Sobre decisões coletivas
from felipe siles
Esse é um tema sobre o qual quero escrever faz tempo, e eis que apareceu o cenário ideal para a sua escrita: tempo livre proporcionado pelo recesso de final de ano, e a observação de mais um coletivo do qual faço parte patinando na hora de concretizar decisões.
Participo de inúmeros coletivos, sempre participei desde que comecei a minha vida adulta. Sou músico e produtor cultural, ou seja, participo e participei de muitas bandas, grupos musicais, companhias de teatro, de dança, de cinema, etc., além de grupos com outros interesses: política, religiosidades de matriz afro, software livre, pesquisa acadêmica, etc.
Em praticamente todos esses grupos, compostos majoritariamente por pessoas minimamente progressistas, percebo uma ideia de que decisões coletivas são melhores, mais democráticas. Concordo com esse ponto, acho que não há dúvidas sobre isso. Mas, na prática, percebo que esse fundamento é subvertido em burocracia e quando percebemos, só pra citar um exemplo, todos estão votando em qual a melhor cor do logo do grupo, sendo que a maioria não tem conhecimento técnico pra isso, e muitos nem queriam estar sendo consultados sobre o assunto. As decisões se arrastam, tudo no grupo caminha muito lentamente, e cada decisão, por menor que seja, precisa ser discutida, deliberada e aprovada pela maioria.
Essa dinâmica acaba tornando o grupo um fardo pesado pra quem participa. Quem tem conhecimento técnico em uma tarefa ou habilidade se frustra porque outras pessoas estão sempre dando pitaco em seu trabalho, e acabam tendo seu esforço em prol do coletivo submetido a uma certa vigilância de aprovação da maioria. As pessoas que já são cansadas e ocupadas pelo próprio capitalismo tardio, acabam tendo que gastar uma enorme energia para defender coisas que são óbvias para ela, provocando mais ocupação, cansaço e desgaste. Outras que não dispõem dessa energia vão alimentando um ressentimento, cinismo ou até uma postura automática de “tanto faz”.
Surge aquela ideia de que nada ali acontece, e alguns acabam defendendo que se houvesse um líder centralizador, pra tomar as decisões, a coisa funcionaria melhor. Como falei antes, participo e participei de muitos grupos e, em alguns deles, realmente há um líder nítido e, nesses casos (quando o líder é bom), o grupo costuma ser muito mais dinâmico nas suas tomadas concretas de decisões. Aí surgem aqueles debates como se a coletividade não funcionasse e as soluções mais centralizadoras fossem melhores.
Mas eu acho que tem um problema aí que pouca gente nesses coletivos nota. Não é a coletividade que não funciona, mas para funcionar ela precisa estar baseada na CONFIANÇA. Tenho a impressão de que esse vício de decidir coletivamente todas as coisas é apenas um verniz para: – que todos possam dar pitaco no trabalho alheio; – um sinal de desconfiança sobre a decisão do outro, afinal a minha decisão que é a certa e preciso convencer todos disso; – insegurança das pessoas de arcar sozinho com a responsabilidade e o ônus de uma decisão ruim.
Aí acaba que as pessoas ficam dando pitaco no trabalho umas das outras, querendo tomar decisões coletivas que poderiam caber à uma pessoa com competência técnica e aptidão para aquela tarefa, o que normalmente termina em briga e ressentimento.
Outro fator também é o ranqueamento e “enquetização” de todos os aspectos da vida: damos estrelas para estabelecimentos, restaurantes, entregadores, filmes, séries, os serviços que usamos e conteúdos que seguimos nos empurram um monte de enquetes pra responder, criando a ilusão de que tudo aquilo que é avaliado positivamente por muitas pessoas é melhor. Existe uma ideia meio autoritária nisso, como se democracia fosse uma ditadura da maioria, como se massas de pessoas nunca errassem, a voz do povo é a voz de deus, porém a história nos mostra que um grande número de pessoas já cometeu e comete grandes cagadas também.
Vamos evocar a imagem de um pequeno vilarejo auto gerido e auto sustentável. Eu imagino que esse vilarejo teria pessoas responsáveis pela cozinha, pessoas responsáveis pelo uso e manutenção de ferramnetas, pessoas responsáveis pela obtenção de recursos (água, alimento, madeira, minerais, etc). Cada pessoa, por aptidão, vocação ou afinidade com a tarefa, com o passar dos anos começaria a ficar muito bom naquilo. Pensem agora numa pessoa que se dedicou a vida inteira a cozinhar para o vilarejo se faz sentido os moradores fazerem uma enquete para decidir os ingredientes que essa pessoa deve usar na próxima refeição. Parece um pouco absurdo porque é. Esse vilarejo hipotético, assim como diversas comunidades tradicionais, porque cada um desenvolve habilidades, as coloca a serviço do coletivo, e todos confiam nas pessoas e nessas habilidades.
Eu acredito num ideal de coletividade mais ou menos por aí: todas as pessoas possuem confiança umas nas outras, ninguém dá pitacos no trabalho de ninguém, todas as pessoas possuem liberdade e autonomia para desenvolver as suas tarefas da maneira como acharem melhor e o grupo arca com o ônus coletivo de decisões ruins. Acredito que essa é a forma de extrair o melhor da coletividade e o melhor do individualismo, já que não vejo essas duas esferas como necessariamente antagônicas ou excludentes. Chegar nesse modelo é fácil? Claro que não, afinal confiança não se constrói do dia pra noite. E para isso acontecer todos precisam ter nitidez qual a “cola social” que une aquele coletivo, o que mobiliza a todos, que os torna mais unidos que diferentes.
Para terminar o texto, uma frase atribuída ao José Saramago que gosto bastante: “aprendi a não convencer ninguém. O convencimento é um desrespeito, uma tentativa de colonização do outro”. Será que estamos prontos para essa coletividade radical, onde não tentamos convencer ninguém de nada, apenas vivemos, amamos, trabalhamos e confiamos nas pessoas?







