Sobre uma iconografia da desconexão
Escrevi o Manifesto Offpunk com @ploum@mamot.fr, mas tomei a liberdade de desenhar os signos que o anunciariam. Como não tenho certeza de que esses estão claros para todos, decidi dissertar um pouco sobre o porquê de minhas escolhas.
Alguns desses comentários vêm de conversas que tive com @diegopds@bolha.us ― que, aliás, escreveu um pouco sobre o meu texto.
O primeiro símbolo que pensei relacionado ao estar desconectado que pensei seria o ícone de rede sem fio com uma haste de proibição. Porém, lembrei já quase de imediato da moda oportunista, e rapidamente caída no ostracismo, da frase “Não temos wi-fi, conversem entre vocês” posta nos cafés e restaurantes dos primeiros anos da Web 2.0.
Queria, então, trabalhar com uma ideia ambígua a partir desse ícone, que não o anulasse, mas que, ao mesmo tempo, o subvertesse. A melhor opção, então, seria invertê-lo.
Por um lado a rede sem fio invertida lembra um pouco a pirâmide. Aí se estabeleceria um ideograma (isto é, dois ícones cruzados para dar ideia de um terceiro): a inversão por um lado indica que a conectividade sugere um exercício de poder (do usuário, que tem nesta um símbolo de prestígio, mas também das empresas de tecnologia, concentradoras do capital desse mercdo); por outro, “inverter” a rede é uma atitude iconoclasta, análoga a retirar-lhe a importância.
É como os ateus que invertem a cruz cristã. Assim como a cruz cristã invertida, o símbolo “Offpunk” apontam para o chão, para o inferno.
Há uma contradição no meio disso tudo: a internet sempre foi a promessa do transcendente; o sinal de wi-fi, porém, aponta para baixo, o que indicia o terreno e o imanente. O signo do Offpunk não resolve essa contradição, e até o perturba ainda mais: postura que almeja uma presença plena, apontando para cima, tende a dar, por sua vez, ideia de transcendência.
Porém, tudo isso vem de um esforço também de não se definir pela negação. Como dito há pouco, em um primeiro momento, rascunhei uma logo de “Proibido wi-fi”. Isso soaria como um discurso bem conservador. O “anti-tudo” não cria, só descria.
Mas o que me motivou mesmo a mantê-lo é que ele passa a ideia ploumiana de “offline-first”, como expresso em seu “Computador feito para durar 50 anos”. Ao ler o manifesto do Forever Computer, percebi que ir contra a conectividade compulsória e compulsiva não é defender o fim da internet, mas apropriar-se da conectividade e adequá-la ritmo da vida.
Como eu disse no Manifesto, o Offpunk enquanto estética ainda não é estabelecido. O ícone de rede invertida é o primeiro passo nessa direção.
CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter