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    <title>Ideias de Chirico</title>
    <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/</link>
    <description>Em lembrança do pintor surrealista greco-italiano Giorgio de Chirico (1888 - 1978), o maior ilustrador de ideias de jerico ― e de Chirico!</description>
    <pubDate>Sat, 22 Aug 2026 05:23:05 +0000</pubDate>
    <item>
      <title>“Patati &amp; Patatá Cult”</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/patati-and-patata-cult</link>
      <description>&lt;![CDATA[Imagem de dois palhaços dentro de um carrossel de parque de diversões&#xA;&#xA;Imagem: capa do álbum “Sound Circo”, de O Cheiro do Queijo.&#xA;&#xA;Em julho deste ano, um grupo de rap apareceu no programa Cultura Livre, da gloriosa TV Cultura.&#xA;&#xA;No Cultura Livre já apareceram Xablau, Tim Bernardes, Catatau, Juçara Marçal e outros figurões da música alternativa brasileira contemporânea, pateticamente chamada de “nova MPB”.&#xA;&#xA;(Um picho daqui de Fortaleza diz que MPB deveria significar “Música Periférica Brasileira” ― é do que se trata o que vou falar agora).&#xA;&#xA;“A revolução vem do interior” (“Distrito Santo Pacífico”).&#xA;&#xA;E aí esse grupo de rap, além de ser da periferia do Brasil, mais precisamente Maracanaú (na grande Fortaleza), é formado por artistas de rua, gente que cantava em pontos de ônibus. Para ser mais preciso, era gente do circo. Gente da itinerância mesmo.&#xA;&#xA;Mas como dizia vovó, humor é coisa séria.&#xA;&#xA;O Cheiro do Queijo é mais do que um grupo de rap, é um grupo de invenção, isto é, ultrapassa a música e cai no happening, pratica um rap-happening, digo, um rappening.&#xA;&#xA;Afinal, sua música não está singularmente no som ou na palavra, mas no gesto dantesco, na roupa bufônica, no movimento corporal circense; não está aqui ou ali, mas aqui e ali; está em toda parte, com partes que se entrechocam.&#xA;&#xA;E quando não há parte alguma, ainda há palavra falada.&#xA;&#xA;O que interessa mais a este texto, porém, é a tática semiótica dO Cheiro do Queijo. Praticando esse rappening, aparenta ser um happy-rap. Circo, cores, palhaçada, gaiatice: e tascam-lhe de palhaços.&#xA;&#xA;E... de certa forma, eles o são. As letras, longe de carregarem o cenho franzido de um Sabotage ou de um Criolo, esbofetam, zombam, troçam e nos levam a um riso reflexivo, uma habilidade própria dos palhaços.&#xA;&#xA;(Diz-se que nas antigas monarquias aos palhaços, e somente a eles, era dado o direito de criticar o rei ― aliás, Marshall McLuhan, o grande teórico-teólogo das mídias, costumava dizer que toda piada era na verdade uma reclamação).&#xA;&#xA;“Bota a mão na parede!”&#xA;&#xA;Pois bem.&#xA;&#xA;Em comentários nas redes sociais, gente que caiu de paraquedas no vídeo do grupo cearense o batizou de “Patati &amp; Patatá Cult”. Como se afinal fosse algum demérito musical ou estético parecem palhaços.&#xA;&#xA;É ainda aquela ideia renitente na cabeça do povo de que o compositor brasileiro deve ser um “complexado”, que Tom Zé critica em “Complexo de Épico”.&#xA;&#xA;“E eu só queria ser um artista, tive que tirar CNPJ” (“Aburocracia”).&#xA;&#xA;Mas eis que um dos vocalistas dO Cheiro do Queijo, Abu da Pereba, responde à habitual pergunta no fim do programa:&#xA;&#xA;― “Cultura Livre” segundo O Cheiro do Queijo?&#xA;&#xA;― “Cultura Livre” é cearense não precisar vir pra São Paulo pra fazer sucesso.&#xA;&#xA;Riram.&#xA;&#xA;Mas todos nós sabíamos que aquele “palhaço” foi mais sério do que nunca.&#xA;&#xA;cultura&#xA;&#xA;---------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://external-content.duckduckgo.com/iu/?u=https%3A%2F%2Fcdn.albumoftheyear.org%2Falbum%2F909068-sound-circo_220249.jpg&amp;f=1&amp;nofb=1&amp;ipt=e78d55f1d95c0f3b22755d3778992d31af789274433ef9285edf79b998647968" alt="Imagem de dois palhaços dentro de um carrossel de parque de diversões" title="Imagem de dois palhaços dentro de um carrossel de parque de diversões"></p>

<h5 id="imagem-capa-do-álbum-sound-circo-de-o-cheiro-do-queijo">Imagem: capa do álbum “Sound Circo”, de O Cheiro do Queijo.</h5>

<p>Em julho deste ano, um grupo de <em>rap</em> apareceu no programa Cultura Livre, da gloriosa TV Cultura.</p>

<p>No Cultura Livre já apareceram Xablau, Tim Bernardes, Catatau, Juçara Marçal e outros figurões da música alternativa brasileira contemporânea, pateticamente chamada de “nova MPB”.</p>

<p>(Um picho daqui de Fortaleza diz que MPB deveria significar “Música Periférica Brasileira” ― é do que se trata o que vou falar agora).</p>

<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=oL8cddd9ZGE&amp;list=PLq1HBnKbBuIMQ30qSaNpyMHRL8uFEGeFN&amp;index=0" rel="nofollow">“A revolução vem do interior”</a> (“Distrito Santo Pacífico”).</p>

<p>E aí esse grupo de <em>rap</em>, além de ser da periferia do Brasil, mais precisamente Maracanaú (na grande Fortaleza), é formado por artistas de rua, gente que cantava em pontos de ônibus. Para ser mais preciso, era gente do circo. Gente da itinerância mesmo.</p>

<p>Mas como dizia vovó, humor é coisa séria.</p>

<p>O Cheiro do Queijo é mais do que um grupo de <em>rap</em>, é um grupo de invenção, isto é, ultrapassa a música e cai no <em>happening</em>, pratica um <em>rap-happening</em>, digo, um <em>rappening</em>.</p>

<p>Afinal, sua música não está singularmente no som ou na palavra, mas no gesto dantesco, na roupa bufônica, no movimento corporal circense; não está aqui ou ali, mas aqui <em>e</em> ali; está em toda parte, com partes que se entrechocam.</p>

<p>E quando não há parte alguma, ainda há <a href="https://www.youtube.com/watch?v=ZqEBnZRdpkw&amp;list=PLq1HBnKbBuIMQ30qSaNpyMHRL8uFEGeFN&amp;index=0" rel="nofollow">palavra falada</a>.</p>

<p>O que interessa mais a este texto, porém, é a tática semiótica dO Cheiro do Queijo. Praticando esse <em>rappening</em>, aparenta ser um <em>happy-rap</em>. Circo, cores, palhaçada, gaiatice: e tascam-lhe de palhaços.</p>

<p>E... de certa forma, eles o são. As letras, longe de carregarem o cenho franzido de um Sabotage ou de um Criolo, esbofetam, zombam, troçam e nos levam a um riso reflexivo, uma habilidade própria dos palhaços.</p>

<p>(Diz-se que nas antigas monarquias aos palhaços, e somente a eles, era dado o direito de criticar o rei ― aliás, Marshall McLuhan, o grande teórico-teólogo das mídias, costumava dizer que toda piada era na verdade uma reclamação).</p>

<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1g2eGzX5AB4" rel="nofollow">“Bota a mão na parede!”</a></p>

<p>Pois bem.</p>

<p>Em comentários nas redes sociais, gente que caiu de paraquedas no vídeo do grupo cearense o batizou de “Patati &amp; Patatá Cult”. Como se afinal fosse algum demérito musical ou estético parecem palhaços.</p>

<p>É ainda aquela ideia renitente na cabeça do povo de que o compositor brasileiro deve ser um “complexado”, que Tom Zé critica em <a href="https://www.youtube.com/watch?v=4nQtMlraWm4" rel="nofollow">“Complexo de Épico”</a>.</p>

<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=bCon3OjKXRI" rel="nofollow">“E eu só queria ser um artista, tive que tirar CNPJ”</a> (“Aburocracia”).</p>

<p>Mas eis que um dos vocalistas dO Cheiro do Queijo, Abu da Pereba, responde à habitual pergunta no fim do programa:</p>

<p>― “Cultura Livre” segundo O Cheiro do Queijo?</p>

<p>― “Cultura Livre” é cearense não precisar vir pra São Paulo pra fazer sucesso.</p>

<p>Riram.</p>

<p>Mas todos nós sabíamos que aquele “palhaço” foi mais sério do que nunca.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:cultura" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cultura</span></a></p>

<hr>

<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

<hr>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/patati-and-patata-cult</guid>
      <pubDate>Sat, 15 Aug 2026 20:02:14 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Notas costuradas</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-costuradas-wfpv</link>
      <description>&lt;![CDATA[Pouco antes de encerrar os links destas notas, soube que um grande amigo meu morreu nas condições mais dramáticas possíveis. Não quero o detalhar por respeito à sua família. Durante 2022 dividimos apartamento no centro e desde então nos tornamos companheiros em uma cidade que parece tão hostil a quem não nasceu nela.&#xA;&#xA;Infelizmente as coisas do mundo foram o empurrando até que basicamente aceitou a morte chegar. Isso me fez pensar em como, no nosso planeta, tudo está interligado. O bater das asas de uma borboleta na América do Sul pode gerar a longo prazo um tornado na América do Norte ― é o que se costuma dizer.&#xA;&#xA;Como não tenho palavras para descrever essa sensação, estou incapaz de desenvolver melhor o que passo, mas quero deixar minha homenagem a Caio Renan Ferreira, o “Caioso”, o cara mais suave que já conheci, dedicando este pequeno post à sua memória.&#xA;&#xA;Boa leitura.&#xA;&#xA;Linkroll&#xA;&#xA;Nicholas Carr faz um comentário sobre o nosso uso intensivo de telefones a fim de buscar artigos para se libertar do vício... em telefones.&#xA;&#xA;  I hate to be a cynic, but I’m guessing the main reason for the proliferation of these sorts of articles is that they’re algorithmic catnip. They’re symptoms of the illness they seek to cure. We’re addicted to reading about our addiction to phones. If the pieces have a therapeutic value, it probably lies less in helping people gain control over media than in renewing a reassuring fantasy of such control.&#xA;&#xA;• The Scrolly Chair (New Cartographies).&#xA;&#xA;(O pior de tudo é que essa lógica se aplica a tudo que é antitech... É o algoritmo comendo tudo).&#xA;&#xA;Fascinado com Hanoi Hannah, uma radialista vietnamita que, nos anos da Guerra do Vietnã, transmitia mensagens em inglês pelas florestas desmoralizando os G.I. (ground invaders), i. e., os estadunidenses ― que, se faça lembrar, levaram um pau na guerra. Dizem que os combatentes invasores ficaram com recordações de sua voz até o fim da vida.&#xA;&#xA;  Como vai, GI Joe? Me parece que a maioria de vocês está mal informada sobre como vai a guerra, para não falar sobre a explicação correta a respeito da sua presença aqui. Nada é mais confuso do que ser mandado para morrer em uma guerra ou mutilado em vida sem a menor ideia do que está ocorrendo. &#xA;&#xA;― trecho de um dos discursos de Hanoi Hannah, citação da Wiki.&#xA;&#xA;• Hanoi Hannah - GI! (Youtube ― em inglês).&#xA;&#xA;Imagem de Hanoi Hannah, uma mulher amarela sorridente&#xA;&#xA;Hanoi Hannah.&#xA;&#xA;Saiu uma tradução em francês do “Manifesto Offpunk” coescrito por mim com o Ploum! Como traduzir não é transcrever, Ploum fez através de sua versão francófona vários comentários que adicionei à versão original, em português.&#xA;&#xA;• Un manifeste Offpunk (ploum.net)&#xA;&#xA;Nesse meio tempo, vi o mesmo Manifesto sendo compartilhado em um blogue hispanófono!&#xA;&#xA;• El manifesto Offpunk (Microservios).&#xA;&#xA;Tirinha de quatro quadrinhos. No primeiro quadrinho vemos um homem mais velho usando casaca e óculos observando um jovem de boné usando um smartphone enquanto está sentado; o balão acima diz &#39;Algumas vezes idosos acusam gente mais nova de estarem muito tempo nos telefones&#39;. No segundo quadrinho o mesmo homem está diante da televisão sentado em uma poltrona ― no aparelho é possível ver comerciais; um comentário acima diz &#39;Mas mesmo esses idosos passam o mesmo tempo assistindo à T.V.&#39;. No terceiro quadrinho, vemos uma mulher idosa de vestido cumprimentando uma moça mais nova de bandana; um comentário acima diz &#39;Não poderíamos apenas concordar que somos um bando de m* perdendo tempo,&#39;. No último quadrinho, vemos uma senhora com colete e um rapaz com o símbolo da paz estampado na camisa abraçados com os dedos em &#39;v&#39; de vitória; o comentário acima diz &#39;Assim a gente poderia parar de discutir e todo mundo pode voltar a ignorar coisas que a gente deveria estar fazendo?&#39;.&#xA;&#xA;Arte: Jim Benton&#xA;&#xA;Citações&#xA;&#xA;  O que entendo por &#34;purificação&#34;: perceber claramente um hábito que eu executava inconscientemente. Às vezes, a descoberta vem com o pacote completo, no estilo insight. Entende-se o mecanismo por trás do hábito — gatilho, componentes interdependentes e as características da sua fruição. A seguir, escolhe-se mantê-lo ou evitá-lo. Então, há um processo de desaprendizagem. O sucesso significa: não voltar ao hábito, sem esforço.&#xA;&#xA;― Eduardo Fernandes&#xA;&#xA;  Quase todos os livros que eu estimo e absolutamente todos os que me serviram para qualquer coisa são difíceis de ler.&#xA;&#xA;― Paul Valéry.&#xA;&#xA;(Re)leia outras ideias de Chirico&#xA;&#xA;• A morte da fama (agosto de 2024).&#xA;&#xA;Onde argumento porque fama não é mais possível em um mundo algoritmizado.&#xA;&#xA;• Aqui com “Aqui”, de Tatiana Parra e Andrés Beeuwsaert (junho de 2024).&#xA;&#xA;Resenha de um belo disco de jazz latinoamericano formado por um duo de voz e piano.&#xA;&#xA;• Scherzo: sem “eu” (janeiro de 2025).&#xA;&#xA;Exercício de estilo em que escrevo um experiência pessoal sem escrever o pronome “eu”.&#xA;&#xA;notas&#xA;&#xA;------------------------------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Pouco antes de encerrar os <em>links</em> destas notas, soube que um grande amigo meu morreu nas condições mais dramáticas possíveis. Não quero o detalhar por respeito à sua família. Durante 2022 dividimos apartamento no centro e desde então nos tornamos companheiros em uma cidade que parece tão hostil a quem não nasceu nela.</p>

<p>Infelizmente as coisas do mundo foram o empurrando até que basicamente aceitou a morte chegar. Isso me fez pensar em como, no nosso planeta, tudo está interligado. O bater das asas de uma borboleta na América do Sul pode gerar a longo prazo um tornado na América do Norte ― é o que se costuma dizer.</p>

<p>Como não tenho palavras para descrever essa sensação, estou incapaz de desenvolver melhor o que passo, mas quero deixar minha homenagem a Caio Renan Ferreira, o “Caioso”, o cara mais suave que já conheci, dedicando este pequeno post à sua memória.</p>

<p>Boa leitura.</p>

<h2 id="linkroll">Linkroll</h2>

<p>Nicholas Carr faz um comentário sobre o nosso uso intensivo de telefones a fim de buscar artigos para se libertar do vício... em telefones.</p>

<blockquote><p>I hate to be a cynic, but I’m guessing the main reason for the proliferation of these sorts of articles is that they’re algorithmic catnip. They’re symptoms of the illness they seek to cure. We’re addicted to reading about our addiction to phones. If the pieces have a therapeutic value, it probably lies less in helping people gain control over media than in renewing a reassuring fantasy of such control.</p></blockquote>

<p><a href="https://www.newcartographies.com/p/the-scrolly-chair" rel="nofollow">• The Scrolly Chair</a> (New Cartographies).</p>

<p>(O pior de tudo é que essa lógica se aplica a tudo que é antitech... É o algoritmo comendo tudo).</p>

<p>Fascinado com Hanoi Hannah, uma radialista vietnamita que, nos anos da Guerra do Vietnã, transmitia mensagens em inglês pelas florestas desmoralizando os G.I. (<em>ground invaders</em>), i. e., os estadunidenses ― que, se faça lembrar, levaram um pau na guerra. Dizem que os combatentes invasores ficaram com recordações de sua voz até o fim da vida.</p>

<blockquote><p>Como vai, GI Joe? Me parece que a maioria de vocês está mal informada sobre como vai a guerra, para não falar sobre a explicação correta a respeito da sua presença aqui. Nada é mais confuso do que ser mandado para morrer em uma guerra ou mutilado em vida sem a menor ideia do que está ocorrendo.</p></blockquote>

<p>― trecho de um dos discursos de Hanoi Hannah, citação da <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Hanoi_Hannah" rel="nofollow">Wiki</a>.</p>

<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=w3VeKnW9cNo&amp;" rel="nofollow">• Hanoi Hannah – GI!</a> (Youtube ― em inglês).</p>

<p><img src="https://www.grunge.com/img/gallery/the-crazy-true-story-of-hanoi-hannah/intro-1611153683.jpg" alt="Imagem de Hanoi Hannah, uma mulher amarela sorridente" title="Imagem de Hanoi Hannah, uma mulher amarela sorridente"></p>

<h5 id="hanoi-hannah">Hanoi Hannah.</h5>

<p>Saiu uma tradução em francês do <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/manifesto-offpunk" rel="nofollow">“Manifesto Offpunk”</a> coescrito por mim com o Ploum! Como traduzir não é transcrever, Ploum fez através de sua versão francófona vários comentários que adicionei à versão original, em português.</p>

<p><a href="https://ploum.net/2026-08-03-offpunk_manifesto.html" rel="nofollow">• Un manifeste Offpunk</a> (ploum.net)</p>

<p>Nesse meio tempo, vi o mesmo Manifesto sendo compartilhado em um blogue hispanófono!</p>

<p><a href="https://www.microsiervos.com/archivo/tecnologia/manifiesto-offpunk-principios-no-dependencia-tecnologia-conexion-permanente.html" rel="nofollow">• El manifesto Offpunk</a> (Microservios).</p>

<p><img src="https://tvovermind.com/wp-content/uploads/2026/07/6a57a3fa195d3-Former-New-Yorker-Contributor-Created-35-Cartoons-That-Perfectly-Capture-Everyday-Absurdity-New-Pics-6a5785659124a__700.jpg" alt="Tirinha de quatro quadrinhos. No primeiro quadrinho vemos um homem mais velho usando casaca e óculos observando um jovem de boné usando um smartphone enquanto está sentado; o balão acima diz &#39;Algumas vezes idosos acusam gente mais nova de estarem muito tempo nos telefones&#39;. No segundo quadrinho o mesmo homem está diante da televisão sentado em uma poltrona ― no aparelho é possível ver comerciais; um comentário acima diz &#39;Mas mesmo esses idosos passam o mesmo tempo assistindo à T.V.&#39;. No terceiro quadrinho, vemos uma mulher idosa de vestido cumprimentando uma moça mais nova de bandana; um comentário acima diz &#39;Não poderíamos apenas concordar que somos um bando de m* perdendo tempo,&#39;. No último quadrinho, vemos uma senhora com colete e um rapaz com o símbolo da paz estampado na camisa abraçados com os dedos em &#39;v&#39; de vitória; o comentário acima diz &#39;Assim a gente poderia parar de discutir e todo mundo pode voltar a ignorar coisas que a gente deveria estar fazendo?&#39;."></p>

<h5 id="arte-jim-benton">Arte: Jim Benton</h5>

<h2 id="citações">Citações</h2>

<blockquote><p>O que entendo por “purificação”: perceber claramente um hábito que eu executava inconscientemente. Às vezes, a descoberta vem com o pacote completo, no estilo insight. Entende-se o mecanismo por trás do hábito — gatilho, componentes interdependentes e as características da sua fruição. A seguir, escolhe-se mantê-lo ou evitá-lo. Então, há um processo de desaprendizagem. O sucesso significa: não voltar ao hábito, sem esforço.</p></blockquote>

<p>― <a href="https://eduf.me/purificacao/" rel="nofollow">Eduardo Fernandes</a></p>

<blockquote><p>Quase todos os livros que eu estimo e absolutamente todos os que me serviram para qualquer coisa são difíceis de ler.</p></blockquote>

<p>― Paul Valéry.</p>

<h2 id="re-leia-outras-ideias-de-chirico">(Re)leia outras ideias de Chirico</h2>

<p><a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/a-morte-da-fama" rel="nofollow">• A morte da fama</a> (agosto de 2024).</p>

<p>Onde argumento porque fama não é mais possível em um mundo algoritmizado.</p>

<p><a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/aqui-com-aqui-de-tatiana-parra-e-andres-beeuwsaert" rel="nofollow">• Aqui com “Aqui”, de Tatiana Parra e Andrés Beeuwsaert</a> (junho de 2024).</p>

<p>Resenha de um belo disco de jazz latinoamericano formado por um duo de voz e piano.</p>

<p><a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/scherzo-sem-eu" rel="nofollow">• Scherzo: sem “eu”</a> (janeiro de 2025).</p>

<p>Exercício de estilo em que escrevo um experiência pessoal sem escrever o pronome “eu”.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:notas" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">notas</span></a></p>

<hr>

<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

<hr>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-costuradas-wfpv</guid>
      <pubDate>Wed, 12 Aug 2026 01:57:57 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Uma ode à moeda</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/uma-ode-a-moeda</link>
      <description>&lt;![CDATA[― Próximo!&#xA;&#xA;Diz a atendente entre sonolenta e entediada. O cliente anterior ainda está às tantas com as sacolas.&#xA;&#xA;Nesse meio tempo, lá vai o “próximo” passar as mercadorias para o balcão de metal liso. Bip, bip, bip. Com a prática, a balconista passa todos os pacotes num minuto. E o dito-cujo lá com o focinho na tela abrindo o aplicativo do banco.&#xA;&#xA;― Só um minuto, que o 4G está lento.&#xA;&#xA;Opa, abriu o aplicativo. A funcionária lança o código QR da compra. E o camarada que parece que não saber estabilizar a câmera do telefone...&#xA;&#xA;Leu? Beleza. E dá-lhe rede móvel.&#xA;&#xA;E a fila se avolumando.&#xA;&#xA;― Graças a Deus!&#xA;&#xA;Foi-se embora o carinha do telefone. Aí vem outra bendita com um telefone enorme e lerdo. Dessa vez sem internet.&#xA;&#xA;― Qual é a senha do wi-fi daqui mesmo, hein?&#xA;&#xA;No ar aquele clima de banco ou de lotérica, cheia de gente resmungando. A culpa já não é mais nem dos atendentes.&#xA;&#xA;Na minha vez, dou “bom dia”, passo as mercadorias.&#xA;&#xA;― Deu R$ 12.75, moço.&#xA;&#xA;Cato duas cédulas, umas moedas. Babau.&#xA;&#xA;― Próximo...&#xA;&#xA;----------------------------------&#xA;&#xA;Lembro de quando o Pix começou a entrar na vida do brasileiro. Eu que sou um tecnófilo, sou bastante refratário a qualquer invenção bombástica. Parece uma contradição, mas não é. Toda invenção requer não só um período de educação do usuário, mas também um tempo para pôr à prova a sua utilidade.&#xA;&#xA;Rapidamente, o recurso chegou aos rincões mais recônditos deste nosso país tão desindustrializado. “Até bar de estrada agora aceita Pix”, dizia-se com admiração.&#xA;&#xA;De qualquer forma, com o tempo, antes mesmo de eu utilizar o cartão de débito, comecei a usar o Pix no dia a dia. Pagar boletos era mais prático. Não precisava mais carregar o troco enorme de moedas. O registro das transações ficava registrado no histórico do aplicativo e as chaves Pix podiam ser favoritadas.&#xA;&#xA;Daqui a pouco é um não mais terminar de filas em mercados, feiras, padarias, bodegas. E casos de gente que fez transações por engano, para destinatários desconhecidos ou com valores incorretos. E estabelecimentos que não se dão o trabalho de voltar troco ou até mesmo que só aceitam pagamento em Pix.&#xA;&#xA;Aí o desencanto bateu.&#xA;&#xA;----------------------------&#xA;&#xA;Parte do sucesso do Pix está na acessibilidade do smartphone. Porém, com a concentração de funções no telefone moderno, há um risco cada vez maior de se ficar na mão.&#xA;&#xA;Imagina que você esteja em um aeroporto e precise: 1. passar o passaporte e mostrar sua documentação; 2. fotografar; 3. escutar música; 4. enviar mensagens; 5. pagar por uma refeição; 6. ler. Se seu dispositivo tiver somente 17% de bateria, deverá escolher uma dessas funções. A prioridade, lógico, estará no dinheiro e nos documentos. O resto se ajeita.&#xA;&#xA;Já ouvi o caso de uma pessoa que não portava carteira ao sair de casa ― resolvia tudo por aproximação de cartão virtual e Pix. Certa vez o seu aparelho descarregou bem na fila do cinema, e aí teve de pedir dinheiro emprestado para uma amiga que a acompanhava. A situação seria ainda pior se estivesse sozinha.&#xA;&#xA;O melhor, decidi, é tornar o dinheiro um objeto analógico.&#xA;&#xA;Desde o começo do ano, adotei outra vez as cédulas. A ideia era manter um dinheiro “livre”, sem uma destinação específica, para usar em estabelecimentos informais ― nunca gostei de passar meu cartão em qualquer maquininha.&#xA;&#xA;As cédulas também são uma mão na roda caso falte eletricidade, bateria, internet ou a minha paciência no ponto comercial. As tão evitadas moedas agora são bastante desejadas e cuidadosamente guardadas em um porta-níqueis que carrego junto da carteira.&#xA;&#xA;Ao menos duas vezes ao mês, aproveitando algum passeio pela rua, saco dinheiro da máquina do banco. &#xA;&#xA;Nem tudo são flores, lógico.&#xA;&#xA;Como se utiliza menos dinheiro nas transações em cidades grandes, a tendência é dos bancos emitirem notas maiores. O que interessa em ter dinheiro é a praticidade, então é bem melhor ter o dinheiro trocado.&#xA;&#xA;Com muita pesquisa, percebi que alguns estabelecimentos tendem a aceitar voltar troco sem muito muxoxo: supermercados, bancas de jornal e grandes redes de farmácia. Logo que saco a grana, vou logo em um desses lugares.&#xA;&#xA;Restaurantes, bares e lanchonetes tendem a não trocar dinheiro ou mesmo a recusar pagamento em espécie. Caso neguem troco, tenho do meu lado o Código de Defesa do Consumidor, que proíbe no artigo 39, inciso IX:&#xA;&#xA;  recusar a venda de bens ou a prestação de serviços mediante pronto pagamento.&#xA;&#xA;Não obstante, a lei estadual do Ceará nº 16685 obriga estabelecimentos comerciais a garantir troco em moeda. Imagino que cada estado brasileiro deva ter alguma legislação desse tipo também.&#xA;&#xA;------------&#xA;&#xA;Na última viagem que fiz à terra natal, me chamou atenção a frequência com que a cédula aparecia nas transações nas cidades de interior. Em feiras populares onde se vendem frutas, verduras e grãos, simplesmente não se usam Pix ou cartão ― só dinheiro. Até pensei em perguntar para alguns dos feirantes a razão para isso, mas, de tão intuitiva, ela há de ser simples: a moeda é prática e fiável.&#xA;&#xA;Além de tudo, como não atravessa um intermediário digital, ela ainda preserva os dados pessoais. Não por acaso, tomo a cédula de dinheiro como um ícone offpunk.&#xA;&#xA;A moeda é a prova de que nem sempre a opção digital é a mais conveniente.&#xA;&#xA;O pagamento por Pix em uma tenda dessas, de duas uma: ou faria mais filas ou, com o ruído, poderia se comunicar o valor errado ou a chave incorreta. Além disso, que ideia de Chirico sacar o telefone em plena rua movimentada!&#xA;&#xA;Por outro lado, na cidade grande... filas e mais filas, roubos de aparelhos etc., etc.&#xA;&#xA;Sim, a invenção é maravilhosa. Sim, bancarizou uma centena de milhões de trabalhadores informais. Não, não agilizou os serviços como prometia. No dia a dia, o dinheiro e, em algum grau, o cartão de crédito ainda ficam na vanguarda.&#xA;&#xA;#cotidiano #tecnologia&#xA;&#xA;-------------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>― Próximo!</p>

<p>Diz a atendente entre sonolenta e entediada. O cliente anterior ainda está às tantas com as sacolas.</p>

<p>Nesse meio tempo, lá vai o “próximo” passar as mercadorias para o balcão de metal liso. Bip, bip, bip. Com a prática, a balconista passa todos os pacotes num minuto. E o dito-cujo lá com o focinho na tela abrindo o aplicativo do banco.</p>

<p>― Só um minuto, que o 4G está lento.</p>

<p>Opa, abriu o aplicativo. A funcionária lança o código QR da compra. E o camarada que parece que não saber estabilizar a câmera do telefone...</p>

<p>Leu? Beleza. E dá-lhe rede móvel.</p>

<p>E a fila se avolumando.</p>

<p>― Graças a Deus!</p>

<p>Foi-se embora o carinha do telefone. Aí vem outra bendita com um telefone enorme e lerdo. Dessa vez sem internet.</p>

<p>― Qual é a senha do <em>wi-fi</em> daqui mesmo, hein?</p>

<p>No ar aquele clima de banco ou de lotérica, cheia de gente resmungando. A culpa já não é mais nem dos atendentes.</p>

<p>Na minha vez, dou “bom dia”, passo as mercadorias.</p>

<p>― Deu R$ 12.75, moço.</p>

<p>Cato duas cédulas, umas moedas. Babau.</p>

<p>― Próximo...</p>

<hr>

<p>Lembro de quando o Pix começou a entrar na vida do brasileiro. Eu que sou um tecnófilo, sou bastante refratário a qualquer invenção bombástica. Parece uma contradição, mas não é. Toda invenção requer não só um período de educação do usuário, mas também um tempo para pôr à prova a sua utilidade.</p>

<p>Rapidamente, o recurso chegou aos rincões mais recônditos deste nosso país tão desindustrializado. “Até bar de estrada agora aceita Pix”, dizia-se com admiração.</p>

<p>De qualquer forma, com o tempo, antes mesmo de eu utilizar o cartão de débito, comecei a usar o Pix no dia a dia. Pagar boletos era mais prático. Não precisava mais carregar o troco enorme de moedas. O registro das transações ficava registrado no histórico do aplicativo e as chaves Pix podiam ser favoritadas.</p>

<p>Daqui a pouco é um não mais terminar de filas em mercados, feiras, padarias, bodegas. E casos de gente que fez transações por engano, para destinatários desconhecidos ou com valores incorretos. E estabelecimentos que não se dão o trabalho de voltar troco ou até mesmo que só aceitam pagamento em Pix.</p>

<p>Aí o desencanto bateu.</p>

<hr>

<p>Parte do sucesso do Pix está na acessibilidade do <em>smartphone</em>. Porém, com a concentração de funções no telefone moderno, há um risco cada vez maior de se ficar na mão.</p>

<p>Imagina que você esteja em um aeroporto e precise: 1. passar o passaporte e mostrar sua documentação; 2. fotografar; 3. escutar música; 4. enviar mensagens; 5. pagar por uma refeição; 6. ler. Se seu dispositivo tiver somente 17% de bateria, deverá escolher uma dessas funções. A prioridade, lógico, estará no dinheiro e nos documentos. O resto se ajeita.</p>

<p>Já ouvi o caso de uma pessoa que não portava carteira ao sair de casa ― resolvia tudo por aproximação de cartão virtual e Pix. Certa vez o seu aparelho descarregou bem na fila do cinema, e aí teve de pedir dinheiro emprestado para uma amiga que a acompanhava. A situação seria ainda pior se estivesse sozinha.</p>

<p>O melhor, decidi, é tornar o dinheiro um objeto analógico.</p>

<p>Desde o começo do ano, adotei outra vez as cédulas. A ideia era manter um dinheiro “livre”, sem uma destinação específica, para usar em estabelecimentos informais ― nunca gostei de passar meu cartão em qualquer maquininha.</p>

<p>As cédulas também são uma mão na roda caso falte eletricidade, bateria, internet ou a minha paciência no ponto comercial. As tão evitadas moedas agora são bastante desejadas e cuidadosamente guardadas em um porta-níqueis que carrego junto da carteira.</p>

<p>Ao menos duas vezes ao mês, aproveitando algum passeio pela rua, saco dinheiro da máquina do banco.</p>

<p>Nem tudo são flores, lógico.</p>

<p>Como se utiliza menos dinheiro nas transações em cidades grandes, a tendência é dos bancos emitirem notas maiores. O que interessa em ter dinheiro é a praticidade, então é bem melhor ter o dinheiro trocado.</p>

<p>Com muita pesquisa, percebi que alguns estabelecimentos tendem a aceitar voltar troco sem muito muxoxo: supermercados, bancas de jornal e grandes redes de farmácia. Logo que saco a grana, vou logo em um desses lugares.</p>

<p>Restaurantes, bares e lanchonetes tendem a não trocar dinheiro ou mesmo a recusar pagamento em espécie. Caso neguem troco, tenho do meu lado o Código de Defesa do Consumidor, que proíbe no artigo 39, inciso IX:</p>

<blockquote><p>recusar a venda de bens ou a prestação de serviços mediante pronto pagamento.</p></blockquote>

<p>Não obstante, a lei estadual do Ceará nº 16685 obriga estabelecimentos comerciais a garantir troco em moeda. Imagino que cada estado brasileiro deva ter alguma legislação desse tipo também.</p>

<hr>

<p>Na última viagem que fiz à terra natal, me chamou atenção a frequência com que a cédula aparecia nas transações nas cidades de interior. Em feiras populares onde se vendem frutas, verduras e grãos, simplesmente não se usam Pix ou cartão ― só dinheiro. Até pensei em perguntar para alguns dos feirantes a razão para isso, mas, de tão intuitiva, ela há de ser simples: a moeda é prática e fiável.</p>

<p>Além de tudo, como não atravessa um intermediário digital, ela ainda preserva os dados pessoais. Não por acaso, tomo a cédula de dinheiro como um ícone <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/manifesto-offpunk" rel="nofollow">offpunk</a>.</p>

<p>A moeda é a prova de que nem sempre a opção digital é a mais conveniente.</p>

<p>O pagamento por Pix em uma tenda dessas, de duas uma: ou faria mais filas ou, com o ruído, poderia se comunicar o valor errado ou a chave incorreta. Além disso, que ideia de Chirico sacar o telefone em plena rua movimentada!</p>

<p>Por outro lado, na cidade grande... filas e mais filas, roubos de aparelhos etc., etc.</p>

<p>Sim, a invenção é maravilhosa. Sim, bancarizou uma centena de milhões de trabalhadores informais. Não, não agilizou os serviços como prometia. No dia a dia, o dinheiro e, em algum grau, o cartão de crédito ainda ficam na vanguarda.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:cotidiano" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cotidiano</span></a> <a href="/ideiasdechirico/tag:tecnologia" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">tecnologia</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/uma-ode-a-moeda</guid>
      <pubDate>Sat, 01 Aug 2026 13:46:15 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Notas costuradas</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-costuradas-flbq</link>
      <description>&lt;![CDATA[Recomendações de links e outras coisas. Boa leitura.&#xA;&#xA;Linkroll&#xA;&#xA;Projeto transforma Kindle em um calendário / relógio de mesa. Não precisa de jailbreak, basta entrar no navegador, escrever um comando na barra de endereços e entrar em um sítio web. Aparentemente os desenvolvedores esperam que se deixe a internet ligada (há uma atualização de figurinhas), mas, experimentando aqui, depois de carregar a página, o sítio funciona em modo avião.&#xA;&#xA;• eCal.Ink - Smart E-Ink Calendar (ecal.ink)&#xA;&#xA;  Há angústia, e também luta de classes, no dispositivo que alterou nossos laços com o tempo e o espaço. Ao reduzir a aspereza das relações sociais a uma tela, ele nos mergulha num universo de impotência, individualismo e submissão. Como escapar?&#xA;&#xA;― Laura J. Martin.&#xA;&#xA;• A hipnose fatal dos celulares (Outras palavras).&#xA;&#xA;Fomos enganados. O verbo “torcer” não vem daquela anedota das torcedoras do Fluminense que “torciam” lenços.&#xA;&#xA;• A inesperada origem da palavra torcedor (Guia do Estudante).&#xA;&#xA;• Sobre a origem da palavra torcedor (Jornalheiros).&#xA;&#xA;  Uma tecla pode causar prejuízo financeiro, psicológico e até geopolítico. Algumas dessas ferramentas estão mudando o mundo e o imaginário. No entanto, trabalhamos com elas de um jeito casual.&#xA;&#xA;• Ferramentas de poder (Texto sobre tela).&#xA;&#xA;Anthropic confirma que Claude age diferente dependendo da língua de entrada e de qual modelo se usa. Ele atua como “cético” e “rigoroso” se o usuário escrever em inglês e como “caloroso” se escrever em árabe. Quem ainda vai dizer que essa droga de ferramenta é neutra?&#xA;&#xA;• Anthropic confirms Claude acts differently depending on your language and which model you pick (digitaltrends)&#xA;&#xA;Citações&#xA;&#xA;  Desvario trabalhoso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e propor um resumo, um comentário.&#xA;&#xA;― Jorge Luis Borges, escritor argentino.&#xA;&#xA;  One thing that I love about that part of the world is that it&#39;s a melting pot with an immense diversity of cultures, each one very defined  and proud (often too much) of their own idiosyncrasies, but in the end they&#39;re all intermingled Liszt was Hungarian, but his mother tongue was German. Bartók was Hungarian, but was born in what is nowadays Romania. Mahler was Austrian, but just like Freud was born in Czechia, and so on.&#xA;&#xA;― @mathek@tilde.zone&#xA;&#xA;Ainda tem o compositor francês Frederico Chopin que nasceu... na Polônia.&#xA;&#xA;Quadrinho curto. No primeiro quadrinho, um homem ruivo levanta um papel no primeiro quadro e diz &#39;Bom, não está mal. Vamos postar&#39;. No segundo quadrinho, vai a uma porta em que há um letreiro que diz &#39;internet&#39;, e fala &#39;Odeio ver a reação das pessoas&#39;&#xA;Título: “Uma flor por vez”. “Bom, não está mal. Vamos postar”. “Tenho pressa de ver a reação das pessoas”.&#xA;&#xA;Terceiro quadrinho. Ele vai em um muro, prega o desenho de um elefante em um muro e diz &#39;Aí está&#39;. No quarto quadrinho segue observando o desenho colado na parede&#39;&#xA;“Aí está”.&#xA;&#xA;Quinto quadrinho. Vê-se o muro onde o homem pregou o seu desenho em perspectiva. Nele vemos gravuras de guerras e de problemas do mundo. No sexto e último quadrinho, vemos o homem de volta em seu escritório sorrindo com o rosto apoiado nas mãos. Sua esposa, uma mulher ruiva de vestido preto, diz &#39;Ei, tudo bem? Jornada produtiva hoje?&#39;, no que ele responde &#39;Eu... eu não sei&#39;. Abaixo há uma citação que diz &#39;Ser artista é como plantar flores em um jardim onde alguém usa um lança-chamas&#xA;&#xA;“Ei, tudo bem? Jornada produtiva hoje?” “Eu... eu não sei”. “Ser artista é como plantar flores em um jardim onde alguém usa um lança-chamas”.&#xA;&#xA;Arte de Bouletcorp&#xA;&#xA;Releia outras Ideias de Chirico&#xA;&#xA;• Abandonando redes sociais “numéricas” (17 fev. 2026).&#xA;&#xA;Ou: porque passei a dar menos importância a contabilização na internet.&#xA;&#xA;• O que pode a tecnologia, o que não pode a tecnologia e o que podemos fazer sobre ela (23 abr. 2025).&#xA;&#xA;Reprodução de um longo e-mail que enviei a uma professora da faculdade discutindo sobre como a tecnologia e a educação podem se relacionar.&#xA;&#xA;• O sedutor mistério de “Dias Perfeitos” (7 set. 2024).&#xA;&#xA;Resenha crítica a respeito do filme “Dias Perfeitos” (2023) de Wim Wenders, concentrando-se em sua laconicidade narrativa.&#xA;&#xA;• Notas sob(re) Salvador (14 fev. 2024).&#xA;&#xA;Algumas observações em torno da cidade de Salvador e do povo soteropolitano.&#xA;&#xA;notas&#xA;&#xA;----------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Recomendações de <em>links</em> e outras coisas. Boa leitura.</p>

<h2 id="linkroll">Linkroll</h2>

<p>Projeto transforma Kindle em um calendário / relógio de mesa. Não precisa de <em>jailbreak</em>, basta entrar no navegador, escrever um comando na barra de endereços e entrar em um sítio <em>web</em>. Aparentemente os desenvolvedores esperam que se deixe a internet ligada (há uma atualização de figurinhas), mas, experimentando aqui, depois de carregar a página, o sítio funciona em modo avião.</p>

<p><a href="https://ecal.ink/" rel="nofollow">• eCal.Ink – Smart E-Ink Calendar</a> (ecal.ink)</p>

<blockquote><p>Há angústia, e também luta de classes, no dispositivo que alterou nossos laços com o tempo e o espaço. Ao reduzir a aspereza das relações sociais a uma tela, ele nos mergulha num universo de impotência, individualismo e submissão. Como escapar?</p></blockquote>

<p>― Laura J. Martin.</p>

<p><a href="https://outraspalavras.net/tecnologiaemdisputa/hipnose-fatal-dos-celulares/" rel="nofollow">• A hipnose fatal dos celulares</a> (Outras palavras).</p>

<p>Fomos enganados. O verbo “torcer” não vem daquela anedota das torcedoras do Fluminense que “torciam” lenços.</p>

<p><a href="https://guiadoestudante.abril.com.br/coluna/duvidas-portugues/a-inesperada-origem-da-palavra-torcedor/" rel="nofollow">• A inesperada origem da palavra torcedor</a> (Guia do Estudante).</p>

<p><a href="https://jornalheiros.blogspot.com/2017/08/sobre-a-origem-da-palavra-torcedor.html?m=1" rel="nofollow">• Sobre a origem da palavra torcedor</a> (Jornalheiros).</p>

<blockquote><p>Uma tecla pode causar prejuízo financeiro, psicológico e até geopolítico. Algumas dessas ferramentas estão mudando o mundo e o imaginário. No entanto, trabalhamos com elas de um jeito casual.</p></blockquote>

<p><a href="https://textosobretela.com/p/ferramentas-de-poder" rel="nofollow">• Ferramentas de poder</a> (Texto sobre tela).</p>

<p>Anthropic confirma que Claude age diferente dependendo da língua de entrada e de qual modelo se usa. Ele atua como “cético” e “rigoroso” se o usuário escrever em inglês e como “caloroso” se escrever em árabe. Quem ainda vai dizer que essa droga de ferramenta é neutra?</p>

<p><a href="https://www.digitaltrends.com/computing/anthropic-confirms-claude-acts-differently-depending-on-your-language-and-which-model-you-pick/" rel="nofollow">• Anthropic confirms Claude acts differently depending on your language and which model you pick</a> (digitaltrends)</p>

<h2 id="citações">Citações</h2>

<blockquote><p>Desvario trabalhoso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e propor um resumo, um comentário.</p></blockquote>

<p>― Jorge Luis Borges, escritor argentino.</p>

<blockquote><p>One thing that I love about that part of the world is that it&#39;s a melting pot with an immense diversity of cultures, each one very defined  and proud (often too much) of their own idiosyncrasies, but in the end they&#39;re all intermingled Liszt was Hungarian, but his mother tongue was German. Bartók was Hungarian, but was born in what is nowadays Romania. Mahler was Austrian, but just like Freud was born in Czechia, and so on.</p></blockquote>

<p>― <a href="https://tilde.zone/@mathek/116874291666445613" rel="nofollow"><a href="https://blog.ayom.media/@/mathek@tilde.zone" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>mathek@tilde.zone</span></a></a></p>

<p>Ainda tem o compositor francês Frederico Chopin que nasceu... na Polônia.</p>

<p><img src="https://admin.bouletcorp.com/uploads/178_Fleur01_2272b7fc48.jpg" alt="Quadrinho curto. No primeiro quadrinho, um homem ruivo levanta um papel no primeiro quadro e diz &#39;Bom, não está mal. Vamos postar&#39;. No segundo quadrinho, vai a uma porta em que há um letreiro que diz &#39;internet&#39;, e fala &#39;Odeio ver a reação das pessoas&#39;" title="Quadrinho curto. No primeiro quadrinho, um homem ruivo levanta um papel no primeiro quadro e diz &#39;Bom, não está mal. Vamos postar&#39;. No segundo quadrinho, vai a uma porta em que há um letreiro que diz &#39;internet&#39;, e fala &#39;Tenho pressa de ver a reação das pessoas&#39;"></p>

<h5 id="título-uma-flor-por-vez-bom-não-está-mal-vamos-postar-tenho-pressa-de-ver-a-reação-das-pessoas">Título: “Uma flor por vez”. “Bom, não está mal. Vamos postar”. “Tenho pressa de ver a reação das pessoas”.</h5>

<p><img src="https://admin.bouletcorp.com/uploads/179_Fleur02_d42e0a210b.jpg" alt="Terceiro quadrinho. Ele vai em um muro, prega o desenho de um elefante em um muro e diz &#39;Aí está&#39;. No quarto quadrinho segue observando o desenho colado na parede&#39;" title="Terceiro quadrinho. Ele vai em um muro, prega o desenho de um elefante em um muro e diz &#39;Aí está&#39;. No quarto quadrinho segue observando o desenho colado na parede&#39;"></p>

<h5 id="aí-está">“Aí está”.</h5>

<p><img src="https://admin.bouletcorp.com/uploads/180_Fleur03_2aa599d359.jpg" alt="Quinto quadrinho. Vê-se o muro onde o homem pregou o seu desenho em perspectiva. Nele vemos gravuras de guerras e de problemas do mundo. No sexto e último quadrinho, vemos o homem de volta em seu escritório sorrindo com o rosto apoiado nas mãos. Sua esposa, uma mulher ruiva de vestido preto, diz &#39;Ei, tudo bem? Jornada produtiva hoje?&#39;, no que ele responde &#39;Eu... eu não sei&#39;. Abaixo há uma citação que diz &#39;Ser artista é como plantar flores em um jardim onde alguém usa um lança-chamas"></p>

<h5 id="ei-tudo-bem-jornada-produtiva-hoje-eu-eu-não-sei-ser-artista-é-como-plantar-flores-em-um-jardim-onde-alguém-usa-um-lança-chamas">“Ei, tudo bem? Jornada produtiva hoje?” “Eu... eu não sei”. “Ser artista é como plantar flores em um jardim onde alguém usa um lança-chamas”.</h5>

<p>Arte de <a href="https://bouletcorp.com/rogatons/2026/07/10" rel="nofollow">Bouletcorp</a></p>

<h2 id="releia-outras-ideias-de-chirico">Releia outras Ideias de Chirico</h2>

<p><a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/abandonando-redes-sociais-numericas" rel="nofollow">• Abandonando redes sociais “numéricas”</a> (17 fev. 2026).</p>

<p>Ou: porque passei a dar menos importância a contabilização na internet.</p>

<p><a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/o-que-pode-a-tecnologia-o-que-nao-pode-a-tecnologia-e-o-que-podemos-fazer" rel="nofollow">• O que pode a tecnologia, o que não pode a tecnologia e o que podemos fazer sobre ela</a> (23 abr. 2025).</p>

<p>Reprodução de um longo <em>e-mail</em> que enviei a uma professora da faculdade discutindo sobre como a tecnologia e a educação podem se relacionar.</p>

<p><a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/o-sedutor-misterio-de-dias-perfeitos" rel="nofollow">• O sedutor mistério de “Dias Perfeitos”</a> (7 set. 2024).</p>

<p>Resenha crítica a respeito do filme “Dias Perfeitos” (2023) de Wim Wenders, concentrando-se em sua laconicidade narrativa.</p>

<p><a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-sob-re-salvador" rel="nofollow">• Notas sob(re) Salvador</a> (14 fev. 2024).</p>

<p>Algumas observações em torno da cidade de Salvador e do povo soteropolitano.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:notas" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">notas</span></a></p>

<hr>

<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

<hr>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-costuradas-flbq</guid>
      <pubDate>Thu, 16 Jul 2026 14:41:36 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Um mundo em preto e branco, parte 2</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/um-mundo-em-preto-e-branco-parte-2</link>
      <description>&lt;![CDATA[Imagem de um telefone móvel com display em preto e branco. Nele se vê o aplicativo Whatsapp com o nome dos contatos borrados. Ao fundo, uma calçada de casa&#xA;Decidi retirar as cores do meu telefone e não consigo usá-lo de outra forma.&#xA;&#xA;Em meados de 2024, escrevi um texto relatando como foi a minha experiência de fotografar com a display do meu telefone em preto e branco.&#xA;&#xA;• Um mundo em preto e branco (Ideias de Chirico).&#xA;&#xA;Naquele tempo eu fazia um experimento mais estético do que tecnológico-comportamental, queria sobretudo entender como explorar a ausência de cores em fotografias. Prometi naquela vez uma publicação futura explicando o porquê daquela minha escolha ― sem saber que ela se tornaria a minha configuração padrão para telas pequenas desde então.&#xA;&#xA;Linko outra vez o texto por onde tive o ímpeto para adotar essa modificação.&#xA;&#xA;• Pessoas estão tirando as cores da tela do smartphone para usá-lo menos (Manual do Usuário)&#xA;&#xA;O recurso de “escala de cinza” é na verdade um recurso de acessibilidade para usuários com daltonismo. Em seu texto, Rodrigo Ghedin menciona vários especialistas em design que sugerem aos usuários de smartphone que tirem as cores de seus aparelhos caso queiram estar menos “viciados”.&#xA;&#xA;Segui esta sugestão. Com o tempo, porém, percebi benefícios e alguns prejuízos em outros campos.&#xA;&#xA;Neste texto os relatarei e explicarei porque por mais de dois anos decidi manter meu telefone em preto e branco, além de outras reflexões sobre essa modificação.&#xA;&#xA;Navegação com propósito&#xA;&#xA;O primeiro efeito que percebi ao tirar as cores do meu telefone foi a fluidez com que passei a executar minhas tarefas. &#xA;&#xA;Sem cores, a navegação por aplicativos não é errante. Como apontado no link do Manual no início deste post, as cores são organizadas em produtos de consumo de modo a fisgar a atenção do potencial cliente. Quando se as nivela em escala cinzenta, neutraliza-se esse efeito.&#xA;&#xA;Em cores emudecidas, vídeos já não são tão atrativos. Os textos escritos, por sua vez, ficam incólumes em escala cinzenta, isso porque a escrita funciona muito bem com uma só cor. Vejam os monitores de computadores antigos, mormente dedicados à escrita (de texto ou de código), emanavam luz verde sobre o fundo negro do próprio display. Não faria diferença para a compreensão textual se fosse uma luz branca.&#xA;&#xA;Para reforçar a intencionalidade com o telefone, retirei todas as notificações e mantive o volume zerado por padrão. Desse modo, o foco do meu aparelho passou a ser escrita de mensagens e leitura de textos médios.&#xA;&#xA;Menor agressividade visual&#xA;&#xA;Não exagero em dizer que minha vista ficou menos cansada desde que mantive a escala de cinza em dispositivos portáteis. Em alguns aparelhos, inclusive, o modo noturno pode ser programado a fim de ativar esse recurso.&#xA;&#xA;Quando as pessoas me emprestam seus telefones, não suporto olhar o display por mais de um minuto. É como se eu estivesse olhando diretamente para um letreiro em neon a poucos centímetros de distância.&#xA;&#xA;Com os meus aparelhos, entretanto, consigo permanecer mais tempo em alguma tarefa sem que fique com a vista cansada (o ideal mesmo seria uma tela “papel” no modelo Kindle). A partir do momento em que aciono as cores do meu telefone momentaneamente, comparando sua tela com a de outros dispositivos, percebo o problema: as telas de telefones têm cores mais vibrantes do que a de outros aparelhos...&#xA;&#xA;Economia de bateria&#xA;&#xA;Assumo, este tópico é um pouco controverso... &#xA;&#xA;Não sei se por estar menos propenso a ficar pouco tempo com o display aberto por conta da monocromia, ou pela própria configuração visual fazer com que se economize as cores, o fato é que gradualmente percebi que retirá-las fez com que a sua bateria durasse mais tempo do que antes.&#xA;&#xA;Naquele mesmo ano de 2024, adquiri um outro telefone mais básico, de tela menor, o Multilaser Elite 2, de quatro polegadas. Cansado tela enorme do aparelho anterior e um pouco preocupado em portar dados tão sensíveis em público, o plano era de tornar o novo dispositivo um “telefone de bolso”, para sair de casa. O outro, de cerca de sete polegadas, ficaria em casa mantendo aplicativos de banco e outros dados pessoais em segurança. &#xA;&#xA;Quando fui configurar as cores do dispositivo recém-adquirido, não o consegui pela via comum (no meu Motorola, o caminho é: Configurações   Acessibilidade   Cor e movimento   Correção de cor   Escala de cinza), mas sim da seguinte forma: Configurações   Bateria   Função de escala de cinza. Curioso, não?&#xA;&#xA;Porém, a própria descrição da opção diz que “Este recurso é experimental e pode afetar o desempenho”. Afeta positivamente ou negativamente? Não se diz claramente. O que interessa é que esse recurso, segundo o que os desenvolvedores da Multilaser entendem, altera de algum modo o gerenciamento de energia do aparelho.&#xA;&#xA;Fotografia de um telefone móvel de tela pequena tendo uma parede cor de salmão como fundo; no display, vemos a aba de gerenciamento de bateria aberta; na parte inferior da tela, vemos uma opção de Função escala de cinza&#xA;&#xA;Meu Multilaser afirma que a função escala de cinza “é experimental”. Experimental para quem? Para mim, esse é o padrão!&#xA;&#xA;Outros argumentam que a escala de cinza tem o potencial de economizar bateria, porque o display não teria que operar com muitas modificações de tons. No entanto, isso só faz sentido para aparelhos que têm tela AMOLED. Segundo a Technode, em displays com essa tecnologia,&#xA;&#xA;  Quando um pixel precisa exibir a cor preta, ele simplesmente se desliga. Isso representa economia real de energia, especialmente em interfaces com fundo escuro.&#xA;&#xA;O fato é que o meu telefone “de casa” segura a bateria por pelo menos cinco dias em uso de moderado a pouco frequente. Tenho de mencionar também que outras configurações entram em jogo, como o modo avião sempre acionado.&#xA;&#xA;E quanto a vídeos e imagens coloridas?&#xA;&#xA;Tenho um leitor digital Kindle, e desde que passei a ler muitos artigos da internet por esse eletrônico, percebi o quanto, na maioria das vezes, as cores não são essenciais para a compreensão de uma imagem. Afinal, há pelo menos um século, fotografias em preto e branco são estampadas em jornais...&#xA;&#xA;Alguns adeptos dessa configuração argumentam que ativam as cores quando vão assistir a vídeos no Youtube. Aí penso: se a proposta de desligar as cores é tornar um aparelho menos tentador, porque ativá-las para ver vídeos numa plataforma que é desenhada para manter o visitante o máximo de tempo possível? O melhor é nem mesmo mantê-la ativada! Eu mesmo prefiro baixar no computador os vídeos para serem vistos depois ― sigo um princípio de offline-first nos meus aparelhos.&#xA;&#xA;As únicas imagens em que as cores fazem falta são as de artes visuais, sobretudo pintura, e de textos multimodais, como gráficos. Há casos curiosos também em que as cores funcionam como traços distintivos entre objetos dentro de uma foto. Certa vez fotografei uma fonte de pedras dentro de um tanque de peixes. Em preto e branco, a fonte parecia um estrogonofe de carne! Infelizmente o telefone inteligente ainda segue como melhor ferramenta de edição de vídeos. Não há outra forma de fazê-lo que não por uma tela colorida.&#xA;&#xA;Além desses três casos, retorno à configuração padrão quando estou em uma videochamada. Porque aí ver a amada em preto e branco também é de lascar...&#xA;&#xA;No mais, em raros momentos em que as cores são de fato necessárias para a compreensão, as envio para a nuvem, a fim de serem apreciadas por uma tela maior e colorida. &#xA;&#xA;Breve comentário sobre uma estética da sobriedade&#xA;&#xA;Imagem de um telefone sem cores. No seu display, há o menu inicial com vários ícones de aplicativos&#xA;“Sexy sem ser vulgar”.&#xA;&#xA;(Convenhamos, o telefone fica mais elegante sem cores, tomando uma beleza “fria” e descompromissada, como as de uma escultura moderna e de uma embalagem de perfumes. Gosto de quando as coisas atraem sem implorarem por atenção ou se imporem nos espaços... “Chique é ser simples”, já dizia um rapper brasileiro. Sempre me atraio por uma beleza difícil...)&#xA;&#xA;Só o telefone sem cores?&#xA;&#xA;O fato de que sinto essa necessidade de tirar as cores somente em uma tela menor ainda me deixa um pouco encucado ― nunca tive vontades de tornar meu computador e um antigo tablet monocromáticos.&#xA;&#xA;Posso passar horas com meu computador, mesmo conectado, sem me sentir fisgado. Nesse dispositivo, sinto que estou mais “no comando” do que em outros.&#xA;&#xA;O fato de dispositivos mais portáteis terem cores mais vivas explica somente metade do problema. Será que o desenho dos aplicativos também auxiliam em tornar telefones mais viciantes? Infelizmente não tenho letramento suficiente em design ou programação para resolver essa questão. Quem souber explicar melhor, por favor, entre em contato pelo e-mail no rodapé desta publicação.&#xA;&#xA;E por que comprar dispositivos minimalistas?&#xA;&#xA;Além de ter tornado o meu telefone monocromático, também desinstalei aplicativos nativos da Google e de redes sociais, lhe tirei as notificações e o silenciei, mantendo somente o toque de chamada, para casos de urgência. Ao fim e ao cabo, o transformei em um “telefone minimalista”, algo próximo de um Mudita Kompakt.&#xA;&#xA;Por mais que eu respeite bastante projetos como Mudita Kompakt e Light Phone por terem apresentado essa ideia, tenho por mim que o que empresas e estartapes de “telefones minimalistas” vendem não é smartphone, mas letramento digital. O que se compra, por exemplo, de um Mudita Kompakt não é o dispositivo, mas o tempo que se leva para configurá-lo de modo a ficar funcional e até privativo.&#xA;&#xA;O objetivo de tratar dispositivos como ferramentas e não como brinquedos, como querem corporações tecnológicas, é, no fim das contas, uma atitude de anticonsumo.&#xA;&#xA;Sendo assim, qual o sentido de gastar dinheiro com mais dispositivos? O melhor é entender como eles funcionam, como nos afetam e transformá-los naquilo que são: objetos. E, claro, compartilhar o saber-fazer e, como se tem feito na Europa, pressionar empresas de tecnologia para que produzam produtos que sejam feitos para durar, tendo o usuário e o meio ambiente como prioridades.&#xA;&#xA;tecnologia&#xA;&#xA;------------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://i.imgur.com/VFuEJ93.jpeg" alt="Imagem de um telefone móvel com display em preto e branco. Nele se vê o aplicativo Whatsapp com o nome dos contatos borrados. Ao fundo, uma calçada de casa" title="Imagem de um telefone móvel com display em preto e branco. Nele se vê o aplicativo Whatsapp com o nome dos contatos borrados. Ao fundo, uma calçada de casa"></p>

<h5 id="decidi-retirar-as-cores-do-meu-telefone-e-não-consigo-usá-lo-de-outra-forma">Decidi retirar as cores do meu telefone e não consigo usá-lo de outra forma.</h5>

<p>Em meados de 2024, escrevi um texto relatando como foi a minha experiência de fotografar com a <em>display</em> do meu telefone em preto e branco.</p>

<p><a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/um-mundo-em-preto-e-branco" rel="nofollow">• Um mundo em preto e branco</a> (Ideias de Chirico).</p>

<p>Naquele tempo eu fazia um experimento mais estético do que tecnológico-comportamental, queria sobretudo entender como explorar a ausência de cores em fotografias. Prometi naquela vez uma publicação futura explicando o porquê daquela minha escolha ― sem saber que ela se tornaria a minha configuração padrão para telas pequenas desde então.</p>

<p>Linko outra vez o texto por onde tive o ímpeto para adotar essa modificação.</p>

<p><a href="https://manualdousuario.net/celular-preto-e-branco-vicio/" rel="nofollow">• Pessoas estão tirando as cores da tela do smartphone para usá-lo menos</a> (Manual do Usuário)</p>

<p>O recurso de “escala de cinza” é na verdade um recurso de acessibilidade para usuários com daltonismo. Em seu texto, Rodrigo Ghedin menciona vários especialistas em <em>design</em> que sugerem aos usuários de <em>smartphone</em> que tirem as cores de seus aparelhos caso queiram estar menos “viciados”.</p>

<p>Segui esta sugestão. Com o tempo, porém, percebi benefícios e alguns prejuízos em outros campos.</p>

<p>Neste texto os relatarei e explicarei porque por mais de dois anos decidi manter meu telefone em preto e branco, além de outras reflexões sobre essa modificação.</p>

<h2 id="navegação-com-propósito">Navegação com propósito</h2>

<p>O primeiro efeito que percebi ao tirar as cores do meu telefone foi a fluidez com que passei a executar minhas tarefas.</p>

<p>Sem cores, a navegação por aplicativos não é errante. Como apontado no <em>link</em> do Manual no início deste <em>post</em>, as cores são organizadas em produtos de consumo de modo a fisgar a atenção do potencial cliente. Quando se as nivela em escala cinzenta, neutraliza-se esse efeito.</p>

<p>Em cores emudecidas, vídeos já não são tão atrativos. Os textos escritos, por sua vez, ficam incólumes em escala cinzenta, isso porque a escrita funciona muito bem com uma só cor. Vejam os monitores de computadores antigos, mormente dedicados à escrita (de texto ou de código), emanavam luz verde sobre o fundo negro do próprio <em>display</em>. Não faria diferença para a compreensão textual se fosse uma luz branca.</p>

<p>Para reforçar a intencionalidade com o telefone, retirei todas as notificações e mantive o volume zerado por padrão. Desse modo, o foco do meu aparelho passou a ser escrita de mensagens e leitura de textos médios.</p>

<h2 id="menor-agressividade-visual">Menor agressividade visual</h2>

<p>Não exagero em dizer que minha vista ficou menos cansada desde que mantive a escala de cinza em dispositivos portáteis. Em alguns aparelhos, inclusive, o modo noturno pode ser programado a fim de ativar esse recurso.</p>

<p>Quando as pessoas me emprestam seus telefones, não suporto olhar o <em>display</em> por mais de um minuto. É como se eu estivesse olhando diretamente para um letreiro em <em>neon</em> a poucos centímetros de distância.</p>

<p>Com os meus aparelhos, entretanto, consigo permanecer mais tempo em alguma tarefa sem que fique com a vista cansada (o ideal mesmo seria uma tela “papel” no modelo Kindle). A partir do momento em que aciono as cores do meu telefone momentaneamente, comparando sua tela com a de outros dispositivos, percebo o problema: as telas de telefones têm cores mais vibrantes do que a de outros aparelhos...</p>

<h2 id="economia-de-bateria">Economia de bateria</h2>

<p>Assumo, este tópico é um pouco controverso...</p>

<p>Não sei se por estar menos propenso a ficar pouco tempo com o <em>display</em> aberto por conta da monocromia, ou pela própria configuração visual fazer com que se economize as cores, o fato é que gradualmente percebi que retirá-las fez com que a sua bateria durasse mais tempo do que antes.</p>

<p>Naquele mesmo ano de 2024, adquiri um outro telefone mais básico, de tela menor, o Multilaser Elite 2, de quatro polegadas. Cansado tela enorme do aparelho anterior e um pouco preocupado em portar dados tão sensíveis em público, o plano era de tornar o novo dispositivo um “telefone de bolso”, para sair de casa. O outro, de cerca de sete polegadas, ficaria em casa mantendo aplicativos de banco e outros dados pessoais em segurança.</p>

<p>Quando fui configurar as cores do dispositivo recém-adquirido, não o consegui pela via comum (no meu Motorola, o caminho é: Configurações &gt; Acessibilidade &gt; Cor e movimento &gt; Correção de cor &gt; Escala de cinza), mas sim da seguinte forma: Configurações &gt; Bateria &gt; Função de escala de cinza. Curioso, não?</p>

<p>Porém, a própria descrição da opção diz que “Este recurso é experimental e pode afetar o desempenho”. Afeta positivamente ou negativamente? Não se diz claramente. O que interessa é que esse recurso, segundo o que os desenvolvedores da Multilaser entendem, altera de algum modo o gerenciamento de energia do aparelho.</p>

<p><img src="https://i.imgur.com/c6qjA8E.jpeg" alt="Fotografia de um telefone móvel de tela pequena tendo uma parede cor de salmão como fundo; no display, vemos a aba de gerenciamento de bateria aberta; na parte inferior da tela, vemos uma opção de Função escala de cinza"></p>

<h5 id="meu-multilaser-afirma-que-a-função-escala-de-cinza-é-experimental-experimental-para-quem-para-mim-esse-é-o-padrão">Meu Multilaser afirma que a função escala de cinza “é experimental”. Experimental para quem? Para mim, esse é o padrão!</h5>

<p>Outros argumentam que a escala de cinza tem o potencial de economizar bateria, porque o <em>display</em> não teria que operar com muitas modificações de tons. No entanto, isso só faz sentido para aparelhos que têm tela AMOLED. Segundo a <a href="https://technode.blog/lcd-ou-amoled-qual-tela-economiza-mais-bateria-no-celular/" rel="nofollow">Technode</a>, em <em>displays</em> com essa tecnologia,</p>

<blockquote><p>Quando um pixel precisa exibir a cor preta, ele simplesmente se desliga. Isso representa economia real de energia, especialmente em interfaces com fundo escuro.</p></blockquote>

<p>O fato é que o meu telefone “de casa” segura a bateria por pelo menos cinco dias em uso de moderado a pouco frequente. Tenho de mencionar também que outras configurações entram em jogo, como o modo avião sempre acionado.</p>

<h2 id="e-quanto-a-vídeos-e-imagens-coloridas">E quanto a vídeos e imagens coloridas?</h2>

<p>Tenho um leitor digital Kindle, e desde que passei a ler muitos artigos da internet por esse eletrônico, percebi o quanto, na maioria das vezes, as cores não são essenciais para a compreensão de uma imagem. Afinal, há pelo menos um século, fotografias em preto e branco são estampadas em jornais...</p>

<p>Alguns adeptos dessa configuração argumentam que ativam as cores quando vão assistir a vídeos no Youtube. Aí penso: se a proposta de desligar as cores é tornar um aparelho menos tentador, porque ativá-las para ver vídeos numa plataforma que é desenhada para manter o visitante o máximo de tempo possível? O melhor é nem mesmo mantê-la ativada! Eu mesmo prefiro baixar no computador os vídeos para serem vistos depois ― sigo um princípio de <em>offline-first</em> nos meus aparelhos.</p>

<p>As únicas imagens em que as cores fazem falta são as de artes visuais, sobretudo pintura, e de textos multimodais, como gráficos. Há casos curiosos também em que as cores funcionam como traços distintivos entre objetos dentro de uma foto. Certa vez fotografei uma fonte de pedras dentro de um tanque de peixes. Em preto e branco, a fonte parecia um estrogonofe de carne! Infelizmente o telefone inteligente ainda segue como melhor ferramenta de edição de vídeos. Não há outra forma de fazê-lo que não por uma tela colorida.</p>

<p>Além desses três casos, retorno à configuração padrão quando estou em uma videochamada. Porque aí ver a amada em preto e branco também é de lascar...</p>

<p>No mais, em raros momentos em que as cores são de fato necessárias para a compreensão, as envio para a nuvem, a fim de serem apreciadas por uma tela maior e colorida.</p>

<h2 id="breve-comentário-sobre-uma-estética-da-sobriedade">Breve comentário sobre uma estética da sobriedade</h2>

<p><img src="https://i.imgur.com/V8x0Rei.jpeg" alt="Imagem de um telefone sem cores. No seu display, há o menu inicial com vários ícones de aplicativos" title="Imagem de um telefone sem cores. No seu display, há o menu inicial com vários ícones de aplicativos"></p>

<h5 id="sexy-sem-ser-vulgar">“Sexy sem ser vulgar”.</h5>

<p>(Convenhamos, o telefone fica mais elegante sem cores, tomando uma beleza “fria” e descompromissada, como as de uma escultura moderna e de uma embalagem de perfumes. Gosto de quando as coisas atraem sem implorarem por atenção ou se imporem nos espaços... “Chique é ser simples”, já dizia um <em>rapper</em> brasileiro. Sempre me atraio por uma beleza difícil...)</p>

<h2 id="só-o-telefone-sem-cores">Só o telefone sem cores?</h2>

<p>O fato de que sinto essa necessidade de tirar as cores somente em uma tela menor ainda me deixa um pouco encucado ― nunca tive vontades de tornar meu computador e um antigo tablet monocromáticos.</p>

<p>Posso passar horas com meu computador, mesmo conectado, sem me sentir fisgado. Nesse dispositivo, sinto que estou mais “no comando” do que em outros.</p>

<p>O fato de dispositivos mais portáteis terem cores mais vivas explica somente metade do problema. Será que o desenho dos aplicativos também auxiliam em tornar telefones mais viciantes? Infelizmente não tenho letramento suficiente em <em>design</em> ou programação para resolver essa questão. Quem souber explicar melhor, por favor, entre em contato pelo <em>e-mail</em> no rodapé desta publicação.</p>

<h2 id="e-por-que-comprar-dispositivos-minimalistas">E por que comprar dispositivos minimalistas?</h2>

<p>Além de ter tornado o meu telefone monocromático, também desinstalei aplicativos nativos da Google e de redes sociais, lhe tirei as notificações e o silenciei, mantendo somente o toque de chamada, para casos de urgência. Ao fim e ao cabo, o transformei em um “telefone minimalista”, algo próximo de um <a href="https://ploum.net/2025-09-02-mudita.html" rel="nofollow">Mudita Kompakt</a>.</p>

<p>Por mais que eu respeite bastante projetos como Mudita Kompakt e Light Phone por terem apresentado essa ideia, tenho por mim que o que empresas e estartapes de “telefones minimalistas” vendem não é <em>smartphone</em>, mas letramento digital. O que se compra, por exemplo, de um Mudita Kompakt não é o dispositivo, mas o tempo que se leva para configurá-lo de modo a ficar funcional e até privativo.</p>

<p>O objetivo de tratar dispositivos como ferramentas e não como brinquedos, como querem corporações tecnológicas, é, no fim das contas, uma atitude de anticonsumo.</p>

<p>Sendo assim, qual o sentido de gastar dinheiro com mais dispositivos? O melhor é entender como eles funcionam, como nos afetam e transformá-los naquilo que são: objetos. E, claro, compartilhar o saber-fazer e, <a href="https://juristas.com.br/destaques/uniao-europeia-exigira-baterias-removiveis-em-celulares-a-partir-de-2027/" rel="nofollow">como se tem feito na Europa</a>, pressionar empresas de tecnologia para que produzam produtos que sejam feitos para durar, tendo o usuário e o meio ambiente como prioridades.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:tecnologia" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">tecnologia</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/um-mundo-em-preto-e-branco-parte-2</guid>
      <pubDate>Wed, 15 Jul 2026 17:02:47 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Em 2026, Brasil levou Hexa</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/em-2026-brasil-levou-hexa</link>
      <description>&lt;![CDATA[A palavra Hexa em cor amarela sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido&#xA;&#xA;Texto alternativo: A palavra “Hexa” em cor amarela sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido. Arte: Arlon de Serra Grande.&#xA;&#xA;Para quem não acreditou, sim, o Brasil levou um hexa...&#xA;&#xA;Não, não vivo em um universo paralelo em que os brasileiros fomos campeões. Me explico:&#xA;&#xA;2006, Copa do Mundo sediada na Alemanha, Brasil perde de 1x0 para a França (com Kaká em campo) ― primeira hecatombe¹; 2010, com sede na África do Sul, já em campo com o influenciador “sabor” jogador Neymar, perdemos de 2x1 para a “Laranja Mecânica” ― segunda hecatombe ― (lembro de me divertir um monte com as montagens do Mundo Canibal sobre os jogos, isso tornou a derrota mais leve); a grande e fatídica hecatombe foi a de 2014 quando, em casa, perdemos de 7x1 para a Alemanha (com Neymar nocauteado, o clima no estádio era de terra arrasada mesmo antes do jogo); 2018, em terra russa, fomos de 2x1 para Bélgica (alguém lembra desse jogo?) ― quarta hecatombe ―; no Qatar, 2022, empatados, perdemos por pênaltis (esse cassino futebolístico) para a Croácia ― quinta hecatombe ―; em solo ianque, 2026, acabamos de sair de oitavas por uma preguiçosa Noruega que nos venceu por 2x1 (com gol de pênalti de Neymar, que por pouco não nos envergonha com uma troca de tapas com o goleiro norueguês) ― sexta hecatombe.&#xA;&#xA;Assim, levamos um hexa ― mas um hexatombe. Seis vezes sacrificado em nome de qualquer coisa que não participe do Brasil enquanto nação. Como li no dia seguinte à derrota, “A ideia da seleção como alma da brasilidade perdeu sentido”.&#xA;&#xA;A palavra Tombe em cor vermelha sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido&#xA;&#xA;Texto alternativo: A palavra “Tombe” em cor vermelha sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido. Arte: Arlon de Serra Grande.&#xA;&#xA;Ao mesmo tempo, já não temos uma nova bossa para chamar de nossa. A esperança da Fórmula 1 morreu. Ainda assim não resistimos ao sonho de sermos campeões no futebol. Avançamos para o segundo quarto do século XXI ainda tentando manter a mesma concepção de país que tínhamos no século anterior.&#xA;&#xA;Por outro lado, nos apareceram o skateboarding, o surfe e a ginástica rítmica, categorias em que fomos ouro nas últimas Olimpíadas. Há ainda a tímida promessa no tênis de mesa de um Hugo Calderano que venceu campeonatos na China, país que acumula basicamente todos os troféus nesse esporte. Ainda por cima, a pouco lembrada poesia experimental e propositiva que herdamos dos poetas concretos de 1950 ainda hoje nos rende frutos...&#xA;&#xA;Vamborandá. Pode ser que esse “hexa” seja um sinal de que devamos jogar menos com bola e jogar mais com ideias a fim de construirmos um outro Brasil ― pós-Pelé, pós-Senna, pós-tudo.&#xA;&#xA;¹: He.ca.tom.be (do grego antigo ἑκατόμβη, composto de ἑκατόν &#34;cem&#34; e βοῦς &#34;boi&#34;) é o sacrifício de cem reses aos deuses na Grécia Antiga. Os lusitanos ofereciam hecatombes ao modo grego. Modernamente o termo é aplicado a grandes catástrofes.&#xA;&#xA;#notas #cultura&#xA;&#xA;---------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://i.imgur.com/EzhoBPU.gif" alt="A palavra Hexa em cor amarela sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido"></p>

<h5 id="texto-alternativo-a-palavra-hexa-em-cor-amarela-sobre-fundo-verde-as-duas-cores-são-invertidas-bem-rápido-arte-arlon-de-serra-grande">Texto alternativo: A palavra “Hexa” em cor amarela sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido. Arte: Arlon de Serra Grande.</h5>

<p>Para quem não acreditou, sim, o Brasil levou um hexa...</p>

<p>Não, não vivo em um universo paralelo em que os brasileiros fomos campeões. Me explico:</p>

<p>2006, Copa do Mundo sediada na Alemanha, Brasil perde de 1x0 para a França (com Kaká em campo) ― primeira hecatombe¹; 2010, com sede na África do Sul, já em campo com o influenciador “sabor” jogador Neymar, perdemos de 2x1 para a “Laranja Mecânica” ― segunda hecatombe ― (lembro de me divertir um monte com as montagens do Mundo Canibal sobre os jogos, isso tornou a derrota mais leve); a grande e fatídica hecatombe foi a de 2014 quando, em casa, perdemos de 7x1 para a Alemanha (com Neymar nocauteado, o clima no estádio era de terra arrasada mesmo antes do jogo); 2018, em terra russa, fomos de 2x1 para Bélgica (alguém lembra desse jogo?) ― quarta hecatombe ―; no Qatar, 2022, empatados, perdemos por pênaltis (esse cassino futebolístico) para a Croácia ― quinta hecatombe ―; em solo ianque, 2026, acabamos de sair de oitavas por uma preguiçosa Noruega que nos venceu por 2x1 (com gol de pênalti de Neymar, que por pouco não nos envergonha com uma troca de tapas com o goleiro norueguês) ― sexta hecatombe.</p>

<p>Assim, levamos um hexa ― mas um hexatombe. Seis vezes sacrificado em nome de qualquer coisa que não participe do Brasil enquanto nação. Como li no dia seguinte à derrota, <a href="https://gilvanmelo.blogspot.com/2026/07/ideia-da-selecao-como-alma-da.html" rel="nofollow">“A ideia da seleção como alma da brasilidade perdeu sentido”.</a></p>

<p><img src="https://i.imgur.com/Vb45jrF.gif" alt="A palavra Tombe em cor vermelha sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido"></p>

<h5 id="texto-alternativo-a-palavra-tombe-em-cor-vermelha-sobre-fundo-verde-as-duas-cores-são-invertidas-bem-rápido-arte-arlon-de-serra-grande">Texto alternativo: A palavra “Tombe” em cor vermelha sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido. Arte: Arlon de Serra Grande.</h5>

<p>Ao mesmo tempo, já não temos uma nova bossa para chamar de nossa. A esperança da Fórmula 1 morreu. Ainda assim não resistimos ao sonho de sermos campeões no futebol. Avançamos para o segundo quarto do século XXI ainda tentando manter a mesma concepção de país que tínhamos no século anterior.</p>

<p>Por outro lado, nos apareceram o <em>skateboarding</em>, o surfe e a ginástica rítmica, categorias em que fomos ouro nas últimas Olimpíadas. Há ainda a tímida promessa no tênis de mesa de um Hugo Calderano que <a href="https://www.cbtm.org.br/noticia/detalhe/102205/historico-hugo-calderano-vence-chines-lider-do-ranking-e-conquista-a-copa-do-mundo-de-macau" rel="nofollow">venceu campeonatos na China</a>, país que acumula basicamente todos os troféus nesse esporte. Ainda por cima, a pouco lembrada poesia experimental e propositiva que herdamos dos poetas concretos de 1950 <a href="https://www.jornadadepoesiavisual.com/" rel="nofollow">ainda hoje nos rende frutos</a>...</p>

<p>Vamborandá. Pode ser que esse “hexa” seja um sinal de que devamos jogar menos com bola e jogar mais com ideias a fim de construirmos um outro Brasil ― pós-Pelé, pós-Senna, pós-tudo.</p>

<p>¹: He.ca.tom.be (do grego antigo ἑκατόμβη, composto de ἑκατόν “cem” e βοῦς “boi”) é o sacrifício de cem reses aos deuses na Grécia Antiga. Os lusitanos ofereciam hecatombes ao modo grego. Modernamente o termo é aplicado a grandes catástrofes.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:notas" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">notas</span></a> <a href="/ideiasdechirico/tag:cultura" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cultura</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/em-2026-brasil-levou-hexa</guid>
      <pubDate>Mon, 13 Jul 2026 17:08:47 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Notas costuradas</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-costuradas-q1gn</link>
      <description>&lt;![CDATA[Cartum em que há um homem sem roupa em frente a uma plateia, que diz &#39;Cheguei em São Paulo em 1997, só com a roupa do corpo&#39;&#xA;&#xA;Imagem: André Dahmer.&#xA;&#xA;Depois de um período um pouco autocentrado, publicando somente coisas minhas, volto a compartilhar alguns links, dicas e citações que coletei nos últimos ~2 meses. Alguns artigos são de assuntos, digamos, em baixa, mas que não deixam de ter alguma relevância. Outros até que são recentes, mas que passaram batidos por mim, e que pensei que, de qualquer forma, fosse interessante de mostrar ― vai que algum leitor destas Ideias é distraído que nem eu?&#xA;&#xA;Linkroll&#xA;&#xA;A maior parte da população leitora no Brasil é constituído por mulheres não brancas, é o que mostra a pesquisa Panorama do Consumo de Livros.&#xA;&#xA;• Quem consome livros no Brasil? Os dados são surpreendentes (Farofafá).&#xA;&#xA;Diego Lafuente reconstitui o fluxo da informação digital desde a era do BBS e pensa neste belíssimo ensaio como a Web e os hábitos podem se modificar a partir da IA:&#xA;&#xA;  I still write because writing helps me think. That may become the main reason to write. Not traffic. Not SEO. Not audience growth. Not discovery through search.&#xA;&#xA;• The web is going to dissapear (minid.net)&#xA;&#xA;Já reparou que os telefones modernos são pouco explorados ou até ignorados nos filmes dos últimos anos? Neste primoroso vídeo-ensaio, Eddache reflete sobre as razões pelas quais os diretores tomam essa decisão.&#xA;&#xA;• Why Are Movies Afraid Of Phones? (Eddache ― Youtube).&#xA;&#xA;Ensaio de Paula Lúcio sobre como a estética do agreste nordestino se formou e como se comunica.&#xA;&#xA;• A gramática visual do sertão (Paula Lúcio ― Substack).&#xA;&#xA;New York Times ranqueia os 48 hinos de nações da Copa (e dá primeiro lugar ao hino brasileiro!)&#xA;&#xA;• Ranking all 48 World Cup national anthems (New York Times).&#xA;&#xA;  A arte da tradução, por mais enigmática que seja o sentido dessa expressão, tem, assim, um papel político importante, mas parece que hoje ninguém precisa dela, e não se trata de cinismo, (...)  mas, antes, de absoluta impossibilidade de prestar atenção na arte em geral, qualquer que seja ela.&#xA;&#xA;• Trocar tradutores por IA é retrocesso gigantesco para literatura (Dirce Waltrick do Amarante ― Folha de São Paulo).&#xA;&#xA;Artigo bem humorado da Business Insider refletindo sobre as vantagens ~secretas de se ter um Kindle: desde ler “escondido” livros embaraçosos até não evidenciar posições políticas a partir de capas de impressos.&#xA;&#xA;• Read Embarassing Kindle Books in Public (Business Insider).&#xA;&#xA;Dica cultural&#xA;&#xA;Loja de discos. Um homem cabeludo e de camiseta de banda de rock observa com aflição para uma mulher com roupas formais que analisa um disco que pretende comprar.&#xA;&#xA;Cena de “Durval Discos” (2002), com participação especial de Rita Lee.&#xA;&#xA;Ontem assisti outra vez ao “Durval Discos” (2002), um desses filmes brasileiros que, por alguma razão, não é tão conhecido, apesar de ser family-friendly e do gênero comédia. Com estreia da diretora Anna Muylaert, é um primor no quesito de técnica de fotografia, trilha sonora (parte de André Abujamra) e escrita de roteiro.&#xA;&#xA;O longa-metragem nos mostra o cotidiano de Durval, um hippie quarentão que mantém uma loja de discos na frente de sua casa em um pacato bairro de Pinheiros, São Paulo, durante o fim dos anos 90. A indústria fonográfica de então investia mais e mais na produção de discos compactos (CD) em oposição aos discos de vinil (LP), a especialidade da loja Durval Discos.&#xA;&#xA;Além do pouco movimento de vendas em seu comércio e da constante cobrança de clientes por CDs, Durval ainda tem que lidar com a gerência da casa. Solteiro, morando com sua mãe já envelhecida, o protagonista decide contratar uma trabalhadora doméstica ― uma jornada que o irrompe de sua rotina. A partir daí, os problemas em sua casa (e até na vida do bairro) escalam pouco a pouco. O clímax de “Durval Discos” foi um daqueles que mais me impactaram nos últimos 10 anos.&#xA;&#xA;Disponível no Youtube.&#xA;&#xA;• Durval Discos - Trailer (Youtube).&#xA;&#xA;Citações&#xA;&#xA;Cartum mostrando um homem sobre um palco de karaokê, atrás dele há o título &#39;song: 4&#39;33&#39;&#39;, artist: John Cage&#39;, uma composição na qual os instrumentistas não tocam absolutamente nada. Em primeiro plano há um homem que diz &#39;Esse cara de novo, não...&#39;&#xA;&#xA;Imagem: asher (via The New Yorker)&#xA;&#xA;  Todo mundo quer profetizar o futuro pós LLM baseado em livro de ficção científica, eu prefiro olhar para um campo do conhecimento humano que convive com tais máquinas pelo menos desde a década de 1990: o xadrez. O fato de existirem máquinas que jogam melhor que os humanos não acabou com o esporte e não extinguiu a profissão de enxadrista.&#xA;&#xA;― @felipesiles@ayom.media&#xA;&#xA;  Meu fácil me enfada. Meu difícil me guia. [...] O que eu sei fazer me entedia; o que não sei fazer me entristece.&#xA;&#xA;― Paul Valéry.&#xA;&#xA;  The only way to keep your health is to eat what you don&#39;t want, drink what you don&#39;t like, and do what you&#39;d rather not.&#xA;&#xA;― Mark Twain.&#xA;&#xA;#notas #tecnologia #cotidiano&#xA;&#xA;--------------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://i.imgur.com/hNOjogW.png" alt="Cartum em que há um homem sem roupa em frente a uma plateia, que diz &#39;Cheguei em São Paulo em 1997, só com a roupa do corpo&#39;" title="Cartum em que há um homem sem roupa em frente a uma plateia, que diz &#39;Cheguei em São Paulo em 1997, só com a roupa do corpo&#39;"></p>

<h5 id="imagem-andré-dahmer">Imagem: André Dahmer.</h5>

<p>Depois de um período um pouco autocentrado, publicando somente coisas minhas, volto a compartilhar alguns <em>links</em>, dicas e citações que coletei nos últimos ~2 meses. Alguns artigos são de assuntos, digamos, em baixa, mas que não deixam de ter alguma relevância. Outros até que são recentes, mas que passaram batidos por mim, e que pensei que, de qualquer forma, fosse interessante de mostrar ― vai que algum leitor destas Ideias é distraído que nem eu?</p>

<h2 id="linkroll">Linkroll</h2>

<p>A maior parte da população leitora no Brasil é constituído por mulheres não brancas, é o que mostra a pesquisa Panorama do Consumo de Livros.</p>

<p><a href="https://farofafa.com.br/2026/04/07/quem-consome-livros-no-brasil-os-dados-sao-surpreendentes/" rel="nofollow">• Quem consome livros no Brasil? Os dados são surpreendentes</a> (Farofafá).</p>

<p>Diego Lafuente reconstitui o fluxo da informação digital desde a era do BBS e pensa neste belíssimo ensaio como a Web e os hábitos podem se modificar a partir da IA:</p>

<blockquote><p>I still write because writing helps me think. That may become the main reason to write. Not traffic. Not SEO. Not audience growth. Not discovery through search.</p></blockquote>

<p><a href="https://minid.net/2026/6/15/the-web-is-going-to-dissapear" rel="nofollow">• The web is going to dissapear</a> (minid.net)</p>

<p>Já reparou que os telefones modernos são pouco explorados ou até ignorados nos filmes dos últimos anos? Neste primoroso vídeo-ensaio, Eddache reflete sobre as razões pelas quais os diretores tomam essa decisão.</p>

<p><a href="https://youtu.be/1cXllzJ86wc?si=YzWeihQQ7vIF2zy8" rel="nofollow">• Why Are Movies Afraid Of Phones?</a> (Eddache ― Youtube).</p>

<p>Ensaio de Paula Lúcio sobre como a estética do agreste nordestino se formou e como se comunica.</p>

<p><a href="https://paulalcio1.substack.com/p/a-gramatica-visual-do-sertao" rel="nofollow">• A gramática visual do sertão</a> (Paula Lúcio ― Substack).</p>

<p>New York Times ranqueia os 48 hinos de nações da Copa (e dá primeiro lugar ao hino brasileiro!)</p>

<p><a href="https://www.nytimes.com/athletic/7352499/2026/06/19/world-cup-national-anthems-ranked-rated/" rel="nofollow">• Ranking all 48 World Cup national anthems</a> (New York Times).</p>

<blockquote><p>A arte da tradução, por mais enigmática que seja o sentido dessa expressão, tem, assim, um papel político importante, mas parece que hoje ninguém precisa dela, e não se trata de cinismo, (...)  mas, antes, de absoluta impossibilidade de prestar atenção na arte em geral, qualquer que seja ela.</p></blockquote>

<p><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2026/05/trocar-tradutores-por-ia-e-retrocesso-gigantesco-para-literatura.shtml" rel="nofollow">• Trocar tradutores por IA é retrocesso gigantesco para literatura</a> (Dirce Waltrick do Amarante ― Folha de São Paulo).</p>

<p>Artigo bem humorado da Business Insider refletindo sobre as vantagens ~secretas de se ter um Kindle: desde ler “escondido” livros embaraçosos até não evidenciar posições políticas a partir de capas de impressos.</p>

<p><a href="https://www.businessinsider.com/read-embarrassing-kindle-books-in-public-2015-7" rel="nofollow">• Read Embarassing Kindle Books in Public</a> (Business Insider).</p>

<h2 id="dica-cultural">Dica cultural</h2>

<p><img src="https://smetal.org.br/wp-content/uploads/2024/07/internadurvaldiscos.png" alt="Loja de discos. Um homem cabeludo e de camiseta de banda de rock observa com aflição para uma mulher com roupas formais que analisa um disco que pretende comprar." title="Loja de discos. Um homem cabeludo e de camiseta de banda de rock observa com aflição para uma mulher com roupas formais que analisa um disco que pretende comprar."></p>

<h5 id="cena-de-durval-discos-2002-com-participação-especial-de-rita-lee">Cena de “Durval Discos” (2002), com participação especial de Rita Lee.</h5>

<p>Ontem assisti outra vez ao “Durval Discos” (2002), um desses filmes brasileiros que, por alguma razão, não é tão conhecido, apesar de ser <em>family-friendly</em> e do gênero comédia. Com estreia da diretora Anna Muylaert, é um primor no quesito de técnica de fotografia, trilha sonora (parte de André Abujamra) e escrita de roteiro.</p>

<p>O longa-metragem nos mostra o cotidiano de Durval, um <em>hippie</em> quarentão que mantém uma loja de discos na frente de sua casa em um pacato bairro de Pinheiros, São Paulo, durante o fim dos anos 90. A indústria fonográfica de então investia mais e mais na produção de discos compactos (CD) em oposição aos discos de vinil (LP), a especialidade da loja Durval Discos.</p>

<p>Além do pouco movimento de vendas em seu comércio e da constante cobrança de clientes por CDs, Durval ainda tem que lidar com a gerência da casa. Solteiro, morando com sua mãe já envelhecida, o protagonista decide contratar uma trabalhadora doméstica ― uma jornada que o irrompe de sua rotina. A partir daí, os problemas em sua casa (e até na vida do bairro) escalam pouco a pouco. O clímax de “Durval Discos” foi um daqueles que mais me impactaram nos últimos 10 anos.</p>

<p>Disponível no Youtube.</p>

<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Gsf6cVTVr-Y" rel="nofollow">• Durval Discos – Trailer</a> (Youtube).</p>

<h2 id="citações">Citações</h2>

<p><img src="https://i.imgur.com/GE3SDv0.jpeg" alt="Cartum mostrando um homem sobre um palco de karaokê, atrás dele há o título &#39;song: 4&#39;33&#39;&#39;, artist: John Cage&#39;, uma composição na qual os instrumentistas não tocam absolutamente nada. Em primeiro plano há um homem que diz &#39;Esse cara de novo, não...&#39;"></p>

<h5 id="imagem-asher-via-the-new-yorker">Imagem: asher (via The New Yorker)</h5>

<blockquote><p>Todo mundo quer profetizar o futuro pós LLM baseado em livro de ficção científica, eu prefiro olhar para um campo do conhecimento humano que convive com tais máquinas pelo menos desde a década de 1990: o xadrez. O fato de existirem máquinas que jogam melhor que os humanos não acabou com o esporte e não extinguiu a profissão de enxadrista.</p></blockquote>

<p>― <a href="https://blog.ayom.media/@/felipesiles@ayom.media" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>felipesiles@ayom.media</span></a></p>

<blockquote><p>Meu fácil me enfada. Meu difícil me guia. [...] O que eu sei fazer me entedia; o que não sei fazer me entristece.</p></blockquote>

<p>― Paul Valéry.</p>

<blockquote><p>The only way to keep your health is to eat what you don&#39;t want, drink what you don&#39;t like, and do what you&#39;d rather not.</p></blockquote>

<p>― Mark Twain.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:notas" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">notas</span></a> <a href="/ideiasdechirico/tag:tecnologia" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">tecnologia</span></a> <a href="/ideiasdechirico/tag:cotidiano" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cotidiano</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-costuradas-q1gn</guid>
      <pubDate>Sun, 28 Jun 2026 16:47:48 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Outras reflexões sobre rotina</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/outras-reflexoes-sobre-rotina</link>
      <description>&lt;![CDATA[Fragmentos do meu diário. Entrada do dia sete de abril de 2026, terça-feira:&#xA;&#xA;Estranho dizer que sinto prazer em acordar cedo. Talvez o que eu goste mesmo é de manter firme uma rotina e ver que consigo fazer com que as coisas fluam. Às vezes lembro de “Dias Perfeitos” e da rotina impecável e tranquila de Hirayama. Uma rotina tão simplesmente cíclica que lembra até a de um animal selvagem.&#xA;&#xA;Além de tudo, Fortaleza fica muito bonita e agradável à hora da aurora, em torno de 5h30. Não há o sol escaldante habitual, mas ainda assim há uma débil luz; a rua é deserta; e, por alguma razão, sinto-me muito mais presente do que em qualquer hora do dia.&#xA;&#xA;Mais do que em qualquer outra hora, vemos a cidade tal como é: um teatro vazio, que depende de nós para funcionar...&#xA;&#xA;Dia 19 de maio de 2026:&#xA;&#xA;[...]&#xA;&#xA;Ao menos as terças-feiras me animam; é quando acordo mais cedo; ao tomar o ônibus, vejo o nascer do sol às 5h50; quando chego em Messejana, tenho um tempo livre até que o próximo [ônibus] apareça. Daí fico um tempo no piér da Lagoa da Messejana. &#xA;&#xA;Quando estive nesta paisagem ouvindo a Rádio Universitária, tive um ímpeto de otimismo, e pensei que talvez afinal eu precise mesmo passar por tudo isso por que passo. Espero que algum dia eu colha um fruto dessas sementes que planto não sei como.&#xA;&#xA;cotidiano&#xA;&#xA;------------------------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Fragmentos do meu diário. Entrada do dia sete de abril de 2026, terça-feira:</strong></p>

<p>Estranho dizer que sinto prazer em acordar cedo. Talvez o que eu goste mesmo é de manter firme uma rotina e ver que consigo fazer com que as coisas fluam. Às vezes lembro de “Dias Perfeitos” e da rotina impecável e tranquila de Hirayama. Uma rotina tão simplesmente cíclica que lembra até a de um animal selvagem.</p>

<p>Além de tudo, Fortaleza fica muito bonita e agradável à hora da aurora, em torno de 5h30. Não há o sol escaldante habitual, mas ainda assim há uma débil luz; a rua é deserta; e, por alguma razão, sinto-me muito mais presente do que em qualquer hora do dia.</p>

<p>Mais do que em qualquer outra hora, vemos a cidade tal como é: um teatro vazio, que depende de nós para funcionar...</p>

<p><strong>Dia 19 de maio de 2026:</strong></p>

<p>[...]</p>

<p>Ao menos as terças-feiras me animam; é quando acordo mais cedo; ao tomar o ônibus, vejo o nascer do sol às 5h50; quando chego em Messejana, tenho um tempo livre até que o próximo [ônibus] apareça. Daí fico um tempo no piér da Lagoa da Messejana.</p>

<p>Quando estive nesta paisagem ouvindo a Rádio Universitária, tive um ímpeto de otimismo, e pensei que talvez afinal eu precise mesmo passar por tudo isso por que passo. Espero que algum dia eu colha um fruto dessas sementes que planto não sei como.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:cotidiano" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cotidiano</span></a></p>

<hr>

<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

<hr>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/outras-reflexoes-sobre-rotina</guid>
      <pubDate>Sun, 21 Jun 2026 22:06:19 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>“Erik Satie: só o humor constrói”, de Júlio Medaglia</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/erik-satie-so-o-humor-constroi-de-julio-medaglia</link>
      <description>&lt;![CDATA[Pintura em estilo impressionista de um homem loiro e calvo, com óculos estilo “pince-nez”, de barba e com fraque. Ao fundo é posível ver um teclado de um piano e partituras. O homem está com uma postura sagaz, de sobrancelhas arqueadas, com a mão esquerda gentilmente encostada no rosto.&#xA;&#xA;Detalhe de retrato de um jovem Erik Satie feito por Antoine de la Rochefoucauld, 1894.&#xA;&#xA;Tenho uma estranha atração por sujeitos estranhos. Talvez porque eu seja um, sim. Mas também porque, levando uma vida tão anódina, me encanta ver alguém “desafinando o coro dos contentes”, como dizia o poeta piauiense Torquato Neto ― outro esquisitão.&#xA;&#xA;Quando conheço figuras assim, dissidentes de sua própria época, passo a pesquisar sobre tudo o que as circunda. Uma delas é o compositor francês Erik Satie, que viveu sua vida como um performer, como vocês verão logo abaixo. &#xA;&#xA;Satie é o dono da composição “Gymnopédie nº 1”, incluída em playlists “Once upon a time in Paris”, que inclusive, por conta de sua natureza introspectiva, costuma aparecer com sample de edições de lo-fi hip-hop.&#xA;&#xA;Vivendo no período entre o fim do século XIX e começo do XX, tempo em que o pensamento positivista ainda era predominante, ele passou a manter um estilo de vida extremamente excêntrico e contraditório, para não dizer antinormativo, colecionando proposições artísticas e causos populares.&#xA;&#xA;Outro dia estava folheando o livro “Música impopular” do compositor e crítico musical paulista Júlio Medaglia, onde o escritor fala sobre os principais nomes da música experimental do século passado, quando trombei com o texto sobre Satie que quero compartilhar aqui. Para expandi-lo e não o reduzir a um copicola, linkarei as composições que Medaglia mencionar.&#xA;&#xA;Para quem se interessar pelo artista, sugiro a escuta do episódio “Interferências” do podcast Ser Sonoro que fala sobre outras anedotas “satí(e)ricas”e sobre a linguagem musical do compositor francês.&#xA;&#xA;Boa leitura!&#xA;&#xA;“Erik Satie: só o humor constrói”, de Júlio Medaglia&#xA;&#xA;Bach codificou a gramática da composição musical do Ocidente. Mozart e Haydn estabeleceram formas amplas de expressão ― a sinfonia, a sonata etc. Beethoven, apoiado nessa gramática e nessas formas, subverteu as estruturas composicionais, criando contradições no discurso musical do início do século XIX, liberando a criação para procedimentos mais livres. Os principais compositores românticos aproveitaram-se disso e conduziram a criação musical ao subjetivismo, praticamente inventando uma forma nova para cada obra. Schönberg levou essa subjetividade e essa individualização da expressão ao extremo, à neurose, digamos, desembocando no que se convencionou chamar de expressionismo. Stravinsky e Varese “barbarizaram” a doce arte dos sons, espantando os mais bem-informados ouvidos e conceitos da época. Poderíamos seguir nesse raciocínio simplório, apoiando mais alguns nomes de personalidades de nossa evolução artística, que com talento e coragem mudaram o curso da história da música. Existe um elemento, porém, que, com igual talento e coragem, abalou as estruturas da música deste século, azucrinando corações e mentes de músicos, críticos e teóricos, mas, cuja arma empregada em sua investida contra ideias desgastadas era até então desconhecida: o humor ― mais precisamente o deboche. Depois de ter atuado como um verdadeiro “pai” do Impressionismo, conduzindo Debussy pelas mãos à criação de uma música “sem sabor de chucrute”, Erik Satie impacientou-se com os rumos que tomava a criação daquele período, despejando seu humor devastador contra tudo e contra todos. Acusado de amador por aqueles que só acreditavam na revolução feito sobre trilhos estáveis, Satie tira um diploma de compositor “com distinção” na Schola Cantorum de Paris aos quarenta anos de idade para que ninguém tivesse dúvidas quanto à sua capacidade técnica. Num período em que os autores se deliciavam, compondo obras com horas de duração, ele compunha peças com 18, 30 segundos. Acusado de incapaz para compor obras maiores, faz “Vexations”, com dois dias de duração.&#xA;&#xA;Quando o impressionismo francês se encanta com os exotismos da forte musicalidade espanhola, ele compõe uma obra chamada de “Espanhanha”. Aí, todos os maneirismos dessa música são devidamente anarquizados. No momento em que Debussy se queixa de que as obras de Satie carecem de uma definição formal, ele lhe envia “três peças em forma de pera”. Aliás, no período em que o impressionismo, ainda em evolução, caracterizava suas composições como “Clair de lune”, “Nuages”, “De l&#39;aube a midi sur la mer” ele contra-atacava com as suas, assim chamadas: “Embriões ressecados”, “Esboços e provocações de um cafetão de pau”, “Fantasiado de cavalo”, “Três valsas para um esnobe execrável”, “Prelúdios verdadeiramente flácidos” etc. Satie criou os primeiros happenings na música europeia, fazendo entrar um Citroën no palco em plena execução de uma de suas músicas, ou colocando sons e instrumentos “não musicais”, como máquinas de escrever, apito de navio, ruído de roda de loteria, barulho de água, sirenes , buzinas ou tiros de revólver, em seu balé “Parade”. Para essa obra, aliás, encomendou um cenário a Picasso, obrigando o pintor a executá-lo em público. A cada pincelada do genial espanhol, todos aplaudiam. Para um de seus balés, Satie solicitou que a segunda parte não fosse dançada no palco, mas sim filmada. Encomendou, então, o trabalho de René Clair, que assim filmou o seu famoso “Entr&#39;acte”. A orquestra acompanha, a cada segundo, a movimentação das cenas, sendo assim a primeira trilha sonora original para cinema (o velho maluco que aparece no início do filme pulando na frente de um canhão é o próprio Satie) [Nota: no link anterior, ele aparece aos 2m15s].&#xA;&#xA;Imagem de um homem idoso olhando para a câmera; ele está com o dedo indicador na bochecha, como quem a coça; ele está com óculos de aro fino.&#xA;&#xA;Do tempo da gravação de “Entr&#39;acte”, 1920. Retrato por Henri Manuel. Colorido artificialmente.&#xA;&#xA;Vivendo na mais absoluta pobreza no bairro de Arcueil, 16 quilômetros distante de Paris, num quarto sempre de portas e janelas fechadas e onde ninguém entrou até sua morte e onde havia apenas uma cama, uma escrivaninha e dois pianos (um em cima do outro) Satie conseguiu incomodar, mas não provar aos seus contemporâneos que o questionamento bem-humorado da cultura da época que ele propunha fazia sentido.&#xA;&#xA;Como este texto não é sonoro, aqui ficam algumas de suas “tacadas” para que o leitor tenha uma ideia de seu h senso de amor à música.&#xA;&#xA;  A jornada de um músico. &#xA;&#xA;  O artista deve organizar sua vida. Vejam a programação de minhas atividades diárias: às 7h18m eu acordo; das 10h23m às 11h47m eu me inspiro; às 12h11m eu tomo o desjejum e deixo a mesa às 12h14m. Faço um salutar passeio a cavalo às 13h19m até as 16h7m. Ocupações diversas (esgrima, reflexões, imobilidade, visitas, contemplação, excitação, natação etc.) das 16h20m às 18h47m. O jantar é servido às 19h16m e termina às 19h20m. Leitura de partituras em voz alta, das 20h9m às 21h59m. Deito-me regularmente às 22h37m. Semanalmente (na terça-feira) eu acordo sobressaltado às 3h19m.&#xA;&#xA;  Eu só me alimento com comida branca; ovos, açúcar, ossos ralados, gordura  animal, vitela, sal, coco, frango curtido em molho branco, suco de frutas, de arroz, de nabo, patês, queijos (brancos), salada de algodão e peixes (sem escama).&#xA;&#xA;  Eu fervo o meu vinho, espero esfriar e o bebo com uma pitada de fúcsia. Tenho bom apetite e nunca falo enquanto como (de medo de me engasgar). Respiro com cuidado (pouco de cada vez). Danço raramente. Eu ando sempre de lado para ver bem quem me segue.  Eu rio das coisas sérias, mas não deixo transparecer. Eu durmo apenas com um olho fechado. Minha cama é redonda e tem um buraco onde eu coloco a cabeça. De hora em hora um empregado toma minha temperatura e me devolve uma outra. Meu médico me recomendou para fumar diariamente e diz: “Se você não fumar, alguém fumará em seu lugar”.&#xA;&#xA;  Cocteau me ama (até demais), eu sei... Mas por que será que ele me dá tantos pontapés por debaixo da mesa?&#xA;&#xA;  Ravel recusou a “Legião de honra”, mas toda a sua música a aceita.&#xA;&#xA;  O negócio não é recusar a “Legião de honra” e sim fazer tudo para não a merecer.&#xA;&#xA;  Não se trata de ser antiwagneriano e sim fazer uma música sem sabor de chucrute.&#xA;&#xA;  Eu já disse que os animais são mais educados. Exemplo: um gato dorme numa poltrona. O homem vem e tira o gato. Eu jamais vi o contrário.&#xA;&#xA;  Os pintores e escultores vivem reproduzindo figuras de animais em suas obras. Os animais, eles mesmos, parecem ignorar por completo as artes plásticas. Eu desconheço qualquer pintura ou escultura feita por animais. Eles gostam, mesmo, é de música e arquitetura. Eles constroem ninhos e casas que são verdadeiras maravilhas artísticas e industriais para viver com suas famílias. E não resta dúvida de que eles praticam música até mais do que nós. Eles têm um código musical diferente do nosso, é bem verdade. Trata-se de uma outra escola. É preciso entender o que significa relinchar, miar, cacarejar, piar, mugir, latir, uivar, rugir, arrulhar, ronronar, grulhar, ganir para se ter uma ideia de sua arte sonora. Ela é tão bem ensinada de pai para filho que, em pouco tempo, o aluno se iguala ao mestre.&#xA;&#xA;  A Sociedade Protetora dos Animais protesta energicamente contra o recente engajamento de duas vacas pela Ópera de Paris para fazer um dueto em “Sortilégio”. Esses infelizes ruminantes, embriagados com o sucesso e em contato direto com a cabotinagem desses histrionistas, perdem pouco a pouco a sua dignidade e honradez profissional.&#xA;&#xA;  Jaques Dalcroze vem fazendo muito sucesso associando o esporte ao solfejo. Eu recomendo 3 sonatas de Beethoven, diariamente, que provocam um emagrecimento progressivo e muito sensível e 6 fugas de Bach, que exercem sobre as células gordurosas uma ação fulminante.&#xA;&#xA;  Atenção! O Teatro dos Campos Elísios comunica que providenciou uma equipe de orientadores ambulantes, encarregados de conduzir sãos e salvos às suas casas os professores de harmonia após cada representação da Sagração da Primavera de Stravinsky.&#xA;&#xA;  Quanto mais a gente se torna músico, mais a gente enlouquece.&#xA;&#xA;  O piano é como o dinheiro ― só é agradável para aqueles que o tocam.&#xA;&#xA;  Se me repugna dizer bem alto aquilo que eu penso bem baixo, é unicamente porque minha voz não é bastante forte.&#xA;&#xA;  Eu jamais leio um jornal que tem a minha opinião.&#xA;&#xA;  O impressionismo é a arte da imprecisão. Hoje em dia se caminha para a precisão.&#xA;&#xA;  Não devemos nos esquecer daquilo que acontece no music-hall e no circo. É de lá que vêm a criatividade, as tendências, as curiosidades, mais excitantes do métier.  &#xA;&#xA;  Sim madame. Todos morrem normalmente (eu vou explodir).&#xA;&#xA;  Durante toda a Grande Guerra, Ravel foi observador das observações observadas por observação nos observatórios dos observadores onde se observava ao rés do chão. Ele prestou grandes serviços ao País.&#xA;&#xA;  A Ópera e o Louvre possuem frigorífico e ossaria.&#xA;&#xA;  Alguns artistas pretendem ser enterrados vivos.&#xA;&#xA;  Sinal dos tempos: o artista vem de um profissional. O amador vem do artista.&#xA;&#xA;  Mostre-me algo novo e eu começarei tudo outra vez.&#xA;&#xA;  Nossas composições são garantidas contra quintas e oitavas paralelas. Os compositores da casa só empregam harmonias tradicionais e devidamente aprovadas por longo uso. Ao gosto de hoje. Toda a nossa música moderna foi cuidadosamente retocada por nossos funcionários especializados. Nosso princípio comercial: fazer o novo com o velho.&#xA;&#xA;  Eu cago música.&#xA;&#xA;cultura&#xA;&#xA;--------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://limelight-arts.com.au/wp-content/uploads/2025/06/Satie.jpg" alt="Pintura em estilo impressionista de um homem loiro e calvo, com óculos estilo “pince-nez”, de barba e com fraque. Ao fundo é posível ver um teclado de um piano e partituras. O homem está com uma postura sagaz, de sobrancelhas arqueadas, com a mão esquerda gentilmente encostada no rosto."></p>

<h5 id="detalhe-de-retrato-de-um-jovem-erik-satie-feito-por-antoine-de-la-rochefoucauld-1894">Detalhe de retrato de um jovem Erik Satie feito por Antoine de la Rochefoucauld, 1894.</h5>

<p>Tenho uma estranha atração por sujeitos estranhos. Talvez porque eu seja um, sim. Mas também porque, levando uma vida tão anódina, me encanta ver alguém “desafinando o coro dos contentes”, como dizia o poeta piauiense Torquato Neto ― outro esquisitão.</p>

<p>Quando conheço figuras assim, dissidentes de sua própria época, passo a pesquisar sobre tudo o que as circunda. Uma delas é o compositor francês Erik Satie, que viveu sua vida como um <em>performer</em>, como vocês verão logo abaixo.</p>

<p>Satie é o dono da composição “Gymnopédie nº 1”, incluída em playlists <a href="https://youtu.be/b9WKC5sT9Z4" rel="nofollow">“Once upon a time in Paris”</a>, que inclusive, por conta de sua natureza introspectiva, costuma aparecer com sample de edições de <a href="https://youtu.be/GMRiK7Kadhc" rel="nofollow">lo-fi hip-hop</a>.</p>

<p>Vivendo no período entre o fim do século XIX e começo do XX, tempo em que o pensamento positivista ainda era predominante, ele passou a manter um estilo de vida extremamente excêntrico e contraditório, para não dizer antinormativo, colecionando proposições artísticas e causos populares.</p>

<p>Outro dia estava folheando o livro “Música impopular” do compositor e crítico musical paulista Júlio Medaglia, onde o escritor fala sobre os principais nomes da música experimental do século passado, quando trombei com o texto sobre Satie que quero compartilhar aqui. Para expandi-lo e não o reduzir a um copicola, linkarei as composições que Medaglia mencionar.</p>

<p>Para quem se interessar pelo artista, sugiro a escuta do episódio <a href="https://sersonoro.net/2021/04/09/8-interferencias-2/" rel="nofollow">“Interferências” do podcast Ser Sonoro</a> que fala sobre outras anedotas “satí(e)ricas”e sobre a linguagem musical do compositor francês.</p>

<p>Boa leitura!</p>

<h2 id="erik-satie-só-o-humor-constrói-de-júlio-medaglia">“Erik Satie: só o humor constrói”, de Júlio Medaglia</h2>

<p>Bach codificou a gramática da composição musical do Ocidente. Mozart e Haydn estabeleceram formas amplas de expressão ― a sinfonia, a sonata etc. Beethoven, apoiado nessa gramática e nessas formas, subverteu as estruturas composicionais, criando contradições no discurso musical do início do século XIX, liberando a criação para procedimentos mais livres. Os principais compositores românticos aproveitaram-se disso e conduziram a criação musical ao subjetivismo, praticamente inventando uma forma nova para cada obra. Schönberg levou essa subjetividade e essa individualização da expressão ao extremo, à neurose, digamos, desembocando no que se convencionou chamar de expressionismo. Stravinsky e Varese “barbarizaram” a doce arte dos sons, espantando os mais bem-informados ouvidos e conceitos da época. Poderíamos seguir nesse raciocínio simplório, apoiando mais alguns nomes de personalidades de nossa evolução artística, que com talento e coragem mudaram o curso da história da música. Existe um elemento, porém, que, com igual talento e coragem, abalou as estruturas da música deste século, azucrinando corações e mentes de músicos, críticos e teóricos, mas, cuja arma empregada em sua investida contra ideias desgastadas era até então desconhecida: o humor ― mais precisamente o deboche. Depois de ter atuado como um verdadeiro “pai” do Impressionismo, conduzindo Debussy pelas mãos à criação de uma música “sem sabor de chucrute”, Erik Satie impacientou-se com os rumos que tomava a criação daquele período, despejando seu humor devastador contra tudo e contra todos. Acusado de amador por aqueles que só acreditavam na revolução feito sobre trilhos estáveis, Satie tira um diploma de compositor “com distinção” na Schola Cantorum de Paris aos quarenta anos de idade para que ninguém tivesse dúvidas quanto à sua capacidade técnica. Num período em que os autores se deliciavam, compondo obras com horas de duração, ele compunha peças com 18, 30 segundos. Acusado de incapaz para compor obras maiores, faz <a href="https://youtu.be/U5R8xe2cCbA" rel="nofollow">“Vexations”</a>, com dois dias de duração.</p>

<p>Quando o impressionismo francês se encanta com os exotismos da forte musicalidade espanhola, ele compõe uma obra chamada de “Espanhanha”. Aí, todos os maneirismos dessa música são devidamente anarquizados. No momento em que Debussy se queixa de que as obras de Satie carecem de uma definição formal, ele lhe envia “três peças em forma de pera”. Aliás, no período em que o impressionismo, ainda em evolução, caracterizava suas composições como “Clair de lune”, “Nuages”, “De l&#39;aube a midi sur la mer” ele contra-atacava com as suas, assim chamadas: “Embriões ressecados”, “Esboços e provocações de um cafetão de pau”, “Fantasiado de cavalo”, “Três valsas para um esnobe execrável”, “Prelúdios verdadeiramente flácidos” etc. Satie criou os primeiros <em>happenings</em> na música europeia, fazendo entrar um Citroën no palco em plena execução de uma de suas músicas, ou colocando sons e instrumentos “não musicais”, como máquinas de escrever, apito de navio, ruído de roda de loteria, barulho de água, sirenes , buzinas ou tiros de revólver, em seu balé <a href="https://youtu.be/9eJKY5LRFAE" rel="nofollow">“Parade”</a>. Para essa obra, aliás, encomendou um cenário a Picasso, obrigando o pintor a executá-lo em público. A cada pincelada do genial espanhol, todos aplaudiam. Para um de seus balés, Satie solicitou que a segunda parte não fosse dançada no palco, mas sim filmada. Encomendou, então, o trabalho de René Clair, que assim filmou o seu famoso <a href="https://youtu.be/RgwP_F6C0eE" rel="nofollow">“Entr&#39;acte”</a>. A orquestra acompanha, a cada segundo, a movimentação das cenas, sendo assim a primeira trilha sonora original para cinema (o velho maluco que aparece no início do filme pulando na frente de um canhão é o próprio Satie) [Nota: no link anterior, ele aparece aos 2m15s].</p>

<p><img src="https://laregledujeu.org/files/2025/03/EriK-Satie-scaled.jpeg" alt="Imagem de um homem idoso olhando para a câmera; ele está com o dedo indicador na bochecha, como quem a coça; ele está com óculos de aro fino."></p>

<h5 id="do-tempo-da-gravação-de-entr-acte-1920-retrato-por-henri-manuel-colorido-artificialmente">Do tempo da gravação de “Entr&#39;acte”, 1920. Retrato por Henri Manuel. Colorido artificialmente.</h5>

<p>Vivendo na mais absoluta pobreza no bairro de Arcueil, 16 quilômetros distante de Paris, num quarto sempre de portas e janelas fechadas e onde ninguém entrou até sua morte e onde havia apenas uma cama, uma escrivaninha e dois pianos (um em cima do outro) Satie conseguiu incomodar, mas não provar aos seus contemporâneos que o questionamento bem-humorado da cultura da época que ele propunha fazia sentido.</p>

<p>Como este texto não é sonoro, aqui ficam algumas de suas “tacadas” para que o leitor tenha uma ideia de seu h senso de amor à música.</p>

<blockquote><p>A jornada de um músico.</p>

<p>O artista deve organizar sua vida. Vejam a programação de minhas atividades diárias: às 7h18m eu acordo; das 10h23m às 11h47m eu me inspiro; às 12h11m eu tomo o desjejum e deixo a mesa às 12h14m. Faço um salutar passeio a cavalo às 13h19m até as 16h7m. Ocupações diversas (esgrima, reflexões, imobilidade, visitas, contemplação, excitação, natação etc.) das 16h20m às 18h47m. O jantar é servido às 19h16m e termina às 19h20m. Leitura de partituras em voz alta, das 20h9m às 21h59m. Deito-me regularmente às 22h37m. Semanalmente (na terça-feira) eu acordo sobressaltado às 3h19m.</p>

<p>Eu só me alimento com comida branca; ovos, açúcar, ossos ralados, gordura  animal, vitela, sal, coco, frango curtido em molho branco, suco de frutas, de arroz, de nabo, patês, queijos (brancos), salada de algodão e peixes (sem escama).</p>

<p>Eu fervo o meu vinho, espero esfriar e o bebo com uma pitada de fúcsia. Tenho bom apetite e nunca falo enquanto como (de medo de me engasgar). Respiro com cuidado (pouco de cada vez). Danço raramente. Eu ando sempre de lado para ver bem quem me segue.  Eu rio das coisas sérias, mas não deixo transparecer. Eu durmo apenas com um olho fechado. Minha cama é redonda e tem um buraco onde eu coloco a cabeça. De hora em hora um empregado toma minha temperatura e me devolve uma outra. Meu médico me recomendou para fumar diariamente e diz: “Se você não fumar, alguém fumará em seu lugar”.</p>

<p>Cocteau me ama (até demais), eu sei... Mas por que será que ele me dá tantos pontapés por debaixo da mesa?</p>

<p>Ravel recusou a “Legião de honra”, mas toda a sua música a aceita.</p>

<p>O negócio não é recusar a “Legião de honra” e sim fazer tudo para não a merecer.</p>

<p>Não se trata de ser antiwagneriano e sim fazer uma música sem sabor de chucrute.</p>

<p>Eu já disse que os animais são mais educados. Exemplo: um gato dorme numa poltrona. O homem vem e tira o gato. Eu jamais vi o contrário.</p>

<p>Os pintores e escultores vivem reproduzindo figuras de animais em suas obras. Os animais, eles mesmos, parecem ignorar por completo as artes plásticas. Eu desconheço qualquer pintura ou escultura feita por animais. Eles gostam, mesmo, é de música e arquitetura. Eles constroem ninhos e casas que são verdadeiras maravilhas artísticas e industriais para viver com suas famílias. E não resta dúvida de que eles praticam música até mais do que nós. Eles têm um código musical diferente do nosso, é bem verdade. Trata-se de uma outra escola. É preciso entender o que significa relinchar, miar, cacarejar, piar, mugir, latir, uivar, rugir, arrulhar, ronronar, grulhar, ganir para se ter uma ideia de sua arte sonora. Ela é tão bem ensinada de pai para filho que, em pouco tempo, o aluno se iguala ao mestre.</p>

<p>A Sociedade Protetora dos Animais protesta energicamente contra o recente engajamento de duas vacas pela Ópera de Paris para fazer um dueto em “Sortilégio”. Esses infelizes ruminantes, embriagados com o sucesso e em contato direto com a cabotinagem desses histrionistas, perdem pouco a pouco a sua dignidade e honradez profissional.</p>

<p>Jaques Dalcroze vem fazendo muito sucesso associando o esporte ao solfejo. Eu recomendo 3 sonatas de Beethoven, diariamente, que provocam um emagrecimento progressivo e muito sensível e 6 fugas de Bach, que exercem sobre as células gordurosas uma ação fulminante.</p>

<p>Atenção! O Teatro dos Campos Elísios comunica que providenciou uma equipe de orientadores ambulantes, encarregados de conduzir sãos e salvos às suas casas os professores de harmonia após cada representação da Sagração da Primavera de Stravinsky.</p>

<p>Quanto mais a gente se torna músico, mais a gente enlouquece.</p>

<p>O piano é como o dinheiro ― só é agradável para aqueles que o tocam.</p>

<p>Se me repugna dizer bem alto aquilo que eu penso bem baixo, é unicamente porque minha voz não é bastante forte.</p>

<p>Eu jamais leio um jornal que tem a minha opinião.</p>

<p>O impressionismo é a arte da imprecisão. Hoje em dia se caminha para a precisão.</p>

<p>Não devemos nos esquecer daquilo que acontece no <em>music-hall</em> e no circo. É de lá que vêm a criatividade, as tendências, as curiosidades, mais excitantes do <em>métier</em>.</p>

<p>Sim madame. Todos morrem normalmente (eu vou explodir).</p>

<p>Durante toda a Grande Guerra, Ravel foi observador das observações observadas por observação nos observatórios dos observadores onde se observava ao rés do chão. Ele prestou grandes serviços ao País.</p>

<p>A Ópera e o Louvre possuem frigorífico e ossaria.</p>

<p>Alguns artistas pretendem ser enterrados vivos.</p>

<p>Sinal dos tempos: o artista vem de um profissional. O amador vem do artista.</p>

<p>Mostre-me algo novo e eu começarei tudo outra vez.</p>

<p>Nossas composições são garantidas contra quintas e oitavas paralelas. Os compositores da casa só empregam harmonias tradicionais e devidamente aprovadas por longo uso. Ao gosto de hoje. Toda a nossa música moderna foi cuidadosamente retocada por nossos funcionários especializados. Nosso princípio comercial: fazer o novo com o velho.</p>

<p>Eu cago música.</p></blockquote>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:cultura" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cultura</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/erik-satie-so-o-humor-constroi-de-julio-medaglia</guid>
      <pubDate>Tue, 16 Jun 2026 23:54:18 +0000</pubDate>
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      <title>“Oficialmente diplomado”</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/oficialmente-diplomado</link>
      <description>&lt;![CDATA[Multidão de pessoas com beca em uma cerimônia de formatura dentro de um ginásio iluminado com holofotes. ao fundo é possível ver capelos voando e alguns confetes.&#xA;&#xA;Imagem: Rafaelle “Hélia” Bernardo. O autor tendo o seu momento?&#xA;&#xA;O fim da carreira na graduação nas peças de entretenimento é sempre anunciado com a fatídica cena dos capelos voando no ar ao som de “Marchas de Pompa e Circunstância”, de Edward Elgar. No nosso imaginário, depois que os capelos e livros e papéis e lágrimas caem, esse é o nosso grand finale, nosso “¡Adios, amigos!”. It&#39;s all, folks! C&#39;est fini! Os créditos do filme de nossa vida faltam pouco subir na retina da mente. Quem dera se, ao menos uma vez, a vida fosse um filme da Sessão da Tarde...&#xA;&#xA;Mas em outra tarde qualquer, com uma pastinha na mão, eu cruzava o campus da Universidade Estadual do Ceará outra vez. Eu estava um pouco descrente de que eu conseguiria meu diploma universitário, prometido há alguns meses logo após a formatura. Afinal, no Brasil, tudo que se relaciona à papelada requer duas ou três visitas. Além disso, estava preparado para dar de cara com a porta, pois já davam 16h no meu relógio quando passei pelo portão principal.&#xA;&#xA;Chegando lá, a partir de um beco estreito pixado com poças d&#39;água de ar-condicionado, surpresa: o departamento estava aberto! A porta de vidro cintilava ao sol da tarde finda. Abro-a gentilmente...&#xA;&#xA;Um balcão envidraçado com capacidade para três funcionários era ocupado somente por um. Usava óculos e tinha barba e cabelo ralos.&#xA;&#xA;― Boa tarde. Vim retirar o meu diploma universitário.&#xA;&#xA;― Boa. Qual o curso e a data de formatura, por favor?&#xA;&#xA;― Letras, final de janeiro deste ano.&#xA;&#xA;― Documento com foto?&#xA;&#xA;― Aqui.&#xA;&#xA;Depois de catar o documento em uma caixa, aquele homem até então tão humilde tomou um tom professoral, como se falasse com um pupilo:&#xA;&#xA;― Primeiramente parabéns pela conquista. Este é um momento de muita importância para a Universidade.&#xA;&#xA;Então, entre cerimonioso e sarcástico:&#xA;&#xA;―...e como retribuição, você ganha um brinde.&#xA;&#xA;Debaixo da bancada, retirou um envelope um pouco maior do que uma folha A4, cujo amarelo, debaixo da luz fluorescente, mais do que qualquer outra coisa naquela sala sem enfeites ou avisos, brilhava.&#xA;&#xA;A seguir, sacou daquela mesma região um papel fosco com o meu nome impresso.&#xA;&#xA;― É o original?&#xA;&#xA;― Cópia. Assine aqui.&#xA;&#xA;Assinei. Delicada e cerimoniosamente, retirou debaixo um largo papel igualzinho ao anterior, mas no qual o escudo da Universidade brilhava. Apresentou-me então uma caneta que tinha uma pena bastante distinta, cuja extremidade segurava com as pontas do indicador e do polegar. &#xA;&#xA;― Esta caneta tem uma tinta de rápida absorção. Agora assine cuidadosamente aqui...&#xA;&#xA;Não sei se por toda a liturgia, acabei garatujando o meu próprio nome no documento. Por fim, falou-me a quais documentos eu teria direito de ter segunda via, deu algumas orientações sobre a conservação do papel do diploma e contou causos sobre gente que perdeu o documento.&#xA;&#xA;Com um sorriso tímido no rosto, quase orgulhoso, como se fosse o próprio reitor, declarou enfim:&#xA;&#xA;― Pronto, meu rapaz, agora você está oficialmente diplomado. Boa sorte na vida.&#xA;&#xA;Sua voz ecoou na sala fria e sóbria. De repente um rumor de ar-condicionado, até então imperceptível, fez-se mais forte. Aquele era o fim definitivo.&#xA;&#xA;Na memória ainda os flashes, os confetes e os capelos pairando no ar. &#xA;&#xA;Mentiram para mim.&#xA;&#xA;cotidiano&#xA;&#xA;--------------------------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://i.imgur.com/OHZcbfU.jpeg" alt="Multidão de pessoas com beca em uma cerimônia de formatura dentro de um ginásio iluminado com holofotes. ao fundo é possível ver capelos voando e alguns confetes." title="Multidão de pessoas com beca em uma cerimônia de formatura dentro de um ginásio iluminado com holofotes. ao fundo é possível ver capelos voando e alguns confetes."></p>

<h5 id="imagem-rafaelle-hélia-bernardo-o-autor-tendo-o-seu-momento">Imagem: Rafaelle “Hélia” Bernardo. O autor tendo o seu momento?</h5>

<p>O fim da carreira na graduação nas peças de entretenimento é sempre anunciado com a fatídica cena dos capelos voando no ar ao som de “Marchas de Pompa e Circunstância”, de Edward Elgar. No nosso imaginário, depois que os capelos e livros e papéis e lágrimas caem, esse é o nosso <em>grand finale</em>, nosso “<em>¡Adios, amigos!</em>”. <em>It&#39;s all, folks! C&#39;est fini!</em> Os créditos do filme de nossa vida faltam pouco subir na retina da mente. Quem dera se, ao menos uma vez, a vida fosse um filme da Sessão da Tarde...</p>

<p>Mas em outra tarde qualquer, com uma pastinha na mão, eu cruzava o campus da Universidade Estadual do Ceará outra vez. Eu estava um pouco descrente de que eu conseguiria meu diploma universitário, prometido há alguns meses logo após a formatura. Afinal, no Brasil, tudo que se relaciona à papelada requer duas ou três visitas. Além disso, estava preparado para dar de cara com a porta, pois já davam 16h no meu relógio quando passei pelo portão principal.</p>

<p>Chegando lá, a partir de um beco estreito pixado com poças d&#39;água de ar-condicionado, surpresa: o departamento estava aberto! A porta de vidro cintilava ao sol da tarde finda. Abro-a gentilmente...</p>

<p>Um balcão envidraçado com capacidade para três funcionários era ocupado somente por um. Usava óculos e tinha barba e cabelo ralos.</p>

<p>― Boa tarde. Vim retirar o meu diploma universitário.</p>

<p>― Boa. Qual o curso e a data de formatura, por favor?</p>

<p>― Letras, final de janeiro deste ano.</p>

<p>― Documento com foto?</p>

<p>― Aqui.</p>

<p>Depois de catar o documento em uma caixa, aquele homem até então tão humilde tomou um tom professoral, como se falasse com um pupilo:</p>

<p>― Primeiramente parabéns pela conquista. Este é um momento de muita importância para a Universidade.</p>

<p>Então, entre cerimonioso e sarcástico:</p>

<p>―...e como retribuição, você ganha um brinde.</p>

<p>Debaixo da bancada, retirou um envelope um pouco maior do que uma folha A4, cujo amarelo, debaixo da luz fluorescente, mais do que qualquer outra coisa naquela sala sem enfeites ou avisos, brilhava.</p>

<p>A seguir, sacou daquela mesma região um papel fosco com o meu nome impresso.</p>

<p>― É o original?</p>

<p>― Cópia. Assine aqui.</p>

<p>Assinei. Delicada e cerimoniosamente, retirou debaixo um largo papel igualzinho ao anterior, mas no qual o escudo da Universidade brilhava. Apresentou-me então uma caneta que tinha uma pena bastante distinta, cuja extremidade segurava com as pontas do indicador e do polegar.</p>

<p>― Esta caneta tem uma tinta de rápida absorção. Agora assine cuidadosamente aqui...</p>

<p>Não sei se por toda a liturgia, acabei garatujando o meu próprio nome no documento. Por fim, falou-me a quais documentos eu teria direito de ter segunda via, deu algumas orientações sobre a conservação do papel do diploma e contou causos sobre gente que perdeu o documento.</p>

<p>Com um sorriso tímido no rosto, quase orgulhoso, como se fosse o próprio reitor, declarou enfim:</p>

<p>― Pronto, meu rapaz, agora você está oficialmente diplomado. Boa sorte na vida.</p>

<p>Sua voz ecoou na sala fria e sóbria. De repente um rumor de ar-condicionado, até então imperceptível, fez-se mais forte. Aquele era o fim definitivo.</p>

<p>Na memória ainda os <em>flashes</em>, os confetes e os capelos pairando no ar.</p>

<p>Mentiram para mim.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:cotidiano" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cotidiano</span></a></p>

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      <pubDate>Wed, 10 Jun 2026 20:36:53 +0000</pubDate>
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