Felipe Siles

Espero que seja útil

Introdução

Ao contrário do que se espera do estereótipo de uma pessoa de esquerda, artista, anarquista, contra-colonialista, tenho muito interesse em métodos de organização e produtividade, sempre foram assuntos que me interessaram bastante. Mas diferente do estereótipo do “farialimer”, meu interesse nesse material não é de produzir mais, mas de ter mais qualidade de vida e otimizar meu trabalho, justamente para ter mais horas de lazer e descanso. Foi nessa que o Bullet Journal acabou entrando no meu radar, e resolvi dar uma chance para testar porque estava muito insatisfeito com a forma como eu gerenciava as minhas tarefas. Já tinha testado diversos aplicativos para celular (entre eles o divertido Habitica), post-its, lousa, grupo comigo mesmo no Telegram, mas enfim... nada que trouxesse um resultado satisfatório.

O Bullet Journal

Pra quem não está familiarizado, Bullet Journal é uma metodologia de registros em caderno físico, criada por Ryder Carrol e desenvolvido e aperfeiçoado pela comunidade entusiasta no assunto. Chama a atenção a versatilidade e possibilidades de customização do modelo, diferente das velhas agendas, onde não podemos editar suas seções, pelo menos não se for uma agenda física; além da simplicidade na necessidade material, um caderno simples e um lápis já são suficientes para começar.

Comprei o livro do Ryder Carrol, O método Bullet Journal, e aprendi a metodologia. Confesso que não gostei muito do livro, achei que tem um tom de auto-ajuda que me irritou em alguns momentos, e tem muita “encheção de linguiça” (escrevi uma pequena resenha na Velha Estante sobre), é o famoso livro que poderia ser um post de um blog. Resumidamente, o primeiro capítulo do livro já é suficiente para aprender o método.

Se você quer apenas aprender o método e começar, acho desnecessário adquirir o livro, penso que um tutorial, como o que encontrei no WikiHow é suficiente. Agora, se você quer compreender melhor o contexto que o autor criou o método (que é interessante), e está com paciência ou gosta de livros auto-ajuda, manda ver, leia o livro.

Meu caderno

Comprei um caderno pequeno, no estilo Molesquine, mas de uma marca com preço mais acessível (Cícero), com capa de papel craft. Comprei o caderno pontilhado, que é o recomendado para bullet journal, embora não seja obrigatório. Nunca curti cadernos pautados (a não ser que a pauta seja musical), já comprava cadernos sem pauta antes, e encarei o desafio de escrever no pontilhado, no começo tive um pouco de dificuldade, mas me adaptei rápido. E o caderno pontilhado realmente ajuda bastante a desenhar quadros, tabelas, gráficos, bem legal, eu recomendo!

Comprei um caderno de 96 folhas e já estou percebendo que não vai durar o ano inteiro, no meio do processo com certeza precisarei comprar outro, ou outros, mas tudo bem, faz parte. Acredito que esse caderno vai ser suficiente para o primeiro semestre. Gosto de fazer as anotações com lapiseira (lápis eu gosto mais de usar para desenho, não escrita), não gosto muito de caderno cheio de rasuras, prefiro usar a borracha.

Rotina

Uma coisa que me impressionou é como a rotina do Bullet Journal foi incorporada na minha rotina com rapidez e naturalidade. Talvez isso tenha acontecido porque eu sempre fui de fazer muitas anotações. Mas anotava algumas coisas num post-it, outras num caderninho, outras num aplicativo, e, quando precisava, nunca encontrava onde estava alguma anotação específica.

Esse, por enquanto, tem sido o maior benefício do bullet journal pra mim: concentrar todas as anotações em um lugar só. Eu anoto tudo nele: tarefas, registros, hábitos alimentares, nomes de pessoas que não quero esquecer, pautas de reunião, anotações de palestras e cursos, etc. A única coisa que anoto num caderno à parte são as transações financeiras, tenho um livro caixa exclusivo para isso.

Uma coisa que me fez perceber como o hábito de fazer registros no bullet journal se estabeleceu de maneira muito forte na minha rotina foi numa viagem curta de trabalho que esqueci de levá-lo. Em vários momentos eu sentia vontade de fazer registros no caderno, mas ele não estava lá. Acabei fazendo quando cheguei de viagem e, desde então, levo ele pra todo lado, mesmo em viagens mais curtas.

Minhas adaptações e customizações

Eu segui à risca as orientações do livro de quantas páginas devo deixar para índice, registro futuro, etc. Mas, passados dois meses, tenho a impressão de que não vou fazer assim tantos registros futuros e marcar tantas coisas assim no índice. O registro futuro e registro mensal pra mim não funcionaram tão bem, porque eu já possuo o hábito bem estabelecido de utilizar aplicativo de agenda. Acredito que se um dia eu abandonar o aplicativo pode ser que eu acabe usando mais esses registros, mas no momento eu não vejo muito porque desfazer um hábito que já está estabelecido e funciona. Estou pensando de, talvez, num próximo caderno deixar apenas uma página para índice, uma página para coleções, duas páginas para registro anual e duas páginas para registro futuro, acredito que para o meu uso é o suficiente.

Até o momento criei três coleções: rotina, hábitos alimentares e calendário Osé Ifá (da minha religião, o culto tradicional aos orixás). Como a minha doutrina religiosa segue um calendário da cultura iorubá, onde a semana possui apenas quatro dias, eu tenho feito no registro diário: a data numérica, o dia da semana e o dia da semana do calendário iorubá. Tem sido muito útil para fazer meus rituais nos dias certos.

Sobre as legendas, eu tenho utilizado basicamente quatro categorias de registros. Utilizo o tópico para registros comuns, as caixinhas para tarefas, horário para registros cronológicos e quadros para coisas mais específicas, como por exemplo: pauta de uma reunião, anotações que fiz em uma palestra, etc.

O meu problema original: gerenciamento de tarefas

Registro todas as tarefas no dia em que a demanda aparece, com uma caixinha. Quando cumpro a tarefa, risco o texto (assim) e dou uma ticada na caixinha ☑️. Quando a tarefa é adiada, risco o texto e coloco na frente dele uma seta ➡️ indicando que farei aquilo mais pra frente. E quando a tarefa é cancelada marco com a caixinha com um ❎, e também risco o texto. Riscar o texto é bem importante pra mim, dá uma boa sensação de que aquela questão foi resolvida ou pelo menos encaminhada. E além dessa marcação na tarefa originalmente escrita, também coloco no dia do cumprimento da tarefa um registro de que ela foi cumprida.

Toda vez que tenho tempo livre para resolução de tarefas vou foleando meu caderno em busca de caixinhas vazias. Quando algumas tarefas já começam a ficar muito para trás no caderno, ou quando elas estão muito espalhadas, gosto de reorganizar a lista e concentrar todas numa página só. Até agora, em dois meses de uso, só precisei utilizar esse recurso uma única vez.

Além disso, criei uma ordem de prioridades de 1 a 4 para as tarefas, de acordo com a sua natureza. Tarefas relativas ao doutorado são prioridade 1, relativas aos meus freelas são prioridade 2, relativas aos coletivos que faço parte são prioridade 3 e todas as outras são prioridade 4. Coloco sempre (que lembro) o número da prioridade na frente da descrição da tarefa. Quando a tarefa tem prazo, coloco a data também.

Conclusão

De tudo que já testei em termos de gerenciamento de tarefas, o bullet journal foi o método que mais me agradou e tem funcionado bem. Quando utilizava aplicativos eu percebia que conforme as tarefas acumulavam eu ia deixando de abrir o aplicativo, grupo de Telegram, idem. Também tive alguns problemas com os aplicativos na questão de colocar data nas tarefas, muitos deles apresentavam alguns bugs, principalmente quando você trabalha no formato CalDav. A lousa e o post-it tinham o problema de não visualizar as tarefas já cumpridas, e também o fato de que também é possível ignorá-los, transformá-los em paisagem.

Já o caderno, como tem a questão dos registros diários, meio que não tem como ignorar, se você estabelecer bem o hábito, você vai lidar com ele todos os dias, e as tarefas estarão ali. Nesse sentido, acho bem importante as tarefas serem misturadas com o diário, se houvesse uma sessão só com tarefas eu provavelmente a evitaria, como evitava abrir os aplicativos.

Além disso, como já foi dito anteriormente, o bullet journal me ajudou a concentrar todas (ou quase todas) as anotações em um lugar apenas. Inclusive, o caderno aliado ao aplicativo de agenda funciona muito bem. Por exemplo, eu quero achar as anotações que fiz em uma reunião: vou até o calendário, olho a data da reunião, vou até essa data no caderno e vejo todos os registros do dia, excelente!

A única parte que ainda não me adaptei é a questão de registros futuros e de registrar os compromissos no caderno, já que o hábito de utilizar aplicativo de calendário já está estabelecido. Mas eu percebi uma leve mudança já, agora estou anotando no aplicativo de agenda apenas compromissos esporádicos, já não estou mais anotando os compromissos rotineiros, esses tenho preferido registar no caderno. Quem sabe um dia eu acabe abandonando o aplicativo de calendário, veremos...

Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima!

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Mastodon

Como me mantenho razoavelmente informado numa perspectiva (pelo menos tentando ser) slow web

Desde que saí do falecido Twitter e priorizei o Mastodon como minha rede social principal, me dei conta de que tinha pego nos últimos anos o péssimo hábito de me informar na rede (que era) do passarinho azul. Como já possuía familiaridade com o RSS principalmente por conta do agregador que uso de podcasts, o AntennaPod, acabei por concluir que seria mais interessante seguir notícias por esse método.

Acabei testando diversos programas, clientes, e principalmente: no começo (na empolgação) enchi a minha linha do tempo de assinaturas RSS. Assinei também várias newletter, e não consegui ler praticamente nenhuma. E a avalanche de postagens chegando por RSS me fazia mais ansioso, não estava ajudando muito. Fui fazendo ajustes, diminuindo, vendo o que era realmente fundamental eu estar informado.

Foi legal acontecer essa avalanche de postagens, porque acabei percebendo que a minha fila praticamente infinita de podcasts também estava me deixando cansado e ansioso. Todas essas coisas acabavam por parecer tarefas incompletas para mim, coisas a fazer que não eu não dava conta. E se você somar a isso as mensagens do whatsapp, emails, um inferno de ansiedade e que acaba gerando também cansaço mental.

Percebi que precisava controlar o tamanho da largura do duto onde passava a informação. Esse é um processo contínuo, sempre estou fazendo ajustes, portanto aí vai uma fotografia de como ele está neste momento.

Notícias, blogs, textos

No computador eu acabo utilizando uma extensão do Firefox chamada Feedbro. Acho mais prático consumir as notícias assim porque o navegador já está todo configurado com extensões que uso para ler essas notícias (leitura sem distração, adblock, removedor de paywall, tradutor, entre outras ferramentas). Ele também tem uma função bem interessante que é procurar feeds RSS em qualquer site que você abrir, bem prático!

Eu sigo no Feedbro feeds de quatro associações de pesquisadores que eu sou associado, para saber de eventos, congressos, chamadas para artigos, etc. O fluxo de postagens desse grupo é bem esporádico. Também assino duas feeds para ter informações sobre a minha cidade: a prefeitura e um portal de notícias. O fluxo aqui é um pouco mais intenso, mas não muito difícil de acompanhar, o site da prefeitura tem postagens meio esporádicas, o de notícias, de duas a quatro postagens por dia. Sigo também as feeds de dois portais que eu gosto e admiro bastante: Agência Pública e Manual do Usuário. Eu gosto e admiro o trabalho de muita gente, contudo o que foi decisivo para inclui-los na minha rotina no Feedbro foi o fluxo de notícias, costumam postar mais ou menos umas 3 por dia, coisa que dá pra acompanhar sem ficar maluco. E, por fim, acompanho o Cultura e Mercado para ficar antenado em aberturas de editais e leis de incentivo.

No iPad eu utilizo o NetNewsWire, o logo dele infelizmente é meio tosco, fica um verdadeiro patinho feio perto dos logos bonitos do IOS, mas o aplicativo é bem funcional, além de ser livre e código aberto. Gosto de colocar no iPad os feeds RSS de blogs, principalmente blog de amigos. Eu considero a leitura de textos longos mais agradável no iPad do que no computador, por isso faço dessa maneira.

E no meu celular, Android, utilizo o Feeder, instalado via F-Droid. Assinei 4 feeds de portais de notícias bem conhecidos (Carta Capital, Jornal da USP, Jornal GGN e Nexo Jornal). Como aqui o fluxo de notícias é bem alto, configurei o app para me mostrar no máximo 50 postagens e coloquei a visualização em formato supercompacto. Eu não costumo ler a maioria dessas notícias do celular, apenas fico ali rolando pela linha do tempo vendo os títulos para ficar mais ou menos por dentro do que está acontecendo. A ideia é ter essa feed mais ágil para consultar quando estou na rua, que já se mostrou muito útil para me informar sobre greves, paralisações e outros eventos que afetam o transporte público. Diferente dos outros dispositivos, aqui eu não tenho a preocupação de ler tudo.

Outra coisa importante é que se tem alguma postagem em qualquer um dos três dispositivos que eu tenho interesse mas quero ler com calma depois, salvo no Omnivore. O aplicativo funciona bem e roda nos três dispositivos.

As newsletter para mim simplesmente não funcionaram, pode ser que funcione para muita gente, mas para mim não deu certo. Eu acabava lendo no começo, mas com o passar do tempo comecei a ter relação com esses e-mails praticamente de spam.

Podcasts, rádios, música

Sou entusiasta de podcasts, consumo a mídia desde 2018, tenho meu podcast próprio, e também colaboro em outros projetos de amigos. Sou apaixonado por essa mídia, pela distribuição livre e também pela praticidade de ouvir no ônibus, no almoço, enquanto lava louça, sem a obrigação de ficar com os olhos ali grudados numa tela. Já tive o meu momento de seguir muitos podcasts e querer maratonar todos eles, o que com o tempo foi me deixando muito ansioso e cansado mentalmente.

Um belo dia perdi todo meu histórico no aplicativo que eu uso, o AntennaPod, e acabei aproveitando a tragédia para fazer uma mudança radical na forma como eu consumia a mídia. Elegi apenas alguns podcasts, que estão ainda em atividade, e, ao invés de ficar preocupado em maratonar, configurei o download automático de episódios novos. Dessa forma eu não fico preocupado em maratonar nada, apenas em dar conta da linha do tempo. Outra coisa que me ajudou foi esconder o contador de episódios não ouvidos, uma coisa que me deixava ansioso e soava como pendência.

Atualmente sigo doze podcasts, dentre eles: – dois são diários (segunda a sexta), mas são curtos, costumam durar entre 15 e 30 minutos; – dois possuem duas edições semanais, esses são mais longos, duram cerca de 60 minutos; – um deles é semanal e dura cerca de 30 minutos; – um deles (teoricamente) é quinzenal e dura cerca de 60 minutos; – um deles possui uma periodicidade meio caótica, mas costuma publicar uns dois ou três episódios por semana, com durações variadas; – os cinco demais são aperiódicos e vários deles são publicados por temporada, só têm episódios novos quando tem temporada nova. Costumam ser episódios mais longos de cerca de 60 minutos.

Dessa forma eu consigo facilmente terminar a fila de podcasts do dia nas refeições ou andando de ônibus. Quando acaba a fila, nada de maratonar podcast, eu costumo colocar em alguma rádio ou até mesmo vou fazer outra coisa, fico em silêncio, ouço uma música. Inclusive recomendo a ótima Rádio Aconchego, que eu ouço pelo bom e velho VLC no celular. Também gosto da Rádio USP, Rádio Unicamp e Rádio Yande.

E, por último, para ouvir música tenho gostado bastante do RiMusic para o Android, que pode ser instalado pela F-Droid. Ele é um cliente/front-end do Youtube Music, mas com aquela cara de aplicativos de streaming como Spotify, inclusive dando a opção de salvar as músicas para ouvir offline.

Também possuo ainda esse hábito jurássico de baixar alguns mp3, no celular e principalmente no computador, e costumo ouvi-los no VLC mesmo. Já fui entusiasta no computador do aplicativo Nuclear, mas ultimamente tenho achado que ele deixa a desejar, tem muito álbum que acaba vindo com música trocada, então tenho preferido baixar mesmo. Ou então ouvir um disco de vinil, já que possuo toca discos.

Videos, filmes, séries

Consumo o conteúdo do Youtube apenas em front-ends e clientes. No computador e iPad utilizo o Individious (pelo navegador) e no celular e tv stick o NewPipe. Gosto de consumir dessa forma porque esses clientes tiram as propagandas e também possuem mais opções de customização. Eu gosto de customizar esses aplicativos para valorizar a linha do tempo, já que a ideia é apenas seguir conteúdo de uns poucos canais e playlists. Nada de ficar vendo conteúdo sugerido, clicando em vídeos relacionados, ou olhar o que está “bombando”, de jeito nenhum. Consumo igual ao podcast, quando acaba a fila vou ver outra coisa... um anime ou até ler um livro. Atualmente sigo o conteúdo de apenas sete canais e quatro playlists.

Eu parei de consumir séries, porque elas acabavam tomando muito tempo e essa ideia de maratoná-las me deixava tão ansioso quanto ficava por maratonar os podcasts e sempre com a sensação de pendência e cansaço mental. Resolvi consumir então mais filmes e animes. Filmes duram ali duas, três horas... e pronto, acabou... começo, meio e fim... nada de um novo capítulo, no máximo uma continuação da franquia, excelente!!! E animes podem ser gigantescos (como o meu preferido, One Piece) mas os episódios costumam durar só uns 20 minutos, o que deixa leve e gostoso para acompanhar lentamente ali no dia-a-dia, vendo de um a quatro episódios seguidos, dependendo do tempo disponível.

Outra coisa importante é que eu evito ficar assistindo muito vídeo no celular, computador e iPad. Prefiro assistir na televisão mesmo, possuo uma tv stick e consegui instalar o aplicativo do NewPipe. Gosto de fazer isso principalmente quando já terminei as minhas tarefas do dia, eu gosto de fazer essa separação do computador como ambiente de trabalho e a televisão como fonte de lazer e entretenimento. Filmes eu prefiro assistir no final de semana, nos dias úteis eu vejo mais o conteúdo do Youtube e alguns animes.

Mensagens, emails, redes sociais

Gosto de usar aplicativos agregadores de mensagens, como o Ferdium para os mensageiros e o Thunderbird para emails. É uma forma de otimizar a tarefa de ver as mensagens e respondê-las, gosto de pegar uma hora todo dia apenas para isso. Na maioria das vezes essa uma hora é suficiente para ler e responder tudo. Faço esse trabalho no computador e depois evito ficar trocando muita mensagem no celular, dou umas olhadas de vez em quando, só para checar possíveis urgências e ir administrando para não deixar muita mensagem acumulada para a prática do dia seguinte no computador.

Gosto de manter a prática de arquivar mensagens e e-mails lidos, isso deixa a caixa de entrada vazia e me dá uma sensação excelente. Inclusive eu fico desesperado só de ver a caixa de email de outras pessoas, tenho vontade de morrer com a quantidade de emails não lidos, ignorados. Spams, propagandas, emails de notificação, costumo me descadastrar de todas as listas. É uma coisa bem rápida de se fazer e que evita que sua caixa se encha com esses emails. Emails e mensagens que vão demandar um trabalho um pouco maior eu só arquivo quando termino a tarefa. Ver o email ou mensagem pendente ali na caixa de entrada também é uma forma de não esquecer de cumprir a tarefa em questão.

Tenho várias contas de email, cada uma com uma função. Um mais público ou profissional, um universitário, um para logins e um só para situações que envolvam pagamentos. Parece exagero, mas essa segmentação me ajuda muito a não acumular muitas mensagens num e-mail só. E acaba que, a depender da função, não preciso olhar todos esses e-mails todo dia. O e-mail de logins, por exemplo, olho uma vez por semana, o de pagamentos só quando faço ou recebo alguma transação.

Os mensageiros uso três basicamente: Whatsapp (não tem o que fazer), Telegram e Element/Matrix. E o mais importante: desabilito as notificações de todos esses aplicativos e emails, a saúde mental agradece. Tendo uma hora todo dia dedicada para isso, não há a menor necessidade de notificação. Basta abrir o Ferdium e o Thunderbird e começar o trabalho.

Redes sociais eu tenho utilizado apenas o Mastodon e o Lemmy. No computador e iPad uso no navegador mesmo (não gostei de nenhum dos clientes para iOS). Já no celular uso o Tusky como cliente do Mastodon, gosto da pegada dele bem minimalista, customizável e com botões para clicar. Para o Lemmy utilizo o Jerboa, praticamente pelo mesmo motivo: simples, funcional e customizável. E nada de ficar vendo muita notícia nessas redes, inclusive evito perfis e comunidades que postam muita notícia. A ideia aqui é a interação social e a troca de ideias.

Conclusão

Essa é a maneira como eu controlo a metafórica largura o duto de informação, para ter um fluxo saudável e evitar ansiedade, sensação de pendência e cansaço mental. Olhando o texto parece até um paradoxo, um verdadeiro textão propondo uma relação mais minimalista com a informação. Mas tenho certeza de que se você colocar no papel toda informação que consome e por onde ela chega é provável que vá se assustar, inclusive se eu descrevesse minhas fontes de informação antes de sistematizar esse filtro mais rigoroso, acho que este texto seria um livro e não um post de um blog (rs).

Lógico que esse é meu uso pessoal, e cada pessoa possui demandas bem diferentes. Este texto não tem pretensão de ser um guia, um manual, apenas o registro, um relato de como eu faço. Levei muito tempo para organizar essa rotina em lidar com a informação e continuo fazendo ajustes, então achei que uma ou outra coisa pode servir de ideias para outras pessoas. Fiquem à vontade para testar, adaptar ou até ignorar a maneira como faço.

Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima!

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Mastodon

Meu último texto aqui no blog sobre não ter redes sociais comerciais teve uma repercussão bem interessante, e reverberou de uma maneira bem bacana, com várias pessoas dando um retorno positivo e até inspirando outros textos. Fico muito feliz de que o compartilhamento da minha vivência tenha sido útil e, dada a relevância do tema que essa repercussão revelou, resolvi criar uma série de textos sobre cada ferramenta específica da big tech que eu não uso (e também sobre as que eu uso né, afinal não só de negativa vive o homem rs). A ideia é mostrar na prática como essa falta de uso me afeta e minhas estratégias para contornar alguns problemas que isso possa acarretar.

Muita gente relatou dificuldade com a ideia de sair do Instagram, por isso resolvi começar com essa plataforma. Realmente, o Instagram infelizmente se tornou um monopólio em termos de redes sociais, por mais que existam concorrentes, como o TikTok. Aquela rede que já serviu para compartilhar fotos pessoais e imagens, acabou se tornando essa espécie de aplicativo faz-tudo: é mensageiro, entretenimento, notícias, vendas, entre outras coisas. Além disso, a rede se tornou o principal canal de comunicação de diversas instituições, como bares, restaurantes, lojas, marcas, e, infelizmente, também de órgãos públicos ou de utilidade pública (congressos acadêmicos, associações de pesquisadores, coletivos e movimentos, etc). Infelizmente é muito difícil sair dessa armadilha e não ter uma conta no Instagram implica em abrir mão de muita coisa. Como eu sempre digo, nunca julgo quem precisa estar na rede, considero essa pessoa uma vítima.

Antes de mais nada, vamos aos principais motivos concretos de porque eu não tenho conta pessoal no Instagram:

  • Como já havia dito no meu texto anterior, nunca tive muito interesse por redes sociais de fotos, sempre preferi as de texto;
  • Considero uma rede danosa para a saúde mental, existem fortes indícios de que o uso massivo da plataforma possa estar indiretamente associado a problemas sérios principalmente entre adolescentes, como aumento do índice de suicídios femininos e cyber bullying;
  • É uma rede feita para viciar e te enclausurar dentro dela;
  • Não é uma rede segura, o fato de não ter o código aberto faz com que sabe-se lá o que eles fazem com seus dados e informações;
  • É uma ferramenta que ajuda a espalhar notícias falsas e divugar as ideias da extrema direita no mundo, e é omissa para conter esse conteúdo;
  • O Instagram gera uma grande quantidade de lixo virtual, que está hospedado em servidores consumindo recursos naturais.

Vamos então às soluções práticas que eu adoto para contornar a falta de um perfil pessoal.

Ter o contato das pessoas fora dali

Hoje em dia acho muito importante ter o contato das pessoas (telefone e email principalmente) justamente para não ficar dependente dessa rede para conversar com as pessoas que você conhece. Se você pensa em deletar sua conta pessoal do Instagram, uma sugestão que eu dou é olhar a sua caixa de entrada, ver as pessoas com quem você conversa normalmente, checar se tem o contato delas fora dali e, se não tiver, pedir o telefone e/ou email dessa pessoa.

Monitorar contas

Utilizo o Aximo Bot para monitorar algumas contas do meu interesse, de órgãos e instituições que, infelizmente, não possuem feed RSS. Ele às vezes dá um bug e você precisa forçar a atualização da feed, é um problema um pouco chato, mas contornável. Num passado não tão distante eu utilizava o Lemeno e achava excelente! Mas, não sei porque motivo, ele parou de atualizar a feed e acabei abandonando, não sei se esse problema já foi resolvido, acho que vale o teste.

Infelizmente, devido ao fato da API do Instagram ser fechada, essas soluções precisam constantemente ser atualizadas e algumas acabam até sendo descontinuadas, como foi o caso do excelente Bibliogram.

Por U$8,32 o RSS App transforma as feeds de qualquer conta no Instagram em uma feed RSS. Infelizmente esse valor, que talvez seja baixo para muita gente, é um pouco pesado para meu orçamento modesto, de alguém que vive de sua bolsa de pesquisa.

Outra coisa possível de se fazer também, é reclamar com as instituições e estabelecimentos, pedindo para que tenham outros canais de comunicação que não o Instagram.

Entretenimento

Sempre considerei o entretenimento oferecido por essas plataformas de videos curtos (Instagram, TikTok, Kwai) de péssima qualidade. Eu sei que esse é um ponto bem espinhoso, já que definir concreta e objetivamente o que seria um entretenimento de qualidade é algo bem complicado, e pode soar bastante classista. Mesmo sendo dificil, vou fazer uma tentativa, possivelmente com problemas.

Eu gosto de comparar a indústria do entretenimento com a alimentícia. Ambas têm um ponto em comum muito nítido: o objetivo final em lucrar e enriquecer seus donos, proprietários e acionistas. Em relação à indústria alimentícia é um pouco mais fácil de você definir concretamente o que é um alimento de qualidade, já que existem parâmetros para isso, como os nutrientes, propriedades, efeitos daquele alimento na saúde, por mais que, assim como na indústria do entretenimento, existam fatores culturais.

Então dizer que um entrenimento é bom porque é popular, porque tem bons números, no meu entendimento é uma falácia, na medida que o consumo é mediado e direcionado por processos que dizem respeito ao lucro de grandes empresas, como a publicidade. Um video do TikTok não é necessariamente bom porque tem bilhões de visualizações, assim como Coca-Cola não é um alimento bom para saúde, por mais que seja consumida por bilhões de pessoas.

Então uma dica para largar do Instagram enquanto vício é consumir outras fontes de arte e entretenimento: filmes, séries, livros, HQs, mangás, peças de teatro, shows, passeios, etc.

Investir tempo em redes sociais não comerciais

Ainda quero fazer um texto mais detalhado sobre o Fediverse, e dar boas dicas de instâncias nele. Mas hoje em dia tenho gostado cada vez mais de interagir com as pessoas por redes sociais não comerciais, sem algoritmo e sem propaganda, tenho conseguido formar “minha galera” e manter contato com essas pessoas.

Não adianta, a nossa subjetividade hoje em dia é muito moldada pelas redes sociais, estou nelas desde 2004, no Orkut... Não acho que é algo que nós vamos nos livrar totalmente e nem sei se precisa.

Eu tenho encontrado nas redes sociais não comerciais um ambiente muito mais agradável e saudável do que na Big Tech, já que não há ali a preocupação de te prender ou vender algo.

Minha rede social principal hoje em dia é o Mastodon, uma rede de microblog, ou seja, pequenos textos. Tenho gostado muito do Lemmy também, que é uma rede de fóruns de discussão.

Se você gosta de redes sociais de fotos, em primeiro lugar eu lamento por você (rs), mas falando sério eu sugiro que conheça o Pixelfed, que é livre, de código aberto e faz parte do Fediverse, sendo possível não só acessá-lo sem login, mas também por outras plataformas como Mastodon e futuramente até a famigerada Threads.

Ter vida social fora da internet

Um ponto que eu percebo que pega para muita gente é a comodidade de ter a vida social totalmente online. Conheço pessoas inclusive que namoram online e praticamente nunca se encontram presencialmente. Não sou psicanalista, portanto não sou a melhor pessoa para avaliar os impactos na saúde mental dessa abordagem. Entendo também que quando a pessoa passa dos 30 anos ela, em geral, vai perdendo o pique de sair, ir em festas, fazer esse tipo de socialização.

Minha dica é fazer parte de coletivos com quem você se identifica. Pode ser ONG, religião, grupo de teatro, partido político, movimento social, clube de leitura, escola de samba, não importa. Mas faça parte de grupos, integre-se, participe ativamente deles. Infelizmente a urbanidade nos tornou pessoas solitárias na multidão, e essa é uma forma de emular levemente uma vida “em vila”. Ter o nosso clã, as pessoas que confiamos, nos identificamos, e vemos presencialmente com alguma regularidade.

Aprender a lidar com o tédio

O (mau) hábito de rolar a feed do Instagram está muito associado com driblar uma vida tediosa, que a urbe nos coloca. Acredito que uma forma de lidar com isso é procurar uma vida menos tediosa, e com atividades interessantes. Mas o ócio, o vazio e o tédio fazem parte da vida também. Então aprenda a lidar com ele, se não conseguir sozinho ou sozinha, peça ajuda de profissionais. É importante lidar com situações entediantes ou ruins sem ficar entupindo seu cérebro de dopamina. Esse é o princípio da maioria dos vícios, inclusive o vício no Instagram.

Acessando conteúdo do Instagram sem logar

Existem diversos clientes interessantes de Instagram, como o Imginn e o Picuki, que permitem visualizar contas sem precisar logar. Eu configuro dois aplicativos para redirecionar links que me enviam do Instagram para o Imginn. No computador utilizo a extensão de navegador LibRedirect e substituo a instância do Bibliogram pelo link do Imginn. E no celular eu utilizo o aplicativo da F-Droid UnTrack Me, e faço a mesma configuração.

Pra Android existem aplicativos clientes de Instagram, como o próprio Picuki e o Barinsta, mas não me adaptei muito bem a eles, mas de repente vale o teste pra ver se serve para você.

Conta institucional

É fato, não ter nenhum Instagram limita demais as possibilidades, infelizmente. Como ele virou um monopólio em termos de redes sociais, não ter acesso a ele faz com que seja muito difícil ou até impossível obter algumas informações que só estão nele. Às vezes é preciso fazer aquele contato profissional que você não consegue o telefone e email da pessoa de jeito nenhum ou comprar algo específico que só é vendido e anunciado por ali.

A solução que eu dei para esses casos, é ter uma conta institucional e não pessoal. No meu caso, é a conta do meu podcast, o Estação Música. Obviamente, não tenho o aplicativo do Instagram no meu celular, assim como evito qualquer aplicativo que vá me distrair e passar muito tempo nele. Mas configurei a DM dessa conta para outros dois aplicativos que utilizo, que são agregadores de mensageiros: Ferdium e Beeper, e funciona muito bem.

Essa conta atualmente (14/01/24) não possui nenhuma postagem, mas em breve quero transformá-la num portifólio do meu podcast para estar ali naquela prateleira. A ideia não é criar conteúdo, produzir stories, nada disso. Apenas criar alguns cards fixos mostrando para a pessoa onde encontrar o podcast e os seus episódios, só isso.

Outra coisa é importante é isolar seu uso em um container no navegador, para que ao usar essa conta ela não compartilhe dados sensíveis com outros sites utilizados no ambiente do navegador. Para isso, eu utilizo o ótimo Multi-Account Containers da Mozilla.

Se você não possui nenhum projeto desse tipo, use a criatividade. De repente utilize a conta de algum projeto que você faz parte ou crie uma conta mais discreta, que não posta nenhum conteúdo. Importante não ter acesso a essa conta pelo celular, justamente para evitar o vício e a perda de tempo, sempre utilizar o navegador do computador ou algum cliente.

Conclusão

Não vou dizer que a vida sem Instagram é confortável. Minha opção por não ter um perfil pessoal na plataforma é política, diz respeito à militância contra a Big Tech. E militância implica em sacrifícios, eu até me sinto comôdo em saber que existem pessoas que morrem por conta de suas militâncias e eu só preciso às vezes fazer uma atualização manual em um bot do Telegram que não está funcionando direito, acho que está tudo bem.

Seria muito bom se os estabelecimentos e instituições sempre tivessem pelo menos um blog, com uma feed RSS, para que a informação circulasse também fora do ambiente da Meta. Inclusive existem plugins que integram o Wordpress ao Instagram, mas essa informação é pouco conhecida e difundida, infelizmente. Isso por culpa do próprio Instagram, que não permite integração com muitas ferramentas, obrigando o usuário que faça as coisas dentro dele ou dentro do ambiente Meta.

Por último, eu digo que me organizo dessa forma, sem o Instagram, principalmente em nome do autocuidade e da saúde mental. Mas eu sou muito pessimista em relação a um horizonte em que as pessoas diminuam ou até deixem de usá-lo. Sempre acho que se as pessoas pararem de usar, será para substituir por algo mais apelativo e ainda pior para a saúde mental, como um TikTok, por exemplo. Fiquei animado ao assistir uma reportagem sobre uma juventude low profile (discreta), que se orgulhava por usar muito pouco as redes. Fui pesquisar sobre o assunto e fui bombardeado de textos de como ser low profile dentro do Instagram. A falta de imaginação chegou a um nível que é necessário estar no Instagram até para ser low profile, complicado...

Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima!

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Mastodon

A experiência de existir sem Instagram, Facebook, TikTok e Twitter

Faz muito tempo que gostaria de descrever essa vivência, mas achei que o intervalo de um ano seria o mais ideal e simbólico para materializar em palavras uma experiência que parece distante para muitas pessoas, talvez para a maioria. Importante ressaltar que não estou cagando regra, me colocando em superioridade moral ou coisa parecida, meu objetivo aqui é apenas descrever uma experiência, com seus prazeres e dores.

Saturação

O ano de 2022 foi difícil para mim. Por conta do isolamento social imposto pela pandemia de corona vírus, optei por deixar de morar em São Paulo, e voltar a residir, no interior do estado, onde passei a morar com meu irmão, na casa de herança de nossa mãe. As atividades presenciais estavam retornando aos poucos, mas eu não tinha o menor desejo de voltar a morar na capital, com seu custo de vida alto, financeiro e mental. A saída foi investir pesado no trabalho online. Tinha acabado de terminar o mestrado, o qual cursei inteiro sem bolsa, e não tinha pretensão naquele momento de já emendar num doutorado, precisava de um tempo para respirar e amadurecer as ideias. Vivia quebrando a cabeça de noite e de dia como ganharia dinheiro naquele contexto sendo músico e professor de música. Aos poucos, meus alunos iam abandonando as aulas online, e migrando de volta para cursos presenciais e a maioria dos grupos com quem eu trabalhava como músico já não me chamavam mais, por não estar mais na capital. Vivia basicamente do dinheiro de alguns poucos alunos com quem desenvolvi fortes laços afetivos, e que mantiveram as aulas online comigo, mesmo nesse contexto de volta às atividades presenciais. Mas era um dinheiro muito curto, fui me endividando cada vez mais.

Nessa altura do campeonato, eu era muito resistente à ideia de ter um Instagram. Comecei minha jornada nas redes sociais pelo Orkut, e sempre gostei e usei bastante redes sociais de texto, como o Facebook e Twitter. Redes sociais de imanges nunca me atraíram, passei direto pelo Snapchat, cheguei a criar uma conta para mim no Instagram, mas deletei porque simplesmente não a usava. Mas naquela situação profissional delicada, vivendo exclusivamente como profissional autônomo, acabei comprando um curso de produção de conteúdo, de um influenciador do campo político da esquerda. Sempre tive um pouco de preguiça dessa história de produção de conteúdo, mas a necessidade, e a oportunidade de aprender com alguém de viés político mais próximo ao meu fez com que eu acabasse me jogando na produção de conteúdo. Fiz conta no Instagram, no TikTok, dei uma repaginada no Facebook e no Twitter. Passei a produzir conteúdo praticamente diário, para divulgar meu trabalho como professor de música.

Os problemas nesse processo são vários. Um deles, é que notei um aumento na ansiedade. Eu consigo compreender porque influenciadores e youtubers relatam em algum momento problemas de depressão e ansiedade. Lidar diariamente com números e estatísticas de engajamento, pelo menos para mim, era um poço infinito de ansiedade, tenho certeza que se eu continuasse nesse caminho teria uma crise em algum momento. Pessoas lidam com isso de forma diferente, mas sei lá... minhas finanças dependiam desse plano ser bem sucedido, acho difícil não ter ansiedade em tal contexto, embora eu também sei que existem pessoas que lidam de maneira mais leve do que eu com a própria situação financeira. E, acreditem vocês nessa parte ou não, sou filho de santo iniciado em Obatalá, um orixá que representa a paz, a tranquilidade, o trabalho lento, de longo prazo. Toda essa ansiedade me fazia sentir mais distante do meu orixá de cabeça, não me sentia digno de representá-lo na terra, se não conseguisse acalmar meu coração e minha mente.

Outro problema é que nessa de procurar o que o público gostava, o que dava certo, o que gerava engajamento, eu começava a me perder de quem eu era. Olhar as estatísicas de retenção de atenção em um video de Youtube é uma experiência muito frustrante. O começo da produção de conteúdo é bem estimulante, principalmente para alguém com uma forte pulsão criativa, como é o meu caso. Mas com o tempo, a coisa não tem mais a ver com criação, com criatividade, e sim se manter na prateleira chamando a atenção das pessoas, concorrendo por essa atenção com Beyoncé, Bolsonaro e Luva de Pedreiro, loucura! Além disso, eu gostava tanto de usar Linux e aplicativos e softwares livres e de código aberto, estava passando tempo distante desse mundo que eu tanto amo, não pesquisava sobre o assunto como antes, tinha saudades até dos problemas que eu encontrei no Linux quando era um usuário muito novato e de como eu sempre conseguia resolvê-los com ajuda dos fóruns e da comunidade de usuários.

E, por último, mesmo com a minha dedicação na criação de conteúdo, não sentia que tinha um retorno financeiro à altura da minha dedicação e trabalho naquelas plataformas. Criei um plano de ensino de teoria musical por assinatura, e a adesão foi baixíssima. E a esmagadora maioria dos alunos se matriculou no curso depois de eu enviar divulgação em grupos privados (Whatsapp, Telegram e Matrix) e não pela propaganda no Instagram, TikTok e cia.

Quebra

Esse fluxo automático foi interrompido por alguns fatores. Um deles foi o fato de ter passado no doutorado. Inclusive o tempo que eu me dediquei a passar no processo seletivo do doutorado, elaborando projeto, lendo, era o único momento onde eu sentia que estava fazendo algo que eu gostava de verdade, algo para mim, que teria frutos no médio e longo prazo. Dessa vez eu tinha boas perspectivas de conseguir uma bolsa, um governo progressista venceu as eleições de 2022 e já nos primeiros dias anunciou aumento para os bolsistas. Além disso, eu tinha fé na minha comunidade espiritual, de que seria capaz de conseguir tudo que sonhava com o apoio dela.

Outra questão bem importante, ao contrário do estereótipo do militante de esquerda, eu gosto muito de ler livros sobre organização e produtividade. Já li vários: Bullet Journal (Ryder Carrol), O Poder do Hábito (Charles Duhigg), entre outros. Graças à indicação do ótimo podcast Tecnocracia (Guilherme Felitti), eu descobri o livro Deep Work de Cal Newport. Eu não gosto da maneira como traduziram o título desse livro para o português, para Trabalho focado, embora consiga compreender o apelo desse título no público brasileiro que consome esse tipo de literatura. Enfim, esse livro me ajudou muito a repensar várias coisas na minha vida, e me trouxe a ideia de que o trabalho profundo não só é mais produtivo, mas como uma vida vivida em profundidade é melhor. E o autor ensina como se livrar das distrações superficiais, que te tiram o tempo todo desse contato com uma dimensão mais profunda do trabalho e da vida.

Por último, mas não menos importante, eu tive um reencantamento pelo mundo do código aberto e do software livre. Encontrei um amigo em Belo Horizonte, quando fui assistir ao show do Milton Nascimento, e a empolgação dele com o mundo Linux e FOSS incendiaram novamente a minha paixão pela ideia de democracia digital.

Ventos da mudança

Com a aquisição do Twitter pelo Elon Musk acabei aderindo ao movimento coletivo de deletar a conta lá e migrar para outra plataforma. Tinha gente migrando para o Koo, BlueSky, entre outras plataformas. Mas a minha proximidade com a comunidade do software livre me fazia olhar com bons olhos para o Mastodon. Inclusive eu já tinha tentado a plataforma anteriormente, mas a falta de uma comunidade ativa em língua portuguesa na época me fizeram abandonar a plataforma. Porém, agora com essa grande diáspora do Twitter, pude conhecer uma galera brasileira e lusófona bem ativa e engajada no Mastodon. Essa experiência com o Mastodon me levou a conhecer o Fediverse e me encantar com ele. Isso tudo me levava a um dilema, se apaguei o Twitter, que era a rede social que eu mais gostava de usar, me via obrigado a ceifar também as redes que eu odiava, que era obrigado a manter só para divulgar meu trabalho autônomo, e mesmo assim sem sucesso. Sem muito planejamento, sem muita preparação ou aviso, simplesmente deletei Facebook, Instagram e TikTok, em janeiro de 2023, não me recordo precisamente o(s) dia(s).

Janeiro é um mês parado profissionalmente para mim. Alunos estão de férias, normalmente viajando. Tenho poucos trabalhos nessa época, não sou um músico que toca muito em Carnaval (músicos de percussão e sopros tocam mais nessa época, emprego para pianista e sanfoneiro não tem muito), portanto não dedico esse mês para o ensaio do mesmo. Então faz tempo que faço do meu janeiro um laboratório do que eu quero para o meu ano inteiro. Eu sabia que o ideal era esperar conseguir uma bolsa de doutorado primeiro, para depois sair das redes sociais comerciais, já que talvez precisasse ainda divulgar meu trabalho autônomo por lá. Mas, por outro lado, a experiência prática me mostrou que a divulgação em grupos privados era mais eficiente para mim que a criação de conteúdo. Além disso, não podia desperdiçar o meu mês laboratório de janeiro para fazer ajustes, se fizesse esse tipo de mudança drástica no decorrer do ano me sentiria alguém consertando o carro andando.

A perspectiva era boa, doutorado, voltaria a frequentar São Paulo ao menos uma vez por semana para assistir as aulas na faculdade. Dava para organizar algumas aulas presenciais em São Paulo, alguns trabalhos como músico, as coisas iam se ajeitando novamente e ainda havia a perspectiva da bolsa de doutorado, que acabou vindo! Fiquei, orgulhosamente, em primeiro lugar no processo seletivo interno do meu programa de pós graduação. Tenho certeza que o fato de eu ter trabalhado de maneira dedicada sem as distrações das redes sociais ajudaram a alcançar tal feito. Esse primeiro lugar foi muito importante para minha auto-estima, que andava abalada e por premiar como correto o caminho e a estratégia que empreguei, já que tive muitas incertezas e medos ao longo do processo.

Como fiquei em primeiro lugar no processo seletivo, passei a receber a bolsa rapidamente, ainda no primeiro semestre do doutorado. Já tinha planejado que, com a bolsa, daria um tempo na minha vida de trabalhador autônomo. Pararia com as aulas particulares, que me tomava tempo, concentração e energia mental, e faria como músico instrumentistas apenas trabalhos que faziam sentido para mim. Também pude me concentrar melhor na elaboração de projetos visando leis públicas de incentivo, e foi dessa forma que lancei meu primeiro livro. Além disso, o fato de eu não precisar vender nem convencer ninguém a nada trouxe uma leveza para a minha vida que eu não consigo nem descrever. A vida não poderia estar melhor. Mas voltemos às redes sociais...

Twitter x Mastodon

Como eu disse antes, gostava muito do Twitter. Era uma rede onde eu me mantinha razoavelmente informado, principalmente sobre a política. E era onde eu tinha uma esperança de conseguir alguma visibilidade ao longos dos anos. Passei três anos me dedicando a essa rede, postando nela esperando algum engajamento, para a maioria dos tweets ficar abandonada aos sons de grilos. Cheguei a “hitar” algumas vezes, mas isso nunca fez com que eu ganhasse sequer um único seguidor. Me sentia falando com ninguém ali, e só tinha interação quando comentava no tweet dos outros. Nesses três anos acumulei um pouco mais de 500 seguidores, ridículo em relação aos 3000 que eu tinha no Instagram, uma rede social que eu odiava e que tive por menos de um ano.

A primeira grande diferença que senti no Mastodon é a quantidade e qualidade das interações. Raramente fiquei aos sons de grilos lá, mesmo o post (lá eles se chamam toot) com a piada mais tiozão do pavê acabava ganhando pelo menos um mísero like. E a comunidade do Mastodon é muito menor que a do Twitter, então tenho aquela sensação boa de vida em comunidade, de que conheço ou pelo menos vi a cara de todo mundo ali em algum momento. Foi uma experiência parecida com a de mudar da capital para o interior.

Desde então, o Mastodon passou a ser minha rede social principal. Passei a olhar com carinho também para outras plataformas dentro do Fediverse. Subi alguns videos no PeerTube, mas não dá pra dizer que é uma plataforma que eu consumo atualmente. Fiz um Pixelfed, mas acabei abandonando igual ao meu primeiro Instagram, já que esse tipo de rede não tem apelo pra mim. Uso também o Funkwhale, mas parecido com o PeerTube, mais alimento de conteúdo do que consumo. E, no momento, estou bem animado com o Lemmy, tenho gostado e usado bastante. Foi outra rede que cresceu depois da diáspora do Reddit, numa história bem parecida com a do Twitter com Mastodon, e acabou ganhando uma comunidade brasileira bem ativa. E gosto bastante também do Writefreely, onde você está lendo este texto no exato momento.

Instagram

Como eu disse antes, rede social de imagem nunca teve apelo comigo. Nem mesmo no meu auge da produção de conteúdo eu não consumia a timeline do Instagram e muito menos a do TikTok. Eu tinha até uma brincadeira de que eu era um traficante e não um usuário de drogas. Nem mesmo o TikTok com seu poderoso algoritmo me ganhou. Eu acho que em algum momento eu tive muita clareza de que essas redes não eram mais sociais e sim redes de entretenimento. E um entretenimento de gosto bem duvidoso... Sei lá, ao invés de ver um video tosco feito por um amigo, eu acho que eu prefiro ver um filme do Tarantino ou do Spike Lee (nada contra quem prefere o video tosco). Não julgo o escapismo de ninguém, eu também tenho o meu, mas procuro preenchê-lo com entretenimento pelo menos bem produzido. Enfim... gosto...

Outra coisa interessante que aprendi nesse processo é que o Instagram, dessas redes comerciais que eu citei é a única relevante de verdade para a maioria das pessoas. Quando digo que não tenho Twitter, ninguém liga, porque o brasileiro não tem Twitter. A última vez que vi uma notícia sobre isso dizia que até o Pinterest tem mais usuários ativos no Brasil que o Twitter. Ele ganha esse status de importância por conta do número de jornalistas e políticos que estão lá, dão à plataforma essa sensação de credibilidade, mas um país com grande índice de analfabetismo digital não dá muita bola para uma rede social baseada em textos.

TikTok, apesar de ser uma rede de muito sucesso, eu tenho impressão que ninguém questiona quando digo que não tenho. Apesar de ser uma rede com públicos de todas as idades, inclusive sucesso entre pessoas idosas, é inegável que ficou marcada na plataforma chinesa uma imagem de rede social dos jovens. Então quando alguém nascido em 1985 diz que não tem TikTok isso não causa muita surpresa nas pessoas.

Facebook é uma rede ainda muito relevante no Brasil, principalmente no Brasil profundo, conforme pudemos acompanhar no podcast Rádio Escafandro, na série O pastor. Porém, também é relativamente comum, mesmo entre pessoas ditas normais gente que cansou do chernobyl ali do Facebook, principalmente no pós-eleições e saiu da plataforma, ou abandonou o perfil, ou olha lá muito de vez em quando. Então dizer que não tem Facebook também não causa surpresa em ninguém.

Já o Instagram... Dizer que não tem Instagram é quase dizer que não tem RG. Tanto que atualmente nem digo mais para as pessoas que não tenho redes sociais comerciais, prefiro ir direto ao ponto e dizer que não tenho Instagram. As reações, basicamente, são:

  1. A pessoa demonstra admiração e curiosidade, mas ao longo da conversa vai tentando me convencer a voltar a usar a plataforma. A pessoa gosta do meu ponto, mas me diz que não preciso ser tão radical, que dá pra fazer um uso mais saudável da rede, etc. Eu percebo que esse é o menor grupo;

  2. A pessoa demonstra admiração, e meio que se justifica, diz que não gosta muito das redes, que se pudesse também deletaria, mas que precisa por motivo x ou y, normalmente trabalho, família e/ou amigos. Eu percebo que esse grupo é relativamente grande, rivaliza com o próximo;

  3. A pessoa não faz muito rodeio, diz que é um erro, que todo mundo precisa ter o Instagram hoje em dia, que consegue bons resultados por ali, e aquele papo todo que vocês já conhecem. Quando isso acontece eu fico até apreensivo de que essa pessoa vai se tornar o Agente Smith e começar a me perseguir atirando pela Matrix. Esse grupo é tão grande quanto o anterior.

O que eu costumo responder para as pessoas é que pesando os prós e contras, aquilo que as redes nos proporcionam e aquilo que elas tiram de nós, eu não acho que compense estar ali.

Conclusão

Hoje em dia tenho plena certeza de que as redes sociais comerciais, que eu tenho preferido chamar de redes de entretenimento servem justamente para isso, nos entreter. O quanto deixamos de olhar para nós mesmos, o quanto deixamos de sentir tédio, para ficarmos nos alimentando de dopamina como zumbis viciados. Outro livro bem importante nesse processo foi Nação dopamina (Anna Lembke), recomendo que vocês leiam. Essa exposição constante a esse entretenimento fácil tem prejudicado nossa capacidade de atenção, concentração, disciplina, além da capacidade de enfrentar situações desagradáveis e que nos contrariam. É o Narciso achando feio o que não é espelho... Quando vimos algo que não gostamos, silenciamos, bloqueamos... isso antigamente, já que o algoritmo nem tem deixado mais a gente em contato com o contraditório, a não ser quando a gente precise engajar algum conteúdo pelo ódio, ou seja, somos marionetes nas mãos da Big Tech, políticos de esquerda e direita são marionetes também nas mãos deles.

A minha vida sem redes da Big Tech é mais saudável. Tenho rotina, tenho bons hábitos, me alimento melhor, sou mais disciplinado, menos ansioso, lido relativamente bem com o tédio e com processos mais lentos e demorados. Até comecei agora a fazer academia. Em geral, consigo me propor ao que planejo, afinal todo o tempo livre que essas redes consumiriam eu acabo utilizando para fazer coisas saudáveis, sejam produtivas (como marcar uma reunião, escrever um relatório, revisar um artigo, etc) ou coisas para o meu bem estar, como ler um livro, ver um filme, passear com cachorro. O fato de não ter as redes, meio que me obriga também a fortalecer o contato com pessoas reais. Faço parte de dois grupos da minha cidade, um religioso e um de teatro. Acabei me engajando nesses grupos e as pessoas que fazem parte deles atualmente são meus grandes amigos, são irmãos para mim.

Eu tenho a impressão de que eu só voltaria a ter as redes de entretenimento se fosse uma necessidade muito específica. Por exemplo, reativei uma conta no Instagram do meu podcast Estação Música, que uso quando preciso mandar uma mensagem para alguém que eu não tenho o telefone. Uso só pelo computador e não tenho o Instagram instalado no meu celular. Achei que usaria mais, mas usei apenas uma vez, quando queria comprar um tambor específico com alguém que só vende por lá. Mas voltar a criar ou consumir conteúdo, eu acho muito difícil... Não vou dizer impossível, nunca diga nunca, mas não vejo qualquer possibilidade no horizonte atual.

Ainda quero escrever um texto sobre divulgação artística e musical, muito provavelmente no Zumbido de Bamba, blogue no qual sou colaborador. Se você precisa usar as redes sociais para divulgar seu trabalho eu não te julgo, já que eu não tenho costume de julgar a vítima. Nosso inimigo é a Big Tech, é a Google, a Meta, eles são nossos colonizadores e capturaram coisas preciosas como a nossa atenção, o nosso tempo livre e nos deram o Instagram, ou seja, espelhinhos em troca do nosso ouro e do nosso pau-brasil.

Eu também estou num momento profissional muito específico, já construi minha rede de contatos, e através dela sempre tenho trabalhos. Além disso, a bolsa de doutorado segura minhas finanças, conforme expliquei lá atrás. Eu também acabei percebendo que a divulgação é um trabalho e deve ser feito por profissionais competentes, especializados e remunerados. No meu atual estágio eu tenho preferido aumentar a minha rede de contato com jornalistas que vão repercutir o meu trabalho do que investir esse tempo em redes sociais. Quando se digita “Esmeraldino Salles” em qualquer buscador, pelo menos atualmente, a primeira página estará repleta de trabalhos meus, e não consegui isso através de redes sociais, e sim investindo tempo na minha própria pesquisa de mestrado, postando em blogues, escrevendo verbetes para a wikipedia e, por último mas não menos importante, dando entrevistas para jornalistas. E, para a minha surpresa, a maioria dos jornalistas adora quando levamos pauta para eles.

Sei que meu caso é específico e muito provavelmente a minha experiência não se encaixa na sua vida. Mas encare este texto como um convite. Se você também não tem redes sociais comerciais este texto pode servir como identificação e reforço de suas convicções pessoais, o que é ótimo. Mas se você possui as redes sociais e é ativo nelas, eu te convido a refletir um pouco sobre essa relação. Quanto tempo passa nelas? Consegue ficar quanto tempo sem olhá-las? Consegue ficar entediado ou passar por uma situação desconfortável sem dar uma olhada nelas? Ainda consegue manter uma leitura de mais fôlego? E ver um filme mais longo sem pegar no celular ou dar muitos intervalos? Consegue sequer assistir um jogo de futebol ou do seu esporte favorito sem o celular na mão? Considera que sua concentração continua igual a antes dessas redes? E sua disciplina e capacidade de realizar as coisas, como está? A partir dessa reflexão, faça aquilo que você julgar melhor para você e para as pessoas ao seu redor.

Além do nosso tempo, nossos dados, nossa concentração e nossa saúde mental, as redes sugam nossa pulsão criativa. Imagina o que estaríamos produzindo sem ela, livros, filmes, fotografias, novas invenções, ideias, conceitos. Se a gente não tivesse essa sensação de que estamos participando da política através dela talvez nos engajaríamos mais em movimentos, partidos e projetos sociais.

Não estar nas redes de entretenimento é um pequeno gesto de rebeldia e desobediência civil, dentro desse feudo que se tornou a internet plataformizada. Estar fora e mostrando para as pessoas que dá para viver sem elas, para mim é um compromisso ético e civilizatório.

Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima!

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Mastodon

Escrevi em maio o artigo https://blog.ayom.media/felipe-siles/uma-semana-des-google-ado e o presente texto tem como objetivo compartilhar a experiência depois de meses em curso, olhando para o que funcionou, o que não funcionou tão bem, as concessões que precisei fazer (e porque) e novas descobertas.

Boas descobertas

Uma descoberta importante foi: não adianta apenas deixar de usar aplicativos e serviços da Google, se os rastreadores deles estão o tempo todo te vigiando e colhendo seus dados, até em aplicativos que não são deles. A maneira mais radical de combater esse problema seria instalar uma custom ROM, como a Lineage OS, /e/ e afins. O problema é que alguns aplicativos (Correios, e alguns bancos) param de funcionar se o celular não possui Google Services ou tem ele bloqueado. Fora que eu vi em alguns reviews que alguns recursos podem não funcionar muito bem, como a ligação de Whatsapp, que eu acabo utilizando muito, principalmente no que diz respeito a amigos e familiares que ligam para mim dessa forma. A solução meio termo é o uso do aplicativo Tracker Control, que pode ser instalado via F-Droid, e que bloqueia o acesso à internet desses rastreadores. Excelente!!!

No texto anterior eu comentei que desativei os aplicativos Google, mas encontrei um tutorial muito bom do Diolinux para retirar do Android não somente os apps da big tech, mas também todos os bloatwares, que são aqueles aplicativos instalados de fábrica que a princípio não podem ser desinstalados. Fiz o processo, foi bem simples, e não necessita fazer root no celular, apenas ativar modo desenvolvedor, depuração USB e instalar dois programas no computador, relativamente simples:

https://diolinux.com.br/video/remover-qualquer-aplicativo-do-android.html

Outro detalhe importante é: sempre que preciso acessar um serviço Google no navegador do computador, faço num container separado (utilizando a extensão do Firefox Multi-Account Container), para evitar que a Google rastreie minha atividade no navegador em outros sites.

O que funcionou

Realmente consegui me desapegar de vários aplicativos e serviços da Google. Muita coisa eu já usava antes e continuei usando (como a busca no DuckDuckGo, o aplicativo Firefox ao invés do Chrome e assim por diante). Alguns eu passei a usar por conta desse processo e acabei me habituando a eles. O NewPipe, por exemplo, funcionou muito bem na minha TV Box da Xiaomi, e para o iPad, que não possui essa possibilidade, o Individious acabou sendo uma boa solução para ver Youtube sem propagandas.

O que não funcionou e precisei fazer concessões

Falando de aplicativos, o Google Maps é o aplicativo que mais me fez falta. Por mais que o Organic Maps e outros clientes do Open Street Maps sejam excelentes, a base colaborativa deles não consegue mostrar e manter atualizados os endereços de lojas, comércios e outros locais importantes, principalmente nas cidades pequenas, como é o caso de onde moro.

Outra coisa que não funcionou bem, conforme dito antes, é o fato de alguns aplicativos não funcionarem sem o Google Services. Os que me fizeram mais falta foram o dos Correios, do Banco Itaú e do Mercado Pago. Fora que depois de um tempo com os serviços Google desabilitados meu celular começou a dar uns bugs estranhos de sistema operacional (não sei se as coisas estão necessariamente relacionadas) e acabei precisando formatá-lo.

Conclusão

A solução que acabei encontrando é deixar os serviços da Google instalados, e logados numa conta minha de ex-aluno da USP, a Alumni, que também é uma conta Google e que eu praticamente não uso pra nada. Vários dos aplicativos que usei para substituir os serviços da Google eu continuei usando. Deixei instalados no celular apenas:

  • Gmail: além de poder ver os emails, ele tem o Google Meet embutido, o que pode ser útil pra quando alguém marca reunião por essa ferramenta;
  • Google Drive: acabo usando bastante porque tenho nuvens ilimitadas logando com as minhas contas universitárias;
  • Google Maps: conforme foi dito anteriormente.

Fora isso, mais nenhum outro serviço da Google, inclusive foi prazeroso desinstalar o buscador deles com o Universal Android Debloater. Todos os outros aplicativos da Google foram desinstalados com essa ferramenta. Com o Google Services ativo, eu consigo voltar a usar aplicativos que são importantes para o meu dia-a-dia, como o dos Correios e os bancos. E o Tracker Control ajuda a minimizar um pouco a coleta de dados da Google sobre meu celular.

Enfim... não foi a solução perfeita ou ideal, mas foi o possível para mim, dentro das minhas possibilidades. Quem sabe mais para o futuro eu consiga passar por cima dessas concessões e avançar um pouco mais no sentido de uma vida sem Google. Mas uma coisa que aprendi na vida e principalmente na cultura iorubá é de aprender a fazer concessões. O mundo infelizmente não funciona da forma como gostaríamos, e as soluções verdadeiras para nossos problemas são coletivas e não individuais. Atitudes individuais não são totalmente inúteis, mas nessa perspectiva eu penso que estão mais suscetíveis a pequenas concessões do que as coletivas.

Lembrando que esse não é um texto para cagar regra, apenas o compartilhamento de uma experiência, pegue para você apenas aquilo que considerar útil. E espero de coração que a Google não continue nos sufocando e cercando a ponto de eu precisar fazer mais concessões ainda futuramente, tomara que não.

Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima!

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Mastodon

Seguem as extensões que atualmente uso no navegador da raposinha querida. Posso ir atualizando futuramente, caso passe a utilizar novas extensões.

*Absolute Enable Right Click & Copy: habilita o clique direito no mouse, até mesmo em sites onde esse recurso é bloqueado;

ClearURLs: remove rastreadores das URLs;

Cookie AutoDelete: maior controle de limpeza de cookies;

Decentraleyes: também protege de rastreadores;

Download All Images: salva todas as imagens de uma página, mesmo quando elas estão protegidas contra download;

DuckDuckGo Privacy Essencials: mais ferramentas de privacidade;

Feedbro: agregador de RSS;

Firefox Multi-Account Containers: considero essa extensão uma das mais maravilhosas. Ele isola sites que você determina, como se estivesse navegando neles num navegador separado. Dá pra criar grupos de sites, como por exemplo: compras, trabalho, estudo, etc. Ótimo para evitar rastreamentos da big tech nos outros sites que você mexe;

Ghostery: mais uma extensão focada na privacidade;

HTTPS Everywhere: mais uma extensão focada na segurança e privacidade;

KeePassXC-Browser: uso para sincronizar com meu banco de senhas;

Mind the Time: monitora o tempo que você passa no navegador e em cada site, ótimo para quem quer diminuir ou pelo menos ter mais controle sobre o tempo de tela;

Omnivore: salva links e pode ser sincronizado com aplicativo de mesmo nome nos dispositivos móveis;

Privacy Badger: mais privacidade;

TWP – Translate Web Pages: tradutor de páginas e sites da internet;

uBlock Origin: bloqueador de propaganda;

Weather: previsão do tempo;

Zotero Connector: sincroniza com o Zotero, software que uso para gerenciamento de fontes bibliográficas.

Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima!

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Mastodon

Aplicativos, softwares e extensões

  • Thunderbird (Windows, MacOS, Linux);
  • Feedbro (extensão do Firefox);
  • Read You (Android);
  • Feeder (Android).

Observação: copie e cole os links no seu agregador de RSS preferido.

Notícias

https://apublica.org/feed/ https://www.cartacapital.com.br/feed https://noticiasanarquistas.noblogs.org/feed/ https://www.nexojornal.com.br/rss.xml https://jornalggn.com.br/feed/ https://almapreta.com/feed https://nosmulheresdaperiferia.com.br/feed https://terrasindigenas.org.br/pt-br/noticias/tudo/TI/25/1/xml https://jacobin.com.br/feed https://fiquemsabendo.com.br/feed

Academia e ciência

https://jornal.usp.br/feed/ https://www.gov.br/capes/pt-br/assuntos/noticias/RSS https://www.revistas.usp.br/wp/feed https://memoria.cnpq.br/web/guest/noticias/-/asset_publisher/6QsO/rss?p_p_cacheability=cacheLevelPage

Esportes

https://www.meutimao.com.br/rss/ https://www.ultimadivisao.com.br/feed/ https://planetafutebolfeminino.com.br/feed https://www.ogol.com.br/rss/noticias.php https://www.chess.com/pt-BR/rss/news

Tecnologia

https://plus.diolinux.com.br/c/noticias-tecnologia/20.rss http://feeds2.feedburner.com/canaltechbr https://feeds.feedburner.com/Diolinux https://www.castnews.com.br/feed/ https://manualdousuario.net/feed/

Cultura, Cinema e Música

http://feeds.feedburner.com/tmdqafeed http://portalcinema.blogspot.com/feeds/posts/default https://studioghibli.com.br/feed https://www.publishnews.com.br/rss.xml https://culturaemercado.com.br/feed

Árvores de feeds

https://www1.folha.uol.com.br/feed/ https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2012/11/siga-o-g1-por-rss.html

A ideia é ir atualizando essa lista, portanto se você tiver sugestões de feeds me manda no Mastodon ou para o email felipesiles@disroot.org

Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima!

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Mastodon

A F-Droid é um catálogo de aplicativos livres e de código aberto para a plataforma Android. Funciona mais ou menos como a Play Store, só que apenas com aplicativos livres. Isso significa que esses aplicativos não vão ficar te mostrando propaganda e muito menos te espionar ou coletar seus dados de forma suspeita. Por ser uma plataforma livre, sustentada e alimentada por voluntários e entusiastas, a F-Droid não é perfeita, pode apresentar algumas falhas de vez em quando e o catálogo é muito mais limitado que na PlayStore. Então, para ajudar quem está começando no mundo do software livre, eu separei alguns aplicativos da F-Droid que eu utilizo no meu cotidiano.

AdAway: bloqueador de anúncios bem prático e não precisa fazer root no celular, funciona por VPN;

AntennaPod: meu agregador de podcast preferido, utilizo há anos já! Muito customizável, ainda quero escrever um texto mostrando como eu o configuro para não perder nenhum episódio dos podcasts que sigo, mas ao mesmo tempo não ficar ansioso com os contadores de episódios;

Aurora Store: cliente da PlayStore, ideal para quem quer desgooglar seu celular, sem abrir mão de alguns aplicativos principais;

Bodhi Timer: temporizador para meditação, com visual minimalista, elegante e sons agradáveis;

BookWyrm: alternativa ao Goodreads e Skoob, porém federado ao Mastodon e cia;

DAVx5: sincroniza agenda, contatos, tarefas, muito bom para quem quer ficar livre dos serviços Google;

Element: cliente de Matrix, mensageiro que tem como recurso interessante fazer pontes com outros serviços;

Jerboa: cliente de Lemmy, uma alternativa federada ao Reddit;

Joplin: utilizo há muitos anos para anotações, alternativa ao Evernote e Google Keep;

K-9 Mail: cliente de emails, semelhante ao Thunderbird;

LibreSpeed: para verificar a velocidade da internet, alternativa livre ao Fast da Netflix;

Loop: aplicativo que ajuda a acompanhar e monitorar hábitos. Dá pra programar notificações para beber água, ler um livro, ou qualquer hábito que você queira implementar no seu cotidiano;

NewPipe: cliente simplesmente perfeito para Youtube, Soundcloud, Bandcamp e PeerTube. Dá para assistir os videos sem propaganda, assinar canais, criar grupos/categorias de canais e até baixar vídeo e/ou áudio. Um cliente de Youtube melhor que o aplicativo original;

Nextcloud, Notes e Talk: serviço de nuvem com várias funcionalidades marotas. Para quem quer conhecer e começar a usar, dá pra instalar o Nextcloud num servidor caseiro, ou então usar algum servidor de terceiros, como o Disroot, por exemplo;

Organic Maps: alternativa ao Google Maps;

ProtonMail: serviço de e-mail seguro e criptografado;

Read You: leitor de RSS com design muito elegante e minimalista. Ainda quero escrever um texto futuramente só sobre RSS;

Semitone: bem útil para musicistas de plantão, é afinador, metrônomo e piano virutal;

Stingle Photos: outra boa alternativa para quem quer desmamar da Google. Sincroniza fotos, mais ou menos como o Google Photos;

Tasks: aplicativo de tarefas, sincronizável com o DAVx5;

Tracker Control: aplicativo que bloqueia o acesso à internet dos muitos rastreadores presentes nos aplicativos e sistema operacional;

Trail Sense: aplicativo com diversos recursos de navegação, ideal para quem gosta de trilhas, acampamentos e afins. Tem bússola, lanterna, apito, recursos de astronomia e mais um monte de bugigangas;

Transistor: agregador de radios online;

Tusky: cliente Mastodon melhor que o aplicativo original. Minimalista e bem customizável, excelente para quem migrou do Twitter, já que possui design parecido;

Tutanota: mais um serviço de e-mail seguro e criptografado;

VLC: player multimídia, toca música e videos;

Yet Another Call: bloqueia ligações indesejadas, baseado numa base de dados pública.

Conclusão

Espero que você tenha gostado desse texto, que algum desses aplicativos seja útil para você, ou que pelo menos o texto te instigue a procurar seus preferidos. A F-Droid é organizada em categorias, e é bem legal explorá-las, para descobrir novos apps. Volta e meia faço isso, e assim que eu descobri vários aplicativos dessa lista. Se eu descobrir novos aplicativos, vou atualizando. Outra forma interessante de descobrir aplicativos é usar sites como o “alternative to” e colocar a F-Droid no filtro para descobrir uma alternativa a outros aplicativos.

Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima!

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Mastodon

Introdução

Como dizia minha professora de piano, Silvia Goes, precisamos ter a ousadia de ser cobaias de nós mesmos. E diante do meu ódio visceral contra a Google, por ter feito a contra-propaganda da PL das Fake News, quis provar pra mim mesmo que é possível viver sem utilizar os aplicativos, ferramentas e softwares da Google. Ressalva importante: eu sei que, em alguns casos, alguns aplicativos que vou citar utilizam dados da Google ou são clientes ou front-ends para acessar conteúdo deles. Mas diante da presença que a big tech ocupou no nosso cotidiano, em alguns casos eu acho a política de redução de danos bem válida. E se o YouTube é um negócio que lucra com a publicidade, assisti-lo sem as propagandas não deixa de ter seu nível de subversão. Discussões mais abstratas a parte, vamos para as dicas concretas. Na primeira parte vou trazer os aplicativos, sites, softwares e ferramentas alternativos a serviços da Google. E na segunda parte vou detalhar como configurei cada dispositivo para rodar Google o mínimo possível. No final eu detalho como pretendo fortalecer o Fediverse, migrando meu conteúdo da big tech para plataformas livres. Importante ressaltar que não sou profissional da área de tecnologia e informática, sou apenas um entusiasta do Linux e dos softwares livres. Outro detalhe importante é que estou fazendo um relato pessoal, do que funcionou para mim. As eventuais adaptações podem variar de pessoa pra pessoa, do uso, dos hábitos e principalmente do trabalho e estudo, onde muitas vezes não temos tanta margem pra decidir algumas coisas.

Espero que seja útil!

Alternativas aos aplicativos e serviços

Para escolher as ferramentas, eu utilizei os seguintes critérios, em ordem de prioridade:

  1. Código aberto e software livre
  2. Código aberto e freemium
  3. Proprietário e freemium

O site que utilizei para essa pesquisa foi o alternativeto.net, onde inclusive é possível utilizar esses filtros para facilitar a pesquisa. Cheguei no seguinte resultado:

Gmail (serviço): Disroot, Tutanota, Protonmail Gmail (aplicativo): Thunderbird, K9 Mail Google Drive (armazenamento): Nextcloud/Disroot, Proton Drive Google Drive (suíte office): Cryptopad/Disroot, Pad/Riseup.net, Only Office Google Maps: Open Street Maps (cliente Android: Osmand) YouTube (clientes e front-ends): Individious (instância tube.bolha.one) e New Pipe (Android) YouTube (alternativas): Peertube, Odysee Bem estar digital: Stay Free Google Chrome: Firefox, Vivaldi Google Keep: Joplin, Obsidian, Notion Google Photos (sincronizar): Stingle Photos Play Store: F-Droid, Aurora Store Google Meet: Jitsi Meet, Disroot/Nextcloud Talks Calendário: Nextcloud/Disroot + DAVx5, Tutanota, Protonmail Contatos: Nextcloud/Disroot + DAVx5 Google Authenticator: Authy Files: Gestor de arquivos simples pro Buscador Google: DuckDuckGo Classroom: Moodle

Dispositivos

O computador foi o mais fácil, já utilizava o Firefox como navegador principal (já configurado com pesquisa pelo DuckDuckGo), instalei a extensão Lib Redirect, que redireciona automaticamente links que vão para o ambiente da big tech para clientes e front ends, permitindo você acessar o conteúdo. Substituí o Chromium pelo Vivaldi, como meu navegador secundário. E configurei para receber meu e-mail USP (que infelizmente é da Google) no Thunderbird. Passei todos os compromissos da agenda USP/Google para a conta do Disroot/Nextcloud.

O iPad foi relativamente simples também. Desinstalei todos os aplicativos da Google, coisa que é bem tranquila no ambiente da Apple. Os únicos apps que mantive foram o Google Drive e o Classroom, por conta da USP, já que vários professores usam esses dois sistemas. Mas uma coisa que eu gosto no IOS é o aplicativo “Arquivos”, que navega bem pelas diferentes nuvens, não havendo necessidade de eu acessar o aplicativo do Google Drive, já que esse app nativo acaba sendo um cliente. E achei que o OnlyOffice no iPad funcionou surpreendentemente bem como substituto para a suíte office da Google, com a vantagem de que salva em todas as nuvens: iCloud, Nextcloud e, se quiser, até no próprio Google Drive. Importante ressaltar que o iPad é um dispositivo que utilizo para fins quase que exclusivamente acadêmicos.

Desinstalei o YouTube da minha Roku TV e estou com a fonte do Xbox One no conserto, mas minha ideia é desinstalar nele também. Mudei a Roku TV para a sala, conectei na mesma tv do videogame, já que minha ideia é utilizar o Xbox mais como videogame mesmo e deixar a função de assistir streaming completamente secundária. Na Roku TV não consigo instalar o New Pipe, já que o sistema operacional dela é bem fechado e não permite instalar aplicativos externos. Aqui chegou a única parte onde eu realmente coloquei a mão no bolso, investi numa Mi Stick TV da Xiaomi. Estou esperando chegar, mas minha expectativa é ela rodar o NewPipe e ficar no meu quarto, onde antes estava a RokuTV.

Chegamos à parte mais complexa, o celular. Meu celular é um guerreiro Redmi 6 da Xiaomi, comprado em 2019 e segue firme e forte. Por incrível que pareça, não tive grandes dificuldades em desinstalar, já que o Android nos celulares Xiaomi já é customizado pela empresa, o MIUI, tendo inclusive a própria loja de aplicativos, a GetApps. Então o que eu vou dizer aqui eu não sei se vai se aplicar em todo celular Android. Desinstalei absolutamente TODOS os aplicativos da Google pressionando sobre o ícone e depois selecionando a opção do lado esquerdo. Consegui desinstalar até a PlayStore com facilidade, o que me deixou bem surpreso. Desloguei minha conta Google do celular, aí ele automaticamente desligou o Google Services. E no lugar dos apps, instalei os sugeridos na sessão anterior. Fiquei com 3 lojas de apps: GetApps, F-Droid e Aurora Store. Ainda está no meu horizonte usar uma custom ROM, provavelmente o LineageOS. Não estou satisfeito com o MIUI, principalmente pelo fato dele ter muita propaganda. Mas não posso deixar de ressaltar positivamente o fato de conseguir desinstalar os apps da Google, desligar os services, deslogar a conta e ainda percebo que o desempenho do aparelho melhorou absurdamente sem os serviços da big tech operando por baixo dos panos. Confesso que não sei como seria a experiência em outras marcas, depois vocês me dizem.

Fortalecimento do Fediverse e softwares livres

Além das substituições, quero contribuir, com o que tenho de ferramentas, para a melhoria desses softwares e plataformas livres. Algumas medidas concretas que já venho adotando ou pretendo adotar:

  • Criar pastas de compartilhamento com conteúdo de utilidade pública usando a nuvem da minha própria instância no Mastodon, a Ayom/Nextcloud;
  • Estou aos poucos migrando todos os vídeos que estavam no meu canal do YouTube para as plataformas Odysee e Peertube (instância Fediverse.tv) e a partir de agora vou apenas subir vídeos e criar conteúdos em plataformas livres;
  • Produzo um podcast, o Estação Música, que é livremente distribuído por RSS;
  • Quero colaborar no Open Street Maps, marcando diversos locais da minha cidade, Cosmópolis-SP;
  • Quero divulgar mais esse conteúdo, produzido no ambiente das plataformas livres, para pessoas leigas e não iniciadas nesse mundo. As pessoas podem se interessar pelo conteúdo em si, e passam a conhecer essas ferramentas.

Conclusão

Não me vejo em posição de superioridade moral a ninguém pelas minhas escolhas. Se alguém precisa utilizar serviços Google, pelo motivo que for, tem minha compreensão. Tenho raiva da Google, não dos usuários. Somos nós contra eles. Na posição de militante e de fuçador de tecnologia me encontro em condições de abrir mão de alguns pequenos confortos em nome da militância pelo software livre e principalmente pelo aprendizado.

Espero ter contribuído, de alguma maneira!

Obrigado pela leitura!!!

Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima!

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Mastodon

Dia 1° de maio, dia do trabalhador, de lutas, de reflexão. A despeito desse importante fato, as elites globais do atraso não se cansam de praticar cinismo e tentam operar um verdadeiro golpe publicitário bem nessa data histórica. Pra quem perdeu esse tragicômico e discarado episódio da história da internet brasileira, a Google estampou com todas as letras embaixo do seu buscador: “O PL das fake news pode aumentar a confusão sobre o que é verdade ou mentira no Brasil”. O link cai em um artigo curto do blog da própria Google cheio de inconsistências e suposições abstratas, com um link para outro artigo mais longo e detalhado, do mesmo autor. Basicamente a Google sentiu o golpe e, no desespero, apelou por uma prática abusiva, já denunciada pelo Ministro da Justiça Flávio Dino.

Quem é da bolha tech, gosta do mundo opensource, linux, ou simplesmente se interessa pelos impactos da tecnologia na nossa vida já percebia há muito tempo o efeito prático nocivo das plataformas: desde uma aparente correlação entre Instagram e aumento da depressão e suicídio entre adolescentes, até mesmo à influência direta de conglomerados como o Facebook em decisões políticas importantes para o planeta, como o Brexit e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. Com o passar do tempo tudo foi ficando mais cristalino... veio o Facebook Papers... até alguém um pouco mais desavisado percebeu o problema em documentários como “Dilema das redes”, que pode ser assistido no poderoso conglomerado Netflix. E foi ficando mais nítido, quando Elon Musk comprou o Twitter e começou a agir como o dono da bola mimado, tomando decisões completamente arbitrárias em sua rede, como por exemplo trazer de volta o ex-presidente Trump, que havia sido punido por violar as regras da plataforma.

Até então esse assunto era concentrado em nichos muito específicos. O próprio Twitter, no Brasil, é um nicho também, possui menos usuários ativos por aqui que o Pinterest, por exemplo. Mas alguns fatos vieram à tona e furaram a bolha: tivemos 4 anos de um governo fascista e negacionista disseminando fake news e sendo investigado por diversas CPIs, como a da COVID. Tivemos a invasão dos três poderes em Brasília pelos “patriotários”, numa tentativa de golpe de estado anti-democrática, reprovada por maior parte da opinião pública. E, mais recentemente, voltaram aos noticiários os casos de ataques em escolas, causando um verdadeiro pânico moral em praticamente toda a população. A extrema direita brasileira costuma ser muito boa em mobilizar esse tipo de pânico em cima das “nossas crianças”, mas parece que nesse assunto em específico eles possuem dois calcanhares de Aquiles: o fetiche pelo armamento e a dependência da máquina de fake news que patrocina facebook, instagram, google, twitter e cia.

Pela primeira vez em muitos anos o assunto de como as plataformas afetam diretamente a nossa vida chegou de verdade na maioria da população. Podemos questionar o sensacionalismo e o pânico moral decorrentes dos ataques na escola, mas é inegável que ele produziu um efeito na maioria das pessoas, que tem filhos, parentes ou filhos de amigos nas escolas. E também é a primeira vez que temos no Brasil um esforço institucional para colocar algumas regras nessa terra sem lei, que é o oligopólio da internet pós-zuckberg. Os pais começam a se preocupar com o que os filhos consomem nos chats do Discord enquanto jogam, com o que consomem na internet, no geral. E quando uma empresa gigante como a Google se coloca contra uma PL das Fake News, passa o recibo até para o cidadão comum.

Pelo que fiquei sabendo, esse assunto da Google e a PL chegou até o Jornal Nacional. A bolha tech foi furada, finalmente. Nunca estivemos tão próximos de uma legislação que vai começar a abrir uma pequena fresta na merda em que estamos afundados. Eu não me lembro, em nenhum outro momento, de ver uma ação desesperada como essa da Big Tech, aqui no Brasil.

É hora de falar com absolutamente TODO MUNDO sobre esse assunto! E não é fazer postizinho do instagram, promovendo o auto-engano de que fez a sua parte. É puxar assunto com cara aleatório na padaria, é falar com parente, com vizinho, com amigo do trabalho sobre o assunto. É fomentar o debate FORA DO AMBIENTE DAS BIG TECHS: na padaria, no boteco, em casa, no trabalho, na escola, na faculdade. É começar a sugerir outros aplicativos para a galera, de chegar com dados consistentes que mostrem para as pessoas todo o mal que a big tech opera sobre nós nas últimas décadas. É pegada estilo “vira-voto 2018” mesmo, precisa da mesma mobilização, ou até superior, já que estamos num momento tão ou até mais importante do que aquele.

Não sabemos se teremos outra oportunidade como essa, não vamos desperdiçar...

Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima!

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