Offpunk: baixando a internet

Em um mundo compulsoriamente conectado, passei a interagir mais com páginas web desconectado através de Offpunk, um navegador desenhado para um uso humano da internet. Imagem: offpunk.net
Seguir feeds por RSS é complicado. “Complicado” não no sentido de ser difícil de usar. Falo da diversidade de conteúdo que o protocolo proporciona. Esse protocolo flexibiliza bastante o rol de publicações as quais pode se acompanhar, mas, exatamente por serem diversas, requerem dispositivos que se adequem a essa diversidade.
Já há mais ou menos quatro anos que tento distribuir meus feeds através de pelo menos três aparelhos: um telefone, um leitor digital Kindle e um computador.
Falei da minha experiência de Kindle com RSS através deste artigo
Entretanto, com tanta variedade midiática, é difícil organizar os conteúdos adequados para cada dispositivo.
Publicações curtos (microblogues, sobretudo) ficam no telefone; aquelas que tinham imagens como centro das publicações ficam no computador; outras que tinham textos mais longos, ficam no Kindle.
Lateralmente a esse fator, ainda havia o critério de conexão. A grande sacada do RSS em uma era perpassada pelo algoritmo e pela coleta massiva de dados é que ele apresenta uma internet que prescinde de conexão ininterrupta, que pode ser acessada posteriormente, sem acesso à conexão.
Alguns feeds, porém, exigiam essa conexão constante para que as imagens fossem carregadas. A grande maioria dos agregadores não as baixam em cache como ocorre com textos ou áudios (como é o caso de podcasts, que também são veiculados por RSS).
Além disso,a minha leitura se restringia somente àquilo que foi baixado, sem poder abrir links anexados caso estivesse offline ou momentaneamente sem conexão.
Foi aí que experimentei o navegador Offpunk.
Navegando offline
Offpunk... Esse nome lhe deve ser familiar, não é? Afinal, foi esse navegador que batizou o Manifesto que publiquei mês passado.
Esse projeto foi desenvolvido por @ploum@mamot.fr, que também me ajudou a escrever o texto citado acima. Sua ideia era criar um meio de navegar entre os protocolos HTML, Gopher, Gemini e RSS (!), dentro de um terminal de computador (!), através de uma sincronização que poria todo o conteúdo carregado em cache temporário (!).
Eu já conhecia o projeto, o experimentando por algumas páginas e me encantou muito a sua filosofia offline first, que atualmente aplico a basicamente todos os meus dispositivos. A experiência havia permanecido somente no campo da curiosidade. Mas somente agora dei uma chance real para inclui-lo dentro da minha rotina.
O foco principal do navegador Offpunk é o texto, mas veja só: ele permite o download de imagens! A minha jornada com RSS teve um final feliz. Com alguns desafios, porém.
Processo de adaptação
O primeiro desses desafios foi adequar-se à dinâmica do terminal. A minha experiência com esse recurso era até então um pouco superficial, ao qual eu recorria só para instalar algum programa de fora do repositório dedicado ao meu sistema operacional.
No início a interação com texto puro é esquisita, mas aos poucos o aspecto simplificado do terminal atrai e se acaba por criar simpatia pelo texto verde sobre um fundo preto. Além de tudo, a atividade no meu computador é mais orientada ao teclado do que ao mouse.
Dentro do navegador Offpunk, não há interação com qualquer recurso visual do tipo “botão” ou “campo de texto” por intermédio do mouse, a não ser para cópia de texto. Somado a isso, Ploum optou por acionar alguns comandos provindos do editor Vim para rolar pela página. Vim é tido como um dos editores de texto mais otimizados para teclado. Por eu já estar estudando Vim há um tempo, pude utilizar o que aprendi dentro do navegador. Mas deixo avisado que o conhecimento nesse software não é necessário para a navegação plena no Offpunk.
O segundo dos desafios foi o volume de comandos. Só para se ter ideia, para interagir com links dentro de uma página, há três possibilidades: “v” apresenta sua url; “t” adiciona-o a uma fila de leitua; por fim, ao escrever o seu número correspondente a um link, abre-se a página linkada, se ela já estiver em cache.
Porém, Ploum fez um ótimo trabalho de instrução com o seu tutorial; além disso, cada comando retorna uma descrição detalhada quando seguida de um “help”; todos os comandos documentados pela versão do usuário são listados quando se lança o comando “help” sozinho.
Junta a esses auxílios, a leitura dos workflow na página oficial do projeto dentro do protocolo Gemini me ajudou muito a entender as formas com as quais posso me apropriar do navegador. Destaco em especial o workflow de Ploum, que é, ao meu ver, o mais informativo de todos.
• How I use Offpunk ― by Ploum (offpunk.net)
Salvei a página acima dentro de uma lista de “bookmarks” para, sempre que tiver algum tempo livre ou alguma dúvida, fazer uma leitura da página e experimentar algum comando novo.
Eu diria que a curva de aprendizado com esse navegador não ultrapassa uma semana se se praticar todos os dias com as instruções disponibilizadas no sítio oficial.
A fim de apresentar a forma com a qual navego com o programa, os recursos de que dispõe e como ele se comporta, apresentarei agora o meu próprio workflow, baseado no modelo citado.
Meu fluxo com Offpunk
Logo que acordo, ligo o computador. Minha rede sem fio é desativada por padrão, através de uma chave no teclado. Quando a ativo, abro o terminal, aciono o Offpunk e digito:
sync 50000
O número se refere ao tempo em minutos e atualiza todas as listas. 50 mil minutos é mais ou menos o tempo desde a última vez em que li todos os feeds. A minha lista de leitura é atualizada ao menos uma vez ao dia.
Como o Offpunk baixa não só texto, mas também imagens, ele custa um pouco a terminar o processo, mas não mais do que o tempo de fazer um café da manhã.
Uma vez que o carregamento acaba e o meu café está pronto, digito:
off
para garantir que nenhum outro dado seja carregado. Isso é importante para poupar e aproveitar os dados já em cache. A fim também de poupar bateria do meu computador, desativo a rede sem fio através daquele mesmo atalho no teclado.
Para seguir com artigos que foram carregados da minha lista RSS ou que salvei na fila de leitura (chamado de “tour”), escrevo
t
Caso o artigo seja legal, mas eu não tenho tempo o suficiente naquele momento, o direciono para a minha lista de “ler depois”:
add ler
Decidi nomear esta lista como “ler” porque é mais prático de ser digitado do que qualquer outro nome.
Ao fim do “tour”, vejo os artigos que estão na lista “ler” com
list ler
Após a leitura, arquivo o artigo:
archive
Isso garante que, caso eu precise retomar o texto lido, não precise revisitar o histórico, que pode ser acessado por
history
Essa última lista tem um limite de 200 sítios da web.
Alguns artigos vêm com imagens em formato de miniatura pixelada, como mostrada na reprodução no começo desta publicação. Caso eu queira abri-la em alta definição, digito
open X
onde “X” é seu número correspondente. Ela abrirá no leitor de imagens padrão do sistema, que no meu caso é o Ristretto. Se ela me interessar, faço uma cópia com Ctrl + S.
Caso eu queira ver para onde vai um link posto em um texto, posso ver a sua url com
v X
em que “X” é o número do link. Se ele parecer legal, ponho-o na lista de sincronização com
t X
e aí na próxima vez que o Offpunk for atualizado, o artigo poderá ser visitado através de um “tour”. Quer dizer, não só o artigo, mas os links que estão conectados àquela página.
Se o sítio for interessante, talvez eu queira compartilhá-lo com um amigo por e-mail:
share
(para abrir o meu cliente de e-mail com o link no corpo de texto) ou
share email@dominio.com
(para direcionar o endereço direto para algum contato específico).
Posso também seguir o sítio por RSS, caso o navegador forneça um feed:
add rss
A lista “rss” é atualizada com “sync” e seus novos artigos são postos em “tour”. Mas tenho uma outra lista que é atualizada, mas seus artigos só podem ser lidos caso eu os visite:
list news
Essa é útil para fontes que são muito noticiosas ou que às vezes vêm com a visualização quebrada (sobretudo perfis do Mastodon).
Caso eu já tenha visto tudo, checo ainda se não há mais nada a ser lido com
list tour
e saio da aplicação com Ctrl + D.
E a navegação conectada?
Quanto à pesquisa, Offpunk é focado em artigos publicados no protocolo Gemini, através do motor de busca Kennedy.
Há uma forma de modificar o motor de busca padrão, mas até agora não encontrei nenhum que rodasse dentro do Offpunk. Tampouco faço buscas constantes no protocolo Gemini. Talvez eu devesse lhe dar mais chance.
Caso eu precise buscar alguma informação conectado, abro meu navegador padrão (Librewolf), vejo se há alguma página que me seja útil e daí, se eu não tiver disponibilidade para uma leitura aprofundada, abro o navegador Offpunk, colo o endereço da página e em seguida escrevo
tour
Assim, tem-se não só um navegador, mas um agregador de feeds e uma pasta de leituras pendentes potencializados com imagens e links anexados salvos em cache, e munidos de uma navegação privada, já que as páginas não são carregadas em uma interface visual com Javascript ativo.
Definitivamente, Offpunk é um navegador desenhado para um uso humano da internet, no qual o usuário, não um terceiro (algoritmo, notificação ou plataforma), é quem decide o seu caminho a ser trilhado e a frequência de seu acesso.

Imagem: offpunk.net
CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter






