Abandonando redes sociais “numéricas”
Filipe Saraiva, desenvolvedor e veterano fediversal, fala sobre por que abandonou o Micro.blog, uma plataforma social dentro do ecossistema ActivityPub ― t.c.c. Fediverso.
• RT/Boost/Repost é um componente prejudicial para redes sociais “tranquilas”? (filipe.saraiva.tec.br).
Com “tranquilas” Filipe faz menção àquelas redes que
desabilitam funcionalidades viciantes, que fazem com que o usuário fique cada vez mais tempo na plataforma, e também funcionalidades que o estimulam a criar uma “audiência” cada vez maior em torno do conteúdo.
Filipe teve o lampejo desse suposto efeito danoso dos compartilhamentos automáticos (chamado de “RT” em seu texto) desde que começou a frequentar Micro.blog.
Micro.blog, como seu próprio nome diz, é tipificado como microblogue, mas, ao contrário de seus análogos Twitter, Threads, Bluesky e Mastodon,
doesn’t have like counts or follower counts. It’s not a popularity contest
Isso mesmo. No seu fluxo principal, não mostra número de favoritos, compartilhamentos e comentários. Nem mesmo a contagem de seguidores. Somente as publicações de seus membros. Só. That's all, folks. C'est tout.
Não obstante, também não incentiva o compartilhamento automático. Como mostrado no laço do blogue do Filipe Saraiva do início deste texto, quem quiser compartilhar a publicação de um “microblogueiro”, que insira o endereço da publicação na caixa de texto.
Assim, a seco, Micro.blog manifesta sua ojeriza ao número virtual e entra na escassa lista de redes sociais que não têm em si o número como incentivo para a interação virtual ou termômetro de um perfil. Dentro dessa mesma lista só se encontrariam o Lemmy e algumas plataformas de macroblogue, entre as quais o WriteFreely, aquele pelo qual publico neste exato momento. O WriteFreely mesmo, só registra o número de visitas em uma página, visível somente para aquele que publicou.
O Instagram mesmo há um tempo deu a possibilidade de ocultar o número de curtidas dos posts. A razão?, não é clara, alguns dizem que é para diminuir a pressão de comparar-se com outro perfil, um argumento insatisfatório, já que ainda há o número de seguidores a serem comparados; outros interpretam que é uma tentativa da rede para se focar mais no conteúdo. A minha hipótese é de que não se queria que empresas que fossem divulgar sua marca na rede social ficassem “abaixo” dos influenciadores, que carregam em si milhares de seguidores.
Seja como for, a simples presença do registro de atividades em uma plataforma social muda completamente nossa relação com os seus membros. Com a presença de empresas nas redes sociais, bem como de influenciadores (indivíduos que têm introjetado a lógica empresarial), o número tomou outro teor dentro dos social media.
Entre um dos efeitos diretos do número em redes sociais, eu apontaria para o incentivo à
performance
Isso porque há um ímpeto no usuário de que ele alcance mais números. Com a contabilidade de seguidores, curtidas, compartilhamentos e tudo quanto, o usuário deixa de ser um membro de uma comunidade para se tornar um empresário de um mercado.
A numerabilização incentiva a competição. Sem a contabilização, não há corrida, corre-se às cegas, sob especulações. Através da contabilização há o mercado, há a bolsa de valores, há o ranqueamento da “qualidade” de ensino de escolas privadas. O número possibilita a comparação e, por conseguinte, a competição. E em uma rede social não se compete outra coisa que não audiência ― alcançada através da performance de uma personalidade unívoca e monotemática. Daí essa infinidade de
perfis nichados
que se encontra no TikTok, Twitter, Youtube. Nas redes sociais voltadas à perfilagem, identidades saltam aos olhos; o usuário larga mão de sua profundeza pessoal para performar uma identidade coesa, sem manifestação de interesses e de problemas vários.
Se a uniformização identitária não resolve, performa-se uma irreverência que se traduz em ragebait, provocações, polemismos baratos.
Em plataformas nas quais o anônimo (o perfil não numerificado) é mais presente, tende-se a ter um espaço mais pacífico e mais resistente à performatividade e ao ragebaitimo; isso é o que percebo em espaços como o Órbita, fórum do Manual do Usuário, no Lemmy, principal rede fediversal de discussão, e nos fios do Gemini, protocolo de internet que tem, como veículo principal, o texto.
Por falar em identidade, outra consequência não tão evidente da contabilização nas redes sociais é o
foco na atividade individual em lugar da coletiva.
Em um fluxo linear de publicações de estilo “microblog”, seja algorítmico, seja cronológico, ainda que intuitivamente, sua estrutura faz focar, não em comunidades, mas em perfis individuais. Esses perfis forçosamente não chamam atenção para questões coletivas, mas em questões pessoais; mesmo quando se exprime a respeito de questões coletivas, o que está em primeiro plano é sua relação pessoal com essa questão coletiva. Nesses fluxos, a terceira pessoa (”você”, “vocês”) fica em segundo plano; resta em primeiro, a primeira pessoa (“eu”, o “nós”). Aqui satura-se a opinião, nunca o diálogo. Satura-se o indivíduo, nunca a comunidade. A
cultura do influenciador
mesmo, tão combatida no Fediverso, é um efeito colateral das redes sociais numéricas. Quando se salienta o indivíduo em lugar de uma comunidade, surge o desejo de influenciar, de reger sobre o comportamento do outro. Afinal de contas, é difícil haver diálogo em um espaço em que há a amplificação de vozes individuais.
“E o blogue?”
você deve me perguntar.
O blogue é também a amplificação de uma voz individual, mas não está organizado no espaço virtual em um recipiente coletivo. Claro, o próprio WriteFreely é uma espécie de blogue de blogues. Mesmo assim, é difícil haver uma competição entre dois perfis writefreelyanos, até pela escassez de perfis.
Cada blogue e cada sítio blogueiro adquire o seu próprio direito de existir; respeita a horizontalidade do espaço virtual; e, como se não bastasse, tende a apontar para outros. A natureza blogueira é hipertextual, não autorreferencial, como perfis microblogueiros de um Twitter ou de um Mastodon ― que, inclusive, por não aderirem a linguagens de formatação como HTML e Markdown, não comportam bem hyperlinks.
Além disso, o blogue, por princípio, não é numérico; não põe a nu os números de visitas e de compartilhamentos; não pode ser comparado um ao outro, porque, para isso, todos deveriam ter estruturas e registros estatísticos similares.
Explorados os problemas da contabilização nas redes sociais, faço agora eco à preocupação de Filipe Saraiva quanto aos
compartilhamentos automáticos.
Quando entrei no Mastodon em meados de 2023, imaginava encontrar um espaço virtual “tranquilo” ― no conceito de Filipe. Apesar de ter uma linha de fluxo cronológica, as publicações eram organizadas de forma caótica. Não havia o menor sentido de ler sobre uma publicação de food porn ou gatinhos seguida de uma notícia de Gaza ou do avanço do fascismo nos Estados Unidos. Estamos tão insensibilizados com o atual estado da internet que não percebemos o absurdo que é organizar as informações dessa forma, em uma só cumbuca.
Uma maneira que encontrei de “neutralizar” e até de tornar o Mastodon mais interessante era “garimpando” perfis. Era o que eu costumava fazer mesmo no meu tempo de Twitter pré-algoritmo. Conhecendo um usuário interessante, eu tendia a perscrutar sua atividade, observar quais perfis seguia, quais publicações compartilhava, com quais pessoas interagia. Isso fazia com que eu criasse uma rede comunitária mesmo em um espaço que tem em primeiro plano a dinâmica individual sobre a coletiva.
Em outras palavras, o que eu buscava era
“bloguificar” o microblogue.
