Dilema sobre asas

Estamos, ao menos no Brasil, no que parece ser praticamente o cúmulo de uma virtual impossibilidade do proletariado e da pequena burguesia participarem do que é essencial ao cotidiano no capitalismo, ou seja, a troca de moeda, caso não se sujeitem a software privativo de liberdade em níveis crescentes. O pior é que isso tem extrapolado limites, na última década, tendo em vista que não basta apenas executar no seu computador eventuais programas privativos, dedicados ou no navegador da Web, controlados pelo serviço bancário: ficou normalizada a exigência de TRApps em tornozeleiras eletrônicas de bolso dominadas por um duopólio de fornecedores estadunidenses que representam o maior capital da história.
Nesse cenário, ficamos esperançosos ao termos notícia de que há uma instituição financeira que se diferencia por não exigir TRApps em tornozeleiras e até encoraja o desenvolvimento de software, que pode ser livre, para interagir com seus serviços. Nisso se incluiria o tão aclamado #Pix, que dizem ser revolucionário e pode vir a ser, mas que reforça o domínio do duopólio enquanto as demais casas bancárias ainda não permitem que o indivíduo faça esse tipo de transação fora das crescentemente degradantes condições expostas acima.
Abrir a conta é bastante simples, pelo sítio da Web, se você tolerar a execução de JavaScript privativo da instituição e também, lamentavelmente, do ReCaptcha, de um daqueles fornecedores que gostaríamos de evitar e que ainda usa sua interação para treinar modelos de reconhecimento de padrões em imagens. Ignorando esse problema inicial, vamos em frente, em prol do bem maior.
Você é, então, encorajado a receber um código de confirmação do número telefônico por um serviço de mensageria específico sob total controle de um outro fornecedor multibilionário estadunidense, reforçando um virtual monopólio sobre esse tipo de aplicação. Felizmente, se prestar atenção, consegue trocar isso pelo recebimento de uma mensagem curta de texto em qualquer tipo de tornozeleira. Todos ainda ficam obrigados a carregar um dispositivo de rastreamento no bolso, por mais simples que seja. Poderiam oferecer a alternativa de entregar o código por uma chamada de voz, o que funcionaria em um telefone qualquer, mesmo fixo, mas vamos considerar que o “SMS” já é um avanço!
Com a confirmação de que seu número de telefone existe, a conta é imediatamente criada, disponível para entrada no sistema da instituição pela Web, sob as condições típicas. É possível bloquear, com NoScript e GNU LibreJS, a execução de scripts de diversos terceiros, e ainda ter o sistema funcional.
Para que a conta fique realmente funcional, como era de se esperar, você ainda precisa apresentar documentos oficiais para comprovar sua identidade. É estimulado a utilizar meios indesejados para receber um outro endereço a ser aberto para poder enviar a documentação. Com atenção, felizmente percebe um botão para simplesmente copiar o URL. Que alívio!
Abre o endereço copiado. Aí, superando novamente o problema de scripts indesejados, é que surge um belo dilema em relação a #privacidade, #soberaniaDigital e #softwareLivre sobre o qual gostaria de comentários antes de decidir se vale a pena relevar:
Você não vai enviar seus documentos pessoais à instituição que está contratando. Está lidando diretamente com uma empresa estadunidense, com domínio que termina com .ai e que apresenta termos de privacidade muito duvidosos e que, de toda forma, pela extraterritorialidade, jamais conseguiria exigir cumprimento. Vale a pena entregar de “mão beijada” dados sensíveis àquilo, sujeito a tal jurisdição?
Provavelmente, diversas outras instituições financeiras subcontratam serviços de análise de dados similares, porém, normalmente, você entrega os dados a elas, não diretamente aos terceiros. Sua relação é apenas com elas. No caso em questão, dá-se a impressão de que a instituição contratada se exime da responsabilidade sobre esses dados, já que, para iniciar o processo de comprovação de identidade, você precisaria aceitar as condições da empresa estrangeira, em sítio dela.
Eu, diante dessa situação, preferi aguardar para amadurecer melhor as ideias. Não sei se ignoro mais esse problema, que me parece tão mais grave até do que a execução de software privativo, no intuito de conseguir executar software livre depois, que seria o objetivo alcançável. Espero receber opiniões de ativistas das áreas envolvidas em @daltux@snac.daltux.net ou na sala XMPP da comunidade GNU brasileira: xmpp:usuarios-gnu@salas.suchat.org?join
🇧🇷🇵🇹 Este blogue © 2023-26 por Daltux é publicado sob a licença CC BY-SA 4.0.
🇨🇦🇬🇧 This blog © 2023-26 by Daltux is licensed under CC BY-SA 4.0.
🅭🅯🄎