Choro como saudação
Estou lendo O Triste Fim de Policarpo Quaresma e uma passagem me chamou atenção:
“[...] lhe bateram à porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os cabelos, como se tivesse perdido a mulher ou um filho.
[...]
Eis aí! Vocês não têm a mínima noção das cousas da nossa terra. Queriam que eu apertasse a mão. Isto não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam os tupinambás.”
– O triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto
A referência à saudação tupinambá, conhecida como saudação lacrimosa me lembrou de já ter presenciado cena muito semelhante durante uma visita a uma aldeia kayapó. A medida que chegavam as visitas, tanto anfitriões quanto visitantes se lançavam em um choro profundo e emocionado. Acho que só os mais velhos faziam isso, ao cumprimentarem-se entre si. Na ocasião, me explicaram que eles não se viam há muito tempo e uma forma de se cumprimentar nesse caso era chorando pelos amigos e parentes falecidos, os lutos que não tiveram oportunidade de serem compartilhados.
Não sei se o sentido da prática impresso pelos kayapó de hoje é o mesmo dos tupinambás do séc. XVII – que é de onde vêm as descrições de naturalistas europeus que, na ficção de Lima Barreto, inspiraram o major Policarpo. De qualquer forma, é desses costumes indígenas que deixam atônitos os não-indígenas e guardam sentidos e sensibilidades profundas.
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