Um passeio pelo apartamento de Ivan Jerônimo
from Ideias de Chirico

Imagem: capa do livro “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”. Cortesia do autor.
Quem já leu o meu blogroll sabe o quanto admiro a escrita de Ivan Jerônimo ― designer, fotógrafo e jornalista nascido em São Paulo, mas radicado em Florianópolis. Além de grande cronista, Ivan também é um bom curador, sempre lançando ótimas recomendações de leituras no seu Mastodon @ivanjeronimo@bolha.one.
Seu texto blogal, longe de ser mera descrição de suas ilustrações, tem um frescor próprio de quem cresceu com a nata da crônica brasileira e que, não só aprendeu as lições de um Paulo Mendes Campos ou de um Carlos Drummond de Andrade, mas também soube como tornar célebre o célere, ao tempo que amalgama imagem e escrita. É isso que primeiramente me marcou na leitura do seu “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento” (2025).
Já há alguns meses vínhamos trocando e-mails quando decidimos trocar também livros: eu lhe enviaria o meu autopublicado “Estudando Poesia” (2025) e ele me enviaria o seu também autopublicado “60 dias dentro de casa”.

Imagem: dedicatória do livro (incrível aliás como a tinta escrita se assemelha à tinta impressa!).
“60 dias” foi escrito em um contexto de isolamento severo durante o período de maior urgência da pandemia de Covid-19, a partir daquele fatídico março de 2020 até maio do mesmo ano. Ivan, participante ativo dos Urban Sketchers ― grupos ao redor do mundo que costumam se encontrar para desenhar as cidades (logo, uma atividade outdoor) ―, viu-se em uma condição indoor na qual não poderia desenhar outra coisa a não ser seu apartamento.
Organizou seus registros no livro em quatro seções: “Da janela”, “Objetos”, “Ambientes” e “Autorretratos”. Interessante aliás sua ordem de seleção: suas artes partem do exterior (a vista da janela, a rua, o terraço), passam pelos objetos e espaços internos (cafeteira, cozinha) e culminam numa série de autorretratos ― ou, diríamos, “o interior do interior”. É como se com a urgência do isolamento, sair do “modo piloto” diário tivesse o forçado a voltar-se menos ao mundo e mais a si mesmo; e é como se, a partir do passeio que fez no seu entorno e em sua casa, desse também um passeio em si mesmo.

Imagem: ilustrações em “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”.
Não se pode dizer ao certo se é um livro de artes com descrições ou um livro de crônicas ilustradas. Já naquele tempo, sua escrita se revelava despojada e íntima. Junto de cada ilustração, vemos a descrição do processo ilustrativo, o que cada objeto lhe remete, e, por fim, a descrição das ferramentas utilizadas. A miríade de técnicas utilizadas (analógicas e digitais) revelam um artista experimental e curioso.
Como se não bastasse o seu conteúdo, a qualidade da impressão e o papel escolhido (cuchê fosco) conferem ainda mais valor ao livro enquanto objeto.

Imagem: ilustrações em “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”.
Em cada página, Ivan dá à vista a vitalidade de espaços ou objetos que costumamos ignorar: a máquina de lavar roupa, o poste, o banheiro. Assim, desautomatizamos nosso olhar diante do banal e do cotidiano, vendo beleza até mesmo nas pequenas engrenagens de nossos utensílios.
Não posso deixar de enxergar nesse foco no minúsculo e no imediato como uma tentativa também de suportar o horror da pandemia, com especial atenção ao Brasil, cujo saldo de mortos pandêmicos ultrapassou 700 mil em dois anos, presente de um governo autoritário e anticientífico que, aliás, ainda tem a audácia de querer retornar nestas eleições.

Imagem: ilustrações em “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”.
“60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento” é uma tímida lição de como a arte pode nos dar abrigo, mas também é a memória íntima de um período de descaso sanitário, o qual não poderemos nunca nos esquecer.
Sou Arlon de Serra Grande, professor, ensaísta, poeta, entusiasta de Linux e autor do livro autopublicado “Estudando Poesia” em que reflito sobre como se dá o aprendizado da linguagem poética. Se quiser adquirir um exemplar, fazer uma contribuição para este blogueiro, fazer recomendações, sugerir correções de texto ou comentar este post, clique no link abaixo.
#cultura




