Ideias de Chirico

Em lembrança do pintor surrealista greco-italiano Giorgio de Chirico (1888 – 1978), o maior ilustrador de ideias de jerico ― e de Chirico!

Animação em 3D. Um tablet em formato de sapo com várias telas abertas olha para os brinquedos protagonistas de Toy Story

Imagem: O tablet Lilypad, vilão de “Toy Story 5”, se autopragramando.

É atribuída ao cientista e escritor britânico Arthur Clarke a ideia de que, quanto mais se desenvolve a tecnologia, mais acreditamos em magia. Essa premissa cai muito bem no novo número da franquia “Toy Story”, lançado neste ano, em que os dispositivos eletrônicos tomam a centralidade do filme.

Nesta sequência, Bonnie, uma criança de oito anos que herdou os brinquedos de Woody (dos primeiros “Toy Story”), vê-se sozinha ao buscar companhias com as quais brincar, já que não está conectada como suas vizinhas. Tudo muda quando ganha um tablet-sapo, com o qual pode se comunicar com suas amigas. Pressionada pela opinião pública através dos chats, decide doar os brinquedos, que vão cair no quintal de Blaze, outra criança da zona rural também conectada, mas com a imaginação mais viva.

É comum em animações da Pixar que objetos inanimados sejam antropomorfizados. Carros, insetos, brinquedos ― tudo toma um quê humano. Esse processo semiótico toma outro valor quando o assunto é tecnologia. Afinal, o folclore contemporâneo é de que telefones, tablets e computadores nos observam e nos analisam.

“Toy Story 5” está longe de desmistificar esta ideia. Na peça não há a menor menção ao problema de interfaces desenhadas para manter os usuários ou mesmo ao problema de conteúdos inadequados a crianças: tudo tem a ver com a tela como um perigoso portal para o além-lar e para o estranho à cultura familiar.

“Toy Story 5” não busca tirar o véu que cobre aquele folclore em alguma atitude que leve ao letramento midiático, tão necessário ao nosso tempo. Não. Mas, em vez disso, faz uma proposta tecnopedagógica.

A personagem secundária da trama, Blaze, no começo de sua infância, possuiu uma série de apetrechos eletrônicos que, de certa forma, a prepararam para o mundo digitalizado: o mapa-hipopótamo, a minicâmera digital e o “Amigo Rolinho” (uma espécie de mensageiro portátil), que substituíram a necessidade de um smartphone moderno.

Considerando que o smartphone é já uma miniaturização do computador, o longa-metragem então propõe a composição de um conjunto de “miniaturas de miniaturas de computador” destinadas às crianças como forma de prepará-las para a vida digitalizada.

Algo nesta direção, aliás, é muito frequente nos episódios do podcast de tecnologia Resumido, cujo anfitrião defende que haja sistemas operacionais desenhados para crianças de modo a resguardá-las de designs maliciosos.

Não é à toa que Blaze é apresentada como a única “vacinada” contra o vício em telas entre os humanos, aquela que tem uma relação saudável (isto é, não subserviente) com as tecnologias. Mesmo utilizando dispositivos digitais “ricos” em recursos, ela não deixou de interagir com seu mundo concreto imediato, de socializar e de trabalhar a imaginação. Para ela, estes não passam de ferramentas dentro de um mundo rústico de que participa.

Outro acerto do filme é enxergar a tela como intermediário, não como fim. O tablet aparece na vida da protagonista, não para “aquietá-la” ou para distraí-la, mas porque precisa fazer pontes sociais em um mundo sugado pela tela.

Essa perspectiva, porém, leva a um outro problema não tangenciado por “Toy Story 5”: para tornar um dispositivo um intermediário “frio”, urge investimento de tempo em configuração e manutenção.

O filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser, em “O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação”, aponta que as tecnologias eletrônicas deram-nos um pouco mais de liberdade pragmática de optar por uma miríade de combinações de configurações ― impossível para os padrões analógicos, sob os quais éramos duramente submetidos a um “programa” definido por um terceiro.

Flusser então define o mundo de meios de comunicação como aquele no qual há a classe dos “programados”, que utilizam os meios desenhados por outros, e a classe dos “programadores”, que definem como esses meios serão. Isto foi escrito no início dos 1970, quando o padrão do computador doméstico ainda estava sendo definido e a rede de computadores ainda estava circunscrito às universidades.

Já na era digital contemporânea, ao manipularmos as aplicações ao nosso bel-prazer, somos impelidos a sermos não só programados, mas também programadores, já que temos alguma liberdade de definir como será a usabilidade de nossos dispositivos, ainda que limitadamente a depender do dispositivo. Para tanto, é necessário letramento.

Essa liberdade, porém, é pouco explorada em filmes que abordam o uso de tecnologias, cobrindo-lhes com mais uma camada de mistificação. Aí os aparelhos eletrônicos são mostrados como objetos do tipo “ligue e use” como os do período pré-digital. Nada mais fantasioso.

No longa-metragem, como os pais não tomaram a iniciativa de manter a tela da filha debaixo de seus olhos, o tablet quando se sente ameaçado, decide se autoprogramar. Aqui, uma metáfora perfeita dos dark pattern de aplicativos de grandes empresas de tecnologia, feitos para a manipulação de comportamentos, e para o controle e coleta de dados. Essa faceta dos dispositivos, é claro, também não é abordado pelo filme.

Se há algum tempo os pais ou responsáveis por crianças traziam animais domesticados para fazerem companhia aos filhos pequenos, hoje lhes trazem telefones, tablets e computadores programados por um completo estranho ― na prática, se trazem cães selvagens para a sala de estar.


Sou Arlon de Serra Grande, professor, ensaísta, poeta, entusiasta de Linux e autor do livro autopublicado “Estudando Poesia” em que reflito sobre como se dá o aprendizado da linguagem poética. Se quiser adquirir um exemplar, fazer uma contribuição para este blogueiro, fazer recomendações, sugerir correções de texto ou comentar este post, clique no link abaixo.


#tecnologia

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Algumas vezes pensamos que a internet se resume a três ou quatro “apps”, e que é disso tudo que se trata a vida virtual na década de 2020. Para piorar, ainda temos a ação algorítmica de um chatbot que, voluntária ou involuntariamente, intermedeia a nossa navegação e concentra informações que estão em milhares de sítios web em alguns tópicos mais ou menos úteis.

Aí em um belo dia, temos uma dúvida. Boa mesmo. Entramos em uma página qualquer. Nesta página há um link que nos leva a outro que nos leva a outro. De repente estamos enlaçados ― não é à toa que os hispano-hablantes tratam os links por enlaces!

Esta sensação de serendipidade e de descoberta espontânea é cada vez mais rara neste curralzinho em que as grandes corporações nos meteram.

Mas vou falar da descoberta mais recente que me retornou esta sensação.

No último fim de semana formatei meu computador. O meu novo sistema, Debian, veio quase “puro”, sem pacotes e drivers pré-instalados, o que precisou que eu fosse atrás deles sempre que desse algum problema ou alguma conexão não fosse reconhecida.

Estava aqui mexendo com o GRUB do meu sistema. Para quem não sabe, GRUB é tipo um portal dos sistemas abertos e gratuitos. É ele quem define qual será a primeira mídia que vai carregar, quanto tempo levará para abrir, se vai mostrar as opções de mídia e tal.

Acontece que o GRUB sempre perguntava qual sistema eu queria carregar, pedindo enter sempre. Cansado de sempre ter que esperar por isso, fui atrás de saber como automatizar esse processo.

No meio disso, tive que abrir um arquivo de script que define como o GRUB se comportará; resolvi o problema de automatização, mas lá no finzinho do arquivo tinha uma nota dizendo assim:

Uncomment to get a beep at grub start

(Isto é, “'Descomente' para ter o bipe na inicialização do GRUB”).

Aí eu: “O que diabo é esse bipe?”

Bom, ativei essa opção e reiniciei a máquina.

O “bipe” em questão era o aviso que os computadores de até meados de 2010 costumavam dar para dizer que a máquina estava íntegra. Até esse período as fabricantes punham por padrão uma peça chamada “alto-falante piezoelétrico” (ou “piezo”), uma espécie de campainha que gera som a partir de movimento mecânico com aplicação de tensão elétrica. Hoje em dia, ao menos para notebooks, os bipes funcionam de outra forma.

Se esta descrição ainda ficou abstrata, é só lembrar das melodias do Gameboy ou de minigames ― eles usam mecanismos parecidos.

A linha do meu notebook, um Dell Inspiron 3421 (de 2013), foi uma das últimas, presumo, a adicionar o “piezo” na placa-mãe. Daí o meu susto: não é comum notebooks biparem!

Mas como gostei daquilo! Era um som alto, vivo, sério, que ritualizava o uso do computador... Só que o tom era meio frio, uma nota “lá” com um timbre de pai que chama pra jantar tarde da noite. Queria um tom mais aberto, mais alegre, algo que dissesse “Tudo pronto!”

Pesquisei, pesquisei, aí encontrei o tom que queria, deixei assim:

GRUB _ INIT _ TUNE=“480 880 1”

Não vou saber explicar tintim por tintim como esse código funciona, mas um desses números diz a frequência da vibração (isto é, seu tom), outro, o tanto de tempo que ele permanecerá e outra coisa que agora não sei dizer. “GRUB _ INIT _ TUNE”, significa literalmente “toque de inicialização do GRUB”. Resumo da ópera: esses três números aí valem só por um bipe.

Nisso fiquei pensando “Se tem um código assim, quer dizer que dá para programar melodias, não?”

Pois sim. Dá para programar melodias para serem tocadas na inicialização do computador, sim, senhor! Sem programas de interfaces complexas e usando recursos mínimos, o laptop vira um instrumento musical!

Só que aí que vem o problema: não queria ficar reiniciando a máquina sempre só para ouvir a melodia. Eis que há um sítio do Github, o Breadmaker, que emula um GRUB _ INIT _ TUNE fornecido. No link do Breadmaker a seguir, vocês podem ver um efeito sonoro bem conhecido:

• GRUB _ INIT _ TUNE tester v0.9.5

Fui entrando um pouco mais nisso e descobri que há toda uma comunidade em torno de composições e covers com bipes de GRUB.

Pelo Youtube dá para encontrar registros (bem antigos aliás) de algumas dessas melodias postas em prática.

• Final Countdown

• Marcha de Darth Vander

Infelizmente, não encontrei o que eu queria: um conjunto de computadores preparados para tocarem tons harmonicamente, numa pegada bem kraftwerkiana. Fica aí a ideia.

Isso é só um lembrete de como a internet ainda pode ser um lugar de descoberta e de relações comunitárias ― ainda que seja para nerdices e experimentações de nicho.


Sou Arlon de Serra Grande, professor, ensaísta, poeta, entusiasta de Linux e autor do livro autopublicado “Estudando Poesia” em que reflito sobre como se dá o aprendizado da linguagem poética. Se quiser adquirir um exemplar, fazer uma contribuição para este blogueiro, fazer recomendações, sugerir correções de texto ou comentar este post, clique no link abaixo.


#tecnologia

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Imagem com texto em inglês: 'Tecnologia é a resposta, mas qual é a pergunta?'

“Tecnologia é a resposta, mas qual é a pergunta?”

Algumas coisinhas que tenho guardadas aqui em uma pasta do computador de navegações e recomendações recebidas. Aproveitem.

“The tedium is the message”

Antigamente assistir à televisão em pleno domingo era sinônimo de tédio. Agora, é sinônimo de fuga de infobesidade. Li outro dia que na nossa época assistir à televisão desacompanhado de telefone conta como meditação...

Depois de “Sei que nada sei”, vem aí: “Não sei se algo sei”

Sei de tanta coisa... mas ao mesmo tempo não sei dizer com profundidade sobre nada do que sei. Será que sei o que sei?

Animação cíclica mostrando uma pessoa com um dispositivo de dar tapinhas nas costas. Na parte superior, há 'figura 1' denotando que a figura vem de um manual de instruções

“Chat, estou certo sobre a última discussão que tive com a minha namorada?”.

Proposta de aportuguesamento

Sou de mudar o nome air-fryer para “frita-a-ar”.

Poemazia

Desisti de publicar poemas em redes sociais. Poesia não é algoritmizável.

Curadoria x algoritmo

Só acredito no algoritmo da curadoria humana.

Se o direito geral de criar links não for respeitado por algum motivo, então os princípios fundamentais da liberdade de expressão estarão em risco, e é melhor que algo seja mudado.

Berners-Lee escreveu isso em 2000, mais de uma década antes de virar moda entre as redes boicotar links externos. Eles não existem no corpo de texto do Instagram, por exemplo – o que faz com que você ouça “clique no link na bio” e “arrasta pra cima” o tempo todo.

Afinal de contas, uma internet que não é descentralizada é um curral.

Metaconteúdo

O produtor de conteúdo cujo conteúdo é o próprio produtor.

Blogroll

Bem-vindo ao fim da internet. Vá fazer outra coisa.

• ¡Felicidades! (texto-plano.xyz).

Surpresinha no terminal: um “ovo de Páscoa” superinteressante que descobri no meu Xubuntu:

'calendar'

Ele mostra efemérides da data de lançamento e do dia que virá, de forma bem sucinta. Não precisei instalar nada, então aparentemente ele é pré-instalado nos terminais. Mais uma para os apaixonados de datas históricas, além da etiqueta #NaData.

Linux é massa!

After selling us all these services/gadgets to make our lives “easier”, companies are now looking to sell us MORE shit to re-introduce the friction that they once removed. But making something more difficult to access may force you to make A decision. That doesn’t mean that decision will be a GOOD one.

• I'm sick of being intentional (Cybercelibate ― Substack).

Minimalismo digital não é uma fuga do digital, mas uma inconformidade individual mercantilizada ― como já foi dito no Manifesto Offpunk

Nat (@njms@social.coop) reflete sobre o que faz a tecnologia atual desalmada e dá alguns caminhos de como tornar a internet mais humana (e cita o Manifesto Offpunk!)

• Studying computer science in a world of infinite possibility (njms.ca)

Artigo da Superinteressante falando sobre a indie web, especialmente feita para enviar para aquele amigo que você quer tirar dos jardins murados. Via Manual do Usuário (cujo mantenedor é entrevistado).

• Internet à moda antiga: conheça a indie web, onde as pessoas ainda fazem seus próprios sites (super.abril.com.br)

Ricardo A. B. Graça disserta sobre a ficção de que mais equipamentos levam a mais criatividade.

• A falácia do setup perfeito: por que comprar não é criar (rizomatico.org)

Autoexplicativo:

• Neubrutalismo: o guia definitivo para o movimento de design que recusa ser invisível (neubrutalism.com)

Pedro Dalbo fala sobre o deskmod, “a arte de personalizar o ambiente de trabalho de sistemas operacionais com a ajuda de programas e resources”

• Deskmod, uma arte esquecida (pedro.dalbo.me)

Citações

“Hacking” in the 1990's : Learn Unix system and commands. Learn C. Learn SQL. Use an injection exploit to get remote access. Use a buffer overflow for privilege escalation. Write a stealth program that will “Do what I want”.

“Hacking” in 2026 : Open Word document. Write “Dear AI, do what I want !”. Make the text white on white background. Seriously, if I had read this post 25 years ago, I would have believed it was part of the idiocracy script...

― @ploum@mamot.fr em tute

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Imagem de dois palhaços dentro de um carrossel de parque de diversões

Imagem: capa do álbum “Sound Circo”, de O Cheiro do Queijo.

Em julho deste ano, um grupo de rap apareceu no programa Cultura Livre, da gloriosa TV Cultura.

No Cultura Livre já apareceram Xablau, Tim Bernardes, Catatau, Juçara Marçal e outros figurões da música alternativa brasileira contemporânea, pateticamente chamada de “nova MPB”.

(Um picho daqui de Fortaleza diz que MPB deveria significar “Música Periférica Brasileira” ― é do que se trata o que vou falar agora).

“A revolução vem do interior” (“Distrito Santo Pacífico”).

E aí esse grupo de rap, além de ser da periferia do Brasil, mais precisamente Maracanaú (na grande Fortaleza), é formado por artistas de rua, gente que cantava em pontos de ônibus. Para ser mais preciso, era gente do circo. Gente da itinerância mesmo.

Mas como dizia vovó, humor é coisa séria.

O Cheiro do Queijo é mais do que um grupo de rap, é um grupo de invenção, isto é, ultrapassa a música e cai no happening, pratica um rap-happening, digo, um rappening.

Afinal, sua música não está singularmente no som ou na palavra, mas no gesto dantesco, na roupa bufônica, no movimento corporal circense; não está aqui ou ali, mas aqui e ali; está em toda parte, com partes que se entrechocam.

E quando não há parte alguma, ainda há palavra falada.

O que interessa mais a este texto, porém, é a tática semiótica dO Cheiro do Queijo. Praticando esse rappening, aparenta ser um happy-rap. Circo, cores, palhaçada, gaiatice: e tascam-lhe de palhaços.

E... de certa forma, eles o são. As letras, longe de carregarem o cenho franzido de um Sabotage ou de um Criolo, esbofetam, zombam, troçam e nos levam a um riso reflexivo, uma habilidade própria dos palhaços.

(Diz-se que nas antigas monarquias aos palhaços, e somente a eles, era dado o direito de criticar o rei ― aliás, Marshall McLuhan, o grande teórico-teólogo das mídias, costumava dizer que toda piada era na verdade uma reclamação).

“Bota a mão na parede!”

Pois bem.

Em comentários nas redes sociais, gente que caiu de paraquedas no vídeo do grupo cearense o batizou de “Patati & Patatá Cult”. Como se afinal fosse algum demérito musical ou estético parecem palhaços.

É ainda aquela ideia renitente na cabeça do povo de que o compositor brasileiro deve ser um “complexado”, que Tom Zé critica em “Complexo de Épico”.

“E eu só queria ser um artista, tive que tirar CNPJ” (“Aburocracia”).

Mas eis que um dos vocalistas dO Cheiro do Queijo, Abu da Pereba, responde à habitual pergunta no fim do programa:

― “Cultura Livre” segundo O Cheiro do Queijo?

― “Cultura Livre” é cearense não precisar vir pra São Paulo pra fazer sucesso.

Riram.

Mas todos nós sabíamos que aquele “palhaço” foi mais sério do que nunca.

#cultura


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Pouco antes de encerrar os links destas notas, soube que um grande amigo meu morreu nas condições mais dramáticas possíveis. Não quero o detalhar por respeito à sua família. Durante 2022 dividimos apartamento no centro e desde então nos tornamos companheiros em uma cidade que parece tão hostil a quem não nasceu nela.

Infelizmente as coisas do mundo foram o empurrando até que basicamente aceitou a morte chegar. Isso me fez pensar em como, no nosso planeta, tudo está interligado. O bater das asas de uma borboleta na América do Sul pode gerar a longo prazo um tornado na América do Norte ― é o que se costuma dizer.

Como não tenho palavras para descrever essa sensação, estou incapaz de desenvolver melhor o que passo, mas quero deixar minha homenagem a Caio Renan Ferreira, o “Caioso”, o cara mais suave que já conheci, dedicando este pequeno post à sua memória.

Boa leitura.

Linkroll

Nicholas Carr faz um comentário sobre o nosso uso intensivo de telefones a fim de buscar artigos para se libertar do vício... em telefones.

I hate to be a cynic, but I’m guessing the main reason for the proliferation of these sorts of articles is that they’re algorithmic catnip. They’re symptoms of the illness they seek to cure. We’re addicted to reading about our addiction to phones. If the pieces have a therapeutic value, it probably lies less in helping people gain control over media than in renewing a reassuring fantasy of such control.

• The Scrolly Chair (New Cartographies).

(O pior de tudo é que essa lógica se aplica a tudo que é antitech... É o algoritmo comendo tudo).

Fascinado com Hanoi Hannah, uma radialista vietnamita que, nos anos da Guerra do Vietnã, transmitia mensagens em inglês pelas florestas desmoralizando os G.I. (ground invaders), i. e., os estadunidenses ― que, se faça lembrar, levaram um pau na guerra. Dizem que os combatentes invasores ficaram com recordações de sua voz até o fim da vida.

Como vai, GI Joe? Me parece que a maioria de vocês está mal informada sobre como vai a guerra, para não falar sobre a explicação correta a respeito da sua presença aqui. Nada é mais confuso do que ser mandado para morrer em uma guerra ou mutilado em vida sem a menor ideia do que está ocorrendo.

― trecho de um dos discursos de Hanoi Hannah, citação da Wiki.

• Hanoi Hannah – GI! (Youtube ― em inglês).

Imagem de Hanoi Hannah, uma mulher amarela sorridente

Hanoi Hannah.

Saiu uma tradução em francês do “Manifesto Offpunk” coescrito por mim com o Ploum! Como traduzir não é transcrever, Ploum fez através de sua versão francófona vários comentários que adicionei à versão original, em português.

• Un manifeste Offpunk (ploum.net)

Nesse meio tempo, vi o mesmo Manifesto sendo compartilhado em um blogue hispanófono!

• El manifesto Offpunk (Microservios).

Tirinha de quatro quadrinhos. No primeiro quadrinho vemos um homem mais velho usando casaca e óculos observando um jovem de boné usando um smartphone enquanto está sentado; o balão acima diz 'Algumas vezes idosos acusam gente mais nova de estarem muito tempo nos telefones'. No segundo quadrinho o mesmo homem está diante da televisão sentado em uma poltrona ― no aparelho é possível ver comerciais; um comentário acima diz 'Mas mesmo esses idosos passam o mesmo tempo assistindo à T.V.'. No terceiro quadrinho, vemos uma mulher idosa de vestido cumprimentando uma moça mais nova de bandana; um comentário acima diz 'Não poderíamos apenas concordar que somos um bando de m* perdendo tempo,'. No último quadrinho, vemos uma senhora com colete e um rapaz com o símbolo da paz estampado na camisa abraçados com os dedos em 'v' de vitória; o comentário acima diz 'Assim a gente poderia parar de discutir e todo mundo pode voltar a ignorar coisas que a gente deveria estar fazendo?'.

Arte: Jim Benton

Citações

O que entendo por “purificação”: perceber claramente um hábito que eu executava inconscientemente. Às vezes, a descoberta vem com o pacote completo, no estilo insight. Entende-se o mecanismo por trás do hábito — gatilho, componentes interdependentes e as características da sua fruição. A seguir, escolhe-se mantê-lo ou evitá-lo. Então, há um processo de desaprendizagem. O sucesso significa: não voltar ao hábito, sem esforço.

― Eduardo Fernandes

Quase todos os livros que eu estimo e absolutamente todos os que me serviram para qualquer coisa são difíceis de ler.

― Paul Valéry.

(Re)leia outras ideias de Chirico

• A morte da fama (agosto de 2024).

Onde argumento porque fama não é mais possível em um mundo algoritmizado.

• Aqui com “Aqui”, de Tatiana Parra e Andrés Beeuwsaert (junho de 2024).

Resenha de um belo disco de jazz latinoamericano formado por um duo de voz e piano.

• Scherzo: sem “eu” (janeiro de 2025).

Exercício de estilo em que escrevo um experiência pessoal sem escrever o pronome “eu”.

#notas


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― Próximo!

Diz a atendente entre sonolenta e entediada. O cliente anterior ainda está às tantas com as sacolas.

Nesse meio tempo, lá vai o “próximo” passar as mercadorias para o balcão de metal liso. Bip, bip, bip. Com a prática, a balconista passa todos os pacotes num minuto. E o dito-cujo lá com o focinho na tela abrindo o aplicativo do banco.

― Só um minuto, que o 4G está lento.

Opa, abriu o aplicativo. A funcionária lança o código QR da compra. E o camarada que parece que não saber estabilizar a câmera do telefone...

Leu? Beleza. E dá-lhe rede móvel.

E a fila se avolumando.

― Graças a Deus!

Foi-se embora o carinha do telefone. Aí vem outra bendita com um telefone enorme e lerdo. Dessa vez sem internet.

― Qual é a senha do wi-fi daqui mesmo, hein?

No ar aquele clima de banco ou de lotérica, cheia de gente resmungando. A culpa já não é mais nem dos atendentes.

Na minha vez, dou “bom dia”, passo as mercadorias.

― Deu R$ 12.75, moço.

Cato duas cédulas, umas moedas. Babau.

― Próximo...


Lembro de quando o Pix começou a entrar na vida do brasileiro. Eu que sou um tecnófilo, sou bastante refratário a qualquer invenção bombástica. Parece uma contradição, mas não é. Toda invenção requer não só um período de educação do usuário, mas também um tempo para pôr à prova a sua utilidade.

Rapidamente, o recurso chegou aos rincões mais recônditos deste nosso país tão desindustrializado. “Até bar de estrada agora aceita Pix”, dizia-se com admiração.

De qualquer forma, com o tempo, antes mesmo de eu utilizar o cartão de débito, comecei a usar o Pix no dia a dia. Pagar boletos era mais prático. Não precisava mais carregar o troco enorme de moedas. O registro das transações ficava registrado no histórico do aplicativo e as chaves Pix podiam ser favoritadas.

Daqui a pouco é um não mais terminar de filas em mercados, feiras, padarias, bodegas. E casos de gente que fez transações por engano, para destinatários desconhecidos ou com valores incorretos. E estabelecimentos que não se dão o trabalho de voltar troco ou até mesmo que só aceitam pagamento em Pix.

Aí o desencanto bateu.


Parte do sucesso do Pix está na acessibilidade do smartphone. Porém, com a concentração de funções no telefone moderno, há um risco cada vez maior de se ficar na mão.

