diversas culturas indígenas, quilombolas, tradicionais e regionais.

Sou uma pessoa que gosta muito de cozinhar e preparo meus alimentos praticamente todos os dias. Também adoro viajar; a vida acadêmica e artística me permite frequentar congressos, festivais e eventos em todo o Brasil com certa periodicidade. Sempre que visito um lugar novo, procuro observar atentamente os hábitos alimentares locais, para aprender com eles. Juntei o conhecimento adquirido nas viagens, meus hábitos e reflexões, com uma pequena ajuda da Maritaca, uma LLM totalmente brasileira. Com isso, fiz duas listas: uma de pratos originalmente vegetarianos e outra de pratos facilmente adaptáveis para versões vegetarianas:

Originalmente vegetarianos: Farofa de banana (AM/PA), Tapioca (N/NE), Cuscuz nordestino (CE/RN/PB/PE), Mungunzá salgado (BA/PE), Canjica salgada (variação regional), Baião de dois (CE/NE), Farofa de dendê (BA), Arroz com pequi (GO/MT), Farofa de guariroba (GO), Pamonha salgada (GO), Feijão tropeiro (MG/SP), Pão de queijo (MG), Couve refogada (MG/SP), Angu (MG/ES) e Pinhão cozido ou assado (SC/RS).

Facilmente adaptáveis para versões vegetarianas: Tacacá (PA), Maniçoba (PA), Pirarucu de casaca (AM/PA), Caruru (BA), Vatapá (BA), Virado à paulista (SP), Tutu de feijão (MG), Feijão tropeiro (MG/SP), Canjiquinha (MG), Barreado (SC), Sopa de capeletti (RS) e Puchero (RS).

Para ovolactovegetarianos como eu, a boa notícia é que o Brasil possui uma ampla variedade de queijos. Segue uma lista por regiões:

Norte: Queijo de búfala do Marajó (PA) e Requeijão do Marajó. Nordeste: Queijo coalho (CE, PE, BA,PB), Queijo manteiga (PB,PE), Queijo de manteiga do Seridó (RN,PB), Queijo coalho defumado (CE) e Ricota de coalho (BA,SE). Centro-Oeste: Queijo do Pantanal (MS), Queijo de Goiás e Manteiga de Goiás. Sudeste: Queijo Parmesão de Araxá (MG/SP), Queijo de Búfala Fresco (Vale do Ribeira/SP), Queijo Canastra do Alto Paranaíba (MG/GO), Queijo Minas Artesanal (QMA), Canastra (Serra da Canastra), Serro (Vale do Jequitinhonha), Serrano (Serra do Salitre), Cerrado (região central de MG), Mettius (Alto Paranaíba), Reino (Sul de Minas), Parmesão do Cerrado (Patrocínio/Araxá) e Queijo do Laticínio Escola (UFV). Sul: Queijo Colonial (RS/SC), Queijo Serrano (Campos de Cima da Serra — RS/SC), Queijo Artesanal Serrano do Planalto Sul (SC), Queijo Prato (RS), Queijo Mussarela de Búfala (PR/SP/RS) e Queijo Parmesão estilo Reggiano (PR/RS).

Esse texto não tem pretensão científica ou nutricional, é apenas um compartilhamento de minhas reflexões, estudos, pesquisas e hábitos no que diz respeito à alimentação vegetariana enraizada nas culturas locais, que são muito ricas. De todas essas listas, os alimentos mais presentes na minha rotina pessoal são a tapioca, o cuscuz nordestino, os queijos (minas e coalho principalmente), a couve refogada, o pão de queijo e a farofa de dendê. Mas o principal é que ampliar o leque alimentício pela culinária brasileira facilitou a conexão com as pessoas, tanto onde moro, como em minhas viagens. Afinal, tudo se torna mais fácil quando você conhece os pratos típicos do lugar que já são vegetarianos e os que são facilmente adaptáveis. A qualidade das relações melhora muito quando as pessoas sentem que compartilham com você a mesma comida e, portanto, a mesma cultura. O texto não é guia de como fazer ou como se alimentar, mas espero que ajude outras pessoas vegetarianas a diversificar suas alimentações e a se conectarem com suas culturas locais.

 
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from daltux

MinIO revelou-se (mais) uma empresa californiana baseada em capital de risco que mantinha um modelo híbrido de licenciamento do software que desenvolvia e que, na capitania do navio com uma extensa comunidade embarcada nele, resolveu abandoná-lo, voltando-se ao desenvolvimento de software privativo de liberdade. Consta, claramente, que a estratégia foi a de pular com os dois pés para o “inafundável” supertransatlântico da dita inteligência artificial...

Qual será a próxima? Desconfiemos de projetos de software mantidos sob esse tipo de licenciamento, com edição “comunitária” e edição “empresarial”, altamente merdificável. Tentemos focar no software livre por completo e não nos deixemos enganar pela conversa corporativa do chamado código aberto enquanto convém.

Felizmente, o que tinha sido desenvolvido até então foi publicado sob AGPLv3, fato que, por favorecer que quem utiliza o software preserve suas quatro liberdades essenciais, permite que quaisquer partes interessadas tenham o direito de assumir a liderança do projeto e tirar o barco da deriva. Em outras palavras, possibilita continuar seu desenvolvimento como trabalho derivado. Parece até que isso logo começou. Contudo, como há outros projetos mais ativos com propósitos semelhantes, não há certeza de que seu desenvolvimento continuará com alguma força, de toda maneira.


A notícia é de meses atrás, porém tomei ciência dela apenas hoje. A primeira vez que tive contato com esse programa e o utilizei foi há poucos dias, ao implantar meu servidor Ente Photos, de cuja documentação MinIO faz parte como sugestão de armazenamento local. Agora, vai ter que ficar assim, ao menos por algum tempo. Estava cogitando usar MinIO para outras funções, mas vou deixá-lo apenas para objetos locais do Ente mesmo. Já devia ter empregado, para isso, algum outro sistema de armazenamento com API compatível com S3. Não é interessante iniciar algo novo com um componente importante já podendo ser praticamente considerado legado. Lembrete a mim mesmo: mais atenção a dependências, na próxima vez!


Post Scriptum (12 jul. 2026) — Algo que já deveria ter feito desde o princípio: enfim, troquei o natilegado MinIO por Garage (AGPLv3). Sob vários aspectos, este já parece começar muito mais adequado aos propósitos do meu projeto. Tanto que, funcionando com a mesma carga, ocupa recursos ínfimos, se comparado ao finado.

#MinIO #selfhosting #softwareLivre #AGPLv3 #blambers #EntePhotos #Garage

 
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from john

eu reclamo, mas é porque amo.

fazia anos que eu não conseguia engajar na leitura. às vezes animava com um livro e devorava. mas o normal mesmo era pegar e abandonar no meio. não por desinteresse, mas pq como eu não tinha a leitura incorporada na rotina, lia esporadicamente, com intervalos cada vez maiores entre cada leitura... e acabava esquecendo e largando.

ultimamente as coisas têm saído bastante do padrão e espero que continue assim. acho que devo muito disso ao mec livros. pouco depois da plataforma ser lançada, peguei emprestado o livro “a mãe, a filha e o espírito da santa”. amei. li, sei lá, em dois dias. mas o app naquela versão limitava os empréstimos a um livro e não permitia a devolução antes do prazo. eu queria ler algo na mesma linha de realismo fantástico que o livro anterior. então peguei “a cabeça do santo”, que tinha físico aqui em casa. depois o “salvar o fogo”, que também estava na estante... e a essa altura o mec livros já me deixou emprestar outro... assim, eu tenho alternado os livros físicos que tenho com o app do mec. nessa brincadeira já foram seis livros em dois meses.

a facilidade de abrir o app e ler alguma coisa tem me incentivado a substituir o hábito infernal do doomscrolling. nos intervalos da vida, ao invés de abrir uma rede social, abro o app do mec. sinto que tem me feito muito bem.

outro efeito do mec livros é que voltei a gastar com livros hehe. depois de ler o segundo livro da trilogia do itamar vieira jr. que eu já tinha, não pude resistir a comprar o terceiro... mesmo estando disponível no app. também comprei o “livro do desassossego”, do fernando pessoa. esse eu li no app, mas gostei tanto que quis comprar pra ter. fazia muito tempo que eu não comprava um livro. parece que quem lê gasta dinheiro com leitura! espero que o mercado editorial compreenda esse valor da plataforma.

#MECLivros

 
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from john

Estou lendo O Triste Fim de Policarpo Quaresma e uma passagem me chamou atenção:

“[...] lhe bateram à porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os cabelos, como se tivesse perdido a mulher ou um filho.

[...]

Eis aí! Vocês não têm a mínima noção das cousas da nossa terra. Queriam que eu apertasse a mão. Isto não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam os tupinambás.”

– O triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto

A referência à saudação tupinambá, conhecida como saudação lacrimosa me lembrou de já ter presenciado cena muito semelhante durante uma visita a uma aldeia kayapó. A medida que chegavam as visitas, tanto anfitriões quanto visitantes se lançavam em um choro profundo e emocionado. Acho que só os mais velhos faziam isso, ao cumprimentarem-se entre si. Na ocasião, me explicaram que eles não se viam há muito tempo e uma forma de se cumprimentar nesse caso era chorando pelos amigos e parentes falecidos, os lutos que não tiveram oportunidade de serem compartilhados.

Não sei se o sentido da prática impresso pelos kayapó de hoje é o mesmo dos tupinambás do séc. XVII – que é de onde vêm as descrições de naturalistas europeus que, na ficção de Lima Barreto, inspiraram o major Policarpo. De qualquer forma, é desses costumes indígenas que deixam atônitos os não-indígenas e guardam sentidos e sensibilidades profundas.

 
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from felipe siles

ATENÇÃO: este texto revela o final do filme; portanto, se você é sensível a esse tipo de informação, sugiro que assista ao curta de 20 minutos antes de ler o texto.

Imagem do filme, onde vemos um menino sentado entregando um vidro de catchup à sua amiga, que está de pé

Meus filmes preferidos são aqueles que continuam me acompanhando, em minha cabeça, mesmo dias ou até semanas depois de assisti-los. É o caso deste curta-metragem, Trapo, do diretor João Chimendes, produzido na cidade de Uruguaiana-RS. A princípio, achei o filme apenas divertido, uma espécie de Saneamento Básico protagonizado por crianças, mas as reflexões da obra continuaram se aprofundando na minha mente por dias.

Uruguaiana tem cerca de 100 mil habitantes, cerca de 30 mil a mais do que a cidade onde moro, Cosmópolis-SP. Faço esse registro porque minha interpretação da mensagem do filme passa muito pelo reconhecimento de uma poética produzida por pessoas que têm problemas parecidos com os que eu enfrento na condição de artista suburbano.

Trapo nos apresenta o protagonista Léo, um menino que sonha em ser cineasta e fazer filmes. “Sonho” é eufemismo: o menino é obcecado pela ideia, e praticamente todas as suas ações no filme convergem para esse objetivo. O filme começa com Léo perdendo a sua comparsa no plano, a amiguinha Manu, que compartilha com ele o celular e um peixe, que são peças importantes na produção cinematográfica que estão fazendo. Léo perde sua companheira Manu para Porto Alegre, para a cidade grande, e eis que o nosso pequeno herói se depara com seu primeiro obstáculo para se tornar um cineasta: a solidão e também a condição de suburbano, interiorano. Ao perder sua comparsa, Léo sangra pelo catchup cenográfico improvisado para o filme.

A partir daí, o nosso pequeno herói Léo terá que enfrentar o segundo e mais difícil obstáculo em sua jornada de cineasta: a própria família. Essa é uma realidade de pessoas marginalizadas que desejam se tornar artistas. A verdade nua e crua é que, com algumas exceções, a porra da família só atrapalha esse nosso sonho. Não o fazem por mal, mas, como engrenagens de um sistema que as colocou em posição subalterna, elas reproduzem as opressões que sofreram, dificultando ou até impedindo os filhos de acessar as oportunidades que lhes foram negadas pela sociedade, com o objetivo de protegê-los de dores e frustrações, gerando assim (adivinha), dor e frustração. É um papel semelhante ao que podemos observar no filme Matrix: qualquer pessoa comum, ao perceber uma ameaça à Matrix, transforma-se no Agente Smith e defende aquele mundo, com aquelas regras, a qualquer custo. A maioria dos artistas periféricos e marginalizados precisa transpor a própria família como obstáculo, e os traumas e feridas decorrentes dessa luta costumam acompanhá-los pelo resto de sua trajetória, compondo suas poéticas e visões artísticas.

Léo precisa lutar contra um mundo que é hostil ao seu sonho autêntico; tudo nele parece uma violência nesse sentido. Precisa enfrentar a mãe, que, à duras penas, o sustenta sozinha, com seu trabalho de costureira. Mergulhada na sua necessidade de sobreviver, a mãe não compreende o garoto. Quando ele pergunta se uma câmera fotográfica funciona, ela responde que aquilo é lixo. O sonho de Léo é lixo para a sociedade como está estabelecida, e a sociedade como está estabelecida, em efeito de espelho, é lixo para Léo, como veremos no episódio com o celular de sua tia.

Léo, malandramente, engana a própria tia para roubar seu celular, e poder fazer seus filmes. Para liberar espaço na memória, apaga todas as fotos da tia, que são selfies muito parecidas. Aqui, Léo demonstra sua transgressão, desobediência e falta de identificação com um mundo superficial e homogeneizante, que registra de maneira plastificada todas as experiências no formato de selfie. É a própria quebra do personagem com a ideia do ensimesmamento contemporâneo, em oposição a uma ideia de mundo que desperta reflexão, arte, que deixa legado, que tem especificidade e autenticidade.

Léo ainda envia por aplicativo de mensagem uma foto mostrando o dedo do meio para um peguete de sua tia. Porque é isso: ao artista marginalizado, suburbano, o mundo é hostil; somos forjados nessa hostilidade, e não temos sangue de barata e nem precisamos reproduzir um bom mocismo agradável para a classe média estabelecida. Ser artista marginal é xingar a própria mãe de palavrão, é roubar o celular da própria tia. É ser desobediente, é conservar-se ético e fiel à sua autenticidade em um mundo que quer aprisionar você na homogeneidade e na superficialidade, mesmo que isso signifique ter um mau comportamento frente àqueles que são obstáculos a este objetivo.

Eis que Léo passa, em sua jornada, pela morte do herói: é obrigado a devolver o celular da tia, ouve a maior bronca, chora e implora para que a tia não apague seu filme. Ainda é acusado pela própria mãe, desconfiada pelo episódio anterior, de roubar os seus tecidos, a matéria prima do seu ganha-pão. Briga com a mãe, xinga-a com alguns palavrões, discute, enfrenta e chora. Léo não é um herói nos moldes virtuosos do bom mocismo. É humano: sonha, encanta-se, grita, chora, rouba, mente e xinga.

E, no final do filme, na virada em que Léo enfrenta a mãe e foge de casa, ou seja, ao transpor o seu maior obstáculo, ele encontra, no meio do mato, à noite, uma figura mítica, formada pelos trapos de sua mãe, segurando o peixe de Manu. Essa figura mítica abre ampla margem para diversas interpretações e subjetividades. Minha interpretação é de que ela representa a própria ARTE; ou seja, Léo encontra seu verdadeiro espírito artístico, que é formado por uma estranha amálgama de suas dores e dificuldades (os trapos do trabalho da mãe) com seu sonho (o peixe, que também remete à amizade e parceria com Manu). Uma figura que mistura a beleza poética à estranheza e ao desconforto, ou seja, a própria arte. É um final muito lindo e surpreendente, já que o filme aparentemente não indica que teremos um desfecho fantástico.

Trapo é um dos filmes mais impressionantes que eu já vi, pela competência de trazer tanta profundidade em 20 minutos de história. Para mim não é nenhuma surpresa ter levado o prêmio de melhor filme gaúcho no tradicional Festival de Gramado-RS. Foi também um dos filmes que mais falou comigo, com as minhas dores e delícias de ser um artista periférico: de cidade pequena, negro e vindo das classes populares. Não sou diferente de Léo, não abrimos mão de sermos artistas, mesmo com a sociedade capitalista sendo hostil às nossas verdades. Ser artista é um compromisso ético com essa auntenticidade e com o mundo que desejamos; a despeito das dores do processo, se mil vidas eu tivesse, nas mil vidas eu seria artista. Porque manter-se artista nesse mundo plastificado e superficial é escolher manter-se vivo.

Mais curta-metragens e menos reels!

 
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from felipe siles

AVISO: O presente texto, em algum momento, revelará o final do filme. Portanto, se você é sensível a isso, sugiro que o assista antes da leitura.

“La teta asustada” é uma espécie de doença espiritual, presente no imaginário popular peruano, originada em um passado ancestral indígena. Essa doença acomete crianças nascidas de estupro que, ao beber o leite da mãe violentada, acabam “sem alma”, ou seja, com uma subjetividade baseada no medo e na paralisia. Fausta, a protagonista do filme, sofre deste mal e, além disso, para evitar a repetição da história, ela possui uma batata dentro da própria vagina, que provoca ao longo da narrativa alguns problemas de saúde na personagem.

A primeira cena já é muito forte, a mãe de Fausta entoa uma cantiga que carrega todo seu legado de dor e sofrimento, e morre diante da filha. Fausta se vê como responsável por cuidar do corpo da mãe, e também de seu legado, porém todo o resto do mundo parece ser hostil a isso: a falta de dinheiro para enterrar o corpo com dignidade; seu tio que quer resolver a situação enterrando-a no quintal; e o médico insensível que não a escuta e não procura compreender sua subjetividade. Até mesmo os casamentos populares organizados por sua família parecem uma afronta à verdade e essência de Fausta.

Eis que surge uma oportunidade para ela trabalhar na casa de uma pianista, onde duas relações praticamente opostas vão se desenrolar: a relação com a patroa e com o jardineiro Noé. Aos trancos e barrancos, Fausta vai construindo uma relação com a patroa, que gosta de ouvi-la cantar e até paga por isso. Em um momento de solidão e fragilidade emocional, a patroa chega a lhe confessar um segredo de infância. A relação aparentemente vai bem, Fausta consegue se identificar naquela mulher solitária, a despeito do nítido abismo social. Mas, por acreditar na sinceridade dessa relação, é punida de maneira cruel: Fausta se coloca como uma igual, demonstra humanidade e empatia ao fazer um comentário simpático sobre o concerto de piano da patroa. Esta, que vê os empregados apenas como meros instrumentos para realizar seus caprichos e desejos e faz questão de colocá-los em seus devidos lugares, não suporta a inocência e humanidade de Fausta nesse gesto tão despretensioso, o que a leva a expulsá-la do carro, rompendo seu acordo trabalhista e, principalmente, o acordo de dar-lhe pérolas cada vez que ela cantasse. Essas pérolas são de vital importância para Fausta, já que a patroa recusou adiantamento de salário e seriam uma forma de bancar o enterro da mãe antes do casamento da prima. Seu tio fixou o casamento como prazo para que possam resolver a situação do cadáver, pois não quer a própria filha casando-se com uma pessoa morta em casa.

Do outro lado está Noé, o jardineiro, o único aparentemente interessado em construir alguma relação genuína com Fausta. Porém, essa relação também vai sendo construída aos trancos e barrancos, Fausta desconfia de Noé desde a primeira vez que se encontram, onde ela pede para que ele mostre as mãos para entrar na mansão. Eles entram numa discussão sobre as escolhas de Fausta, que se irrita por ele não conseguir compreender o ponto de vista dela e, de certa maneira, desdenhar de (ou confrontar?) seu trauma. Noé se dispõe a acompanhar Fausta até em casa, sempre sob a desconfiança da protagonista, que se acentua quando ele oferece doces de presente a ela, que são atirados no chão.

Fausta compreendia o mundo a partir da violência, principalmente a de gênero. Porém, sua verdade é abalada ao encontrar as pérolas prometidas por sua patroa no chão, próximo de sua casa. Ficamos por um momento sem compreender como elas foram parar ali, até que Fausta é acometida por mais um desmaio (que ocorre em diversos pontos da história, devido à questão da batata). Em seu momento de maior fragilidade, vemos as mãos de um homem sobre Fausta; compartilhamos o mesmo medo da protagonista e esperamos o pior. Contudo, para nossa surpresa, o homem ajeita a roupa de Fausta com carinho paternal e a socorre. O homem é Noé, entendemos que foi ele quem “roubou” as pérolas da patroa. Fausta percebe o peso de ter rejeitado e tratado com desconfiança a única pessoa em quem poderia confiar de verdade, desabando em pranto. Ao notar o descompasso entre sua subjetividade, orientada pelo trauma, e aquele gesto objetivo surpreendentemente humano, ela, em lágrimas, pede a Noé que a leve para fazer a cirurgia de retirada da batata, dando fim ao objeto que simboliza a sua dor e autofagia.

“La teta asustada” é uma história potente sobre traumas, dor e, principalmente, desejo. Fausta, por sua história de trauma e dor, é impedida de desejar. A metáfora não podia ser mais literal do que uma batata no próprio órgão, impedindo o ato sexual. A autodefesa e desconfiança se voltam contra ela própria, atacando sua saúde e contaminando todas as suas relações, mesmo entre seus familiares. O próximo trauma, o próximo perigo é uma sombra que sempre ronda, mas não se concretiza da maneira como ela espera: a hipotética cova no quintal vira uma piscina onde as crianças se divertem, o potencial estuprador Noé se mostra um amigo leal e a patroa se mostra o perigo que ela deveria ter temido de verdade.

O processo de transformação de Fausta começa com o falecimento da mãe, que é a pessoa que lhe passou o trauma, criando uma situação de instabilidade que culmina, no final do filme, com a cirurgia e o reestabelecimento de sua capacidade de confiar nas pessoas e se relacionar. Com o dinheiro das pérolas, o corpo da mãe ganha um final digno: é devolvido ao mar a caminho de sua terra natal, simbolizando o respeito e carinho de Fausta por sua genitora. Esse carinho de Fausta pela mãe move praticamente todas as suas ações no filme. E, ao final, Fausta recebe um presente, presumimos que de Noé, uma flor que brota de uma batata, demonstrando que até mesmo os traumas mais profundos e violentos podem florescer. E você? Quanto é definido pelos seus traumas? Quanto eles te impedem de florescer para o novo?

cartaz do filme

 
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from daltux

Toda a estrutura de “governo digital” que tem sido montada há alguns anos ao redor do chamado “Gov.BR” infelizmente vai na contramão do software livre e, ultimamente, envolve a exigência de software privativo — que priva as pessoas das liberdades digitais essenciais — não só do próprio governo central como também do mais alto capital estrangeiro (”big tech”). Isso culmina com a entrega do controle do cidadão às duas fornecedoras estadunidenses de sistemas operacionais para computação móvel. Embora pareça hoje, não foi sempre assim. Porém, não chega a surpreender uma pouca adesão à causa do software livre: infelizmente, pouca gente sequer sabe o que significa software livre, muito menos bem e, em grande medida, isso se dá por confusão com “código aberto”, algo estimulado e literalmente patrocinado pela própria big tech, replicado até por quem, mesmo com boas intenções, deseja conciliar tudo.

Afinal, coalizão geralmente traz resultados. Talvez não coubesse envolver moral na questão, e sim continuar a tentar o que passa impressão de pragmatismo, algo mais comumente aceito. Contudo, não fica tão difícil entender quais partes acabaram dominando e assim continuarão.

Enquanto quem tolera a convivência com software privativo em nome do pragmatismo defende que somente assim uma transformação social “para o código aberto” seria possível, será que os que chamam de “radicais” do software livre não seriam mais pragmáticos ainda? Em vez de lhes atribuir adjetivos pejorativos, é melhor admirar mais quem se esforça muito para colocar em prática já o que idealizam esses movimentos (por mais conciliatórios que sejam), recusando software privativo em alguma medida conforme suas condições, progressivamente que seja, não apenas em um eventual futuro distante que talvez nunca chegue enquanto se admite o contrário.

Alguém precisa lembrar, questionar e cobrar detalhes com profundidade, senão, muitas vezes, nem percebemos os problemas ou acabamos ajudando a normalizá-los ou reforçá-los.

#softwareLivre #governo #brasil #soberaniaDigital

 
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