Ideias de Chirico

Em lembrança do pintor surrealista greco-italiano Giorgio de Chirico (1888 – 1978), o maior ilustrador de ideias de jerico ― e de Chirico!

Imagem de uma cartomante ao lado de uma trabalhadora que sorri; estão em uma sala escura, com seus rostos iluminados.

Cena de “Hora da Estrela” (1986).

Releituras e adaptações ― e samples (e remixes) ― participam ativamente do cotidiano da contemporaneidade. Nada mais pode ser novo, ao mesmo tempo em que nada pode ser singular. Há dessas peças “secundárias” por aí que expandem e mastigam tão bem a “fonte” que até lhe superam em alguns níveis.

É o caso do filme “Hora da Estrela” (1986), de Suzana Amaral, adaptado da novela homônima de Clarice Lispector. A obra literária, que, ao ser lida, dá a impressão de que foi escrita de má vontade (em alguns momentos da vida da autora chegou até a ser renegada), com personagens mal desenvolvidos e “manchada” com uma voz de um narrador às vezes egocêntrico, toma uma vitalidade muito maior na película de Suzana.

Aqui, a protagonista Macabéa é muito mais sensível, sem tomar, no entanto, o centro da narrativa. Há em jogo outras personagens, tão vivas quanto esta: suas companheiras da “pensão para moças”; Glória, sua colega de trabalho; e a cartomante (aliás genialmente interpretada por uma quase irreconhecível Fernanda Montenegro).

O filme tem um tal desenvolvimento de suas figuras, que por vezes parece que o que vemos na maior parte do tempo trata-se, não de uma personagem principal, mas de uma personagem observadora. Aí, mais do que no livro, Macabéa é praticamente engolida por suas pares, permanecendo, inclusive, muitas vezes em segundo plano na fotografia.

É aqui talvez onde resida o fio estruturante da obra: é como se tivéssemos diante de nós um spin-off, a história não contada dos figurantes ao redor da boa-ventura de Glória, a princesinha injustiçada que ganha o final feliz erroneamente prometido a Macabéa.

Como nem tudo é perfeito, o filme carece de uma boa trilha sonora à altura de Macabéa, paralém do ruído da Rádio Relógio ― inclusive outra dessas personagens inauguradas pelo longa-metragem.

“Hora da Estrela” está em exibição nos cinemas por ocasião de seu vindouro aniversário de 40 anos, com restauração do projeto Sessão Vitrine Petrobrás.

#notas #cultura


CC BY-SA 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter


Sinal do Manifesto Offpunk, um símbolo de rede sem fio de cabeça para baixo.

A revolução não será digitalizada.

English version

Ao tempo que se aponta para a hiperconexão como um sintoma de um futuro inescapável, um movimento tímido e incômodo se insinua: o da desconexão proposital e propositiva. A adoção por “telefones burros” tem crescido nos últimos anos; câmeras digitais voltaram a ser utilizadas, assim como as fitas cassete e também as máquinas de escrever! Há também um estranho movimento de adoção do jornal... de papel. Até o minidisc, que foi esquecido por conta do tocador de .mp3, renasceu das cinzas

No início do século, a internet era a promessa do último ato da “Aldeia Global”, preconizado por Marshall McLuhan. Computadores, caros e escassos (por isso, às vezes, coletivos), eram portais de um além-mundo. Governos, despendendo um bom valor, buscavam garantir que classes pobres fossem “incluídas” digitalmente.

Chegamos lá. Agora caminhamos para a marca de três dispositivos conectados por pessoa em todo o mundo, segundo estimativas da Cisco Visual Network Index para a década de 2020.

O digital é ubíquo e tido como garantido. Inclusos digitais à revelia, já não nos conectamos mais à internet. Simplesmente vivemos nela.

Qual como se vestíssemos um uniforme, guardamos o telefone no bolso para trabalhar, para viver, para amar.

A tecnologia digital deixou de ser ferramenta para se tornar ambiente ― um ambiente do qual não se pode fugir. Isto é, uma prisão.


“Garantir o não digital é um dever, não um retorno ao passado”, Giulio Cavalli.


Neste cenário de conectividade compulsória, às vezes gratuita, a verdadeira dissidência não é burlar o sistema — é simplesmente recusar-se a fazer parte dele.

Como o escritor belga de sci-fi e desenvolvedor de software Ploum defende, os punks da nossa era são aqueles que ousam viver sem smartphone ― ou “offpunks”, como agora prefiro chamar.

Conexão como arma de guerra

Fruto de um desenvolvimento tecnológico centralizado e monopolista, a distribuição de internet ou de serviços digitais tornou-se uma arma de guerra. Quando países com hard power entram em conflito, buscam interromper não apenas o fornecimento de água e de gás ― cortam internet como tática bélica. A Rússia o fez em investidas contra a Ucrânia; Israel o faz dentro da Palestina.

No fim de 2025, o juíz francês Nicolas Guillou da Corte Penal Internacional perdeu todo o acesso a vários serviços digitais americanos ― como hospedaria, compras online e banco ― fornecidos por empresas americanas como AirBNB, Amazon e PayPal. Os Estados Unidos justificaram tal sanção porque Guillou abriu mandados de prisão contra o primeiro ministro israelense, Benyamin Nétanyahou, e seu ministro da defesa, Yoav Gallant, por conta de ataques israelenses de cunho genocida em território palestino. Os Estados Unidos são o principal país apoiador das ações de Israel na Ásia Central.

A postura offpunk nasce de uma constatação simples e incômoda: o reino do digital é frágil. Ao mesmo tempo, toda a vida social é forçosamente imbuída dentro desse ambiente. Logo, tal postura leva em consideração que é preciso não depender totalmente dos serviços virtuais sob o risco de um deles ser sancionado ou não estar disponível. Exemplos como a queda de servidores da Microsoft que impactou serviços bancários em todo o mundo em meados de 2024, a sanção do Twitter/X pelo governo brasileiro em fins de 2024, e a queda global dos servidores da Amazon e da Cloudfare em fins de 2025, que levou vários domínios na internet à queda, escancararam, não só a sua fragilidade, mas a nossa dependência a esses serviços.

Quando o sistema cai ― por sanção política, por pane ou por guerra ―, o que existe em linha simplesmente evapora. Fica-se de mãos amarradas se a única opção é o digital.

Afinal de contas, a conexão ininterrupta não é uma garantia, principalmente em países do Sul global ou sob conflito político interno ou externo, ou mesmo em situação de paz ― na cidade de São Paulo, Brasil, por conta de sua política de fornecimento de energia terceirizado da Itália, em dias de chuva possui constantes quedas de energia. Nesses territórios, é preciso sempre contar com o analógico como um plano B.

Minimalismo digital e offpunk

É preciso não confundir offpunk com minimalismo digital.

O minimalismo digital é uma abordagem liberal sobre a desconexão, totalmente voltado à autoagência, sem criticar estruturas de poder.

Como não se pode ter uma vida offline tranquila, tira-se dela todo o digital imersivo (ou “viciante”), a fim de se configurarem os ambientes conectados para serem simulacros de uma vida analógica. Off, ma non troppo.

O que precisamos mesmo é da possibilidade de uma desconexão total; o direito de ir e vir sem que precisemos de portar um telefone inteligente de última geração e de estar disponíveis à comunicação por 24/7.

Trine Syvertsen demonstra muito bem em seu “Detox Digital: a política da desconexão” (2020) como o minimalismo digital participa de uma agenda neoliberal de redirecionamento da responsabilidade de solução de problemas estruturais (anteriormente ao cargo de órgãos coletivos) para indivíduos comuns ― o usuário médio de um telefone moderno. Além disso, a autora identifica que o motivo pelo qual as pessoas buscam esse tipo de detox pode ser resumido em três pês: presença, produtividade e privacidade ― todas pautas individuais.

Ou seja, se você perde os momentos de socialização por conta do telefone, se não produz na empresa ou em projetos pessoais por conta de notificações ou se está de saco cheio de ser monitorado e objetificado pela Big Tech, isso tudo é culpa exclusiva sua por não se disciplinar o suficiente e nem estudar formas de torná-lo menos atraente ― não por conta de um modelo de negócios baseado em economia de atenção, vigilância em massa e software propositalmente viciante.

Essa delegação de responsabilidade por letramento coaduna com a leitura sobre a sociedade contemporânea feita do intelectual teuto-coreano Byung-Chul Han em seu “Agonia de Eros” que diz que

A autoexploração é muito mais eficiente do que a exploração alheia, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade.

Um outro sintoma dessa delegação de responsabilidade são totens de autoatendimento em supermercados, farmácias e bancos, que incumbem ao cliente a tarefa de fazer sua própria operação mercantil ou bancária, na maioria das vezes sem um auxiliar, fazendo o trabalho de um funcionário e sem ganhar nenhum desconto na compra; caso se cometa um erro durante a compra, isso vai para a conta do cliente, não para a empresa.

O offpunk, ao contrário, por mais que seja um comportamento provindo de um alto letramento digital, defende uma desconexão despretensiosa, sem o prejuízo de se estar à margem de atividades sociais e do exercício da cidadania.

Por fim, enquanto que o minimalismo digital vê a desconexão como um meio de produzir mais, o offpunk não vê o detox digital como um meio de maior produtividade, porque na verdade ele é uma atitude de anticonsumo.

Definições

Offpunk não é um estilo de vida. É uma postura diante do digitalização, é a busca por uma coletivização possível do detox digital, explorando o caráter político-social da desconexão. Ela reinvidica o lazer, a cidadania e a comunicação sem a obrigatoriedade de um intermediário digital; não luta pelo fim da internet, mas batalha por uma vida possível sem a conexão ininterrupta.

E como postura que é, o offpunk está mais próximo de uma tática secular, como a meditação e a guerrilha.

Além disso, percebe-se que cada vez mais os meandros do trabalho moderno, mesmo aqueles que envolvem atividades analógicas, como o ensino, estão cada vez mais invadidos por processos digitais. Na década de 2020, o uso comum da internet só pode ser associado ao trabalho, ao tempo que a desconexão só pode ser associada ao lazer.

Desse modo, uma postura offpunk defende a vida além do trabalho.

Por outro lado, com tantas camadas desnecessárias de digitalização em nosso cotidiano, em certos momentos vê-se no analógico meios mais fluidos e diretos de solução de problemas (ver “instrumentos offpunk”)

São offpunks: uma adolescente que adota um telefone básico e ingressa em um clube ludista; um audiófilo que, insatisfeito com o Spotify, decide adquirir um toca-discos ou um tocador de mp3; um expert que utiliza sistemas ciberseguros; quem combate a obsolescência de dispositivos eletrônicos instalando-lhes Linux ou custom-ROMs; um trabalhador autônomo que desativa redes sociais comerciais como Instagram e Facebook; uma pessoa idosa que resiste ao telefone inteligente e que consegue meios de driblar a digitalização.

Offpunk não é nostalgia. Não é tecnofobia ingênua nem fuga romântica para um passado imaginário. É, antes de tudo, busca por soberania e autoagência. Parafraseando o escritor brasileiro Eduardo Fernandes, enquanto offpunk,

Revolução tecnológica não é revolucionária, desatualizar não é reacionário.

A estética offpunk

O offpunk ainda não tem um rosto, mas temos algumas pista de como ele pode ser. A primeira delas pode vir de uma definição recente de Ploum sob sua própria ação na internet: “techpunk”, um tecnófilo antissistema.

Como falado anteriormente, offpunk trata-se de uma postura diante do estado de tecnologia no mundo contemporâneo, não de uma utopia/distopia ou uma estética visual que participam de um movimento cultural mais abrangente como “solarpunk” ou “cyberpunk”.

Alguns exemplares offpunk:

1) na informática, o navegador Offpunk, para protocolo Gemini, que batiza este manifesto;

2) no design, o conceito de “Forever Computer” e o telefone Mudita Kompakt;

3) na sociedade, o clube ludista de Nova York;

4) na literatura, “Bikepunk” (2025);

5) no cinema, “Uma Batalha Atrás da Outra” (2025).

Em Uma Batalha Após a Outra, a “obsolescência”, o downgrade é uma estratégia de liberdade. Os personagens recorrem a aparelhos velhos e modificáveis pra criar uma rede de comunicação e segurança paralela. Quando as tecnologias recentes (como smartphones) aparecem, são pra colocar a vida em risco, pra reprimir e impedir planos de se concretizarem.

Eduardo Fernandes (Texto Sobre Tela).

No filme teuto-japonês “Dias Perfeitos” (2023), assistimos à rotina idílica de Hirayama, um zelador da Tokyo Project de banheiros públicos, que nas horas livres tira fotos com filme, ouve música com fita cassete, pedala, lê um livro antes de dormir e aprecia cada momento de seus dias ― desconectado e muito-bem-obrigado.

O Japão, famoso por ser um país que consegue equilibrar o moderno e o tradicional, provém totens de pagamento em dinheiro vivo, comunicação empresarial via telefonia pública, retrocomputação utilizada por grandes empresas ― como fax e disquete. Na Índia, onde há talvez o melhor serviço de telefonia do mundo, o cidadão médio faz em torno de 90 ligações por dia.

Reinvidicações

São pautas relacionadas ao offpunk:

1) o combate contra a superprodução;

2) o combate contra a obsolescência programada;

3) o combate contra a “internet das coisas”, buscando quebrar o círculo vicioso entre dispositivos interconectados que tomam nosso tempo e sugam nossos dados a fim de alimentar Big Data;

4) o combate contra economia de atenção;

5) a redução da escala de trabalho, que pouco a pouco enfia cada vez mais a atividade laboral no campo virtual;

6) o direito ao lazer, à cidadania e ao trabalho sem a necessidade de um dispositivo digital;

7) a emergência de uma inclusão digital plena das classes mais pobres e de populações idosas, o que conta não só com a acessibilidade de um dispositivo eletrônico, mas também com o letramento digital para a utilização e manutenção autônomas desse mesmo dispositivo, visando uma menor dependência de terceiros.

Defende o colunista italiano Giulio Cavalli:

É verdade: a digitalização simplifica, agiliza, e uniformiza procedimentos. Mas somente para quem consegue estar dentro dela. Para todos os demais o futuro é uma porta fechada.

“Garantir o não digital é um direito, não um retorno ao passado” (lettera43)

Instrumentos offpunk:

1) o dinheiro vivo ― é prático, não demanda nem de eletricidade e nem de internet e garante que os dados pessoais não sejam armazenados em sistemas de Big Data;

2) meios analógicos ― garantem que uma comunicação independente da internet seja possível ou que o objeto seja de fato seu (e não alugado), pois tangível: discos, tocadores de mp3/mp4, rádio, jornais impressos;

3) meios digitais revividos ― e-mail, sites “brutalistas” de baixo custo, câmeras digitais, telefones “burros”;

4) meios de armazenamento e transferência de arquivos ― garantem que dados digitais não sejam surrupiados com uma eventual queda de conexão: discos rígidos, cartões de memória, pendrives, serviços de nuvem autogeridos e locais.

5) protocolos de comunicação alternativa: mensageiros via Bluetooth (Bitchat), Gemini, e-mail criptografado, navegação em cebola (Tor), XMPP.

Desafios:

1) ultrapassar as conveniências do digital (pesquisa, tradução de textos, entretenimento fácil, pagamento à distância);

2) acessar espaços sociais permitidos ou facilitados somente pelo digital (concertos, cinema, restaurantes);

3) fazer redes de trabalho sem intermédio do digital.


Defendemos o direito inegociável ao não digital. O direito de compartilhar sem intermédio de algoritmos, de organizar-se socialmente sem mediação de plataformas, de resistir ao imperativo da presença em linha.

Enquanto houver monopólio de tecnologia nas garras de umas poucas empresas do Norte Global; enquanto houver vigilância de massa com anuência do Estado; enquanto houver coleta massiva de dados ― e a ausência de transparência quanto ao uso dos dados coletados ―; enquanto houver economia de atenção, que usurpa o nosso valioso tempo livre a fim de que vejamos alguns anúncios em serviços digitais essenciais; enquanto houver infraestruturas impedindo a soberania digital em países do Sul global; enquanto houver digitalização compulsória em um mundo onde a internet não é tratada como direito básico inalienável ― a revolução não será digitalizada.

Este texto foi escrito originalmente em português e é assinado por Arlon de Serra Grande e Lionel Dricot (t.c.c @ploum.mamot.fr).

Verão de 2026.

#tecnologia


CC BY-SA 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter


Amigos meus, crianças saídas dos anos 2000, suspiram de saudade pelo sinal trema.

Não lhes tiro a razão.

Em uma língua opaca como a portuguesa, na qual a relação entre fala e escrita não é assim transparente, qualquer indicador de pronúncia adequada à norma padrão é bem vindo.

Falo por mim: a falta desse sinal é tanta, que quando quero saber se “u” é pronunciado em ocorrências de “qu” e “gu”, recorro a um velho e grosso dicionário que guardo em casa, onde o trema é ainda marcado.

Mas há outra coisa da qual sinto ainda mais falta do que deste sinal: de quando “k”, “y” e “w” não integravam o alfabeto de língua portuguesa.

Quantos pesadelos esse trio já me causou...

Por mais que, antes do “desacordo ortográfico”, o brasileiro médio já o utilizasse quase que clandestinamente através de nomes próprios (sobretudo de gente trabalhadora) e lojas populares, a presença dessas consoantes demarcava uma linha linguística clara.

Antes do desacordo, quando elas apareciam em um texto lusófono qualquer, era como se nos estivesse dito: “Estamos em terreno estrangeiro”. Logo, ao leitor era sinalizado de que a pronúncia da palavra não era igual às anteriores.

Sim, podemos delimitar este mesmo terreno hoje em dia com o itálico, em caso de texto digitado, ou com aspas, em caso de texto manuscrito; no entanto, antes da aceitação desse trio alienígena, a própria língua delineava suas fronteiras.

Outro dia, estive preocupado com o significado de “typo” (pronunciado “taipo”). Havia, então, esse irascível ípsilon. Escrevo seu nome por extenso para que se veja o quão nauseabundo é. Ípsilon. Imagine a dificuldade que é para uma criança pronunciá-la. Imagine até mesmo suas variantes! ― Luiz Gonzaga, soletrando o alfabeto em famosa canção, canta a letra como “ipsilone”.

Então, folheando um dicionário de inglês-português, dei-me conta desta falta: eu simplesmente não sabia onde ficava o ípsilon no alfabeto anglófono! (E temo que nem algum outro dia o saberei...) Afinal, minha alfabetização foi anterior à inclusão das três consoantes estrangeiras!

Tentando sanar minha dúvida, passei pelas palavras iniciadas por “ti” (afinal de contas, em alguns países, chamam ípsilon de “i grega” ― logo, a consoante só poderia estar próxima à vogal “i”). Debalde. Para a minha surpresa, ípsilon está mais perto é de “z”!

Já teci até alguns truques para memorizar seus lugares: sei que “k” está algo assim próximo do “j” (tento até lembrar do presidente Juscelino Kubitschek); e que o “w”, cujo nome em português é derivado de “double u” (“duplo u”), deve ficar então perto desta vogal. Mas na hora agá, me escapam esses mnemônicos...

Sou de partido de que a inclusão dessas três letrinhas somente complicou ainda mais a alfabetização no Brasil. Suas posições alfabéticas são mais outros três dados que estudantes escolares ― já muito ocupados em aprender a tabuada de sete, tipos de substantivos e o passinho do Jamal ― vão ter de se preocupar em aprender...

A noção do que é adequado fica cada vez mais confusa quanto mais normas criamos. Isto vale para a sociedade, para a arte e também para a língua.

Além disso tudo, sempre gostei de palavras aportuguesadas.

“Leiaute”, “copidesque” e “uísque” são marcas de um esforço de aclimatar termos técnicos e/ou estrangeiros ao ambiente lusófono ― evitando, assim, a inclusão do trio na língua portuguesa. Achá-las cafonas ou toscas só indicia o viralatismo de um pensamento tecno-elitista, que só consegue comunicar um saber-fazer em inglês ― “prompt”, “brainstorm”, “fork” etc., etc.

Parece conservadorismo da minha parte, mas não, não sou contra estrangeirismos; sou contra o estrangeiro transplantado sem a nossa consciência e consentimento. Entretanto, quando transformamos palavras estrangeiras em língua materna, as domesticamos; quando, porém, estrangeiramos palavras maternas, somos domesticados.

#cotidiano


CC BY-SA 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter


Ou: “a escuta podcastal: um dossiê”

Este não é um tutorial de como ouvir podcasts. Isso vocês já sabem: baixa-se um agregador qualquer (eu utilizo o AntennaPod) e segue-se algum programa a partir de uma pesquisa; quando este publicar um novo episódio, se receberá uma notificação e se o reproduzirá ou não.

O que quero falar nesta crônica é sobre uma “pragmática podcastal”, os modos com os quais ouço os queridos programas de áudio.

Ao contrário do texto, o áudio não tem uma recepção previsível. Isto é, ao escrever um texto, sei como o leitor o fruirá ― através da tela de um dispositivo eletrônico móvel (telefone, computador, leitor digital ― Kindle, Kobo, etc.), talvez a partir de um impresso (caso tenha uma impressora, por exemplo); este leitor estará estático ― seja sentado, deitado ou, raras vezes, de pé; talvez com a atenção plena, talvez com breves lapsos de desatenção causada por um pensamento que o texto provocou, por algum barulho que o gato fez, por uma notificação que de algum dispositivo soou...

O mesmo não acontece com o áudio.

Por conta do áudio, permite-se estar em segundo plano, flexibiliza a recepção da informação; acho, pois, que é necessário algo como um “design sonoro” ou “design sonoplástico”, considerando as possibilidades de escuta do programa. A fim de auxiliar estudos nessa área vindoura, aqui vão os modos como escuto podcasts:

1) sentado em ônibus, com fones de ouvidos ― a “base”, uma “posição neutra”, um “grau zero da escuta”, na qual em geral se começa a ouvir os programas e na qual se pode ouvir quaisquer programas de áudio; nesta posição pode se ouvir de tudo, desde noticiário até storytelling; pessoalmente, onde tudo começou, o ponto no qual percebi que o podcast se tornaria uma necessidade básica como água e eletricidade; a propósito, quando eu escutava o infernal “Medo e Delírio em Brasília”, era somente sentado em um banco de ônibus com fones de ouvidos que eu conseguia compreender alguma coisa; o banco de ônibus é tipo de “sinagoga dos podcasts”;

2) lavando louça, com amplificação via Bluetooth; uma posição robusta, que comporta muitas possibilidades; prevista, porém aparentemente pouco considerada, já que algumas vozes e vírgulas sonoras não podem ser ouvidas plenamente por conta da água corrente e do tilintar das panelas ― vozes tenores, como a de Matias Pinto do Xadrez Verbal, ficam em desvantagem nesta posição auditiva; há variações como 2.1) lavando louça, com fones de ouvidos; e 2.2) lavando louça, a partir do alto-falante do telefone ― que requeririam uma atenção especial de sonoplastia;

3) cozinhando, com amplificação via Bluetooth; aqui é que o bicho pega, aqui que a arte do design sonoro deveria entrar em cena; apesar de haver uma certa estabilidade do ouvinte ― afinal, seu único movimento é de em média dois metros, entre a geladeira e o fogão ―, os utensílios domésticos tilintam em demasia; nessa atividade há uma estranha dinâmica de “pianos” e “fortes”, com momentos de calmaria, como quando a água está fervendo na panela, intercalados com momentos de cacofonia e ruídos intermitentes, como quando o óleo quente recebe a tal “mistura”; nenhuma voz, vírgula, música ou qualquer outro som grosso suporta a um tonitruante ssssSSSSSHHHHHHHHHHhhhhh;

4) escovando os dentes, a partir dos alto-falantes do telefone; à frente da posição “escutando no ônibus com fones de ouvido”, esta é aquela na qual sinto mais plenitude mental ― ou “mentitude” (para não utilizar o irascível mindfulness) ―, nesta atividade acústica ou em qualquer outra de quaisquer outros tipos; ao contrário de seu predecessor “escutando no ônibus com fones de ouvidos”, quando se escuta um episódio de podcast no banheiro durante a escovação, nada de mau pode acontecer; o movimento de escovação dentária é algo como um estímulo à atenção auditiva, é uma espécie de mantra tátil-acústico; um metassigno ― limpa-se os dentes ao tempo em que se limpa a mente (um “paramorfismo”, em termos de Semiótica); ao meu ver, todo programa de áudio deveria ser desenhado para que fosse otimizado nesta ocasião; parafraseando Junichiro Tanizaki, foi nos momentos de escuta simultânea à escovação dentária que os poetas fizeram seus melhores poemas...; ouvir programas como Manual do Usuário, com a suave voz de Rodrigo Ghedin, ao tempo que se escovam os dentes, é análogo à prática da meditação; variações como “escovando os dentes com fones de ouvidos” não surtem o mesmo efeito de mentitude, uma vez que o som da escova compete com o do áudio ― o crânio, como boa caixa acústica que é, amplifica o ruído de suas cerdas ―; dessa forma, dessacraliza-se este que é um modelo de receptividade acústica, uma “posição de lótus” do ouvinte; como nada é perfeito, por conta do curto período da higiene bucal, não é possível usufruir de muitos episódios nesta posição ― mas, estendendo a escovação, quão brancos meus dentes ficaram desde que comecei a ouvir podcasts depois de terminar o almoço...;

5) caminhando, com fones de ouvidos; postura extremamente superestimada, uma vez que o “podespectador” tem de lidar com toda sorte de intempéries e ruídos externos; por exemplo, na posição pré-sentado-no-ônibus-com-fones-de-ouvidos, isto é, quando se está prestes a pegar a condução, o ouvinte é incapaz de se ater a quaisquer palavras ditas que sejam; tudo se trata de não perder o transporte, passar na catraca e sentar o mais rápido possível, com a chance de permanecer de pé a viagem inteira;

6) deitado na cama, via alto-falantes do telefone; outro modelo bem estabelecido; algumas aplicações de podcasts (como o supracitado AntennaPod) otimizam-no com recurso temporizador agendado, a partir do qual, em determinada hora, o episódio é pausado após um determinado tempo ― ideal para quem escuta antes de dormir; inclusive, alguns podcasts, como o famigerado “Ser Sonoro”, foram desenhados especificamente para serem escutados única e exclusivamente na cama, antes de dormir.

Quem dera se todo programa de áudio aplicasse um UX listen design dessa forma!

#cotidiano


CC BY-SA 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter


Imagem de um homem vestindo terno com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo

Imagem: Robert Longo ― via Flashbak

Como é de hábito, sempre que publico um textão, costuro algumas notas.

Para quem ficou interessado pelo Manifesto Offpunk: sim, o escrevi todo em português, mas publiquei em inglês para dar-lhe um maior alcance. Logo mais publicarei a versão original, e mês que vem, se tudo der certo, sai também uma versão em francês, traduzida pelo @ploum@mamot.fr.

Primeira experiência com newsletter

Subscrevi a uma newsletter pela primeira vez. Substack, para variar. Costumava seguir algumas dessas revistinhas por RSS, mas a integração com o protocolo é ridícula, sempre quebra dentro do agregador e, na maioria das vezes, requer conexão ininterrupta ― o que não tem nadas a ver com o éthos do RSS. No ato da subscrição, apareceram mais uns dois popapes pedindo para seguir outras revistinhas. Substack já nasceu emerdificado. Mas a ver como será essa experiência. Ainda preferirei RSS de qualquer modo.

Imagem de um homem vestindo terno com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo

Imagem: Robert Longo ― via Flashbak

Um tratado universal para netiquetas

Está mais do que na hora de criarem uma lista universal de netiquetas, da qual independe de plataforma. Eu incluiria uma: se for deixar de seguir uma pessoa, bloqueie e desbloqueie em seguida, a fim de tirá-la da sua lista de seguidores. Isso é básico.

Porque precisamos garantir o não digital

Forçaram tanto os mais velhos a usar um smartphone, que agora os coitados não sabem nem ligar o aparelho quando ele desliga, puxar cortina de configurações ― nada. Uma senhorinha que mantém um sítio na fronteira entre Piauí e Ceará estava me pedindo ajuda porque entrou na aba de “Whatstatus” e não sabia voltar para o chat. Esse é o nível de desbalanço em que nos colocaram. Praticamente jogaram os idosos na digitalização e eles levam caldo da tecnologia todo santo dia.

Imagem de uma mulher vestindo roupa formal com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo

Imagem: Robert Longo ― via Flashbak

Linkroll

Artigo da Intercept Brasil com uma entrevista do pesquisador belga Mark Coeckelbergh, da área de Filosofia da Mídia, sobre a atual relação entre as BigTech e o governo estadunidense.

Alguns trechos que me chamaram a atenção:

A diferença [entre fascismo e tecnofascismo], segundo ele [Coeckelbergh], é que, enquanto líderes autoritários como Adolf Hitler lançavam mão abertamente de violência, repressão a vozes dissidentes e dependiam de movimentos de massa para ter legitimidade, o tecnofascismo oferece ferramentas de controle mais silenciosas, menos visíveis e mais precisas: os algoritmos. Diferentemente do fascismo clássico, o tecnofascismo não precisou forçar as pessoas ou criar medo. As ferramentas tecnológicas atuais, como os algoritmos, conseguem saber do que você precisa antes mesmo que imagine. Com isso, as pessoas foram dominadas pelo prazer e pela conveniência oferecidos pela IA e suas corporações, tornando-se seres dóceis e obedientes.

[Mark Coeckelbergh:] Os EUA e o Vale do Silício têm essa ideologia neoliberal, muito anti-Estado, livre-mercado, libertários. Mas ao mesmo tempo, a tecnologia nos EUA é definitivamente financiada pelo governo através do Departamento de Defesa, por exemplo, agora chamado de Departamento da Guerra. Há definitivamente ligações financeiras entre governos e big techs.

Eu defendo uma visão em que os seres humanos se relacionem mais entre si, e um futuro que tenha mais essa característica. Precisamos de tecnologias que são agregadoras, que unam as pessoas em vez de isolá-las, que permitam ação coletiva, deliberação.

• Entrevista: Como a IA abre caminho para o tecnofascismo

Imagem de uma mulher vestindo roupa formal com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo

Imagem: Robert Longo ― via Flashbak

Campanha publicitária da Forbrukerradet (tente pronunciá-lo), um “conselho de cliente” norueguesa, satirizando a emerdificação digital através de um personagem que escalou na vida piorando produtos.

• A Day in the Life of an Enshittificator (Youtube)

“Combata o Câncer” é uma campanha da VML Health e da Fuck Cancer com uma ideia inusitada: eles sugerem que você se masturbe 21 vezes por mês. Pesquisas mostram que essa frequência de ejaculação pode reduzir o risco de câncer de próstata em até 22%:

Beat Cancer Off (letsfcancer ― Youtube)

“Possíveis distúrbios cognitivos-comportamentais induzidos pela tecnologia”, é um esquema satírico feito pela VIZsweet e com apoio da @infoisbeautiful@vis.social, que nos faz pensar na nossa relação com tecnologias e dispositivos eletrônicos em geral

“Possible tech-induced cognitive-behavioural disorders” (Information is Beautiful)

Não gosto tanto de ouvir Rádio Novelo, mas curti muito esse episódio em que as locutoras entrevistam um colecionador de correio de voz, uma mídia física (disco de vinil e mais tarde fita cassete) gravada nos correios e enviado por carta, muito popular no começo do século passado, em um tempo em que telefone ainda era coisa de alienígena.

Vozes do Além (Rádio Novelo Apresenta)

Imagem de um homem vestindo terno com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo

Imagem: Robert Longo ― via Flashbak

Uma calculadora que estima quanto os anunciantes pagam para se exibirem a você. Para o meu perfil, pagam 36 centavos de dólar por hora de anúncio. Parece pouco, mas é mais de R$ 273 por mês.

What's Your Attention Worth | The Ad Spend Calculator

Sítio oficial do Décio Pignatari, poeta, tradutor e pensador do Brasil, um dos iniciadores da Poesia Concreta. O espaço virtual foi desenhado pela designer e também poeta André Valias, no aniversário de morte de 10 anos do Décio, em 2022. Das coisas que eu acho mais incríveis nesse sítio é a aba de traduções, posta em ordem cronológica; as traduções do DP vão de Safo à Tsevetaeva, quase dois milênios de poesias...

SITE OFICIAL ― DÉCIO PIGNATARI

Ainda sobre Poesia Concreta, um sítio com o acervo de todas as edições da Revista Código, uma das revistas nas quais os poetas concretos publicavam suas poesias. Para quem curte design e poesia de vanguarda, são um prato cheio de inspiração. Sempre que tenho um tempinho, dou uma visitada na Revista Código.

codigorevista.org

Citações

Uma coisa que eu gostava quando fazia karatê é que nós, faixas brancas, éramos orientados pelos faixas amarelas, poupando o sensei e os karatecas mais experientes de ficar nos ensinando coisas muito básicas. Eu queria que tudo na vida funcionasse meio que desse jeito. Exemplo: nesse sistema eu seria faixa preta em viajar de ônibus, se você não sabe se esse ônibus vai pra Paulínia ou pra Cosmópolis, pergunta ali pro faixa amarela, não enche a porra do meu saco.

@felipesiles@ayom.media

(Abro uma pausa parentética para uma “digressão curiosa”, qual seja concernente ao destino de certas pessoas em relação ao próprio nome. Esse Schoenmaekers, por exemplo: seu nome, provável corruptela “melhorada” de “schömaekers” ― “sapateiro(s)”, em holandês quer dizer “fazedor(es) do belo”... Edgar Poe tinha o destino inscrito no próprio nome: poe(ta), poe(t). Contraditório o destino de outro grande poeta de nosso século, Ezra Pound. Com prenome bíblico, apoiou o fascismo de Mussolini e foi acusado de anti-semitismo; filho de Homer Pound (que foi funcionário da Casa da Moeda estadunidense), chegou a escrever ensaios e panfletos sobre a reforma monetária, para não dizer que o tema da usura é um dos temas centrais de seu poema épico, The cantos (Pound, como se sabe, quer dizer libra) Já Mallarmé (= “mal armado”) sofreu desde os bancos escolares, fez do erotismo um de seus temas fálico-secretos. Para acréscimo de seus males, era de baixa estatura ― e mais sofreria ainda por sua obra, objeto de ataques constantes e até rasteiros. Fernando Pessoa negou o nome, dividindo-se em outras pessoas e outros nomes ― os famosos heterônimos (Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Albero Caeiro). Waldemar Cordeiro, com seus 1,90 m de altura, foi o rebelde e agressivo líder dos artistas concretos de São Paulo, na década de 50. E Mondrian, ao ouvir e pensar o seu nome à francesa, não podia deixar de pensar, ver e ouvir “Monde/Rien” [Mundo/Nada]

― Décio Pignatari em “Semiótica da Arte e da Arquitetura”.

#notas


CC BY-SA 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter


Logo of offpunk Manifesto, a up-side down symbol of wireless internet

The revolution will not be digitized.

Versão em português

At a time when hyper-connectivity is pointed to as a symptom of an inescapable future, a shy and uncomfortable movement is insinuating itself: that of purposeful and intentional disconnection. The adoption of “dumb phones” has grown in recent years. Digital cameras are being used again. As are cassette tapes. And also typewriters... There is also a movement towards adopting the newspaper. Even the minidisc, forgotten because of the mp3 player, has risen from the ashes.

At the beginning of the century, the internet was the promise of the final act of the “Global Village,” advocated by Marshall McLuhan. Computers, expensive and scarce (hence, sometimes communal), were portals to an otherworld. Governments, spending considerable sums, sought to ensure that poor classes were digitally “included.”

We got there. We are now heading towards the mark of three connected devices per person worldwide, according to Cisco Visual Network Index estimates for the 2020s.

The digital is ubiquitous and taken for granted. Included digitally whether we like it or not, we no longer connect to the internet. We simply live in it.

As if wearing a uniform, we keep our phones in our pockets to work, to live, to love.

Digital technology has ceased to be a tool and has become an environment — an environment from which one cannot escape. That is, a prison.


“Ensuring the non-digital is a duty, not a return to the past,” Giulio Cavalli.


In this scenario of compulsory, sometimes unnecessary, connectivity, true dissent isn't bypassing the system — it's simply refusing to be part of it.

As the belgian sci-fi writer and software developer Ploum argues, the “punks” of our era are those who dare to live without a smartphone — or “offpunks,” as I now prefer to call them.

Connection as a Weapon of War

The result of centralized, monopolistic technological development, the distribution of internet or digital services has become a weapon of war. When countries with “hard power” enter conflict, they seek to disrupt not only water and gas supplies — they cut off the internet as a wartime tactic. Russia did so in offensives against Ukraine; Israel does so within Palestine.

At the end of 2025, French judge Nicolas Guillou of the International Criminal Court lost all access to several American digital services — such as hosting, online shopping, and banking — provided by American companies like Airbnb, Amazon, and PayPal. The United States justified this sanction because Guillou issued arrest warrants against Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu and his Defense Minister Yoav Gallant, due to Israeli attacks of a genocidal nature in Palestinian territory. The United States is the main country supporting Israel's actions in Central Asia.

The offpunk stance is born from a simple and uncomfortable observation: the digital realm is fragile. At the same time, all social life is forcibly embedded within this environment. Therefore, this stance takes into account that one must not depend entirely on virtual services, at the risk of one of them being sanctioned or becoming unavailable. Examples like the Microsoft server outage that impacted banking services worldwide in mid-2024, the sanction of Twitter/X by the Brazilian government in late 2024, and the global outage of Amazon and Cloudflare servers in late 2025, which took down numerous domains on the internet, laid bare not only its fragility but also our dependence on these services.

When the system goes down — due to political sanction, outage, or war — what exists online simply evaporates. You are left helpless if your only option is digital.

After all, uninterrupted connection is not a guarantee, especially in countries of the global South or those under internal or external political conflict, or even in peace situation ― in the city of São Paulo, Brasil, due to its policy of outsourcing its energy supply from Italy, there are frequent power outages on rainy days. In these countries, one must always count on analog as a Plan B.

Digital Minimalism and Offpunk

It's important not to confuse “offpunk” with digital minimalism.

Digital minimalism is a liberal approach to disconnection, entirely focused on individual agency, without criticizing power structures.

Since a peaceful offline life is not possible, it strips away all immersive (or “addictive”) digital elements from it, in order to configure connected environments to be simulacra of an analog life. Off, ma non troppo.

What we truly need is the possibility of total disconnection; the right of going around without the needing of carrying the newest smartphone and being available for 24/7 communication.

Trine Syvertsen demonstrates very well in her “Digital Detox: The Politics of Disconnecting” (2020) how digital minimalism participates in a neoliberal agenda of shifting the responsibility for solving structural problems (previously the purview of collective institutions) onto ordinary individuals — an average user of a modern phone. Furthermore, the author identifies that the reason people seek this type of detox can be summarized by three P's: presence, productivity, and privacy — all individual agendas.

In other words, if you miss moments of socialization because of your phone, if you don't produce at work or on personal projects due to notifications, or if you're fed up with being monitored and objectified by Big Tech, it's all exclusively your fault for not disciplining yourself enough and not studying ways to make it less appealing — not because of a business model based on the economy attention, mass surveillance, and by-design addictive software.

This delegation of responsibility for literacy aligns with the German-Korean intellectual Byung-Chul Han’s analysis of contemporary society in his book The Agony of Eros, in which he states that

Self-exploitation is far more efficient than exploitation by others, as it goes hand in hand with a sense of freedom.

Another symptom of this delegation of responsibility is the self-service kiosks found in supermarkets, pharmacies, and banks, which entrust customers with the task of conducting their own retail or banking transactions, most often without an assistant, doing the work of an employee and without receiving any discount on their purchase; if a mistake is made during the transaction, it is charged to the customer’s account, not the company’s.

Offpunk, on the other hand, even though it's a tech-savvy behavior, advocates for unpretentious disconnection, without the detriment of being on the edge of social activities and the exercise of citizenship.

Finally, while digital minimalism sees disconnection as a means to produce more, offpunk does not view digital detox as a means to greater productivity, because it is, in fact, an attitude of anti-consumption.

Definitions

Offpunk is not a lifestyle. It is a stance towards digitalization, the pursuit of a possible collectivization of digital detox, exploring the social and political character of disconnection. It reclaims leisure, citizenship, and communication without the obligation of a digital intermediary; it does not fight for the end of the internet, but battles for a practible life without uninterrupted connection.

And as a stance, offpunk is closer to a secular tactic, like meditation and guerrilla warfare.

Furthermore, it is noticeable that the intricacies of modern work, even those involving analog activities like teaching, are increasingly invaded by digital processes. In the 2020s, the common use of internet can only be associated with work, as disconnection can only be associated with leisure.

Thus, an offpunk stance defends life beyond work.

On the other hand, with so many unnecessary layers of digitalization in our daily lives, at certain moments one finds in the analog more fluid and direct means of solving problems (read the section “offpunk instruments”).

Offpunks include: a teenager who adopts a basic phone and joins a luddite club; an audiophile who, dissatisfied with Spotify, decides to acquire a record player or an mp3 player; an expert who uses cybersecurity systems; those who fight electronic device obsolescence by installing Linux or custom ROMs on their devices; a self-employed worker who deactivates their commercial social media like Instagram and Facebook; an elderly person who resists using smartphone and finds ways to circumvent digitalization.

Offpunk is not nostalgia. It is not a naive technophobia nor a romantic escape to an imaginary past. It is, above it all, a search for sovereignty and self-managing. Paraphrasing Eduardo Fernandes, as an offpunk:

Technological revolution is not revolutionary, becoming outdated is not reactionary.

The Offpunk Aesthetic

Offpunk doesn't have a face yet, but we have some clues as to what it might look like. The first one might come from a recent definition by Ploum of his own action on internet: “technopunk,” an anti-system technophile.

As mentioned earlier, offpunk is about a stance towards the state of technology in the contemporary world, not an utopia/dystopia or a visual aesthetic that participate of wider cultural movement such as “solarpunk” or “cyberpunk.”

Some offpunk examples:

1) in computing, the Offpunk browser for the Gemini protocol, which names this manifesto; 2) in design, the concept of the “Forever Computer” and the Mudita Kompakt phone; 3) in society, the New York Luddite Club; 4) in literature, “Bikepunk” (2025); 5) in cinema, “One Battle After Another” (2025).

In One Battle After Another, “obsolescence,” the downgrade is a strategy for freedom. The characters resort to old, customisable devices to create a parallel communication and security network. When new technologies (such as smartphones) emerge, they’re meant to put lives at risk, to suppress people, and to prevent plans from coming to fruition.

Eduardo Fernandes (Texto Sobre Tela).

In the German-Japanese film “Perfect Days” (2023), we watch the idyllic routine of Hirayama, a cleaner for the Tokyo Project public toilets, who, in his free time, takes photographs, listens to music on cassette players, rides a bicycle, reads books before sleeping, and appreciates every moment of his days — disconnected and doing fine.

Japan, famous for being a country that manages to balance the modern and the traditional, provides cash payment kiosks, business communication via landline telephone, retrocomputing used by large companies — like fax and floppy disks. In India, which perhaps has the best telephone system in the world, the average citizen makes around 90 calls per day.

Demands

Issues related to offpunk include:

1) the fight against overproduction;

2) the fight against planned obsolescence;

3) the fight against the “internet of things,” seeking to break the vicious circle of interconnected devices that consume our time and drain our data to feed Big Data;

4) the fight against the economy attention;

5) reducing working hours, which gradually push labor activity further into the virtual field;

6) the right to leisure, to citizenship, and to work without the needing of a digital device;

7) the urge of a wide inclusion of the poorest and elderly segments of the population to the digital world, which depends not only on acessing an electronic device but also on digital literacy for their independent use and maintenance of that device, aiming a decreasing dependence on others.

Italian columnist Giulio Cavalli argues:

It's true: digitalization simplifies, speeds up, and standardizes procedures. But only for those who can be part of it. For everyone else, the future is a closed door.

“Ensuring the non-digital is a right, not a return to the past” (lettera43)

Offpunk Instruments:

1) cash — it's practical, requires neither electricity nor internet, and ensures personal data isn't stored in Big Data systems;

2) analogue media – ensure that communication independent of the internet is possible, or that the item is actually yours (and not rented), as it is a physical object: records, mp3/mp4 players, radio, printed newspapers;

3) revived digital media — email, low-cost “brutalist” websites, digital cameras, “dumb” phones;

4) file storage and transfer media — they ensure digital data isn't lost in the event of a connection outage: hard drives, memory cards, USB drives, self-managed local cloud services;

5) alternative communication protocols: messengers via Bluetooth (Bitchat), Gemini, encrypted email, onion browsing (Tor), XMPP.

Challenges:

1) overcoming digital conveniences (searching, text translation, easy entertainment, remote payment);

2) accessing social spaces permitted or facilitated only through digital means (concerts, cinemas, restaurants);

3) building professional networks without digital intermediation.


We defend the non-negotiable right to the non-digital. The right to share without the intermediation of algorithms, to organize socially without the mediation of platforms, to resist the imperative of online presence.

As long as a handful of companies in the Global North maintain a monopoly on technology; as long as mass surveillance continues with the state’s consent; as long as there is widespread data collection — and a lack of transparency regarding the use of the collected data — ; as long as there is an economy attention that usurps our valuable free time to force us view some ads on essential digital services; as long as there are infrastructures hindering digital sovereignty in Global South countries; as long as there is compulsory digitalization in a world where the internet is not treated as a basic, inalienable right — the revolution will not be digitized.

This text was originally written in Brazilian Portuguese and is signed by Arlon de Serra Grande and Lionel Dricot (a.k.a. @ploum@mamot.fr).

Fall 2026.

#tecnologia


CC BY-SA 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter


Nas últimas Notas Costuradas eu havia anunciado a página Recados, onde faço comentários mais curtos e despretensiosos.

Uma leitora destas Ideias, porém, pede que eu não largue as ~notas das Notas Costuradas, uma vez que as atualizações da página Recados não vão para o RSS. Por outro lado, vejo que essa mesma página não recebe tantas visitas.

Tentarei resolver esse dilema por um meio-termo: mantenho as atualizações, quase na mesma frequência com que eu mantinha meu perfil de microblogue fediversal; ao mesmo tempo as republico nas Notas Costuradas, só que com um pouco mais de desenvolvimento.

Além dessa ressalva, queria dizer publicamente que a partir de agora estou mais comprometido com a escrita de prosa ficcional ― ou algo assim. Há um tempo tenho me interessado por crônica, esse gênero que representa tão bem o Brasil.

A última publicação foi algo nesse sentido. No entanto, está mais próxima de um conto do que de uma crônica; mas já é algum exercício. Tenho pensado seriamente em partir para o pastiche, imitando mestres cronistas que admiro, como Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade e Décio Pignatari (esse Pelé da crônica). Essa foi a técnica que adotei para aprender/apreender poesia, que busquei registrar através do meu livro autopublicado “Estudando Poesia”. Funcionou para este tipo de literatura. Espero que funcione para a prosa.

É isso. Sigam na leitura:

Ainda sobre dilemas

Configuro um software para transcrever minhas notas em áudio, o Speech Note. Eu costumava utilizá-lo antes de formatar o computador. Como voltei a gravar mais áudios como forma de “sentir que estou escrevendo”, decidi baixar o programa e prepará-lo.

Ele é uma mão na roda, mas que está tomando muito tempo. Às vezes penso se não seria melhor escrever somente com os recursos primários ― papel, caneta e cabeça ―; que o desenvolvimento de ferramentas de escrita na verdade está é complexificando uma coisa que é simples: escrever. Digo, não escrever em si, mas: passar uma mensagem para outra pessoa.

De qualquer forma, gosto de experimentar novas ferramentas, e sempre o enfatizei aqui. Talvez o que esteja me aborrecendo seja a curva de aprendizado que cada ferramenta me toma. Um baita dilema. Quem domina somente os instrumentos básicos não passaria por isso. Porém, eu que domino instrumentos alternativos, digo: por que não reinventar aquilo que já está dado como definitivo, uma vez que cada instrumento é determinante para o texto?

Blogues x Newsletters

Rolando pelo Lerama, posso dizer com toda a certeza: blogues têm mais molho do que newsletters. Felizmente ainda há alguns desses últimos que se salvam, mas em geral os demais parecem mais revivais do Tumblr, soa algo da adolescência tardia, uma poesia barata aqui, uma fotinha bonitinha ali, um desabafo praculá. Uma breguice só.

E escrevem muito mal. Não consigo terminar a maioria dos textos que começo a ler, não há cadência na escrita, não há costura alguma, textos que andam em círculos sempre, sempre redundantes e cheio de clichês. Ler o primeiro parágrafo e ler qualquer outro não faz diferença. Dá igual.

O mais engraçado de tudo é que “newsletter” só se resume a Substack. Só tem essa plataforma de newsletter por acaso? (E nem o povo do Fediverso para divulgar mais o Ghost...). Quando as pessoas se referirem a toda e qualquer newsletter como “Substack”, quero só ver...

Ainda sobre polarizações

Rolo pelo Lemmy. Claramente há uma grande cisão entre um Fediverso “shitposting” e um Fediverso discursivo. Os lemmyanos diferenciam esses dois polos (que raramente se tocam) como “blogoverso” e “fioverso”, respectivamente.

No período em que estive dentro do Mastodon e outras plataformas de microblogue, sentia falta exatamente desse ímpeto de debate, que eu via em comunidades anglófonos ou italófonos. Pode ser também que isso seja algo cultural, que o Fediverso brasileiro não curta mesmo discutir. Quando descobri que era possível publicar em comunidades mais verborrágicas, como Lemmy e Friendica, mesmo sem ter conta nessas plataformas, fiquei mais tranquilo.

Espero que a esta altura do campeonato, os dois polos estejam um pouco mais integrados. Isso não é tão visível a partir do chamado “fioverso”.

Proton Mail não vale o que sai da bunda

Troquei o meu serviço de e-mail. O Proton estava praticamente com o espaço esgotado. Decidi trocá-lo porque o Proton só disponibiliza 1GB de armazenamento de mensagens. Quando comecei com o serviço, era até suficiente. Dois anos depois, já está lotado.

Então pensei “Bom, já que é para trocar, vou tentar um outro serviço que tenha outros recursos”. Decidi assumir um Disroot, porque ele permite logar em clientes de terceiros, como Thunderbird. Através do Thunderbird, é possível manter mensagens em modo offline, e agendar seu envio.

O Proton não o permite. Simplesmente. Para tanto, é necessário um tal de Bridge sei-lá-o-quê-das-quantas, que só é acessível por uma conta premium. Só é possível ver e-mails via desktop pelo webmail. “Até aí, tudo bem”.

Agora, com a conta nova criada, o que se faz? Configura-se o encaminhamento automático para o endereço novo, que será utilizado como primário. Negócio tranquilo, coisa de rotina. Fi-lo diversas outras vezes com contas Gmail.

E eis que para a minha surpresa, acabo de saber que Proton não permite encaminhamento automático em um plano gratuito. A principal suíte privativa anti-Google tem táticas de marketing que faria um CEO techbro ter espasmos de tesão.

Felizmente, os demais serviços da Proton são decentes. Mas em matéria de jardim murado, Proton é docente.

América do Sol

Tenho trocado o café por suco. Às vezes paro e penso e me pergunto por que diabos esse fetiche por bebidas quentes em um país calorento como o nosso. Faz mais sentido utilizar a comida e a bebida para nos resfriar...

Faço das palavras do Rodrigo Ghedin as minhas:

Por que aquele chapéu em formato de cone, típico na Ásia (Vietnã, China), não é usado no Brasil? Esse Sol de rachar... O chapéu é tipo um guarda-sol pessoal. Seria estranho se eu usasse um?

Aliás, aqui em casa tenho esse chapéu (chamado de “nón lá”) que comprei por míseros R$ 20,00 em Salvador, e pretendo usá-lo com mais frequência até que eu me sinta mais confortável. Já o usei algumas vezes e é bem agradável, parece até feito para o nosso clima.

Blogue + e-mail = liberdade

Se você tem um sítio pessoal ou um blogue, peço encarecidamente: divulgue o seu e-mail. Da forma mais objetiva possível. Nem todo mundo está interessado em lhe seguir via rede social, mas sim interagir de par para par ou ao menos mandar um feedback.

Muito se fala no Fediverso sobre combate contra monopólios, mas um e-mail somado a um blogue ou sítio pessoal bate de longe qualquer protocolo alternativo de comunicação no quesito descentralização.

Linkroll

Ainda sobre blogues e e-mails, @ploum@mamot.fr fala por que não precisamos criar mais protocolos descentralizados e alternativos, mas sim utilizar a atual infraestrutura de forma que não atravesse monopólios tecnológicos.

The biggest lesson I take is that “social networks” are not about protocols but about how we use the existing infrastructure. Microsoft and Google are working hard to make sure you hate email and hate building a website. But we don’t have to obey.

• The Social Smolnet (ploum.net)

Filtro para o OpenStreetMap que exibe instâncias do Fediverso pelo mundo. Já espoilerando: o Brasil atualmente detém cinco instâncias com servidores locais: pixelfed.com.br, mastodon.com.br, burn.this.town, colorid.es, bolha.us. As quatro últimas são comunidades Mastodon.

• Fediverse Near Me (OpenStreetMap)

Belo artigo de opinião do Rodrigo Ghedin sobre o atual movimento de proibição de redes sociais para menores de idade em todo o mundo:

Não existe idade certa para essas coisas. E, ainda assim, tudo isso está normalizado. As pessoas reclamam de estarem viciadas no Instagram ou no TikTok, dos golpes chancelados pelas plataformas em todo anúncio que veem, dos vídeos com cenas atrozes que saltam do mais absoluto nada, e... tudo bem? Continua tudo igual. Talvez devêssemos tratar redes sociais como tratamos o tabagismo no Brasil. Proibidas para menores e com restrições mais severas que atinjam (e beneficiem) a todos.

• Redes sociais afetam adultos também (Manual do Usuário)

Eduardo Fernandes inverte os papéis com a ferramenta generativa: a IA escreve o comando e o autor envia a resposta. Achei um exercício de escrita bastante interessante.

• Gemini e Claude querem que eu fale sobre morte (Texto Sobre Tela).

Gifavetta, artista nômade digital, viajou pelo Brasil registrando dezenas de placas escritas à mão e muros grafitados para criar a Tipografia Vernacular 0800, um repositório de fontes baseado em letras de manuscritos urbanos:

• Tipografia Vernacular 0800 (gifavetta.art)

@lucianohbraga@instagram.com decidiu imprimir suas newsletters favoritas e pregar em uma parede do bairro Bom Fim, em Porto Alegre. Isso me faz pensar que, estamos tão cansados do algoritmo e da tela, que, qualquer chance que tivermos para fruir um texto, mesmo digital, fora desse meio, estaremos dentro.

Isso também me fez pensar em como precisamos criar formas de compartilhar nossas curadorias. A minha já é esta: manter um blogue. Essa é a maneira que encontrei para contribuir para uma deslinearização da experiência na internet.

• Pegue uma news (Instagram).

Uma árvore genealógica dos gêneros musicais, organizados por época, cada qual com uma playlist bem curada. É mais do que um sítio web, é uma peça de arte e de pesquisa séria. Simplesmente viciado nesse espaço!

• The genealogy and History of Popular Music Genres (musicmap.info)

Um medley infinito em estilo Habboo de personagens de cartuns, séries, games, memes e cultura pop em geral dentro de uma espécie de edifício-fábrica. Atualizado esporadicamente. Adorando conhecer memes, os mais obscuros...

• Floor 796

Artigo da Piauí reproduzindo o prefácio de “Um homem chamado Opinião” (de Márcio Pinheiro), escrito por Marcelo Rubens Paiva, autor de “Feliz Ano Velho” e “Ainda Estou Aqui”. O livro retrata a trajetória de Fernando Gasparian, empresário que manteve o jornal Opinião, o qual continha uma postura progressista e de sutil subversão, durante a ditadura militar.

A L&PM Editores publica em abril a biografia Um homem chamado Opinião, de Márcio Pinheiro, sobre a trajetória de Fernando Gasparian (1930-2006). Empresário da indústria têxtil, depois do golpe militar de 1964 foi perseguido e asfixiado economicamente pelo governo devido a suas posições liberais e acabou se exilando na Inglaterra. De volta ao Brasil no início da década de 1970, criou o semanário Opinião, que entre 1972 e 1977 seria um dos principais e mais ousados veículos da imprensa a enfrentar a ditadura e sua censura, como descreve o trecho a seguir do livro, cujo prefácio é do escritor Marcelo Rubens Paiva.

• Um jornal de Opinião (Revista Piauí).

Luciana Morin (@luciana@organica.social) explica o que é o protocolo RSS e faz uma bela curadoria de feeds. Fiquei muito feliz de ter encontrado vários links funcionais de endereços dos quais já busquei um RSS...

• Sabote a economia da atenção construindo sua própria timeline via RSS (O sol na cabeça).

Citações

Como dizia um amigo meu, surrealismo é quando você dá uma surra no realismo.

Bráulio Tavares.

A transição pra vida adulta é marcada pelo dia em que você vai ao centro da cidade comprar agulha pra fogão à gás.

