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from Ideias de Chirico

Recomendações de links e outras coisas. Boa leitura.

Linkroll

Projeto transforma Kindle em um calendário / relógio de mesa. Não precisa de jailbreak, basta entrar no navegador, escrever um comando na barra de endereços e entrar em um sítio web. Aparentemente os desenvolvedores esperam que se deixe a internet ligada (há uma atualização de figurinhas), mas, experimentando aqui, depois de carregar a página, o sítio funciona em modo avião.

• eCal.Ink – Smart E-Ink Calendar (ecal.ink)

Há angústia, e também luta de classes, no dispositivo que alterou nossos laços com o tempo e o espaço. Ao reduzir a aspereza das relações sociais a uma tela, ele nos mergulha num universo de impotência, individualismo e submissão. Como escapar?

― Laura J. Martin.

• A hipnose fatal dos celulares (Outras palavras).

Fomos enganados. O verbo “torcer” não vem daquela anedota das torcedoras do Fluminense que “torciam” lenços.

• A inesperada origem da palavra torcedor (Guia do Estudante).

• Sobre a origem da palavra torcedor (Jornalheiros).

Uma tecla pode causar prejuízo financeiro, psicológico e até geopolítico. Algumas dessas ferramentas estão mudando o mundo e o imaginário. No entanto, trabalhamos com elas de um jeito casual.

• Ferramentas de poder (Texto sobre tela).

Anthropic confirma que Claude age diferente dependendo da língua de entrada e de qual modelo se usa. Ele atua como “cético” e “rigoroso” se o usuário escrever em inglês e como “caloroso” se escrever em árabe. Quem ainda vai dizer que essa droga de ferramenta é neutra?

• Anthropic confirms Claude acts differently depending on your language and which model you pick (digitaltrends)

Citações

Desvario trabalhoso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e propor um resumo, um comentário.

― Jorge Luis Borges, escritor argentino.

One thing that I love about that part of the world is that it's a melting pot with an immense diversity of cultures, each one very defined and proud (often too much) of their own idiosyncrasies, but in the end they're all intermingled Liszt was Hungarian, but his mother tongue was German. Bartók was Hungarian, but was born in what is nowadays Romania. Mahler was Austrian, but just like Freud was born in Czechia, and so on.

@mathek@tilde.zone

Ainda tem o compositor francês Frederico Chopin que nasceu... na Polônia.

Quadrinho curto. No primeiro quadrinho, um homem ruivo levanta um papel no primeiro quadro e diz 'Bom, não está mal. Vamos postar'. No segundo quadrinho, vai a uma porta em que há um letreiro que diz 'internet', e fala 'Odeio ver a reação das pessoas'

Título: “Uma flor por vez”. “Bom, não está mal. Vamos postar”. “Odeio ver a reação das pessoas”.

Terceiro quadrinho. Ele vai em um muro, prega o desenho de um elefante em um muro e diz 'Aí está'. No quarto quadrinho segue observando o desenho colado na parede'

“Aí está”.

Quinto quadrinho. Vê-se o muro onde o homem pregou o seu desenho em perspectiva. Nele vemos gravuras de guerras e de problemas do mundo. No sexto e último quadrinho, vemos o homem de volta em seu escritório sorrindo com o rosto apoiado nas mãos. Sua esposa, uma mulher ruiva de vestido preto, diz 'Ei, tudo bem? Jornada produtiva hoje?', no que ele responde 'Eu... eu não sei'. Abaixo há uma citação que diz 'Ser artista é como plantar flores em um jardim onde alguém usa um lança-chamas

“Ei, tudo bem? Jornada produtiva hoje?” “Eu... eu não sei”. “Ser artista é como plantar flores em um jardim onde alguém usa um lança-chamas”.

Arte de Bouletcorp

Releia outras Ideias de Chirico

• Abandonando redes sociais “numéricas” (17 fev. 2026).

Ou: porque passei a dar menos importância a contabilização na internet.

• O que pode a tecnologia, o que não pode a tecnologia e o que podemos fazer sobre ela (23 abr. 2025).

Reprodução de um longo e-mail que enviei a uma professora da faculdade discutindo sobre como a tecnologia e a educação podem se relacionar.

• O sedutor mistério de “Dias Perfeitos” (7 set. 2024).

Resenha crítica a respeito do filme “Dias Perfeitos” (2023) de Wim Wenders, concentrando-se em sua laconicidade narrativa.

• Notas sob(re) Salvador (14 fev. 2024).

Algumas observações em torno da cidade de Salvador e do povo soteropolitano.

#notas


 
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from Ideias de Chirico

Imagem de um telefone móvel com display em preto e branco. Nele se vê o aplicativo Whatsapp com o nome dos contatos borrados. Ao fundo, uma calçada de casa

Decidi retirar as cores do meu telefone e não consigo usá-lo de outra forma.

Em meados de 2024, escrevi um texto relatando como foi a minha experiência de fotografar com a display do meu telefone em preto e branco.

• Um mundo em preto e branco (Ideias de Chirico).

Naquele tempo eu fazia um experimento mais estético do que tecnológico-comportamental, queria sobretudo entender como explorar a ausência de cores em fotografias. Prometi naquela vez uma publicação futura explicando o porquê daquela minha escolha ― sem saber que ela se tornaria a minha configuração padrão para telas pequenas desde então.

Linko outra vez o texto por onde tive o ímpeto para adotar essa modificação.

• Pessoas estão tirando as cores da tela do smartphone para usá-lo menos (Manual do Usuário)

O recurso de “escala de cinza” é na verdade um recurso de acessibilidade para usuários com daltonismo. Em seu texto, Rodrigo Ghedin menciona vários especialistas em design que sugerem aos usuários de smartphone que tirem as cores de seus aparelhos caso queiram estar menos “viciados”.

Segui esta sugestão. Com o tempo, porém, percebi benefícios e alguns prejuízos em outros campos.

Neste texto os relatarei e explicarei porque por mais de dois anos decidi manter meu telefone em preto e branco, além de outras reflexões sobre essa modificação.

O primeiro efeito que percebi ao tirar as cores do meu telefone foi a fluidez com que passei a executar minhas tarefas.

Sem cores, a navegação por aplicativos não é errante. Como apontado no link do Manual no início deste post, as cores são organizadas em produtos de consumo de modo a fisgar a atenção do potencial cliente. Quando se as nivela em escala cinzenta, neutraliza-se esse efeito.

Em cores emudecidas, vídeos já não são tão atrativos. Os textos escritos, por sua vez, ficam incólumes em escala cinzenta, isso porque a escrita funciona muito bem com uma só cor. Vejam os monitores de computadores antigos, mormente dedicados à escrita (de texto ou de código), emanavam luz verde sobre o fundo negro do próprio display. Não faria diferença para a compreensão textual se fosse uma luz branca.

Para reforçar a intencionalidade com o telefone, retirei todas as notificações e mantive o volume zerado por padrão. Desse modo, o foco do meu aparelho passou a ser escrita de mensagens e leitura de textos médios.

Menor agressividade visual

Não exagero em dizer que minha vista ficou menos cansada desde que mantive a escala de cinza em dispositivos portáteis. Em alguns aparelhos, inclusive, o modo noturno pode ser programado a fim de ativar esse recurso.

Quando as pessoas me emprestam seus telefones, não suporto olhar o display por mais de um minuto. É como se eu estivesse olhando diretamente para um letreiro em neon a poucos centímetros de distância.

Com os meus aparelhos, entretanto, consigo permanecer mais tempo em alguma tarefa sem que fique com a vista cansada (o ideal mesmo seria uma tela “papel” no modelo Kindle). A partir do momento em que aciono as cores do meu telefone momentaneamente, comparando sua tela com a de outros dispositivos, percebo o problema: as telas de telefones têm cores mais vibrantes do que a de outros aparelhos...

Economia de bateria

Assumo, este tópico é um pouco controverso...

Não sei se por estar menos propenso a ficar pouco tempo com o display aberto por conta da monocromia, ou pela própria configuração visual fazer com que se economize as cores, o fato é que gradualmente percebi que retirá-las fez com que a sua bateria durasse mais tempo do que antes.

Naquele mesmo ano de 2024, adquiri um outro telefone mais básico, de tela menor, o Multilaser Elite 2, de quatro polegadas. Cansado tela enorme do aparelho anterior e um pouco preocupado em portar dados tão sensíveis em público, o plano era de tornar o novo dispositivo um “telefone de bolso”, para sair de casa. O outro, de cerca de sete polegadas, ficaria em casa mantendo aplicativos de banco e outros dados pessoais em segurança.

Quando fui configurar as cores do dispositivo recém-adquirido, não o consegui pela via comum (no meu Motorola, o caminho é: Configurações > Acessibilidade > Cor e movimento > Correção de cor > Escala de cinza), mas sim da seguinte forma: Configurações > Bateria > Função de escala de cinza. Curioso, não?

Porém, a própria descrição da opção diz que “Este recurso é experimental e pode afetar o desempenho”. Afeta positivamente ou negativamente? Não se diz claramente. O que interessa é que esse recurso, segundo o que os desenvolvedores da Multilaser entendem, altera de algum modo o gerenciamento de energia do aparelho.

Fotografia de um telefone móvel de tela pequena tendo uma parede cor de salmão como fundo; no display, vemos a aba de gerenciamento de bateria aberta; na parte inferior da tela, vemos uma opção de Função escala de cinza

Meu Multilaser afirma que a função escala de cinza “é experimental”. Experimental para quem? Para mim, esse é o padrão!

Outros argumentam que a escala de cinza tem o potencial de economizar bateria, porque o display não teria que operar com muitas modificações de tons. No entanto, isso só faz sentido para aparelhos que têm tela AMOLED. Segundo a Technode, em displays com essa tecnologia,

Quando um pixel precisa exibir a cor preta, ele simplesmente se desliga. Isso representa economia real de energia, especialmente em interfaces com fundo escuro.

O fato é que o meu telefone “de casa” segura a bateria por pelo menos cinco dias em uso de moderado a pouco frequente. Tenho de mencionar também que outras configurações entram em jogo, como o modo avião sempre acionado.

E quanto a vídeos e imagens coloridas?

Tenho um leitor digital Kindle, e desde que passei a ler muitos artigos da internet por esse eletrônico, percebi o quanto, na maioria das vezes, as cores não são essenciais para a compreensão de uma imagem. Afinal, há pelo menos um século, fotografias em preto e branco são estampadas em jornais...

Alguns adeptos dessa configuração argumentam que ativam as cores quando vão assistir a vídeos no Youtube. Aí penso: se a proposta de desligar as cores é tornar um aparelho menos tentador, porque ativá-las para ver vídeos numa plataforma que é desenhada para manter o visitante o máximo de tempo possível? O melhor é nem mesmo mantê-la ativada! Eu mesmo prefiro baixar no computador os vídeos para serem vistos depois ― sigo um princípio de offline-first nos meus aparelhos.

As únicas imagens em que as cores fazem falta são as de artes visuais, sobretudo pintura, e de textos multimodais, como gráficos. Há casos curiosos também em que as cores funcionam como traços distintivos entre objetos dentro de uma foto. Certa vez fotografei uma fonte de pedras dentro de um tanque de peixes. Em preto e branco, a fonte parecia um estrogonofe de carne! Infelizmente o telefone inteligente ainda segue como melhor ferramenta de edição de vídeos. Não há outra forma de fazê-lo que não por uma tela colorida.

Além desses três casos, retorno à configuração padrão quando estou em uma videochamada. Porque aí ver a amada em preto e branco também é de lascar...

No mais, em raros momentos em que as cores são de fato necessárias para a compreensão, as envio para a nuvem, a fim de serem apreciadas por uma tela maior e colorida.

Breve comentário sobre uma estética da sobriedade

Imagem de um telefone sem cores. No seu display, há o menu inicial com vários ícones de aplicativos

“Sexy sem ser vulgar”.

(Convenhamos, o telefone fica mais elegante sem cores, tomando uma beleza “fria” e descompromissada, como as de uma escultura moderna e de uma embalagem de perfumes. Gosto de quando as coisas atraem sem implorarem por atenção ou se imporem nos espaços... “Chique é ser simples”, já dizia um rapper brasileiro. Sempre me atraio por uma beleza difícil...)

Só o telefone sem cores?

O fato de que sinto essa necessidade de tirar as cores somente em uma tela menor ainda me deixa um pouco encucado ― nunca tive vontades de tornar meu computador e um antigo tablet monocromáticos.

Posso passar horas com meu computador, mesmo conectado, sem me sentir fisgado. Nesse dispositivo, sinto que estou mais “no comando” do que em outros.

O fato de dispositivos mais portáteis terem cores mais vivas explica somente metade do problema. Será que o desenho dos aplicativos também auxiliam em tornar telefones mais viciantes? Infelizmente não tenho letramento suficiente em design ou programação para resolver essa questão. Quem souber explicar melhor, por favor, entre em contato pelo e-mail no rodapé desta publicação.

E por que comprar dispositivos minimalistas?

Além de ter tornado o meu telefone monocromático, também desinstalei aplicativos nativos da Google e de redes sociais, lhe tirei as notificações e o silenciei, mantendo somente o toque de chamada, para casos de urgência. Ao fim e ao cabo, o transformei em um “telefone minimalista”, algo próximo de um Mudita Kompakt.

Por mais que eu respeite bastante projetos como Mudita Kompakt e Light Phone por terem apresentado essa ideia, tenho por mim que o que empresas e estartapes de “telefones minimalistas” vendem não é smartphone, mas letramento digital. O que se compra, por exemplo, de um Mudita Kompakt não é o dispositivo, mas o tempo que se leva para configurá-lo de modo a ficar funcional e até privativo.

O objetivo de tratar dispositivos como ferramentas e não como brinquedos, como querem corporações tecnológicas, é, no fim das contas, uma atitude de anticonsumo.

Sendo assim, qual o sentido de gastar dinheiro com mais dispositivos? O melhor é entender como eles funcionam, como nos afetam e transformá-los naquilo que são: objetos. E, claro, compartilhar o saber-fazer e, como se tem feito na Europa, pressionar empresas de tecnologia para que produzam produtos que sejam feitos para durar, tendo o usuário e o meio ambiente como prioridades.

#tecnologia


 
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from Ideias de Chirico

A palavra Hexa em cor amarela sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido

Texto alternativo: A palavra “Hexa” em cor amarela sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido. Arte: Arlon de Serra Grande.

Para quem não acreditou, sim, o Brasil levou um hexa...

Não, não vivo em um universo paralelo em que os brasileiros fomos campeões. Me explico:

2006, Copa do Mundo sediada na Alemanha, Brasil perde de 1x0 para a França (com Kaká em campo) ― primeira hecatombe¹; 2010, com sede na África do Sul, já em campo com o influenciador “sabor” jogador Neymar, perdemos de 2x1 para a “Laranja Mecânica” ― segunda hecatombe ― (lembro de me divertir um monte com as montagens do Mundo Canibal sobre os jogos, isso tornou a derrota mais leve); a grande e fatídica hecatombe foi a de 2014 quando, em casa, perdemos de 7x1 para a Alemanha (com Neymar nocauteado, o clima no estádio era de terra arrasada mesmo antes do jogo); 2018, em terra russa, fomos de 2x1 para Bélgica (alguém lembra desse jogo?) ― quarta hecatombe ―; no Qatar, 2022, empatados, perdemos por pênaltis (esse cassino futebolístico) para a Croácia ― quinta hecatombe ―; em solo ianque, 2026, acabamos de sair de oitavas por uma preguiçosa Noruega que nos venceu por 2x1 (com gol de pênalti de Neymar, que por pouco não nos envergonha com uma troca de tapas com o goleiro norueguês) ― sexta hecatombe.

Assim, levamos um hexa ― mas um hexatombe. Seis vezes sacrificado em nome de qualquer coisa que não participe do Brasil enquanto nação. Como li no dia seguinte à derrota, “A ideia da seleção como alma da brasilidade perdeu sentido”.

A palavra Tombe em cor vermelha sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido

Texto alternativo: A palavra “Tombe” em cor vermelha sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido. Arte: Arlon de Serra Grande.

Ao mesmo tempo, já não temos uma nova bossa para chamar de nossa. A esperança da Fórmula 1 morreu. Ainda assim não resistimos ao sonho de sermos campeões no futebol. Avançamos para o segundo quarto do século XXI ainda tentando manter a mesma concepção de país que tínhamos no século anterior.

Por outro lado, nos apareceram o skateboarding, o surfe e a ginástica rítmica, categorias em que fomos ouro nas últimas Olimpíadas. Há ainda a tímida promessa no tênis de mesa de um Hugo Calderano que venceu campeonatos na China, país que acumula basicamente todos os troféus nesse esporte. Ainda por cima, a pouco lembrada poesia experimental e propositiva que herdamos dos poetas concretos de 1950 ainda hoje nos rende frutos...

Vamborandá. Pode ser que esse “hexa” seja um sinal de que devamos jogar menos com bola e jogar mais com ideias a fim de construirmos um outro Brasil ― pós-Pelé, pós-Senna, pós-tudo.

¹: He.ca.tom.be (do grego antigo ἑκατόμβη, composto de ἑκατόν “cem” e βοῦς “boi”) é o sacrifício de cem reses aos deuses na Grécia Antiga. Os lusitanos ofereciam hecatombes ao modo grego. Modernamente o termo é aplicado a grandes catástrofes.

#notas #cultura


 
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from daltux

MinIO revelou-se (mais) uma empresa californiana baseada em capital de risco que mantinha um modelo híbrido de licenciamento do software que desenvolvia e que, na capitania do navio com uma extensa comunidade embarcada nele, resolveu abandoná-lo, voltando-se ao desenvolvimento de software privativo de liberdade. Consta, claramente, que a estratégia foi a de pular com os dois pés para o “inafundável” supertransatlântico da dita inteligência artificial...

Qual será a próxima? Desconfiemos de projetos de software mantidos sob esse tipo de licenciamento, com edição “comunitária” e edição “empresarial”, altamente merdificável. Tentemos focar no software livre por completo e não nos deixemos enganar pela conversa corporativa do chamado código aberto enquanto convém.

Felizmente, o que tinha sido desenvolvido até então foi publicado sob AGPLv3, fato que, por favorecer que quem utiliza o software preserve suas quatro liberdades essenciais, permite que quaisquer partes interessadas tenham o direito de assumir a liderança do projeto e tirar o barco da deriva. Em outras palavras, possibilita continuar seu desenvolvimento como trabalho derivado. Parece até que isso logo começou. Contudo, como há outros projetos mais ativos com propósitos semelhantes, não há certeza de que seu desenvolvimento continuará com alguma força, de toda maneira.


A notícia é de meses atrás, porém tomei ciência dela apenas hoje. A primeira vez que tive contato com esse programa e o utilizei foi há poucos dias, ao implantar meu servidor Ente Photos, de cuja documentação MinIO faz parte como sugestão de armazenamento local. Agora, vai ter que ficar assim, ao menos por algum tempo. Estava cogitando usar MinIO para outras funções, mas vou deixá-lo apenas para objetos locais do Ente mesmo. Já devia ter empregado, para isso, algum outro sistema de armazenamento com API compatível com S3. Não é interessante iniciar algo novo com um componente importante já podendo ser praticamente considerado legado. Lembrete a mim mesmo: mais atenção a dependências, na próxima vez!


Post Scriptum (12 jul. 2026) — Algo que já deveria ter feito desde o princípio: enfim, troquei o natilegado MinIO por Garage (AGPLv3). Sob vários aspectos, este já parece começar muito mais adequado aos propósitos do meu projeto. Tanto que, funcionando com a mesma carga, ocupa recursos ínfimos, se comparado ao finado.

#MinIO #selfhosting #softwareLivre #AGPLv3 #blambers #EntePhotos #Garage

 
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from Ideias de Chirico

Cartum em que há um homem sem roupa em frente a uma plateia, que diz 'Cheguei em São Paulo em 1997, só com a roupa do corpo'

Imagem: André Dahmer.

Depois de um período um pouco autocentrado, publicando somente coisas minhas, volto a compartilhar alguns links, dicas e citações que coletei nos últimos ~2 meses. Alguns artigos são de assuntos, digamos, em baixa, mas que não deixam de ter alguma relevância. Outros até que são recentes, mas que passaram batidos por mim, e que pensei que, de qualquer forma, fosse interessante de mostrar ― vai que algum leitor destas Ideias é distraído que nem eu?

Linkroll

A maior parte da população leitora no Brasil é constituído por mulheres não brancas, é o que mostra a pesquisa Panorama do Consumo de Livros.

• Quem consome livros no Brasil? Os dados são surpreendentes (Farofafá).

Diego Lafuente reconstitui o fluxo da informação digital desde a era do BBS e pensa neste belíssimo ensaio como a Web e os hábitos podem se modificar a partir da IA:

I still write because writing helps me think. That may become the main reason to write. Not traffic. Not SEO. Not audience growth. Not discovery through search.

• The web is going to dissapear (minid.net)

Já reparou que os telefones modernos são pouco explorados ou até ignorados nos filmes dos últimos anos? Neste primoroso vídeo-ensaio, Eddache reflete sobre as razões pelas quais os diretores tomam essa decisão.

• Why Are Movies Afraid Of Phones? (Eddache ― Youtube).

Ensaio de Paula Lúcio sobre como a estética do agreste nordestino se formou e como se comunica.

• A gramática visual do sertão (Paula Lúcio ― Substack).

New York Times ranqueia os 48 hinos de nações da Copa (e dá primeiro lugar ao hino brasileiro!)

• Ranking all 48 World Cup national anthems (New York Times).

A arte da tradução, por mais enigmática que seja o sentido dessa expressão, tem, assim, um papel político importante, mas parece que hoje ninguém precisa dela, e não se trata de cinismo, (...) mas, antes, de absoluta impossibilidade de prestar atenção na arte em geral, qualquer que seja ela.

• Trocar tradutores por IA é retrocesso gigantesco para literatura (Dirce Waltrick do Amarante ― Folha de São Paulo).

Artigo bem humorado da Business Insider refletindo sobre as vantagens ~secretas de se ter um Kindle: desde ler “escondido” livros embaraçosos até não evidenciar posições políticas a partir de capas de impressos.

• Read Embarassing Kindle Books in Public (Business Insider).

Dica cultural

Loja de discos. Um homem cabeludo e de camiseta de banda de rock observa com aflição para uma mulher com roupas formais que analisa um disco que pretende comprar.

Cena de “Durval Discos” (2002), com participação especial de Rita Lee.

Ontem assisti outra vez ao “Durval Discos” (2002), um desses filmes brasileiros que, por alguma razão, não é tão conhecido, apesar de ser family-friendly e do gênero comédia. Com estreia da diretora Anna Muylaert, é um primor no quesito de técnica de fotografia, trilha sonora (parte de André Abujamra) e escrita de roteiro.

O longa-metragem nos mostra o cotidiano de Durval, um hippie quarentão que mantém uma loja de discos na frente de sua casa em um pacato bairro de Pinheiros, São Paulo, durante o fim dos anos 90. A indústria fonográfica de então investia mais e mais na produção de discos compactos (CD) em oposição aos discos de vinil (LP), a especialidade da loja Durval Discos.

Além do pouco movimento de vendas em seu comércio e da constante cobrança de clientes por CDs, Durval ainda tem que lidar com a gerência da casa. Solteiro, morando com sua mãe já envelhecida, o protagonista decide contratar uma trabalhadora doméstica ― uma jornada que o irrompe de sua rotina. A partir daí, os problemas em sua casa (e até na vida do bairro) escalam pouco a pouco. O clímax de “Durval Discos” foi um daqueles que mais me impactaram nos últimos 10 anos.

Disponível no Youtube.

• Durval Discos – Trailer (Youtube).

Citações

Cartum mostrando um homem sobre um palco de karaokê, atrás dele há o título 'song: 4'33'', artist: John Cage', uma composição na qual os instrumentistas não tocam absolutamente nada. Em primeiro plano há um homem que diz 'Esse cara de novo, não...'

Imagem: asher (via The New Yorker)

Todo mundo quer profetizar o futuro pós LLM baseado em livro de ficção científica, eu prefiro olhar para um campo do conhecimento humano que convive com tais máquinas pelo menos desde a década de 1990: o xadrez. O fato de existirem máquinas que jogam melhor que os humanos não acabou com o esporte e não extinguiu a profissão de enxadrista.

― @felipesiles@ayom.media

Meu fácil me enfada. Meu difícil me guia. [...] O que eu sei fazer me entedia; o que não sei fazer me entristece.

― Paul Valéry.

The only way to keep your health is to eat what you don't want, drink what you don't like, and do what you'd rather not.

― Mark Twain.

#notas #tecnologia #cotidiano


 
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from Ideias de Chirico

Fragmentos do meu diário. Entrada do dia sete de abril de 2026, terça-feira:

Estranho dizer que sinto prazer em acordar cedo. Talvez o que eu goste mesmo é de manter firme uma rotina e ver que consigo fazer com que as coisas fluam. Às vezes lembro de “Dias Perfeitos” e da rotina impecável e tranquila de Hirayama. Uma rotina tão simplesmente cíclica que lembra até a de um animal selvagem.

Além de tudo, Fortaleza fica muito bonita e agradável à hora da aurora, em torno de 5h30. Não há o sol escaldante habitual, mas ainda assim há uma débil luz; a rua é deserta; e, por alguma razão, sinto-me muito mais presente do que em qualquer hora do dia.

Mais do que em qualquer outra hora, vemos a cidade tal como é: um teatro vazio, que depende de nós para funcionar...

Dia 19 de maio de 2026:

[...]

Ao menos as terças-feiras me animam; é quando acordo mais cedo; ao tomar o ônibus, vejo o nascer do sol às 5h50; quando chego em Messejana, tenho um tempo livre até que o próximo [ônibus] apareça. Daí fico um tempo no piér da Lagoa da Messejana.

Quando estive nesta paisagem ouvindo a Rádio Universitária, tive um ímpeto de otimismo, e pensei que talvez afinal eu precise mesmo passar por tudo isso por que passo. Espero que algum dia eu colha um fruto dessas sementes que planto não sei como.

#cotidiano


 
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from john

eu reclamo, mas é porque amo.

fazia anos que eu não conseguia engajar na leitura. às vezes animava com um livro e devorava. mas o normal mesmo era pegar e abandonar no meio. não por desinteresse, mas pq como eu não tinha a leitura incorporada na rotina, lia esporadicamente, com intervalos cada vez maiores entre cada leitura... e acabava esquecendo e largando.

ultimamente as coisas têm saído bastante do padrão e espero que continue assim. acho que devo muito disso ao mec livros. pouco depois da plataforma ser lançada, peguei emprestado o livro “a mãe, a filha e o espírito da santa”. amei. li, sei lá, em dois dias. mas o app naquela versão limitava os empréstimos a um livro e não permitia a devolução antes do prazo. eu queria ler algo na mesma linha de realismo fantástico que o livro anterior. então peguei “a cabeça do santo”, que tinha físico aqui em casa. depois o “salvar o fogo”, que também estava na estante... e a essa altura o mec livros já me deixou emprestar outro... assim, eu tenho alternado os livros físicos que tenho com o app do mec. nessa brincadeira já foram seis livros em dois meses.

a facilidade de abrir o app e ler alguma coisa tem me incentivado a substituir o hábito infernal do doomscrolling. nos intervalos da vida, ao invés de abrir uma rede social, abro o app do mec. sinto que tem me feito muito bem.

outro efeito do mec livros é que voltei a gastar com livros hehe. depois de ler o segundo livro da trilogia do itamar vieira jr. que eu já tinha, não pude resistir a comprar o terceiro... mesmo estando disponível no app. também comprei o “livro do desassossego”, do fernando pessoa. esse eu li no app, mas gostei tanto que quis comprar pra ter. fazia muito tempo que eu não comprava um livro. parece que quem lê gasta dinheiro com leitura! espero que o mercado editorial compreenda esse valor da plataforma.

#MECLivros

 
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from john

Estou lendo O Triste Fim de Policarpo Quaresma e uma passagem me chamou atenção:

“[...] lhe bateram à porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os cabelos, como se tivesse perdido a mulher ou um filho.

[...]

Eis aí! Vocês não têm a mínima noção das cousas da nossa terra. Queriam que eu apertasse a mão. Isto não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam os tupinambás.”

– O triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto

A referência à saudação tupinambá, conhecida como saudação lacrimosa me lembrou de já ter presenciado cena muito semelhante durante uma visita a uma aldeia kayapó. A medida que chegavam as visitas, tanto anfitriões quanto visitantes se lançavam em um choro profundo e emocionado. Acho que só os mais velhos faziam isso, ao cumprimentarem-se entre si. Na ocasião, me explicaram que eles não se viam há muito tempo e uma forma de se cumprimentar nesse caso era chorando pelos amigos e parentes falecidos, os lutos que não tiveram oportunidade de serem compartilhados.

Não sei se o sentido da prática impresso pelos kayapó de hoje é o mesmo dos tupinambás do séc. XVII – que é de onde vêm as descrições de naturalistas europeus que, na ficção de Lima Barreto, inspiraram o major Policarpo. De qualquer forma, é desses costumes indígenas que deixam atônitos os não-indígenas e guardam sentidos e sensibilidades profundas.

 
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from felipe siles

ATENÇÃO: este texto revela o final do filme; portanto, se você é sensível a esse tipo de informação, sugiro que assista ao curta de 20 minutos antes de ler o texto.

Imagem do filme, onde vemos um menino sentado entregando um vidro de catchup à sua amiga, que está de pé

Meus filmes preferidos são aqueles que continuam me acompanhando, em minha cabeça, mesmo dias ou até semanas depois de assisti-los. É o caso deste curta-metragem, Trapo, do diretor João Chimendes, produzido na cidade de Uruguaiana-RS. A princípio, achei o filme apenas divertido, uma espécie de Saneamento Básico protagonizado por crianças, mas as reflexões da obra continuaram se aprofundando na minha mente por dias.

Uruguaiana tem cerca de 100 mil habitantes, cerca de 30 mil a mais do que a cidade onde moro, Cosmópolis-SP. Faço esse registro porque minha interpretação da mensagem do filme passa muito pelo reconhecimento de uma poética produzida por pessoas que têm problemas parecidos com os que eu enfrento na condição de artista suburbano.

Trapo nos apresenta o protagonista Léo, um menino que sonha em ser cineasta e fazer filmes. “Sonho” é eufemismo: o menino é obcecado pela ideia, e praticamente todas as suas ações no filme convergem para esse objetivo. O filme começa com Léo perdendo a sua comparsa no plano, a amiguinha Manu, que compartilha com ele o celular e um peixe, que são peças importantes na produção cinematográfica que estão fazendo. Léo perde sua companheira Manu para Porto Alegre, para a cidade grande, e eis que o nosso pequeno herói se depara com seu primeiro obstáculo para se tornar um cineasta: a solidão e também a condição de suburbano, interiorano. Ao perder sua comparsa, Léo sangra pelo catchup cenográfico improvisado para o filme.

A partir daí, o nosso pequeno herói Léo terá que enfrentar o segundo e mais difícil obstáculo em sua jornada de cineasta: a própria família. Essa é uma realidade de pessoas marginalizadas que desejam se tornar artistas. A verdade nua e crua é que, com algumas exceções, a porra da família só atrapalha esse nosso sonho. Não o fazem por mal, mas, como engrenagens de um sistema que as colocou em posição subalterna, elas reproduzem as opressões que sofreram, dificultando ou até impedindo os filhos de acessar as oportunidades que lhes foram negadas pela sociedade, com o objetivo de protegê-los de dores e frustrações, gerando assim (adivinha), dor e frustração. É um papel semelhante ao que podemos observar no filme Matrix: qualquer pessoa comum, ao perceber uma ameaça à Matrix, transforma-se no Agente Smith e defende aquele mundo, com aquelas regras, a qualquer custo. A maioria dos artistas periféricos e marginalizados precisa transpor a própria família como obstáculo, e os traumas e feridas decorrentes dessa luta costumam acompanhá-los pelo resto de sua trajetória, compondo suas poéticas e visões artísticas.

Léo precisa lutar contra um mundo que é hostil ao seu sonho autêntico; tudo nele parece uma violência nesse sentido. Precisa enfrentar a mãe, que, à duras penas, o sustenta sozinha, com seu trabalho de costureira. Mergulhada na sua necessidade de sobreviver, a mãe não compreende o garoto. Quando ele pergunta se uma câmera fotográfica funciona, ela responde que aquilo é lixo. O sonho de Léo é lixo para a sociedade como está estabelecida, e a sociedade como está estabelecida, em efeito de espelho, é lixo para Léo, como veremos no episódio com o celular de sua tia.

Léo, malandramente, engana a própria tia para roubar seu celular, e poder fazer seus filmes. Para liberar espaço na memória, apaga todas as fotos da tia, que são selfies muito parecidas. Aqui, Léo demonstra sua transgressão, desobediência e falta de identificação com um mundo superficial e homogeneizante, que registra de maneira plastificada todas as experiências no formato de selfie. É a própria quebra do personagem com a ideia do ensimesmamento contemporâneo, em oposição a uma ideia de mundo que desperta reflexão, arte, que deixa legado, que tem especificidade e autenticidade.

Léo ainda envia por aplicativo de mensagem uma foto mostrando o dedo do meio para um peguete de sua tia. Porque é isso: ao artista marginalizado, suburbano, o mundo é hostil; somos forjados nessa hostilidade, e não temos sangue de barata e nem precisamos reproduzir um bom mocismo agradável para a classe média estabelecida. Ser artista marginal é xingar a própria mãe de palavrão, é roubar o celular da própria tia. É ser desobediente, é conservar-se ético e fiel à sua autenticidade em um mundo que quer aprisionar você na homogeneidade e na superficialidade, mesmo que isso signifique ter um mau comportamento frente àqueles que são obstáculos a este objetivo.

Eis que Léo passa, em sua jornada, pela morte do herói: é obrigado a devolver o celular da tia, ouve a maior bronca, chora e implora para que a tia não apague seu filme. Ainda é acusado pela própria mãe, desconfiada pelo episódio anterior, de roubar os seus tecidos, a matéria prima do seu ganha-pão. Briga com a mãe, xinga-a com alguns palavrões, discute, enfrenta e chora. Léo não é um herói nos moldes virtuosos do bom mocismo. É humano: sonha, encanta-se, grita, chora, rouba, mente e xinga.

E, no final do filme, na virada em que Léo enfrenta a mãe e foge de casa, ou seja, ao transpor o seu maior obstáculo, ele encontra, no meio do mato, à noite, uma figura mítica, formada pelos trapos de sua mãe, segurando o peixe de Manu. Essa figura mítica abre ampla margem para diversas interpretações e subjetividades. Minha interpretação é de que ela representa a própria ARTE; ou seja, Léo encontra seu verdadeiro espírito artístico, que é formado por uma estranha amálgama de suas dores e dificuldades (os trapos do trabalho da mãe) com seu sonho (o peixe, que também remete à amizade e parceria com Manu). Uma figura que mistura a beleza poética à estranheza e ao desconforto, ou seja, a própria arte. É um final muito lindo e surpreendente, já que o filme aparentemente não indica que teremos um desfecho fantástico.

Trapo é um dos filmes mais impressionantes que eu já vi, pela competência de trazer tanta profundidade em 20 minutos de história. Para mim não é nenhuma surpresa ter levado o prêmio de melhor filme gaúcho no tradicional Festival de Gramado-RS. Foi também um dos filmes que mais falou comigo, com as minhas dores e delícias de ser um artista periférico: de cidade pequena, negro e vindo das classes populares. Não sou diferente de Léo, não abrimos mão de sermos artistas, mesmo com a sociedade capitalista sendo hostil às nossas verdades. Ser artista é um compromisso ético com essa auntenticidade e com o mundo que desejamos; a despeito das dores do processo, se mil vidas eu tivesse, nas mil vidas eu seria artista. Porque manter-se artista nesse mundo plastificado e superficial é escolher manter-se vivo.

Mais curta-metragens e menos reels!

 
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from felipe siles

AVISO: O presente texto, em algum momento, revelará o final do filme. Portanto, se você é sensível a isso, sugiro que o assista antes da leitura.

“La teta asustada” é uma espécie de doença espiritual, presente no imaginário popular peruano, originada em um passado ancestral indígena. Essa doença acomete crianças nascidas de estupro que, ao beber o leite da mãe violentada, acabam “sem alma”, ou seja, com uma subjetividade baseada no medo e na paralisia. Fausta, a protagonista do filme, sofre deste mal e, além disso, para evitar a repetição da história, ela possui uma batata dentro da própria vagina, que provoca ao longo da narrativa alguns problemas de saúde na personagem.

A primeira cena já é muito forte, a mãe de Fausta entoa uma cantiga que carrega todo seu legado de dor e sofrimento, e morre diante da filha. Fausta se vê como responsável por cuidar do corpo da mãe, e também de seu legado, porém todo o resto do mundo parece ser hostil a isso: a falta de dinheiro para enterrar o corpo com dignidade; seu tio que quer resolver a situação enterrando-a no quintal; e o médico insensível que não a escuta e não procura compreender sua subjetividade. Até mesmo os casamentos populares organizados por sua família parecem uma afronta à verdade e essência de Fausta.

Eis que surge uma oportunidade para ela trabalhar na casa de uma pianista, onde duas relações praticamente opostas vão se desenrolar: a relação com a patroa e com o jardineiro Noé. Aos trancos e barrancos, Fausta vai construindo uma relação com a patroa, que gosta de ouvi-la cantar e até paga por isso. Em um momento de solidão e fragilidade emocional, a patroa chega a lhe confessar um segredo de infância. A relação aparentemente vai bem, Fausta consegue se identificar naquela mulher solitária, a despeito do nítido abismo social. Mas, por acreditar na sinceridade dessa relação, é punida de maneira cruel: Fausta se coloca como uma igual, demonstra humanidade e empatia ao fazer um comentário simpático sobre o concerto de piano da patroa. Esta, que vê os empregados apenas como meros instrumentos para realizar seus caprichos e desejos e faz questão de colocá-los em seus devidos lugares, não suporta a inocência e humanidade de Fausta nesse gesto tão despretensioso, o que a leva a expulsá-la do carro, rompendo seu acordo trabalhista e, principalmente, o acordo de dar-lhe pérolas cada vez que ela cantasse. Essas pérolas são de vital importância para Fausta, já que a patroa recusou adiantamento de salário e seriam uma forma de bancar o enterro da mãe antes do casamento da prima. Seu tio fixou o casamento como prazo para que possam resolver a situação do cadáver, pois não quer a própria filha casando-se com uma pessoa morta em casa.

Do outro lado está Noé, o jardineiro, o único aparentemente interessado em construir alguma relação genuína com Fausta. Porém, essa relação também vai sendo construída aos trancos e barrancos, Fausta desconfia de Noé desde a primeira vez que se encontram, onde ela pede para que ele mostre as mãos para entrar na mansão. Eles entram numa discussão sobre as escolhas de Fausta, que se irrita por ele não conseguir compreender o ponto de vista dela e, de certa maneira, desdenhar de (ou confrontar?) seu trauma. Noé se dispõe a acompanhar Fausta até em casa, sempre sob a desconfiança da protagonista, que se acentua quando ele oferece doces de presente a ela, que são atirados no chão.

Fausta compreendia o mundo a partir da violência, principalmente a de gênero. Porém, sua verdade é abalada ao encontrar as pérolas prometidas por sua patroa no chão, próximo de sua casa. Ficamos por um momento sem compreender como elas foram parar ali, até que Fausta é acometida por mais um desmaio (que ocorre em diversos pontos da história, devido à questão da batata). Em seu momento de maior fragilidade, vemos as mãos de um homem sobre Fausta; compartilhamos o mesmo medo da protagonista e esperamos o pior. Contudo, para nossa surpresa, o homem ajeita a roupa de Fausta com carinho paternal e a socorre. O homem é Noé, entendemos que foi ele quem “roubou” as pérolas da patroa. Fausta percebe o peso de ter rejeitado e tratado com desconfiança a única pessoa em quem poderia confiar de verdade, desabando em pranto. Ao notar o descompasso entre sua subjetividade, orientada pelo trauma, e aquele gesto objetivo surpreendentemente humano, ela, em lágrimas, pede a Noé que a leve para fazer a cirurgia de retirada da batata, dando fim ao objeto que simboliza a sua dor e autofagia.

“La teta asustada” é uma história potente sobre traumas, dor e, principalmente, desejo. Fausta, por sua história de trauma e dor, é impedida de desejar. A metáfora não podia ser mais literal do que uma batata no próprio órgão, impedindo o ato sexual. A autodefesa e desconfiança se voltam contra ela própria, atacando sua saúde e contaminando todas as suas relações, mesmo entre seus familiares. O próximo trauma, o próximo perigo é uma sombra que sempre ronda, mas não se concretiza da maneira como ela espera: a hipotética cova no quintal vira uma piscina onde as crianças se divertem, o potencial estuprador Noé se mostra um amigo leal e a patroa se mostra o perigo que ela deveria ter temido de verdade.

O processo de transformação de Fausta começa com o falecimento da mãe, que é a pessoa que lhe passou o trauma, criando uma situação de instabilidade que culmina, no final do filme, com a cirurgia e o reestabelecimento de sua capacidade de confiar nas pessoas e se relacionar. Com o dinheiro das pérolas, o corpo da mãe ganha um final digno: é devolvido ao mar a caminho de sua terra natal, simbolizando o respeito e carinho de Fausta por sua genitora. Esse carinho de Fausta pela mãe move praticamente todas as suas ações no filme. E, ao final, Fausta recebe um presente, presumimos que de Noé, uma flor que brota de uma batata, demonstrando que até mesmo os traumas mais profundos e violentos podem florescer. E você? Quanto é definido pelos seus traumas? Quanto eles te impedem de florescer para o novo?

cartaz do filme

 
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from daltux

Toda a estrutura de “governo digital” que tem sido montada há alguns anos ao redor do chamado “Gov.BR” infelizmente vai na contramão do software livre e, ultimamente, envolve a exigência de software privativo — que priva as pessoas das liberdades digitais essenciais — não só do próprio governo central como também do mais alto capital estrangeiro (”big tech”). Isso culmina com a entrega do controle do cidadão às duas fornecedoras estadunidenses de sistemas operacionais para computação móvel. Embora pareça hoje, não foi sempre assim. Porém, não chega a surpreender uma pouca adesão à causa do software livre: infelizmente, pouca gente sequer sabe o que significa software livre, muito menos bem e, em grande medida, isso se dá por confusão com “código aberto”, algo estimulado e literalmente patrocinado pela própria big tech, replicado até por quem, mesmo com boas intenções, deseja conciliar tudo.

Afinal, coalizão geralmente traz resultados. Talvez não coubesse envolver moral na questão, e sim continuar a tentar o que passa impressão de pragmatismo, algo mais comumente aceito. Contudo, não fica tão difícil entender quais partes acabaram dominando e assim continuarão.

Enquanto quem tolera a convivência com software privativo em nome do pragmatismo defende que somente assim uma transformação social “para o código aberto” seria possível, será que os que chamam de “radicais” do software livre não seriam mais pragmáticos ainda? Em vez de lhes atribuir adjetivos pejorativos, é melhor admirar mais quem se esforça muito para colocar em prática o que idealizam esses movimentos (por mais conciliatórios que sejam), recusando software privativo em alguma medida conforme suas condições, progressivamente que seja, não apenas em um eventual futuro distante que talvez nunca chegue enquanto se admite o contrário.

Alguém precisa lembrar, questionar e cobrar detalhes com profundidade, senão, muitas vezes, nem percebemos os problemas ou acabamos ajudando a normalizá-los ou reforçá-los.

#softwareLivre #governo #brasil #soberaniaDigital

 
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from daltux

Privacidade é impossível sem software livre. Desenho: águia com asas abertas e fones segura escudo com sigla NSA e cabos que simbolizam interceptação. Logo da FSF. URL u.fsf.org/prism

Estamos, ao menos no Brasil, no que parece ser praticamente o cúmulo de uma virtual impossibilidade do proletariado e da pequena burguesia participarem do que é essencial ao cotidiano no capitalismo, ou seja, a troca de moeda, caso não se sujeitem a software privativo de liberdade em níveis crescentes. O pior é que isso tem extrapolado limites, na última década, tendo em vista que não basta apenas executar no seu computador eventuais programas privativos, dedicados ou no navegador da Web, controlados pelo serviço bancário: ficou normalizada a exigência de TRApps em tornozeleiras eletrônicas de bolso dominadas por um duopólio de fornecedores estadunidenses que representam o maior capital da história.

Nesse cenário, ficamos esperançosos ao termos notícia de que há uma instituição financeira que se diferencia por não exigir TRApps em tornozeleiras e até encoraja o desenvolvimento de software, que pode ser livre, para interagir com seus serviços. Nisso se incluiria o tão aclamado #Pix, que dizem ser revolucionário e pode vir a ser, mas que reforça o domínio do duopólio enquanto as demais casas bancárias ainda não permitem que o indivíduo faça esse tipo de transação fora das crescentemente degradantes condições expostas acima.

Abrir a conta é bastante simples, pelo sítio da Web, se você tolerar a execução de JavaScript privativo da instituição e também, lamentavelmente, do ReCaptcha, de um daqueles fornecedores que gostaríamos de evitar e que ainda usa sua interação para treinar modelos de reconhecimento de padrões em imagens. Ignorando esse problema inicial, vamos em frente, em prol do bem maior.

Você é, então, encorajado a receber um código de confirmação do número telefônico por um serviço de mensageria específico sob total controle de um outro fornecedor multibilionário estadunidense, reforçando um virtual monopólio sobre esse tipo de aplicação. Felizmente, se prestar atenção, consegue trocar isso pelo recebimento de uma mensagem curta de texto em qualquer tipo de tornozeleira. Todos ainda ficam obrigados a carregar um dispositivo de rastreamento no bolso, por mais simples que seja. Poderiam oferecer a alternativa de entregar o código por uma chamada de voz, o que funcionaria em um telefone qualquer, mesmo fixo, mas vamos considerar que o “SMS” já é um avanço!

Com a confirmação de que seu número de telefone existe, a conta é imediatamente criada, disponível para entrada no sistema da instituição pela Web, sob as condições típicas. É possível bloquear, com NoScript e GNU LibreJS, a execução de scripts de diversos terceiros, e ainda ter o sistema funcional.

Para que a conta fique realmente funcional, como era de se esperar, você ainda precisa apresentar documentos oficiais para comprovar sua identidade. É estimulado a utilizar meios indesejados para receber um outro endereço a ser aberto para poder enviar a documentação. Com atenção, felizmente percebe um botão para simplesmente copiar o URL. Que alívio!

Abre o endereço copiado. Aí, superando novamente o problema de scripts indesejados, é que surge um belo dilema em relação a #privacidade, #soberaniaDigital e #softwareLivre sobre o qual gostaria de comentários antes de decidir se vale a pena relevar:

Você não vai enviar seus documentos pessoais à instituição que está contratando. Está lidando diretamente com uma empresa estadunidense, com domínio que termina com .ai e que apresenta termos de privacidade muito duvidosos e que, de toda forma, pela extraterritorialidade, jamais conseguiria exigir cumprimento. Vale a pena entregar de “mão beijada” dados sensíveis àquilo, sujeito a tal jurisdição?

Provavelmente, diversas outras instituições financeiras subcontratam serviços de análise de dados similares, porém, normalmente, você entrega os dados a elas, não diretamente aos terceiros. Sua relação é apenas com elas. No caso em questão, dá-se a impressão de que a instituição contratada se exime da responsabilidade sobre esses dados, já que, para iniciar o processo de comprovação de identidade, você precisaria aceitar as condições da empresa estrangeira, em sítio dela.

Eu, diante dessa situação, preferi aguardar para amadurecer melhor as ideias. Não sei se ignoro mais esse problema, que me parece tão mais grave até do que a execução de software privativo, no intuito de conseguir executar software livre depois, que seria o objetivo alcançável. Espero receber opiniões de ativistas das áreas envolvidas em @daltux@snac.daltux.net ou na sala XMPP da comunidade GNU brasileira: xmpp:usuarios-gnu@salas.suchat.org?join

 
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from yuribravos

Outro dia estava jogando alguns jogos do tabuleiros com um amigo e minha esposa e comentei que algumas obras que assisto ou leio se tornam um lastro para as outras.

Ele apertou os olhos e disse: “se tornam o quê?”. “Um lastro”. E aí aconteceu uma cena não tão incomum na minha vida que é explicar o que uma palavra significa e depois a pessoa ficar “nossa, só você usa essa palavra”.

Por um lado, sim, acho que tenha um vocabulário bem extenso. Quando jovem eu li bastante, hoje depois de me livrar da faculdade estou voltando a ler como na juventude (em vez de ler apenas livros técnicos). Falo três línguas estrangeiras além do português, o que faz o vocabulário aumentar e se entrelaçar. Tenho um dicionário de referência para cada uma dessas línguas e uso sempre que preciso. Escuto o podcast do Prof. Pasquale quase diariamente kkkk eu genuinamente gosto.

Por outro lado... Às vezes sinto que as pessoas se contentam com um vocabulário muito limitado. Lastro é uma palavra que se aprende em história e geografia, no ensino fundamental, quando estudamos que o dólar nasceu lastreado em ouro. Não é uma palavra tão obscura assim! Mas também não é isso que eu quero dizer.

Vocabulário e repertório

Conhecer as palavras exatas para as coisas é uma boa medida de fluência numa língua: o termo mais específico no lugar de uma expressão mais genérica é indicativo de domínio do idioma.

Mas conhecer as palavras exatas também é uma medida de repertório sobre as coisas. É uma consequência da busca interessada sobre qualquer tema. Jargões nascem assim. Eu, pessoalmente, adoro saber de fatos curiosos sobre as coisas. Mesmo que eu não domine profundamente um assunto, me agrada saber os rudimentos. E assim eu vou descobrindo novas coisas e, naturalmente, novas palavras.

Daí que, ter um vocabulário amplo foi o resultado do desejo de entender as coisas.

Repertório e imaginação

Ter poucas palavras disponíveis é também ter pouco espaço de manobra para pensar e fazer coisas novas ou, talvez, até de reformular coisas antigas e correlacionar o que sempre esteve ali, próximo, mas não interligado.

Me parece difícil que boas ideias surjam sem uma destreza mental e experiência prévia. Nem estou falando aqui sobre instrução, embora a conversa tenha começado num tema eminentemente instrutivo. É só depois de ter tentado, pensado e confabulado bastante que conseguimos alcançar um resultado bom. Repertório e imaginação vão e vem para gerar boas ideias.

Um ranço

A ideia desse post veio, claro, com o acontecido descrito no começo, e com uma sensação horrível toda vez que eu escuto o presidente dos Estragos Unidos falar. A impressão que tenho é que o cara conhece entre 30 e 50 palavras e as repete independente na circunstância. “Eu gosto disso”, “Ele foi bom para nós”, “Foi muito bom”... Isso para não entrar nos absurdos e só citar as frases repetidas à exaustão.

Não admira que naquela cachola laranja só ventile ideias retrógradas e políticas de duzentos anos atrás. Eu me sinto o próprio Caetano Veloso esculhambando um jornalista em sua mocidade.

Esse, porém, é um parêntesis, porque basta de dizer o que não presta, vamos dizer o que presta!

Vocabulário e imaginação

Há quem diga e estudos apontam que a própria estrutura de uma língua limita o que nós podemos pensar. Há pensamentos que não parecem encaixar na língua materna e se nos restringimos a ela, ficamos incapazes de pensar certas coisas. Só isso já valia aprender uma língua estrangeira. Às vezes basta saber que certas estruturam mudam ou que outras palavras podem significar aquela mesma coisa ou ainda conhecer as etimologias das palavras pra gente conseguir pensar um pouco fora do quadrado.

Conheçam palavras e impressionem o seus amigos, garanto que vai valer a pena!

 
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from felipe siles

Esse é um tema sobre o qual quero escrever faz tempo, e eis que apareceu o cenário ideal para a sua escrita: tempo livre proporcionado pelo recesso de final de ano, e a observação de mais um coletivo do qual faço parte patinando na hora de concretizar decisões.

Participo de inúmeros coletivos, sempre participei desde que comecei a minha vida adulta. Sou músico e produtor cultural, ou seja, participo e participei de muitas bandas, grupos musicais, companhias de teatro, de dança, de cinema, etc., além de grupos com outros interesses: política, religiosidades de matriz afro, software livre, pesquisa acadêmica, etc.

Em praticamente todos esses grupos, compostos majoritariamente por pessoas minimamente progressistas, percebo uma ideia de que decisões coletivas são melhores, mais democráticas. Concordo com esse ponto, acho que não há dúvidas sobre isso. Mas, na prática, percebo que esse fundamento é subvertido em burocracia e quando percebemos, só pra citar um exemplo, todos estão votando em qual a melhor cor do logo do grupo, sendo que a maioria não tem conhecimento técnico pra isso, e muitos nem queriam estar sendo consultados sobre o assunto. As decisões se arrastam, tudo no grupo caminha muito lentamente, e cada decisão, por menor que seja, precisa ser discutida, deliberada e aprovada pela maioria.

Essa dinâmica acaba tornando o grupo um fardo pesado pra quem participa. Quem tem conhecimento técnico em uma tarefa ou habilidade se frustra porque outras pessoas estão sempre dando pitaco em seu trabalho, e acabam tendo seu esforço em prol do coletivo submetido a uma certa vigilância de aprovação da maioria. As pessoas que já são cansadas e ocupadas pelo próprio capitalismo tardio, acabam tendo que gastar uma enorme energia para defender coisas que são óbvias para ela, provocando mais ocupação, cansaço e desgaste. Outras que não dispõem dessa energia vão alimentando um ressentimento, cinismo ou até uma postura automática de “tanto faz”.

Surge aquela ideia de que nada ali acontece, e alguns acabam defendendo que se houvesse um líder centralizador, pra tomar as decisões, a coisa funcionaria melhor. Como falei antes, participo e participei de muitos grupos e, em alguns deles, realmente há um líder nítido e, nesses casos (quando o líder é bom), o grupo costuma ser muito mais dinâmico nas suas tomadas concretas de decisões. Aí surgem aqueles debates como se a coletividade não funcionasse e as soluções mais centralizadoras fossem melhores.

Mas eu acho que tem um problema aí que pouca gente nesses coletivos nota. Não é a coletividade que não funciona, mas para funcionar ela precisa estar baseada na CONFIANÇA. Tenho a impressão de que esse vício de decidir coletivamente todas as coisas é apenas um verniz para: – que todos possam dar pitaco no trabalho alheio; – um sinal de desconfiança sobre a decisão do outro, afinal a minha decisão que é a certa e preciso convencer todos disso; – insegurança das pessoas de arcar sozinho com a responsabilidade e o ônus de uma decisão ruim.

Aí acaba que as pessoas ficam dando pitaco no trabalho umas das outras, querendo tomar decisões coletivas que poderiam caber à uma pessoa com competência técnica e aptidão para aquela tarefa, o que normalmente termina em briga e ressentimento.

Outro fator também é o ranqueamento e “enquetização” de todos os aspectos da vida: damos estrelas para estabelecimentos, restaurantes, entregadores, filmes, séries, os serviços que usamos e conteúdos que seguimos nos empurram um monte de enquetes pra responder, criando a ilusão de que tudo aquilo que é avaliado positivamente por muitas pessoas é melhor. Existe uma ideia meio autoritária nisso, como se democracia fosse uma ditadura da maioria, como se massas de pessoas nunca errassem, a voz do povo é a voz de deus, porém a história nos mostra que um grande número de pessoas já cometeu e comete grandes cagadas também.

Vamos evocar a imagem de um pequeno vilarejo auto gerido e auto sustentável. Eu imagino que esse vilarejo teria pessoas responsáveis pela cozinha, pessoas responsáveis pelo uso e manutenção de ferramnetas, pessoas responsáveis pela obtenção de recursos (água, alimento, madeira, minerais, etc). Cada pessoa, por aptidão, vocação ou afinidade com a tarefa, com o passar dos anos começaria a ficar muito bom naquilo. Pensem agora numa pessoa que se dedicou a vida inteira a cozinhar para o vilarejo se faz sentido os moradores fazerem uma enquete para decidir os ingredientes que essa pessoa deve usar na próxima refeição. Parece um pouco absurdo porque é. Esse vilarejo hipotético, assim como diversas comunidades tradicionais, porque cada um desenvolve habilidades, as coloca a serviço do coletivo, e todos confiam nas pessoas e nessas habilidades.

Eu acredito num ideal de coletividade mais ou menos por aí: todas as pessoas possuem confiança umas nas outras, ninguém dá pitacos no trabalho de ninguém, todas as pessoas possuem liberdade e autonomia para desenvolver as suas tarefas da maneira como acharem melhor e o grupo arca com o ônus coletivo de decisões ruins. Acredito que essa é a forma de extrair o melhor da coletividade e o melhor do individualismo, já que não vejo essas duas esferas como necessariamente antagônicas ou excludentes. Chegar nesse modelo é fácil? Claro que não, afinal confiança não se constrói do dia pra noite. E para isso acontecer todos precisam ter nitidez qual a “cola social” que une aquele coletivo, o que mobiliza a todos, que os torna mais unidos que diferentes.

Para terminar o texto, uma frase atribuída ao José Saramago que gosto bastante: “aprendi a não convencer ninguém. O convencimento é um desrespeito, uma tentativa de colonização do outro”. Será que estamos prontos para essa coletividade radical, onde não tentamos convencer ninguém de nada, apenas vivemos, amamos, trabalhamos e confiamos nas pessoas?

 
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from john

Eu queria ser sutiã

Desses que lembram arreios

Pra apertar toda manhã

Os biquinhos dos teus seios

– Zé Trindade


Vi essa trova no vídeo do canal Aprofundo sobre o Faustão. Aos 11:36, aparece o trecho de uma entrevista do Faustão com uma pessoa não creditada (pelo menos não encontrei), mas que acredito ser o humorista Zé Trindade. Buscando pela internet não encontrei a trova em lugar nenhum, então fica aqui o registro.

 
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from john

Algumas notas sobre a anulação da votação que salvou o mandato da Carla Zambelli.

Li a notícia há pouco e ainda não cheguei a ler o inteiro teor da decisão, mas pelos fundamentos divulgados, dá pra notar o seguinte:

A constituição define quais são as situações que podem levar a cassação do mandato parlamentar. Elas estão previstas no art. 55:

Art. 55. Perderá o mandato o Deputado ou Senador:

I – que infringir qualquer das proibições estabelecidas no artigo anterior; II – cujo procedimento for declarado incompatível com o decoro parlamentar; III – que deixar de comparecer, em cada sessão legislativa, à terça parte das sessões ordinárias da Casa a que pertencer, salvo licença ou missão por esta autorizada; IV – que perder ou tiver suspensos os direitos políticos; V – quando o decretar a Justiça Eleitoral, nos casos previstos nesta Constituição; VI – que sofrer condenação criminal em sentença transitada em julgado.

Nos termos do Art. 55, §3º, CF, em algumas dessas situações, a mesa diretora da Câmara ou do Senado tem o dever constitucional de declarar a perda do mandato. São elas:

  • excesso de faltas;
  • perda ou suspensão dos direitos políticos e
  • por decreto da Justiça Eleitoral, nos casos previstos pela CF.

Em outras, previstas no art. 55, §2º , a Câmara ou o Senado tem o direito de decidir, por maioria absoluta, sobre a perda do mandato. São elas:

  • Infringir as proibições do art. 54, CF;
  • Quebra de decoro parlamentar e
  • Condenação criminal em sentença transitada em julgado.

A questão fundamental é se a Câmara dos Deputados tinha discricionariedade para decidir se tirava o mandato de Zambelli ou não, ou, alternativamente, se esse seria um ato vinculado, ou seja, a mesa da Câmara teria a obrigação de realizar o ato.

Aparentemente, uma questão simples. Bastaria ver se o caso da Zambelli se enquadra nas hipóteses do §2º ou 3º do art. 55. Mas tem uma complicação. De acordo com a Constituição, a condenação criminal transitada em julgado importa na suspensão dos direitos políticos, enquanto durar a pena:

Art. 15. É vedada a cassação de direitos políticos, cuja perda ou suspensão só se dará nos casos de:

III – condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos;

Ou seja, por ter sido condenada em sentença transitada em julgado, Zambelli está com seus direitos políticos suspensos.

Assim se cria uma aparente antinomia no texto constitucional que prevê dois procedimentos mutuamente excludentes para o caso de perda de mandato por condenação criminal.

Então cabe à Câmara decidir em votação, já que é um caso de condenação criminal, ou cabe à mesa diretora da Câmara declarar a perda em um ato vinculado, tendo em vista a perda dos direitos políticos?

Alexandre de Moraes decidiu pela última opção e por isso anulou a votação que salvou o mandato da Zambelli. Nisso ele seguiu a jurisprudência do STF que tem esse entendimento desde, pelo menos a época do mensalão.

 
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