Ayom

Reader

Read the latest posts from Ayom.

from Ideias de Chirico


Estou ocupado com vários textos ao mesmo tempo, mas não gostaria de deixar este espaço emarasmado. Aqui vai uma curadoria de minhas publicações do meu perfil @arlon@harpia.red, de status de Whatsapp ou rascunhos de rascunhos, i. e., pensamentos que tive durante a escrita desta Ideia de Chirico. Por puro acaso, enquanto editava este texto, percebi que a maioria destas notas falam somente de tecnologia e de Fediverso. O post desta vez é sem foto; estou com um problema na nuvem.

Sobre moda e intimidade esmartefônica

Interpreto capinha como “roupa de telefone”.

Quando ele está em casa, fica sem nada, peladinho como veio ao mundo.

Offline-first

Após ler um ensaio do @ploum@mamot.fr imaginando a construção de um computador que dure 50 anos ― onde também se fala do princípio de #offlinefirst / #localfirst ―, tive ganas de criar um diretório local de arquivos para consulta rápida e sem internet.

Já baixei alguns mapas (América do Sul, Brasil, Ceará etc.). Tentei baixar o mapa de infraestrutura da minha cidade pelo Open Street Maps, mas não consegui direitinho. Penso em baixar o repositório inteiro da Wikipédia, que pesa em média 50 GB. Antes dessa ideia, eu já tinha debaixo da manga dois dicionarinhos de regência ― nominal e verbal ―, do Celso Luft. Nunca se sabe quando será necessário saber se se tem “esperança por algo” ou “esperança de algo”. Nada garante que nessa ocasião haverá internet disponível.

Citação

Você já viu um viciado em crack dizer que está sem dinheiro para comprar drogas? Não, ele levanta e faz acontecer.

– Algum coach em algum lugar do mundo.

Via @NoahLoren@ayom.media

Furo fediversal

Descobriram um bugue no desenvolvimento do Pixelfed, no qual caso um usuário dessa plataforma siga uma conta privada de outra plataforma, essa conta passa a ser pública para os seguidores do usuário que a seguiu.

Pixelfed leaks private posts from other Fediverse instances.

Dizem que bugues no Pixelfed são frequentes. Cheguei a ter um perfil nessa que é a análoga fediversal do Instagram, e, apesar de não ter publicado tanto nela, gostaria de que tivesse sucesso, já que, de todas as plataformas do protocolo ActivityPub, tem a interface mais amigável e com mais apelo familiar.

Nuvem não é becape

Um fio absurdo do Mastodon com o relato de uma conta de nuvem pela Oracle que foi desativada sem aviso prévio, porque a conta estava “inativa” ― provavelmente a sincronização estava ativada.

After realizing that my servers were offline since the 25th of January 2025, I've been in contact with Oracle support in a multitude of ways trying to figure out why this happened and how we can recover both the account and data.

I wasn't told that my account was disabled. I didn't receive an E-Mail or anything. When logging in, I was simply told that my username or password was incorrect. After (successfully) resetting my password twice, I realized it wasn't about the password. Oracle had just deleted my account without any notice.

This is a public service announcement to never ever use Oracle

Leiam-no inteiro e lembrem-se da máxima do @manualdousuario@mastodon.social

Nuvem não é becape.

Sobre deixar uma “coleirinha” no notebook

Outra noite tive um sonho no qual eu perdia meu notebook, alguém o encontrava, mas, em vez de deixar nos achados e perdidos, acabava se apropriando dele já que o aparelho “não tinha nome”.

Ato contínuo, acordo, abro a tampa da minha máquina e coloco meu e-mail e o meu número de telefone na aba “usuário” do sistema.

Nunca se sabe em que mãos estarão nossos pertences perdidos. Na dúvida, é melhor arriscar a privacidade para ter a chance de ter o objeto de volta, do que perder o objeto e a privacidade...

O gozo da tecnologia responsiva

Resolver um problema no sistema operacional é análogo a afiar uma faca ou engraxar um rolamento; demanda muito tempo, mas ao fim dá aquela sensação de alívio de ter de volta um instrumento como uma extensão do corpo.

Sobre Ghost

Estou animado por Ghost, plataforma de newsletter que entrou para o protocolo ActivityPub. Mas acho a logo deles tão edgy, meio intimidador mesmo, algo que só a logo de X do Twitter me provocou; me lembra também daqueles signos que os alienígenas de “A Chegada” faziam.

Essa logo da Ghost contrasta com as das plataformas fediversais, que têm um aspecto mais amigável e convidativo.

Apesar disso, gostaria de experimentá-la, cruzando-lhe meus posts destas Ideias de Chirico para convertê-los em newsletter. Também espero que haja algum rebranding dela conforme fique mais próxima do éthos fediversal.

Sonho de consumo no Fediverso

Abrir o texto de um link como se fosse um post e ter a opção de compartilhá-lo na linha do tempo com ou sem comentários como se viesse de um perfil.

Desabafo sobre a mídia pendrive

A mídia mais pau mole que existe é o pendrive.

Não dá segurança ao ser carregado, pode ser perdido facilmente, não tem tatilidade alguma e não tem nada de especial em si. O fato também de ser regravável o torna banal. Por tudo isso, é impossível apegar-se a um pendrive como se apega a um disco, a uma fita ou a um CD. Por acaso, você já recebeu um pendrive de presente de alguém? Não, né? O pendrive não tem sex-appeal, é uma mídia demasiado pau mole.

Não é obviedade dizer que só no Brasil que pendrive é chamado de pendrive. Esse nome é irascível. É da coleção de nomes em inglês que são só faladas no Brasil. Direção Caneta? Nos Estados Unidos ele é literalmente vara USB [USB stick]. Nem por isso ele ganha sex-appeal. Pau USB. Pau mole USB.

Sobre Smithereen

Desativei minha conta Smithereen, a rede fediversal inspirada no Facebook clássico. Ao menos por enquanto. Precisava de uma plataforma que permitisse uma leitura de textos mais longos, que fugisse da lógica seguidores/seguindo e que ao mesmo tempo tivesse um leiaute limpo. Smithereen resolve muito bem esse problema.

No entanto, há uma série de recursos que, talvez propositalmente, não foram implementados. É o caso das hashtags. O desenvolvedor principal do projeto disse que limitou o uso de hashtag para evitar ao máximo que o usuário veja conteúdo de fora de sua federação.

Além disso, faltam implementações básicas do tipo ajuste de letra e modos noturno e diurno. Como a hashtag, esse recurso aparentemente está deliberadamente ignorado.

Agora é esperar até que apareça alguma instância #Friendica brasileira estável.Estou atento por exemplo à f.capivarinha.club. Essa será a próxima rede que experimentarei. Pelo que sei, Friendica é um hub, que permite a leitura e compartilhamento de notícias de feeds RSS.

Rede social fez um mal danado...

Pagando um psicólogo pra tentar me convencer de que não é porque um texto meu não teve muitos compartilhamentos que isso significa que ele seja ruim.

Outra proposta de aportuguesamento

Fork → Garfo

Ex.

O Linux Lite é um sistema garfo do Xubuntu.

P. S.: sugestão do @eltonfc@bertha.social é de utilizar a palavra “forquilha”.

Segundo o dicionário Dicio, “forquilha” é

  1. Ferramenta agrícola composta por uma haste de duas ou três pontas, semelhantes às pontas de um garfo, usada para remexer mato ou palha; garfo, forca, forqueta, forcado; 2. Tronco com uma bifurcação na ponte; forqueta; 3. objeto bifurcado, com duas pontas, como um Y.

Exemplo de uso:

Fizeram uma forquilha do cliente oficial do Pixelfed.

O Mastodon foi recentemente forquilhado.

A comunidade fediversal

são os tuiteiros que amadureceram e fizeram psicoterapia.

Um desejo

Cantar o 4’33” do John Cage em um karaokê…

A alegria de descobrir e o mistério de compartir (e vice-versa)

Baixar coisas é tão legal!

De alguma forma misteriosa você pega um arquivo de alguém desconhecido de algum lugar ignoto do planeta e bota isso diretamente no seu computador. E aí pode ter acesso ao arquivo sem internet!

Isso não é legal?!

Citação

se o Estado te obriga a ter um celular para acessar serviços públicos o Estado deveria dar celulares e powerbanks e acesso ilimitado à internet pra todas as pessoas. Que mundo bizarro e maluco que a gente se enfiou com essas tranqueiras tecnológicas, é enlouquecedor

― Citação da sempre genial @apropriagui@masto.donte.com.br

#notas #tecnologia


 
Read more...

from daltux

Publico a cópia de um e-mail que enviei como resposta a algo que, graças à Web Social federada, tem me deixado encafifado em outros contextos. Talvez possa vir a ser útil como inspiração ou cópia em situações similares. Foi reação a uma mensagem recebida pela lista geral de servidores do órgão para o qual trabalho, com apenas uma imagem contendo texto:

Caros(as) colegas da Comissão de Ética da [universidade],

Desde logo, muito obrigado pelo texto inspirador.

Escrevo esta mensagem na esperança de gerar reflexão a respeito de qual seria a necessidade de converter um texto para imagem antes de transmiti-lo, tanto do ponto de vista da eficiência computacional quanto da acessibilidade universal.

Quantos caracteres teria o texto de uma lauda? Talvez, cerca de dois mil? Supondo essa quantidade, o arquivo em questão, no formato JPEG, resultado de compressão com perdas, com cerca de 800kB, ocupa, em tese, quatrocentas vezes mais que o texto original, potencialmente em cada caixa destinatária de correio eletrônico e outros locais. Ao ser aberta e carregada na memória do computador cliente, na realidade essa imagem possui cerca de 20MB de dados, dez mil vezes mais do que o texto. Antes mesmo disso, para gerar a imagem e comprimi-la, houve um considerável processamento, leia-se energia/água, que não seria necessário caso o texto tivesse sido diretamente transmitido, assim como também há para abri-la em cada destino.

A principal questão aqui, todavia, da forma como está, é a dificuldade ou impossibilidade de acesso ao conteúdo por quem não puder ver a imagem, por qualquer razão. Um texto puro tem condições de ser lido de diversas maneiras em dispositivos bem mais simples e, também, por intermédio de mecanismos de “texto para voz” (TTS). Não sou especialista em acessibilidade e nem necessito seu uso no momento, felizmente, além de também estar diante de um equipamento capaz de exibir imagens. Mesmo assim, solidário às necessidades de outras pessoas, tenho aderido à ideia de contribuirmos com a universalização do acesso ao conhecimento com algo tão simples como isto: transmitir texto e descrever imagens.

Caso entendam a matéria relevante, além de adotarem a ideia, fica ainda como sugestão de pauta para alguma publicação futura.

At.te,

#acessibilidadade #ética #universidade #email

 
Read more...

from Felipe Siles

Após a última derrota acachapante da seleção brasileira masculina de futebol para a Argentina, em partida válida pelas Eliminatórias da Copa, ocorrida em 25 de março de 2025, fui pesquisar em portais conhecidos para ler opiniões sobre o ocorrido. Porém, o texto que me chamou a atenção foi publicado no mesmo dia da partida às 11h33 da manhã, ou seja, é anterior ao certame. A publicação tem autoria da jornalista Milly Lacombe e é entitulado Declarações de jogadores da seleção indicam por que Neymar virou um culto. Lacombe demonstra, de forma brilhante, como Neymar se tornou um mito, que representa algo de um passado mítico do futebol brasileiro que desejamos resgatar, mas ao mesmo tempo em que, em termos materiais, ele não é um jogador de futebol de elite, na prática, há pelo menos sete anos. Para reforçar a questão do mito, Lacombe exalta também o quanto transformamos artificialmente esse jogador num camisa 10, sendo que em sua melhor versão (entre 2015 e 2017), Neymar era um ponta esquerdo, agudo, driblador, ou seja, um camisa 11. Essa crença cega — por parte de jogadores, comissão técnica, e até parte da torcida e imprensa — em um mito, um culto, um herói que, sozinho, vai resgatar a mágica do futebol brasileira e nos trazer o hexa, me chamou a atenção para um descompasso entre o meio do futebol masculino (e seus muitos agentes) e a realidade concreta e material. Mas observando outros fatos, percebi que se trata de uma recorrência e não de um caso isolado.

Em minha opinião pessoal, Neymar é uma pessoa que usou o futebol para atingir seu objetivo verdadeiro, o de se tornar uma celebridade. No Brasil, um país com desigualdade social terminal e sérios problemas estruturais, é de se imaginar que as camadas populares desejem a mobilidade social. Sempre foi assim, inclusive. Para os mais pobres, historicamente, a música e o esporte foram caminhos mais pavimentados para isso, então é normal que, nesse contexto, jovens de origem popular se identifiquem com estrelas do esporte e da música, e sonhem com esse estrelato, para que tenham acesso ao que foi negado a eles: uma vida de conforto material. Isso inclusive é legítimo. Porém, o fenômeno da instagramação da vida distorce esse sonho legítimo, prometendo fama e fortuna para qualquer suposto reles mortal que conseguir seguidores, engajamento e joinhas. Um prato cheio para a juventude que sonha com uma vida melhor, que vê no Neymar como alguém que alcançou esse sucesso. É bom lembrar que o brasileiro passa, em média, 56% do seu tempo acordado em frente à telas de smartphones e computadores, e os aplicativos onde passa maior parte de seu tempo são todos da chamada big tech, sendo o Instagram o grande campeão, consumindo 35% desse tempo online. Trocando em miúdos, o brasileiro passa, em média, mais tempo em um mundo fictício moldado pela publicidade e pelo oligopólio do que lidando com a realidade concreta e material.

Essa instagramação da vida aprofunda um deslocamento com a realidade material, que culmina em fenômenos interligados: fake news, negacionismo climático e científico, mitomania recorrente de políticos e chefes de estado, entre outras coisas. Quando olhamos para a realidade social da maioria dos jogadores, é fácil notar (até pela cor de suas peles e pela textura de seus cabelos) que a maioria esmagadora veio das classes populares, mais suscetíveis a esses fenômenos, tendo o Instagram como uma das poucas formas acessíveis de lazer e entretenimento (já que a polícia brasileira mata jovens negros em bailes funk, melhor ficar vivo vendo Reels mesmo). Olhando por essa forma, fica factível compreender porque o fenômeno da extrema direita no Brasil tem grande lastro popular, e isso afeta esses jogadores, mesmo os que atuam na Europa. É relativamente comum ver jogadores brasileiros de futebol masculino se manifestando politicamente do lado da extrema direita. Um dos mais conhecidos nesse sentido é o ex-volante com passagem marcante pelo Palmeiras, Felipe Melo. Felipe Melo, um simbolo dessa bravataria viril, naturalmente aplaudiu as declarações de “porrada nos argentinos” dadas pelo atacante da seleção Raphinha no podcast do ex-atacante e ídolo da seleção Romário. O resultado, vexatório para Raphinha e para o futebol brasileiro, veio na forma de porrada simbólica no futebol praticado pelos argentinos na partida.

Engajamento, likes e número de seguidores, nas regras atuais do futebol, não alteram o placar de uma partida, atualmente são os gols que fazem isso. Mas ao invés de se concentrar em realizar um trabalho pé no chão para que os gols aconteçam, toda a cadeia do futebol brasileira dobra a aposta na bravata. Tite, um técnico de personalidade mais pragmática, procurou montar o time de forma sólida, olhando para a realidade do futebol brasileiro no mundo, colocou a seleção de forma honrosa no lugar compatível com seu futebol praticado: quartas de finais nas últimas duas Copas do Mundo, ou seja, entre as oito melhores seleções do mundo, um lugar decepcionante se pensarmos na história do futebol brasileiro, mas bem ok, se pensarmos na desorganização e estrutura desse mesmo futebol na atualidade. Mas pragmatismo e realidade não geram engajamento com essa população que passa metade de sua vida no Instagram, e o técnico Tite até hoje é extremamente impopular, sendo que os representantes do futebol arte no imaginário comum ainda são os integrantes da seleção de 2006 cujos heróis mitológicos, pasmem, alcançaram o mesmo resultado de Tite na Copa: quartas de final. Essa parcela da população, que venera 2006, é a mesma que espera que o Tigrinho ou alguma BET traga o hexa para nós.

Após o término do contrato de Tite, em 2022, o Brasil se organizou atrás de uma promessa, a vinda de Carlo Ancelotti para o comando da seleção. Para aguardar o término de contrato do italiano, colocou dois técnicos interinos no comando da amarelinha: inicialmente Ramón Menezes e, posteriormente, Fernando Diniz, ambos com resultados catastróficos. Diante da realidade material da renovação de contrato de Ancelotti com o Real Madrid, Ednaldo Rodrigues contrata Dorival Júnior, que assume o posto mobilizando o discurso do resgate desse futebol mítico, com a famigerada e desgastada cartada de valorização dos atletas que atuam no território nacional. Aproveitando o fato de que infelizmetne citei o famigerado personagem Ednaldo Rodrigues, é bom lembrar que foi recentemente reeleito presidente da CBF com declarações denominando como “triunfo da democracia” o pleito em que foi candidato único. Voltando à Dorival, alguns meses antes, em setembro de 2024, o técnico prometeu o Brasil na final da Copa do Mundo.

A bravata, a promessa e a ilusão (des)estruturam e (des)organizam o futebol brasileiro atualmente, que chegou a um nível de aprofundamento de sua natureza no entretenimento e escapismo à condição radical de inimigo da realidade material. Bem na época em que o futebol se torna mais racional, científico, onde se consolida na metrópole comercial e econômica, a Europa, o futebol dos dados, estatísticas, scouts e profissionais com conhecimento científico. O Brasil confirma sua vocação vira-latas e vai ficando para trás nesse quesito, e esperneia com a bravata de que nosso jeito de fazer as coisas ainda é melhor, na base do improviso, do talento, das soluções fáceis e da resolução através de um herói mítico individual. Em uma terra fértil para o pensamento coach (que curiosamente significa treinador esporivo em inglês), a bravata se torna método em todas as etapas da cadeia de trabalho do futebol masculino, desde o seu presidente (que é quem deveria dar o exemplo) ao garoto que está ingressando na categoria de base de um clube com sonho de jogar na Europa, passando por jogadores profissionais e comissões técnicas, são todos aliados nessa guerra contra a realidade material.

Tenho convicção de que não há solução: podem convocar para a seleção brasileira masculina de futebol apenas jogadores que atuam no Brasil, ou jogadores que atuam na Europa. Podem convocar jogadores cascudos ou bailarinos. Podem convocar jogadores medalhões ou desconhecidos. Podem contratar um técnico estrangeiro renomado. Podem contratar até um técnico de outro planeta. O problema não será resolvido. Porque o problema é cultural e está entranhado em raízes do senso comum do povo brasileiro, que tem sua percepção de realidade moldada pela big tech. No cenário atual nos resta continuar acompanhando esse defunto vivo, chamado seleção brasileira masculina de futebol, que morreu em 2014 no Mineirão, mas que para nosso desespero continua nos assombrando a cada data FIFA.

 
Leia mais...

from yuribravos

Outro dia estava escutando o podcast Fio da Meada, o episódio com a Paola Carosella sobre cozinhar como um ato de rebeldia.

Ela falava sobre como lhe cansava os vídeos que um tomate cai numa bancada e aparece completamente picado, um frango é jogado numa frigideira e surge já dourado e de como tudo isso não ensina a cozinhar coisa nenhuma.


Uma das coisas inusitadas que faço é dar aulas de acrobacia. Pratico desde 2013, com um ano de pausa enquanto fiz intercâmbio. Isso soma mais de dez anos de prática. Alguns alunos ficam assombrados com certas coisas que demonstro para tentar ensinar. Quase sempre é possível ver na cara deles o pensamento que diz se eu tivesse talento como ele tem...

Não dá pra comparar dez anos de prática com dois meses.

Sempre ressalto que as coisas levam tempo. Como eles, eu também tentei várias coisas, repetidas vezes, sem conseguir executar de forma minimamente decente. Mas à força de repetição as poses e técnicas foram evoluindo até o que hoje eles veem como um único movimento perfeito do início ao fim. Sendo que, na realidade, eu estou num nível só ligeiramente acima da média. Tem tantos movimentos que ainda não domino completamente e tantos outros que até executo, mas estão longe de serem executados de forma limpa e fluida.

Os vídeos da internet que muitas vezes usamos como inspiração para as aulas são também uma armadilha, pois nunca revelam quanto tempo de prática foi preciso para executar aquilo num único take cravado.

Até nos vídeos que mostram tentativas até acertar, o olho mais treinado sabe que as pessoas estão errando de mentirinha para dar a impressão que em três ou quatro tentativas tiveram êxito.

Muitas vezes meu papel de instrutor é lembrar que não dá pra comparar dez anos de prática com dois meses.


Voltando ao podcast com a Paola, ela conta como não aceitou fazer vídeos rápidos ensinando a cozinhar e que decidiu fazer vídeos de uma hora. E que eles estavam indo bem.

Verdade que o Youtube privilegia vídeos mais longo atualmente, pois eles são passíveis de monetização para o criador (ou você não notou que todos os vídeos agora tem mais de dez minutos?) e porque podem inserir mais propagandas dentro da duração. Mas a Paola está certa em mostrar que cozinhar leva tempo. Jogar o tomate na bancada não vai fazê-lo aparecer picado, bater seis fotos em stop motion da colher de pau dentro da panela com molho e transformar num gif não vai reduzir esse molho instantaneamente. Você não pode apressar o fogo.

Ou pode. Sua comida vai queimar.


Vi também um canal, que acho até interessante sobre coquetelaria, ensinando a fazer um super suco de limão que dura muito tempo na geladeiras.

Note que esse vídeo tem 17min pra entrar exatamente naquela questão da monetização do Youtube, mas vamos relevar dessa vez.

Suco de limão é algo que se torna muito azedo se não for consumido pouco tempo depois de feito. Faz parte da oxidação dessa bebida. No vídeo o rapaz explica com detalhes como isso gera desperdício do próprio suco de limão e de tempo, já que é preciso espremer uma quantidade enorme de limões todos os dias para ter o suco necessário para fazer os drinks.

Então para acabar com todo esse desperdício, descobriram que se você colocar proporções exatas de ácido málico e ácido cítrico com cascas de limão, deixar extrair os óleos da casca e depois juntar o suco de dois limões e completar com água você faz um “super suco de limão” que rende muito e dura muito tempo na geladeira!

E assim nós adentramos o mundo dos drinks ultraprocessados! 🍹


É claro que, em restaurantes ou bares que fazem centenas de drinks por dia e que os clientes esperam ser atendidos com a rapidez de um reels, pode ser que consigamos justificar o fato de criar uma bebida sabor limão com 10% de suco integral para fazer drinks.

Ou não. Eu gostaria de beber um drink feito com suco de limão de verdade, mesmo que talvez demore dois minutos a mais para ser feito (o que eu acredito que seja o tempo médio de preparo de suco de um limão).

Eu realmente não gostaria de beber algo feito com dois pózinhos brancos adicionados de água feito para me enganar. Não importa quanto tempo ele dure na geladeira ou se ele tenha sabor artificial idêntico ao natural. As papilas gustativas não saberão diferenciar, talvez, mas quais serão as consequências de saúde dessa ligeireza mentirosa?


Conclusões

As coisas levam tempo e nós só estamos enganados quanto ao efeito instantâneo das redes sociais e da internet. Nada é instantâneo, só não sabemos quais foram os artifícios usados para acelerar o resultado. Se por um lado diminuir o tempo de algumas coisas é muito bom, por outro, acreditar que sempre dá para ser mais rápido é fonte de alienação e frustração. Isso irá nos enganar ou nos esgotar.

Avisos da Paróquia

O Danilo jogou ao vento que eu poderia fazer um blog de sommelier de RPG e talvez faça algo assim mesmo! Provavelmente uma coluna aqui, falando dos jogos que estejam ocupando meu imaginário e o que estou pensando disso.

É isso, e até lá!

 
Leia mais...

from daltux

As corporações, financeiras em especial, acabam mais confundindo os usuários do que ajudando sua conscientização sobre phishing em correio eletrônico. Eis uma tentativa de explicar como foi chegar a essa conclusão:

É sabido que, ao ler uma mensagem, não convém abrir um link para domínio suspeito, ou seja, diverso daquele já conhecido do remetente. Contudo, fica consideravelente mais complicado para leigos lidarem com isso enquanto praticamente todas as mensagens reais remetidas por grandes empresas contêm rastreadores diversos. Esses rastreadores geralmente são usados no intuito de registrar, no mínimo, quem, quando, em que condições e de que origem abriu qual ligação. Pior ainda, algumas vezes essas mensagens chegam a utilizar a mesmíssima ardilosa técnica do phishing: deixam visível no texto da ligação um endereço que claramente seria institucional, quando, no fundo, ela faz referência a outro — de rastreamento. O endereço real normalmente fica oculto. Quando você aciona a ligação e acaba parando na página de destino, mesmo que esta seja correta, pode sequer ter ciência de que passou pelo rastreador intermediário, exceto se prestar atenção ao canto da tela antes de clicar. Isso, pelo menos, é mais fácil perceber em cliente de e-mail ou navegador da Web no computador, digamos, tradicional. Já quando a mensagem é lida em tornozeleira eletrônica de bolso 📱, a pessoa incauta dificilmente nota isso, a não ser que tome precauções ligeiramente mais trabalhosas.

Exemplo de trecho visível de mensagem sobre onde baixar relatórios de rendimentos:

Acesse nosso portal: https://dominioCorretoDaCorporacao.exemplo

Porém, na realidade, tecnicamente falando, a mensagem que aparece poderia ser o resultado da formatação do seguinte trecho de HTML:

Acesse nosso portal: <a href="https://track.qqcoisa.exemplo/BlaBlaBla">https://dominioCorretoDaCorporacao.exemplo</a>

Ao clicar em https://dominioCorretoDaCorporacao.exemplo e possivelmente achando que vai abri-lo diretameente, na prática saria aberto primeiro o endereço https://track.qqcoisa.com/BlaBlaBla que, sendo um rastreador “legítimo”, poderia fazer, além do registro do acesso, o redirecionamento para o tal portal.

Algumas organizações não terceirizam o rastreamento, porém, mesmo assim, realizam o embuste de exibir um endereço que vai dar em outro, ainda que em domínio da própria instituição.

Como fica a cabeça de uma pessoa sem experiência? “Devo clicar ali mesmo senão vou ficar sem a informação” ou “corre que é cilada, Bino”? É fácil dizer que deve procurar pela informação diretamente na página oficial previamente conhecida das instituições. Será que vai mesmo? E como? A probabilidade de deslizes ao consultar notórios mecanismos de busca na Web também não deve ser menosprezada.

A maneira mais segura para identificar o conteúdo ardiloso seria, provavelmente, abrir as mensagens sempre em formato de texto simples. Por que quase todos os leitores de e-mail, sejam eles dedicados ou na Web, formatam as mensagens HTML por padrão? Você sabe como configurar isso no seu? E não vai voltar atrás quando constatar que a maioria das mensagens dessas empresas fica ilegível? Elas realmente não facilitam.

O pessoal acaba ficando cada vez mais receoso com o correio eletrônico — ferramenta que, concebida e em uso há tanto tempo, embora não seja perfeita, serve bem a seus propósitos de forma descentralizada — e acha que deve se comunicar apenas por algum mensageiro instantâneo ou plataforma de publicidade direcionada privativos de liberdade na moda.

Enfim, sem as organizações que mais enviam mensagens supostamente legítimas colaborarem, o oceano de incautos para pescaria por mensagens mal intencionadas permanecerá vasto mesmo.

#phishing #infoSec #engenhariaSocial #segurança #email #golpes

 
Read more...

from Ideias de Chirico


Chovia no campus universitário. Em um banco de areia, logo abaixo de um beiral, concentrava-se uma poça d'água. Pin-pin-ga-gavam sobre ela gentis gotas de uma chuva recente. Nessa lagoinha, faziam-se ondas...

Enquanto caminhava ali perto, o percebi. Sobre o corredor central do campus, em um nível bem mais alto do que a poça, fiquei de cócoras, como fazem os bebês andantes. Observei, ouvi: som de goteira, ondas de pingos, reflexo do céu cinza sobre as águas. E, por um brevíssimo instante, lembrei do que é ser criança.

Fui uma criança introvertida. Quer dizer, eu encontrava alegria na solidão e também no ócio. Como consequência, na maior parte do tempo, estava acompanhado, não das pessoas, mas das coisas. Quando criança, as coisas tinham vida tanto quanto as pessoas.

Um certo quadro idílico da casa de minha avó me entreteu durante minhas visitas; nele, via-se uma criança loira vestida à moda europeia do pós-guerra; sentada sobre uma pedra, pescava à beira de um rio; em segundo plano, havia uma casa em estilo germânico tradicional, emoldurada por algumas montanhas ao fundo. Algumas vezes eu ouvia essas figuras silenciosamente me chamarem, outras, sentia que eu próprio estava dentro da paisagem.

Eu interagia não só com quadros, mas também com as estampas das mesas, com relógios de parede ruidosos, com imagens cristãs kitsch; também falava com as ilustrações nas paredes das escolas e nos livros didáticos, além de enfeites postos no quarto de dormir de meus irmãos. Também os brinquedos, claro, existiam como seres.

Creio que as crianças, assim como os artistas visuais, são privilegiadas por um olhar de “primeiridade”. “Primeiridade”, na teoria dos signos¹ de Peirce, é o primeiro estágio da consciência, no qual vemos as coisas sem associá-las a outras. Isto é, creio que tanto as crianças, quanto os artistas, conseguem ver o mundo por ele mesmo; são capazes de notar os objetos, mesmo os repetidos, sempre como novos.

Tive a sorte de ter tido uma infância introspectiva e também de ter sido um artista visual. Aos 19 anos, enquanto estudava desenho realista, retratei tudo o que tocasse meus olhos: rosas, edifícios, gente. Não importava o que eu desenhasse, o objeto a ser desenhado era um signo precioso, no qual eu deveria imergir ― como eu imergia nos objetos que eu via durante a infância.

Enquanto eu observava a poça d'água no campus, às vezes eu era tentado a pensar, por exemplo, em como a cidade estava alagada, despreparada para a chuva, em como ela atrapalhava os planos das pessoas. O exercício de metonímia, de tomar a parte pelo todo, de ver em um sutil detalhe um grosso problema estrutural, pode até ser cientificamente importante, mas nos afasta da contemplação do presente.

Afinal, por que, conforme envelhecemos, esquecemo-nos de como observar? O adulto não vê o mundos; ele o pensa. Ao me inclinar próximo àquela poça d'água, já não via mais o seu reflexo; nele, reflito sobre um problema que lhe é exterior. Signo e referente imiscuem-se. Visão e pensamento intrometem-se.

Ser adulto é não mais se espantar naturalmente. Por conta do repertório de espanto, adquirido a custosos traumas, estou mais preparado para as intempéries; por outro lado, não vejo mais o que estou vendo, nem penso mais o que estou pensando. Agora vejo e penso, de modo que o que vejo não é o que vejo, e que penso não é o que penso. É como se fossem dois signos sobrepostos, uma espécie de ideograma chinês viciado, sem poesia.

No entanto, também há alguma relação ― quase simbiótica ― entre o olhar da ”retina anatômica” e o olhar da “retina mental” (em termos do poeta Ezra Pound). O período em que comecei a desenhar em estilo realista coincidiu com aquele em que comecei a ler livros. O contorno dos desenhos que eu fazia influenciavam a forma com a qual eu imaginava as personagens dos livros; por vezes eu chegava a desenhar uma cena literária apenas para torná-la mais evidente. Olhar e imaginação cresciam juntos, como músculo e osso.

Tenho a impressão de que, junto à aquisição de um olhar mais “puro” diante das coisas, ganha-se uma imaginação mais fértil; me parece que, à medida que eu melhorava meu desenho, imaginava melhor. A partir desse raciocínio, pode parecer baixa a relação entre a imaginação e a idade, e que aquela está mais ligada ao meio e à educação de quem observa do que o quão velho ele está.

Penso que, mais importante ainda do que uma visão externa mais “limpa” ― livre de racionalizações mais ou menos arbitrárias e intrusivas ―, é a visão interna mais “limpa”, isto é, uma auto-observação mais meditativa; uma visão em primeiridade de quem está vendo a si mesmo. A partir de uma auto-observação em estágio de primeiridade, podemos nos perceber como novos indivíduos.

Meditar é, entre outras coisas, observar a si mesmo como fazemos com nuvens, as ondas do mar ou o movimento das ruas, a fim de nos conhecermos. Observando-se dessa forma, é possível um olhar intrapessoal tanto menos autocomplacente quanto menos exigente e também manchado pela visão externa que guardamos conosco.

Livre do jugo do danoso superego, esse já não seria um olhar adulto, mas um olhar pós-adulto.

¹ = “Signo” aqui quer dizer “Uma coisa que está no lugar de outra”, como assim define o poeta e semioticista Décio Pignatari. Tudo o que representa são signos, ou pode-se mesmo dizer que todas as coisas são signos: as nuvens, o relógio, uma pintura abstrata.

#cotidiano


 
Read more...

from Ideias de Chirico


Elizabeth Sparkle, protagonista de “A Substância”.

Com atraso, após sua premiação de Oscar de “melhor maquiagem e penteados”, assisti ao horror corporal “A Substância”.

O filme narra o declínio de Elizabeth Sparkle, uma ex-atriz premiada que, após ser demitida de um programa televisual de ginástica por ser “muito velha” (segundo seu produtor), aceita um método de rejuvenescimento do mercado ilegal.

O método consiste em injetar em si mesmo uma substância que faz gerar a partir do corpo do injetante uma versão mais jovem sua. Cada versão tem a consciência da pessoa “matriz” por uma semana, enquanto a outra fica inconsciente. Isso requer uma manutenção que, caso não seja feito regularmente por ambas as partes, faz com que uma delas se deteriore e envelheça prematuramente.

Mais do que uma crítica ao patriarcado, “A Substância” centra-se no problema do etarismo. O patriarcado é um mal estrutural antigo, e há peças mais ilustrativas sobre esse tema do que esse filme. Porém, para a nossa sociedade de desempenho (em termos do filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han), envelhecer é um problema, pois os mais velhos não produzem nem dão lucro.

Criticá-lo frontalmente é o ponto mais brilhante e sensível deste longa-metragem. Elizabeth mesma deixou de ser lucrativa para o produtor a partir do momento em que envelheceu e ficou menos “televisível”. Foi então descartada do estafe sem grandes cerimônias, malgrado a sua longa carreira.

A velhice nunca esteve tão distante da beleza e do bem-estar como agora. No ano de 2025, quer-se sempre jovem e potente, seja por aparência, seja por “essência”. E, ironicamente, com menor taxa de nascimento, menor poder de compra e maior desigualdade entre as classes, estamos nos encaminhando para uma sociedade mais velha e sem suporte aos mais idosos.

Os momentos mais marcantes do filme premiado são de Sue “discutindo” com Elizabeth, a chegar até o paroxismo daquela surrar esta. Isso representa tanto a nossa relação com nossos eus futuros, que desprezamos, quanto a relação dos mais jovens com os mais velhos. Mesmo.

Sue, a versão mais jovem de Sparkle.

O “SAC” da “Substância” rejuvenescedora, quando contatada, com frequência diz que “Vocês são uma só”. Mas como uma versão pode fazer mal à outra se ambas fazem parte de uma mesma consciência? Aí reside a genialidade do filme. Conforme as semanas avançam e uma versão adquire mais prestígio do que a outra, cada qual passa a agir displicentemente, sem considerar versão da semana seguinte, a ponto de cada uma adquirir consciência autônoma e até a criar rivalidade entre si. Nas cenas finais do filme, Sue fala em entrevistas de Elizabeth como se essa fosse outra pessoa.

Isso nos faz refletir sobre a relação entre a responsabilidade e a juventude. O senso comum associa a juventude à inconsequência, porque “essa é a sua natureza”, já que “não tem o cérebro totalmente formado” etc. Sue nada mais é do que uma mulher de 50 anos em um corpo de 30. Ainda assim, ela é inconsequente. O que poderia justificar essa postura?

Poder.

E poder no sentido mais concreto de todos: “poder-fazer”. Há gente que com muita frequência desejaria “voltar no tempo com a cabeça que tem hoje”. Mas o poder-fazer cega. Quem garante que se voltássemos no tempo faríamos diferente? Quem garante que não cairíamos na sedutora delícia do erro? Há vezes em que erramos, não porque somos imaturos, mas porque sabemos que aquele é um erro sem a possibilidade de ser repetido...

O longa-metragem apresenta duas falhas notáveis: a falta de aprofundamento nas personagens e de coadunação estética.

Passamos duas horas assistindo a uma mulher que já foi uma Oscar-premiada e não sabemos sequer como foi sua vida de atriz e como sucumbiu à programação barata de televisão, ou por que ela vive sozinha etc. Além de tudo, reduzir uma personagem feminina à sua aparência e sua vida profissional é danoso mesmo em um filme que procura criticar a objetificação feminina.

Outra coisa esquisita é a confusão estética. O cenário e o hábito é todo oitentista, vistos na vestimenta, no uso do jornal e do telefone fixo com fio. Só que a trilha sonora é moderna, e volta e meia damos de cara com telefones celulares e televisões de plasma.

Por outro lado, quando se justapõem cenários, hábitos e tecnologias antigos e modernos, é como se se delineasse uma identificação entre a época atual à sua antecessora. Forma-se daí a ideia de que, nos aspectos apontados pelo filme (patriarcado e etarismo), não evoluímos como sociedade.

No mais, achei o longa-metragem bem próximo do gênero de ficção científica, e me fez refletir sobre o papel da ciência na busca compulsória pela juventude e, por consequência, na pressão social pela conservação da aparência. Por isso, “A Substância” entra para a lista de filmes que poderiam muito bem ser um episódio de Black Mirror.

(Até porque, dado o seu baixo desenvolvimento de personagens e seu trabalho pobre em fotografia ― sobretudo baseado em closes ―, mais parece um episódio de série do que um filme).

#cultura


 
Read more...

from drax

Cultivo

É um dia como outro qualquer na minha humilde fazenda, exceto pela tempestade que ao longe se aproxima. É noite e posso sentir minha exaustão após um longo dia de trabalho. O vento lá fora está muito forte e posso perceber que no horizonte relampeja.Vou fechar as portas e janelas e aguardar a tempestade passar. Um ensurdecedor estrondo me surpreende, aparentemente, um raio caiu bem no meu quintal. Agora a escuridão me cerca e eu me encolho na cama rezando para esse caos passar… E sem perceber, eu apago, um novo dia nasceu. Hora de avaliar os danos, parecem bem menores do que o esperado. Um ou outro galho caído e no meio do quintal, uma marca, deve ser o ponto onde o raio atingiu. Por mais que tenha deixado um largo círculo de grama queimada no chão, estranhamente, não gerou um incêndio e a parte mais estranha de tudo isso é que bem no centro desse círculo uma pequena planta nasceu. Sim, eu sei que é de se estranhar esse fenômeno, mas acima de tudo a misteriosa planta me fascinou, decido cultivá-la. Uma semana se passou, a planta parece com muita saúde, todo dia tenho ido regá-la e ela já se estruturou em um caule de uns 20 cm. Mas algo está me incomodando, parece que as minhas atividades rotineiras que tanto me acostumei estão me cansando mais do que o normal. É algo sutil, porém notável. Faz um mês que eu ritualmente cuido da planta, agora ela se ergueu como uma vistosa pequena árvore de não mais que 1 m. Meu cansaço aumentou significativamente a ponto que passei a deixar algumas tarefas de lado, mas não consigo deixar de cuidar dela. A planta está se tornando uma prioridade na minha vida. Três meses… Meus animais definham, minhas plantações morrem, minha casa está um caos… E eu… Estou sem energia. Mas a planta está bem! Isso é o que importa! Minha mente não funciona mais... Cansaço e fome me tomam… Mas, tenho que terminar de cultivar a planta. Eu abro a porta para o quintal enquanto sinto minha vida se esvair... Eu a vejo, ela deve ter… 1,60… Minha altura… He he… Agora que parei para pensar, essa é uma planta estranha… Da raiz saem dois caules que mais se parecem pernas e estes se juntam num… Tronco? Do tronco saem dois galhos… São braços? E então, no topo, o que parece ser uma cabeça. Me aproximo… A lentos passos me arrasto para aquela que tenho dedicado meus últimos meses… Ela não só parece ter um corpo humano… Altura, proporções e até mesmo as feições do estranho rosto de madeira e folhagens se pareciam… Comigo? A planta começa a mexer… Ela move suas pernas... Erguendo-as da terra... E se cortando de suas raízes… Minha visão está embaçando… Sinto minha vida se afastando de mim… Respiração pesada… Minhas pernas não mais me sustentam e caio de joelhos no chão… Eu olho para cima enquanto ela se aproxima… Ela se inclina na minha direção… Agora não parece mais de madeira nem mesmo é verde… Uma perfeita cópia minha… E então ela suspira nos meus ouvidos as últimas palavras que irei ouvir na minha existência… — Agradeço pela minha vida.

 
Leia mais...

from Ideias de Chirico


Como tornar a tecnologia divertida de novo?

Cartum de Hartley Lin na New York Times. Tradução livre: “Oh, cara, eu adorava brincar com essas coisas antes de elas se conectarem a outras pessoas”.

Sonhamos por anos em ter algum instrumento dopaminérgico prático e que coubesse no bolso, para nos livrar do tédio das horas vagas do trabalho, das viagens intermináveis, das conversas desinteressantes, de horazzz zzzentadozzz na zzzala de ezzzpera. Mas agora, agora já o temos! Viva! Tédio nunca mais!

(Agora temos ansiedade coletiva).

Vez ou outra costumo ver propagandas de computadores dos anos 90, 2000 e 2010. Assistir a propagandas nos ajuda a entender o imaginário dos objetos de consumo. Não me recordo de como era a usabilidade (provavelmente horrível!), mas lembro como cada minuto em frente ao computador era precioso e deveria ser apreciado ao máximo.

A qualquer momento algum parente poderia nos tirar dali para abrir alguma sala de bate-papo ou fazer a mais pixelada vídeo-chamada possível. Estaríamos com nossos computadores pela manhã, e talvez não a veríamos mais pela noite.

A tecnologia eletrônica era divertida. Não era a protagonista de nossos dias, como hoje; era um convidado, aquele tio esquisito que vem de longe contar causos e fazer coisas extraordinárias. Com ele, aprenderíamos algo de novo.

Hoje a tecnologia está estampada em todos os lugares. É o polemista que define o debate público, e é sobre quem mais se fala. Antes, se a tecnologia era uma extensão de nossos olhos, agora é a extensão de nossas bocas ― cada vez mais rançosa e verbal. Se antes, com as redes sociais víamos nossos amigos, agora nela vemos nossos piores inimigos. Parafraseando para este contexto uma fala de Jérémie Zimmermann:

Em quinze anos passamos da era da informática “amiga” para a informática “inimiga”.