Imagina que você esteja em um aeroporto e precise: 1. passar o passaporte e mostrar sua documentação; 2. fotografar; 3. escutar música; 4. enviar mensagens; 5. pagar por uma refeição; 6. ler. Se seu dispositivo tiver somente 17% de bateria, deverá escolher uma dessas funções. A prioridade, lógico, estará no dinheiro e nos documentos. O resto se ajeita.

Já ouvi o caso de uma pessoa que não portava carteira ao sair de casa ― resolvia tudo por aproximação de cartão virtual e Pix. Certa vez o seu aparelho descarregou bem na fila do cinema, e aí teve de pedir dinheiro emprestado para uma amiga que a acompanhava. A situação seria ainda pior se estivesse sozinha.

O melhor, decidi, é tornar o dinheiro um objeto analógico.

Desde o começo do ano, adotei outra vez as cédulas. A ideia era manter um dinheiro “livre”, sem uma destinação específica, para usar em estabelecimentos informais ― nunca gostei de passar meu cartão em qualquer maquininha.

As cédulas também são uma mão na roda caso falte eletricidade, bateria, internet ou a minha paciência no ponto comercial. As tão evitadas moedas agora são bastante desejadas e cuidadosamente guardadas em um porta-níqueis que carrego junto da carteira.

Ao menos duas vezes ao mês, aproveitando algum passeio pela rua, saco dinheiro da máquina do banco.

Nem tudo são flores, lógico.

Como se utiliza menos dinheiro nas transações em cidades grandes, a tendência é dos bancos emitirem notas maiores. O que interessa em ter dinheiro é a praticidade, então é bem melhor ter o dinheiro trocado.

Com muita pesquisa, percebi que alguns estabelecimentos tendem a aceitar voltar troco sem muito muxoxo: supermercados, bancas de jornal e grandes redes de farmácia. Logo que saco a grana, vou logo em um desses lugares.

Restaurantes, bares e lanchonetes tendem a não trocar dinheiro ou mesmo a recusar pagamento em espécie. Caso neguem troco, tenho do meu lado o Código de Defesa do Consumidor, que proíbe no artigo 39, inciso IX:

recusar a venda de bens ou a prestação de serviços mediante pronto pagamento.

Não obstante, a lei estadual do Ceará nº 16685 obriga estabelecimentos comerciais a garantir troco em moeda. Imagino que cada estado brasileiro deva ter alguma legislação desse tipo também.


Na última viagem que fiz à terra natal, me chamou atenção a frequência com que a cédula aparecia nas transações nas cidades de interior. Em feiras populares onde se vendem frutas, verduras e grãos, simplesmente não se usam Pix ou cartão ― só dinheiro. Até pensei em perguntar para alguns dos feirantes a razão para isso, mas, de tão intuitiva, ela há de ser simples: a moeda é prática e fiável.

Além de tudo, como não atravessa um intermediário digital, ela ainda preserva os dados pessoais. Não por acaso, tomo a cédula de dinheiro como um ícone offpunk.

A moeda é a prova de que nem sempre a opção digital é a mais conveniente.

O pagamento por Pix em uma tenda dessas, de duas uma: ou faria mais filas ou, com o ruído, poderia se comunicar o valor errado ou a chave incorreta. Além disso, que ideia de Chirico sacar o telefone em plena rua movimentada!

Por outro lado, na cidade grande... filas e mais filas, roubos de aparelhos etc., etc.

Sim, a invenção é maravilhosa. Sim, bancarizou uma centena de milhões de trabalhadores informais. Não, não agilizou os serviços como prometia. No dia a dia, o dinheiro e, em algum grau, o cartão de crédito ainda ficam na vanguarda.

#cotidiano #tecnologia


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Recomendações de links e outras coisas. Boa leitura.

Linkroll

Projeto transforma Kindle em um calendário / relógio de mesa. Não precisa de jailbreak, basta entrar no navegador, escrever um comando na barra de endereços e entrar em um sítio web. Aparentemente os desenvolvedores esperam que se deixe a internet ligada (há uma atualização de figurinhas), mas, experimentando aqui, depois de carregar a página, o sítio funciona em modo avião.

• eCal.Ink – Smart E-Ink Calendar (ecal.ink)

Há angústia, e também luta de classes, no dispositivo que alterou nossos laços com o tempo e o espaço. Ao reduzir a aspereza das relações sociais a uma tela, ele nos mergulha num universo de impotência, individualismo e submissão. Como escapar?

― Laura J. Martin.

• A hipnose fatal dos celulares (Outras palavras).

Fomos enganados. O verbo “torcer” não vem daquela anedota das torcedoras do Fluminense que “torciam” lenços.

• A inesperada origem da palavra torcedor (Guia do Estudante).

• Sobre a origem da palavra torcedor (Jornalheiros).

Uma tecla pode causar prejuízo financeiro, psicológico e até geopolítico. Algumas dessas ferramentas estão mudando o mundo e o imaginário. No entanto, trabalhamos com elas de um jeito casual.

• Ferramentas de poder (Texto sobre tela).

Anthropic confirma que Claude age diferente dependendo da língua de entrada e de qual modelo se usa. Ele atua como “cético” e “rigoroso” se o usuário escrever em inglês e como “caloroso” se escrever em árabe. Quem ainda vai dizer que essa droga de ferramenta é neutra?

• Anthropic confirms Claude acts differently depending on your language and which model you pick (digitaltrends)

Citações

Desvario trabalhoso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e propor um resumo, um comentário.

― Jorge Luis Borges, escritor argentino.

One thing that I love about that part of the world is that it's a melting pot with an immense diversity of cultures, each one very defined and proud (often too much) of their own idiosyncrasies, but in the end they're all intermingled Liszt was Hungarian, but his mother tongue was German. Bartók was Hungarian, but was born in what is nowadays Romania. Mahler was Austrian, but just like Freud was born in Czechia, and so on.

― @mathek@tilde.zone

Ainda tem o compositor francês Frederico Chopin que nasceu... na Polônia.

Quadrinho curto. No primeiro quadrinho, um homem ruivo levanta um papel no primeiro quadro e diz 'Bom, não está mal. Vamos postar'. No segundo quadrinho, vai a uma porta em que há um letreiro que diz 'internet', e fala 'Odeio ver a reação das pessoas'

Título: “Uma flor por vez”. “Bom, não está mal. Vamos postar”. “Tenho pressa de ver a reação das pessoas”.

Terceiro quadrinho. Ele vai em um muro, prega o desenho de um elefante em um muro e diz 'Aí está'. No quarto quadrinho segue observando o desenho colado na parede'

“Aí está”.

