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from Resenha Cibernética

Fake News como destruição de sentido

Fake news são formas narrativas de desinformação. A pergunta que fica é se elas podem manipular o “público” de extrema-direita.

Fake news a princípio são informação (banal) que pode ser codificada (transformada em dados) e informação semântica que pode ser semiotizada (virar signo).

Mas do ponto de vista da “informação pragmática”, elas são destruidoras de sentido (desorientadoras). A função da fake news é desorientar.

Elas fazem isso porque confundem o mapa com o território. O mapa que elas traçam é o próprio território.

Ou seja, o mapa traçado deve ser material de outras comunicações. Por isso, fake news desorientam por não serem capazes de produzir distinções.

O público desorientado chama-se “rebanho”. A desorientação (alienação política) é útil, pois assim o rebanho pode ser melhor orientado (manipulado) via algoritmos.

A verdade das fake news é que elas são desinformação. Mas só entendemos isso quando somos capazes de distinguir entre informação sintática (em bits), informação semântica (em signos) e informação pragmática (em ideias).

 
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from Lento, pero escrevo

O DIA QUE A CIDADE PAROU (por causa de uma fila)

Essa crônicazinha foi escrita em 22 de Agosto de 2018 após a fila do busão para a Universidade de Brasília, a linha 0.110, dar a volta na rodoviária todinha por conta de falta veículos e de obras inacabáves na rodoviária do Plano Piloto. Fazia não muito tempo, o passe estudantil de geral tinha sido bloqueado

2030, futuro próximo da distopia estudantil. Um policial observa um grupo de estudantes enfileiradas(os), fecham o Eixo Monumental e o Eixão Sul, avenidas enormes e de alta velocidade. Puto, ele saca o spray de laser, ergue o cassetete que dá choque, aciona seus colegas de motos voadoras pela telepatia e pergunta ao estudante mais perto:

“Ei caralho, vai estudar! Sai dessa rua, muleque. Por que você tá aí?”

“Perdão, senhor. Quero estudar, mas estou apenas esperando a fila do 0.110, como todo mundo aqui no eixo monumental.”

“E por que porra tem um monte de estudante enfileirados fechando Eixão Sul, seu mentiroso?”

“Aquela é a fila do DFTRANS, senhor. As pessoas estão apenas tentando resolver o problema do seu passe estudantil.”

Frustrado e sem poder fazer nada para diminuir as filas, o policial desistiu da sua lombra institucional. O DFTRANS continuou paranoico atrás de “fraudes no passe livre”. A quantidade de ônibus do 0.110 continuava a mesma, independente da UnB ter se tornado uma cidade a parte com 200.000 estudantes, que flutuava no céu com a força da pedância e o sonho de alguns acadêmicos em viverem mais perto do mundo da lua empresarial.

As filas cresceram e já podiam ser vistas pelo satélite lançado diretamente da base de lançamento aeroespacial Alcântara Business, vendida para uma multinacional dos Estados Unidos. A fila já fazia os contornos do DF, chegando perto do entorno. “O quadradinho do lobby” se transformou no quadradinho da fila estudantil.

Assim, finalmente, o DF parou. “O poder se sabotou”, gritou a fila com alívio, alegria e cansaço.

O futuro da fila está próximo.

Arte feita sobre o Mapa do DF, em tons roxeados, chapiscados como ruído de televisão

 
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from john

é daqueles filmes que tem cara de filme indie. aquela carinha de festival sundance, sabe? ele tem uma trilha sonora bem gostosa de ouvir e tem aquela moça com jeito de gente normal (Melanie Lynskey). recentemente ela aparece como uma antagonista em The Last of Us e só funciona pq ela tem essa cara de gente normal. aqui é a mesma coisa, a história doida tem mais impacto pq a protagonista parece tanto uma pessoa comum. o filme conta a história de uma moça chamada Ruth, que trabalha em uma clínica de tratamentos paliativos e que fica cada vez mais cansada da falta de consideração e gentileza do mundo. é uma motivação meio piegas, mas a revolta de Ruth com a insensibilidade e falta de empatia dos outros acaba colocando ela em situações bizarras que vão escalando cada vez mais. a participação do elijah wood como o vizinho muito doido que acompanha Ruth em suas confusões também ajuda a comédia a acertar bem no tom. no geral, achei que o conceito do filme ficou meio qualquer coisa, mas em um nível mais superficial de história é uma narrativa bem divertida e que entretém. excelente pra um sábado a tarde despretensioso.

#filmes

 
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from john

animaçãozinha que eu vi na netflix. ao contrário de outras obras para adultos, que apelam ao público alvo pela explicitude da violência ou das cenas sexuais, em Carol e o fim do mundo o apelo está na profunda melancolia de um cotidiano marcado pela certeza do fim. no desenho, o mundo vai acabar, todos vão morrer e as pessoas, tanto individualmente quanto em sociedade, precisam inventar formas de lidar com a iminência do fim.

é uma história muito bonita, que lida com temas pesados de uma forma bem delicada. as questões profundas que são levantas sobre vida, morte e realização pessoal são tratadas de forma cuidadosa, mas leve. É o tipo de série que você vê melancólico, mas sorrindo.

#animação #netflix

 
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from Lento, pero escrevo

6 meses de vida e a urgência da Licença Parental

Você sabe quantas horas por dia se gasta para amamentar um bebê? E arrotar, cochilar, dormir? Um pouco das razões de ser absurdo uma licença paternidade de 5 dias

Coruja buraqueira em seu ninho feito por genteCoruja buraqueira na pracinha. Na época da foto, brava e gritando com as pessoas por que tinha dado cria recentemente

Semana passada nossa filha fez 6 meses de vida. E sem a licença parentalidade de 6 meses que conquistamos no Programa de Pós-Graduação de Ciência Política da UnB, teria sido absurdamente mais exaustivo para nós, para minha companheira, para nossa família e para nossa filha. Esse é o período recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para que a alimentação do bebê seja exclusivamente de leite materno. Além do contato pele a pele, que estimula e acalma a criança, o aleitamento garante mais saúde pois passa os anticorpos – até mesmo de vacinas – e é um alimento supernutritivo para a criança.

Mas sabe quantas horas por dia se gasta com um bebê para que isso seja possível? E todas as outras necessidades, quanto tempo duram? Odeio essa exposição, mas vou contar um relato pessoal por que muitas pessoas que não convivem ou conviveram com bebês e crianças, em especial homens como eu, não tem a mínima ideia do quão trabalhoso é manter um recém nascido vivo.

NAS PRIMEIRAS SEMANAS DE VIDA:

O bebê ainda está aprendendo a mamar, por isso passa muito tempo mamando. Várias vezes, foram 40 minutos para nossa filha estar satisfeita. Depois disso, ela ainda não sabe arrotar ou mesmo tossir para se desengasgar. Então são mais 20 minutos para que a criança arrote, no ombro ou na vertical com nosso apoio. Por dia são, em média 10 a 12 mamadas. Se apenas a mulher ou a pessoa que amamenta também for a responsável por colocar a criança para arrotar, são 12 horas por dia apenas mamando.

NOS PRIMEIROS TRÊS MESES:

Depois melhora um pouco, piora um pouco. Sendo otimista, são em torno de 7 a 10 mamadas por dia e elas duram 20 minutos, mais os 20 minutos arrotando. Só aqui, quando tudo vai bem são mais 4 horas e meia do seu dia . Mas além disso, a criança precisa cochilar durante o dia para dormir bem a noite, evitando uma noite estressante em que precisemos acordar de uma em uma hora e em que tranquilize apenas mamando. E descansar é essencial para a pessoa que amamenta conseguir produzir leite. A criança precisa cochilar em torno de 3 a 5 horas POR DIA e algumas só cochilam mamando ou no colo depois de balançar por em média 20 minutos. São pelo menos mais 3 horas. São quase sete horas ao todo que o bebê pode acabar passando só no braço.

ENTRE OS 3 E 6 MESES

As mamadas melhoram, são mais rápidas. Mas a partir dos três meses a criança passa a perceber tudo ao seu redor. Então os cochilos dela são mais difíceis, por que ela distrai com tudo. E novamente, para produzir leite a pessoa que amamenta precisa também conseguir descansar. Se o bebê não cochila? Bom, a noite ele provavelmente não dorme direito, logo quem amamenta também não dorme e pode ter mais dificuldade ainda para amamentar. O bebê passa intervalos de tempo maiores sem mamar. A cada duas ou três horas durante 10 a 20 minutos. Só isso, já dá em torno de 2h30min por dia apenas no peito. E, como dito, cochilar também é essencial: nessa idade precisam de 3 a 5 horas de cochilos diurnos. São pelo menos cinco horas por dia com a criança no colo. Casa de João de Barro em um poste. Um ninho de um pássaro mais tranquilo, mas que perdeu a tranquilidade no diabo do poste

O dia tem 24 horas?

Narro tudo isso a partir de uma dedicação bem objetiva, que é a quantidade de horas. Foram 180 dias em que a nossa filha precisava entre 5 horas de colo por dia, nos melhores momentos, a 12 horas por dia, nos momentos mais difíceis .

Nessa conta não considerei outras tantas horas que a mãe ou pessoa que amamenta pode precisar passar ordenhando leite para ter um estoque de leite, caso precise ter qualquer outra obrigação normal de uma pessoa adulta que lhe impeça de estar longe da filha por algumas poucas horas. Não considerei que a mãe ou pessoa que amamenta precisa se alimentar bem, beber uma quantidade enorme de água, urinar, defecar, tomar banho e viver em um lugar minimamente organizado e limpo para passar por esse momento caótico que é o puerpério.

Aliás, não considerei uma coisa básica do trabalho de cuidar de um bebê pequeno: tem toda a parte subjetiva de como está nossa cabeça, o zelo, os medos, o morrer de amores, as oscilações de humor, as pressões e o julgamento constante de tudo ao seu redor. São muitas outras horas do seu dia que você passará tentando entender quem é você no meio de tudo isso – e se você é um pai que cuida igual, também passará por isso.

Aqui em casa somos muito fechados com Silvia Federici. Mas desde que soubemos da gravidez, o tanto que a gente já chorou de exaustão é o mesmo tanto que a gente ama nossa filha. Viver na contradição tem dessas coisas

A licença parental radical ou licença de cuidado

Como o dia tem apenas 24 horas por dia, obviamente é completamente insustentável amamentar e cuidar sozinha. Eu honestamente não sei como trabalhadoras informais sem direito à licença-maternidade, mães solo e sem rede de apoio dão conta. Provavelmente não dão, mas o sofrimento nesse período da vida é tão naturalizado e normalizado que ninguém se importa. Mesmo que se opte por dar fórmula por falta de tempo, exaustão ou isolamento, há todas as outras coisas que precisam ser feitas.

Hoje em dia a licença paternidade não existe, a não ser que você considere que em 5 dias você pode cuidar plenamente do seu bebê que acabou de vir ao mundo, acompanhar seu desenvolvimento, ser pai e aliviar sua companheira que amamenta.

Mesmo algumas instituições do Estado já reconhecem a necessidade de criar um licença real, como sinalizou decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) obrigando que em até 18 meses o congresso estenda e decida sobre a licença paternidade. Até alguns capitalistas e seus gestores progressistas já reconheceram essa urgência e aderiram à Coalizão Licença Paternidade (COPAI). Nesse sentido também é que vai o Projeto de Lei 1974/2021 das deputadas Sâmia Bonfim e Glauber Braga, que criam a licença parentalidade remunerada por 180 dias para duas pessoas responsáveis pela criança.

Mesmo que a Licença seja estendida, devíamos ir até além. Por que é a coisa mais comum do mundo que quando nasce um bebê, as avós e as tias se desdobrem para cuidar também. Ou seja, dois adultos sozinhos não são suficientes para cuidar de um bebê de uma forma digna e não exaustiva. Todas as pessoas que se desdobram pra tocar o trabalho de cuidar de um bebê em suas famílias estendidas, não tradicionais, LGBTs e que fogem à família monogâmica nuclear – papai, mamãe, criança e cachorro – deveriam ter direito a 180 dias de licença remunerada – sejam elas empregadas formalmente ou não.

Esse é um passo essencial para que as mulheres não precisem se sobrecarregar com 12 horas ou mais do seu dia para o trabalho de cuidar. E nós, homens, temos feito muito pouco nessa briga coletiva para cuidar que deveria nos mobilizar tanto quanto todas as outras lutas coletivas. Que a briga por uma licença parentalidade digna seja um primeiro passo para isso.

Vários cavalos-marinho, grávidos próximo a um coralAo contrário do que dizem os capitalistas e os conservadores, que “macho” já é biologicamente predisposto a não cuidar, na natureza o cavalo-marinho “macho” “engravida”. Como será que os conservadores vão reagir quando souberem que homens podem amamentar?

 
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from daltux

Reedição de publicação de 2006 em blog/site pessoal mantido de 1998 a 2012.

“Num futuro muito próximo”, no imenso sertão da Austrália, há uma espécie de patrulha rodoviária para tentar controlar gangues motorizadas que pilham as estradas. Dessa pequena corporação, faz parte o jovem protagonista Max Rockatansky (Mel Gibson), tido como o mais eficiente de seus integrantes.

Knight Rider (adaptado como o “Cavaleiro da Estrada”), um dos principais integrantes de uma gangue de motociclistas, fica entorpecido (“pedrado, pipado e doidão”), mata um policial e rouba uma das melhores e raras viaturas, modelo Pursuit Special V8:

— É um tarado das motos. Ficou doidão de repente, há umas horas! Conseguiu fugir, matou e roubou um dos especiais [...].

— Qual é o carro dele?

— Isso é que dói… é um dos nossos V8. Um dos especiais a metano, que anda pra cacete!

Um carro tipo cupê totalmente preto, modelo Ford XB Falcon personalizado, com chamativas molduras dos farois diranteiros, retangulares em cor cinza, e o enorme capô com abertura por onde saem partes mecânicas, um supercharger blower.A estória se inicia quando Knight Rider começa a ser perseguido pela patrulha e dá muito trabalho à corporação, tirando de ação dois carros e uma motocicleta. Max vai então ao seu encalço, com a viatura Interceptor. O efeito da droga do bandido começa a passar e ele chora ao perceber que sua fuga não terminaria bem. E acaba se acidentando e morrendo. Isso atiça a fúria do líder da gangue, Toecutter, que leva sua corja atrás de Max para vingança.

O filme é muito bom. Não convém contar o restante. Assista.

É curioso notar que, por muito tempo, “Mad Max” foi o filme que teve a maior taxa de lucro em comparação com seu custo da história. Isso durou até o sucesso de “A bruxa de Blair” (2000). Seu custo de produção foi de apenas 350 mil dólares (estimativa), contudo gerou uma receita de mais de 100 milhões de dólares. Seriam 28500%.

Ainda segundo a Wikipedia, George Miller, diretor e roteirista, é médico e trabalhou na ala de emergência de um hospital, onde teria presenciado muitos ferimentos e mortes de pessoas cujas histórias o inspiraram. Contudo, Miller achou que o público não acreditaria que esse tipo de roteiro ocorresse na atualidade. Daí teria vindo a idéia de fazer com que a aventura se passasse no futuro.

Em “Mad Max 2” (1981), há um prólogo adicionando que teria havido uma guerra nuclear mundial motivada pela falta de recursos energéticos. Depois disso, teria havido uma tentativa de se preservar o Estado, quando se passam os acontecimentos do primeiro filme. Na sequência, porém, não há mais resquícios de governo: paz e justiça deram lugar à sobrevivência a qualquer custo. Max, outrora policial rodoviário e depois justiceiro, tornara-se apenas um nômade das estradas.

Quando se assume que deveria haver uma harmonia na trilogia, o que intriga é algo que atinge o âmago ficcional da primeira produção, baseada em perseguições de automóveis em rodovias: em uma terra de ninguém, praticamente em ausência de Estado, como seria possível a manutenção de tão perfeitos pavimentos como vistos no primeiro filme, sem um buraquinho sequer? Pode-se imaginar um motivo para que os produtores tenham se esquecido desse detalhe e para que a audiência e a crítica sequer tenham notado: em nações mais desenvolvidas, talvez seja impensável que haja buracos em asfalto.

#MadMax #cinema #resenha #blog

 
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from daltux

🇬🇧 English version

Discordo fortemente quando alguém afirma equivocadamente que “Linux” (querendo frequentemente dizer GNU e outros sistemas tipo Unix) seria projetado para ser usado somente pela linha de comando e, assim, usuários finais seriam melhor servidos por um ou dois sistemas operacionais não livres para computadores pessoais, especialmente aquele que atualmente domina o mercado.

Há de fato um enorme esforço de “Linux”/etc. no lado do servidor (back-end), isso felizmente, já que é o sistema operacional que tem sustentado atualmente a sociedade da informação global, executando a maioria dos servidores da Web, a infraestrutura de telecomunicações em geral, os maiores supercomputadores, projetos científicos de variadas áreas, dispositivos móveis e embarcados, incluindo veículos automotores. Os ditos interpretadores de comandos na realidade tornam a vida de quem aprende a usá-los mais fácil e rápida. Isso não é uma fraqueza, e sim uma vantagem muito poderosa.

Dito isso, também tem havido grande desenvolvimento, por décadas, do que chamamos de ambientes de área de trabalho livres (Free Desktop), com diversas implementações, algumas menos e outras mais orientadas ao usuário final.

Captura de tela do Pantheon desktop, do Elementary OS. Apresenta fundo com uma foto de paisagem, barra superior transparente com letras e ícones brancos, destacando-se a ativação de um item responsável pela abertura de uma janela de escolha com vários ícones para lançar aplicativos e uma barra de texto por onde pode ser pesquisado algum aplicativo. Na parte inferior, há uma barra tipo dock com ícones pelos quais aparentemente também podem ser iniciados programas ou abertos aqueles que estejam em execução.

Usuários comuns de navegadores Web e aplicativos em geral não têm necessidade de saber muito sobre o que o computador faz por trás da interface gráfica humano-máquina. Eles contam com outras pessoas para suporte técnico, e os ambientes desktop livres não mudam esse fato. A maior diferença é que oferecem mais opções e liberdades, dando a impressão de uma escolha mais difícil. Contudo, independentemente do tipo de software envolvido, quando solicitados a instalar ou dar manutenção em uma máquina dessas, faz parte do trabalho de profissionais de TI levantar o que seus clientes precisam no computador, conhecer as opções disponíveis ou pesquisá-las, para satisfazer essas necessidades. Não precisa ser como uma religião com uma única verdade inquestionável para todas as situações, como infelizmente parece ser o caso com frequência. Ao contrário, a idéia aqui é empoderar os usuários para que consigam exercer sua liberdade e mantê-la sustentável.

Meu pai (com mais de 70 anos), que felizmente é saudável, mas nunca tinha usado um computador antes, acabou se tornando um usuário final de Xfce e Firefox praticamente sem treinamento. Ele sabe como ligar, colocar sua senha, iniciar o navegador por um ícone na tela, abrir alguns sites que deixei marcados na Barra de Favoritos, como de instituições financeiras, correio eletrônico, notícias etc. Eventualmente, aprendeu como digitar outros endereços simples, fazer buscas, e até a me chamar para uma sessão de assistência remota quando precisa. Isso teve início antes de ter começado a usar celulares inteligentes. É como o usuário idoso médio de outros sistemas, ou melhor. Há alguns docentes pós-doutores na universidade que, mesmo com o sistema operacional dominante, chegam a ter dificuldade para fazer isso tudo, talvez por falta da vontade necessária. Ele na realidade até chegou a experimentar, sem minha interferência, o sistema proprietário que veio instalado em um então novo notebook, já há vários anos. Não demorou até me pedir para “consertá-lo”, deixando como está acostumado. De vez em quando, atualizo para ele o Xubuntu, que então permanece estável, eficiente em uso de recursos, seguro, possuindo o que ele precisa, sendo que com outro sistema provavelmente a máquina já estaria obsoleta. Então, como poderia não estar feliz com isso? Ele reclama quando um site não faz o que ele quer, o provedor de Internet cai ou a impressora trava, como qualquer outro usuário. Por tudo que é tão elogiado naquele típico sistema operacional proprietário, dito intuitivo, era para ser bem fácil para todas as pessoas se acostumarem a ele, certo?

A lição é que qualquer mudança de hábito é muito difícil para a maioria das pessoas, que costumam ser teimosas. Se tivessem sido ensinadas desde o princípio a usar algum ambiente desktop, ferramentas e aplicativos livres, mesmo que diferentes de seus equivalentes privativos com funcionalidades semelhantes, elas estariam acostumadas e provavelmente evitariam a situação oposta. Assim como as massas têm sofrido lavagem cerebral para acreditarem que existe apenas uma maneira de usar o computador. É por isso que elas mantêm tudo na mesma, ainda que estejam sujeitas a obsolescência programada, aprisionamento tecnológico, práticas monopolistas, comprometimento de privacidade e segurança, ou algum outro tipo de dependência pesada das maiores corporações de tecnologia, preferindo isso a aprender qualquer coisa que pudesse torná-las capazes de mais liberdade.

#SoftwareLivre #Liberdade #GNU #Linux #GNULinux #CódigoAberto #GNOME #KDE #Xfce #LXDE #Pantheon #Budgie #Firefox #desktop #POSIX

 
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from daltux

🇵🇹🇧🇷 Versão em português

I strongly disagree when people mistakenly claim that “Linux” (meaning GNU and other Unix-like) is designed to be used only on the command line interface, and therefore end users would be better served by one or two more common desktop operating systems, especially the currently dominant one.

There is indeed a strong “Linux”/etc focus on the backend/server-side, thankfully, as they drive the information society world today, running most web and database servers and other infrastructure, supercomputers, important scientific projects, artificial intelligence development, mobile and embedded devices, like probably even your automobile. The said command line interpreters actually make life easier and faster for those who learn how to use them. This is not a weakness, but a very powerful feature.

Having said that, there has also been great development for decades on what we call Free Desktop environments, with many different implementations, some more end-user oriented than others.

Screenshot of Pantheon desktop, from Elementary OS, having a landscape wallpaper image, a transparent top bar with white characters and icons, highlighting the activation of an item responsable for opening an application selection menu with several icons to launch them and a text field for app searching. At the bottom, there is a dock with icons, probably for opening applications already running.

Regular web browser and most application users have no need to know much about what the computer is doing behind the graphical human-machine interface. They rely on other people for technical support, and Free Desktop environments do not change this fact. The main difference is that there are more options and freedoms, giving the impression of a harder choice. However, when asked to install software and maintain such a machine, it is the job of good computer technicians to learn the needs of their clients, know or find the options, and meet those needs. It does not have to be like a religion with a single, unquestionable, true solution for all situations, as is unfortunately often the case. On the contrary, the idea here is to empower users to fulfill their freedom and keep it sustainable.

My old man (over 70 years old), who is fortunately healthy but had never used a computer before, became a Xfce/Firefox “light” end user without proper training. He knows how to turn it on, enter his password, start the browser that has an icon, load some sites I left on the Bookmarks Toolbar, e.g. his banks, stock market, email provider, favorite news. Eventually, he learned how to type in other simple addresses, search, and even call me for remote assistance if needed. All this before he started using smartphones. Just like or better than the average older user of other systems. There are some PhD professors at the university who, even on the dominant OS, have a hard time doing all this, perhaps lacking the necessary will. He actually tried the built-in proprietary system without my interference after buying a new laptop (already years ago), but soon asked me to “fix” it. From time to time I upgrade Xubuntu for him, then it remains stable, resource efficient, secure, has what he needs, so how could he not be happy with it? He complains when a website doesn't do what he wants it to, the internet provider goes down, or the printer hangs, like everyone else. Based on what is so praised about the typical proprietary operating system, it should be very easy for all people to get used to it, right?

The lesson is that any habit change is very difficult for most people, and they are usually stubborn. If they had been taught from the beginning how to use some Free Software desktop environment, tools, and applications, even if they were different from most common proprietary counterparts with similar functionality, they would get used to them and probably avoid the opposite situation. Just as the masses have been brainwashed into believing that there is only one way to use a computer. That is why they prefer to keep it the same, even if it is subject to premature obsolescence, vendor lock-in, privacy and security compromise or any other kind of heavy dependence on Big Tech, rather than learn anything at all that would make them capable of broad freedom.

#FreeSoftware #FreeAsInFreedom #GNU #Linux #GNULinux #FOSS #GNOME #KDE #Xfce #LXDE #Pantheon #Budgie #Firefox #FreeDesktop #desktop #POSIX #PC

 
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from daltux

Acaba sendo bastante interessante pelo menos alguém, em uma equipe que trabalha com um parque repleto de Debian GNU/Linux e/ou derivados como Ubuntu, utilizar Debian Sid ou pelo menos Testing na sua máquina de uso direto: pode ser possível antecipar as eventuais mudanças relevantes na distribuição, por ficar sabendo delas mais naturalmente e provavelmente ter que tratá-las ali assim que ocorrerem, bem antes das máquinas de produção.

Isso ainda permite minimamente contribuir com o teste do sistema operacional utilizado (normalmente) gratuitamente para seu sustento, sendo um projeto colaborativo. Acaba se acostumando a se desvencilhar de possíveis problemas em atualizações, bem como a manipular suas ferramentas e métodos mais recentes. Enfim, aprimorar-se mais do que se não fizesse isso.

Fica menos fácil se utilizar distribuições em formato distinto daquela predominante no seu parque. Muito mais difícil se fizer como muitos que teimam até em usar outros sistemas operacionais que não se justificam além das massas. Pior ainda, aqueles com arquiteturas totalmente proprietárias, específicas, longe dos padrões POSIX.

Esse conceito veio após o exemplo que segue.

Mensagem exibida ao se atualizar o pacote sudo do sid nesta sexta-feira, 2023-12-08:

apt-listchanges: News

sudo (1.9.15p2-1) unstable; urgency=medium

sudo-ldap has become a burden to maintain. This is mainly due to the fact that the sudo team has neither the manpower nor the know-how to maintain sudo-ldap adequately.

In practice, there are few installations that use sudo-ldap. Most installations that use LDAP as a directory service and sudo have now opted for sssd, ssdh-ldap and libsss-sudo.

The Debian sudo team recommends the use of libsss-sudo for new installations and the migration of existing installations from sudo-ldap to libsss-sudo and sssd.

The combination of sudo and sssd is automatically tested in autopkgtest of sudo.

This is also being discussed in #1033728 in the Debian BTS.

Debian 13, “trixie”, will be the last version of Debian that supports sudo-ldap. Please use the bookworm and trixie release cycles to migrate your installation away from sudo-ldap.

Please make sure that you do not upgrade from Debian 13 to Debian 14 while you're still using sudo-ldap. This is not going to work and will probably leave you without intended privilege escalation.

— Marc Haber mh+debian-packages@zugschlus.de Mon, 20 Nov 2023 10:07:57 +0100

Em suma, a equipe reponsável pelo empacotamento do sudo declara que trixie — codinome da versão em testing atual, a ser eventualmente paralisada para ser lançada como Debian 13, ainda sem data — será a última versão de Debian com disponibilidade do pacote sudo-ldap.

Felizmente, em máquinas mais recentes, acaba sendo mais frequentemente usado sssd para a integração com o LDAP por ser o que possui mais instruções na documentação, e é realmente uma alternativa apontada pela equipe do sudo agora.

Como Ubuntu é filho de Debian, as mudanças deste devem chegarão em algum momento a Ubuntu também. Nesse caso, se continuarem o padrão atual, provavelmente até 2026.

Claro que seria também possível manter máquinas no parque de servidores para testes com Debian sid ou testing, que precisariam ser frequentemente manipuladas, ou talvez seguir as listas de discussão (difícil por serem inúmeras), porém as atitudes não são excludentes.

 
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from john

dia desses eu vi um vídeo do canal filmento sobre o filme The Creator (2023). aparentemente, esse filme tem gerado um certo burburinho acerca da suspeita de que seria uma obra feita por IA. Eu nunca vi o filme em si, mas o argumento desse vídeo do filmento me chamou muita atenção: não importa tanto se foi um humano ou uma máquina que escreveu o filme, porque independente disso, é um filme escrito como se fosse por IA. significando que da mesma forma como as IA atuais escrevem copiando e colando sem muita consideração pedaços de outras obras, esse filme é uma grande colcha de retalhos de elementos celebrados em outras obras, mas que foram misturados sem a preocupação de construir um todo que seja coerente e artisticamente significativo. ao passo que o vídeo convence bem que a película é um catadão de elementos cinematográficos sem um roteiro que sustente, não deixo de pensar que os filmes já são feitos por IAs há muito tempo. por isso a gente escuta tanta reclamação de que não temos histórias novas, só roteiros derivados. a IA não eram os escritores, mas o sistema de produtores, bancos, agentes e empresários que regurgitam roteiros medíocres e seguros, colagens de sucessos do passado que não passam de imitações baratas ou sombras do que teriam sido. a decepção é a emoção padrão no cinema comercial hoje. acho que no fundo a reclamação do scorcese não vem tanto do fato de que o filmes comerciais são feitos pra entreter, mas de que as IAs (seja um LLM da vida ou um conglomerado de mídia) são incapazes de criar coisas realmente novas, que nos afetem e sim, talvez incomodem.

#IA #Cinema #Filmes

 
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from groselhas

Considerações sobre o artigo “Positive and differential diagnosis of autism in verbal women of typical intelligence: A Delphi study [1]”

DISCLAIMER IMPORTANTE: o artigo fala principalmente de autismo de nível de suporte 1, apesar de não citar o termo, e eu também falo disso aqui. Mulheres com níveis de suporte mais alto também sofrem com demora em seus diagnósticos, mas as questões identitárias são sensivelmente diferentes às que eu experiencio.


Olá, sou Ana, uma pessoa autista adulta (25 anos), identificada socialmente como mulher e diagnosticada tardiamente (24 anos). Já escrevi anteriormente sobre minha experiência de diagnóstico tardio de autismo.

Recentemente, acabei me desvencilhando de acompanhar conteúdos e discussões acerca de autismo, em uma tentativa de me dar o espaço necessário para processar o diagnóstico sem intervenções de redes sociais. Entretanto, participo do grupo de WhatsApp “Autistas – UNICAMP”, minha alma mater, que reúne pessoas autistas da Unicamp e relacionadas. Algumas vezes, pessoas compartilham materiais acadêmicos sobre autismo por lá, e o artigo aqui citado em especial me chamou atenção.

Em “Positive and differential diagnosis of autism in verbal women of typical intelligence: A Delphi study” (CUMIN, PELAEZ, MOTTRON, 2022) ês autories reconhecem os critérios diagnósticos do espectro autista (de acordo com o DSM-V e o CID-11) vagos. Atualmente, nos EUA, um dos países com a maior documentação estatística acerca do assunto, a prevalência de autismo é de 1 para 36 crianças [2], o que pode estar relacionado a diversos fatores. Entretanto, a proporção entre meninos e meninas é de 4 para 1, o que reacende a discussão sobre o processo diagnóstico de TEA em meninas.

Historicamente, o processo diagnóstico de TEA em meninas vem sido prejudicado por preconceitos de gênero e enviesamento dos próprios critérios e testes diagnósticos. Principalmente no tocante a diagnósticos tardios femininos, há uma dificuldade em diferenciar o autismo, um transtorno biopsicossocial, de condições psiquiátricas, como o transtorno de personalidade limítrofe (borderline). O ponto do estudo, portanto, foi averiguar os critérios específicos de diferenciação diagnóstica para mulheres adultas com inteligência “normal”, por parte de especialistas em autismo envolvidos com esse perfil em sete países.

Foram 37 os critérios citados em comum por 20 profissionais entrevistades, separados nas seguintes categorias: fatores de complexidade no atendimento, como gerir esses fatores, sinais típicos de autismo em mulheres e diagnósticos diferenciais e comorbidades.

Entre os fatores de complexidade no atendimento, três coisas me chamaram a atenção: o auto-diagnóstico, condições de estigma relacionadas a transtornos comórbidos e reações negativas com o (não-)diagnóstico.

O autodiagnóstico de autismo é um tópico extremamente inflamado dentro da comunidade autista e arredores (como pais, profissionais de saúde, etc.). Grande parte des defensories de auto-diagnóstico estão de acordo que o autodiagnóstico é apenas a primeira parte do processo diagnóstico e não o ponto de chegada. Entretanto, principalmente entre adolescentes, cresce a quantidade de pessoas envolvidas em reconhecer transtornos por meio de listas superficiais em redes sociais com conteúdos cada vez mais pulverizados e até falsos. Cada vez mais, quando têm acesso ao processo diagnóstico oficial, adolescentes e adultes chegam cheies de certeza de seus diagnósticos, o que atrapalha substancialmente o próprio processo.

Qualquer pessoa que tenha o mínimo conhecimento acerca do DSM-V, um manual estadunidense e o principal manual utilizado no Brasil para orientação de processos diagnósticos psiquiátricos e afins, sabe o quanto pode ser sutil e política a diferença entre diagnósticos. É difícil de chegar a uma conclusão certeira até mesmo para profissionais, mas de alguma forma criou-se a narrativa de que qualquer um pode se autodiagnosticar autista, porque “ninguém conhece você melhor que você mesmo”. Essa parte é particularmente delicada porque muitas pessoas têm seus acessos a diagnósticos negados sistematicamente por diferenças raciais, econômicas e de gênero. Entretanto, o que deve ser envisionado aqui não é a banalização do diagnóstico e sim o questionamento das condições socioeconômicas degradantes a que nós pessoas marginalizadas somos expostas, e, por que não?, a própria categoria diagnóstica.

O neoliberalismo cria as categorias médicas psiquiátricas e as explora enquanto identidades, em um ciclo retroalimentado. 10 anos atrás, quando eu ainda era adolescente e o autismo não era assunto muito comum em redes sociais brasileiras, já se colocava na biografia de sites como Twitter certos indicadores como “bipolar” ou “borderline”. Em outras palavras, não é exatamente um fenômeno pós-TikTok ou restrito a adolescentes nascides após 2003. Infelizmente, o que se observa é cada vez menos a denúncia das intrínsecas relações entre psiquiatria e neoliberalismo e cada vez mais o abraço em identidades. Eu entendo esse fenômeno como vizinho a outro típico do neoliberalismo: todos nós queremos ser úniques, e cada identidade que colocamos em nossas descrições nos ajuda a nos afirmarmos contra o mundo. Em um mundo adoecido de capitalismo tardio, dominado por relações precárias e expropriação de mais-valor extrema, todos sofremos . Aqui não se trata de dizer que “todo mundo é um pouco autista”, afinal de contas, todes sofremos, mas nossos sofrimentos podem ser distintos e o autismo é uma categoria definida. O que coloco em questionamento é a certeza adolescente e jovem-adulta de que sofremos mais do que ês outres e que somos especiais por isso, como se o ônus de sofrer estivesse vinculado necessariamente a um transtorno psiquiátrico... o que não deixa de ser uma postura individualista!

O gancho aqui exposto me leva ao segundo tópico: condições de estigma relacionadas a transtornos comórbidos. A depressão, o transtorno bipolar, o transtorno de ansiedade, o transtorno de personalidade limítrofe, todos eles carregam um pesado estigma social de serem questões puramente pessoais. Quem carrega esses transtornos o carrega por questões individuais, sendo a cura uma questão individual também. “Tem que ter a terapia em dia”, diz a massa jovem em relação a parceires afetivo-sexuais, como se a terapia fosse a panaceia dos problemas psicossociais. Ao contrário, a delimitação do conceito de neurodiversidade coloca no cérebro biológico a “culpa” de sermos quem somos. Não podemos ter culpa sobre nossos sofrimentos se é algo que nascemos com, ou seja, nos afastamos do estigma de sermos responsáveis por nosso próprio “fracasso”. Já não devemos algo à sociedade, ela quem nos deve algo, porque somos diferentes e a nossa diferença importa.

Note que eu definitivamente não concordo com essa leitura sobre os transtornos mentais, e também não afirmo que a vida de autista/neurodiverse é flores. Nós autistas sofremos sistematicamente com exclusão em vários aspectos sociais, mas aqui meu foco é outro: o uso da linguagem e da identidade para, individualmente, nos resguardarmos do sentimento desgraçado de ser uma falha. Ao abraçar a alcunha de “depressives”, nos indicamos individualmente doentes, e nos colocamos na terapia. Ainda que a depressão tenha também sido cerebralizada (um termo usado por Ortega, em “Somos Nosso Cérebro?”), o autismo é especialmente cerebralizado. No autismo, somos nosso cérebro, ele comanda todas as partes do nosso ser. Essa cerebralização de fenômenos psicossociais como se o cérebro fosse de fato uma CPU natural é uma visão neoliberal e colonizada. Desde quando uma parte do nosso corpo (o cérebro) recebeu uma importância desenfreada em nosso senso comum? A proliferação de abordagens neurocientíficas, que acrescentam o prefixo “neuro” em toda e qualquer coisa, gera a neurodiversidade, mas também a “neuroindividualização” (acabei de inventar esse termo). Nós autistas somos um corpo uno, nosso cérebro é apenas parte de nós. Quando compramos essa lógica cerebralizante, estamos também sumindo perante o capital. Em resumo, é meu cérebro que é assim, eu sou diferente e pronto e acabou.

Mas, afinal de contas, existem cérebros típicos? É a pergunta de milhões. Mesmo assim, diversos membros da comunidade autista parecem se segurar em uma premissa de que são um mundo à parte, com uma diversidade natural não vista em nenhuma outra parte da sociedade, e até mesmo colocam questões morais no meio, taxando ês “neurotípiques” de pessoas intrinsecamente ruins. Criamos uma divisão entre “nós” e “elus” que é completamente cinza, ou seja, não tem um critério claro. E mesmo que esse critério fosse claro, é justificado nos fecharmos em um círculo de pureza? Afinal de contas, como o próprio estudo aponta: “A diagnosis of autism can provide a feeling of belonging to a community, and some clinicians felt that the autism as a social identity resonated particularly with their female patients. Many clinicians indicated that autism was seen by their patients and clients as more socially acceptable than a mental health condition, which could complicate the process of making a differential diagnosis and receiving a stigmatizing label.”

A construção da identidade é algo importantíssimo para nosso reconhecimento junto à sociedade. Entretanto, é perceptível a monetização da identidade, e o autismo não deixa de ser uma das identidades que entram nesse balaio. Quando chegam aos consultórios agarrados à certeza de que “meu cérebro é diferente, não é minha culpa”, ês pacientes reagem (muito) mal à notícia de que não preenchem critérios diagnósticos para autismo. Voltam à estaca de “você pode ter outro transtorno, um que vai ser sua culpa”. O boom da procura por diagnósticos tardios de autismo também está relacionado, portanto, ao estigma de diagnósticos correlacionados que são duramente estigmatizados e individualizados (as próprias categorias diagnósticas de que fazem parte segundo o DSM-V são o estigma da loucura, levando as pessoas a não verem melhora substancial nos seus quadros, claro!)

Passando ao terceiro tópico, o de sinais típicos de autismo em mulheres adultas. São listados 11 sinais, dos quais destaco: “Autistic women, despite presenting as intelligent, had often failed to achieve expected levels of personal/professional success”, e “In autistic women, gender may be expressed more fluidly, with less attachment to the gender binary, or femininity may appear forced/rehearsed”.

A marca social da diferença está muito relacionada à questão diagnóstica do autismo e esses dois tópicos são sintomáticos. Primeiramente, o que é “alcançar níveis de sucesso profissional/pessoal” em um contexto em que sofremos brutalmente com o desemprego, o subemprego, a inflação, a substituição por tecnologias, entre outros? Algum des tides “neurotípiques”, por mais inteligentes que sejam, conseguem alcançar esses níveis de sucesso profissional/pessoal? O que é essa métrica do “sucesso”? Utilizar um critério associado ao sucesso de uma pessoa, atrelando-o ainda à noção de inteligência, é também um sintoma neoliberal por trás das avaliações neuropsicológicas e psiquiátricas. Parece, então, que ao observar ume indivídue que não responde adequadamente à pressão neoliberal, e juntarmos a um conjunto de características que se destacam em meio a uma pretensa normalidade, precisamos patologizá-le.

Ainda dentro da diferença, a aparição do critério de expressão de gênero fluida como atrelado ao autismo também é preocupante. Quantas mulheres e outras pessoas que desviam da norma de gênero foram internadas em sanatórios ao longo da história? Desvincular gênero e sexualidade de critérios patológicos é mandatório em um cenário antimanicomial. É verdade que nós autistas por sermos menos ligades a normas e convenções sociais, estamos mais propenses a nos expressarmos mais livremente. Entretanto, o desconforto e o rechaço a normas sociais de gênero e sexualidade é uma coisa perfeitamente normal em uma sociedade repressiva de desviantes. No grupo des autistas da Unicamp, mais de uma vez pessoas relatam seu desconforto com normas de gênero como se fosse um trejeito autístico. Na verdade, esse é um desconforto... humano. Tentar vincular as duas coisas como intrínsecas, além de problemático, volta ao assunto de buscar formas de nos colocarmos como especiais perante o resto da sociedade, uma conduta individualizante que nos isola e não nos une em torno da luta por uma sociedade melhor.

Por fim, ainda no tópico de internação manicomial de mulheres e pessoas desviantes de normas de gênero em geral, o próprio estudo apresenta a histórica vinculação entre transtornos psiquiátricos e autismo, como diagnósticos facilmente trocados erroneamente. “Borderline Personality Disorder is highly present in autism assessment clinics as a past diagnosis and/or a potential differential diagnosis” e “Autistic women can superficially present with signs resembling Borderline Personality Disorder”. Isso porque, além de toda a problemática neoliberal apresentada, o gênero é uma camada de interpretação importante. Mulheres desviantes só podem ser loucas, atípicas, “com cérebro diferente”. O que está em jogo aqui é, de fato, a mudança de uma linguagem patologizante para outra que, apesar de parecer menos patologizante, ainda ressoa nas entrelinhas dentro da lógica capitalista.