A minha relação com a tecnologia mudou de vez por volta de 2014, quando recebi o meu primeiro smartphone, um pequeno Samsung com suas cinco polegadas. A partir do momento que eu pude acessar informações pelo smartphone antes só obtidas pelo computador, notei alguns efeitos nocivos.

Em contraste com o computador, que necessita de um espaço estável e de cabos para estar conectado, os telefones inteligentes trouxeram a portabilidade unida à conectividade sem fio. Isso tirou ritual de “penetrar no mundo virtual” ― sentar-se, ligar o computador, esperar pelo seu longo processo de boot e concentrar-se na navegação de bate-papos e discussões em fóruns.

O telefone, por outro lado, está a todo momento ligado, e pode estar em qualquer lugar, conectado de vários modos. Com o telefone, não há ritual, o ritual está em sair dele, pois a maior parte das atividades cotidianas lhe são atravessadas.

Lembro de quando instalei o Twitter no meu telefone, a rede social que eu mais amava até então. Apesar dessa rede social ter sido desenhada para ser leve e móvel, até 2013 o Twitter era um veículo ao qual eu tinha acesso somente pelo computador. “Tuitar” era um ato imóvel, realizado pelo computador. Quando eu pude então passar a publicar de qualquer lugar onde estivesse, passei a me tornar uma pessoa impulsiva e neurótica.

Impulsiva, porque passei a querer publicar tudo o que viesse à mente, assim, de cara, sem filtro ― um mal do tuiteiro até hoje, inclusive ―: e neurótica, porque passei a redigir mentalmente tuítes viralizáveis ou respostas perfeitas para discussões que eu tinha.

De 2023 para cá, depois de muita experimentação, minha relação com a tecnologia melhorou. Foi quando, pelo Manual do Usuário, conheci a slow web. A slow web é menos um movimento do que um modus operandi perante a internet: a partir dele, freia-se a velocidade da navegação para pô-la em ocasiões pontuais do dia a dia. Navegar passou a não ser um ato ininterrupto, mas sim um evento mais ou menos agendado.

A tecnologia voltou a ser uma visita. Parte até dos meus hábitos que envolvem tecnologias não conectadas são impactados pelo raciocínio slow web, como por exemplo a leitura do meu feed RSS, que faço através do meu Kindle. Em vez de atualizar meu feed diariamente, espero até a próxima sexta-feira para receber as próximas atualizações.

Encontro também mais alegria com um computador pessoal. É nele que penso quando se fala de uma relação saudável com tecnologia. Até hoje tenho um prazer genuíno ao estar com meu laptop Positivo que ganhei quando ainda era adolescente, que, apesar de bem velho, é conservado e ainda resolve todos os meus problemas.

Gosto de como em um computador pode desembuchar com mais agilidade a maior parte de meus problemas, inclusive problemas de comunicação; de como ele pode ser expandido com os mais diversos periféricos; de como pode ser configurado ao meu bel-prazer; de como pode ser consertado em praticamente todos os lugares. Penso até mesmo que a experiência com as redes sociais são bem melhores por um computador!

Parte do prazer com a tecnologia também está em tê-la como um objeto a ser manuseado e configurado; está em tirar a tampa de sua “caixa-preta” e torná-la um instrumento que o usuário domina por completo. E isso, claro, é perpassado por software livre e de código aberto. No blogue da Ava, há um bom argumento para termos controle sobre nossos dispositivos e evitarmos a sua conveniência compulsória.

Sei: não é mais possível recuperar aquela alegria dos primeiros anos da informática. O que relato aqui é o que se ajustou ao meu ritmo e aos meus recursos. Há por exemplo quem tenha conseguido recuperar a alegria pela tecnologia investindo em equipamentos dedicados, como câmeras digitais, tocadores de .mp3, vitrolas, e até máquinas de escrever; há quem conseguiu fugir do vício em telas investindo em um “telefone burro”, dedicado a fazer ligações, ou em um telefone somente para as redes sociais e aplicativos financeiros. Cada um deve fazer o seu estudo de caso e adotar hábitos que lhe caibam.

É necessário dizer também que o discurso que prega a redução do tempo de tela está impregnado pelo discurso da sociedade do desempenho (em termos de Byung-Chul Han), no qual devemos ser chefe e empregado ao mesmo tempo, e nos forçamos a produzir sem parar. Logo, ao tempo que devemos evitar os danos causados pelas tecnologias dopaminérgicas, também devemos evitar o cultivo renitente da culpa pelo descanso, seja ele com um telefone, seja com um livro em mãos.

Sei também que para muitas pessoas o telefone celular é a única fonte de lazer; isso, porém, denuncia mais uma situação de desigualdade do que o estado de arte da informática. No entanto, em uma postura cyberpunk, precisamos compreender os efeitos da tecnologia, apropriar-se deles e neutralizar aquilo que não é conveniente.

Disclaimer: Nenhum texto é uma ilha. Tenho de creditar esta publicação a um tópico de discussão que abri no Lemmy, o fórum fediversal, e que recebeu muitas boas respostas que me fizeram refletir bastante sobre o assunto e desenvolver alguns argumentos desta Ideia de Chirico.

#tecnologia


 
Read more...

from Ideias de Chirico


Imagem de uma piscina em um condomínio fechado. À direita há um parquinho para crianças

Espaço liminal?

Como ando sem pauta, aqui vai um copicola de algumas publicações do meu perfil pessoal do Fediverso, o @arlon@harpia.red. Isso é bom para quem não é da bolha fediversal, e é bom para quem é da bolha fediversal, mas não pôde me acompanhar nos últimos dias. Intercalam esses “tuítes” algumas fotos que tirei nos últimos dois meses.

Proposta de aportuguesamento

Noob = nube.

“Nube” também sugere nuvem. “Nubar” é ser nube, mas ao mesmo tempo sugere “anuviar”, “nublar” etc.

P.S.: “Nube”, ao contrário de outros aportuguesamentos, não tem excedente de caracteres em relação ao seu relativo estrangeiro, o que o pode tornar mais sugestivo.

Pode cagar.

Instagram em modo saudável

Experimentando navegar pelo Instagram somente pela versão web, através da linha do tempo cronológica, evitando os reels nem os stories.

Fosse só isso, seria uma ótima rede social.

Última leitura

Terminei a leitura de “Walden”, de Henri David Thoreau ― mas parece que sigo o lendo…

Desde “Em louvor das sombras”, do Tanizaki Junichiro, não tinha lido um livro tão influente sobre meu comportamento em relação às coisas e aos espaços em geral.

Foto de uma lambreta de cor azul-bebê. Ao fundo, um bosque universitário.

Bibi.

Mais uma dúvida de língua portuguesa respondida

O professor Pasquale me respondeu mais uma dúvida de língua portuguesa!

Ele mantém um programa na Rádio CBN, que se chama A Nossa Língua de Todo Dia, na qual tira dúvidas sobre LP e toca música boa.

A descrição do episódio é a seguinte:

Um ouvinte tem dúvidas sobre o uso dos verbos na forma infinitiva em avisos falados e escritos ou para expressar ordens. Os auxílios luxuosos são ‘Desesperar, Jamais’, com Roberto Ribeiro, e ‘Renascer’, com Zizi Possi.

Aqui o arquivo dele.

Xubuntu é uma merda, mas é bom

Nada como um sistema 100% responsivo. Não é este o caso do Xubuntu.

Estou com ele instalado em um laptop Positivo pré-adolescente (com ~13 anos). Por alguma razão o sistema volta e outra congela. O menu Whisker às vezes demora a responder.

O sistema mais responsivo que peguei até hoje foi o grande Linux Lite. Uma pena só que eu tenha de ir com muita frequência ao terminal. A vantagem do Xubuntu é que ele é muito prático e a maior parte do programas instalo em uma lojinha do sistema.

Pessoa deitada em duas poltronas. Está de casaco. Suas duas mãos estão postas dentro dos bolsos do casaco, enquanto sua cabeça está escondida na toca do casaco.

Performance artística não intencional na Uece, campus de Fátima.

Locais ideais para estudo

Estou estudando e lendo no bloco de música da Uece.

É perfeito. Música ao vivo e “natural” (i.e., sem algum grande evento por trás) é como um limpador sonoro. Há sons de tudo enquanto ao redor do bloco, desde cachorros até ares-condicionados. Mas enquanto há música orgânica, mesmo que improvisada, ela é o que interessa.

Vez ou outra ouço algum trechinho perdido de alguma peça que conheço e às vezes até me dá vontade de ir à sala de estudo, abrir a porta e perguntar: “Onde irão apresentar essa peça?”

#notas


 
Read more...

from Felipe Siles

O fenômeno que vou narrar não é novo, o historiador José Ramos Tinhorão já aponta há muito tempo a identificação da classe média brasileira com a classe média dos Estados Unidos, e a não identificação com a classe popular do Brasil. Segundo a crítica de Tinhorão, presente em diversos de seus livros, essa identificação cultural da classe média com o americano — que se dava principalmente na música (o jazz), no cinema e no vestuário — culminou na Bossa Nova. Porém, a reflexão que eu tento fazer aqui se dá em cima de processo semelhante, mas que foi por mim presenciado no início dos anos 2000: a popularização das séries americanas aqui no Brasil.

Eram os anos 2000, início do governo Lula 1, os Estados Unidos foram abalados pelo atentado terrorista do 11 de setembro de 2001 e, apesar do arranhão, pelo menos naquele momento ainda permaneciam no topo do mundo. No Brasil, por uma série de fatores, começou o processo de grande mobilidade social, levando ao inchaço da classe média no país. Quem vive no Brasil sabe, acho que nem a Judith Butler é capaz de imaginar que por aqui a classe social não é só questão de patrimônio, mas também de performance. A classe popular faz tudo para parecer a classe média, a classe média emula comportamentos da classe dominante, e a classe dominante jura que é pobre, que não é tão privilegiada assim... como dizem, isso aqui não é para amadores.

Essa performance de classe social ocupa o nosso imaginário de uma forma que a gente nem se dá conta direito. Eu, que sou oriundo das classes populares, me lembro que desde criança minha mãe vivia me enchendo a paciência com a questão da aparência: não pode andar na rua de chinelo e bermuda, precisa cortar o cabelo (o cabelo não pode em hipótese nenhuma ficar armado, estilo black), até pra ir no mercado precisa se arrumar.

No Brasil do Lula 1 as placas tectônicas das classes sociais começaram a se mover, e a classe média, que passou a ter os seus ambientes frequentados agora também pelas classes populares (aeroporto, rolezinhos no shopping, etc), precisava se distinguir dos subalternos, no aspecto cultural, o que também não é nada novo (até mesmo antes da Revolução Francesa, os nobres ameaçados pela burguesia que ascendia se diferenciavam pelo gosto artístico). O cinema e a música já não davam mais conta de diferenciar tanto assim as duas classes, já que ambas consumiam mais ou menos os mesmos produtos: a classe média ia no cinema, a classe popular assistia o mesmo filme quando passava na Tela Quente; a classe média comprava CDs, a classe popular ouvia as mesmas músicas no rádio ou em fitas K7. E é nessa mesma época que começou a se popularizar um tipo de entretenimento: a TV à cabo.

É seguro dizer que, nessa época, o principal entretenimento das classes populares era a televisão aberta: novelas, futebol, Jornal Nacional, Silvio Santos, etc. E a classe média, com TV à cabo, gostava de Friends, Two and Half Man, House, Lost. A classe popular consumia as séries americanas só quando passavam dubladas na tv aberta: Todo mundo odeia o Chris é um bom exemplo. Eu me lembro bem do estranhamento que tive, pois a partir do meu ingresso em universidade pública em 2003, passei a conviver com esses dois mundos. Na minha casa a gente assistia Kubanacan e Domingo Legal (assim como na casa de meus amigos do Ensino Médio), já meus amigos de faculdade assistiam Law and Order.

E a classe média, ameaçada pela classe popular ascendente, fazia questão de reforçar esses limites, adquirindo produtos das suas séries preferidas: livros, canecas, camisetas, etc. Conversavam entre eles sobre as tais séries, deixando quem não acompanha esse mundo boiando na conversa. Desenvolviam piadas e compartilhavam referências entre eles: “ah, isso é tão fulaninho do Friends” (p.s.: não sei o nome de nenhum personagem dessa série), também com o objetivo de se diferenciar do pobre, que assistia Ratinho e Ana Maria Braga.

Assim como aconteceu com a música e o cinema, esse consumo de séries hoje se massificou, e não é mais possível diferenciar as classes sociais no Brasil pelos produtos culturais que elas consomem, já que todas consomem os mesmos produtos. Essa massificação deve-se a inúmeros fatores: a TV à cabo que cada mais se popularizou, a chegada do streaming, e das redes antissociais com seus famigerados algoritmos.

Porém, você lembra que o Brasil é o lugar onde o pobre quer parecer a classe média, a classe média quer parecer o rico, e o rico quer parecer o pobre, né? Pois é... O rico pode viajar para os Estados Unidos praticamente a hora que quiser, a classe média não necessariamente, precisa planejar bem a viagem. E essas séries trouxeram uma familiaridade com a cultura, o jeito de pensar e até com a geografia dos Estados Unidos. Sentiram-se contemplados, porque na performance da classe média em parecer classe alta, esse conhecimento pode até fazer com que pareça que eles conhecem a terra do Tio Sam, como se viajassem para lá o tempo todo.

O pobre, assim que teve acesso a esse produto cultural, passou a consumi-lo para performar uma imagem de classe média. Diferente do filme, a série está ali contigo o tempo todo, uma vez por semana, todo dia, depende, mas é uma presença constante, é diferente do filme onde você fica exposto às ideias americanas por duas horas e depois volta pra Banheira do Gugu e pras Videocassetadas. E o povão, que tinha seu imaginário de desejos povoado pela novela das oito, passou a desejar o sonho americano, aquele american way of life. Tanto classe média como classe popular sonham com a mobilidade e ascenção social, e agora ambos buscam essa ascenção através da mesma bússola, que é esse estilo de vida americano, o que também ajuda a explicar o fenômeno do empreendedorismo e a praga dos coachs.

Pouca gente no Brasil conseguiu capitalizar e organizar esse desejo e esse imaginário como a extrema direita, até os dias de hoje inclusive. A babação de ovo para o Trump, o Bolsonaro batendo continência para a bandeira dos Estados Unidos, liberação do porte de armas, importação de movimento antivax, vocabulário coach, tudo isso mexe com o desejo de mobilidade social do povo, que a partir do consumo das séries se organizou e se alinhou ao american way of life. No senso comum do povão, tudo que venha dos Estados Unidos é melhor, sentimento que é muito bem ilustrado pelo personagem Renan do Choque de Cultura. Esse sentimento já existia por conta de Hollywood, mas foi aprofundado com o consumo das séries.

Lógico que as séries sozinhas não são responsáveis pela ascenção do facismo brasileiro, há também a contribuição dos jogos de videogame, filmes, música, comida ultraprocessada e outros produtos culturais. Mas pude ver de perto, o quanto essas séries foram utilizadas como marcador de classe social, na medida que falar mal ou simplesmente dizer que não liga para How I meet your mother ou Orange is new black é como ofender a mãe de algumas pessoas, porque faz a pessoa lembrar que a fronteira entre classe popular e classe média é mais frágil que a masculinidade, o que faz essa pessoa ir correndo para o Starbucks tomar um café meia boca e continuar no auto-engano.

E até hoje, mesmo dentro do campo progressista, eu consigo sacar a origem social de pessoas da minha geração facilmente pelas suas referências culturais. As minhas referências de anos 2000 estavam a maioria na TV aberta, no máximo na MTV, que pegava na TV aberta em alguns lugares. Eu sou capaz de reconhecer infinitos jogadores de futebol, mas devo saber no máximo o nome de uns trinta atores dos Estados Unidos. Vai ver que é por perceber esse fenômeno que eu até hoje não tenho a menor boa vontade com séries, não acompanho quase nenhuma, com poucas exceções. E também porque são muito grandes, tenho mais o que fazer...

 
Leia mais...

from Lento, pero escrevo

A tentação no terror e na política

Se pararmos pra pensar, a tentação, passar vontade, não é condenável. Mas diziam que são sete pecados capitais: a gula, luxúria, vaidade, orgulho, raiva e mais uns outros tantos.

Mas querer comer mais um pouco é condenado? Os mandamentos católicos apostólicos romanos indicam que querer se amostrar, cogitar em se orgulhar, pensar em transar, sentir tesão leva a gente pro tormento eterno no colinho do capeta?

Não faço a menor ideia da resposta biblicamente correta disso aí. Nunca li a bíblia por inteira, por que peguei canseira das missas católicas de domingo depois de pegar bicho do pé na Igreja. Apesar disso, esse monte de pertubação de juízo católica fez morada na minha cabeça. A culpa e a autoindulgência sempre tiveram seu lugarzinho aqui. Mas esses tempos me peguei pensando muito na tentação.

Pertubação de juízo, passar vontade. Talvez essa seja uma forma boa de olhar pra tentação. Aquela voz baixinha de desenho animado que não te dá paz, sobrevoando teu ombro, aquele pensamento intrusivo de fazer uma parada que talvez tu saiba que não possa.

Na política, a extrema-direita morre da tentação: tu não pode ter o menor contato com um mínimo de solidariedade que corre o risco de virar “comunista”. Tinha aquela história, que aparece no filme do ex-presidente Mujica preso na ditadura Uruguaia (eu acho), de que os milico tinham medo que os guerrilheiros convencessem até os torturadores e os convertessem no pecado de ser revolucionário, tamanha era a lábia que imaginavam que a galera tinha.

Mihakil Bakunin, anarquista russo das antigas e anticlerical, escreveu um texto chamado “CATECISMO REVOLUCIONÁRIO”. Teria ele, um ateu anticlerical, sofrido tentação da disciplina da Igreja para pensar a organização política que colocaria o capital abaixo? Provavelmente não. Mas todo o texto “Deus e o Estado”, sua crítica ao idealismo parte da noção de que se um iluminado tenta organizar a vida dos outros com ideias única e exclusivamente do seu cu da sua cabeça certamente vai terminar brutalizando a vida, como foram as Igrejas católicas, o Estado e o capitalismo. De toda forma, ele se “suja” de tudo que critica para, enfim, fazer sua crítica.

Ver a tentação como algo positivo talvez possa ser nada mais do que uma forma de sentimento de lidarmos com a contradição e a encararmos, superar a curiosidade e se situar no mundo.

Na ficção, os filmes de terror a tentação é um sentimento de lei. Vampiros são esses seres: sedutores, mas violentos, apropriados em algumas histórias pra questionar as hierarquias sociais, o racismo e a LGBTfobia (o patriarcado depende), mas moralmente questionáveis. Sentem uma vontade incontrolável de sangue e de seduzir homens e mulheres por esporte (e fome), mas também deslocados da sociedade e injustiçados. Eles encarnam um bom exemplo de tentação.

Os filmes e histórias de terror são vários e infinitos, mas sempre me questionei o por quê de termos tanta curiosidade com essas histórias. Seria a tentação de ver o diferente? De ver uma pertubação na ordem conservadora dos vários contos de terror com monstruosidades? Por que ver algo que nos dá medo? É pela adrenalina?

Não tenho as respostas disso. Mas foram pensamentos que me passaram nos últimos meses, vivenciando a volta de uma extrema-direita fascista no mundo enquanto leio e assisto histórias de vampiros como a série Entrevista com um Vampiro, os animes Vampire Hunter D: Bloodlust, mangás de horror do Junji Ito com incômodos mundanos levados ao absurdo e lendo contos de terror paraenses de Tanto Tupiassu no livro Dois Mortos e a Morte.

Como a tentação pode ser cultivada na política revolucionária? Como a tentação pode ser cultivada na superação definitiva do capital, do racismo e do patriarcado? Não tenho certeza, mas se para os capitalistas reacionários que organizam nossas vidas ser tentado é um problema, talvez haja um ponto aqui. Recentemente traduzida no Brasil, no livro Multidões e partido a comunista Jodi Dean incorpora um debate anarquista e autonomista e nos traz a importância da solidariedade enquanto um sentimento central na organização política comunista, por que só ela seria capaz de romper com esta ordem das coisas que bota cada um pra pensar no seu próprio umbigo, o individualismo burguês. Só a solidariedade rompe barreiras policiais que impedem um ato contra aumentos de tarifa de andar, impede um despejo de uma ocupação de prédios da especulação imobiliária ou produz comida de forma igualitária e sem veneno. Só a solidariedade cria um mundo novo.

Talvez devêssemos cultivar, junto dela, da tentação. Se os conservadores e reacionários nos dizem diariamente que essa vida é ruim, é realmente bruta, viril e violenta, “só os fortes sobrevivem”, em lugar dessa barbaridade devemos cultivar a tentação pela vida, pela solidariedade, igualdade e liberdade. Instingar e incomodar com a tentação de que a vida pode ser melhor, mais leve e menos bruta . Lembrar isso junto aos nossos e aos de baixo que foram seduzidos por ideias reacionárias é uma forma de desatar o nó entre as classes populares e o fascismo.

Fim deste rascunho e ideias jogadas ao ar.

 
Leia mais...

from daltux

Avatar do F-DroidFui instigado por uma publicação no Mastodon que pergunta:

Que apps vcs usam do fdroid?

Como a resposta não coube em 500 caracteres, resolvi redigir, aqui, uma lista com aplicativos que tenho utilizado na tornozeleira eletrônica de bolso Android, instalados com o F-Droid (conheça), sejam eles provenientes do repositório padrão, sejam do repositório IzzyOnDroid ou de outros a serem citados. Todos são software livre, regido por diversas licenças assim consideradas, embora às vezes possam ainda ter dependências não-livres, com eventuais observações na página de cada pacote. Tento ainda colocar para que servem, com o mínimo de palavras.

  • Aegis Authenticator – segundo fator de autenticação (2FA) nos padrões TOTP e HOTP
  • AntennaPod – podcasts
  • Autu Mandu (IzzyOnDroid) – gestão de gastos de automóvel
  • BreezyWeather (IzzyOnDroid | F-Droid) – previsão do tempo
  • Commons – envio de imagens e edição de metadados para Wikimedia Commons
  • DAVx⁵ (IzzyOnDroid) – sincronização de agendas (CalDAV) e contatos (CardDAV). Utilizo com Nextcloud.
  • Download Navi – gerenciador de baixação de arquivos com maior controle
  • Etar – agenda
  • Fedilab – cliente para redes sociais federadas Mastodon, Pleroma, Pixelfed, PeerTube, GNU Social, Friendica e variantes
  • HeliBoard – teclado
  • Imagepipe – remove dados Exif e reduz tamanho de imagem antes de compartilhá-la
  • Jerboa – cliente Lemmy (Ayom Fórum)
  • Jitsi Meet – videoconferência
  • K-9 Mail – cliente de correio eletrônico, utilizado para múltiplas contas
  • KeePassDX – gestor de senhas. Sincronizo com Syncthing.
  • KingInstaller (IzzyOnDroid) – instala aplicativo marcando-o como se tivesse sido instalado por Play Store, a fim de tentar contornar restrições
  • Librera Reader – leitor de e-book
  • Logseq – gestão de conhecimento. Utilizo para anotações. Sincronizo com Syncthing.
  • Monocles chat – mensagens e chamadas individuais e em grupo (XMPP)
  • ~Mull~ – navegador Web compilado a partir do código-fonte do Firefox, porém com mais privacidade e remoção de blobs
    • Projeto descontinuado em 2025. A equipe F-Droid sugere Fennec em seu lugar.
    • Navegadores “amigos da privacidade” podem ser obtidos também pelo FFUpdater
  • NewPipe – cliente leve para YouToba
  • Nextcloud – acesso a arquivos de Nextcloud
  • Nextcloud Talk – mensagens e videoconferência integrada a Nextcloud
  • ntfy – cliente de serviço de notificações push de inúmeras fontes, até por cURL
  • Obtainium – obter/atualizar alguns aplicativos diretamente dos desenvolvedores.
  • OpenKeychain: Easy PGP – criptografia no padrão OpenPGP, podendo ser usado por K-9 Mail, entre outros
  • openScale – gestor do “peso” e de outras métricas corporais
  • Organic Maps – navegação (“GPS”) leve com mapas baixados mensalmente do OpenStreetMap
  • OsmAnd~ – navegação (“GPS”) extremamente minuciosa com mapas baixados mensalmente do OpenStreetMap, opcionalmente podendo ser atualizados a cada hora. Indispensável a quem colabora com o mapa.
  • OSS Document Scanner (IzzyOnDroid) – digitalização de documentos físicos com a câmera da tornozeleira eletrônica de bolso
  • Pano Scrobbler (repositório F-Droid do próprio desenvolvedor) – envia músicas ouvidas nos aplicativos do aparelho para serviços do gênero – utilizo com ListenBrainz
    • Também pode ser instalado pelo Obtainium
  • RiMusic – cliente leve de YouToba Music
    • Ultimamente, baixo o apk do GitHub (com Download Navi) e o instalo com KingInstaller, manobra lamentavelmente necessária se quiser que o aplicativo seja reconhecido por Android Auto e utilizável no aparelho embutido no carro.
  • RustDesk – acesso remoto a ambiente gráfico
  • SalvarEm – permite salvar em qualquer diretório um arquivo compartilhado por qualquer aplicativo
  • SatStat – dados de localização por satélites, bússola, rede celular, WiFi e outros sensores do aparelho
  • SCEE – versão um pouco mais avançada de Street Complete, app para facilmente ajudar a melhorar o OpenStreetMap
  • Syncthing-Fork – cliente do Syncthing, para sincronizar diretórios entre seus dispositivos, sem necessitar de “nuvens”
  • Termux – distribuição GNU dentro do Android com Bash e gerenciamento de pacotes similar ao APT do Debian.
  • Translate You – tradutor
  • VLC – tocador de praticamente qualquer arquivo de mídia. Utilizo com o diretório de músicas locais sincronizadas por Syncthing
  • WiFiAnalyzer – mostra metadados das redes WiFi

Atualizações

  • 2024-01-08
    • Mull/Fennec/FFUpdater e RustDesk, após informe da equipe F-Droid.
    • K-9 Mail, que tinha incrivelmente faltado na lista, bem como OpenKeychain, usados em conjunto, aqui instalados dentro de dita “Pasta Segura” do dispositivo.

Descrição da imagem no início

É o ícone do projeto F-Droid, uma figura em formato que lembra um robô com cabeça verde e corpo azul, retangulares, sem membros. A cabeça, mais achatada, possui dois olhos circulares brancos e de suas extremidades superiores saem duas antenas curtas, também verdes. O corpo ostenta, em azul mais escuro, uma letra C invertida, contida num círculo, o que representa a ideia de Copyleft.

The F-Droid logo – Copyright 2012 William Theaker, 2013 Robert Martinez, 2015 Andrew Nayenko – CC-BY-SA 3.0 Unported || GPLv3+

 
Leia mais...

from Felipe Siles

Esse é um texto bem com cara de final de ano. Afinal, vem o recesso e a maioria dos trabalhadores pode ter um pouco mais de tempo livre, descanso e muitos aproveitam para fazer andar a fila de filmes e séries. Não sou diferente, e apesar de ainda estar trabalhando, por conta da minha vida de profissional autônomo, tenho utilizado essa quebra na minha rotina normal para fazer testes, reflexões, consolidações e ajustes na maneira como eu escolho meu entretenimento audiovisual.

Mas Siles, que chatice! Precisa ser organizado até nisso? Não é só sentar na TV, relaxar e assistir o que quiser? Pode ser, se funciona assim pra você, ótimo! Mas eu acho que se a gente não precisasse de curadoria, não haveriam algoritmos de streamings e redes sociais nos entupindo de sugestões de filmes e séries. Quem conhece bem este blogue, já sacou que eu sou bem avesso a esses algoritmos e sua propaganda, acredito que cada sujeito ou grupo social deveria exercitar investigar o que realmente gosta de consumir, procurando se alienar dessa publicidade (na medida do possível) com o objetivo de auto-conhecimento, auto-descoberta e qualidade de vida, que realmente nos faça descansar do trabalho, e não gere ainda mais ansiedade. Fazendo um paralelo com alimentação, nunca vi propaganda na televisão de alimentos orgânicos, mas apesar disso eles são a parte principal da minha alimentação há muitos anos.

No sentido de evitar a ansiedade, eu sigo alguns princípios, que funcionam para mim. Podem não funcionar para você, mas isso aqui não é um guia ou manual da coisa certa a se fazer, apenas um relato pessoal da experiência que funciona para mim, e aproveite o quanto esse relato for útil para você. Minhas regras, por um entretenimento menos ansioso, são:

  • Prefiro me alienar de lançamentos e de hypes, com exceção de quando tenho a oportunidade de ir ao cinema, porque aí vou inevitavelmente assistir algo que está em cartaz. Mas dentro da minha casa, na frente da minha televisão, tento ao máximo ignorar o que todo mundo tá vendo, afinal sou um radical daquela regra da mamãe: “você não é todo mundo”;
  • Proibido mexer no celular ou em qualquer aparelho digital enquanto assisto um filme, série, etc;
  • O horário de televisão, assim como sua duração é pré estabelecido dentro da minha rotina;
  • Menos é mais, melhor ver poucas coisas e se divertir com elas do que tentar dar conta de várias e ficar perdido, ansioso e entediado, ou ficar criando listas e metas intermináveis e depois lidar com auto-cobrança.

A última regra e uma opinião muito impopular: pessoalmente, evito as séries. Na minha opinião elas são produtos meramente comerciais e sua explosão e popularização só se justifica na necessidade dos serviços de streaming demandarem produtos que vão prender o usuário na assinatura. No meu caso, um trabalhador com tempo livre escasso, as séries além de consumir muito tempo livre, ainda geram um nível de ansiedade, já que elas são produzidas para viciar e provocar a maratona. E sou uma pessoa que valoriza a rotina, as 8 horas de sono, as refeições no horário correto (as minhas costumam ser acompanhadas de um podcast), então dispenso esse formato de entretenimento. E tem uma pitada de old school e saudosismo também, ainda acho que a sétima arte, o cinema, os filmes, ainda é uma forma de entretenimento superior, seja lá o que isso queira dizer.

Substituto as séries por animes, que em geral são ótimos produtos culturais, com duração bem mais curta dos episódios. Enquanto uma série em geral tem episódios de cerca de 1 hora, um anime dificilmente chega a 30 minutos. Ou seja, ao invés de assistir dois episódios de uma série, eu prefiro assistir um filme (ou seja, uma história com começo, meio e fim, pelo menos assim espero rs), ou então 4 episódios de anime (animes diferentes, ou o mesmo anime, se eu estiver maratonando).

Outro detalhe interessante, com essa coisa de diversos streamings irem reduzindo o compartilhamento de assinaturas, fui deixando diversos serviços e atualmente assino apenas dois, que me contemplam bem (Max e Telecine), e compartilho a senha do Crunchyroll, assinado pelo meu irmão. Para as coisas que eu gosto de assistir essas assinaturas são suficientes. E se tiver algum produto cultural que eu queira muito ver, que esteja em outro serviços, sempre existem meios de assistir, se é que você me entende...

Contextualizado o meu gosto pessoal, minhas regras, vamos a como eu monto a minha curadoria:

  • Animes: acabo escolhendo por recomendações de amigos mesmo, esse é um assunto que eu sempre converso em determinadas rodas de amizades. Gosto de acompanhar alguns que ainda estão sendo produzidos, assistindo semanalmente o episódio novo. Gosto muito mais dessa forma de consumir do que as maratonas, acho mais gostoso e menos ansioso assistir desse jeito. Mas não posso negar que às vezes gosto de maratonar um anime, quando ele me pega muito. Vou acompanhando esses que estão sendo produzidos na atualidade uma vez por semana, e também pego um mais “antigo” para ir assistindo aos poucos. Esse “antigo” eu gosto de pegar bem os clássicos mesmo, consagrados pelo gênero e assisto um de cada vez, no máximo dois, não gosto de conciliar vários. Outra coisa, eu evito deixar a “lista de favoritos” muito grande, deixo só os novos que estou acompanhando, e o(s) “antigo(s)”, e quando termino de ver o(s) “antigo(s)”, tiro ele da lista. Atualmente estou considerando como ideal assistir no máximo 4 episódios de anime por dia, e se for futuramente mexer nesse número será para diminuir, e não aumentar;

  • Filmes: eu odeio aquela sensação de indecisão ao escolher um filme. Então já salvo vários que quero assistir na famosa “minha lista” e gosto de definir algum critério para a sequência que vou assistir. Exemplos: todos os filmes do Studio Ghibli (ou de outro estúdio), todos os filmes do Spike Lee (ou de outro diretor), filmes biográficos, filmes com um ator específico, filmes de um gênero específico, todos os filmes de uma trilogia ou coleção, etc. Esse tipo de critério ajuda muito na escolha do filme que vou assistir, já que a escolha é um processo cansativo para o cérebro e a ideia é relaxar e se divertir. E é legal que você fica no clima de um determinado tipo de filme. Por exemplo, assisti na sequência filmes biográficos sobre Pixinguinha e Elis Regina, foi uma experiência interessante e acabei traçando mentalmente diversos paralelos entre essas duas produções. Se nos animes eu evito a “minha lista” muito longa, aqui vou simplesmente adicionando tudo que quero ver, sem muito filtro, mas também não me cobro pra ver tudo num prazo específico, apenas penso nesse monte de filme como se fosse a minha locadora pessoal (essa só o pessoal dos anos 1980 e 1990 vai pegar a referência kkkk).

Outra coisa que acho legal é produzir um registro das coisas que assisto. Tenho utilizado as plataformas Justwatch e Letterboxd para isso. E elas também são muito úteis para descobrir em qual serviço de streaming está algum produto cultural que eu queira ver. Se você quiser me seguir no Letterboxd.

Mais uma coisa: eu não sou dessas pessoas que acha que todo entretenimento tem que ser “cult”, tem que levar à reflexão, etc. tem horas que eu amo assistir um filme de porrada para desligar o cérebro mesmo, viva o escapismo! Mas trocar a realidade dura de trabalhador no capitalismo tardio por um entretenimento raso 100% do tempo, é algo que eu evito também, então tento minimamente equilibrar. Normalmente eu gosto de assistir as coisas mais rasas durante a semana, depois de um dia cansativo de trabalho e deixar a arte mais profunda, “cult”, nobre, etc para os feriados e finais de semana.

Última coisa, prometo: não precisamos ocupar todo o tempo livre também, com filmes, séries, leituras, podcasts, músicas, passeios... o ócio também faz parte da vida, e lidar com ele tem sido um desafio na conteporaneidade, mas penso que valha a pena encará-lo, em nome de uma vida melhor.

Bom descanso, e bom entretenimento!

 
Leia mais...

from daltux

Há anos, tenho usado Mosh para contornar instabilidades e mobilidade de redes, já que ele se baseia em UDP e é bem adequado a isso, sem precisar manter uma “conexão” caso usasse TCP. É projetado para lidar com as perdas e a funcionar conforme haja comunicação.

O problema que enfrentei com Mosh recentemente foi ao precisar passar por máquinas intermediárias (como em ssh -J — vide manual), algo que se tornou necessário recentemente no ambiente de trabalho. Estive desde então pesquisando como resolver isso. Com o próprio Mosh, não consegui adequadamente, embora continue possível utilizá-lo para acessar uma máquina disponível diretamente e abrir N shells com, p. ex. e o que recomendo, Byobu. É um gerenciador de “janelas” de terminal que mantém uma “sessão”, podendo deixá-la aberta, sair e retomar posteriormente, ou que persiste caso haja desconexão. Assim, um multiplexador como Byobu por si só já é uma solução para quem deseja contornar perdas de conexão, mesmo usando o próprio SSH. Aliado ao Mosh, então, formava uma dupla mais eficiente, praticamente infalível. Pena que não consigo fazer o Mosh se comunicar com host que não esteja disponível por SSH, mesmo tentando chamar manualmente os programas servidor e cliente.

Felizmente descobri agora, enfim, o autossh, cujo propósito é simplesmente monitorar o estado da conexão do SSH e reiniciá-la quando ela cai. Para a operação ser viável, configure devidamente uma maneira de se autenticar, preferencialmente com par de chaves, sem que o programa tenha que ficar esperando digitação de senha a cada reconexão. Se não abrir um multiplexador de terminal, também não vai adiantar muito, podendo surgir problemas em uma desconexão súbita. É possível habilitar Byobu para que seja iniciado a cada shell com o comando byobu-enable. A solução com autossh não é tão eficiente quanto mosh, mas já funciona bem, na combinação com Byobu.

Todos eles estão disponíveis nos repositórios principais do Debian GNU/Linux, entre outros. Portanto, recomendo pesquisar os atalhos do Byobu, no caso, para dominá-lo e usá-lo sempre! ( mosh ou autossh ) + byobu já! 💌


Byobu é, na realidade, um conjunto de scripts e configurações que visam tornar tmux ou GNU screen mais amigáveis, utilizando o que estiver disponível entre eles (tmux por padrão). Assim, as afirmações acima valem para eles também, caso prefira usá-los diretamente.


Consta ainda um projeto mais recente, chamado Eternal Terminal, que pretende funcionar semelhantemente a Mosh, porém lidando com TCP e alegando até suportar saltos de SSH. Embora publicado nos termos da licença Apache 2.0, não está disponível nos repositórios Debian oficiais até o momento. Então ainda não o testei, pois já fiquei satisfeito com autossh, fornecido pela distribuição.

#shell #OpenSSH #ssh #byobu #tmux #gnu #GNUlinux #debian #mosh #autossh #unix

 
Leia mais...

from yuribravos

Eu dirijo há mais de uma década. Nunca me envolvi em nenhum acidente sério, embora tenha tido uma ou outra batida de leve, sem danos além dos materiais.

Tirei a carteira de moto depois que casei, pois só tinha uma vaga e não cabiam dois carros. A primeira coisa que me deixou abismado com a motoescola é o fato — completamente aberrante, mas encarado como normal — de não ter aulas práticas no trânsito.

Tudo que te ensinam é se equilibrar sobre a moto e andar na primeira marcha. Nem ensinam a passar as marchas. Isso fica para o motociclista descobrir sozinho no meio da rua. Daí entendi porque há tantos motociclistas que dirigem de forma imprudente e sem noção: eles não foram ensinados a trafegar no meio de outros veículos.

Dito isso, eu já tinha mais de dez anos de prática no volante quando tirei a carteira de moto, então sempre dirigi de forma prudente. De forma correta. Até que, outro dia, tentaram me matar.


Eu também ando de bicicleta. Já andei mais. Por duas vezes fui derrubado por motoristas de carro que ignoraram qualquer regra básica de trânsito como preferênciais. Um deles fugiu, a outra se comprometeu a pagar pelo menos o conserto da minha bicicleta. Em ambos os casos a coisa me pareceu mais desatenção que qualquer outra coisa.

Uma desatenção, é óbvio, pavimentada sobre a percepção que a rua pertence aos carros e que, portanto, tudo mais deve parar e esperar que façam o que bem entenderem.

Nenhuma desculpa para o carrocentrismo das nossas vias urbanas.


Voltava do meu treino, pelo caminho que sempre faço. Tinha passado no mercado pra comprar algo para preparar a janta. No meu caminho, eu dobro à esquerda num entroncamento entre duas avenidas. A pista da direita também é bem comprometida, o que me faz, normalmente, seguir na pista da esquerda por 4 ou 5 quarteirões antes de dobrar no tal entroncamento.

O que não deveria ser um problema, já que vou rodando na velocidade máxima da via, 50km/h. Idealmente ninguém deveria fazer ultrapassagens se seguimos na velocidade máxima. Ainda mais depois das 20h, quando sequer tem trânsito pesado.

Pois bem, nesse dia eu seguia na faixa da esquerda, faltavam 3 quarteirões para virar. Notei, pelo retrovisor, um carro vindo em alta velocidade. Deu sinal de luz, buzinou. Fiz um gesto para que ele seguisse pela direita que estava completamente livre, afinal, logo mais eu iria virar à esquerda.

O motorista assim o fez, mas jogou o carro para cima de mim. Não passou perto o bastante para ser um problema. Não acelerei, apesar de tê-lo xingado mentalmente, e deixei o infeliz seguir seu caminho. Não fiz qualquer gesto agressivo.

Acontece que, como todos sabemos, correr é um auto-engano. Quando chegou no sinal do entroncamento e eu segui para o espaço de espera dos motociclistas, que fica à frente dos carros, acabei passando esse mesmo motorista, que esperava na fila da esquerda. Não fiz nenhum gesto, não alterei a velocidade, apenas segui meu caminho. Parei no mesmo sinal que ele.

O assassino saiu da fila, passou para a direita, parou o carro do meu lado. Baixou o vidro e começou a gritar sobre como eu precisava aprender a dirigir. Não respondi nada, não esbocei reações. O sinal abriu. Saí com minha moto. E pela segunda vez o assassino jogou o carro para cima de mim, dessa vez, encostando.

A sorte é que estava em baixa velocidade. Não cheguei a cair, embora tenha danificado minha moto. Ele fugiu, certo da impunidade.

Fiquei incrédulo. Respirei fundo. A moto ainda funcionava. Segui para casa. Botei uma braçadeira pra segurar a carenagem da moto enquanto não consertava. Registrei um boletim de ocorrência. No dia seguinte, fui à autarquia municipal de trânsito solicitar as filmagens das câmeras. Pois, talvez ele não sabia, mas aquele cruzamento é videomonitorado 24h. Abri o processo de solicitação e aguardei. Quase vinte dias depois, recebi as filmagens.

Infelizmente as instituições não funcionaram: as filmagens pegam exatamente o momento, mas é impossível identificar a placa do carro. A qualidade da imagem é péssima para esse tipo de detalhe.

Ainda assim, se você souber maneiras de melhorar a nitidez de uma filmagem de forma quase mágica, estou aberto a sugestões.


Depois disso, pela primeira vez na vida — as benesses das minhas circunstâncias — fiquei receoso de me locomover na cidade. Pois é evidente que aquele motorista queria me matar. Ele não tinha nenhum motivo para isso, mas queria.

Outro dia, voltando do trabalho 17h, vi uma outra pessoa com um carro grande — evidentemente — dirigindo numa velocidade absurda para as vias coletoras que faziam aquele caminho. O trânsito nem estava caótico, seguia normal. Mas a pessoa dirigia com clara sede de sangue. Quem ela queria matar?

Não sei. Espero que não seja eu, que fiz tudo direitinho, sem fazer mal a ninguém, e ainda assim, virei alvo de matador.

 
Read more...