Quinto quadrinho. Vê-se o muro onde o homem pregou o seu desenho em perspectiva. Nele vemos gravuras de guerras e de problemas do mundo. No sexto e último quadrinho, vemos o homem de volta em seu escritório sorrindo com o rosto apoiado nas mãos. Sua esposa, uma mulher ruiva de vestido preto, diz 'Ei, tudo bem? Jornada produtiva hoje?', no que ele responde 'Eu... eu não sei'. Abaixo há uma citação que diz 'Ser artista é como plantar flores em um jardim onde alguém usa um lança-chamas

“Ei, tudo bem? Jornada produtiva hoje?” “Eu... eu não sei”. “Ser artista é como plantar flores em um jardim onde alguém usa um lança-chamas”.

Arte de Bouletcorp

Releia outras Ideias de Chirico

• Abandonando redes sociais “numéricas” (17 fev. 2026).

Ou: porque passei a dar menos importância a contabilização na internet.

• O que pode a tecnologia, o que não pode a tecnologia e o que podemos fazer sobre ela (23 abr. 2025).

Reprodução de um longo e-mail que enviei a uma professora da faculdade discutindo sobre como a tecnologia e a educação podem se relacionar.

• O sedutor mistério de “Dias Perfeitos” (7 set. 2024).

Resenha crítica a respeito do filme “Dias Perfeitos” (2023) de Wim Wenders, concentrando-se em sua laconicidade narrativa.

• Notas sob(re) Salvador (14 fev. 2024).

Algumas observações em torno da cidade de Salvador e do povo soteropolitano.

#notas


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Imagem de um telefone móvel com display em preto e branco. Nele se vê o aplicativo Whatsapp com o nome dos contatos borrados. Ao fundo, uma calçada de casa

Decidi retirar as cores do meu telefone e não consigo usá-lo de outra forma.

Em meados de 2024, escrevi um texto relatando como foi a minha experiência de fotografar com a display do meu telefone em preto e branco.

• Um mundo em preto e branco (Ideias de Chirico).

Naquele tempo eu fazia um experimento mais estético do que tecnológico-comportamental, queria sobretudo entender como explorar a ausência de cores em fotografias. Prometi naquela vez uma publicação futura explicando o porquê daquela minha escolha ― sem saber que ela se tornaria a minha configuração padrão para telas pequenas desde então.

Linko outra vez o texto por onde tive o ímpeto para adotar essa modificação.

• Pessoas estão tirando as cores da tela do smartphone para usá-lo menos (Manual do Usuário)

O recurso de “escala de cinza” é na verdade um recurso de acessibilidade para usuários com daltonismo. Em seu texto, Rodrigo Ghedin menciona vários especialistas em design que sugerem aos usuários de smartphone que tirem as cores de seus aparelhos caso queiram estar menos “viciados”.

Segui esta sugestão. Com o tempo, porém, percebi benefícios e alguns prejuízos em outros campos.

Neste texto os relatarei e explicarei porque por mais de dois anos decidi manter meu telefone em preto e branco, além de outras reflexões sobre essa modificação.

O primeiro efeito que percebi ao tirar as cores do meu telefone foi a fluidez com que passei a executar minhas tarefas.

Sem cores, a navegação por aplicativos não é errante. Como apontado no link do Manual no início deste post, as cores são organizadas em produtos de consumo de modo a fisgar a atenção do potencial cliente. Quando se as nivela em escala cinzenta, neutraliza-se esse efeito.

Em cores emudecidas, vídeos já não são tão atrativos. Os textos escritos, por sua vez, ficam incólumes em escala cinzenta, isso porque a escrita funciona muito bem com uma só cor. Vejam os monitores de computadores antigos, mormente dedicados à escrita (de texto ou de código), emanavam luz verde sobre o fundo negro do próprio display. Não faria diferença para a compreensão textual se fosse uma luz branca.

Para reforçar a intencionalidade com o telefone, retirei todas as notificações e mantive o volume zerado por padrão. Desse modo, o foco do meu aparelho passou a ser escrita de mensagens e leitura de textos médios.

Menor agressividade visual

Não exagero em dizer que minha vista ficou menos cansada desde que mantive a escala de cinza em dispositivos portáteis. Em alguns aparelhos, inclusive, o modo noturno pode ser programado a fim de ativar esse recurso.

Quando as pessoas me emprestam seus telefones, não suporto olhar o display por mais de um minuto. É como se eu estivesse olhando diretamente para um letreiro em neon a poucos centímetros de distância.

Com os meus aparelhos, entretanto, consigo permanecer mais tempo em alguma tarefa sem que fique com a vista cansada (o ideal mesmo seria uma tela “papel” no modelo Kindle). A partir do momento em que aciono as cores do meu telefone momentaneamente, comparando sua tela com a de outros dispositivos, percebo o problema: as telas de telefones têm cores mais vibrantes do que a de outros aparelhos...

Economia de bateria

Assumo, este tópico é um pouco controverso...

Não sei se por estar menos propenso a ficar pouco tempo com o display aberto por conta da monocromia, ou pela própria configuração visual fazer com que se economize as cores, o fato é que gradualmente percebi que retirá-las fez com que a sua bateria durasse mais tempo do que antes.

Naquele mesmo ano de 2024, adquiri um outro telefone mais básico, de tela menor, o Multilaser Elite 2, de quatro polegadas. Cansado tela enorme do aparelho anterior e um pouco preocupado em portar dados tão sensíveis em público, o plano era de tornar o novo dispositivo um “telefone de bolso”, para sair de casa. O outro, de cerca de sete polegadas, ficaria em casa mantendo aplicativos de banco e outros dados pessoais em segurança.

Quando fui configurar as cores do dispositivo recém-adquirido, não o consegui pela via comum (no meu Motorola, o caminho é: Configurações > Acessibilidade > Cor e movimento > Correção de cor > Escala de cinza), mas sim da seguinte forma: Configurações > Bateria > Função de escala de cinza. Curioso, não?

Porém, a própria descrição da opção diz que “Este recurso é experimental e pode afetar o desempenho”. Afeta positivamente ou negativamente? Não se diz claramente. O que interessa é que esse recurso, segundo o que os desenvolvedores da Multilaser entendem, altera de algum modo o gerenciamento de energia do aparelho.

Fotografia de um telefone móvel de tela pequena tendo uma parede cor de salmão como fundo; no display, vemos a aba de gerenciamento de bateria aberta; na parte inferior da tela, vemos uma opção de Função escala de cinza

Meu Multilaser afirma que a função escala de cinza “é experimental”. Experimental para quem? Para mim, esse é o padrão!

Outros argumentam que a escala de cinza tem o potencial de economizar bateria, porque o display não teria que operar com muitas modificações de tons. No entanto, isso só faz sentido para aparelhos que têm tela AMOLED. Segundo a Technode, em displays com essa tecnologia,

Quando um pixel precisa exibir a cor preta, ele simplesmente se desliga. Isso representa economia real de energia, especialmente em interfaces com fundo escuro.

O fato é que o meu telefone “de casa” segura a bateria por pelo menos cinco dias em uso de moderado a pouco frequente. Tenho de mencionar também que outras configurações entram em jogo, como o modo avião sempre acionado.

E quanto a vídeos e imagens coloridas?

Tenho um leitor digital Kindle, e desde que passei a ler muitos artigos da internet por esse eletrônico, percebi o quanto, na maioria das vezes, as cores não são essenciais para a compreensão de uma imagem. Afinal, há pelo menos um século, fotografias em preto e branco são estampadas em jornais...

Alguns adeptos dessa configuração argumentam que ativam as cores quando vão assistir a vídeos no Youtube. Aí penso: se a proposta de desligar as cores é tornar um aparelho menos tentador, porque ativá-las para ver vídeos numa plataforma que é desenhada para manter o visitante o máximo de tempo possível? O melhor é nem mesmo mantê-la ativada! Eu mesmo prefiro baixar no computador os vídeos para serem vistos depois ― sigo um princípio de offline-first nos meus aparelhos.

As únicas imagens em que as cores fazem falta são as de artes visuais, sobretudo pintura, e de textos multimodais, como gráficos. Há casos curiosos também em que as cores funcionam como traços distintivos entre objetos dentro de uma foto. Certa vez fotografei uma fonte de pedras dentro de um tanque de peixes. Em preto e branco, a fonte parecia um estrogonofe de carne! Infelizmente o telefone inteligente ainda segue como melhor ferramenta de edição de vídeos. Não há outra forma de fazê-lo que não por uma tela colorida.

Além desses três casos, retorno à configuração padrão quando estou em uma videochamada. Porque aí ver a amada em preto e branco também é de lascar...

No mais, em raros momentos em que as cores são de fato necessárias para a compreensão, as envio para a nuvem, a fim de serem apreciadas por uma tela maior e colorida.

Breve comentário sobre uma estética da sobriedade

Imagem de um telefone sem cores. No seu display, há o menu inicial com vários ícones de aplicativos

“Sexy sem ser vulgar”.

(Convenhamos, o telefone fica mais elegante sem cores, tomando uma beleza “fria” e descompromissada, como as de uma escultura moderna e de uma embalagem de perfumes. Gosto de quando as coisas atraem sem implorarem por atenção ou se imporem nos espaços... “Chique é ser simples”, já dizia um rapper brasileiro. Sempre me atraio por uma beleza difícil...)

Só o telefone sem cores?

O fato de que sinto essa necessidade de tirar as cores somente em uma tela menor ainda me deixa um pouco encucado ― nunca tive vontades de tornar meu computador e um antigo tablet monocromáticos.

Posso passar horas com meu computador, mesmo conectado, sem me sentir fisgado. Nesse dispositivo, sinto que estou mais “no comando” do que em outros.

O fato de dispositivos mais portáteis terem cores mais vivas explica somente metade do problema. Será que o desenho dos aplicativos também auxiliam em tornar telefones mais viciantes? Infelizmente não tenho letramento suficiente em design ou programação para resolver essa questão. Quem souber explicar melhor, por favor, entre em contato pelo e-mail no rodapé desta publicação.

E por que comprar dispositivos minimalistas?

Além de ter tornado o meu telefone monocromático, também desinstalei aplicativos nativos da Google e de redes sociais, lhe tirei as notificações e o silenciei, mantendo somente o toque de chamada, para casos de urgência. Ao fim e ao cabo, o transformei em um “telefone minimalista”, algo próximo de um Mudita Kompakt.

Por mais que eu respeite bastante projetos como Mudita Kompakt e Light Phone por terem apresentado essa ideia, tenho por mim que o que empresas e estartapes de “telefones minimalistas” vendem não é smartphone, mas letramento digital. O que se compra, por exemplo, de um Mudita Kompakt não é o dispositivo, mas o tempo que se leva para configurá-lo de modo a ficar funcional e até privativo.

O objetivo de tratar dispositivos como ferramentas e não como brinquedos, como querem corporações tecnológicas, é, no fim das contas, uma atitude de anticonsumo.

Sendo assim, qual o sentido de gastar dinheiro com mais dispositivos? O melhor é entender como eles funcionam, como nos afetam e transformá-los naquilo que são: objetos. E, claro, compartilhar o saber-fazer e, como se tem feito na Europa, pressionar empresas de tecnologia para que produzam produtos que sejam feitos para durar, tendo o usuário e o meio ambiente como prioridades.

#tecnologia


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A palavra Hexa em cor amarela sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido

Texto alternativo: A palavra “Hexa” em cor amarela sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido. Arte: Arlon de Serra Grande.

Para quem não acreditou, sim, o Brasil levou um hexa...

Não, não vivo em um universo paralelo em que os brasileiros fomos campeões. Me explico:

2006, Copa do Mundo sediada na Alemanha, Brasil perde de 1x0 para a França (com Kaká em campo) ― primeira hecatombe¹; 2010, com sede na África do Sul, já em campo com o influenciador “sabor” jogador Neymar, perdemos de 2x1 para a “Laranja Mecânica” ― segunda hecatombe ― (lembro de me divertir um monte com as montagens do Mundo Canibal sobre os jogos, isso tornou a derrota mais leve); a grande e fatídica hecatombe foi a de 2014 quando, em casa, perdemos de 7x1 para a Alemanha (com Neymar nocauteado, o clima no estádio era de terra arrasada mesmo antes do jogo); 2018, em terra russa, fomos de 2x1 para Bélgica (alguém lembra desse jogo?) ― quarta hecatombe ―; no Qatar, 2022, empatados, perdemos por pênaltis (esse cassino futebolístico) para a Croácia ― quinta hecatombe ―; em solo ianque, 2026, acabamos de sair de oitavas por uma preguiçosa Noruega que nos venceu por 2x1 (com gol de pênalti de Neymar, que por pouco não nos envergonha com uma troca de tapas com o goleiro norueguês) ― sexta hecatombe.

Assim, levamos um hexa ― mas um hexatombe. Seis vezes sacrificado em nome de qualquer coisa que não participe do Brasil enquanto nação. Como li no dia seguinte à derrota, “A ideia da seleção como alma da brasilidade perdeu sentido”.

A palavra Tombe em cor vermelha sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido

Texto alternativo: A palavra “Tombe” em cor vermelha sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido. Arte: Arlon de Serra Grande.

Ao mesmo tempo, já não temos uma nova bossa para chamar de nossa. A esperança da Fórmula 1 morreu. Ainda assim não resistimos ao sonho de sermos campeões no futebol. Avançamos para o segundo quarto do século XXI ainda tentando manter a mesma concepção de país que tínhamos no século anterior.

Por outro lado, nos apareceram o skateboarding, o surfe e a ginástica rítmica, categorias em que fomos ouro nas últimas Olimpíadas. Há ainda a tímida promessa no tênis de mesa de um Hugo Calderano que venceu campeonatos na China, país que acumula basicamente todos os troféus nesse esporte. Ainda por cima, a pouco lembrada poesia experimental e propositiva que herdamos dos poetas concretos de 1950 ainda hoje nos rende frutos...

Vamborandá. Pode ser que esse “hexa” seja um sinal de que devamos jogar menos com bola e jogar mais com ideias a fim de construirmos um outro Brasil ― pós-Pelé, pós-Senna, pós-tudo.

¹: He.ca.tom.be (do grego antigo ἑκατόμβη, composto de ἑκατόν “cem” e βοῦς “boi”) é o sacrifício de cem reses aos deuses na Grécia Antiga. Os lusitanos ofereciam hecatombes ao modo grego. Modernamente o termo é aplicado a grandes catástrofes.

#notas #cultura


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Cartum em que há um homem sem roupa em frente a uma plateia, que diz 'Cheguei em São Paulo em 1997, só com a roupa do corpo'

Imagem: André Dahmer.

Depois de um período um pouco autocentrado, publicando somente coisas minhas, volto a compartilhar alguns links, dicas e citações que coletei nos últimos ~2 meses. Alguns artigos são de assuntos, digamos, em baixa, mas que não deixam de ter alguma relevância. Outros até que são recentes, mas que passaram batidos por mim, e que pensei que, de qualquer forma, fosse interessante de mostrar ― vai que algum leitor destas Ideias é distraído que nem eu?

Linkroll

A maior parte da população leitora no Brasil é constituído por mulheres não brancas, é o que mostra a pesquisa Panorama do Consumo de Livros.

• Quem consome livros no Brasil? Os dados são surpreendentes (Farofafá).

Diego Lafuente reconstitui o fluxo da informação digital desde a era do BBS e pensa neste belíssimo ensaio como a Web e os hábitos podem se modificar a partir da IA:

I still write because writing helps me think. That may become the main reason to write. Not traffic. Not SEO. Not audience growth. Not discovery through search.

• The web is going to dissapear (minid.net)

Já reparou que os telefones modernos são pouco explorados ou até ignorados nos filmes dos últimos anos? Neste primoroso vídeo-ensaio, Eddache reflete sobre as razões pelas quais os diretores tomam essa decisão.

• Why Are Movies Afraid Of Phones? (Eddache ― Youtube).

Ensaio de Paula Lúcio sobre como a estética do agreste nordestino se formou e como se comunica.

• A gramática visual do sertão (Paula Lúcio ― Substack).

New York Times ranqueia os 48 hinos de nações da Copa (e dá primeiro lugar ao hino brasileiro!)

• Ranking all 48 World Cup national anthems (New York Times).

A arte da tradução, por mais enigmática que seja o sentido dessa expressão, tem, assim, um papel político importante, mas parece que hoje ninguém precisa dela, e não se trata de cinismo, (...) mas, antes, de absoluta impossibilidade de prestar atenção na arte em geral, qualquer que seja ela.

• Trocar tradutores por IA é retrocesso gigantesco para literatura (Dirce Waltrick do Amarante ― Folha de São Paulo).

Artigo bem humorado da Business Insider refletindo sobre as vantagens ~secretas de se ter um Kindle: desde ler “escondido” livros embaraçosos até não evidenciar posições políticas a partir de capas de impressos.

• Read Embarassing Kindle Books in Public (Business Insider).

Dica cultural

Loja de discos. Um homem cabeludo e de camiseta de banda de rock observa com aflição para uma mulher com roupas formais que analisa um disco que pretende comprar.

Cena de “Durval Discos” (2002), com participação especial de Rita Lee.

Ontem assisti outra vez ao “Durval Discos” (2002), um desses filmes brasileiros que, por alguma razão, não é tão conhecido, apesar de ser family-friendly e do gênero comédia. Com estreia da diretora Anna Muylaert, é um primor no quesito de técnica de fotografia, trilha sonora (parte de André Abujamra) e escrita de roteiro.

O longa-metragem nos mostra o cotidiano de Durval, um hippie quarentão que mantém uma loja de discos na frente de sua casa em um pacato bairro de Pinheiros, São Paulo, durante o fim dos anos 90. A indústria fonográfica de então investia mais e mais na produção de discos compactos (CD) em oposição aos discos de vinil (LP), a especialidade da loja Durval Discos.

Além do pouco movimento de vendas em seu comércio e da constante cobrança de clientes por CDs, Durval ainda tem que lidar com a gerência da casa. Solteiro, morando com sua mãe já envelhecida, o protagonista decide contratar uma trabalhadora doméstica ― uma jornada que o irrompe de sua rotina. A partir daí, os problemas em sua casa (e até na vida do bairro) escalam pouco a pouco. O clímax de “Durval Discos” foi um daqueles que mais me impactaram nos últimos 10 anos.

Disponível no Youtube.

• Durval Discos – Trailer (Youtube).

Citações

Cartum mostrando um homem sobre um palco de karaokê, atrás dele há o título 'song: 4'33'', artist: John Cage', uma composição na qual os instrumentistas não tocam absolutamente nada. Em primeiro plano há um homem que diz 'Esse cara de novo, não...'

Imagem: asher (via The New Yorker)

Todo mundo quer profetizar o futuro pós LLM baseado em livro de ficção científica, eu prefiro olhar para um campo do conhecimento humano que convive com tais máquinas pelo menos desde a década de 1990: o xadrez. O fato de existirem máquinas que jogam melhor que os humanos não acabou com o esporte e não extinguiu a profissão de enxadrista.

― @felipesiles@ayom.media

Meu fácil me enfada. Meu difícil me guia. [...] O que eu sei fazer me entedia; o que não sei fazer me entristece.

― Paul Valéry.

The only way to keep your health is to eat what you don't want, drink what you don't like, and do what you'd rather not.

― Mark Twain.

#notas #tecnologia #cotidiano


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