Ideias de Chirico

Em lembrança do pintor surrealista greco-italiano Giorgio de Chirico (1888 – 1978), o maior ilustrador de ideias de jerico ― e de Chirico!

― Próximo!

Diz a atendente entre sonolenta e entediada. O cliente anterior ainda está às tantas com as sacolas.

Nesse meio tempo, lá vai o “próximo” passar as mercadorias para o balcão de metal liso. Bip, bip, bip. Com a prática, a balconista passa todos os pacotes num minuto. E o dito-cujo lá com o focinho na tela abrindo o aplicativo do banco.

― Só um minuto, que o 4G está lento.

Opa, abriu o aplicativo. A funcionária lança o código QR da compra. E o camarada que parece que não saber estabilizar a câmera do telefone...

Leu? Beleza. E dá-lhe rede móvel.

E a fila se avolumando.

― Graças a Deus!

Foi-se embora o carinha do telefone. Aí vem outra bendita com um telefone enorme e lerdo. Dessa vez sem internet.

― Qual é a senha do wi-fi daqui mesmo, hein?

No ar aquele clima de banco ou de lotérica, cheia de gente resmungando. A culpa já não é mais nem dos atendentes.

Na minha vez, dou “bom dia”, passo as mercadorias.

― Deu R$ 12.75, moço.

Cato duas cédulas, umas moedas. Babau.

― Próximo...


Lembro de quando o Pix começou a entrar na vida do brasileiro. Eu que sou um tecnófilo, sou bastante refratário a qualquer invenção bombástica. Parece uma contradição, mas não é. Toda invenção requer não só um período de educação do usuário, mas também um tempo para pôr à prova a sua utilidade.

Rapidamente, o recurso chegou aos rincões mais recônditos deste nosso país tão desindustrializado. “Até bar de estrada agora aceita Pix”, dizia-se com admiração.

De qualquer forma, com o tempo, antes mesmo de eu utilizar o cartão de débito, comecei a usar o Pix no dia a dia. Pagar boletos era mais prático. Não precisava mais carregar o troco enorme de moedas. O registro das transações ficava registrado no histórico do aplicativo e as chaves Pix podiam ser favoritadas.

Daqui a pouco é um não mais terminar de filas em mercados, feiras, padarias, bodegas. E casos de gente que fez transações por engano, para destinatários desconhecidos ou com valores incorretos. E estabelecimentos que não se dão o trabalho de voltar troco ou até mesmo que só aceitam pagamento em Pix.

Aí o desencanto bateu.


Parte do sucesso do Pix está na acessibilidade do smartphone. Porém, com a concentração de funções no telefone moderno, há um risco cada vez maior de se ficar na mão.

Imagina que você esteja em um aeroporto e precise: 1. passar o passaporte e mostrar sua documentação; 2. fotografar; 3. escutar música; 4. enviar mensagens; 5. pagar por uma refeição; 6. ler. Se seu dispositivo tiver somente 17% de bateria, deverá escolher uma dessas funções. A prioridade, lógico, estará no dinheiro e nos documentos. O resto se ajeita.

Já ouvi o caso de uma pessoa que não portava carteira ao sair de casa ― resolvia tudo por aproximação de cartão virtual e Pix. Certa vez o seu aparelho descarregou bem na fila do cinema, e aí teve de pedir dinheiro emprestado para uma amiga que a acompanhava. A situação seria ainda pior se estivesse sozinha.

O melhor, decidi, é tornar o dinheiro um objeto analógico.

Desde o começo do ano, adotei outra vez as cédulas. A ideia era manter um dinheiro “livre”, sem uma destinação específica, para usar em estabelecimentos informais ― nunca gostei de passar meu cartão em qualquer maquininha.

As cédulas também são uma mão na roda caso falte eletricidade, bateria, internet ou a minha paciência no ponto comercial. As tão evitadas moedas agora são bastante desejadas e cuidadosamente guardadas em um porta-níqueis que carrego junto da carteira.

Ao menos duas vezes ao mês, aproveitando algum passeio pela rua, saco dinheiro da máquina do banco.

Nem tudo são flores, lógico.

Como se utiliza menos dinheiro nas transações em cidades grandes, a tendência é dos bancos emitirem notas maiores. O que interessa em ter dinheiro é a praticidade, então é bem melhor ter o dinheiro trocado.

Com muita pesquisa, percebi que alguns estabelecimentos tendem a aceitar voltar troco sem muito muxoxo: supermercados, bancas de jornal e grandes redes de farmácia. Logo que saco a grana, vou logo em um desses lugares.

Restaurantes, bares e lanchonetes tendem a não trocar dinheiro ou mesmo a recusar pagamento em espécie. Caso neguem troco, tenho do meu lado o Código de Defesa do Consumidor, que proíbe no artigo 39, inciso IX:

recusar a venda de bens ou a prestação de serviços mediante pronto pagamento.

Não obstante, a lei estadual do Ceará nº 16685 obriga estabelecimentos comerciais a garantir troco em moeda. Imagino que cada estado brasileiro deva ter alguma legislação desse tipo também.


Na última viagem que fiz à terra natal, me chamou atenção a frequência com que a cédula aparecia nas transações nas cidades de interior. Em feiras populares onde se vendem frutas, verduras e grãos, simplesmente não se usam Pix ou cartão ― só dinheiro. Até pensei em perguntar para alguns dos feirantes a razão para isso, mas, de tão intuitiva, ela há de ser simples: a moeda é prática e fiável.

Além de tudo, como não atravessa um intermediário digital, ela ainda preserva os dados pessoais. Não por acaso, tomo a cédula de dinheiro como um ícone offpunk.

A moeda é a prova de que nem sempre a opção digital é a mais conveniente.

O pagamento por Pix em uma tenda dessas, de duas uma: ou faria mais filas ou, com o ruído, poderia se comunicar o valor errado ou a chave incorreta. Além disso, que ideia de Chirico sacar o telefone em plena rua movimentada!

Por outro lado, na cidade grande... filas e mais filas, roubos de aparelhos etc., etc.

Sim, a invenção é maravilhosa. Sim, bancarizou uma centena de milhões de trabalhadores informais. Não, não agilizou os serviços como prometia. No dia a dia, o dinheiro e, em algum grau, o cartão de crédito ainda ficam na vanguarda.

#cotidiano #tecnologia


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Recomendações de links e outras coisas. Boa leitura.

Linkroll

Projeto transforma Kindle em um calendário / relógio de mesa. Não precisa de jailbreak, basta entrar no navegador, escrever um comando na barra de endereços e entrar em um sítio web. Aparentemente os desenvolvedores esperam que se deixe a internet ligada (há uma atualização de figurinhas), mas, experimentando aqui, depois de carregar a página, o sítio funciona em modo avião.

• eCal.Ink – Smart E-Ink Calendar (ecal.ink)

Há angústia, e também luta de classes, no dispositivo que alterou nossos laços com o tempo e o espaço. Ao reduzir a aspereza das relações sociais a uma tela, ele nos mergulha num universo de impotência, individualismo e submissão. Como escapar?

― Laura J. Martin.

• A hipnose fatal dos celulares (Outras palavras).

Fomos enganados. O verbo “torcer” não vem daquela anedota das torcedoras do Fluminense que “torciam” lenços.

• A inesperada origem da palavra torcedor (Guia do Estudante).

• Sobre a origem da palavra torcedor (Jornalheiros).

Uma tecla pode causar prejuízo financeiro, psicológico e até geopolítico. Algumas dessas ferramentas estão mudando o mundo e o imaginário. No entanto, trabalhamos com elas de um jeito casual.

• Ferramentas de poder (Texto sobre tela).

Anthropic confirma que Claude age diferente dependendo da língua de entrada e de qual modelo se usa. Ele atua como “cético” e “rigoroso” se o usuário escrever em inglês e como “caloroso” se escrever em árabe. Quem ainda vai dizer que essa droga de ferramenta é neutra?

• Anthropic confirms Claude acts differently depending on your language and which model you pick (digitaltrends)

Citações

Desvario trabalhoso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e propor um resumo, um comentário.

― Jorge Luis Borges, escritor argentino.

One thing that I love about that part of the world is that it's a melting pot with an immense diversity of cultures, each one very defined and proud (often too much) of their own idiosyncrasies, but in the end they're all intermingled Liszt was Hungarian, but his mother tongue was German. Bartók was Hungarian, but was born in what is nowadays Romania. Mahler was Austrian, but just like Freud was born in Czechia, and so on.

@mathek@tilde.zone

Ainda tem o compositor francês Frederico Chopin que nasceu... na Polônia.

Quadrinho curto. No primeiro quadrinho, um homem ruivo levanta um papel no primeiro quadro e diz 'Bom, não está mal. Vamos postar'. No segundo quadrinho, vai a uma porta em que há um letreiro que diz 'internet', e fala 'Odeio ver a reação das pessoas'

Título: “Uma flor por vez”. “Bom, não está mal. Vamos postar”. “Tenho pressa de ver a reação das pessoas”.

Terceiro quadrinho. Ele vai em um muro, prega o desenho de um elefante em um muro e diz 'Aí está'. No quarto quadrinho segue observando o desenho colado na parede'

“Aí está”.

Quinto quadrinho. Vê-se o muro onde o homem pregou o seu desenho em perspectiva. Nele vemos gravuras de guerras e de problemas do mundo. No sexto e último quadrinho, vemos o homem de volta em seu escritório sorrindo com o rosto apoiado nas mãos. Sua esposa, uma mulher ruiva de vestido preto, diz 'Ei, tudo bem? Jornada produtiva hoje?', no que ele responde 'Eu... eu não sei'. Abaixo há uma citação que diz 'Ser artista é como plantar flores em um jardim onde alguém usa um lança-chamas

“Ei, tudo bem? Jornada produtiva hoje?” “Eu... eu não sei”. “Ser artista é como plantar flores em um jardim onde alguém usa um lança-chamas”.

Arte de Bouletcorp

Releia outras Ideias de Chirico

• Abandonando redes sociais “numéricas” (17 fev. 2026).

Ou: porque passei a dar menos importância a contabilização na internet.

• O que pode a tecnologia, o que não pode a tecnologia e o que podemos fazer sobre ela (23 abr. 2025).

Reprodução de um longo e-mail que enviei a uma professora da faculdade discutindo sobre como a tecnologia e a educação podem se relacionar.

• O sedutor mistério de “Dias Perfeitos” (7 set. 2024).

Resenha crítica a respeito do filme “Dias Perfeitos” (2023) de Wim Wenders, concentrando-se em sua laconicidade narrativa.

• Notas sob(re) Salvador (14 fev. 2024).

Algumas observações em torno da cidade de Salvador e do povo soteropolitano.

#notas


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Imagem de um telefone móvel com display em preto e branco. Nele se vê o aplicativo Whatsapp com o nome dos contatos borrados. Ao fundo, uma calçada de casa

Decidi retirar as cores do meu telefone e não consigo usá-lo de outra forma.

Em meados de 2024, escrevi um texto relatando como foi a minha experiência de fotografar com a display do meu telefone em preto e branco.

• Um mundo em preto e branco (Ideias de Chirico).

Naquele tempo eu fazia um experimento mais estético do que tecnológico-comportamental, queria sobretudo entender como explorar a ausência de cores em fotografias. Prometi naquela vez uma publicação futura explicando o porquê daquela minha escolha ― sem saber que ela se tornaria a minha configuração padrão para telas pequenas desde então.

Linko outra vez o texto por onde tive o ímpeto para adotar essa modificação.

• Pessoas estão tirando as cores da tela do smartphone para usá-lo menos (Manual do Usuário)

O recurso de “escala de cinza” é na verdade um recurso de acessibilidade para usuários com daltonismo. Em seu texto, Rodrigo Ghedin menciona vários especialistas em design que sugerem aos usuários de smartphone que tirem as cores de seus aparelhos caso queiram estar menos “viciados”.

Segui esta sugestão. Com o tempo, porém, percebi benefícios e alguns prejuízos em outros campos.

Neste texto os relatarei e explicarei porque por mais de dois anos decidi manter meu telefone em preto e branco, além de outras reflexões sobre essa modificação.

O primeiro efeito que percebi ao tirar as cores do meu telefone foi a fluidez com que passei a executar minhas tarefas.

Sem cores, a navegação por aplicativos não é errante. Como apontado no link do Manual no início deste post, as cores são organizadas em produtos de consumo de modo a fisgar a atenção do potencial cliente. Quando se as nivela em escala cinzenta, neutraliza-se esse efeito.

Em cores emudecidas, vídeos já não são tão atrativos. Os textos escritos, por sua vez, ficam incólumes em escala cinzenta, isso porque a escrita funciona muito bem com uma só cor. Vejam os monitores de computadores antigos, mormente dedicados à escrita (de texto ou de código), emanavam luz verde sobre o fundo negro do próprio display. Não faria diferença para a compreensão textual se fosse uma luz branca.

Para reforçar a intencionalidade com o telefone, retirei todas as notificações e mantive o volume zerado por padrão. Desse modo, o foco do meu aparelho passou a ser escrita de mensagens e leitura de textos médios.

Menor agressividade visual

Não exagero em dizer que minha vista ficou menos cansada desde que mantive a escala de cinza em dispositivos portáteis. Em alguns aparelhos, inclusive, o modo noturno pode ser programado a fim de ativar esse recurso.

Quando as pessoas me emprestam seus telefones, não suporto olhar o display por mais de um minuto. É como se eu estivesse olhando diretamente para um letreiro em neon a poucos centímetros de distância.

Com os meus aparelhos, entretanto, consigo permanecer mais tempo em alguma tarefa sem que fique com a vista cansada (o ideal mesmo seria uma tela “papel” no modelo Kindle). A partir do momento em que aciono as cores do meu telefone momentaneamente, comparando sua tela com a de outros dispositivos, percebo o problema: as telas de telefones têm cores mais vibrantes do que a de outros aparelhos...

Economia de bateria

Assumo, este tópico é um pouco controverso...

Não sei se por estar menos propenso a ficar pouco tempo com o display aberto por conta da monocromia, ou pela própria configuração visual fazer com que se economize as cores, o fato é que gradualmente percebi que retirá-las fez com que a sua bateria durasse mais tempo do que antes.

Naquele mesmo ano de 2024, adquiri um outro telefone mais básico, de tela menor, o Multilaser Elite 2, de quatro polegadas. Cansado tela enorme do aparelho anterior e um pouco preocupado em portar dados tão sensíveis em público, o plano era de tornar o novo dispositivo um “telefone de bolso”, para sair de casa. O outro, de cerca de sete polegadas, ficaria em casa mantendo aplicativos de banco e outros dados pessoais em segurança.

Quando fui configurar as cores do dispositivo recém-adquirido, não o consegui pela via comum (no meu Motorola, o caminho é: Configurações > Acessibilidade > Cor e movimento > Correção de cor > Escala de cinza), mas sim da seguinte forma: Configurações > Bateria > Função de escala de cinza. Curioso, não?

Porém, a própria descrição da opção diz que “Este recurso é experimental e pode afetar o desempenho”. Afeta positivamente ou negativamente? Não se diz claramente. O que interessa é que esse recurso, segundo o que os desenvolvedores da Multilaser entendem, altera de algum modo o gerenciamento de energia do aparelho.

Fotografia de um telefone móvel de tela pequena tendo uma parede cor de salmão como fundo; no display, vemos a aba de gerenciamento de bateria aberta; na parte inferior da tela, vemos uma opção de Função escala de cinza

Meu Multilaser afirma que a função escala de cinza “é experimental”. Experimental para quem? Para mim, esse é o padrão!

Outros argumentam que a escala de cinza tem o potencial de economizar bateria, porque o display não teria que operar com muitas modificações de tons. No entanto, isso só faz sentido para aparelhos que têm tela AMOLED. Segundo a Technode, em displays com essa tecnologia,

Quando um pixel precisa exibir a cor preta, ele simplesmente se desliga. Isso representa economia real de energia, especialmente em interfaces com fundo escuro.

O fato é que o meu telefone “de casa” segura a bateria por pelo menos cinco dias em uso de moderado a pouco frequente. Tenho de mencionar também que outras configurações entram em jogo, como o modo avião sempre acionado.

E quanto a vídeos e imagens coloridas?

Tenho um leitor digital Kindle, e desde que passei a ler muitos artigos da internet por esse eletrônico, percebi o quanto, na maioria das vezes, as cores não são essenciais para a compreensão de uma imagem. Afinal, há pelo menos um século, fotografias em preto e branco são estampadas em jornais...

Alguns adeptos dessa configuração argumentam que ativam as cores quando vão assistir a vídeos no Youtube. Aí penso: se a proposta de desligar as cores é tornar um aparelho menos tentador, porque ativá-las para ver vídeos numa plataforma que é desenhada para manter o visitante o máximo de tempo possível? O melhor é nem mesmo mantê-la ativada! Eu mesmo prefiro baixar no computador os vídeos para serem vistos depois ― sigo um princípio de offline-first nos meus aparelhos.

As únicas imagens em que as cores fazem falta são as de artes visuais, sobretudo pintura, e de textos multimodais, como gráficos. Há casos curiosos também em que as cores funcionam como traços distintivos entre objetos dentro de uma foto. Certa vez fotografei uma fonte de pedras dentro de um tanque de peixes. Em preto e branco, a fonte parecia um estrogonofe de carne! Infelizmente o telefone inteligente ainda segue como melhor ferramenta de edição de vídeos. Não há outra forma de fazê-lo que não por uma tela colorida.

Além desses três casos, retorno à configuração padrão quando estou em uma videochamada. Porque aí ver a amada em preto e branco também é de lascar...

No mais, em raros momentos em que as cores são de fato necessárias para a compreensão, as envio para a nuvem, a fim de serem apreciadas por uma tela maior e colorida.

Breve comentário sobre uma estética da sobriedade

Imagem de um telefone sem cores. No seu display, há o menu inicial com vários ícones de aplicativos

“Sexy sem ser vulgar”.

(Convenhamos, o telefone fica mais elegante sem cores, tomando uma beleza “fria” e descompromissada, como as de uma escultura moderna e de uma embalagem de perfumes. Gosto de quando as coisas atraem sem implorarem por atenção ou se imporem nos espaços... “Chique é ser simples”, já dizia um rapper brasileiro. Sempre me atraio por uma beleza difícil...)

Só o telefone sem cores?

O fato de que sinto essa necessidade de tirar as cores somente em uma tela menor ainda me deixa um pouco encucado ― nunca tive vontades de tornar meu computador e um antigo tablet monocromáticos.

Posso passar horas com meu computador, mesmo conectado, sem me sentir fisgado. Nesse dispositivo, sinto que estou mais “no comando” do que em outros.

O fato de dispositivos mais portáteis terem cores mais vivas explica somente metade do problema. Será que o desenho dos aplicativos também auxiliam em tornar telefones mais viciantes? Infelizmente não tenho letramento suficiente em design ou programação para resolver essa questão. Quem souber explicar melhor, por favor, entre em contato pelo e-mail no rodapé desta publicação.

E por que comprar dispositivos minimalistas?

Além de ter tornado o meu telefone monocromático, também desinstalei aplicativos nativos da Google e de redes sociais, lhe tirei as notificações e o silenciei, mantendo somente o toque de chamada, para casos de urgência. Ao fim e ao cabo, o transformei em um “telefone minimalista”, algo próximo de um Mudita Kompakt.

Por mais que eu respeite bastante projetos como Mudita Kompakt e Light Phone por terem apresentado essa ideia, tenho por mim que o que empresas e estartapes de “telefones minimalistas” vendem não é smartphone, mas letramento digital. O que se compra, por exemplo, de um Mudita Kompakt não é o dispositivo, mas o tempo que se leva para configurá-lo de modo a ficar funcional e até privativo.

O objetivo de tratar dispositivos como ferramentas e não como brinquedos, como querem corporações tecnológicas, é, no fim das contas, uma atitude de anticonsumo.

Sendo assim, qual o sentido de gastar dinheiro com mais dispositivos? O melhor é entender como eles funcionam, como nos afetam e transformá-los naquilo que são: objetos. E, claro, compartilhar o saber-fazer e, como se tem feito na Europa, pressionar empresas de tecnologia para que produzam produtos que sejam feitos para durar, tendo o usuário e o meio ambiente como prioridades.

#tecnologia


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A palavra Hexa em cor amarela sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido

Texto alternativo: A palavra “Hexa” em cor amarela sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido. Arte: Arlon de Serra Grande.

Para quem não acreditou, sim, o Brasil levou um hexa...

Não, não vivo em um universo paralelo em que os brasileiros fomos campeões. Me explico:

2006, Copa do Mundo sediada na Alemanha, Brasil perde de 1x0 para a França (com Kaká em campo) ― primeira hecatombe¹; 2010, com sede na África do Sul, já em campo com o influenciador “sabor” jogador Neymar, perdemos de 2x1 para a “Laranja Mecânica” ― segunda hecatombe ― (lembro de me divertir um monte com as montagens do Mundo Canibal sobre os jogos, isso tornou a derrota mais leve); a grande e fatídica hecatombe foi a de 2014 quando, em casa, perdemos de 7x1 para a Alemanha (com Neymar nocauteado, o clima no estádio era de terra arrasada mesmo antes do jogo); 2018, em terra russa, fomos de 2x1 para Bélgica (alguém lembra desse jogo?) ― quarta hecatombe ―; no Qatar, 2022, empatados, perdemos por pênaltis (esse cassino futebolístico) para a Croácia ― quinta hecatombe ―; em solo ianque, 2026, acabamos de sair de oitavas por uma preguiçosa Noruega que nos venceu por 2x1 (com gol de pênalti de Neymar, que por pouco não nos envergonha com uma troca de tapas com o goleiro norueguês) ― sexta hecatombe.

Assim, levamos um hexa ― mas um hexatombe. Seis vezes sacrificado em nome de qualquer coisa que não participe do Brasil enquanto nação. Como li no dia seguinte à derrota, “A ideia da seleção como alma da brasilidade perdeu sentido”.

A palavra Tombe em cor vermelha sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido

Texto alternativo: A palavra “Tombe” em cor vermelha sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido. Arte: Arlon de Serra Grande.

Ao mesmo tempo, já não temos uma nova bossa para chamar de nossa. A esperança da Fórmula 1 morreu. Ainda assim não resistimos ao sonho de sermos campeões no futebol. Avançamos para o segundo quarto do século XXI ainda tentando manter a mesma concepção de país que tínhamos no século anterior.

Por outro lado, nos apareceram o skateboarding, o surfe e a ginástica rítmica, categorias em que fomos ouro nas últimas Olimpíadas. Há ainda a tímida promessa no tênis de mesa de um Hugo Calderano que venceu campeonatos na China, país que acumula basicamente todos os troféus nesse esporte. Ainda por cima, a pouco lembrada poesia experimental e propositiva que herdamos dos poetas concretos de 1950 ainda hoje nos rende frutos...

Vamborandá. Pode ser que esse “hexa” seja um sinal de que devamos jogar menos com bola e jogar mais com ideias a fim de construirmos um outro Brasil ― pós-Pelé, pós-Senna, pós-tudo.

¹: He.ca.tom.be (do grego antigo ἑκατόμβη, composto de ἑκατόν “cem” e βοῦς “boi”) é o sacrifício de cem reses aos deuses na Grécia Antiga. Os lusitanos ofereciam hecatombes ao modo grego. Modernamente o termo é aplicado a grandes catástrofes.

#notas #cultura


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Cartum em que há um homem sem roupa em frente a uma plateia, que diz 'Cheguei em São Paulo em 1997, só com a roupa do corpo'

Imagem: André Dahmer.

Depois de um período um pouco autocentrado, publicando somente coisas minhas, volto a compartilhar alguns links, dicas e citações que coletei nos últimos ~2 meses. Alguns artigos são de assuntos, digamos, em baixa, mas que não deixam de ter alguma relevância. Outros até que são recentes, mas que passaram batidos por mim, e que pensei que, de qualquer forma, fosse interessante de mostrar ― vai que algum leitor destas Ideias é distraído que nem eu?

Linkroll

A maior parte da população leitora no Brasil é constituído por mulheres não brancas, é o que mostra a pesquisa Panorama do Consumo de Livros.

• Quem consome livros no Brasil? Os dados são surpreendentes (Farofafá).

Diego Lafuente reconstitui o fluxo da informação digital desde a era do BBS e pensa neste belíssimo ensaio como a Web e os hábitos podem se modificar a partir da IA:

I still write because writing helps me think. That may become the main reason to write. Not traffic. Not SEO. Not audience growth. Not discovery through search.

• The web is going to dissapear (minid.net)

Já reparou que os telefones modernos são pouco explorados ou até ignorados nos filmes dos últimos anos? Neste primoroso vídeo-ensaio, Eddache reflete sobre as razões pelas quais os diretores tomam essa decisão.

• Why Are Movies Afraid Of Phones? (Eddache ― Youtube).

Ensaio de Paula Lúcio sobre como a estética do agreste nordestino se formou e como se comunica.

• A gramática visual do sertão (Paula Lúcio ― Substack).

New York Times ranqueia os 48 hinos de nações da Copa (e dá primeiro lugar ao hino brasileiro!)

• Ranking all 48 World Cup national anthems (New York Times).

A arte da tradução, por mais enigmática que seja o sentido dessa expressão, tem, assim, um papel político importante, mas parece que hoje ninguém precisa dela, e não se trata de cinismo, (...) mas, antes, de absoluta impossibilidade de prestar atenção na arte em geral, qualquer que seja ela.

• Trocar tradutores por IA é retrocesso gigantesco para literatura (Dirce Waltrick do Amarante ― Folha de São Paulo).

Artigo bem humorado da Business Insider refletindo sobre as vantagens ~secretas de se ter um Kindle: desde ler “escondido” livros embaraçosos até não evidenciar posições políticas a partir de capas de impressos.

• Read Embarassing Kindle Books in Public (Business Insider).

Dica cultural

Loja de discos. Um homem cabeludo e de camiseta de banda de rock observa com aflição para uma mulher com roupas formais que analisa um disco que pretende comprar.

Cena de “Durval Discos” (2002), com participação especial de Rita Lee.

Ontem assisti outra vez ao “Durval Discos” (2002), um desses filmes brasileiros que, por alguma razão, não é tão conhecido, apesar de ser family-friendly e do gênero comédia. Com estreia da diretora Anna Muylaert, é um primor no quesito de técnica de fotografia, trilha sonora (parte de André Abujamra) e escrita de roteiro.

O longa-metragem nos mostra o cotidiano de Durval, um hippie quarentão que mantém uma loja de discos na frente de sua casa em um pacato bairro de Pinheiros, São Paulo, durante o fim dos anos 90. A indústria fonográfica de então investia mais e mais na produção de discos compactos (CD) em oposição aos discos de vinil (LP), a especialidade da loja Durval Discos.

Além do pouco movimento de vendas em seu comércio e da constante cobrança de clientes por CDs, Durval ainda tem que lidar com a gerência da casa. Solteiro, morando com sua mãe já envelhecida, o protagonista decide contratar uma trabalhadora doméstica ― uma jornada que o irrompe de sua rotina. A partir daí, os problemas em sua casa (e até na vida do bairro) escalam pouco a pouco. O clímax de “Durval Discos” foi um daqueles que mais me impactaram nos últimos 10 anos.

Disponível no Youtube.

• Durval Discos – Trailer (Youtube).

Citações

Cartum mostrando um homem sobre um palco de karaokê, atrás dele há o título 'song: 4'33'', artist: John Cage', uma composição na qual os instrumentistas não tocam absolutamente nada. Em primeiro plano há um homem que diz 'Esse cara de novo, não...'

Imagem: asher (via The New Yorker)

Todo mundo quer profetizar o futuro pós LLM baseado em livro de ficção científica, eu prefiro olhar para um campo do conhecimento humano que convive com tais máquinas pelo menos desde a década de 1990: o xadrez. O fato de existirem máquinas que jogam melhor que os humanos não acabou com o esporte e não extinguiu a profissão de enxadrista.

@felipesiles@ayom.media

Meu fácil me enfada. Meu difícil me guia. [...] O que eu sei fazer me entedia; o que não sei fazer me entristece.

― Paul Valéry.

The only way to keep your health is to eat what you don't want, drink what you don't like, and do what you'd rather not.

― Mark Twain.

#notas #tecnologia #cotidiano


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Fragmentos do meu diário. Entrada do dia sete de abril de 2026, terça-feira:

Estranho dizer que sinto prazer em acordar cedo. Talvez o que eu goste mesmo é de manter firme uma rotina e ver que consigo fazer com que as coisas fluam. Às vezes lembro de “Dias Perfeitos” e da rotina impecável e tranquila de Hirayama. Uma rotina tão simplesmente cíclica que lembra até a de um animal selvagem.

Além de tudo, Fortaleza fica muito bonita e agradável à hora da aurora, em torno de 5h30. Não há o sol escaldante habitual, mas ainda assim há uma débil luz; a rua é deserta; e, por alguma razão, sinto-me muito mais presente do que em qualquer hora do dia.

Mais do que em qualquer outra hora, vemos a cidade tal como é: um teatro vazio, que depende de nós para funcionar...

Dia 19 de maio de 2026:

[...]

Ao menos as terças-feiras me animam; é quando acordo mais cedo; ao tomar o ônibus, vejo o nascer do sol às 5h50; quando chego em Messejana, tenho um tempo livre até que o próximo [ônibus] apareça. Daí fico um tempo no piér da Lagoa da Messejana.

Quando estive nesta paisagem ouvindo a Rádio Universitária, tive um ímpeto de otimismo, e pensei que talvez afinal eu precise mesmo passar por tudo isso por que passo. Espero que algum dia eu colha um fruto dessas sementes que planto não sei como.

#cotidiano


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Pintura em estilo impressionista de um homem loiro e calvo, com óculos estilo “pince-nez”, de barba e com fraque. Ao fundo é posível ver um teclado de um piano e partituras. O homem está com uma postura sagaz, de sobrancelhas arqueadas, com a mão esquerda gentilmente encostada no rosto.

Detalhe de retrato de um jovem Erik Satie feito por Antoine de la Rochefoucauld, 1894.

Tenho uma estranha atração por sujeitos estranhos. Talvez porque eu seja um, sim. Mas também porque, levando uma vida tão anódina, me encanta ver alguém “desafinando o coro dos contentes”, como dizia o poeta piauiense Torquato Neto ― outro esquisitão.

Quando conheço figuras assim, dissidentes de sua própria época, passo a pesquisar sobre tudo o que as circunda. Uma delas é o compositor francês Erik Satie, que viveu sua vida como um performer, como vocês verão logo abaixo.

Satie é o dono da composição “Gymnopédie nº 1”, incluída em playlists “Once upon a time in Paris”, que inclusive, por conta de sua natureza introspectiva, costuma aparecer com sample de edições de lo-fi hip-hop.

Vivendo no período entre o fim do século XIX e começo do XX, tempo em que o pensamento positivista ainda era predominante, ele passou a manter um estilo de vida extremamente excêntrico e contraditório, para não dizer antinormativo, colecionando proposições artísticas e causos populares.

Outro dia estava folheando o livro “Música impopular” do compositor e crítico musical paulista Júlio Medaglia, onde o escritor fala sobre os principais nomes da música experimental do século passado, quando trombei com o texto sobre Satie que quero compartilhar aqui. Para expandi-lo e não o reduzir a um copicola, linkarei as composições que Medaglia mencionar.

Para quem se interessar pelo artista, sugiro a escuta do episódio “Interferências” do podcast Ser Sonoro que fala sobre outras anedotas “satí(e)ricas”e sobre a linguagem musical do compositor francês.

Boa leitura!

“Erik Satie: só o humor constrói”, de Júlio Medaglia

Bach codificou a gramática da composição musical do Ocidente. Mozart e Haydn estabeleceram formas amplas de expressão ― a sinfonia, a sonata etc. Beethoven, apoiado nessa gramática e nessas formas, subverteu as estruturas composicionais, criando contradições no discurso musical do início do século XIX, liberando a criação para procedimentos mais livres. Os principais compositores românticos aproveitaram-se disso e conduziram a criação musical ao subjetivismo, praticamente inventando uma forma nova para cada obra. Schönberg levou essa subjetividade e essa individualização da expressão ao extremo, à neurose, digamos, desembocando no que se convencionou chamar de expressionismo. Stravinsky e Varese “barbarizaram” a doce arte dos sons, espantando os mais bem-informados ouvidos e conceitos da época. Poderíamos seguir nesse raciocínio simplório, apoiando mais alguns nomes de personalidades de nossa evolução artística, que com talento e coragem mudaram o curso da história da música. Existe um elemento, porém, que, com igual talento e coragem, abalou as estruturas da música deste século, azucrinando corações e mentes de músicos, críticos e teóricos, mas, cuja arma empregada em sua investida contra ideias desgastadas era até então desconhecida: o humor ― mais precisamente o deboche. Depois de ter atuado como um verdadeiro “pai” do Impressionismo, conduzindo Debussy pelas mãos à criação de uma música “sem sabor de chucrute”, Erik Satie impacientou-se com os rumos que tomava a criação daquele período, despejando seu humor devastador contra tudo e contra todos. Acusado de amador por aqueles que só acreditavam na revolução feito sobre trilhos estáveis, Satie tira um diploma de compositor “com distinção” na Schola Cantorum de Paris aos quarenta anos de idade para que ninguém tivesse dúvidas quanto à sua capacidade técnica. Num período em que os autores se deliciavam, compondo obras com horas de duração, ele compunha peças com 18, 30 segundos. Acusado de incapaz para compor obras maiores, faz “Vexations”, com dois dias de duração.

Quando o impressionismo francês se encanta com os exotismos da forte musicalidade espanhola, ele compõe uma obra chamada de “Espanhanha”. Aí, todos os maneirismos dessa música são devidamente anarquizados. No momento em que Debussy se queixa de que as obras de Satie carecem de uma definição formal, ele lhe envia “três peças em forma de pera”. Aliás, no período em que o impressionismo, ainda em evolução, caracterizava suas composições como “Clair de lune”, “Nuages”, “De l'aube a midi sur la mer” ele contra-atacava com as suas, assim chamadas: “Embriões ressecados”, “Esboços e provocações de um cafetão de pau”, “Fantasiado de cavalo”, “Três valsas para um esnobe execrável”, “Prelúdios verdadeiramente flácidos” etc. Satie criou os primeiros happenings na música europeia, fazendo entrar um Citroën no palco em plena execução de uma de suas músicas, ou colocando sons e instrumentos “não musicais”, como máquinas de escrever, apito de navio, ruído de roda de loteria, barulho de água, sirenes , buzinas ou tiros de revólver, em seu balé “Parade”. Para essa obra, aliás, encomendou um cenário a Picasso, obrigando o pintor a executá-lo em público. A cada pincelada do genial espanhol, todos aplaudiam. Para um de seus balés, Satie solicitou que a segunda parte não fosse dançada no palco, mas sim filmada. Encomendou, então, o trabalho de René Clair, que assim filmou o seu famoso “Entr'acte”. A orquestra acompanha, a cada segundo, a movimentação das cenas, sendo assim a primeira trilha sonora original para cinema (o velho maluco que aparece no início do filme pulando na frente de um canhão é o próprio Satie) [Nota: no link anterior, ele aparece aos 2m15s].

Imagem de um homem idoso olhando para a câmera; ele está com o dedo indicador na bochecha, como quem a coça; ele está com óculos de aro fino.

Do tempo da gravação de “Entr'acte”, 1920. Retrato por Henri Manuel. Colorido artificialmente.

Vivendo na mais absoluta pobreza no bairro de Arcueil, 16 quilômetros distante de Paris, num quarto sempre de portas e janelas fechadas e onde ninguém entrou até sua morte e onde havia apenas uma cama, uma escrivaninha e dois pianos (um em cima do outro) Satie conseguiu incomodar, mas não provar aos seus contemporâneos que o questionamento bem-humorado da cultura da época que ele propunha fazia sentido.

Como este texto não é sonoro, aqui ficam algumas de suas “tacadas” para que o leitor tenha uma ideia de seu h senso de amor à música.

A jornada de um músico.

O artista deve organizar sua vida. Vejam a programação de minhas atividades diárias: às 7h18m eu acordo; das 10h23m às 11h47m eu me inspiro; às 12h11m eu tomo o desjejum e deixo a mesa às 12h14m. Faço um salutar passeio a cavalo às 13h19m até as 16h7m. Ocupações diversas (esgrima, reflexões, imobilidade, visitas, contemplação, excitação, natação etc.) das 16h20m às 18h47m. O jantar é servido às 19h16m e termina às 19h20m. Leitura de partituras em voz alta, das 20h9m às 21h59m. Deito-me regularmente às 22h37m. Semanalmente (na terça-feira) eu acordo sobressaltado às 3h19m.

Eu só me alimento com comida branca; ovos, açúcar, ossos ralados, gordura animal, vitela, sal, coco, frango curtido em molho branco, suco de frutas, de arroz, de nabo, patês, queijos (brancos), salada de algodão e peixes (sem escama).

Eu fervo o meu vinho, espero esfriar e o bebo com uma pitada de fúcsia. Tenho bom apetite e nunca falo enquanto como (de medo de me engasgar). Respiro com cuidado (pouco de cada vez). Danço raramente. Eu ando sempre de lado para ver bem quem me segue. Eu rio das coisas sérias, mas não deixo transparecer. Eu durmo apenas com um olho fechado. Minha cama é redonda e tem um buraco onde eu coloco a cabeça. De hora em hora um empregado toma minha temperatura e me devolve uma outra. Meu médico me recomendou para fumar diariamente e diz: “Se você não fumar, alguém fumará em seu lugar”.

Cocteau me ama (até demais), eu sei... Mas por que será que ele me dá tantos pontapés por debaixo da mesa?

Ravel recusou a “Legião de honra”, mas toda a sua música a aceita.

O negócio não é recusar a “Legião de honra” e sim fazer tudo para não a merecer.

Não se trata de ser antiwagneriano e sim fazer uma música sem sabor de chucrute.

Eu já disse que os animais são mais educados. Exemplo: um gato dorme numa poltrona. O homem vem e tira o gato. Eu jamais vi o contrário.

Os pintores e escultores vivem reproduzindo figuras de animais em suas obras. Os animais, eles mesmos, parecem ignorar por completo as artes plásticas. Eu desconheço qualquer pintura ou escultura feita por animais. Eles gostam, mesmo, é de música e arquitetura. Eles constroem ninhos e casas que são verdadeiras maravilhas artísticas e industriais para viver com suas famílias. E não resta dúvida de que eles praticam música até mais do que nós. Eles têm um código musical diferente do nosso, é bem verdade. Trata-se de uma outra escola. É preciso entender o que significa relinchar, miar, cacarejar, piar, mugir, latir, uivar, rugir, arrulhar, ronronar, grulhar, ganir para se ter uma ideia de sua arte sonora. Ela é tão bem ensinada de pai para filho que, em pouco tempo, o aluno se iguala ao mestre.

A Sociedade Protetora dos Animais protesta energicamente contra o recente engajamento de duas vacas pela Ópera de Paris para fazer um dueto em “Sortilégio”. Esses infelizes ruminantes, embriagados com o sucesso e em contato direto com a cabotinagem desses histrionistas, perdem pouco a pouco a sua dignidade e honradez profissional.

Jaques Dalcroze vem fazendo muito sucesso associando o esporte ao solfejo. Eu recomendo 3 sonatas de Beethoven, diariamente, que provocam um emagrecimento progressivo e muito sensível e 6 fugas de Bach, que exercem sobre as células gordurosas uma ação fulminante.

Atenção! O Teatro dos Campos Elísios comunica que providenciou uma equipe de orientadores ambulantes, encarregados de conduzir sãos e salvos às suas casas os professores de harmonia após cada representação da Sagração da Primavera de Stravinsky.

Quanto mais a gente se torna músico, mais a gente enlouquece.

O piano é como o dinheiro ― só é agradável para aqueles que o tocam.

Se me repugna dizer bem alto aquilo que eu penso bem baixo, é unicamente porque minha voz não é bastante forte.

Eu jamais leio um jornal que tem a minha opinião.

O impressionismo é a arte da imprecisão. Hoje em dia se caminha para a precisão.

Não devemos nos esquecer daquilo que acontece no music-hall e no circo. É de lá que vêm a criatividade, as tendências, as curiosidades, mais excitantes do métier.

Sim madame. Todos morrem normalmente (eu vou explodir).

Durante toda a Grande Guerra, Ravel foi observador das observações observadas por observação nos observatórios dos observadores onde se observava ao rés do chão. Ele prestou grandes serviços ao País.

A Ópera e o Louvre possuem frigorífico e ossaria.

Alguns artistas pretendem ser enterrados vivos.

Sinal dos tempos: o artista vem de um profissional. O amador vem do artista.

Mostre-me algo novo e eu começarei tudo outra vez.

Nossas composições são garantidas contra quintas e oitavas paralelas. Os compositores da casa só empregam harmonias tradicionais e devidamente aprovadas por longo uso. Ao gosto de hoje. Toda a nossa música moderna foi cuidadosamente retocada por nossos funcionários especializados. Nosso princípio comercial: fazer o novo com o velho.

Eu cago música.

#cultura


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Multidão de pessoas com beca em uma cerimônia de formatura dentro de um ginásio iluminado com holofotes. ao fundo é possível ver capelos voando e alguns confetes.

Imagem: Rafaelle “Hélia” Bernardo. O autor tendo o seu momento?

O fim da carreira na graduação nas peças de entretenimento é sempre anunciado com a fatídica cena dos capelos voando no ar ao som de “Marchas de Pompa e Circunstância”, de Edward Elgar. No nosso imaginário, depois que os capelos e livros e papéis e lágrimas caem, esse é o nosso grand finale, nosso “¡Adios, amigos!”. It's all, folks! C'est fini! Os créditos do filme de nossa vida faltam pouco subir na retina da mente. Quem dera se, ao menos uma vez, a vida fosse um filme da Sessão da Tarde...

Mas em outra tarde qualquer, com uma pastinha na mão, eu cruzava o campus da Universidade Estadual do Ceará outra vez. Eu estava um pouco descrente de que eu conseguiria meu diploma universitário, prometido há alguns meses logo após a formatura. Afinal, no Brasil, tudo que se relaciona à papelada requer duas ou três visitas. Além disso, estava preparado para dar de cara com a porta, pois já davam 16h no meu relógio quando passei pelo portão principal.

Chegando lá, a partir de um beco estreito pixado com poças d'água de ar-condicionado, surpresa: o departamento estava aberto! A porta de vidro cintilava ao sol da tarde finda. Abro-a gentilmente...

Um balcão envidraçado com capacidade para três funcionários era ocupado somente por um. Usava óculos e tinha barba e cabelo ralos.

― Boa tarde. Vim retirar o meu diploma universitário.

― Boa. Qual o curso e a data de formatura, por favor?

― Letras, final de janeiro deste ano.

― Documento com foto?

― Aqui.

Depois de catar o documento em uma caixa, aquele homem até então tão humilde tomou um tom professoral, como se falasse com um pupilo:

― Primeiramente parabéns pela conquista. Este é um momento de muita importância para a Universidade.

Então, entre cerimonioso e sarcástico:

―...e como retribuição, você ganha um brinde.

Debaixo da bancada, retirou um envelope um pouco maior do que uma folha A4, cujo amarelo, debaixo da luz fluorescente, mais do que qualquer outra coisa naquela sala sem enfeites ou avisos, brilhava.

A seguir, sacou daquela mesma região um papel fosco com o meu nome impresso.

― É o original?

― Cópia. Assine aqui.

Assinei. Delicada e cerimoniosamente, retirou debaixo um largo papel igualzinho ao anterior, mas no qual o escudo da Universidade brilhava. Apresentou-me então uma caneta que tinha uma pena bastante distinta, cuja extremidade segurava com as pontas do indicador e do polegar.

― Esta caneta tem uma tinta de rápida absorção. Agora assine cuidadosamente aqui...

Não sei se por toda a liturgia, acabei garatujando o meu próprio nome no documento. Por fim, falou-me a quais documentos eu teria direito de ter segunda via, deu algumas orientações sobre a conservação do papel do diploma e contou causos sobre gente que perdeu o documento.

Com um sorriso tímido no rosto, quase orgulhoso, como se fosse o próprio reitor, declarou enfim:

― Pronto, meu rapaz, agora você está oficialmente diplomado. Boa sorte na vida.

Sua voz ecoou na sala fria e sóbria. De repente um rumor de ar-condicionado, até então imperceptível, fez-se mais forte. Aquele era o fim definitivo.

Na memória ainda os flashes, os confetes e os capelos pairando no ar.

Mentiram para mim.

#cotidiano


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Reprodução de tela do navegador Offpunk. Uma tela com fundo escuro, e texto em branco. O título do texto está em vermelho e os “links” estão em azul. Abaixo, há uma imagem borrada que parece ser de um coelho.

Em um mundo compulsoriamente conectado, passei a interagir mais com páginas web desconectado através de Offpunk, um navegador desenhado para um uso humano da internet. Imagem: offpunk.net

Seguir feeds por RSS é complicado. “Complicado” não no sentido de ser difícil de usar. Falo da diversidade de conteúdo que o protocolo proporciona. Esse protocolo flexibiliza bastante o rol de publicações as quais pode se acompanhar, mas, exatamente por serem diversas, requerem dispositivos que se adequem a essa diversidade.

Já há mais ou menos quatro anos que tento distribuir meus feeds através de pelo menos três aparelhos: um telefone, um leitor digital Kindle e um computador.

Falei da minha experiência de [Kindle com RSS através deste artigo]

Leia mais com Kindle + RSS + calibre (Ideias de Chirico)

Entretanto, com tanta variedade midiática, é difícil organizar os conteúdos adequados para cada dispositivo.

Publicações curtos (microblogues, sobretudo) ficam no telefone; aquelas que tinham imagens como centro das publicações ficam no computador; outras que tinham textos mais longos, ficam no Kindle.

Lateralmente a esse fator, ainda havia o critério de conexão. A grande sacada do RSS em uma era perpassada pelo algoritmo e pela coleta massiva de dados é que ele apresenta uma internet que prescinde de conexão ininterrupta, que pode ser acessada posteriormente, sem acesso à conexão.

Alguns feeds, porém, exigiam essa conexão constante para que as imagens fossem carregadas. A grande maioria dos agregadores não as baixam em cache como ocorre com textos ou áudios (como é o caso de podcasts, que também são veiculados por RSS).

Além desses problemas, ainda havia o da contabilização dos posts não lidos. Já escrevi nestas Ideias de Chirico sobre a minha ojeriza contra a metrificação e a numeralização da vida digital.

Abandonando redes sociais “numéricas” (Ideias de Chirico)

Em todos os agregadores de feed que experimentei se quantifica quantos artigos ainda estão na fila de leitura; em consequência há um ímpeto de zerá-la a todo custo.

Não obstante tudo isso, a minha leitura se restringia somente àquilo que foi baixado, sem poder abrir links anexados caso estivesse offline ou momentaneamente sem conexão.

Foi aí que experimentei o navegador Offpunk.

Offpunk... Esse nome lhe deve ser familiar, não é? Afinal, foi esse navegador que batizou o Manifesto que publiquei mês passado.

Esse projeto foi desenvolvido por @ploum@mamot.fr, que também me ajudou a escrever o texto citado acima. Sua ideia era criar um meio de navegar entre os protocolos HTML, Gopher, Gemini e RSS (!), dentro de um terminal de computador (!), através de uma sincronização que poria todo o conteúdo carregado em cache temporário (!). (Tudo isso ainda somado com o bônus de os novos artigos não serem notificados ou numerados de alguma forma como acontece com a imensa maioria dos agregadores...)

Eu já conhecia o projeto, o experimentando por algumas páginas e me encantou muito a sua filosofia offline first, que atualmente aplico a basicamente todos os meus dispositivos. A experiência havia permanecido somente no campo da curiosidade. Mas somente agora dei uma chance real para inclui-lo dentro da minha rotina.

O foco principal do navegador Offpunk é o texto, mas veja só: ele permite o download de imagens! A minha jornada com RSS teve um final feliz. Com alguns desafios, porém.

Processo de adaptação

O primeiro desses desafios foi adequar-se à dinâmica do terminal. A minha experiência com esse recurso era até então um pouco superficial, ao qual eu recorria só para instalar algum programa de fora do repositório dedicado ao meu sistema operacional.

No início a interação com texto puro é esquisita, mas aos poucos o aspecto simplificado do terminal atrai e se acaba por criar simpatia pelo texto verde sobre um fundo preto. Além de tudo, a atividade no meu computador é mais orientada ao teclado do que ao mouse.

Dentro do navegador Offpunk, não há interação com qualquer recurso visual do tipo “botão” ou “campo de texto” por intermédio do mouse, a não ser para cópia de texto. Somado a isso, Ploum optou por acionar alguns comandos provindos do editor Vim para rolar pela página. Vim é tido como um dos editores de texto mais otimizados para teclado. Por eu já estar estudando Vim há um tempo, pude utilizar o que aprendi dentro do navegador. Mas deixo avisado que o conhecimento nesse software não é necessário para a navegação plena no Offpunk.

O segundo dos desafios foi o volume de comandos. Só para se ter ideia, para interagir com links dentro de uma página, há três possibilidades: “v” apresenta sua url; “t” adiciona-o a uma fila de leitua; por fim, ao escrever o seu número correspondente a um link, abre-se a página linkada, se ela já estiver em cache.

Porém, Ploum fez um ótimo trabalho de instrução com o seu tutorial; além disso, cada comando retorna uma descrição detalhada quando seguida de um “help”; todos os comandos documentados pela versão do usuário são listados quando se lança o comando “help” sozinho.

Junta a esses auxílios, a leitura dos workflow na página oficial do projeto dentro do protocolo Gemini me ajudou muito a entender as formas com as quais posso me apropriar do navegador. Destaco em especial o workflow de Ploum, que é, ao meu ver, o mais informativo de todos.

How I use Offpunk ― by Ploum (offpunk.net)

Salvei a página acima dentro de uma lista de “bookmarks” para, sempre que tiver algum tempo livre ou alguma dúvida, fazer uma leitura da página e experimentar algum comando novo.

Eu diria que a curva de aprendizado com esse navegador não ultrapassa uma semana se se praticar todos os dias com as instruções disponibilizadas no sítio oficial.

A fim de apresentar a forma com a qual navego com o programa, os recursos de que dispõe e como ele se comporta, apresentarei agora o meu próprio workflow, baseado no modelo citado.

Meu fluxo com Offpunk

Logo que acordo, ligo o computador. Minha rede sem fio é desativada por padrão, através de uma chave no teclado. Quando a ativo, abro o terminal, aciono o Offpunk e digito:

sync 50000

O número se refere ao tempo em minutos e atualiza todas as listas. 50 mil minutos é mais ou menos o tempo desde a última vez em que li todos os feeds. A minha lista de leitura é atualizada ao menos uma vez ao dia.

Como o Offpunk baixa não só texto, mas também imagens, ele custa um pouco a terminar o processo, mas não mais do que o tempo de fazer um café da manhã.

Uma vez que o carregamento acaba e o meu café está pronto, digito:

off

para garantir que nenhum outro dado seja carregado. Isso é importante para poupar e aproveitar os dados já em cache. A fim também de poupar bateria do meu computador, desativo a rede sem fio através daquele mesmo atalho no teclado.

Para seguir com artigos que foram carregados da minha lista RSS ou que salvei na fila de leitura (chamado de “tour”), escrevo

t

Caso o artigo seja legal, mas eu não tenho tempo o suficiente naquele momento, o direciono para a minha lista de “ler depois”:

add ler

Decidi nomear esta lista como “ler” porque é mais prático de ser digitado do que qualquer outro nome.

Ao fim do “tour”, vejo os artigos que estão na lista “ler” com

list ler

Após a leitura, arquivo o artigo:

archive

Isso garante que, caso eu precise retomar o texto lido, não precise revisitar o histórico, que pode ser acessado por

history

Essa última lista tem um limite de 200 sítios da web.

Alguns artigos vêm com imagens em formato de miniatura pixelada, como mostrada na reprodução no começo desta publicação. Caso eu queira abri-la em alta definição, digito

open X

onde “X” é seu número correspondente. Ela abrirá no leitor de imagens padrão do sistema, que no meu caso é o Ristretto. Se ela me interessar, faço uma cópia com Ctrl + S.

Caso eu queira ver para onde vai um link posto em um texto, posso ver a sua url com

v X

em que “X” é o número do link. Se ele parecer legal, ponho-o na lista de sincronização com

t X

e aí na próxima vez que o Offpunk for atualizado, o artigo poderá ser visitado através de um “tour”. Quer dizer, não só o artigo, mas os links que estão conectados àquela página.

Se o sítio for interessante, talvez eu queira compartilhá-lo com um amigo por e-mail:

share

(para abrir o meu cliente de e-mail com o link no corpo de texto) ou

share email@dominio.com

(para direcionar o endereço direto para algum contato específico).

Posso também seguir o sítio por RSS, caso o navegador forneça um feed:

add rss

A lista “rss” é atualizada com “sync” e seus novos artigos são postos em “tour”. Mas tenho uma outra lista que é atualizada, mas seus artigos só podem ser lidos caso eu os visite:

list news

Essa é útil para fontes que são muito noticiosas ou que às vezes vêm com a visualização quebrada (sobretudo perfis do Mastodon).

Caso eu já tenha visto tudo, checo ainda se não há mais nada a ser lido com

list tour

e saio da aplicação com Ctrl + D.

E a navegação conectada?

Quanto à pesquisa, Offpunk é focado em artigos publicados no protocolo Gemini, através do motor de busca Kennedy.

Há uma forma de modificar o motor de busca padrão, mas até agora não encontrei nenhum que rodasse dentro do Offpunk. Tampouco faço buscas constantes no protocolo Gemini. Talvez eu devesse lhe dar mais chance.

Caso eu precise buscar alguma informação conectado, abro meu navegador padrão (Librewolf), vejo se há alguma página que me seja útil e daí, se eu não tiver disponibilidade para uma leitura aprofundada, abro o navegador Offpunk, colo o endereço da página e em seguida escrevo

tour

Assim, tem-se não só um navegador, mas um agregador de feeds e uma pasta de leituras pendentes potencializados com imagens e links anexados salvos em cache, e munidos de uma navegação privada, já que as páginas não são carregadas em uma interface visual com Javascript ativo.

Definitivamente, Offpunk é um navegador desenhado para um uso humano da internet, no qual o usuário, não um terceiro (algoritmo, notificação ou plataforma), é quem decide o seu caminho a ser trilhado e a frequência de seu acesso.

Cruzadinha com as palavras 'Gopher', 'Gemini', 'RSS', 'Offline first', 'Smol web' e 'Terminal' que formam a palavra 'Resist'

Imagem: offpunk.net

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Escrevi o Manifesto Offpunk com @ploum@mamot.fr, mas tomei a liberdade de desenhar os signos que o anunciariam. Como não tenho certeza de que esses estão claros para todos, decidi dissertar um pouco sobre o porquê de minhas escolhas.

Alguns desses comentários vêm de conversas que tive com @diegopds@bolha.us ― que, aliás, escreveu um pouco sobre o meu texto.

O primeiro símbolo que pensei relacionado ao estar desconectado que pensei seria o ícone de rede sem fio com uma haste de proibição. Porém, lembrei já quase de imediato da moda oportunista, e rapidamente caída no ostracismo, da frase “Não temos wi-fi, conversem entre vocês” posta nos cafés e restaurantes dos primeiros anos da Web 2.0.

Queria, então, trabalhar com uma ideia ambígua a partir desse ícone, que não o anulasse, mas que, ao mesmo tempo, o subvertesse. A melhor opção, então, seria invertê-lo.

Por um lado a rede sem fio invertida lembra um pouco a pirâmide. Aí se estabeleceria um ideograma (isto é, dois ícones cruzados para dar ideia de um terceiro): a inversão por um lado indica que a conectividade sugere um exercício de poder (do usuário, que tem nesta um símbolo de prestígio, mas também das empresas de tecnologia, concentradoras do capital desse mercdo); por outro, “inverter” a rede é uma atitude iconoclasta, análoga a retirar-lhe a importância.

É como os ateus que invertem a cruz cristã. Assim como a cruz cristã invertida, o símbolo “Offpunk” apontam para o chão, para o inferno.

Há uma contradição no meio disso tudo: a internet sempre foi a promessa do transcendente; o sinal de wi-fi, porém, aponta para baixo, o que indicia o terreno e o imanente. O signo do Offpunk não resolve essa contradição, e até o perturba ainda mais: postura que almeja uma presença plena, apontando para cima, tende a dar, por sua vez, ideia de transcendência.

Porém, tudo isso vem de um esforço também de não se definir pela negação. Como dito há pouco, em um primeiro momento, rascunhei uma logo de “Proibido wi-fi”. Isso soaria como um discurso bem conservador. O “anti-tudo” não cria, só descria.

Mas o que me motivou mesmo a mantê-lo é que ele passa a ideia ploumiana de “offline-first”, como expresso em seu “Computador feito para durar 50 anos”. Ao ler o manifesto do Forever Computer, percebi que ir contra a conectividade compulsória e compulsiva não é defender o fim da internet, mas apropriar-se da conectividade e adequá-la ritmo da vida.

Como eu disse no Manifesto, o Offpunk enquanto estética ainda não é estabelecido. O ícone de rede invertida é o primeiro passo nessa direção.

#notas #tecnologia #cultura


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