Ideias de Chirico

cotidiano

Ao fim de uma quinta-feira, eu sentia um prazer particular dos ciclistas: pedalar por entre corredores de carro. Que bom nessas horas ter uma bicicleta!

Além do fato de ser horário de pico, o “encarrafamento” dava-se por conta de uma manifestação pró-democracia ― para onde eu ia. O ponto de encontro era em uma esquina de um bairro nobre de Fortaleza ― visto que um ato anteriormente agendado próximo dali foi sabotado.

Fui lá pedalando com gosto de gás. Estava acostumado a ir de bici em atos políticos. Nas últimas duas vezes, fui ao ponto combinado e segui caminhando com as pessoas. Sem problema.

Só que desta vez, cheguei mais cedo do que de hábito. Não havia ninguém no ponto onde estava e ali fiquei. Afinal, a minha expectativa era de que as pessoas iriam se movimentar em direção à orla da praia, cartão postal da cidade, próximo dali. Como a pessoa com quem combinei não estava nem perto de chegar, fiquei na minha, observando o movimento perto de um paredão de som.

Quando o som estava simplesmente insuportável, decidi sair de onde estava. Lógico que não tinha como retornar por onde eu viera, porque a aglomeração estava cada vez maior. Daí o jeito foi... seguir, e seguir para onde havia mais aglomeração!

Por ser um verdadeiro carnaval, havia desde gente com glíter e maquiagem, bandeira de bloco carnavalesco e até biquíni! A minha bicicleta ali parecia mais uma “fantasia”:

― O movimento foi tão forte que até as bicicletas vieram! ― disse alguém.

Sem opção, tive de encostar em um desses carrinhos de venda de bebidas. Não havia jeito, era de um lado gente reclamando (às vezes só com olhares) que eu pegava muito espaço, do outro o próprio dono de um carrinho reclamando que eu estava atrapalhando as vendas.

― Meu senhor, tenha calma que já eu saio daqui! ― eu dizia.

Um trio de mulheres “estacionadas” atrás desse carrinho perguntou se eu não gostaria que elas ficassem com a bicicleta por perto, já que elas estavam com mais folga. Isso salvou a noite. Pude ficar um pouco conversando com elas enquanto o movimento esvaziava.

Encontrei um colega perdido que estava tentando abrir um litro de cachaça. Tentei, nada. Aí o dono do carrinho, bruto que só o cão, conseguiu; um homem detrás da gente comentou:

― Esse aí abre até o sigilo do Flávio!

E aquele meu amigo com que eu iria me encontrar? Bem, com a multidão, o sinal da minha operadora estava sobrecarregada, às vezes sumindo, e eu não tinha acesso aos dados móveis. Fiquei em torno de duas horas incomunicável, sem poder sair do lugar. Desesperado, eu olhava para todo lado o procurando.

Quando o espaço entre as pessoas foi aos poucos aumentando, aproveitei para sair da aglomeração e ir a um lugar mais vago, onde talvez não houvesse congestionamento de serviço de dados móveis. Mesmo com sinal, só pude enviar SMS!

Com isso, soube que meu amigo estava a dois quarteirões dali, que na prática seria uma distância muito maior por conta da multidão. Como estava muito dispersa, imaginei que ela não iria se movimentar mais. Além disso, eu tinha fome e sede. Não dava mais para seguir. Decidi comer em um Bebelu aí perto e ir embora.

Fica a lição: não vá de bicicleta a uma aglomeração, mas se tiver de ir, não conte com internet móvel para contatar e pagar. Ou melhor: não vá a aglomeração de jeito nenhum! A não ser que seja para defender a democracia.

E olha como tudo é relativo: se estar de bicicleta antes da manifestação era sinônimo de liberdade, estar com ela durante a manifestação significava prisão.

Faço minhas as palavras de um motoqueiro que no meio da multidão, segurando dois capacetes, disse:

― Pô, saí correndo do meu trabalho, deixei minha moto lonjão, se esse Lula não virar, vou ficar muito p#&%!


Sou Arlon de Serra Grande, professor, ensaísta, poeta, entusiasta de Linux e autor do livro autopublicado “Estudando Poesia” em que reflito sobre como se dá o aprendizado da linguagem poética. Se quiser adquirir um exemplar, fazer uma contribuição para este blogueiro, fazer recomendações, sugerir correções de texto ou comentar este post, clique no link abaixo.


#cotidiano


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― Próximo!

Diz a atendente entre sonolenta e entediada. O cliente anterior ainda está às tantas com as sacolas.

Nesse meio tempo, lá vai o “próximo” passar as mercadorias para o balcão de metal liso. Bip, bip, bip. Com a prática, a balconista passa todos os pacotes num minuto. E o dito-cujo lá com o focinho na tela abrindo o aplicativo do banco.

― Só um minuto, que o 4G está lento.

Opa, abriu o aplicativo. A funcionária lança o código QR da compra. E o camarada que parece que não saber estabilizar a câmera do telefone...

Leu? Beleza. E dá-lhe rede móvel.

E a fila se avolumando.

― Graças a Deus!

Foi-se embora o carinha do telefone. Aí vem outra bendita com um telefone enorme e lerdo. Dessa vez sem internet.

― Qual é a senha do wi-fi daqui mesmo, hein?

No ar aquele clima de banco ou de lotérica, cheia de gente resmungando. A culpa já não é mais nem dos atendentes.

Na minha vez, dou “bom dia”, passo as mercadorias.

― Deu R$ 12.75, moço.

Cato duas cédulas, umas moedas. Babau.

― Próximo...


Lembro de quando o Pix começou a entrar na vida do brasileiro. Eu que sou um tecnófilo, sou bastante refratário a qualquer invenção bombástica. Parece uma contradição, mas não é. Toda invenção requer não só um período de educação do usuário, mas também um tempo para pôr à prova a sua utilidade.

Rapidamente, o recurso chegou aos rincões mais recônditos deste nosso país tão desindustrializado. “Até bar de estrada agora aceita Pix”, dizia-se com admiração.

De qualquer forma, com o tempo, antes mesmo de eu utilizar o cartão de débito, comecei a usar o Pix no dia a dia. Pagar boletos era mais prático. Não precisava mais carregar o troco enorme de moedas. O registro das transações ficava registrado no histórico do aplicativo e as chaves Pix podiam ser favoritadas.

Daqui a pouco é um não mais terminar de filas em mercados, feiras, padarias, bodegas. E casos de gente que fez transações por engano, para destinatários desconhecidos ou com valores incorretos. E estabelecimentos que não se dão o trabalho de voltar troco ou até mesmo que só aceitam pagamento em Pix.

Aí o desencanto bateu.


Parte do sucesso do Pix está na acessibilidade do smartphone. Porém, com a concentração de funções no telefone moderno, há um risco cada vez maior de se ficar na mão.

Imagina que você esteja em um aeroporto e precise: 1. passar o passaporte e mostrar sua documentação; 2. fotografar; 3. escutar música; 4. enviar mensagens; 5. pagar por uma refeição; 6. ler. Se seu dispositivo tiver somente 17% de bateria, deverá escolher uma dessas funções. A prioridade, lógico, estará no dinheiro e nos documentos. O resto se ajeita.

Já ouvi o caso de uma pessoa que não portava carteira ao sair de casa ― resolvia tudo por aproximação de cartão virtual e Pix. Certa vez o seu aparelho descarregou bem na fila do cinema, e aí teve de pedir dinheiro emprestado para uma amiga que a acompanhava. A situação seria ainda pior se estivesse sozinha.

O melhor, decidi, é tornar o dinheiro um objeto analógico.

Desde o começo do ano, adotei outra vez as cédulas. A ideia era manter um dinheiro “livre”, sem uma destinação específica, para usar em estabelecimentos informais ― nunca gostei de passar meu cartão em qualquer maquininha.

As cédulas também são uma mão na roda caso falte eletricidade, bateria, internet ou a minha paciência no ponto comercial. As tão evitadas moedas agora são bastante desejadas e cuidadosamente guardadas em um porta-níqueis que carrego junto da carteira.

Ao menos duas vezes ao mês, aproveitando algum passeio pela rua, saco dinheiro da máquina do banco.

Nem tudo são flores, lógico.

Como se utiliza menos dinheiro nas transações em cidades grandes, a tendência é dos bancos emitirem notas maiores. O que interessa em ter dinheiro é a praticidade, então é bem melhor ter o dinheiro trocado.

Com muita pesquisa, percebi que alguns estabelecimentos tendem a aceitar voltar troco sem muito muxoxo: supermercados, bancas de jornal e grandes redes de farmácia. Logo que saco a grana, vou logo em um desses lugares.

Restaurantes, bares e lanchonetes tendem a não trocar dinheiro ou mesmo a recusar pagamento em espécie. Caso neguem troco, tenho do meu lado o Código de Defesa do Consumidor, que proíbe no artigo 39, inciso IX:

recusar a venda de bens ou a prestação de serviços mediante pronto pagamento.

Não obstante, a lei estadual do Ceará nº 16685 obriga estabelecimentos comerciais a garantir troco em moeda. Imagino que cada estado brasileiro deva ter alguma legislação desse tipo também.


Na última viagem que fiz à terra natal, me chamou atenção a frequência com que a cédula aparecia nas transações nas cidades de interior. Em feiras populares onde se vendem frutas, verduras e grãos, simplesmente não se usam Pix ou cartão ― só dinheiro. Até pensei em perguntar para alguns dos feirantes a razão para isso, mas, de tão intuitiva, ela há de ser simples: a moeda é prática e fiável.

Além de tudo, como não atravessa um intermediário digital, ela ainda preserva os dados pessoais. Não por acaso, tomo a cédula de dinheiro como um ícone offpunk.

A moeda é a prova de que nem sempre a opção digital é a mais conveniente.

O pagamento por Pix em uma tenda dessas, de duas uma: ou faria mais filas ou, com o ruído, poderia se comunicar o valor errado ou a chave incorreta. Além disso, que ideia de Chirico sacar o telefone em plena rua movimentada!

Por outro lado, na cidade grande... filas e mais filas, roubos de aparelhos etc., etc.

Sim, a invenção é maravilhosa. Sim, bancarizou uma centena de milhões de trabalhadores informais. Não, não agilizou os serviços como prometia. No dia a dia, o dinheiro e, em algum grau, o cartão de crédito ainda ficam na vanguarda.

#cotidiano #tecnologia #offpunk



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Cartum em que há um homem sem roupa em frente a uma plateia, que diz 'Cheguei em São Paulo em 1997, só com a roupa do corpo'

Imagem: André Dahmer.

Depois de um período um pouco autocentrado, publicando somente coisas minhas, volto a compartilhar alguns links, dicas e citações que coletei nos últimos ~2 meses. Alguns artigos são de assuntos, digamos, em baixa, mas que não deixam de ter alguma relevância. Outros até que são recentes, mas que passaram batidos por mim, e que pensei que, de qualquer forma, fosse interessante de mostrar ― vai que algum leitor destas Ideias é distraído que nem eu?

Linkroll

A maior parte da população leitora no Brasil é constituído por mulheres não brancas, é o que mostra a pesquisa Panorama do Consumo de Livros.

• Quem consome livros no Brasil? Os dados são surpreendentes (Farofafá).

Diego Lafuente reconstitui o fluxo da informação digital desde a era do BBS e pensa neste belíssimo ensaio como a Web e os hábitos podem se modificar a partir da IA:

I still write because writing helps me think. That may become the main reason to write. Not traffic. Not SEO. Not audience growth. Not discovery through search.

• The web is going to dissapear (minid.net)

Já reparou que os telefones modernos são pouco explorados ou até ignorados nos filmes dos últimos anos? Neste primoroso vídeo-ensaio, Eddache reflete sobre as razões pelas quais os diretores tomam essa decisão.

• Why Are Movies Afraid Of Phones? (Eddache ― Youtube).

Ensaio de Paula Lúcio sobre como a estética do agreste nordestino se formou e como se comunica.

• A gramática visual do sertão (Paula Lúcio ― Substack).

New York Times ranqueia os 48 hinos de nações da Copa (e dá primeiro lugar ao hino brasileiro!)

• Ranking all 48 World Cup national anthems (New York Times).

A arte da tradução, por mais enigmática que seja o sentido dessa expressão, tem, assim, um papel político importante, mas parece que hoje ninguém precisa dela, e não se trata de cinismo, (...) mas, antes, de absoluta impossibilidade de prestar atenção na arte em geral, qualquer que seja ela.

• Trocar tradutores por IA é retrocesso gigantesco para literatura (Dirce Waltrick do Amarante ― Folha de São Paulo).

Artigo bem humorado da Business Insider refletindo sobre as vantagens ~secretas de se ter um Kindle: desde ler “escondido” livros embaraçosos até não evidenciar posições políticas a partir de capas de impressos.

• Read Embarassing Kindle Books in Public (Business Insider).

Dica cultural

Loja de discos. Um homem cabeludo e de camiseta de banda de rock observa com aflição para uma mulher com roupas formais que analisa um disco que pretende comprar.

Cena de “Durval Discos” (2002), com participação especial de Rita Lee.

Ontem assisti outra vez ao “Durval Discos” (2002), um desses filmes brasileiros que, por alguma razão, não é tão conhecido, apesar de ser family-friendly e do gênero comédia. Com estreia da diretora Anna Muylaert, é um primor no quesito de técnica de fotografia, trilha sonora (parte de André Abujamra) e escrita de roteiro.

O longa-metragem nos mostra o cotidiano de Durval, um hippie quarentão que mantém uma loja de discos na frente de sua casa em um pacato bairro de Pinheiros, São Paulo, durante o fim dos anos 90. A indústria fonográfica de então investia mais e mais na produção de discos compactos (CD) em oposição aos discos de vinil (LP), a especialidade da loja Durval Discos.

Além do pouco movimento de vendas em seu comércio e da constante cobrança de clientes por CDs, Durval ainda tem que lidar com a gerência da casa. Solteiro, morando com sua mãe já envelhecida, o protagonista decide contratar uma trabalhadora doméstica ― uma jornada que o irrompe de sua rotina. A partir daí, os problemas em sua casa (e até na vida do bairro) escalam pouco a pouco. O clímax de “Durval Discos” foi um daqueles que mais me impactaram nos últimos 10 anos.

Disponível no Youtube.

• Durval Discos – Trailer (Youtube).

Citações

Cartum mostrando um homem sobre um palco de karaokê, atrás dele há o título 'song: 4'33'', artist: John Cage', uma composição na qual os instrumentistas não tocam absolutamente nada. Em primeiro plano há um homem que diz 'Esse cara de novo, não...'

Imagem: asher (via The New Yorker)

Todo mundo quer profetizar o futuro pós LLM baseado em livro de ficção científica, eu prefiro olhar para um campo do conhecimento humano que convive com tais máquinas pelo menos desde a década de 1990: o xadrez. O fato de existirem máquinas que jogam melhor que os humanos não acabou com o esporte e não extinguiu a profissão de enxadrista.

― @felipesiles@ayom.media

Meu fácil me enfada. Meu difícil me guia. [...] O que eu sei fazer me entedia; o que não sei fazer me entristece.

― Paul Valéry.

The only way to keep your health is to eat what you don't want, drink what you don't like, and do what you'd rather not.

― Mark Twain.

#notas #tecnologia #cotidiano



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Fragmentos do meu diário. Entrada do dia sete de abril de 2026, terça-feira:

Estranho dizer que sinto prazer em acordar cedo. Talvez o que eu goste mesmo é de manter firme uma rotina e ver que consigo fazer com que as coisas fluam. Às vezes lembro de “Dias Perfeitos” e da rotina impecável e tranquila de Hirayama. Uma rotina tão simplesmente cíclica que lembra até a de um animal selvagem.

Além de tudo, Fortaleza fica muito bonita e agradável à hora da aurora, em torno de 5h30. Não há o sol escaldante habitual, mas ainda assim há uma débil luz; a rua é deserta; e, por alguma razão, sinto-me muito mais presente do que em qualquer hora do dia.

Mais do que em qualquer outra hora, vemos a cidade tal como é: um teatro vazio, que depende de nós para funcionar...

Dia 19 de maio de 2026:

[...]

Ao menos as terças-feiras me animam; é quando acordo mais cedo; ao tomar o ônibus, vejo o nascer do sol às 5h50; quando chego em Messejana, tenho um tempo livre até que o próximo [ônibus] apareça. Daí fico um tempo no piér da Lagoa da Messejana.

Quando estive nesta paisagem ouvindo a Rádio Universitária, tive um ímpeto de otimismo, e pensei que talvez afinal eu precise mesmo passar por tudo isso por que passo. Espero que algum dia eu colha um fruto dessas sementes que planto não sei como.

#cotidiano



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Multidão de pessoas com beca em uma cerimônia de formatura dentro de um ginásio iluminado com holofotes. ao fundo é possível ver capelos voando e alguns confetes.

Imagem: Rafaelle “Hélia” Bernardo. O autor tendo o seu momento?

O fim da carreira na graduação nas peças de entretenimento é sempre anunciado com a fatídica cena dos capelos voando no ar ao som de “Marchas de Pompa e Circunstância”, de Edward Elgar. No nosso imaginário, depois que os capelos e livros e papéis e lágrimas caem, esse é o nosso grand finale, nosso “¡Adios, amigos!”. It's all, folks! C'est fini! Os créditos do filme de nossa vida faltam pouco subir na retina da mente. Quem dera se, ao menos uma vez, a vida fosse um filme da Sessão da Tarde...

Mas em outra tarde qualquer, com uma pastinha na mão, eu cruzava o campus da Universidade Estadual do Ceará outra vez. Eu estava um pouco descrente de que eu conseguiria meu diploma universitário, prometido há alguns meses logo após a formatura. Afinal, no Brasil, tudo que se relaciona à papelada requer duas ou três visitas. Além disso, estava preparado para dar de cara com a porta, pois já davam 16h no meu relógio quando passei pelo portão principal.

Chegando lá, a partir de um beco estreito pixado com poças d'água de ar-condicionado, surpresa: o departamento estava aberto! A porta de vidro cintilava ao sol da tarde finda. Abro-a gentilmente...

Um balcão envidraçado com capacidade para três funcionários era ocupado somente por um. Usava óculos e tinha barba e cabelo ralos.

― Boa tarde. Vim retirar o meu diploma universitário.

― Boa. Qual o curso e a data de formatura, por favor?

― Letras, final de janeiro deste ano.

― Documento com foto?

― Aqui.

Depois de catar o documento em uma caixa, aquele homem até então tão humilde tomou um tom professoral, como se falasse com um pupilo:

― Primeiramente parabéns pela conquista. Este é um momento de muita importância para a Universidade.

Então, entre cerimonioso e sarcástico:

―...e como retribuição, você ganha um brinde.

Debaixo da bancada, retirou um envelope um pouco maior do que uma folha A4, cujo amarelo, debaixo da luz fluorescente, mais do que qualquer outra coisa naquela sala sem enfeites ou avisos, brilhava.

A seguir, sacou daquela mesma região um papel fosco com o meu nome impresso.

― É o original?

― Cópia. Assine aqui.

Assinei. Delicada e cerimoniosamente, retirou debaixo um largo papel igualzinho ao anterior, mas no qual o escudo da Universidade brilhava. Apresentou-me então uma caneta que tinha uma pena bastante distinta, cuja extremidade segurava com as pontas do indicador e do polegar.

― Esta caneta tem uma tinta de rápida absorção. Agora assine cuidadosamente aqui...

Não sei se por toda a liturgia, acabei garatujando o meu próprio nome no documento. Por fim, falou-me a quais documentos eu teria direito de ter segunda via, deu algumas orientações sobre a conservação do papel do diploma e contou causos sobre gente que perdeu o documento.

Com um sorriso tímido no rosto, quase orgulhoso, como se fosse o próprio reitor, declarou enfim:

― Pronto, meu rapaz, agora você está oficialmente diplomado. Boa sorte na vida.

Sua voz ecoou na sala fria e sóbria. De repente um rumor de ar-condicionado, até então imperceptível, fez-se mais forte. Aquele era o fim definitivo.

Na memória ainda os flashes, os confetes e os capelos pairando no ar.

Mentiram para mim.

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Amigos meus, crianças saídas dos anos 2000, suspiram de saudade pelo sinal trema.

Não lhes tiro a razão.

Em uma língua opaca como a portuguesa, na qual a relação entre fala e escrita não é assim transparente, qualquer indicador de pronúncia adequada à norma padrão é bem vindo.

Falo por mim: a falta desse sinal é tanta, que quando quero saber se “u” é pronunciado em ocorrências de “qu” e “gu”, recorro a um velho e grosso dicionário que guardo em casa, onde o trema é ainda marcado.

Mas há outra coisa da qual sinto ainda mais falta do que deste sinal: de quando “k”, “y” e “w” não integravam o alfabeto de língua portuguesa.

Quantos pesadelos esse trio já me causou...

Por mais que, antes do “desacordo ortográfico”, o brasileiro médio já o utilizasse quase que clandestinamente através de nomes próprios (sobretudo de gente trabalhadora) e lojas populares, a presença dessas consoantes demarcava uma linha linguística clara.

Antes do desacordo, quando elas apareciam em um texto lusófono qualquer, era como se nos estivesse dito: “Estamos em terreno estrangeiro”. Logo, ao leitor era sinalizado de que a pronúncia da palavra não era igual às anteriores.

Sim, podemos delimitar este mesmo terreno hoje em dia com o itálico, em caso de texto digitado, ou com aspas, em caso de texto manuscrito; no entanto, antes da aceitação desse trio alienígena, a própria língua delineava suas fronteiras.

Outro dia, estive preocupado com o significado de “typo” (pronunciado “taipo”). Havia, então, esse irascível ípsilon. Escrevo seu nome por extenso para que se veja o quão nauseabundo é. Ípsilon. Imagine a dificuldade que é para uma criança pronunciá-la. Imagine até mesmo suas variantes! ― Luiz Gonzaga, soletrando o alfabeto em famosa canção, canta a letra como “ipsilone”.

Então, folheando um dicionário de inglês-português, dei-me conta desta falta: eu simplesmente não sabia onde ficava o ípsilon no alfabeto anglófono! (E temo que nem algum outro dia o saberei...) Afinal, minha alfabetização foi anterior à inclusão das três consoantes estrangeiras!

Tentando sanar minha dúvida, passei pelas palavras iniciadas por “ti” (afinal de contas, em alguns países, chamam ípsilon de “i grega” ― logo, a consoante só poderia estar próxima à vogal “i”). Debalde. Para a minha surpresa, ípsilon está mais perto é de “z”!

Já teci até alguns truques para memorizar seus lugares: sei que “k” está algo assim próximo do “j” (tento até lembrar do presidente Juscelino Kubitschek); e que o “w”, cujo nome em português é derivado de “double u” (“duplo u”), deve ficar então perto desta vogal. Mas na hora agá, me escapam esses mnemônicos...

Sou de partido de que a inclusão dessas três letrinhas somente complicou ainda mais a alfabetização no Brasil. Suas posições alfabéticas são mais outros três dados que estudantes escolares ― já muito ocupados em aprender a tabuada de sete, tipos de substantivos e o passinho do Jamal ― vão ter de se preocupar em aprender...

A noção do que é adequado fica cada vez mais confusa quanto mais normas criamos. Isto vale para a sociedade, para a arte e também para a língua.

Além disso tudo, sempre gostei de palavras aportuguesadas.

“Leiaute”, “copidesque” e “uísque” são marcas de um esforço de aclimatar termos técnicos e/ou estrangeiros ao ambiente lusófono ― evitando, assim, a inclusão do trio na língua portuguesa. Achá-las cafonas ou toscas só indicia o viralatismo de um pensamento tecno-elitista, que só consegue comunicar um saber-fazer em inglês ― “prompt”, “brainstorm”, “fork” etc., etc.

Parece conservadorismo da minha parte, mas não, não sou contra estrangeirismos; sou contra o estrangeiro transplantado sem a nossa consciência e consentimento. Entretanto, quando transformamos palavras estrangeiras em língua materna, as domesticamos; quando, porém, estrangeiramos palavras maternas, somos domesticados.

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Ou: “a escuta podcastal: um dossiê”

Este não é um tutorial de como ouvir podcasts. Isso vocês já sabem: baixa-se um agregador qualquer (eu utilizo o AntennaPod) e segue-se algum programa a partir de uma pesquisa; quando este publicar um novo episódio, se receberá uma notificação e se o reproduzirá ou não.

O que quero falar nesta crônica é sobre uma “pragmática podcastal”, os modos com os quais ouço os queridos programas de áudio.

Ao contrário do texto, o áudio não tem uma recepção previsível. Isto é, ao escrever um texto, sei como o leitor o fruirá ― através da tela de um dispositivo eletrônico móvel (telefone, computador, leitor digital ― Kindle, Kobo, etc.), talvez a partir de um impresso (caso tenha uma impressora, por exemplo); este leitor estará estático ― seja sentado, deitado ou, raras vezes, de pé; talvez com a atenção plena, talvez com breves lapsos de desatenção causada por um pensamento que o texto provocou, por algum barulho que o gato fez, por uma notificação que de algum dispositivo soou...

O mesmo não acontece com o áudio.

Por conta do áudio, permite-se estar em segundo plano, flexibiliza a recepção da informação; acho, pois, que é necessário algo como um “design sonoro” ou “design sonoplástico”, considerando as possibilidades de escuta do programa. A fim de auxiliar estudos nessa área vindoura, aqui vão os modos como escuto podcasts:

1) sentado em ônibus, com fones de ouvidos ― a “base”, uma “posição neutra”, um “grau zero da escuta”, na qual em geral se começa a ouvir os programas e na qual se pode ouvir quaisquer programas de áudio; nesta posição pode se ouvir de tudo, desde noticiário até storytelling; pessoalmente, onde tudo começou, o ponto no qual percebi que o podcast se tornaria uma necessidade básica como água e eletricidade; a propósito, quando eu escutava o infernal “Medo e Delírio em Brasília”, era somente sentado em um banco de ônibus com fones de ouvidos que eu conseguia compreender alguma coisa; o banco de ônibus é tipo de “sinagoga dos podcasts”;

2) lavando louça, com amplificação via Bluetooth; uma posição robusta, que comporta muitas possibilidades; prevista, porém aparentemente pouco considerada, já que algumas vozes e vírgulas sonoras não podem ser ouvidas plenamente por conta da água corrente e do tilintar das panelas ― vozes tenores, como a de Matias Pinto do Xadrez Verbal, ficam em desvantagem nesta posição auditiva; há variações como 2.1) lavando louça, com fones de ouvidos; e 2.2) lavando louça, a partir do alto-falante do telefone ― que requeririam uma atenção especial de sonoplastia;

3) cozinhando, com amplificação via Bluetooth; aqui é que o bicho pega, aqui que a arte do design sonoro deveria entrar em cena; apesar de haver uma certa estabilidade do ouvinte ― afinal, seu único movimento é de em média dois metros, entre a geladeira e o fogão ―, os utensílios domésticos tilintam em demasia; nessa atividade há uma estranha dinâmica de “pianos” e “fortes”, com momentos de calmaria, como quando a água está fervendo na panela, intercalados com momentos de cacofonia e ruídos intermitentes, como quando o óleo quente recebe a tal “mistura”; nenhuma voz, vírgula, música ou qualquer outro som grosso suporta a um tonitruante ssssSSSSSHHHHHHHHHHhhhhh;

4) escovando os dentes, a partir dos alto-falantes do telefone; à frente da posição “escutando no ônibus com fones de ouvido”, esta é aquela na qual sinto mais plenitude mental ― ou “mentitude” (para não utilizar o irascível mindfulness) ―, nesta atividade acústica ou em qualquer outra de quaisquer outros tipos; ao contrário de seu predecessor “escutando no ônibus com fones de ouvidos”, quando se escuta um episódio de podcast no banheiro durante a escovação, nada de mau pode acontecer; o movimento de escovação dentária é algo como um estímulo à atenção auditiva, é uma espécie de mantra tátil-acústico; um metassigno ― limpa-se os dentes ao tempo em que se limpa a mente (um “paramorfismo”, em termos de Semiótica); ao meu ver, todo programa de áudio deveria ser desenhado para que fosse otimizado nesta ocasião; parafraseando Junichiro Tanizaki, foi nos momentos de escuta simultânea à escovação dentária que os poetas fizeram seus melhores poemas...; ouvir programas como Manual do Usuário, com a suave voz de Rodrigo Ghedin, ao tempo que se escovam os dentes, é análogo à prática da meditação; variações como “escovando os dentes com fones de ouvidos” não surtem o mesmo efeito de mentitude, uma vez que o som da escova compete com o do áudio ― o crânio, como boa caixa acústica que é, amplifica o ruído de suas cerdas ―; dessa forma, dessacraliza-se este que é um modelo de receptividade acústica, uma “posição de lótus” do ouvinte; como nada é perfeito, por conta do curto período da higiene bucal, não é possível usufruir de muitos episódios nesta posição ― mas, estendendo a escovação, quão brancos meus dentes ficaram desde que comecei a ouvir podcasts depois de terminar o almoço...;

5) caminhando, com fones de ouvidos; postura extremamente superestimada, uma vez que o “podespectador” tem de lidar com toda sorte de intempéries e ruídos externos; por exemplo, na posição pré-sentado-no-ônibus-com-fones-de-ouvidos, isto é, quando se está prestes a pegar a condução, o ouvinte é incapaz de se ater a quaisquer palavras ditas que sejam; tudo se trata de não perder o transporte, passar na catraca e sentar o mais rápido possível, com a chance de permanecer de pé a viagem inteira;

6) deitado na cama, via alto-falantes do telefone; outro modelo bem estabelecido; algumas aplicações de podcasts (como o supracitado AntennaPod) otimizam-no com recurso temporizador agendado, a partir do qual, em determinada hora, o episódio é pausado após um determinado tempo ― ideal para quem escuta antes de dormir; inclusive, alguns podcasts, como o famigerado “Ser Sonoro”, foram desenhados especificamente para serem escutados única e exclusivamente na cama, antes de dormir.

Quem dera se todo programa de áudio aplicasse um UX listen design dessa forma!

#cotidiano



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Não há exercício melhor de autoconhecimento do que lembrar, não das primeiras vezes ― essas nos aparecem dia após dia (basta ter a sensibilidade necessária para percebê-las) ―, mas sim das primeiras primeiras vezes, aquelas da infância e da adolescência, de quando o mundo era gigante como o pai da gente.

Até para que eu próprio me conheça enquanto conto uma delas, deixo que o leitor a entreveja...

Eram idos dos anos oitenta, na gloriosa Serra Grande, onde cresci, casei e criei meus três filhos ― que talvez não saibam (por enquanto) dessa história. Estavam ainda em alta as discotecas. Minha cidade, por menor que fosse, dispunha de boas e grandes praças, boates e (vejam só como as coisas mudam!) cinemas. Assim, os namorados estavam bem servidos de programas e, ainda que esses por acaso faltassem, ainda sobravam as serestas e os namoros na varanda ― esses doces e clandestinos ensaios sexuais.

No entanto, para um menino de 15 anos, tudo isso ainda não passava de histórias de amigos e parentes mais velhos. Eu ainda sairia com um “pão” pela primeira vez naquela noitinha de quinta-feira.

Era hora.

Ao entardecer, enquanto tocava a habitual “Ave Maria” no radinho de meu pai distraído no quintal, lá estava eu penteando meus cabelos molhados, com a ajuda do espelhinho de aro laranja. Vestindo a roupa nova em folha saída da costureira ainda àquela tarde, fui sorrateiramente ao quarto dele para tomar emprestadas duas borrifadas de seu melhor perfume.

Fechando cuidadosamente o portão de casa, fui à praça central me sentindo o próprio Tony Ramos.

Já era média noite quando eu a vi, aquela que seria uma das minhas primeiras primeiras vezes... Do seu nome, já não lembro mais, mas poderíamos chamá-la de Mirian.

Amigos meus, mais experimentados, sugeriram que eu a levasse para o cinema, o que Mirian declinou:

― A próxima sessão é muito tarde, e a sala mais próxima está assim de mofo!

Certo. As recentes chuvas justificavam o mofo, mas agora eu teria um escurinho a menos onde a beijar e, quem sabe...

Sobravam a praça e a boate. A primeira, com privacidade zero, nem pensar, a não ser que eu estourasse a lâmpada do poste. A segunda, bem, seria um risco, porque, salvo se por um milagre de termos a pista toda para nós, ficaríamos muito expostos ― aí, já viu: nada de bitoca. Além de tudo, não diria que eu era um exímio dançarino, mas vai que tocava uma música lenta, mais fácil de dançar, e ainda por cima agarradinho...

Apressados por conta da chuva que se aproximava outra vez, quase a atropelando, entramos na discoteca.

Iluminada por mil cores, um calor danado, a pista estava tinindo! Muita gente, pouca chance. Se eu não cuidasse, era capaz até de pegarem a dona que eu levei.

Mas fiquei. Vi que estava curtindo e que já estava na minha. Agora era cuidar para não lhe pisar no pé tentando imitar John Travolta de “Grease”.

Nas minhas limitações, dancei; nas minhas limitações a agarrei; mas nas minhas limitações não cheguei nos finalmentes. Muita luz, muita gente.

Dançávamos bem juntinhos ao som de “Woman”, de John Lennon, até que ― blam! ―, cai a energia. Bem, era agora ou nunca! Um belo de um blecaute, mas eu estava de olhos bem abertos quando lhe tasquei a língua em cheio. Seu gosto era algo entre agridoce e verde-musgo. Estranho ainda era aquela boca sem dentes...

E aí, quando fez-se luz outra vez, Mirian disse:

― Ei, menino, é mais pra baixo, tu 'tá beijando é meu nariz!

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Mais uma vez, trabalho durante o meu aniversário. Nessa volta, porém, não estou triste. A busca incessante por um emprego que marcou o começo do ano me causava um mal estar irascível. Logo, escrevo este texto com alguma antecedência, a fim de garantir que eu tenha algum tempo para publicá-lo no dia correto. Aliás, agora que reparei, publiquei o meu relato anterior no dia seguinte ao meu aniversário.

Se eu pudesse ler as publicações futuras como posso com as passadas, como gostaria que o eu passado estivesse lendo isso! Se o pudesse, lhe diria: obrigado! Obrigado por ter usado tão bem o tempo de ócio com o aprendizado.

Não há sensação melhor do que ser grato pelo passado.

Por dez anos, temi a hora em que eu completasse 30 anos. Talvez pelo frequente relato de amigos meus que completaram essa idade, talvez por conta de seus ares tristes, temia quando fosse a minha vez de trintar.

Mas, afinal, isso não é tão ruim. O corpo não dói tanto quanto eu esperava. Na verdade não dói de todo. Não me sinto velho. Na verdade ainda sou jovem, ainda aprendo e faço planos. Sim, sei o meu lugar; já não tenho mais tanto tempo quanto aos 20 anos. Meu poder de mobilização coletiva já não é o mesmo. De qualquer forma, agora só preciso mobilizar a mim mesmo.

Além do mais, consegui tudo o que eu queria aos 20. Tenho um livro publicado, a graduação que eu queria e um amor tranquilo. Também aprendi tudo o que eu desejava. Sou um poliglota, um autodidata e sei escrever bem; e sei amar, sei resolver problemas e não temo o trabalho, por mais que eu costume protelar tudo.

Sim, a graduação demorou mais do que eu imaginava, mas isso não é ruim. Na verdade minha jornada teria sido bem diferente caso tivesse concluído o curso no tempo esperado. Se eu tivesse colado grau ano passado, por exemplo, não teria conhecido a linda área que é o ensino de Português como Língua Estrangeira. Talvez nunca teria tido contato tão próximo com gente de África e da América Latina; talvez não teria aprendido tanto francês com os primeiros e aprendido tanto do meu povo com os segundos; talvez minha monografia teria sido bem mais trabalhosa, já que sob mais pressão.

E o que era previsível aconteceu: estou cada vez mais descrente do poder transformador da internet.

De qualquer forma, acho que as redes sociais (mesmo as fediversais) já não cabem mais na minha vida. Performar uma identidade, preocupar-se com alcance de público, interagir com gente estranha a qual nunca se verá na vida ou da qual se saberá muito pouco, entreter-se com o entretenimento do outro, “compartilhar”, “comentar”, “favoritar” ― que forma mais estúpida de passar as horas! E não se falem nem nas plataformas de entretenimento. Atravessar as horas rolando conteúdo efêmero e de baixo nível de informação ― que forma mais estúpida de passar a vida!

Definitivamente, nada disso é socializar, e está longe até de ser uma extensão da vida social...

Talvez a partir de agora eu me dedique mais a este ou outros blogues que eu venha a criar. O blogue é o marco zero da internet; é simples, de baixa manutenção, organizável, acessível para quem escreve e para quem lê; ao lado do mensageiro, do telefone e do e-mail, é o fio mínimo entre a vida e o virtual; lento, é o antídoto perfeito para FOMO. Slow-web.

Temo ficar antiquado? Com certeza. Mas o tempo confirmará que a luta que assumi era a que me cabia, i.e., a luta pela reinvidicação por uma vida simples e lenta.

Mas agora a internet é só o lugar aonde vou quando preciso ganhar dinheiro ou perder tempo. Nada mais. Game over! Que pena... Vamos tomar uma cerveja?

Afinal de contas, me interessa mesmo é a vida. Sou um ser concreto, que se fascina pelo real. Por isso mesmo me interessa tanto o Budismo. Por isso mesmo me interessam tanto o analógico, o offline, o protodigital, o ordinário, o imanente. Por isso me interessam tão pouco (agora mesmo quase nada) a internet, a fantasia, a psicodelia, o transcedente, o entorpecente. Sonho com o dia em que o onírico não se separará do empírico. Aí, sim, vivo pleno. Hoje mesmo já não sonho quando durmo; a noite é simplesmente um véu negro que cobre o meu rosto. O sonho é um mistério que já não me seduz. E, bom, não faz mal, porque, como dizia o cancioneiro cearense,

A minha alucinação é suportar o dia a dia, e meu delírio é a experiência com coisas reais.

Leia o último relato de aniversário.

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Caricatura de um homem calvo, de olhar severo com o nariz pretuberante e uma parte do rosto apagado

Imagem: caricatura de Paulo Mendes Campos.

Uma lista de coisas deleitáveis, escrita durante uma leitura de lista de coisas deleitáveis, uma crônica de 1962 de Paulo Mendes Campos:

Sombra de árvore em parede ao fim do dia; escrever em máquina de escrever; escrever em teclado mecânico; tirar os sapatos ao fim do dia e tocar os pés no assoalho frio; acertar nota difícil em violino; ouvir sotaque de estrangeiro aprendendo português; acordar cedo sem alarme; comprar queijo coalho barato; ouvir jazz em um bom fone de ouvido; ver álbum de fotos de família de gente desconhecida; a palavra eavesdrop; a voz de Ezra Pound quando estava velho; sol nascente; sol poente; criança pequena ouvindo atentamente alguém falar; cúmbia; ver alguém dançar cúmbia; espanhol argentino; inglês britânico, sobretudo o Cockney; português timorense; francês africano, sobretudo o beninense; perceber a simplicidade de uma coisa aparentemente complexa, como por exemplo, conseguir meditar pensando em nuvens e ondas do mar; beijar mulher engraçada depois de ela fazer rir; ouvir alguma história sobre Oswald de Andrade; ouvir alguma história sobre Erik Satie; visitar um completo desconhecido por convite de um amigo e comer e beber de graça; fita cassete; começar a aprender uma língua nova; vaia cearense; acertar uma expressão em francês depois de muitas tentativas; fazer becape de arquivos; olhar horas “redondas” em relógio mecânico de pulso; falar em espanhol com nativos; a primeira hora de uma paixão; usar chapéu grande debaixo de sol forte; conhecer uma nova palavra que passa a nomear algo que já conhecíamos ― como por exemplo, “serendipidade”; mulheres de cabelo joãozinho; receber elogio de crianças; a série de colagens “Jazz” de Henri Matisse; beijar depois de beber cerveja gelada; ouvir Décio Pignatari falando; ver como gente detestável ficou feia depois dos 20 anos; Johann Sebastian Bach; texto com parágrafos curtos; a feiura de recém-nascidos; qualquer coisa sobre o Japão; reconhecer figuras em caracteres chineses; dicionários que tem transcrição fonética das palavras; ouvir da rua o toque de pedido de viagem Uber; ler João Cabral de Melo Neto e imaginar cenas de construção; ouvir João Cabral de Melo Neto cacoetar com “Compreende?”; filmes tão bons que continuam na nossa cabeça, por meses; experimentar bicicleta alheia; ler jornal de papel em um domingo tranquilo; céuzinho azulzinho ― sobretudo no mês de agosto, às 14h ―; calças de alfaiataria; calças que têm bolsos bem largos e fundos; ser surpreendido com massagem nas costas, enquanto se está no computador; tocar alfaia em grupo; mijar de madrugada no escuro, sentado; lambretas; quando uma criança cai e, em vez de chorar, ela começa a rir; som de aviso do vigia noturno de motocicleta; a atuação de Kôji Yakusho em “Dias Perfeitos”; dia demorado em casa; abajur; luz de abajur; telefones pequenos; o primeiro disco de Arthur Verocai; gatos gordinhos; televisão de tubo; quando acham que você é mais jovem do que de fato é; usar acento grave indicador de crase da forma correta; o modo como os cubanos levantam os ombros enquanto argumentam sobre um assunto delicado; andar de skate depois de anos sem ter subido em um; perceber a comunicação não verbal dos músicos em serviço; dispositivos com tela “de papel”; lembrar que é sexta-feira, e não quinta-feira; lembrar que é sábado, e não domingo; automóveis coloridos e miudinhos; notar que os músculos estão crescendo; dormir fácil; jogar xadrez com um colega de trabalho no intervalo; banho de cachoeira da Serra da Ibiapaba; banho de rio do sítio Ingazeiras; o primeiro banho do dia; a cidade de Fortaleza durante a hora dourada; Serra da Ibiapaba debaixo de neblina; ler debaixo de sombra de árvore; acordar cedo descansado e lépido; conseguir sentar em modo seiza; dicionários de bolso da Collins Gem; fazer listas.

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