Sobre uma adaptação feliz

Imagem de uma cartomante ao lado de uma trabalhadora que sorri; estão em uma sala escura, com seus rostos iluminados.

Cena de “Hora da Estrela” (1986).

Releituras e adaptações ― e samples (e remixes) ― participam ativamente do cotidiano da contemporaneidade. Nada mais pode ser novo, ao mesmo tempo em que nada pode ser singular. Há dessas peças “secundárias” por aí que expandem e mastigam tão bem a “fonte” que até lhe superam em alguns níveis.

É o caso do filme “Hora da Estrela” (1986), de Suzana Amaral, adaptado da novela homônima de Clarice Lispector. A obra literária, que, ao ser lida, dá a impressão de que foi escrita de má vontade (em alguns momentos da vida da autora chegou até a ser renegada), com personagens mal desenvolvidos e “manchada” com uma voz de um narrador às vezes egocêntrico, toma uma vitalidade muito maior na película de Suzana.

Aqui, a protagonista Macabéa é muito mais sensível, sem tomar, no entanto, o centro da narrativa. Há em jogo outras personagens, tão vivas quanto esta: suas companheiras da “pensão para moças”; Glória, sua colega de trabalho; e a cartomante (aliás genialmente interpretada por uma quase irreconhecível Fernanda Montenegro).

O filme tem um tal desenvolvimento de suas figuras, que por vezes parece que o que vemos na maior parte do tempo trata-se, não de uma personagem principal, mas de uma personagem observadora. Aí, mais do que no livro, Macabéa é praticamente engolida por suas pares, permanecendo, inclusive, muitas vezes em segundo plano na fotografia.

É aqui talvez onde resida o fio estruturante da obra: é como se tivéssemos diante de nós um spin-off, a história não contada dos figurantes ao redor da boa-ventura de Glória, a princesinha injustiçada que ganha o final feliz erroneamente prometido a Macabéa.

Como nem tudo é perfeito, o filme carece de uma boa trilha sonora à altura de Macabéa, paralém do ruído da Rádio Relógio ― inclusive outra dessas personagens inauguradas pelo longa-metragem.

“Hora da Estrela” está em exibição nos cinemas por ocasião de seu vindouro aniversário de 40 anos, com restauração do projeto Sessão Vitrine Petrobrás.

#notas #cultura


CC BY-SA 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter