Resenha sobre o filme “Trapo” (2025) de João Chimendes

ATENÇÃO: este texto revela o final do filme; portanto, se você é sensível a esse tipo de informação, sugiro que assista ao curta de 20 minutos antes de ler o texto.

Imagem do filme, onde vemos um menino sentado entregando um vidro de catchup à sua amiga, que está de pé

Meus filmes preferidos são aqueles que continuam me acompanhando, em minha cabeça, mesmo dias ou até semanas depois de assisti-los. É o caso deste curta-metragem, Trapo, do diretor João Chimendes, produzido na cidade de Uruguaiana-RS. A princípio, achei o filme apenas divertido, uma espécie de Saneamento Básico protagonizado por crianças, mas as reflexões da obra continuaram se aprofundando na minha mente por dias.

Uruguaiana tem cerca de 100 mil habitantes, cerca de 30 mil a mais do que a cidade onde moro, Cosmópolis-SP. Faço esse registro porque minha interpretação da mensagem do filme passa muito pelo reconhecimento de uma poética produzida por pessoas que têm problemas parecidos com os que eu enfrento na condição de artista suburbano.

Trapo nos apresenta o protagonista Léo, um menino que sonha em ser cineasta e fazer filmes. “Sonho” é eufemismo: o menino é obcecado pela ideia, e praticamente todas as suas ações no filme convergem para esse objetivo. O filme começa com Léo perdendo a sua comparsa no plano, a amiguinha Manu, que compartilha com ele o celular e um peixe, que são peças importantes na produção cinematográfica que estão fazendo. Léo perde sua companheira Manu para Porto Alegre, para a cidade grande, e eis que o nosso pequeno herói se depara com seu primeiro obstáculo para se tornar um cineasta: a solidão e também a condição de suburbano, interiorano. Ao perder sua comparsa, Léo sangra pelo catchup cenográfico improvisado para o filme.

A partir daí, o nosso pequeno herói Léo terá que enfrentar o segundo e mais difícil obstáculo em sua jornada de cineasta: a própria família. Essa é uma realidade de pessoas marginalizadas que desejam se tornar artistas. A verdade nua e crua é que, com algumas exceções, a porra da família só atrapalha esse nosso sonho. Não o fazem por mal, mas, como engrenagens de um sistema que as colocou em posição subalterna, elas reproduzem as opressões que sofreram, dificultando ou até impedindo os filhos de acessar as oportunidades que lhes foram negadas pela sociedade, com o objetivo de protegê-los de dores e frustrações, gerando assim (adivinha), dor e frustração. É um papel semelhante ao que podemos observar no filme Matrix: qualquer pessoa comum, ao perceber uma ameaça à Matrix, transforma-se no Agente Smith e defende aquele mundo, com aquelas regras, a qualquer custo. A maioria dos artistas periféricos e marginalizados precisa transpor a própria família como obstáculo, e os traumas e feridas decorrentes dessa luta costumam acompanhá-los pelo resto de sua trajetória, compondo suas poéticas e visões artísticas.

Léo precisa lutar contra um mundo que é hostil ao seu sonho autêntico; tudo nele parece uma violência nesse sentido. Precisa enfrentar a mãe, que, à duras penas, o sustenta sozinha, com seu trabalho de costureira. Mergulhada na sua necessidade de sobreviver, a mãe não compreende o garoto. Quando ele pergunta se uma câmera fotográfica funciona, ela responde que aquilo é lixo. O sonho de Léo é lixo para a sociedade como está estabelecida, e a sociedade como está estabelecida, em efeito de espelho, é lixo para Léo, como veremos no episódio com o celular de sua tia.

Léo, malandramente, engana a própria tia para roubar seu celular, e poder fazer seus filmes. Para liberar espaço na memória, apaga todas as fotos da tia, que são selfies muito parecidas. Aqui, Léo demonstra sua transgressão, desobediência e falta de identificação com um mundo superficial e homogeneizante, que registra de maneira plastificada todas as experiências no formato de selfie. É a própria quebra do personagem com a ideia do ensimesmamento contemporâneo, em oposição a uma ideia de mundo que desperta reflexão, arte, que deixa legado, que tem especificidade e autenticidade.

Léo ainda envia por aplicativo de mensagem uma foto mostrando o dedo do meio para um peguete de sua tia. Porque é isso: ao artista marginalizado, suburbano, o mundo é hostil; somos forjados nessa hostilidade, e não temos sangue de barata e nem precisamos reproduzir um bom mocismo agradável para a classe média estabelecida. Ser artista marginal é xingar a própria mãe de palavrão, é roubar o celular da própria tia. É ser desobediente, é conservar-se ético e fiel à sua autenticidade em um mundo que quer aprisionar você na homogeneidade e na superficialidade, mesmo que isso signifique ter um mau comportamento frente àqueles que são obstáculos a este objetivo.

Eis que Léo passa, em sua jornada, pela morte do herói: é obrigado a devolver o celular da tia, ouve a maior bronca, chora e implora para que a tia não apague seu filme. Ainda é acusado pela própria mãe, desconfiada pelo episódio anterior, de roubar os seus tecidos, a matéria prima do seu ganha-pão. Briga com a mãe, xinga-a com alguns palavrões, discute, enfrenta e chora. Léo não é um herói nos moldes virtuosos do bom mocismo. É humano: sonha, encanta-se, grita, chora, rouba, mente e xinga.

E, no final do filme, na virada em que Léo enfrenta a mãe e foge de casa, ou seja, ao transpor o seu maior obstáculo, ele encontra, no meio do mato, à noite, uma figura mítica, formada pelos trapos de sua mãe, segurando o peixe de Manu. Essa figura mítica abre ampla margem para diversas interpretações e subjetividades. Minha interpretação é de que ela representa a própria ARTE; ou seja, Léo encontra seu verdadeiro espírito artístico, que é formado por uma estranha amálgama de suas dores e dificuldades (os trapos do trabalho da mãe) com seu sonho (o peixe, que também remete à amizade e parceria com Manu). Uma figura que mistura a beleza poética à estranheza e ao desconforto, ou seja, a própria arte. É um final muito lindo e surpreendente, já que o filme aparentemente não indica que teremos um desfecho fantástico.

Trapo é um dos filmes mais impressionantes que eu já vi, pela competência de trazer tanta profundidade em 20 minutos de história. Para mim não é nenhuma surpresa ter levado o prêmio de melhor filme gaúcho no tradicional Festival de Gramado-RS. Foi também um dos filmes que mais falou comigo, com as minhas dores e delícias de ser um artista periférico: de cidade pequena, negro e vindo das classes populares. Não sou diferente de Léo, não abrimos mão de sermos artistas, mesmo com a sociedade capitalista sendo hostil às nossas verdades. Ser artista é um compromisso ético com essa auntenticidade e com o mundo que desejamos; a despeito das dores do processo, se mil vidas eu tivesse, nas mil vidas eu seria artista. Porque manter-se artista nesse mundo plastificado e superficial é escolher manter-se vivo.

Mais curta-metragens e menos reels!

Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima! Felipe Siles é pesquisador musical, educador e produtor cultural. Escrevo esta coluna voluntariamente, mas se quiser me pagar um cafezinho e contribuir para que eu escreva mais, segue minha chave pix: felipesilespix@protonmail.com Este blogue não possui nenhum compromisso com a chamada big tech nem com a divulgação nas redes antissociais, então se você quer receber as postagens novas, sugiro utilizar um agregador RSS e acrescentar nele o seguinte link: https://blog.ayom.media/felipe-siles/feed/

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