Daí, passei a criar listas de perfis e etiquetas (#), que acabavam por se assemelhar às comunidades do Lemmy: havia coerência, previsibilidade e recursividade. Se eu quisesse ler sobre geopolítica, buscava perfis sobre esse tema; se queria ver memes, abria um perfil que estava de bom humor; se queria ver recomendações de filmes, seguia a etiqueta temática # tercinema, na qual os membros de comunidades mastodontes indicam filmes sobre um determinado tema, debatido em enquetes.
Tudo era lindo, maravilhoso, delicioso, uhu... mas aos poucos fui cansando. A internet, como os recursos elétricos em geral, até um certo ponto nos permite configurar seus ambientes ao nosso bel-prazer. O problema é que as coisas “raqueadas” funcionam feito gambiarras. É possível frequentar o Mastodon como um espaço no qual o indivíduo não esteja em destaque, mas isso demanda paciência e letramento.
Mais fácil seria então manter
um blogue “de verdade”.
Afinal, coerência, previsibilidade e recursividade são da natureza blogueira. Além disso, introvertido que sou, eu não estava mais interessado em trabalhar para manter uma audiência em rede social.
Nesse ínterim, recuperei meu interesse em fóruns de discussão, um tipo de espaço que frequentei bastante quando era adolescente. Em um fórum, nunca se veem opiniões empurradas goela abaixo, nem piadas forçadas, lamentações ou ragebait― porque aí o indivíduo está em segundo plano.
Passei então a abrir mais o meu e-mail (doravante “e-meio”), por onde eu recebia comentários do meu blogue e notificação de respostas em fóruns de discussão, e a seguir mais as publicações por RSS, por onde eu acompanhava sítios de que gosto.
Assim estabeleci o
meu guia de orientação de atividade virtual
que é basicamente:
evitar plataformas que tenham fluxo de publicações algoritmado ― como Instagram, Tiktok e Youtube;
evitar redes que tenham um fluxo de publicações centralizado e que não deem a oportunidade de o usuário fazer a sua própria curadoria refinada de conteúdo ― como Instagram e TikTok;
evitar redes que foquem em expressão em detrimento do diálogo ― Mastodon, Instagram e tudo quanto;
manter a atividade principal em mídias que não destaquem o registro numérico da atividade dos usuários: RSS, blogue, fóruns e mensageiros (o e-meio incluso).
Para além dessas diretrizes, sempre busco como que “raquear” a estrutura das redes: costumo usar o Freetube, que permite assistir a vídeos do Youtube sem propagandas e que dá a oportunidade de criar listas mesmo sem ter um perfil na plataforma; e visito o Imginn quando preciso visitar um perfil do Instagram sem estar logado nessa rede.
Não estou mais interessado em aparecer, mas sim em fazer aparecer o outro na minha palavra.
Só me interessa o que não é meu
― Oswald de Andrade.
O lançamento do meu livro “Estudando Poesia”
será neste dia 20, sexta-feira. Como é um livro que surgiu por conta das conversas que eu tinha entre companheiros virtuais que fiz no curso de Poesia Expandida, feito à distância durante a pandemia, decidi que o primeiro lançamento também deveria ser remoto.
“Estudando Poesia” é uma antologia de poesias autorais feitas durante o começo da minha juventude, com uma avaliação posterior a respeito da forma dos poemas e da linguagem poética. Trata-se de um livro autopublicado, ou seja, não possui editoras ou selos envolvidos; por isso, sua realização dependeu de fundos pessoais ou doações; por consequência, sua tiragem é bastante reduzida.
Já venho anunciando esse livro há um bom tempo, como pode ser visto nas últimas #notas, e também na página /agora, no topo desta página. Ainda não defini a hora nem o laço do lançamento, que provavelmente será feito via Meets. Quando tudo estiver pronto, publicarei todas as informações nestas Ideias de Chirico. Quem estiver interessado em manter contato a respeito de “Estudando Poesia” pode me mandar um e-meio através do laço que se encontra aqui abaixo.
CC BY-NC 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter