A tentação no terror e na política

Se pararmos pra pensar, a tentação, passar vontade, não é condenável. Mas diziam que são sete pecados capitais: a gula, luxúria, vaidade, orgulho, raiva e mais uns outros tantos.

Mas querer comer mais um pouco é condenado? Os mandamentos católicos apostólicos romanos indicam que querer se amostrar, cogitar em se orgulhar, pensar em transar, sentir tesão leva a gente pro tormento eterno no colinho do capeta?

Não faço a menor ideia da resposta biblicamente correta disso aí. Nunca li a bíblia por inteira, por que peguei canseira das missas católicas de domingo depois de pegar bicho do pé na Igreja. Apesar disso, esse monte de pertubação de juízo católica fez morada na minha cabeça. A culpa e a autoindulgência sempre tiveram seu lugarzinho aqui. Mas esses tempos me peguei pensando muito na tentação.

Pertubação de juízo, passar vontade. Talvez essa seja uma forma boa de olhar pra tentação. Aquela voz baixinha de desenho animado que não te dá paz, sobrevoando teu ombro, aquele pensamento intrusivo de fazer uma parada que talvez tu saiba que não possa.

Na política, a extrema-direita morre da tentação: tu não pode ter o menor contato com um mínimo de solidariedade que corre o risco de virar “comunista”. Tinha aquela história, que aparece no filme do ex-presidente Mujica preso na ditadura Uruguaia (eu acho), de que os milico tinham medo que os guerrilheiros convencessem até os torturadores e os convertessem no pecado de ser revolucionário, tamanha era a lábia que imaginavam que a galera tinha.

Mihakil Bakunin, anarquista russo das antigas e anticlerical, escreveu um texto chamado “CATECISMO REVOLUCIONÁRIO”. Teria ele, um ateu anticlerical, sofrido tentação da disciplina da Igreja para pensar a organização política que colocaria o capital abaixo? Provavelmente não. Mas todo o texto “Deus e o Estado”, sua crítica ao idealismo parte da noção de que se um iluminado tenta organizar a vida dos outros com ideias única e exclusivamente do seu cu da sua cabeça certamente vai terminar brutalizando a vida, como foram as Igrejas católicas, o Estado e o capitalismo. De toda forma, ele se “suja” de tudo que critica para, enfim, fazer sua crítica.

Ver a tentação como algo positivo talvez possa ser nada mais do que uma forma de sentimento de lidarmos com a contradição e a encararmos, superar a curiosidade e se situar no mundo.

Na ficção, os filmes de terror a tentação é um sentimento de lei. Vampiros são esses seres: sedutores, mas violentos, apropriados em algumas histórias pra questionar as hierarquias sociais, o racismo e a LGBTfobia (o patriarcado depende), mas moralmente questionáveis. Sentem uma vontade incontrolável de sangue e de seduzir homens e mulheres por esporte (e fome), mas também deslocados da sociedade e injustiçados. Eles encarnam um bom exemplo de tentação.

Os filmes e histórias de terror são vários e infinitos, mas sempre me questionei o por quê de termos tanta curiosidade com essas histórias. Seria a tentação de ver o diferente? De ver uma pertubação na ordem conservadora dos vários contos de terror com monstruosidades? Por que ver algo que nos dá medo? É pela adrenalina?

Não tenho as respostas disso. Mas foram pensamentos que me passaram nos últimos meses, vivenciando a volta de uma extrema-direita fascista no mundo enquanto leio e assisto histórias de vampiros como a série Entrevista com um Vampiro, os animes Vampire Hunter D: Bloodlust, mangás de horror do Junji Ito com incômodos mundanos levados ao absurdo e lendo contos de terror paraenses de Tanto Tupiassu no livro Dois Mortos e a Morte.

Como a tentação pode ser cultivada na política revolucionária? Como a tentação pode ser cultivada na superação definitiva do capital, do racismo e do patriarcado? Não tenho certeza, mas se para os capitalistas reacionários que organizam nossas vidas ser tentado é um problema, talvez haja um ponto aqui. Recentemente traduzida no Brasil, no livro Multidões e partido a comunista Jodi Dean incorpora um debate anarquista e autonomista e nos traz a importância da solidariedade enquanto um sentimento central na organização política comunista, por que só ela seria capaz de romper com esta ordem das coisas que bota cada um pra pensar no seu próprio umbigo, o individualismo burguês. Só a solidariedade rompe barreiras policiais que impedem um ato contra aumentos de tarifa de andar, impede um despejo de uma ocupação de prédios da especulação imobiliária ou produz comida de forma igualitária e sem veneno. Só a solidariedade cria um mundo novo.

Talvez devêssemos cultivar, junto dela, da tentação. Se os conservadores e reacionários nos dizem diariamente que essa vida é ruim, é realmente bruta, viril e violenta, “só os fortes sobrevivem”, em lugar dessa barbaridade devemos cultivar a tentação pela vida, pela solidariedade, igualdade e liberdade. Instingar e incomodar com a tentação de que a vida pode ser melhor, mais leve e menos bruta . Lembrar isso junto aos nossos e aos de baixo que foram seduzidos por ideias reacionárias é uma forma de desatar o nó entre as classes populares e o fascismo.

Fim deste rascunho e ideias jogadas ao ar.

Gustavo Serafim Doutorando em Ciência Política no Programa de Pós Graduação em Ciência Política da Universidade de Brasília