“Ah, mas Ana, tudo para você é capitalismo? O autismo não ia existir no comunismo?” Isso (as condições de uma sociedade comunista existente) eu já não sei informar, mas a percepção de diagnósticos psiquiátricos e adjacentes está intimamente ligada com o desenvolvimento da medicina, que, oras, anda de mãos dadas com o capitalismo, o racismo e a misoginia, entre outros. Ao abraçar acriticamente identidades provenientes da lógica médica presente no DSM-V, de forma até mesmo agressiva, estamos nos deixando engolir.

Atenciosamente,

Uma autista possivelmente borderline possivelmente louca possivelmente... só humana.

Referências na ordem em que aparecem:

[1] Cumin, J., Pelaez, S., & Mottron, L. (2022). Positive and differential diagnosis of autism in verbal women of typical intelligence: A Delphi study. Autism, 26(5), 1153–1164. https://doi.org/10.1177/13623613211042719 [2] Data & Statistics on Autism Spectrum Disorder, por Centers for Disease Control and Prevention (2022): https://www.cdc.gov/ncbddd/autism/data.html

 
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from blog do pedro

olá usuários deste sítio cibernético.

gostaria de partilhar com vocês uma ideia que me ocorreu.

é que fui numa farmácia comprar desodorantes e enquanto olhava as gondolas fui abordado por uma atendente: “Com licença, o senhor gostaria de ajuda”. Disse-a que não, que estava apenas olhando, e então me ocorreu que a lembrança de que eu, negro, 1,83m, dreads, moletom, sou assustador.

ao realizer tal fato, logo pus me a pagar, pois em nada me interessa amedrontar as moçoilas ja que São Paulo é mesmo uma cidade perigosa para uma farmácia as 20h da noite. negar o problema da segurança pública nos afasta das pessoas em geral e em nada ajuda, além de ser desnecessário para afirmar uma luta anti-racista e de esquerda, só demonstra falta de capacidade de lidar com o Real e sua incapacidade de se escrito de maneira confortável em nosso discurso.

além disso perdi o gosto por zanzar pelas gondolas e ter o prazer de consumir como qualquer outra pessoa.

ao efetuar o pagamento no entanto, fiz questão de fazê-lo com meu Apple Watch. não nego o gozo de quebrar com as expectativas de vez em quando. ostentar para nós tem um significado diferente embora eu não me ilude que isto seja algum tipo de vitória coletiva ou até mesmo individual. vendo minha força de trabalho para o sistema (vale do silício) e compro brinquedos caros para me entreter e esquecer de tal fato. nada revolucionário nisso.

mas foi sair da loja que me dei conta que talvez ela pensasse que eu roubara tal relógio. é meio chato porquê meu plano de surpreendê-la sendo um negro com certo poder aquisitivo então provavelmente falhara. que pena.

e então me veio o seguinte insight:

no futuro, eu terei um chip implantado em mim ou haverá um reconhecimento facial, ou algo do gênero, e toda minha ficha será levantada em segundos via internet.

eles vão vender essa realidade aterrorizante como uma solução para o racismo.

hoje a minha ficha é pseudo-levantada a partir do meu rosto, cabelo e roupas. mas com esse upgrade, eles lerão meu rosto ou meu chip ou ainda celular e rapidamente saberão que sou um homem honesto e trabalhador, que jamais foi parar numa delegacia nem por um baseadinho (como muitos de meus conhecidos brancos), nunca roubou nem uma bala (como muitos de meus conhecidos brancos) e que nem sequer pechincha ou parcela o pagamento das coisas. nunca se endividou, exímio pagador, estudado (nível superior), gentil, que até ajudou algumas velhas (brancas) a atravessarem a rua outro dia. que tem empatia até com o pobre trabalhador que me toma por assaltante (coitado, ser assaltado é foda e é um medo real!).

e me veio à cabeça que eu vou me ficar mais tranquilo com essa tecnologia. e o trabalhador também.

é uma merda isso. deve ser uma merda pra você ler isso. tomara que seja, significa que você entende o real impacto desse insight: eles vão vender reconhecimento facial como solução pro racismo. assim como vendem camera na farda do PM como solução pra violência policial.

e talvez estejam certos. afinal de contas a escolha é entre o ruim e o pior.

fique ligado. em breve mais textos irritantes, imorais, alienados, verdadeiros harakiris sociais!

 
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from john

Beleza então, o objetivo agora é reduzir onde for possível minha dependência do ecossistema tecnológico do google.

o primeiro passo foi criar um novo email principal no protonmail. agora pretendo parar de usar o google docs e o calendário da minha conta ggl pessoal. e transferir isso pro nextcloud.

então alguns princípios informando essa migração:

  1. evitar as big techs;
  2. software livre, de preferência;
  3. soberania digital e autonomia tecnológica.

agradeço a inspiração e as dicas do felipe siles!

Seguimos!

#softwareLivre #soberaniaDigital

 
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from blog do pedro

Não façais, vocês, atos performativos em nome de ressentidos, pois estes que aí estão, jamais se alegrarão. Além de que teus recalques em nada servem. Gozai de tua fortuna. É tudo o que tens. Quem sabe assim te livres para algo além de ti mesmo e então podeis ouvir.

 
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from groselhas

Problemáticas e possibilidades dentro do veganismo: o veganismo é cristão?

Começo o texto me apresentando brevemente.

Sou Ana, 24 anos, (ovolacto)vegetariana desde 2018, vegana em alguns períodos dentro desse espaço de tempo (2018-2023). Antes que alguma pessoa vegana torça o nariz e diga que não há “ex-vegane”, apenas aqueles que não entenderam de fato os princípios éticos do veganismo, peço calma. Melhor ler o texto inteiro antes de julgar.

E por que eu dei uma “pausa” no veganismo?

O principal motivo foi a minha incapacidade de me organizar cotidianamente para cozinhar, fruto de uma disfunção executiva associada a um autismo identificado tardiamente, aliado ao desenvolvimento de um incipiente transtorno alimentar. O veganismo propõe a adoção do vegetarianismo estrito*, e dietas restritivas podem levar a episódios de compulsão alimentar. Em resumo, eu não estava comendo, e quando comia, comia alimentos de origem animal escondida em grandes quantidades. Não me orgulho disso; obviamente, minha experiência não deve ser basilar para justificar por que o veganismo não dá certo ou qualquer bobagem do tipo. Apenas relato minha experiência pessoal.

*O vegetarianismo estrito é uma dieta baseada apenas em produtos de origem vegetal. Como o veganismo prevê a não-exploração de animais em todas as esferas da vida humana, por consequência todos os veganos são vegetarianos estritos, mas é possível ser vegetariano estrito e não ser vegano.

Fora os aspectos práticos, posso dizer que durante a pandemia de COVID-19, o veganismo foi meu interesse especial. Dessa forma, eu dormia e acordava pensando em implicações éticas do veganismo; relato essa questão para que compreendam que não sou uma pessoa iniciante no assunto. Militei pela causa, participei de coletivos locais e nacionais, e mesmo assim, achei prudente me afastar. Alguma coisa havia estremecido minha no veganismo.

A essa altura, pessoas veganas que leem o texto já devem ter pensado: como assim você militava comendo coisas de origem animal escondida? A cara não queimava de vergonha? Pois é, queimava. Foi aí que eu comecei a perceber que alguma coisa não estava andando bem.

Por que algo que deveria me enriquecer eticamente, ser um modo de vida saudável e com compaixão, estava me trazendo um nível de stress significante ao ponto de me levar a um transtorno alimentar?

O uso da palavra “fé” alguns parágrafos atrás não foi por coincidência. A relação das pessoas veganas com o veganismo é similar a de uma fé professa, apesar do veganismo não ser uma religião, e os princípios éticos do veganismo esbarram muitas vezes em uma ética cristã.

Elaboro.

A ideia de que o veganismo está intrinsecamente ligado ao cristianismo não é minha, na verdade, ela foi cantada por indígenas (em retomada ou não) no Twitter alguns anos atrás. Gostaria de lembrar a pessoa que tocou nesse assunto para dar-lhe os devidos créditos, mas infelizmente já não me lembro exatamente quem foi.

Enfim, não é novidade que o veganismo, especialmente o veganismo praticado por pessoas brancas, está frequentemente em embates com culturas indígenas. Afinal de contas, se o veganismo é atravessado por uma ética animal que busca abolir a exploração animal, o vegano não pode relativizar o que julga ser exploração animal. Diversas culturas, indígenas ou não, utilizam de produtos animais e animais em si. Portanto, a interface entre veganos (especialmente brancos) e indígenas é permeada por racismo.

Aqui eu de forma alguma afirmo que o veganismo é necessariamente branco ou que indígenas não podem ser veganos. Qualquer pessoa pode ser vegana, e o veganismo conta com expoentes em diversas etnias. Entretanto, é importante reforçar os embates entre a ética vegana e os paradigmas culturais vigentes em sociedades.

A pessoa indígena em questão delimitou as aproximações entre veganismo e cristianismo enquanto uma parte cultural importante da sociedade em que vivemos, especialmente quando analisamos as origens do veganismo no Ocidente. É verdade que hoje em dia o veganismo praticado no sul global tem atravessamentos anti-capitalistas fortes, muito mais do que no norte global. Entretanto, as raízes epistemológicas do veganismo seguem com forte influência europeia, e cristã.

Venho repetindo a influência cristã no veganismo, mas por que afirmo isso?

O vegano não pode utilizar de animais, ou de seus derivados, porque, devido à senciência (capacidade de animais humanos ou não de sentirem sensações de forma consciente), seria imoral ser dono, explorar, utilizar, aproveitar-se, machucar, matar, qualquer outro ser senciente. O ponto de discordância mais crucial ocorre entre veganos e outras culturas que têm relações diversas com animais. Aqui, não me refiro à cultura pecuarista de dominação animal. Definitivamente, essa cultura é destrutiva, machista e cruel (para descrever isso, o livro A Política Sexual da Carne, de Carol J. Adams, é exemplar). Refiro-me, entretanto, a cosmovisões de pessoas que enxergam os animais como seus iguais, mas não têm essa premissa de que matar ou utilizar-se de produtos animais seja algo eticamente repreensível.

Lógico que não defendo que matar seja acriticamente correto. Aqui, o que está em jogo é o papel da morte em cada sociedade. A visão da morte enquanto algo carregado negativamente não é unanimidade em todas as culturas, nem todas as mortes são processos violentos. É nesse aspecto que o veganismo se aproxima do cristianismo: a máxima “não matarás” é o ponto principal do veganismo.

A esse ponto do texto, você talvez esteja se dizendo: “mas a relação de povos originários com animais não é a mesma que nós na sociedade ocidental temos”. E concordo com seu pensamento. A crueldade com que animais humanos e não-humanos são tratados em meio ao capitalismo tardio não tem precedentes, e deve ser combatida. Talvez nesse aspecto o termo “especismo*” seja importante para descrever a relação de superioridade, reafirmada na Bíblia cristã, entre humanos e animais não-humanos.

*O especismo é a noção de que humanos são superiores a outros animais não-humanos. Entretanto, esse conceito é atravessado por diversas questões: TODOS os humanos são vistos como superiores a outros animais, ou essa noção vale apenas para os brancos? E quais são as manifestações do especismo nas relações humanos-animais não-humanos?

Outro aspecto tipicamente cristão do veganismo é a relação de abstinência e culpabilização individual. Os veganos são esperados de se absterem de todos os produtos possíveis de origem animal, gerando um sentimento de culpa gigantesco naqueles que não o conseguem por razões múltiplas. Como eu ilustrei nos primeiros parágrafos do texto, a abstinência é um fardo pesado e pouco eficaz para a transformação de visão de mundo de uma pessoa. No veganismo, o adepto é tratado como um ex-dependente químico é tratado na igreja, falando muitas vezes da vida pecaminosa que levava antes de ser eticamente correto.

Como sou uma pessoa que se identifica como ateísta e que fugiu da(s) igreja(s) cristã(s) desde os 9 anos, todos esses aspectos foram muito pesados para mim, e o são para outras pessoas.

Obviamente, nada se compara ao sofrimento animal em tempos de capitalismo tardio, e eu concordo com isso. O que está em disputa aqui é: a existência de visões de mundo que permitem imaginar novas relações com animais indicam que não necessariamente precisamos passar pelo veganismo. Há outras possibilidades.

Não escrevo essas palavras para incentivar o consumo de produtos de origem animal ou o tratamento degradante de animais, na verdade, penso que o primeiro precisa ser reavaliado e o segundo, abolido. Escrevo para afirmar que o veganismo é um caminho muito cristão de resolver o problema que o próprio cristianismo ajudou a impor: a superioridade de humanos em relação a animais. Talvez outras formas de enxergar o mundo e de tratar respeitosamente os animais sejam possíveis.

Esse texto nem de longe esgota as problemáticas e possibilidades do veganismo, não cheguei nem a abordar a polêmica das questões climáticas e ambientais. Entretanto, espero ter contribuído para o debate dentro da comunidade vegana.

P.S.: estou aberta a críticas e sugestões e admito que meu conhecimento do cristianismo não é tão forte quanto poderia ser, então posso ter me equivocado em algum ponto. Fiquem à vontade para contribuir.

 
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from groselhas

Melodrama

Quem é essa pessoa dirigindo o carro? Quem é essa pessoa olhando o motorista? Você manteve os olhos fixos no semáforo, mas o semáforo já estava amarelo. Os tendões brancos em torno do volante, o pé semicontrolado no acelerador. Entra, a casa é sua; Da janela, a vista era cor de rubi. Meus lábios, já secos, procuraram os seus, mas um beijo não é um beijo se de volta os outros lábios não te beijam. Difícil saber o que fiz de errado, mais difícil ainda o que fiz de certo. Você não se dá bem com minha família, disse-me; Nem minhas crias sua barriga quer carregar. O que temos em comum, então? Nada além de um grande fio verde, mas a tesoura estava em tuas mãos. Essa é a fita mais dolorida, saiu pela porta mais escura, não sem antes um afago, mas o gato já não estava lá para observar. Gosto de me abraçar em noites assim, seus braços não estão aqui para sentir as lágrimas grossas, escarlates, a cair. Seria eu digna de ser amada ou apenas um lampejo de ser humano escrevendo suas querelas tristes no meio da madrugada?

 
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