Trancado de bicicleta em uma multidão

Ao fim de uma quinta-feira, eu sentia um prazer particular dos ciclistas: pedalar por entre corredores de carro. Que bom nessas horas ter uma bicicleta!

Além do fato de ser horário de pico, o “encarrafamento” dava-se por conta de uma manifestação pró-democracia ― para onde eu ia. O ponto de encontro era em uma esquina de um bairro nobre de Fortaleza ― visto que um ato anteriormente agendado próximo dali foi sabotado.

Fui lá pedalando com gosto de gás. Estava acostumado a ir de bici em atos políticos. Nas últimas duas vezes, fui ao ponto combinado e segui caminhando com as pessoas. Sem problema.

Só que desta vez, cheguei mais cedo do que de hábito. Não havia ninguém no ponto onde estava e ali fiquei. Afinal, a minha expectativa era de que as pessoas iriam se movimentar em direção à orla da praia, cartão postal da cidade, próximo dali. Como a pessoa com quem combinei não estava nem perto de chegar, fiquei na minha, observando o movimento perto de um paredão de som.

Quando o som estava simplesmente insuportável, decidi sair de onde estava. Lógico que não tinha como retornar por onde eu viera, porque a aglomeração estava cada vez maior. Daí o jeito foi... seguir, e seguir para onde havia mais aglomeração!

Por ser um verdadeiro carnaval, havia desde gente com glíter e maquiagem, bandeira de bloco carnavalesco e até biquíni! A minha bicicleta ali parecia mais uma “fantasia”:

― O movimento foi tão forte que até as bicicletas vieram! ― disse alguém.

Sem opção, tive de encostar em um desses carrinhos de venda de bebidas. Não havia jeito, era de um lado gente reclamando (às vezes só com olhares) que eu pegava muito espaço, do outro o próprio dono de um carrinho reclamando que eu estava atrapalhando as vendas.

― Meu senhor, tenha calma que já eu saio daqui! ― eu dizia.

Um trio de mulheres “estacionadas” atrás desse carrinho perguntou se eu não gostaria que elas ficassem com a bicicleta por perto, já que elas estavam com mais folga. Isso salvou a noite. Pude ficar um pouco conversando com elas enquanto o movimento esvaziava.

Encontrei um colega perdido que estava tentando abrir um litro de cachaça. Tentei, nada. Aí o dono do carrinho, bruto que só o cão, conseguiu; um homem detrás da gente comentou:

― Esse aí abre até o sigilo do Flávio!

E aquele meu amigo com que eu iria me encontrar? Bem, com a multidão, o sinal da minha operadora estava sobrecarregada, às vezes sumindo, e eu não tinha acesso aos dados móveis. Fiquei em torno de duas horas incomunicável, sem poder sair do lugar. Desesperado, eu olhava para todo lado o procurando.

Quando o espaço entre as pessoas foi aos poucos aumentando, aproveitei para sair da aglomeração e ir a um lugar mais vago, onde talvez não houvesse congestionamento de serviço de dados móveis. Mesmo com sinal, só pude enviar SMS!

Com isso, soube que meu amigo estava a dois quarteirões dali, que na prática seria uma distância muito maior por conta da multidão. Como estava muito dispersa, imaginei que ela não iria se movimentar mais. Além disso, eu tinha fome e sede. Não dava mais para seguir. Decidi comer em um Bebelu aí perto e ir embora.

Fica a lição: não vá de bicicleta a uma aglomeração, mas se tiver de ir, não conte com internet móvel para contatar e pagar. Ou melhor: não vá a aglomeração de jeito nenhum! A não ser que seja para defender a democracia.

E olha como tudo é relativo: se estar de bicicleta antes da manifestação era sinônimo de liberdade, estar com ela durante a manifestação significava prisão.

Faço minhas as palavras de um motoqueiro que no meio da multidão, segurando dois capacetes, disse:

― Pô, saí correndo do meu trabalho, deixei minha moto lonjão, se esse Lula não virar, vou ficar muito p#&%!


Sou Arlon de Serra Grande, professor, ensaísta, poeta, entusiasta de Linux e autor do livro autopublicado “Estudando Poesia” em que reflito sobre como se dá o aprendizado da linguagem poética. Se quiser adquirir um exemplar, fazer uma contribuição para este blogueiro, fazer recomendações, sugerir correções de texto ou comentar este post, clique no link abaixo.


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