@ivanjeronimo@bolha.one

If this new chatbot is so efficient, why do you need to force your employees to use it? Why do you need to advertise the fact that you are using it? Are you that insecure? If I truly had a powerful tool, I would not talk about it. I would only show it to my employees, asking them to not tell the competition about it. And I will let the employees discover by themselves how efficient it is by giving bonuses to the most efficient.

@ploum@mamot.fr

#notas


CC BY-SA 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter


Não há exercício melhor de autoconhecimento do que lembrar, não das primeiras vezes ― essas nos aparecem dia após dia (basta ter a sensibilidade necessária para percebê-las) ―, mas sim das primeiras primeiras vezes, aquelas da infância e da adolescência, de quando o mundo era gigante como o pai da gente.

Até para que eu próprio me conheça enquanto conto uma delas, deixo que o leitor a entreveja...

Eram idos dos anos oitenta, na gloriosa Serra Grande, onde cresci, casei e criei meus três filhos ― que talvez não saibam (por enquanto) dessa história. Estavam ainda em alta as discotecas. Minha cidade, por menor que fosse, dispunha de boas e grandes praças, boates e (vejam só como as coisas mudam!) cinemas. Assim, os namorados estavam bem servidos de programas e, ainda que esses por acaso faltassem, ainda sobravam as serestas e os namoros na varanda ― esses doces e clandestinos ensaios sexuais.

No entanto, para um menino de 15 anos, tudo isso ainda não passava de histórias de amigos e parentes mais velhos. Eu ainda sairia com um “pão” pela primeira vez naquela noitinha de quinta-feira.

Era hora.

Ao entardecer, enquanto tocava a habitual “Ave Maria” no radinho de meu pai distraído no quintal, lá estava eu penteando meus cabelos molhados, com a ajuda do espelhinho de aro laranja. Vestindo a roupa nova em folha saída da costureira ainda àquela tarde, fui sorrateiramente ao quarto dele para tomar emprestadas duas borrifadas de seu melhor perfume.

Fechando cuidadosamente o portão de casa, fui à praça central me sentindo o próprio Tony Ramos.

Já era média noite quando eu a vi, aquela que seria uma das minhas primeiras primeiras vezes... Do seu nome, já não lembro mais, mas poderíamos chamá-la de Mirian.

Amigos meus, mais experimentados, sugeriram que eu a levasse para o cinema, o que Mirian declinou:

― A próxima sessão é muito tarde, e a sala mais próxima está assim de mofo!

Certo. As recentes chuvas justificavam o mofo, mas agora eu teria um escurinho a menos onde a beijar e, quem sabe...

Sobravam a praça e a boate. A primeira, com privacidade zero, nem pensar, a não ser que eu estourasse a lâmpada do poste. A segunda, bem, seria um risco, porque, salvo se por um milagre de termos a pista toda para nós, ficaríamos muito expostos ― aí, já viu: nada de bitoca. Além de tudo, não diria que eu era um exímio dançarino, mas vai que tocava uma música lenta, mais fácil de dançar, e ainda por cima agarradinho...

Apressados por conta da chuva que se aproximava outra vez, quase a atropelando, entramos na discoteca.

Iluminada por mil cores, um calor danado, a pista estava tinindo! Muita gente, pouca chance. Se eu não cuidasse, era capaz até de pegarem a dona que eu levei.

Mas fiquei. Vi que estava curtindo e que já estava na minha. Agora era cuidar para não lhe pisar no pé tentando imitar John Travolta de “Grease”.

Nas minhas limitações, dancei; nas minhas limitações a agarrei; mas nas minhas limitações não cheguei nos finalmentes. Muita luz, muita gente.

Dançávamos bem juntinhos ao som de “Woman”, de John Lennon, até que ― blam! ―, cai a energia. Bem, era agora ou nunca! Um belo de um blecaute, mas eu estava de olhos bem abertos quando lhe tasquei a língua em cheio. Seu gosto era algo entre agridoce e verde-musgo. Estranho ainda era aquela boca sem dentes...

E aí, quando fez-se luz outra vez, Mirian disse:

― Ei, menino, é mais pra baixo, tu 'tá beijando é meu nariz!

#cotidiano


CC BY-SA 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter


que mais parece um blogroll.

Um notebook submerso na água de rio

Com o novo formato de posts que estou mantendo na aba Recados, não creio que seja muito interessante eu voltar a escrever microposts nas Notas Costuradas. Ao menos desta vez, irei compartilhar somente laços que acumulei nos últimos tempos.

20 palavras japonesas para a chuva

Miya Ando colecionou e ilustrou em livro 2000 palavras e expressões japonesas relacionadas à chuva. O MIT Press publicou ao menos 20 delas no laço abaixo:

• 20 Japanese Words for Rain (The MIT Press Reader).

Algumas dessas expressões são:

Kabashira Tateba, Ame: observar uma nuvem de mosquitos ― sinal de chuva;

Giu: chuva falsa;

Ama ga Nukeru: o céu abre, aí chove canivetes;

Kitsune no Yomeiri: o dia quando as raposas têm a sua cerimônia de casamento (talvez se referindo à chuva com sol);

O que é interessante nesse tipo de texto é notar o quanto as línguas se adequam ao ambiente do falante. É como pensar nos dialetos nordestinos e na quantidade de expressões que se tem para falar do sol, do calor e das formas do vento.

Arrobas Pralamentar

Sítio que divulga nomes de parlamentares que votaram em projetos de lei impopulares e suas formas de contato (e-mail e redes sociais), além de outras informações, como partido político e onde foi eleito.

• Arrobas Pralamentar: O pior congresso da história, por enquanto...

Um soco inglês com materiais imitando dentes e gengiva

O quão pior a internet pode ficar?

A teoria da enshittification de Cory Doctorow parte da premissa de que criamos uma maravilha tecnológica e que a ganância corporativa a arruinou. Mas e se não for esse o caso?

Resenha do romancista e ensaísta estadunidense Jacob Bacharach do livro “Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It”, de Cory Doctorow.

• O quão pior a internet pode ficar?, por Jacob Bacharach (Carbono ― UFRGS)

Linhas nada positivas sobre o livro, mas reflexões muito boas. Me junto completamente à “resenha desta resenha” escrita pelo sol2070.

Computação e ergonomia

When interfacing is painful, change yourself or change the computer? The Body and The Computer: Customizations, hacks, unlikely imaginings. How we make computers and computers make us.

Um bloco do Are.na que encontrei outro dia. Uma coletânea de imagens com projetos de ergonomia computacional ou de computação curiosa. Um “bloco” seria o conjunto de ideias, laços, pdfs, vídeos e sons que cada usuário do are.na reune em torno de um só recipiente. O Are.na é um sítio ao qual vou quando quero explorar, recomendo bastante.

• Are.na / Fletcher Bach / Ergonomic Computing

Smartphones fantásticos

Uma série de instalações interativas desenvolvidas por estudantes do bacharelado em Design de Mídia e Interação do Écal, investigando de maneira crítica e distanciada nossa relação com os smartphones e a maneira com a qual eles influenciam nosso comportamento cotidiano.

• Fantastic Smartphones (École Cantonale d'Art de Lausanne ― ÉCAL)

Mantendo os disquetes vivos

Há uma corrida contra o tempo para salvar tesouros históricos presos em antigos disquetes

Matéria da Folha de São Paulo falando sobre o trabalho hercúleo de pesquisadores para manter o arquivo digital do cientista Stephen Hawking, que foi um early adopter do computador pessoal e sempre salvou suas coisas em mídias removíveis ― agora abandonadas.

• Os disquetes esquecidos de Stephen Hawking por trás da corrida para evitar 'Idade das Trevas' digital (Folha de São Paulo).

Quem olhará pelos orelhões?

Pequeno documentário amador sobre a história dos telefones públicos no Brasil, os chamados “orelhões”.

Desde que vi este vídeo, peguei uma obsessão por “retrotelefonia”, telefones fixos, memórias associadas à ligações etc. Ando até mesmo pensando em comprar um telefone fixo. Me julguem!

• O auge e a queda dos orelhões no Brasil (Canal 90 ― Youtube).

Uberizando

Texto dA Pública mostrando os critérios absurdos da Uber para cobrar mais em viagens ― ao tempo que paga menos aos motoristas.

• O que você deve fazer para pagar menos no Uber – e aprender no caminho (Natalia Viana ― A Pública)

Geriatria da tecnologia

Como o filme Uma Batalha Após a Outra retrata a guerra entre tecnologias.

Eduardo Fernandes reflete sobre como temos de lidar com camadas e mais camadas de tecnologias e como velhas tecnologias estão se tornando “resistência” na era da ultradigitalização.

Geriatria da tecnologia (Texto Sobre Tela ― Substack).

Cada homem é árbitro de suas próprias virtudes.

― William Faulkner em “O Som e a Fúria”.

#notas #cultura #tecnologia


CC BY-SA 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter


Filipe Saraiva, desenvolvedor e veterano fediversal, fala sobre por que abandonou o Micro.blog, uma plataforma social dentro do ecossistema ActivityPub ― t.c.c. Fediverso.

• RT/Boost/Repost é um componente prejudicial para redes sociais “tranquilas”? (filipe.saraiva.tec.br).

Com “tranquilas” Filipe faz menção àquelas redes que

desabilitam funcionalidades viciantes, que fazem com que o usuário fique cada vez mais tempo na plataforma, e também funcionalidades que o estimulam a criar uma “audiência” cada vez maior em torno do conteúdo.

Filipe teve o lampejo desse suposto efeito danoso dos compartilhamentos automáticos (chamado de “RT” em seu texto) desde que começou a frequentar Micro.blog.

Micro.blog, como seu próprio nome diz, é tipificado como microblogue, mas, ao contrário de seus análogos Twitter, Threads, Bluesky e Mastodon,

doesn’t have like counts or follower counts. It’s not a popularity contest

Isso mesmo. No seu fluxo principal, não mostra número de favoritos, compartilhamentos e comentários. Nem mesmo a contagem de seguidores. Somente as publicações de seus membros. Só. That's all, folks. C'est tout.

Não obstante, também não incentiva o compartilhamento automático. Como mostrado no laço do blogue do Filipe Saraiva do início deste texto, quem quiser compartilhar a publicação de um “microblogueiro”, que insira o endereço da publicação na caixa de texto.

Assim, a seco, Micro.blog manifesta sua ojeriza ao número virtual e entra na escassa lista de redes sociais que não têm em si o número como incentivo para a interação virtual ou termômetro de um perfil. Dentro dessa mesma lista só se encontrariam o Lemmy e algumas plataformas de macroblogue, entre as quais o WriteFreely, aquele pelo qual publico neste exato momento. O WriteFreely mesmo, só registra o número de visitas em uma página, visível somente para aquele que publicou.

O Instagram mesmo há um tempo deu a possibilidade de ocultar o número de curtidas dos posts. A razão?, não é clara, alguns dizem que é para diminuir a pressão de comparar-se com outro perfil, um argumento insatisfatório, já que ainda há o número de seguidores a serem comparados; outros interpretam que é uma tentativa da rede para se focar mais no conteúdo. A minha hipótese é de que não se queria que empresas que fossem divulgar sua marca na rede social ficassem “abaixo” dos influenciadores, que carregam em si milhares de seguidores.

Seja como for, a simples presença do registro de atividades em uma plataforma social muda completamente nossa relação com os seus membros. Com a presença de empresas nas redes sociais, bem como de influenciadores (indivíduos que têm introjetado a lógica empresarial), o número tomou outro teor dentro dos social media.

Entre um dos efeitos diretos do número em redes sociais, eu apontaria para o incentivo à

performance

Isso porque há um ímpeto no usuário de que ele alcance mais números. Com a contabilidade de seguidores, curtidas, compartilhamentos e tudo quanto, o usuário deixa de ser um membro de uma comunidade para se tornar um empresário de um mercado.

A numerabilização incentiva a competição. Sem a contabilização, não há corrida, corre-se às cegas, sob especulações. Através da contabilização há o mercado, há a bolsa de valores, há o ranqueamento da “qualidade” de ensino de escolas privadas. O número possibilita a comparação e, por conseguinte, a competição. E em uma rede social não se compete outra coisa que não audiência ― alcançada através da performance de uma personalidade unívoca e monotemática. Daí essa infinidade de

perfis nichados

que se encontra no TikTok, Twitter, Youtube. Nas redes sociais voltadas à perfilagem, identidades saltam aos olhos; o usuário larga mão de sua profundeza pessoal para performar uma identidade coesa, sem manifestação de interesses e de problemas vários.

Se a uniformização identitária não resolve, performa-se uma irreverência que se traduz em ragebait, provocações, polemismos baratos.

Em plataformas nas quais o anônimo (o perfil não numerificado) é mais presente, tende-se a ter um espaço mais pacífico e mais resistente à performatividade e ao ragebaitimo; isso é o que percebo em espaços como o Órbita, fórum do Manual do Usuário, no Lemmy, principal rede fediversal de discussão, e nos fios do Gemini, protocolo de internet que tem, como veículo principal, o texto.

Por falar em identidade, outra consequência não tão evidente da contabilização nas redes sociais é o

foco na atividade individual em lugar da coletiva.

Em um fluxo linear de publicações de estilo “microblog”, seja algorítmico, seja cronológico, ainda que intuitivamente, sua estrutura faz focar, não em comunidades, mas em perfis individuais. Esses perfis forçosamente não chamam atenção para questões coletivas, mas em questões pessoais; mesmo quando se exprime a respeito de questões coletivas, o que está em primeiro plano é sua relação pessoal com essa questão coletiva. Nesses fluxos, a terceira pessoa (”você”, “vocês”) fica em segundo plano; resta em primeiro, a primeira pessoa (“eu”, o “nós”). Aqui satura-se a opinião, nunca o diálogo. Satura-se o indivíduo, nunca a comunidade. A

cultura do influenciador

mesmo, tão combatida no Fediverso, é um efeito colateral das redes sociais numéricas. Quando se salienta o indivíduo em lugar de uma comunidade, surge o desejo de influenciar, de reger sobre o comportamento do outro. Afinal de contas, é difícil haver diálogo em um espaço em que há a amplificação de vozes individuais.

“E o blogue?”

você deve me perguntar.

O blogue é também a amplificação de uma voz individual, mas não está organizado no espaço virtual em um recipiente coletivo. Claro, o próprio WriteFreely é uma espécie de blogue de blogues. Mesmo assim, é difícil haver uma competição entre dois perfis writefreelyanos, até pela escassez de perfis.

Cada blogue e cada sítio blogueiro adquire o seu próprio direito de existir; respeita a horizontalidade do espaço virtual; e, como se não bastasse, tende a apontar para outros. A natureza blogueira é hipertextual, não autorreferencial, como perfis microblogueiros de um Twitter ou de um Mastodon ― que, inclusive, por não aderirem a linguagens de formatação como HTML e Markdown, não comportam bem hyperlinks.

Além disso, o blogue, por princípio, não é numérico; não põe a nu os números de visitas e de compartilhamentos; não pode ser comparado um ao outro, porque, para isso, todos deveriam ter estruturas e registros estatísticos similares.

Explorados os problemas da contabilização nas redes sociais, faço agora eco à preocupação de Filipe Saraiva quanto aos

compartilhamentos automáticos.

Quando entrei no Mastodon em meados de 2023, imaginava encontrar um espaço virtual “tranquilo” ― no conceito de Filipe. Apesar de ter uma linha de fluxo cronológica, as publicações eram organizadas de forma caótica. Não havia o menor sentido de ler sobre uma publicação de food porn ou gatinhos seguida de uma notícia de Gaza ou do avanço do fascismo nos Estados Unidos. Estamos tão insensibilizados com o atual estado da internet que não percebemos o absurdo que é organizar as informações dessa forma, em uma só cumbuca.

Uma maneira que encontrei de “neutralizar” e até de tornar o Mastodon mais interessante era “garimpando” perfis. Era o que eu costumava fazer mesmo no meu tempo de Twitter pré-algoritmo. Conhecendo um usuário interessante, eu tendia a perscrutar sua atividade, observar quais perfis seguia, quais publicações compartilhava, com quais pessoas interagia. Isso fazia com que eu criasse uma rede comunitária mesmo em um espaço que tem em primeiro plano a dinâmica individual sobre a coletiva.

Em outras palavras, o que eu buscava era

“bloguificar” o microblogue.

Daí, passei a criar listas de perfis e etiquetas (#), que acabavam por se assemelhar às comunidades do Lemmy: havia coerência, previsibilidade e recursividade. Se eu quisesse ler sobre geopolítica, buscava perfis sobre esse tema; se queria ver memes, abria um perfil que estava de bom humor; se queria ver recomendações de filmes, seguia a etiqueta temática # tercinema, na qual os membros de comunidades mastodontes indicam filmes sobre um determinado tema, debatido em enquetes.

Tudo era lindo, maravilhoso, delicioso, uhu... mas aos poucos fui cansando. A internet, como os recursos elétricos em geral, até um certo ponto nos permite configurar seus ambientes ao nosso bel-prazer. O problema é que as coisas “raqueadas” funcionam feito gambiarras. É possível frequentar o Mastodon como um espaço no qual o indivíduo não esteja em destaque, mas isso demanda paciência e letramento.

Mais fácil seria então manter

um blogue “de verdade”.

Afinal, coerência, previsibilidade e recursividade são da natureza blogueira. Além disso, introvertido que sou, eu não estava mais interessado em trabalhar para manter uma audiência em rede social.

Nesse ínterim, recuperei meu interesse em fóruns de discussão, um tipo de espaço que frequentei bastante quando era adolescente. Em um fórum, nunca se veem opiniões empurradas goela abaixo, nem piadas forçadas, lamentações ou ragebait― porque aí o indivíduo está em segundo plano.

Passei então a abrir mais o meu e-mail (doravante “e-meio”), por onde eu recebia comentários do meu blogue e notificação de respostas em fóruns de discussão, e a seguir mais as publicações por RSS, por onde eu acompanhava sítios de que gosto.

Assim estabeleci o

meu guia de orientação de atividade virtual

que é basicamente:

  1. evitar plataformas que tenham fluxo de publicações algoritmado ― como Instagram, Tiktok e Youtube;

  2. evitar redes que tenham um fluxo de publicações centralizado e que não deem a oportunidade de o usuário fazer a sua própria curadoria refinada de conteúdo ― como Instagram e TikTok;

  3. evitar redes que foquem em expressão em detrimento do diálogo ― Mastodon, Instagram e tudo quanto;

  4. manter a atividade principal em mídias que não destaquem o registro numérico da atividade dos usuários: RSS, blogue, fóruns e mensageiros (o e-meio incluso).

Para além dessas diretrizes, sempre busco como que “raquear” a estrutura das redes: costumo usar o Freetube, que permite assistir a vídeos do Youtube sem propagandas e que dá a oportunidade de criar listas mesmo sem ter um perfil na plataforma; e visito o Imginn quando preciso visitar um perfil do Instagram sem estar logado nessa rede.

Não estou mais interessado em aparecer, mas sim em fazer aparecer o outro na minha palavra.

Só me interessa o que não é meu

― Oswald de Andrade.

#tecnologia


CC BY-SA 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter