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    <title>cultura &amp;mdash; Ideias de Chirico</title>
    <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/tag:cultura</link>
    <description>Em lembrança do pintor surrealista greco-italiano Giorgio de Chirico (1888 - 1978), o maior ilustrador de ideias de jerico ― e de Chirico!</description>
    <pubDate>Wed, 14 Oct 2026 20:25:04 +0000</pubDate>
    <item>
      <title>Um passeio pelo apartamento de Ivan Jerônimo</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/uma-passeio-pelo-apartamento-de-ivan-jeronimo</link>
      <description>&lt;![CDATA[Capa do livro &#39;60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento&#39;, de Ivan Jerônimo. O título está contornado por um retângulo vermelho. Ao fundo, uma ilustração de uma visão panorâmica feita em aquarela.&#xA;&#xA;Imagem: capa do livro “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”. Cortesia do autor.&#xA;&#xA;Quem já leu o meu blogroll sabe o quanto admiro a escrita de Ivan Jerônimo ― designer, fotógrafo e jornalista nascido em São Paulo, mas radicado em Florianópolis. Além de grande cronista, Ivan também é um bom curador, sempre lançando ótimas recomendações de leituras no seu Mastodon @ivanjeronimo@bolha.one.&#xA;&#xA;Seu texto blogal, longe de ser mera descrição de suas ilustrações, tem um frescor próprio de quem cresceu com a nata da crônica brasileira e que, não só aprendeu as lições de um Paulo Mendes Campos ou de um Carlos Drummond de Andrade, mas também soube como tornar célebre o célere, ao tempo que amalgama imagem e escrita. É isso que primeiramente me marcou na leitura do seu “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento” (2025).&#xA;&#xA;Já há alguns meses vínhamos trocando e-mails quando decidimos trocar também livros: eu lhe enviaria o meu autopublicado “Estudando Poesia” (2025) e ele me enviaria o seu também autopublicado “60 dias dentro de casa”.&#xA;&#xA;Imagem. O mesmo livro, só que aberto em sua contracapa, onde se vê um macerador com um pilão de pedra desenhado. Sobre isso lê-se &#39;Para Arlon, Obrigado por propor uma troca ― real ― nestes tempos de compartilhamentos efêmeros. Boa leitura! Ivan Jerônimo. Florianópolis, 2/8/26&#xA;&#xA;Imagem: dedicatória do livro (incrível aliás como a tinta escrita se assemelha à tinta impressa!).&#xA;&#xA;“60 dias” foi escrito em um contexto de isolamento severo durante o período de maior urgência da pandemia de Covid-19, a partir daquele fatídico março de 2020 até maio do mesmo ano. Ivan, participante ativo dos Urban Sketchers ― grupos ao redor do mundo que costumam se encontrar para desenhar as cidades (logo, uma atividade outdoor) ―, viu-se em uma condição indoor na qual não poderia desenhar outra coisa a não ser seu apartamento. &#xA;&#xA;Organizou seus registros no livro em quatro seções: “Da janela”, “Objetos”, “Ambientes” e “Autorretratos”. Interessante aliás sua ordem de seleção: suas artes partem do exterior (a vista da janela, a rua, o terraço), passam pelos objetos e espaços internos (cafeteira, cozinha) e culminam numa série de autorretratos ― ou, diríamos, “o interior do interior”. É como se com a urgência do isolamento, sair do “modo piloto” diário tivesse o forçado a voltar-se menos ao mundo e mais a si mesmo; e é como se, a partir do passeio que fez no seu entorno e em sua casa, desse também um passeio em si mesmo.&#xA;&#xA;Livro aberto ao meio, onde se vê ilustrações de um par de tênis de tênis do lado direito, e do lado direito, headphones. Abaixo de cada desenho, um texto detalhando o processo criativo de cada um.&#xA;&#xA;Imagem: ilustrações em “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”.&#xA;&#xA;Não se pode dizer ao certo se é um livro de artes com descrições ou um livro de crônicas ilustradas. Já naquele tempo, sua escrita se revelava despojada e íntima. Junto de cada ilustração, vemos a descrição do processo ilustrativo, o que cada objeto lhe remete, e, por fim, a descrição das ferramentas utilizadas. A miríade de técnicas utilizadas (analógicas e digitais) revelam um artista experimental e curioso.&#xA;&#xA;Como se não bastasse o seu conteúdo, a qualidade da impressão e o papel escolhido (cuchê fosco) conferem ainda mais valor ao livro enquanto objeto.&#xA;&#xA;Livro aberto ao meio, em que se vê outro desenho em aquarela mostrando uma visão panorâmica da cidade de Florianópolis. A ilustração toma duas páginas.&#xA;&#xA;Imagem: ilustrações em “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”.&#xA;&#xA;Em cada página, Ivan dá à vista a vitalidade de espaços ou objetos que costumamos ignorar: a máquina de lavar roupa, o poste, o banheiro. Assim, desautomatizamos nosso olhar diante do banal e do cotidiano, vendo beleza até mesmo nas pequenas engrenagens de nossos utensílios.&#xA;&#xA;Não posso deixar de enxergar nesse foco no minúsculo e no imediato como uma tentativa também de suportar o horror da pandemia, com especial atenção ao Brasil, cujo saldo de mortos pandêmicos ultrapassou 700 mil em dois anos, presente de um governo autoritário e anticientífico que, aliás, ainda tem a audácia de querer retornar nestas eleições.&#xA;&#xA;Livro aberto ao meio, onde se vê ao lado esquerdo, no topo da página, uma ilustração de um toca discos feito em unipin. No restante do espaço, vê-se texto detalhando o processo do desenho.&#xA;&#xA;Imagem: ilustrações em “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”.&#xA;&#xA;“60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento” é uma tímida lição de como a arte pode nos dar abrigo, mas também é a memória íntima de um período de descaso sanitário, o qual não poderemos nunca nos esquecer.&#xA;&#xA;-----&#xA;Sou Arlon de Serra Grande, professor, ensaísta, poeta, entusiasta de Linux e autor do livro autopublicado “Estudando Poesia” em que reflito sobre como se dá o aprendizado da linguagem poética. Se quiser adquirir um exemplar, fazer uma contribuição para este blogueiro, fazer recomendações, sugerir correções de texto ou comentar este post, clique no link abaixo.&#xA;-----&#xA;&#xA;cultura&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://i.postimg.cc/L4cmddKM/1-capa.jpg" alt="Capa do livro &#39;60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento&#39;, de Ivan Jerônimo. O título está contornado por um retângulo vermelho. Ao fundo, uma ilustração de uma visão panorâmica feita em aquarela."></p>

<h5 id="imagem-capa-do-livro-60-dias-dentro-de-casa-um-diário-ilustrado-do-isolamento-cortesia-do-autor">Imagem: capa do livro “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”. Cortesia do autor.</h5>

<p>Quem já leu o meu <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/blogroll" rel="nofollow">blogroll</a> sabe o quanto admiro a escrita de <a href="https://ivanjeronimo.com.br/" rel="nofollow">Ivan Jerônimo</a> ― designer, fotógrafo e jornalista nascido em São Paulo, mas radicado em Florianópolis. Além de grande cronista, Ivan também é um bom curador, sempre lançando ótimas recomendações de leituras no seu Mastodon <a href="https://blog.ayom.media/@/ivanjeronimo@bolha.one" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>ivanjeronimo@bolha.one</span></a>.</p>

<p>Seu texto blogal, longe de ser mera descrição de suas ilustrações, tem um frescor próprio de quem cresceu com a nata da crônica brasileira e que, não só aprendeu as lições de um Paulo Mendes Campos ou de um Carlos Drummond de Andrade, mas também soube como tornar célebre o célere, ao tempo que amalgama imagem e escrita. É isso que primeiramente me marcou na leitura do seu “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento” (2025).</p>

<p>Já há alguns meses vínhamos trocando <em>e-mails</em> quando decidimos trocar também livros: eu lhe enviaria o meu autopublicado “Estudando Poesia” (2025) e ele me enviaria o seu também autopublicado “60 dias dentro de casa”.</p>

<p><img src="https://i.postimg.cc/yx0CTncv/2-dedicatoria.jpg" alt="Imagem. O mesmo livro, só que aberto em sua contracapa, onde se vê um macerador com um pilão de pedra desenhado. Sobre isso lê-se &#39;Para Arlon, Obrigado por propor uma troca ― real ― nestes tempos de compartilhamentos efêmeros. Boa leitura! Ivan Jerônimo. Florianópolis, 2/8/26"></p>

<h5 id="imagem-dedicatória-do-livro-incrível-aliás-como-a-tinta-escrita-se-assemelha-à-tinta-impressa">Imagem: dedicatória do livro (incrível aliás como a tinta escrita se assemelha à tinta impressa!).</h5>

<p>“60 dias” foi escrito em um contexto de isolamento severo durante o período de maior urgência da pandemia de Covid-19, a partir daquele fatídico março de 2020 até maio do mesmo ano. Ivan, participante ativo dos <em>Urban Sketchers</em> ― grupos ao redor do mundo que costumam se encontrar para desenhar as cidades (logo, uma atividade <em>outdoor</em>) ―, viu-se em uma condição <em>indoor</em> na qual não poderia desenhar outra coisa a não ser seu apartamento.</p>

<p>Organizou seus registros no livro em quatro seções: “Da janela”, “Objetos”, “Ambientes” e “Autorretratos”. Interessante aliás sua ordem de seleção: suas artes partem do exterior (a vista da janela, a rua, o terraço), passam pelos objetos e espaços internos (cafeteira, cozinha) e culminam numa série de autorretratos ― ou, diríamos, “o interior do interior”. É como se com a urgência do isolamento, sair do “modo piloto” diário tivesse o forçado a voltar-se menos ao mundo e mais a si mesmo; e é como se, a partir do passeio que fez no seu entorno e em sua casa, desse também um passeio em si mesmo.</p>

