Trinta
Mais uma vez, trabalho durante o meu aniversário. Nessa volta, porém, não estou triste. A busca incessante por um emprego que marcou o começo do ano me causava um mal estar irascível. Logo, escrevo este texto com alguma antecedência, a fim de garantir que eu tenha algum tempo para publicá-lo no dia correto. Aliás, agora que reparei, publiquei o meu relato anterior no dia seguinte ao meu aniversário.
Se eu pudesse ler as publicações futuras como posso com as passadas, como gostaria que o eu passado estivesse lendo isso! Se o pudesse, lhe diria: obrigado! Obrigado por ter usado tão bem o tempo de ócio com o aprendizado.
Não há sensação melhor do que ser grato pelo passado.
Por dez anos, temi a hora em que eu completasse 30 anos. Talvez pelo frequente relato de amigos meus que completaram essa idade, talvez por conta de seus ares tristes, temia quando fosse a minha vez de trintar.
Mas, afinal, isso não é tão ruim. O corpo não dói tanto quanto eu esperava. Na verdade não dói de todo. Não me sinto velho. Na verdade ainda sou jovem, ainda aprendo e faço planos. Sim, sei o meu lugar; já não tenho mais tanto tempo quanto aos 20 anos. Meu poder de mobilização coletiva já não é o mesmo. De qualquer forma, agora só preciso mobilizar a mim mesmo.
Além do mais, consegui tudo o que eu queria aos 20. Tenho um livro publicado, a graduação que eu queria e um amor tranquilo. Também aprendi tudo o que eu desejava. Sou um poliglota, um autodidata e sei escrever bem; e sei amar, sei resolver problemas e não temo o trabalho, por mais que eu costume protelar tudo.
Sim, a graduação demorou mais do que eu imaginava, mas isso não é ruim. Na verdade minha jornada teria sido bem diferente caso tivesse concluído o curso no tempo esperado. Se eu tivesse colado grau ano passado, por exemplo, não teria conhecido a linda área que é o ensino de Português como Língua Estrangeira. Talvez nunca teria tido contato tão próximo com gente de África e da América Latina; talvez não teria aprendido tanto francês com os primeiros e aprendido tanto do meu povo com os segundos; talvez minha monografia teria sido bem mais trabalhosa, já que sob mais pressão.
E o que era previsível aconteceu: estou cada vez mais descrente do poder transformador da internet.
De qualquer forma, acho que as redes sociais (mesmo as fediversais) já não cabem mais na minha vida. Performar uma identidade, preocupar-se com alcance de público, interagir com gente estranha a qual nunca se verá na vida ou da qual se saberá muito pouco, entreter-se com o entretenimento do outro, “compartilhar”, “comentar”, “favoritar” ― que forma mais estúpida de passar as horas! E não se falem nem nas plataformas de entretenimento. Atravessar as horas rolando conteúdo efêmero e de baixo nível de informação ― que forma mais estúpida de passar a vida!
Definitivamente, nada disso é socializar, e está longe até de ser uma extensão da vida social...
Talvez a partir de agora eu me dedique mais a este ou outros blogues que eu venha a criar. O blogue é o marco zero da internet; é simples, de baixa manutenção, organizável, acessível para quem escreve e para quem lê; ao lado do mensageiro, do telefone e do e-mail, é o fio mínimo entre a vida e o virtual; lento, é o antídoto perfeito para FOMO. Slow-web.
Temo ficar antiquado? Com certeza. Mas o tempo confirmará que a luta que assumi era a que me cabia, i.e., a luta pela reinvidicação por uma vida simples e lenta.
Mas agora a internet é só o lugar aonde vou quando preciso ganhar dinheiro ou perder tempo. Nada mais. Game over! Que pena... Vamos tomar uma cerveja?
Afinal de contas, me interessa mesmo é a vida. Sou um ser concreto, que se fascina pelo real. Por isso mesmo me interessa tanto o Budismo. Por isso mesmo me interessam tanto o analógico, o offline, o protodigital, o ordinário, o imanente. Por isso me interessam tão pouco (agora mesmo quase nada) a internet, a fantasia, a psicodelia, o transcedente, o entorpecente. Sonho com o dia em que o onírico não se separará do empírico. Aí, sim, vivo pleno. Hoje mesmo já não sonho quando durmo; a noite é simplesmente um véu negro que cobre o meu rosto. O sonho é um mistério que já não me seduz. E, bom, não faz mal, porque, como dizia o cancioneiro cearense,
A minha alucinação é suportar o dia a dia, e meu delírio é a experiência com coisas reais.
Leia o último relato de aniversário.
CC BY-NC 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter