Ideias de Chirico

cotidiano

Cartum em que há um homem sem roupa em frente a uma plateia, que diz 'Cheguei em São Paulo em 1997, só com a roupa do corpo'

Imagem: André Dahmer.

Depois de um período um pouco autocentrado, publicando somente coisas minhas, volto a compartilhar alguns links, dicas e citações que coletei nos últimos ~2 meses. Alguns artigos são de assuntos, digamos, em baixa, mas que não deixam de ter alguma relevância. Outros até que são recentes, mas que passaram batidos por mim, e que pensei que, de qualquer forma, fosse interessante de mostrar ― vai que algum leitor destas Ideias é distraído que nem eu?

Linkroll

A maior parte da população leitora no Brasil é constituído por mulheres não brancas, é o que mostra a pesquisa Panorama do Consumo de Livros.

• Quem consome livros no Brasil? Os dados são surpreendentes (Farofafá).

Diego Lafuente reconstitui o fluxo da informação digital desde a era do BBS e pensa neste belíssimo ensaio como a Web e os hábitos podem se modificar a partir da IA:

I still write because writing helps me think. That may become the main reason to write. Not traffic. Not SEO. Not audience growth. Not discovery through search.

• The web is going to dissapear (minid.net)

Já reparou que os telefones modernos são pouco explorados ou até ignorados nos filmes dos últimos anos? Neste primoroso vídeo-ensaio, Eddache reflete sobre as razões pelas quais os diretores tomam essa decisão.

• Why Are Movies Afraid Of Phones? (Eddache ― Youtube).

Ensaio de Paula Lúcio sobre como a estética do agreste nordestino se formou e como se comunica.

• A gramática visual do sertão (Paula Lúcio ― Substack).

New York Times ranqueia os 48 hinos de nações da Copa (e dá primeiro lugar ao hino brasileiro!)

• Ranking all 48 World Cup national anthems (New York Times).

A arte da tradução, por mais enigmática que seja o sentido dessa expressão, tem, assim, um papel político importante, mas parece que hoje ninguém precisa dela, e não se trata de cinismo, (...) mas, antes, de absoluta impossibilidade de prestar atenção na arte em geral, qualquer que seja ela.

• Trocar tradutores por IA é retrocesso gigantesco para literatura (Dirce Waltrick do Amarante ― Folha de São Paulo).

Artigo bem humorado da Business Insider refletindo sobre as vantagens ~secretas de se ter um Kindle: desde ler “escondido” livros embaraçosos até não evidenciar posições políticas a partir de capas de impressos.

• Read Embarassing Kindle Books in Public (Business Insider).

Dica cultural

Loja de discos. Um homem cabeludo e de camiseta de banda de rock observa com aflição para uma mulher com roupas formais que analisa um disco que pretende comprar.

Cena de “Durval Discos” (2002), com participação especial de Rita Lee.

Ontem assisti outra vez ao “Durval Discos” (2002), um desses filmes brasileiros que, por alguma razão, não é tão conhecido, apesar de ser family-friendly e do gênero comédia. Com estreia da diretora Anna Muylaert, é um primor no quesito de técnica de fotografia, trilha sonora (parte de André Abujamra) e escrita de roteiro.

O longa-metragem nos mostra o cotidiano de Durval, um hippie quarentão que mantém uma loja de discos na frente de sua casa em um pacato bairro de Pinheiros, São Paulo, durante o fim dos anos 90. A indústria fonográfica de então investia mais e mais na produção de discos compactos (CD) em oposição aos discos de vinil (LP), a especialidade da loja Durval Discos.

Além do pouco movimento de vendas em seu comércio e da constante cobrança de clientes por CDs, Durval ainda tem que lidar com a gerência da casa. Solteiro, morando com sua mãe já envelhecida, o protagonista decide contratar uma trabalhadora doméstica ― uma jornada que o irrompe de sua rotina. A partir daí, os problemas em sua casa (e até na vida do bairro) escalam pouco a pouco. O clímax de “Durval Discos” foi um daqueles que mais me impactaram nos últimos 10 anos.

Disponível no Youtube.

• Durval Discos – Trailer (Youtube).

Citações

Cartum mostrando um homem sobre um palco de karaokê, atrás dele há o título 'song: 4'33'', artist: John Cage', uma composição na qual os instrumentistas não tocam absolutamente nada. Em primeiro plano há um homem que diz 'Esse cara de novo, não...'

Imagem: asher (via The New Yorker)

Todo mundo quer profetizar o futuro pós LLM baseado em livro de ficção científica, eu prefiro olhar para um campo do conhecimento humano que convive com tais máquinas pelo menos desde a década de 1990: o xadrez. O fato de existirem máquinas que jogam melhor que os humanos não acabou com o esporte e não extinguiu a profissão de enxadrista.

@felipesiles@ayom.media

Meu fácil me enfada. Meu difícil me guia. [...] O que eu sei fazer me entedia; o que não sei fazer me entristece.

― Paul Valéry.

The only way to keep your health is to eat what you don't want, drink what you don't like, and do what you'd rather not.

― Mark Twain.

#notas #tecnologia #cotidiano


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Fragmentos do meu diário. Entrada do dia sete de abril de 2026, terça-feira:

Estranho dizer que sinto prazer em acordar cedo. Talvez o que eu goste mesmo é de manter firme uma rotina e ver que consigo fazer com que as coisas fluam. Às vezes lembro de “Dias Perfeitos” e da rotina impecável e tranquila de Hirayama. Uma rotina tão simplesmente cíclica que lembra até a de um animal selvagem.

Além de tudo, Fortaleza fica muito bonita e agradável à hora da aurora, em torno de 5h30. Não há o sol escaldante habitual, mas ainda assim há uma débil luz; a rua é deserta; e, por alguma razão, sinto-me muito mais presente do que em qualquer hora do dia.

Mais do que em qualquer outra hora, vemos a cidade tal como é: um teatro vazio, que depende de nós para funcionar...

Dia 19 de maio de 2026:

[...]

Ao menos as terças-feiras me animam; é quando acordo mais cedo; ao tomar o ônibus, vejo o nascer do sol às 5h50; quando chego em Messejana, tenho um tempo livre até que o próximo [ônibus] apareça. Daí fico um tempo no piér da Lagoa da Messejana.

Quando estive nesta paisagem ouvindo a Rádio Universitária, tive um ímpeto de otimismo, e pensei que talvez afinal eu precise mesmo passar por tudo isso por que passo. Espero que algum dia eu colha um fruto dessas sementes que planto não sei como.

#cotidiano


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Multidão de pessoas com beca em uma cerimônia de formatura dentro de um ginásio iluminado com holofotes. ao fundo é possível ver capelos voando e alguns confetes.

Imagem: Rafaelle “Hélia” Bernardo. O autor tendo o seu momento?

O fim da carreira na graduação nas peças de entretenimento é sempre anunciado com a fatídica cena dos capelos voando no ar ao som de “Marchas de Pompa e Circunstância”, de Edward Elgar. No nosso imaginário, depois que os capelos e livros e papéis e lágrimas caem, esse é o nosso grand finale, nosso “¡Adios, amigos!”. It's all, folks! C'est fini! Os créditos do filme de nossa vida faltam pouco subir na retina da mente. Quem dera se, ao menos uma vez, a vida fosse um filme da Sessão da Tarde...

Mas em outra tarde qualquer, com uma pastinha na mão, eu cruzava o campus da Universidade Estadual do Ceará outra vez. Eu estava um pouco descrente de que eu conseguiria meu diploma universitário, prometido há alguns meses logo após a formatura. Afinal, no Brasil, tudo que se relaciona à papelada requer duas ou três visitas. Além disso, estava preparado para dar de cara com a porta, pois já davam 16h no meu relógio quando passei pelo portão principal.

Chegando lá, a partir de um beco estreito pixado com poças d'água de ar-condicionado, surpresa: o departamento estava aberto! A porta de vidro cintilava ao sol da tarde finda. Abro-a gentilmente...

Um balcão envidraçado com capacidade para três funcionários era ocupado somente por um. Usava óculos e tinha barba e cabelo ralos.

― Boa tarde. Vim retirar o meu diploma universitário.

― Boa. Qual o curso e a data de formatura, por favor?

― Letras, final de janeiro deste ano.

― Documento com foto?

― Aqui.

Depois de catar o documento em uma caixa, aquele homem até então tão humilde tomou um tom professoral, como se falasse com um pupilo:

― Primeiramente parabéns pela conquista. Este é um momento de muita importância para a Universidade.

Então, entre cerimonioso e sarcástico:

―...e como retribuição, você ganha um brinde.

Debaixo da bancada, retirou um envelope um pouco maior do que uma folha A4, cujo amarelo, debaixo da luz fluorescente, mais do que qualquer outra coisa naquela sala sem enfeites ou avisos, brilhava.

A seguir, sacou daquela mesma região um papel fosco com o meu nome impresso.

― É o original?

― Cópia. Assine aqui.

Assinei. Delicada e cerimoniosamente, retirou debaixo um largo papel igualzinho ao anterior, mas no qual o escudo da Universidade brilhava. Apresentou-me então uma caneta que tinha uma pena bastante distinta, cuja extremidade segurava com as pontas do indicador e do polegar.

― Esta caneta tem uma tinta de rápida absorção. Agora assine cuidadosamente aqui...

Não sei se por toda a liturgia, acabei garatujando o meu próprio nome no documento. Por fim, falou-me a quais documentos eu teria direito de ter segunda via, deu algumas orientações sobre a conservação do papel do diploma e contou causos sobre gente que perdeu o documento.

Com um sorriso tímido no rosto, quase orgulhoso, como se fosse o próprio reitor, declarou enfim:

― Pronto, meu rapaz, agora você está oficialmente diplomado. Boa sorte na vida.

Sua voz ecoou na sala fria e sóbria. De repente um rumor de ar-condicionado, até então imperceptível, fez-se mais forte. Aquele era o fim definitivo.

Na memória ainda os flashes, os confetes e os capelos pairando no ar.

Mentiram para mim.

#cotidiano


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Amigos meus, crianças saídas dos anos 2000, suspiram de saudade pelo sinal trema.

Não lhes tiro a razão.

Em uma língua opaca como a portuguesa, na qual a relação entre fala e escrita não é assim transparente, qualquer indicador de pronúncia adequada à norma padrão é bem vindo.

Falo por mim: a falta desse sinal é tanta, que quando quero saber se “u” é pronunciado em ocorrências de “qu” e “gu”, recorro a um velho e grosso dicionário que guardo em casa, onde o trema é ainda marcado.

Mas há outra coisa da qual sinto ainda mais falta do que deste sinal: de quando “k”, “y” e “w” não integravam o alfabeto de língua portuguesa.

Quantos pesadelos esse trio já me causou...

Por mais que, antes do “desacordo ortográfico”, o brasileiro médio já o utilizasse quase que clandestinamente através de nomes próprios (sobretudo de gente trabalhadora) e lojas populares, a presença dessas consoantes demarcava uma linha linguística clara.

Antes do desacordo, quando elas apareciam em um texto lusófono qualquer, era como se nos estivesse dito: “Estamos em terreno estrangeiro”. Logo, ao leitor era sinalizado de que a pronúncia da palavra não era igual às anteriores.

Sim, podemos delimitar este mesmo terreno hoje em dia com o itálico, em caso de texto digitado, ou com aspas, em caso de texto manuscrito; no entanto, antes da aceitação desse trio alienígena, a própria língua delineava suas fronteiras.

Outro dia, estive preocupado com o significado de “typo” (pronunciado “taipo”). Havia, então, esse irascível ípsilon. Escrevo seu nome por extenso para que se veja o quão nauseabundo é. Ípsilon. Imagine a dificuldade que é para uma criança pronunciá-la. Imagine até mesmo suas variantes! ― Luiz Gonzaga, soletrando o alfabeto em famosa canção, canta a letra como “ipsilone”.

Então, folheando um dicionário de inglês-português, dei-me conta desta falta: eu simplesmente não sabia onde ficava o ípsilon no alfabeto anglófono! (E temo que nem algum outro dia o saberei...) Afinal, minha alfabetização foi anterior à inclusão das três consoantes estrangeiras!

Tentando sanar minha dúvida, passei pelas palavras iniciadas por “ti” (afinal de contas, em alguns países, chamam ípsilon de “i grega” ― logo, a consoante só poderia estar próxima à vogal “i”). Debalde. Para a minha surpresa, ípsilon está mais perto é de “z”!

Já teci até alguns truques para memorizar seus lugares: sei que “k” está algo assim próximo do “j” (tento até lembrar do presidente Juscelino Kubitschek); e que o “w”, cujo nome em português é derivado de “double u” (“duplo u”), deve ficar então perto desta vogal. Mas na hora agá, me escapam esses mnemônicos...

Sou de partido de que a inclusão dessas três letrinhas somente complicou ainda mais a alfabetização no Brasil. Suas posições alfabéticas são mais outros três dados que estudantes escolares ― já muito ocupados em aprender a tabuada de sete, tipos de substantivos e o passinho do Jamal ― vão ter de se preocupar em aprender...

A noção do que é adequado fica cada vez mais confusa quanto mais normas criamos. Isto vale para a sociedade, para a arte e também para a língua.

Além disso tudo, sempre gostei de palavras aportuguesadas.

“Leiaute”, “copidesque” e “uísque” são marcas de um esforço de aclimatar termos técnicos e/ou estrangeiros ao ambiente lusófono ― evitando, assim, a inclusão do trio na língua portuguesa. Achá-las cafonas ou toscas só indicia o viralatismo de um pensamento tecno-elitista, que só consegue comunicar um saber-fazer em inglês ― “prompt”, “brainstorm”, “fork” etc., etc.

Parece conservadorismo da minha parte, mas não, não sou contra estrangeirismos; sou contra o estrangeiro transplantado sem a nossa consciência e consentimento. Entretanto, quando transformamos palavras estrangeiras em língua materna, as domesticamos; quando, porém, estrangeiramos palavras maternas, somos domesticados.

#cotidiano


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Ou: “a escuta podcastal: um dossiê”

Este não é um tutorial de como ouvir podcasts. Isso vocês já sabem: baixa-se um agregador qualquer (eu utilizo o AntennaPod) e segue-se algum programa a partir de uma pesquisa; quando este publicar um novo episódio, se receberá uma notificação e se o reproduzirá ou não.

O que quero falar nesta crônica é sobre uma “pragmática podcastal”, os modos com os quais ouço os queridos programas de áudio.

Ao contrário do texto, o áudio não tem uma recepção previsível. Isto é, ao escrever um texto, sei como o leitor o fruirá ― através da tela de um dispositivo eletrônico móvel (telefone, computador, leitor digital ― Kindle, Kobo, etc.), talvez a partir de um impresso (caso tenha uma impressora, por exemplo); este leitor estará estático ― seja sentado, deitado ou, raras vezes, de pé; talvez com a atenção plena, talvez com breves lapsos de desatenção causada por um pensamento que o texto provocou, por algum barulho que o gato fez, por uma notificação que de algum dispositivo soou...

O mesmo não acontece com o áudio.

Por conta do áudio, permite-se estar em segundo plano, flexibiliza a recepção da informação; acho, pois, que é necessário algo como um “design sonoro” ou “design sonoplástico”, considerando as possibilidades de escuta do programa. A fim de auxiliar estudos nessa área vindoura, aqui vão os modos como escuto podcasts:

1) sentado em ônibus, com fones de ouvidos ― a “base”, uma “posição neutra”, um “grau zero da escuta”, na qual em geral se começa a ouvir os programas e na qual se pode ouvir quaisquer programas de áudio; nesta posição pode se ouvir de tudo, desde noticiário até storytelling; pessoalmente, onde tudo começou, o ponto no qual percebi que o podcast se tornaria uma necessidade básica como água e eletricidade; a propósito, quando eu escutava o infernal “Medo e Delírio em Brasília”, era somente sentado em um banco de ônibus com fones de ouvidos que eu conseguia compreender alguma coisa; o banco de ônibus é tipo de “sinagoga dos podcasts”;

2) lavando louça, com amplificação via Bluetooth; uma posição robusta, que comporta muitas possibilidades; prevista, porém aparentemente pouco considerada, já que algumas vozes e vírgulas sonoras não podem ser ouvidas plenamente por conta da água corrente e do tilintar das panelas ― vozes tenores, como a de Matias Pinto do Xadrez Verbal, ficam em desvantagem nesta posição auditiva; há variações como 2.1) lavando louça, com fones de ouvidos; e 2.2) lavando louça, a partir do alto-falante do telefone ― que requeririam uma atenção especial de sonoplastia;

3) cozinhando, com amplificação via Bluetooth; aqui é que o bicho pega, aqui que a arte do design sonoro deveria entrar em cena; apesar de haver uma certa estabilidade do ouvinte ― afinal, seu único movimento é de em média dois metros, entre a geladeira e o fogão ―, os utensílios domésticos tilintam em demasia; nessa atividade há uma estranha dinâmica de “pianos” e “fortes”, com momentos de calmaria, como quando a água está fervendo na panela, intercalados com momentos de cacofonia e ruídos intermitentes, como quando o óleo quente recebe a tal “mistura”; nenhuma voz, vírgula, música ou qualquer outro som grosso suporta a um tonitruante ssssSSSSSHHHHHHHHHHhhhhh;

4) escovando os dentes, a partir dos alto-falantes do telefone; à frente da posição “escutando no ônibus com fones de ouvido”, esta é aquela na qual sinto mais plenitude mental ― ou “mentitude” (para não utilizar o irascível mindfulness) ―, nesta atividade acústica ou em qualquer outra de quaisquer outros tipos; ao contrário de seu predecessor “escutando no ônibus com fones de ouvidos”, quando se escuta um episódio de podcast no banheiro durante a escovação, nada de mau pode acontecer; o movimento de escovação dentária é algo como um estímulo à atenção auditiva, é uma espécie de mantra tátil-acústico; um metassigno ― limpa-se os dentes ao tempo em que se limpa a mente (um “paramorfismo”, em termos de Semiótica); ao meu ver, todo programa de áudio deveria ser desenhado para que fosse otimizado nesta ocasião; parafraseando Junichiro Tanizaki, foi nos momentos de escuta simultânea à escovação dentária que os poetas fizeram seus melhores poemas...; ouvir programas como Manual do Usuário, com a suave voz de Rodrigo Ghedin, ao tempo que se escovam os dentes, é análogo à prática da meditação; variações como “escovando os dentes com fones de ouvidos” não surtem o mesmo efeito de mentitude, uma vez que o som da escova compete com o do áudio ― o crânio, como boa caixa acústica que é, amplifica o ruído de suas cerdas ―; dessa forma, dessacraliza-se este que é um modelo de receptividade acústica, uma “posição de lótus” do ouvinte; como nada é perfeito, por conta do curto período da higiene bucal, não é possível usufruir de muitos episódios nesta posição ― mas, estendendo a escovação, quão brancos meus dentes ficaram desde que comecei a ouvir podcasts depois de terminar o almoço...;

5) caminhando, com fones de ouvidos; postura extremamente superestimada, uma vez que o “podespectador” tem de lidar com toda sorte de intempéries e ruídos externos; por exemplo, na posição pré-sentado-no-ônibus-com-fones-de-ouvidos, isto é, quando se está prestes a pegar a condução, o ouvinte é incapaz de se ater a quaisquer palavras ditas que sejam; tudo se trata de não perder o transporte, passar na catraca e sentar o mais rápido possível, com a chance de permanecer de pé a viagem inteira;

6) deitado na cama, via alto-falantes do telefone; outro modelo bem estabelecido; algumas aplicações de podcasts (como o supracitado AntennaPod) otimizam-no com recurso temporizador agendado, a partir do qual, em determinada hora, o episódio é pausado após um determinado tempo ― ideal para quem escuta antes de dormir; inclusive, alguns podcasts, como o famigerado “Ser Sonoro”, foram desenhados especificamente para serem escutados única e exclusivamente na cama, antes de dormir.

Quem dera se todo programa de áudio aplicasse um UX listen design dessa forma!

#cotidiano


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Não há exercício melhor de autoconhecimento do que lembrar, não das primeiras vezes ― essas nos aparecem dia após dia (basta ter a sensibilidade necessária para percebê-las) ―, mas sim das primeiras primeiras vezes, aquelas da infância e da adolescência, de quando o mundo era gigante como o pai da gente.

Até para que eu próprio me conheça enquanto conto uma delas, deixo que o leitor a entreveja...

Eram idos dos anos oitenta, na gloriosa Serra Grande, onde cresci, casei e criei meus três filhos ― que talvez não saibam (por enquanto) dessa história. Estavam ainda em alta as discotecas. Minha cidade, por menor que fosse, dispunha de boas e grandes praças, boates e (vejam só como as coisas mudam!) cinemas. Assim, os namorados estavam bem servidos de programas e, ainda que esses por acaso faltassem, ainda sobravam as serestas e os namoros na varanda ― esses doces e clandestinos ensaios sexuais.

No entanto, para um menino de 15 anos, tudo isso ainda não passava de histórias de amigos e parentes mais velhos. Eu ainda sairia com um “pão” pela primeira vez naquela noitinha de quinta-feira.

Era hora.

Ao entardecer, enquanto tocava a habitual “Ave Maria” no radinho de meu pai distraído no quintal, lá estava eu penteando meus cabelos molhados, com a ajuda do espelhinho de aro laranja. Vestindo a roupa nova em folha saída da costureira ainda àquela tarde, fui sorrateiramente ao quarto dele para tomar emprestadas duas borrifadas de seu melhor perfume.

Fechando cuidadosamente o portão de casa, fui à praça central me sentindo o próprio Tony Ramos.

Já era média noite quando eu a vi, aquela que seria uma das minhas primeiras primeiras vezes... Do seu nome, já não lembro mais, mas poderíamos chamá-la de Mirian.

Amigos meus, mais experimentados, sugeriram que eu a levasse para o cinema, o que Mirian declinou:

― A próxima sessão é muito tarde, e a sala mais próxima está assim de mofo!

Certo. As recentes chuvas justificavam o mofo, mas agora eu teria um escurinho a menos onde a beijar e, quem sabe...

Sobravam a praça e a boate. A primeira, com privacidade zero, nem pensar, a não ser que eu estourasse a lâmpada do poste. A segunda, bem, seria um risco, porque, salvo se por um milagre de termos a pista toda para nós, ficaríamos muito expostos ― aí, já viu: nada de bitoca. Além de tudo, não diria que eu era um exímio dançarino, mas vai que tocava uma música lenta, mais fácil de dançar, e ainda por cima agarradinho...

Apressados por conta da chuva que se aproximava outra vez, quase a atropelando, entramos na discoteca.

Iluminada por mil cores, um calor danado, a pista estava tinindo! Muita gente, pouca chance. Se eu não cuidasse, era capaz até de pegarem a dona que eu levei.

Mas fiquei. Vi que estava curtindo e que já estava na minha. Agora era cuidar para não lhe pisar no pé tentando imitar John Travolta de “Grease”.

Nas minhas limitações, dancei; nas minhas limitações a agarrei; mas nas minhas limitações não cheguei nos finalmentes. Muita luz, muita gente.

Dançávamos bem juntinhos ao som de “Woman”, de John Lennon, até que ― blam! ―, cai a energia. Bem, era agora ou nunca! Um belo de um blecaute, mas eu estava de olhos bem abertos quando lhe tasquei a língua em cheio. Seu gosto era algo entre agridoce e verde-musgo. Estranho ainda era aquela boca sem dentes...

E aí, quando fez-se luz outra vez, Mirian disse:

― Ei, menino, é mais pra baixo, tu 'tá beijando é meu nariz!

#cotidiano


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Mais uma vez, trabalho durante o meu aniversário. Nessa volta, porém, não estou triste. A busca incessante por um emprego que marcou o começo do ano me causava um mal estar irascível. Logo, escrevo este texto com alguma antecedência, a fim de garantir que eu tenha algum tempo para publicá-lo no dia correto. Aliás, agora que reparei, publiquei o meu relato anterior no dia seguinte ao meu aniversário.

Se eu pudesse ler as publicações futuras como posso com as passadas, como gostaria que o eu passado estivesse lendo isso! Se o pudesse, lhe diria: obrigado! Obrigado por ter usado tão bem o tempo de ócio com o aprendizado.

Não há sensação melhor do que ser grato pelo passado.

Por dez anos, temi a hora em que eu completasse 30 anos. Talvez pelo frequente relato de amigos meus que completaram essa idade, talvez por conta de seus ares tristes, temia quando fosse a minha vez de trintar.

Mas, afinal, isso não é tão ruim. O corpo não dói tanto quanto eu esperava. Na verdade não dói de todo. Não me sinto velho. Na verdade ainda sou jovem, ainda aprendo e faço planos. Sim, sei o meu lugar; já não tenho mais tanto tempo quanto aos 20 anos. Meu poder de mobilização coletiva já não é o mesmo. De qualquer forma, agora só preciso mobilizar a mim mesmo.

Além do mais, consegui tudo o que eu queria aos 20. Tenho um livro publicado, a graduação que eu queria e um amor tranquilo. Também aprendi tudo o que eu desejava. Sou um poliglota, um autodidata e sei escrever bem; e sei amar, sei resolver problemas e não temo o trabalho, por mais que eu costume protelar tudo.

Sim, a graduação demorou mais do que eu imaginava, mas isso não é ruim. Na verdade minha jornada teria sido bem diferente caso tivesse concluído o curso no tempo esperado. Se eu tivesse colado grau ano passado, por exemplo, não teria conhecido a linda área que é o ensino de Português como Língua Estrangeira. Talvez nunca teria tido contato tão próximo com gente de África e da América Latina; talvez não teria aprendido tanto francês com os primeiros e aprendido tanto do meu povo com os segundos; talvez minha monografia teria sido bem mais trabalhosa, já que sob mais pressão.

E o que era previsível aconteceu: estou cada vez mais descrente do poder transformador da internet.

De qualquer forma, acho que as redes sociais (mesmo as fediversais) já não cabem mais na minha vida. Performar uma identidade, preocupar-se com alcance de público, interagir com gente estranha a qual nunca se verá na vida ou da qual se saberá muito pouco, entreter-se com o entretenimento do outro, “compartilhar”, “comentar”, “favoritar” ― que forma mais estúpida de passar as horas! E não se falem nem nas plataformas de entretenimento. Atravessar as horas rolando conteúdo efêmero e de baixo nível de informação ― que forma mais estúpida de passar a vida!

Definitivamente, nada disso é socializar, e está longe até de ser uma extensão da vida social...

Talvez a partir de agora eu me dedique mais a este ou outros blogues que eu venha a criar. O blogue é o marco zero da internet; é simples, de baixa manutenção, organizável, acessível para quem escreve e para quem lê; ao lado do mensageiro, do telefone e do e-mail, é o fio mínimo entre a vida e o virtual; lento, é o antídoto perfeito para FOMO. Slow-web.

Temo ficar antiquado? Com certeza. Mas o tempo confirmará que a luta que assumi era a que me cabia, i.e., a luta pela reinvidicação por uma vida simples e lenta.

Mas agora a internet é só o lugar aonde vou quando preciso ganhar dinheiro ou perder tempo. Nada mais. Game over! Que pena... Vamos tomar uma cerveja?

Afinal de contas, me interessa mesmo é a vida. Sou um ser concreto, que se fascina pelo real. Por isso mesmo me interessa tanto o Budismo. Por isso mesmo me interessam tanto o analógico, o offline, o protodigital, o ordinário, o imanente. Por isso me interessam tão pouco (agora mesmo quase nada) a internet, a fantasia, a psicodelia, o transcedente, o entorpecente. Sonho com o dia em que o onírico não se separará do empírico. Aí, sim, vivo pleno. Hoje mesmo já não sonho quando durmo; a noite é simplesmente um véu negro que cobre o meu rosto. O sonho é um mistério que já não me seduz. E, bom, não faz mal, porque, como dizia o cancioneiro cearense,

A minha alucinação é suportar o dia a dia, e meu delírio é a experiência com coisas reais.

Leia o último relato de aniversário.

#cotidiano


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Caricatura de um homem calvo, de olhar severo com o nariz pretuberante e uma parte do rosto apagado

Imagem: caricatura de Paulo Mendes Campos.

Uma lista de coisas deleitáveis, escrita durante uma leitura de lista de coisas deleitáveis, uma crônica de 1962 de Paulo Mendes Campos:

Sombra de árvore em parede ao fim do dia; escrever em máquina de escrever; escrever em teclado mecânico; tirar os sapatos ao fim do dia e tocar os pés no assoalho frio; acertar nota difícil em violino; ouvir sotaque de estrangeiro aprendendo português; acordar cedo sem alarme; comprar queijo coalho barato; ouvir jazz em um bom fone de ouvido; ver álbum de fotos de família de gente desconhecida; a palavra eavesdrop; a voz de Ezra Pound quando estava velho; sol nascente; sol poente; criança pequena ouvindo atentamente alguém falar; cúmbia; ver alguém dançar cúmbia; espanhol argentino; inglês britânico, sobretudo o Cockney; português timorense; francês africano, sobretudo o beninense; perceber a simplicidade de uma coisa aparentemente complexa, como por exemplo, conseguir meditar pensando em nuvens e ondas do mar; beijar mulher engraçada depois de ela fazer rir; ouvir alguma história sobre Oswald de Andrade; ouvir alguma história sobre Erik Satie; visitar um completo desconhecido por convite de um amigo e comer e beber de graça; fita cassete; começar a aprender uma língua nova; vaia cearense; acertar uma expressão em francês depois de muitas tentativas; fazer becape de arquivos; olhar horas “redondas” em relógio mecânico de pulso; falar em espanhol com nativos; a primeira hora de uma paixão; usar chapéu grande debaixo de sol forte; conhecer uma nova palavra que passa a nomear algo que já conhecíamos ― como por exemplo, “serendipidade”; mulheres de cabelo joãozinho; receber elogio de crianças; a série de colagens “Jazz” de Henri Matisse; beijar depois de beber cerveja gelada; ouvir Décio Pignatari falando; ver como gente detestável ficou feia depois dos 20 anos; Johann Sebastian Bach; texto com parágrafos curtos; a feiura de recém-nascidos; qualquer coisa sobre o Japão; reconhecer figuras em caracteres chineses; dicionários que tem transcrição fonética das palavras; ouvir da rua o toque de pedido de viagem Uber; ler João Cabral de Melo Neto e imaginar cenas de construção; ouvir João Cabral de Melo Neto cacoetar com “Compreende?”; filmes tão bons que continuam na nossa cabeça, por meses; experimentar bicicleta alheia; ler jornal de papel em um domingo tranquilo; céuzinho azulzinho ― sobretudo no mês de agosto, às 14h ―; calças de alfaiataria; calças que têm bolsos bem largos e fundos; ser surpreendido com massagem nas costas, enquanto se está no computador; tocar alfaia em grupo; mijar de madrugada no escuro, sentado; lambretas; quando uma criança cai e, em vez de chorar, ela começa a rir; som de aviso do vigia noturno de motocicleta; a atuação de Kôji Yakusho em “Dias Perfeitos”; dia demorado em casa; abajur; luz de abajur; telefones pequenos; o primeiro disco de Arthur Verocai; gatos gordinhos; televisão de tubo; quando acham que você é mais jovem do que de fato é; usar acento grave indicador de crase da forma correta; o modo como os cubanos levantam os ombros enquanto argumentam sobre um assunto delicado; andar de skate depois de anos sem ter subido em um; perceber a comunicação não verbal dos músicos em serviço; dispositivos com tela “de papel”; lembrar que é sexta-feira, e não quinta-feira; lembrar que é sábado, e não domingo; automóveis coloridos e miudinhos; notar que os músculos estão crescendo; dormir fácil; jogar xadrez com um colega de trabalho no intervalo; banho de cachoeira da Serra da Ibiapaba; banho de rio do sítio Ingazeiras; o primeiro banho do dia; a cidade de Fortaleza durante a hora dourada; Serra da Ibiapaba debaixo de neblina; ler debaixo de sombra de árvore; acordar cedo descansado e lépido; conseguir sentar em modo seiza; dicionários de bolso da Collins Gem; fazer listas.

#cotidiano


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Quadrinho de Tintin, um detetive de sobretudo, olhando com seu cachorrinho branco Milou a silhueta da cidade de Chicago a partir de um navio em viagem.

Imagem: “Tintin en Amérique”, gibi belga de Hergé.

Vocês já sabem... Notas costuradas são um compêndio de escritos esparsos e recomendações, que não renderiam uma publicação independente. Alerta: nestas Notas, muita gente pelada.

Interlúdios

A melhor hora de todas é entre 16h e 18h aos finais de semana e feriados. Mor silêncio. E, quando há um ruído, é suave. Sem contar com a luz gentil do sol, igualmente suave. Não há trabalho, não há compromisso. O que deveria ser feito no dia, já foi feito. Aqui em Fortaleza em específico a essa hora há um vento agradável e não é tão quente quanto o restante do dia. Mor paz.

Futurismo Cassete

Gosto de como é o envio de feed RSS para o Kindle via calibre: plugo um cabo, se a hora da importação automática de feed estiver correta, começa-se a baixar a lista das publicações recentes. Quando baixada, é enviada automaticamente para o dispositivo. Depois basta ejetar o dispositivo e desplugar o cabo. É como uma experiência de Futurismo Cassete: todo o processo é tangível e confiável, ainda que digital. É o raro design de uma tecnologia como uma ferramenta ― responsiva e utilitária ―, não como brinquedo ― viciante e distrativo.

Seis horas da manhã

Todas as manhãs de quartas-feiras, saio bem cedinho para correr. É o sol brilhar, já estou de pé, quente para dar algumas voltas pela praça José Bonifácio, a duas quadras da minha casa.

Antes de correr propriamente, giro duas vezes em sentido anti-horário em torno do calçadão retangular que cerca a imponente construção do quartel-prisão cinza em estilo neoclássico da Polícia Militar de Fortaleza, em destaque na Praça. Faço-o de fones de ouvidos, a fim de não me distrair e me concentrar somente na corrida. E então é correr e correr...

Lá pelas tantas, logo após a primeira volta, vejo um vulto brotando em minha direção a dois metros da minha esquerda ― é o velhinho meu vizinho de quarteirão, que sempre me cumprimenta quando passo perto de sua casa. Infelizmente nunca temos tempo de conversar, já que, por azar, sempre estou em trânsito quando nos vemos.

― Olha ele, rapá! ― diz algo assim. E dá-lhe a correr atrás de mim.

Como eu não o ouvia bem, também não lhe respondi. Quando então ele tentara fisgar meu braço para me deter e talvez trocar uma palavra comigo, me esquivei. Afinal, eu tinha que seguir com a corrida no pouco tempo que me restava. Tudo isso aconteceu em não mais do que cinco segundos.

Fui rude, eu sei. Na outra volta, pensando em me redimir, ainda pensei em lhe acenar, mas já era tarde: sentado, virou o rosto enquanto eu passava e fez que não me via...

Já se dizia no Pequeno Príncipe: “Tornar-te-ás eternamente responsável por aquilo que cativas”. Mas o problema não é meu se o que cativo decidir ir atrás de mim enquanto corro cedo da manhã usando fones de ouvido.

Imagem de dois homens nas ruas de Nova York dos anos 70. O homem à esquerda é um fisioculturista e está nu; o da direita está à caráter do judaísmo ortodoxo. Ambos sorriem.

Imagem: Arlene Gottfried, via Flashbak.

Resenhazinhas

A redenção da cinebiografia estadunidense?

Assisti ao “A Complete Unknown” (2024), cinebiografia de Bob Dylan, com atuação de Timothée Chalamet. Esse foi o primeiro filme a ter a apoio do cantor e o compositor estadunidense, que resiste a assistir a todo documentário ou cinebiografia a seu respeito.

“A Complete Unknown” cobre os primeiros anos da carreira de Bob Dylan, desde a sua chegada a uma Nova York sessentista a pleno vapor criativo, às margens do Maio de 68, passando pelas difíceis relações pessoais do jovem cantautor, tanto da sua vida profissional (artistas e gente grande da indústria fonográfica), como da sua vida romântica (com foco sobretudo na relação de Bob com Joan Baez).

Vale o destaque do esforço de Timothée de não utilizar nenhum recurso de melhoramento vocal como inteligência artificial ou playback, que o levou inclusive a ter aulas com coachs vocais.

Tenho a impressão de que a indústria cinematográfica estadunidense finalmente entendeu que cinebiografia é cinema, mas também biografia, o que se baseia em fatos, e não em sua romantização compulsória.

Após fiascos (em termos biográficos) como “Total Eclipse” (biografia de Arthur Rimbaud, com atuação de um jovem Leonardo Di Caprio), “Modigliani” (biografia do pintor moderno italiano Amadeo Modigliani) e “Searching for Fischer” (biografia do enxadrista mirim Joshua Waitzkin), parece que é o fim de toda uma era de filmes estadunidenses que tentam transformar qualquer atividade humana em aventura (desde escrever um poema e jogar xadrez até pintar um quadro), e de tentar superdramatizar vidas, que na maioria das vezes, eram ordinárias.

Arterotismo

Dois quadrinhos de Little Ego, duas mulheres correm de um homem árabe; a da direita está sem roupa, enquanto a da esquerda está com roupas de viajante.

Imagem: “Little Ego”, de Vittorio Giardino.

Sem falsa hipocrisia, quantas peças de pornografia você conhece que se preocupam com a concepção do belo? Quantas tem em si emparelhadas metáforas psicanalíticas?

Em “Little Ego”, quadrinho erótico do italiano Vittorio Giardino, tratam-se de surreais, curtos e pouco conexos sonhos sexuais de uma jovem mulher da qual pouco sabemos. Suas fantasias oníricas envolvem desde objetos do dia a dia, como guarda-chuvas e flores, dismorfia corporal, até animais e povos de outros continentes.

Há nesses breves sonhos o sexo simbolizado. O voo de um avião, pode ser lido como metáfora do orgasmo. Em certo episódio, transcende-se o mito de Narciso, quando a heroína, enquanto se olha no espelho, multiplica-se em 12 e faz sexo com várias de si mesma, em uma imensa auto-orgia.

Ao fim de cada episódio, a heroína onírico-erótica diz, quando acordada, que deve visitar o seu psicoterapeuta, aplicando uma pitada de humor às curtas narrativas. As cores de “Little Ego” são surpreendentes e o seu traço são de um amálgama entre cartazes pin-up e vitrais art nouveau, o que transforma cada quadrinho em uma peça visual suficiente por si só.

Uma onda de Bossa Nova na Europa?

E por falar em art nouveau, quero falar de Liana Flores, artista britânica, filha de mãe brasileira.

Tenho ouvido nos últimos dias “Flower of the Soul”, seu primeiro disco gravado em estúdio. Após o sucesso de “Rises the moon”, música viral no Tiktok, a cantautora pôs a mão na massa em seu disco de estreia, de 2024. Aqui podemos ver um belo mosaico de folk, bossa nova e jazz, bem envolucrados na linguagem musical das novas gerações.

Ao lado de Laufey, cantora finlandesa, Flores é talvez uma das mais representantes receptadoras das influências das primeiras raízes da bossa nova brasileira na música europeia contemporânea. De seu “Flower of the Soul”, recomendo as faixas “Orange-coloured day” (quase um “Take Six”, ao estilo de Dave Brubeck), “Nightvisions”, com um belo arranjo de acordes vocais e surpreendentes modulações tonais, e “Halfway Heart”, o melhor exemplar de bossa nova do disco, que faz lembrar vozes clássicas como a de Joyce Moreno e Gertrude Gilberto.

Uma leitura sobre uma leitura sobre uma leitura

Terminei na semana passada “Se una notte d'inverno un viaggiatore” de Italo Calvino, em texto original, em língua italiana. Nesta obra, o escritor italiano faz o que já seria previsto na história do romance moderno (desde “Ulysses”, de James Joyce), isto é, um romance sobre um romance. Ou melhor: um romance sobre romances. Ainda mais: um romance sobre o próprio ato de ler romances.

Em “Se una notte d'inverno un viaggiatore” lemos sobre o Leitor (isso mesmo, alguém identificado como Leitor). O grande diferencial deste livro ao meu ver é o de estar em uma perspectiva em “POV” (point of view, ou seja, ponto de vista). Ela é narrada não em primeira, não em terceira, mas em segunda pessoa. Ou seja, é um narrador externo, que nos descreve o que estamos “vendo”, quase como se estivéssemos em um role playing game (RPG); o que quer dizer que nós, leitores, é que de certa forma somos a personagem principal de “Se una notte d'inverno un viaggiatore”.

Durante o romance, o Leitor inicia a leitura de “Se una notte d'inverno un viaggiatore”, um livro que ele não chega a concluir, por estar mal impresso. Em busca da devolução do livro, ele acaba por entrar em um vórtice de leituras laterais interrompidas, sempre acompanhado de Ludmilla, a Leitora pela qual o Leitor se apaixona durante sua aventura literária.

Calvino leva a ideia de escrever um livro sobre livros a outro nível, apelando muitas vezes à incepção. Em certa altura, a narrativa passa a descrever um livro que não é lido pelo Leitor, mas que facilmente identificamos como o próprio “Se una notte d'inverno un viaggiatore”.

Há alguns pressupostos que não são atingidos nesse livro, no entanto. Uma delas é de haver pequenas histórias que tenham cada uma um estilo próprio, como Joyce mesmo faz em seu “Ulysses”. A não ser o fato de que as personagens tenham características e traços descritivos distintos, não se tem uma ideia muito forte de que os textos foram escritos por pessoas diferentes; o ritmo de leitura é muito parecido e o uso de palavras idem. A não ser quando surge a voz do narrador, não há uma grande diferença estilística.

Li esta obra em seu texto original, porque estou ainda tentando me familiarizar com a língua literária italiana. No entanto, não há nada que me faça estar convencido de que o texto em italiano oferece algo de diferente de uma tradução. A genialidade de Calvino está na experiência da leitura (pragmática), não na composição do texto (sintática), o que em geral nos leva a ler originais.

De certa forma, fiquei arrependido de ter lido em italiano, porque o bloqueio linguístico fez com que não houvesse tanta fluidez na leitura, exigida pelo texto calviniano.

“Flor do Lácio, sambódromo, Lusamérica, latim em pó”

Nesta semana, terminei a leitura de “Latim em pó: um passeio pela formação do nosso português”, escrito por Caetano Galindo e publicado no ano de 2023. Eu o começara a ler na semana anterior e devorei em sete dias completos.

Esse pequeno livro do linguista e tradutor natural de Curitiba procura falar, de maneira sucinta e com linguagem acessível, sobre o percurso da língua portuguesa até a atual variante brasileira. Além de conhecimentos de linguística, Galindo se vê obrigado a acionar também (muitas) informações de história e de antropologia.

Seu propósito é, sobretudo, desmistificar algumas crenças acerca da LP, entre as quais a de que ela é uma descendente direta do latim imperial, a de que sempre falamos português como língua primária no Brasil colônia e a de que os brasileiros “falamos português errado”. Ao contrário de seu parceiro sociolinguista Marcos Bagno, Galindo decide não tomar partido na discussão sobre a existência de uma língua “brasileira”.

Não sei se posso afirmar que Galindo cumpriu com o objetivo de escrever um livro introdutório sobre linguística “para leigos”, já que mesmo eu, um veterano de Letras, encontrei muitas informações e curiosidades em torno de minha língua materna as quais não sabia ainda.

Não gosto da ideia de dizer que esse é um livro “para leigos” porque este é um livro muito bem escrito, com uma boa noção de ritmo e de como as palavras podem ser pronunciadas em uma leitura vocal; falar que esse é um livro “para leigos”, pois, seria implicar que livros “para especialistas” são duros, mal escritos e chatos ― o que não se cumpre na prática.

Outro acerto de Galindo ao escrever para o público geral sobre uma língua foi começar seu texto falando sobre um falante em potencial dessa mesma língua. Isso é benéfico para a compreensão de um público amplo por dois motivos: a) porque faz lembrar que as línguas são sobretudo as pessoas que a falam; e b) torna mais carnal e sensível tudo aquilo sobre o qual se falará no livro.

A história da implementação da língua portuguesa em nosso território é um drama,

adverte o autor em sua introdução. Podemos todos o confirmar durante a leitura deste inteligente e sensível livrinho que deve constar desde já nas leituras obrigatórias, não só de calouros de Letras, mas também de todos aqueles que se interessarem pela linguagem e realidade brasileiras.

Citações

O mundo está cada vez mais perigoso, está morrendo gente que nunca morreu antes

@miguel@bertha.social

Para aqueles de nós que nunca herdarão dinheiro, terra ou imóveis, as pessoas que nos moldam são a nossa riqueza.

― Edna Bonhomme.

Confunda seus inimigos. Se nem você souber o que está fazendo, seus adversários com certeza não vão saber.

@Ze_Andarilho@capivarinha.club

É aquela lei da natureza, né? No dia que você fala que vai cortar o cabelo ele se comporta. Por isso estou dizendo todo dia que vou cortar o cabelo e não vou, que é pra ele ficar esperto.

@pancho@bolha.one

Se eleito transformarei os motéis em casas populares e as igrejas em escolas públicas.

@NoahLoren@ayom.media

“[Se] quer me fuder, me beija, porra!”

@marte@bolha.one citando a consciência popular.

Linkroll

Em 2022, no aniversário de 15 anos desde o lançamento do primeiro iPhone, The Guardian perguntou a fotógrafos profissionais como (e se) eles usam o smartphone para tirar fotos.

• The iPhone at 15: pro photographers on how it changed their world (The Guardian)

Quadrinho falando sobre a resiliência do protocolo RSS, minha forma favorita de ler na internet.

• RSS is not dead yet (audra mcnamee)

Pedidos

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#notas #cotidiano #cultura


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Imagem monocromática de uma rua vazia de cidade pequena.

Imagem de uma rua da Serra Grande, onde estas notas foram costuradas.

O quê? Mais uma coletânea de notas? Paciência. Estou traduzindo dois textos, escrevendo outro, e, enquanto eles não saem, textos improvisados são tudo o que posso oferecer. Eis aí notas que não consegui desenvolver o suficiente para uma publicação independente, publicações minhas de outros lugares, recomendações de links e tutti quanti. Afinal, este blogue é meu data lake.

Isso o algoritmo não mostra!

Há alguns anos, nos meios antigoverno havia o bordão de que “Isso a Globo não mostra!”. Tinha-se a ideia, não sem razão, de que a TV Globo, mais preocupada em alheiar o telespectador da realidade autóctone, tirava-lhe alguma consciência política, mostrava-lhe o cenário cor de rosa das novelas, do mundo das celebridades.

Quando a internet surgiu, era a expectativa de que o Muro de Berlim dos meios hegemônicos caísse. Toda a informação estaria agora disponível ― mas caoticamente. Como acessar esse mar de dados? Como partir do bit para o dado, do dado para a informação e da informação para o conhecimento?

Curadoria.

Aí residia a importância dos blogues, dos indexadores, de motores de busca e de outras plataformas.

Mas então, com o TikTok, há o sucesso dos algoritmos de curadoria de conteúdo, um tipo de inteligência artificial muito mais danosa para a cultura do que as conhecidas LLM. Se eu abrir neste momento a aba reels do Instagram, saberei exatamente o que verei ― aquilo que mais amo, aquilo com o qual mais me identifico, aquilo que mais me define como pessoa.

Com o algoritmo de curadoria de conteúdo, o outro, aquilo que desconheço e pelo qual sou desconhecido e aquilo que mais me estranha não me é apresentado. E assim a minha noção de alteridade fica estanque e circunscrita a um pequeno circuito.

A esta altura, devemos refletir: a quem servem os algoritmos de curadoria de conteúdo? A quem serve o ser humano cercado daquilo que ele mesmo deixou que um outro lhe apresentasse, um outro que não está aberto ao escrutínio externo, mas que, apesar de tudo, conhece-o como a palma de sua mão invisível e não humana? O que pode acrescentar, nutrir ou expandir uma ferramenta que me mostrará somente aquilo de que gosto e com o qual me identifico?

O que o algoritmo não mostra?

(O midiólogo Marshall McLuhan define o mito de Narciso como a metáfora do ser humano encantado, não por si mesmo, mas pela imagem como a extensão de seu próprio corpo).

Se antes, quando da popularização da internet, o bom uso de um motor de busca residia no uso inteligente das palavras-chaves, agora como fazer um bom uso do algoritmo de curadoria de conteúdo, sem que caiamos em um lupe de conteúdo adocicado, de fácil digestão e que não expande a nossa sensibilidade ou o nosso mapa cultural?

A resposta está, mais uma vez, no hacking.

É preciso trapacear com as tecnologias se quisermos tirar seu máximo de proveito. No caso dos algoritmos de curadoria, é preciso que se aplique ao máximo o conceito zen-budista de “destacamento”: urge que larguemos mão daquilo que mais amamos e mesmo daquilo que mais nos define como pessoa social ― nacionalidade, língua, gênero, gosto cultural. Como fazê-lo? Usando VPN, um alias mail, trocando a língua do dispositivo e evitando um comportamento automático diante do aplicativo ― esta, a trapaça mais difícil de todas.

Posso sair do espectro do conteúdo masculino-jovem-branco-nerd-intelectual sempre que eu puder quando criar uma persona que fuja desse perfil dentro de alguma plataforma.

Somado a isso tudo e também graças à minha tática de utilizar o TikTok de uma forma não viciante, o algoritmo levantou um perfilamento errôneo a partir dos escassos dados. Na minha aba principal (For You), aparece-me um conteúdo voltado ao público feminino, branco, empreendedor, de classe média, não falante de português brasileiro (inclusive falando do Brasil em outras línguas).

Só assim, com trapaça e letramento digitais, tem-se acesso àquilo que não está circunscrito ao nosso ambiente ordinário e à nossa identidade cultural, social etc.

A partir do momento em que o algoritmo de curadoria acertar e o aplicativo ficar cada vez mais e mais sedutor, basta que se resete a preferência de conteúdo e criar uma nova persona.

Por uma tecnologia wabi-sabi

Minha escrivaninha tem mais de dez anos. Quanto mais velha, mais charmosa fica, e mais prazerosa é a experiência de se escrever sobre ela. Feita no saguão do meu tio marceneiro, é de uma madeira barata e não tem verniz. Todo o seu tempo está marcado em sua superfície e não há modo ― nem razão ― de o esconder. Aqui, forma e conteúdo respondem um ao outro.

Minha mesa é wabi-sabi. Wabi-sabi é o conceito japonês que, inspirado pela natureza, define a beleza das coisas a partir de sua imperfeição. A natureza é bela, porque é irregural, inconstante e imprevisível.

Meu computador portátil, sobre essa mesma escrivaninha, também tem mais de dez anos. Mas algo falta aqui... Feito de plástico fino, está rachado em um canto, tem Durepox nas dobradiças. Uma ótima representação do navio de Teseu, suas peças já foram trocadas mais de uma vez sem perder, no entanto, sua essência.

Meu computador, ao contrário da mesa feita pelo meu tio, não foi feito para durar e não foi desenhado para durar mais do que dez anos, não foi feito como um objeto que aceita as intempéries do tempo.

A resposta para um design tecnológico wabi-sabi pode ser encontrado no livro “Em louvor das sombras”. Objetos que sejam claros, translúcidos ou que refletem em demasia, tendem a envelhecer mal ― edifícios com revestimento polido, roupas claras de tecidos finos, panelas de alumínio, mesas de madeira compensada lisa, computadores da Apple ―; objetos com porosidade, escuros ou que tendem a conter o reflexo, tendem a envelhecer bem ― edifícios brutalistas, roupas de tecido rústico, panelas de barro, mesas de madeira inteiriça e desvernizada, computadores da IBM.

Objetos wabi-sabi, táteis que são, criam uma boa conexão conosco, já que cada minuto que se passa com eles é apreciado.

Imagem monocromática de uma praça em uma cidade pequena.

Imagem da Serra Grande.

Sobre a lembrança e a escrita

Costumo escrever no meu diário com algum atraso. Por exemplo, se hoje é dia 3 de julho, só vou escrever sobre este dia amanhã ou depois de amanhã.

Porque não sei o peso dos fatos quando estou os vivendo. Já houve mais de uma vez em que busquei algum escrito de algum dia marcante e tudo o que consegui encontrar foram reclamações e comentários de autossubestimação, feitos no calor do momento.

Preciso de um tempo para escrever sobre algo que vivi até que isso se torne uma lembrança sólida. E não há garantias de que a impressão do que você acabou de viver é sólida; tampouco de que a lembrança do que você viveu mês passado é sólida.

Acho que um ou dois dias é o suficiente para apontar uma lembrança relevante e ao mesmo tempo confiável.

Inveja linguística

Há uma expressão em inglês que eu queria muito que tivesse uma equivalente em português ou que fosse aportuguesado.

Em inglês, se você pede ajuda para uma pessoa e ela, ou não se esforça, ou responde uma parada bem óbvia, você pode falar:

Thanks for nothing!

Dizer “Ainda bem que você me falou”, como é corrente no Brasil, é de uma ironia mais sutil… Não é tão escrachado quanto “thx 4 nothing”.

Pior que, se a gente traduzir literalmente, parece que estamos agradecendo e respondendo ao agradecimento ao mesmo tempo: “Obrigado por nada” (“Obrigado!”, “Por nada!”).

Ensaio de uma análise do discurso sobre o verbo “consumir”

Há alguns anos, se algum amigo seu quisesse saber o que você tem assistido, lido ou ouvido, perguntaria assim mesmo: o que você tem assistido, lido ou ouvido? Vocês dois talvez estivessem por encontrar-se em um bar ou restaurante para consumir uma cerveja, consumir uma bebida, consumir algum serviço. Ao fim do encontro, pagariam pelo que consumiram.

Hoje, na mesma situação, “consumir” seria o mesmo verbo utilizado para falar de música, de cerveja, de literatura ou de serviços de streaming.

O curioso é que no período em que não havia outra forma de ter acesso às formas de entretenimento que não pagando por elas, não se falava de “consumir” uma música ou um filme, mas de assistir, ouvir, usufruir ou simplesmente apreciar.

Creio que isso tenha pouco a ver com o fato das formas de entretenimento terem pulado do ramo do compartilhamento virtual livre para o do espaço dos streamings, mas que denuncie a influência da cultura de influenciador sobre as formas de entretenimento.

Isso pode pôr pouco a pouco a cultura e os bens de consumo em um mesmo patamar, como coisas perecíveis e passíveis de um mesmo processo cíclico de produção. Isso é um embrolho que sutilmente pode reduzir o valor do artista e dos trabalhadores da cultura.

Um navegador orientado ao teclado

Estou adorando conhecer o navegador qutebrowser, totalmente orientado ao teclado. Ele é baseado no editor de textos Vim, altamente configurável e torna a navegação muito mais confortável. O trade-off é que você leva um tempo procurando entender o mecanismo e também aprendendo atalhos, mas é algo que se aprende naturalmente.

Mas aprender é o ordinário na tecnologia...

Quando você passa a usar esse tipo de recurso, passa a priorizar bastante a ergonomia e passa a perceber o quão intuitivo é o mouse ― e o quão era difícil usar computadores antes desse periférico.

Por outro lado, ao se utilizar maismente o teclado, está-se mais preparado para uma privação hipotética de um dispositivo de interação mais visual. A importância dessa ideia está melhor desenvolvida no ensaio de Ploum que estou a traduzir, “O computador feito para durar 50 anos”.

Descoberta de um potencial

Em julho de 2025 completou um ano desde que comecei a estudar francês ― sozinho, sem aulas formais. Agora já sou capaz de compreender textos complexos e vídeos de nível C2. Claro, com legendas e sobre determinados assuntos.

De qualquer modo, acho que encontrei um talento...

Citações

Um homem offline é mais elegante.

― Anônimo.

Viver é diferente de estar vivo.

― povo da Serra Grande.

Algumas perguntas que tenho e que não tive o tempo de pesquisar a respeito:

  1. Por que é mais fácil pensar em cores pastéis do que em cores vibrantes?

  2. Por que a cor do sol nascente é mais branco enquanto a cor do sol poente é mais amarelo?

  3. Existe algum mamífero de cor verde?

Linkroll

cute cars, um blogue hospedado na neocities.org sobre carros. Carros fofinhos. Parece um espaço vindo direto dos primórdios da internet só que falando de modelos automotivos modernos. Mesmo que os carros atuais sejam todos muito iguaizinhos e sem graça, ainda há aqueles que atiçam nosso lado “ite, Malia”.

P.S.: fiquei triste pelo meu modelo favorito da atualidade, o Chery QQ3, não estar no cute cars ainda!

Yana Yuhai, em sua newsletter “Contemplation Station”, traz reflexões sobre por que o tempo passava mais devagar durante a infância e dá algumas orientações sobre como podemos trazer essa lentidão de volta.

• why time felt slower when we were kids (and how to get it back)

A página pagemelt, conhecida por seus longos vídeos-ensaios, publicou recentemente um vídeo sobre curadoria na internet. Isso me chamou a atenção, porque raramente alguém tece críticas ao algoritmo, uma inteligência artificial que limita a nossa própria capacidade de explorar a internet e nos põe em um estado de passividade diante de todas as informações.

• be your own algorithm

Andy Clark, importante filósofo e neurocientista que investiga as relações entre o cérebro e as tecnologias, escreve na revista Nature sobre como ele interpreta a inteligência artificial enquanto extensão da mente.

• Extending Minds with Generative AI

Do Clark, li o seu antológico “Natural born cyborgs: Minds, Technologies, and the Future of Human Intelligence” (2003), e gostei muito da escrita e das suas ideias.

Indo além de Marshall McLuhan, Clark acredita que as tecnologias são extensões do cérebro e que devem ser inclusive serem tratadas como tais ― o que significa que se você danificar um dispositivo de alguém, está danificando parte de sua cognição.

Pedidos

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