Vocabulário, repertório e imaginação

Outro dia estava jogando alguns jogos do tabuleiros com um amigo e minha esposa e comentei que algumas obras que assisto ou leio se tornam um lastro para as outras.

Ele apertou os olhos e disse: “se tornam o quê?”. “Um lastro”. E aí aconteceu uma cena não tão incomum na minha vida que é explicar o que uma palavra significa e depois a pessoa ficar “nossa, só você usa essa palavra”.

Por um lado, sim, acho que tenha um vocabulário bem extenso. Quando jovem eu li bastante, hoje depois de me livrar da faculdade estou voltando a ler como na juventude (em vez de ler apenas livros técnicos). Falo três línguas estrangeiras além do português, o que faz o vocabulário aumentar e se entrelaçar. Tenho um dicionário de referência para cada uma dessas línguas e uso sempre que preciso. Escuto o podcast do Prof. Pasquale quase diariamente kkkk eu genuinamente gosto.

Por outro lado... Às vezes sinto que as pessoas se contentam com um vocabulário muito limitado. Lastro é uma palavra que se aprende em história e geografia, no ensino fundamental, quando estudamos que o dólar nasceu lastreado em ouro. Não é uma palavra tão obscura assim! Mas também não é isso que eu quero dizer.

Vocabulário e repertório

Conhecer as palavras exatas para as coisas é uma boa medida de fluência numa língua: o termo mais específico no lugar de uma expressão mais genérica é indicativo de domínio do idioma.

Mas conhecer as palavras exatas também é uma medida de repertório sobre as coisas. É uma consequência da busca interessada sobre qualquer tema. Jargões nascem assim. Eu, pessoalmente, adoro saber de fatos curiosos sobre as coisas. Mesmo que eu não domine profundamente um assunto, me agrada saber os rudimentos. E assim eu vou descobrindo novas coisas e, naturalmente, novas palavras.

Daí que, ter um vocabulário amplo foi o resultado do desejo de entender as coisas.

Repertório e imaginação

Ter poucas palavras disponíveis é também ter pouco espaço de manobra para pensar e fazer coisas novas ou, talvez, até de reformular coisas antigas e correlacionar o que sempre esteve ali, próximo, mas não interligado.

Me parece difícil que boas ideias surjam sem uma destreza mental e experiência prévia. Nem estou falando aqui sobre instrução, embora a conversa tenha começado num tema eminentemente instrutivo. É só depois de ter tentado, pensado e confabulado bastante que conseguimos alcançar um resultado bom. Repertório e imaginação vão e vem para gerar boas ideias.

Um ranço

A ideia desse post veio, claro, com o acontecido descrito no começo, e com uma sensação horrível toda vez que eu escuto o presidente dos Estragos Unidos falar. A impressão que tenho é que o cara conhece entre 30 e 50 palavras e as repete independente na circunstância. “Eu gosto disso”, “Ele foi bom para nós”, “Foi muito bom”... Isso para não entrar nos absurdos e só citar as frases repetidas à exaustão.

Não admira que naquela cachola laranja só ventile ideias retrógradas e políticas de duzentos anos atrás. Eu me sinto o próprio Caetano Veloso esculhambando um jornalista em sua mocidade.

Esse, porém, é um parêntesis, porque basta de dizer o que não presta, vamos dizer o que presta!

Vocabulário e imaginação

Há quem diga e estudos apontam que a própria estrutura de uma língua limita o que nós podemos pensar. Há pensamentos que não parecem encaixar na língua materna e se nos restringimos a ela, ficamos incapazes de pensar certas coisas. Só isso já valia aprender uma língua estrangeira. Às vezes basta saber que certas estruturam mudam ou que outras palavras podem significar aquela mesma coisa ou ainda conhecer as etimologias das palavras pra gente conseguir pensar um pouco fora do quadrado.

Conheçam palavras e impressionem o seus amigos, garanto que vai valer a pena!