<p><img src="https://i.postimg.cc/kMSC9MZk/3-pagina.jpg" alt="Livro aberto ao meio, onde se vê ilustrações de um par de tênis de tênis do lado direito, e do lado direito, headphones. Abaixo de cada desenho, um texto detalhando o processo criativo de cada um." title="Livro aberto ao meio, onde se vê ilustrações de um par de tênis de tênis do lado direito, e do lado direito, headphones. Abaixo de cada desenho, um texto detalhando o processo criativo de cada um."></p>

<h5 id="imagem-ilustrações-em-60-dias-dentro-de-casa-um-diário-ilustrado-do-isolamento">Imagem: ilustrações em “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”.</h5>

<p>Não se pode dizer ao certo se é um livro de artes com descrições ou um livro de crônicas ilustradas. Já naquele tempo, sua escrita se revelava despojada e íntima. Junto de cada ilustração, vemos a descrição do processo ilustrativo, o que cada objeto lhe remete, e, por fim, a descrição das ferramentas utilizadas. A miríade de técnicas utilizadas (analógicas e digitais) revelam um artista experimental e curioso.</p>

<p>Como se não bastasse o seu conteúdo, a qualidade da impressão e o papel escolhido (cuchê fosco) conferem ainda mais valor ao livro enquanto objeto.</p>

<p><img src="https://i.postimg.cc/h4mng4wk/4-pagina.jpg" alt="Livro aberto ao meio, em que se vê outro desenho em aquarela mostrando uma visão panorâmica da cidade de Florianópolis. A ilustração toma duas páginas." title="Livro aberto ao meio, em que se vê outro desenho em aquarela mostrando uma visão panorâmica da cidade de Florianópolis. A ilustração toma duas páginas"></p>

<h5 id="imagem-ilustrações-em-60-dias-dentro-de-casa-um-diário-ilustrado-do-isolamento-1">Imagem: ilustrações em “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”.</h5>

<p>Em cada página, Ivan dá à vista a vitalidade de espaços ou objetos que costumamos ignorar: a máquina de lavar roupa, o poste, o banheiro. Assim, desautomatizamos nosso olhar diante do banal e do cotidiano, vendo beleza até mesmo nas pequenas engrenagens de nossos utensílios.</p>

<p>Não posso deixar de enxergar nesse foco no minúsculo e no imediato como uma tentativa também de suportar o horror da pandemia, com especial atenção ao Brasil, cujo saldo de mortos pandêmicos ultrapassou 700 mil em dois anos, presente de um governo autoritário e anticientífico que, aliás, ainda tem a audácia de querer retornar nestas eleições.</p>

<p><img src="https://i.postimg.cc/PfDHhfc0/5-pagina.jpg" alt="Livro aberto ao meio, onde se vê ao lado esquerdo, no topo da página, uma ilustração de um toca discos feito em unipin. No restante do espaço, vê-se texto detalhando o processo do desenho." title="Livro aberto ao meio, onde se vê ao lado esquerdo, no topo da página, uma ilustração de um toca discos feito em caneta Unipin. No restante do espaço, vê-se texto detalhando o processo do desenho."></p>

<h5 id="imagem-ilustrações-em-60-dias-dentro-de-casa-um-diário-ilustrado-do-isolamento-2">Imagem: ilustrações em “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”.</h5>

<p>“60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento” é uma tímida lição de como a arte pode nos dar abrigo, mas também é a memória íntima de um período de descaso sanitário, o qual não poderemos nunca nos esquecer.</p>

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<p><em>Sou Arlon de Serra Grande, professor, ensaísta, poeta, entusiasta de Linux e autor do livro autopublicado “Estudando Poesia” em que reflito sobre como se dá o aprendizado da linguagem poética. Se quiser adquirir um exemplar, fazer uma contribuição para este blogueiro, fazer recomendações, sugerir correções de texto ou comentar este post, clique no link abaixo.</em></p>

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<p><a href="/ideiasdechirico/tag:cultura" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cultura</span></a></p>

<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/uma-passeio-pelo-apartamento-de-ivan-jeronimo</guid>
      <pubDate>Fri, 09 Oct 2026 00:26:15 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>“Patati &amp; Patatá Cult”</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/patati-and-patata-cult</link>
      <description>&lt;![CDATA[Imagem de dois palhaços dentro de um carrossel de parque de diversões&#xA;&#xA;Imagem: capa do álbum “Sound Circo”, de O Cheiro do Queijo.&#xA;&#xA;Em julho deste ano, um grupo de rap apareceu no programa Cultura Livre, da gloriosa TV Cultura.&#xA;&#xA;No Cultura Livre já apareceram Xablau, Tim Bernardes, Catatau, Juçara Marçal e outros figurões da música alternativa brasileira contemporânea, pateticamente chamada de “nova MPB”.&#xA;&#xA;(Um picho daqui de Fortaleza diz que MPB deveria significar “Música Periférica Brasileira” ― é do que se trata o que vou falar agora).&#xA;&#xA;“A revolução vem do interior” (“Distrito Santo Pacífico”).&#xA;&#xA;E aí esse grupo de rap, além de ser da periferia do Brasil, mais precisamente Maracanaú (na grande Fortaleza), é formado por artistas de rua, gente que cantava em pontos de ônibus. Para ser mais preciso, era gente do circo. Gente da itinerância mesmo.&#xA;&#xA;Mas como dizia vovó, humor é coisa séria.&#xA;&#xA;O Cheiro do Queijo é mais do que um grupo de rap, é um grupo de invenção, isto é, ultrapassa a música e cai no happening, pratica um rap-happening, digo, um rappening.&#xA;&#xA;Afinal, sua música não está singularmente no som ou na palavra, mas no gesto dantesco, na roupa bufônica, no movimento corporal circense; não está aqui ou ali, mas aqui e ali; está em toda parte, com partes que se entrechocam.&#xA;&#xA;E quando não há parte alguma, ainda há palavra falada.&#xA;&#xA;O que interessa mais a este texto, porém, é a tática semiótica dO Cheiro do Queijo. Praticando esse rappening, aparenta ser um happy-rap. Circo, cores, palhaçada, gaiatice: e tascam-lhe de palhaços.&#xA;&#xA;E... de certa forma, eles o são. As letras, longe de carregarem o cenho franzido de um Sabotage ou de um Criolo, esbofetam, zombam, troçam e nos levam a um riso reflexivo, uma habilidade própria dos palhaços.&#xA;&#xA;(Diz-se que nas antigas monarquias aos palhaços, e somente a eles, era dado o direito de criticar o rei ― aliás, Marshall McLuhan, o grande teórico-teólogo das mídias, costumava dizer que toda piada era na verdade uma reclamação).&#xA;&#xA;“Bota a mão na parede!”&#xA;&#xA;Pois bem.&#xA;&#xA;Em comentários nas redes sociais, gente que caiu de paraquedas no vídeo do grupo cearense o batizou de “Patati &amp; Patatá Cult”. Como se afinal fosse algum demérito musical ou estético parecem palhaços.&#xA;&#xA;É ainda aquela ideia renitente na cabeça do povo de que o compositor brasileiro deve ser um “complexado”, que Tom Zé critica em “Complexo de Épico”.&#xA;&#xA;“E eu só queria ser um artista, tive que tirar CNPJ” (“Aburocracia”).&#xA;&#xA;Mas eis que um dos vocalistas dO Cheiro do Queijo, Abu da Pereba, responde à habitual pergunta no fim do programa:&#xA;&#xA;― “Cultura Livre” segundo O Cheiro do Queijo?&#xA;&#xA;― “Cultura Livre” é cearense não precisar vir pra São Paulo pra fazer sucesso.&#xA;&#xA;Riram.&#xA;&#xA;Mas todos nós sabíamos que aquele “palhaço” foi mais sério do que nunca.&#xA;&#xA;cultura&#xA;&#xA;---------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://external-content.duckduckgo.com/iu/?u=https%3A%2F%2Fcdn.albumoftheyear.org%2Falbum%2F909068-sound-circo_220249.jpg&amp;f=1&amp;nofb=1&amp;ipt=e78d55f1d95c0f3b22755d3778992d31af789274433ef9285edf79b998647968" alt="Imagem de dois palhaços dentro de um carrossel de parque de diversões" title="Imagem de dois palhaços dentro de um carrossel de parque de diversões"></p>

<h5 id="imagem-capa-do-álbum-sound-circo-de-o-cheiro-do-queijo">Imagem: capa do álbum “Sound Circo”, de O Cheiro do Queijo.</h5>

<p>Em julho deste ano, um grupo de <em>rap</em> apareceu no programa Cultura Livre, da gloriosa TV Cultura.</p>

<p>No Cultura Livre já apareceram Xablau, Tim Bernardes, Catatau, Juçara Marçal e outros figurões da música alternativa brasileira contemporânea, pateticamente chamada de “nova MPB”.</p>

<p>(Um picho daqui de Fortaleza diz que MPB deveria significar “Música Periférica Brasileira” ― é do que se trata o que vou falar agora).</p>

<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=oL8cddd9ZGE&amp;list=PLq1HBnKbBuIMQ30qSaNpyMHRL8uFEGeFN&amp;index=0" rel="nofollow">“A revolução vem do interior”</a> (“Distrito Santo Pacífico”).</p>

<p>E aí esse grupo de <em>rap</em>, além de ser da periferia do Brasil, mais precisamente Maracanaú (na grande Fortaleza), é formado por artistas de rua, gente que cantava em pontos de ônibus. Para ser mais preciso, era gente do circo. Gente da itinerância mesmo.</p>

<p>Mas como dizia vovó, humor é coisa séria.</p>

<p>O Cheiro do Queijo é mais do que um grupo de <em>rap</em>, é um grupo de invenção, isto é, ultrapassa a música e cai no <em>happening</em>, pratica um <em>rap-happening</em>, digo, um <em>rappening</em>.</p>

<p>Afinal, sua música não está singularmente no som ou na palavra, mas no gesto dantesco, na roupa bufônica, no movimento corporal circense; não está aqui ou ali, mas aqui <em>e</em> ali; está em toda parte, com partes que se entrechocam.</p>

<p>E quando não há parte alguma, ainda há <a href="https://www.youtube.com/watch?v=ZqEBnZRdpkw&amp;list=PLq1HBnKbBuIMQ30qSaNpyMHRL8uFEGeFN&amp;index=0" rel="nofollow">palavra falada</a>.</p>

<p>O que interessa mais a este texto, porém, é a tática semiótica dO Cheiro do Queijo. Praticando esse <em>rappening</em>, aparenta ser um <em>happy-rap</em>. Circo, cores, palhaçada, gaiatice: e tascam-lhe de palhaços.</p>

<p>E... de certa forma, eles o são. As letras, longe de carregarem o cenho franzido de um Sabotage ou de um Criolo, esbofetam, zombam, troçam e nos levam a um riso reflexivo, uma habilidade própria dos palhaços.</p>

<p>(Diz-se que nas antigas monarquias aos palhaços, e somente a eles, era dado o direito de criticar o rei ― aliás, Marshall McLuhan, o grande teórico-teólogo das mídias, costumava dizer que toda piada era na verdade uma reclamação).</p>

<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1g2eGzX5AB4" rel="nofollow">“Bota a mão na parede!”</a></p>

<p>Pois bem.</p>

<p>Em comentários nas redes sociais, gente que caiu de paraquedas no vídeo do grupo cearense o batizou de “Patati &amp; Patatá Cult”. Como se afinal fosse algum demérito musical ou estético parecem palhaços.</p>

<p>É ainda aquela ideia renitente na cabeça do povo de que o compositor brasileiro deve ser um “complexado”, que Tom Zé critica em <a href="https://www.youtube.com/watch?v=4nQtMlraWm4" rel="nofollow">“Complexo de Épico”</a>.</p>

<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=bCon3OjKXRI" rel="nofollow">“E eu só queria ser um artista, tive que tirar CNPJ”</a> (“Aburocracia”).</p>

<p>Mas eis que um dos vocalistas dO Cheiro do Queijo, Abu da Pereba, responde à habitual pergunta no fim do programa:</p>

<p>― “Cultura Livre” segundo O Cheiro do Queijo?</p>

<p>― “Cultura Livre” é cearense não precisar vir pra São Paulo pra fazer sucesso.</p>

<p>Riram.</p>

<p>Mas todos nós sabíamos que aquele “palhaço” foi mais sério do que nunca.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:cultura" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cultura</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/patati-and-patata-cult</guid>
      <pubDate>Sat, 15 Aug 2026 20:02:14 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Em 2026, Brasil levou Hexa</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/em-2026-brasil-levou-hexa</link>
      <description>&lt;![CDATA[A palavra Hexa em cor amarela sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido&#xA;&#xA;Texto alternativo: A palavra “Hexa” em cor amarela sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido. Arte: Arlon de Serra Grande.&#xA;&#xA;Para quem não acreditou, sim, o Brasil levou um hexa...&#xA;&#xA;Não, não vivo em um universo paralelo em que os brasileiros fomos campeões. Me explico:&#xA;&#xA;2006, Copa do Mundo sediada na Alemanha, Brasil perde de 1x0 para a França (com Kaká em campo) ― primeira hecatombe¹; 2010, com sede na África do Sul, já em campo com o influenciador “sabor” jogador Neymar, perdemos de 2x1 para a “Laranja Mecânica” ― segunda hecatombe ― (lembro de me divertir um monte com as montagens do Mundo Canibal sobre os jogos, isso tornou a derrota mais leve); a grande e fatídica hecatombe foi a de 2014 quando, em casa, perdemos de 7x1 para a Alemanha (com Neymar nocauteado, o clima no estádio era de terra arrasada mesmo antes do jogo); 2018, em terra russa, fomos de 2x1 para Bélgica (alguém lembra desse jogo?) ― quarta hecatombe ―; no Qatar, 2022, empatados, perdemos por pênaltis (esse cassino futebolístico) para a Croácia ― quinta hecatombe ―; em solo ianque, 2026, acabamos de sair de oitavas por uma preguiçosa Noruega que nos venceu por 2x1 (com gol de pênalti de Neymar, que por pouco não nos envergonha com uma troca de tapas com o goleiro norueguês) ― sexta hecatombe.&#xA;&#xA;Assim, levamos um hexa ― mas um hexatombe. Seis vezes sacrificado em nome de qualquer coisa que não participe do Brasil enquanto nação. Como li no dia seguinte à derrota, “A ideia da seleção como alma da brasilidade perdeu sentido”.&#xA;&#xA;A palavra Tombe em cor vermelha sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido&#xA;&#xA;Texto alternativo: A palavra “Tombe” em cor vermelha sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido. Arte: Arlon de Serra Grande.&#xA;&#xA;Ao mesmo tempo, já não temos uma nova bossa para chamar de nossa. A esperança da Fórmula 1 morreu. Ainda assim não resistimos ao sonho de sermos campeões no futebol. Avançamos para o segundo quarto do século XXI ainda tentando manter a mesma concepção de país que tínhamos no século anterior.&#xA;&#xA;Por outro lado, nos apareceram o skateboarding, o surfe e a ginástica rítmica, categorias em que fomos ouro nas últimas Olimpíadas. Há ainda a tímida promessa no tênis de mesa de um Hugo Calderano que venceu campeonatos na China, país que acumula basicamente todos os troféus nesse esporte. Ainda por cima, a pouco lembrada poesia experimental e propositiva que herdamos dos poetas concretos de 1950 ainda hoje nos rende frutos...&#xA;&#xA;Vamborandá. Pode ser que esse “hexa” seja um sinal de que devamos jogar menos com bola e jogar mais com ideias a fim de construirmos um outro Brasil ― pós-Pelé, pós-Senna, pós-tudo.&#xA;&#xA;¹: He.ca.tom.be (do grego antigo ἑκατόμβη, composto de ἑκατόν &#34;cem&#34; e βοῦς &#34;boi&#34;) é o sacrifício de cem reses aos deuses na Grécia Antiga. Os lusitanos ofereciam hecatombes ao modo grego. Modernamente o termo é aplicado a grandes catástrofes.&#xA;&#xA;#notas #cultura&#xA;&#xA;---------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://i.imgur.com/EzhoBPU.gif" alt="A palavra Hexa em cor amarela sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido"></p>

<h5 id="texto-alternativo-a-palavra-hexa-em-cor-amarela-sobre-fundo-verde-as-duas-cores-são-invertidas-bem-rápido-arte-arlon-de-serra-grande">Texto alternativo: A palavra “Hexa” em cor amarela sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido. Arte: Arlon de Serra Grande.</h5>

<p>Para quem não acreditou, sim, o Brasil levou um hexa...</p>

<p>Não, não vivo em um universo paralelo em que os brasileiros fomos campeões. Me explico:</p>

<p>2006, Copa do Mundo sediada na Alemanha, Brasil perde de 1x0 para a França (com Kaká em campo) ― primeira hecatombe¹; 2010, com sede na África do Sul, já em campo com o influenciador “sabor” jogador Neymar, perdemos de 2x1 para a “Laranja Mecânica” ― segunda hecatombe ― (lembro de me divertir um monte com as montagens do Mundo Canibal sobre os jogos, isso tornou a derrota mais leve); a grande e fatídica hecatombe foi a de 2014 quando, em casa, perdemos de 7x1 para a Alemanha (com Neymar nocauteado, o clima no estádio era de terra arrasada mesmo antes do jogo); 2018, em terra russa, fomos de 2x1 para Bélgica (alguém lembra desse jogo?) ― quarta hecatombe ―; no Qatar, 2022, empatados, perdemos por pênaltis (esse cassino futebolístico) para a Croácia ― quinta hecatombe ―; em solo ianque, 2026, acabamos de sair de oitavas por uma preguiçosa Noruega que nos venceu por 2x1 (com gol de pênalti de Neymar, que por pouco não nos envergonha com uma troca de tapas com o goleiro norueguês) ― sexta hecatombe.</p>

<p>Assim, levamos um hexa ― mas um hexatombe. Seis vezes sacrificado em nome de qualquer coisa que não participe do Brasil enquanto nação. Como li no dia seguinte à derrota, <a href="https://gilvanmelo.blogspot.com/2026/07/ideia-da-selecao-como-alma-da.html" rel="nofollow">“A ideia da seleção como alma da brasilidade perdeu sentido”.</a></p>

<p><img src="https://i.imgur.com/Vb45jrF.gif" alt="A palavra Tombe em cor vermelha sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido"></p>

<h5 id="texto-alternativo-a-palavra-tombe-em-cor-vermelha-sobre-fundo-verde-as-duas-cores-são-invertidas-bem-rápido-arte-arlon-de-serra-grande">Texto alternativo: A palavra “Tombe” em cor vermelha sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido. Arte: Arlon de Serra Grande.</h5>

<p>Ao mesmo tempo, já não temos uma nova bossa para chamar de nossa. A esperança da Fórmula 1 morreu. Ainda assim não resistimos ao sonho de sermos campeões no futebol. Avançamos para o segundo quarto do século XXI ainda tentando manter a mesma concepção de país que tínhamos no século anterior.</p>

<p>Por outro lado, nos apareceram o <em>skateboarding</em>, o surfe e a ginástica rítmica, categorias em que fomos ouro nas últimas Olimpíadas. Há ainda a tímida promessa no tênis de mesa de um Hugo Calderano que <a href="https://www.cbtm.org.br/noticia/detalhe/102205/historico-hugo-calderano-vence-chines-lider-do-ranking-e-conquista-a-copa-do-mundo-de-macau" rel="nofollow">venceu campeonatos na China</a>, país que acumula basicamente todos os troféus nesse esporte. Ainda por cima, a pouco lembrada poesia experimental e propositiva que herdamos dos poetas concretos de 1950 <a href="https://www.jornadadepoesiavisual.com/" rel="nofollow">ainda hoje nos rende frutos</a>...</p>

<p>Vamborandá. Pode ser que esse “hexa” seja um sinal de que devamos jogar menos com bola e jogar mais com ideias a fim de construirmos um outro Brasil ― pós-Pelé, pós-Senna, pós-tudo.</p>

<p>¹: He.ca.tom.be (do grego antigo ἑκατόμβη, composto de ἑκατόν “cem” e βοῦς “boi”) é o sacrifício de cem reses aos deuses na Grécia Antiga. Os lusitanos ofereciam hecatombes ao modo grego. Modernamente o termo é aplicado a grandes catástrofes.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:notas" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">notas</span></a> <a href="/ideiasdechirico/tag:cultura" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cultura</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/em-2026-brasil-levou-hexa</guid>
      <pubDate>Mon, 13 Jul 2026 17:08:47 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>“Erik Satie: só o humor constrói”, de Júlio Medaglia</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/erik-satie-so-o-humor-constroi-de-julio-medaglia</link>
      <description>&lt;![CDATA[Pintura em estilo impressionista de um homem loiro e calvo, com óculos estilo “pince-nez”, de barba e com fraque. Ao fundo é posível ver um teclado de um piano e partituras. O homem está com uma postura sagaz, de sobrancelhas arqueadas, com a mão esquerda gentilmente encostada no rosto.&#xA;&#xA;Detalhe de retrato de um jovem Erik Satie feito por Antoine de la Rochefoucauld, 1894.&#xA;&#xA;Tenho uma estranha atração por sujeitos estranhos. Talvez porque eu seja um, sim. Mas também porque, levando uma vida tão anódina, me encanta ver alguém “desafinando o coro dos contentes”, como dizia o poeta piauiense Torquato Neto ― outro esquisitão.&#xA;&#xA;Quando conheço figuras assim, dissidentes de sua própria época, passo a pesquisar sobre tudo o que as circunda. Uma delas é o compositor francês Erik Satie, que viveu sua vida como um performer, como vocês verão logo abaixo. &#xA;&#xA;Satie é o dono da composição “Gymnopédie nº 1”, incluída em playlists “Once upon a time in Paris”, que inclusive, por conta de sua natureza introspectiva, costuma aparecer com sample de edições de lo-fi hip-hop.&#xA;&#xA;Vivendo no período entre o fim do século XIX e começo do XX, tempo em que o pensamento positivista ainda era predominante, ele passou a manter um estilo de vida extremamente excêntrico e contraditório, para não dizer antinormativo, colecionando proposições artísticas e causos populares.&#xA;&#xA;Outro dia estava folheando o livro “Música impopular” do compositor e crítico musical paulista Júlio Medaglia, onde o escritor fala sobre os principais nomes da música experimental do século passado, quando trombei com o texto sobre Satie que quero compartilhar aqui. Para expandi-lo e não o reduzir a um copicola, linkarei as composições que Medaglia mencionar.&#xA;&#xA;Para quem se interessar pelo artista, sugiro a escuta do episódio “Interferências” do podcast Ser Sonoro que fala sobre outras anedotas “satí(e)ricas”e sobre a linguagem musical do compositor francês.&#xA;&#xA;Boa leitura!&#xA;&#xA;“Erik Satie: só o humor constrói”, de Júlio Medaglia&#xA;&#xA;Bach codificou a gramática da composição musical do Ocidente. Mozart e Haydn estabeleceram formas amplas de expressão ― a sinfonia, a sonata etc. Beethoven, apoiado nessa gramática e nessas formas, subverteu as estruturas composicionais, criando contradições no discurso musical do início do século XIX, liberando a criação para procedimentos mais livres. Os principais compositores românticos aproveitaram-se disso e conduziram a criação musical ao subjetivismo, praticamente inventando uma forma nova para cada obra. Schönberg levou essa subjetividade e essa individualização da expressão ao extremo, à neurose, digamos, desembocando no que se convencionou chamar de expressionismo. Stravinsky e Varese “barbarizaram” a doce arte dos sons, espantando os mais bem-informados ouvidos e conceitos da época. Poderíamos seguir nesse raciocínio simplório, apoiando mais alguns nomes de personalidades de nossa evolução artística, que com talento e coragem mudaram o curso da história da música. Existe um elemento, porém, que, com igual talento e coragem, abalou as estruturas da música deste século, azucrinando corações e mentes de músicos, críticos e teóricos, mas, cuja arma empregada em sua investida contra ideias desgastadas era até então desconhecida: o humor ― mais precisamente o deboche. Depois de ter atuado como um verdadeiro “pai” do Impressionismo, conduzindo Debussy pelas mãos à criação de uma música “sem sabor de chucrute”, Erik Satie impacientou-se com os rumos que tomava a criação daquele período, despejando seu humor devastador contra tudo e contra todos. Acusado de amador por aqueles que só acreditavam na revolução feito sobre trilhos estáveis, Satie tira um diploma de compositor “com distinção” na Schola Cantorum de Paris aos quarenta anos de idade para que ninguém tivesse dúvidas quanto à sua capacidade técnica. Num período em que os autores se deliciavam, compondo obras com horas de duração, ele compunha peças com 18, 30 segundos. Acusado de incapaz para compor obras maiores, faz “Vexations”, com dois dias de duração.&#xA;&#xA;Quando o impressionismo francês se encanta com os exotismos da forte musicalidade espanhola, ele compõe uma obra chamada de “Espanhanha”. Aí, todos os maneirismos dessa música são devidamente anarquizados. No momento em que Debussy se queixa de que as obras de Satie carecem de uma definição formal, ele lhe envia “três peças em forma de pera”. Aliás, no período em que o impressionismo, ainda em evolução, caracterizava suas composições como “Clair de lune”, “Nuages”, “De l&#39;aube a midi sur la mer” ele contra-atacava com as suas, assim chamadas: “Embriões ressecados”, “Esboços e provocações de um cafetão de pau”, “Fantasiado de cavalo”, “Três valsas para um esnobe execrável”, “Prelúdios verdadeiramente flácidos” etc. Satie criou os primeiros happenings na música europeia, fazendo entrar um Citroën no palco em plena execução de uma de suas músicas, ou colocando sons e instrumentos “não musicais”, como máquinas de escrever, apito de navio, ruído de roda de loteria, barulho de água, sirenes , buzinas ou tiros de revólver, em seu balé “Parade”. Para essa obra, aliás, encomendou um cenário a Picasso, obrigando o pintor a executá-lo em público. A cada pincelada do genial espanhol, todos aplaudiam. Para um de seus balés, Satie solicitou que a segunda parte não fosse dançada no palco, mas sim filmada. Encomendou, então, o trabalho de René Clair, que assim filmou o seu famoso “Entr&#39;acte”. A orquestra acompanha, a cada segundo, a movimentação das cenas, sendo assim a primeira trilha sonora original para cinema (o velho maluco que aparece no início do filme pulando na frente de um canhão é o próprio Satie) [Nota: no link anterior, ele aparece aos 2m15s].&#xA;&#xA;Imagem de um homem idoso olhando para a câmera; ele está com o dedo indicador na bochecha, como quem a coça; ele está com óculos de aro fino.&#xA;&#xA;Do tempo da gravação de “Entr&#39;acte”, 1920. Retrato por Henri Manuel. Colorido artificialmente.&#xA;&#xA;Vivendo na mais absoluta pobreza no bairro de Arcueil, 16 quilômetros distante de Paris, num quarto sempre de portas e janelas fechadas e onde ninguém entrou até sua morte e onde havia apenas uma cama, uma escrivaninha e dois pianos (um em cima do outro) Satie conseguiu incomodar, mas não provar aos seus contemporâneos que o questionamento bem-humorado da cultura da época que ele propunha fazia sentido.&#xA;&#xA;Como este texto não é sonoro, aqui ficam algumas de suas “tacadas” para que o leitor tenha uma ideia de seu h senso de amor à música.&#xA;&#xA;  A jornada de um músico. &#xA;&#xA;  O artista deve organizar sua vida. Vejam a programação de minhas atividades diárias: às 7h18m eu acordo; das 10h23m às 11h47m eu me inspiro; às 12h11m eu tomo o desjejum e deixo a mesa às 12h14m. Faço um salutar passeio a cavalo às 13h19m até as 16h7m. Ocupações diversas (esgrima, reflexões, imobilidade, visitas, contemplação, excitação, natação etc.) das 16h20m às 18h47m. O jantar é servido às 19h16m e termina às 19h20m. Leitura de partituras em voz alta, das 20h9m às 21h59m. Deito-me regularmente às 22h37m. Semanalmente (na terça-feira) eu acordo sobressaltado às 3h19m.&#xA;&#xA;  Eu só me alimento com comida branca; ovos, açúcar, ossos ralados, gordura  animal, vitela, sal, coco, frango curtido em molho branco, suco de frutas, de arroz, de nabo, patês, queijos (brancos), salada de algodão e peixes (sem escama).&#xA;&#xA;  Eu fervo o meu vinho, espero esfriar e o bebo com uma pitada de fúcsia. Tenho bom apetite e nunca falo enquanto como (de medo de me engasgar). Respiro com cuidado (pouco de cada vez). Danço raramente. Eu ando sempre de lado para ver bem quem me segue.  Eu rio das coisas sérias, mas não deixo transparecer. Eu durmo apenas com um olho fechado. Minha cama é redonda e tem um buraco onde eu coloco a cabeça. De hora em hora um empregado toma minha temperatura e me devolve uma outra. Meu médico me recomendou para fumar diariamente e diz: “Se você não fumar, alguém fumará em seu lugar”.&#xA;&#xA;  Cocteau me ama (até demais), eu sei... Mas por que será que ele me dá tantos pontapés por debaixo da mesa?&#xA;&#xA;  Ravel recusou a “Legião de honra”, mas toda a sua música a aceita.&#xA;&#xA;  O negócio não é recusar a “Legião de honra” e sim fazer tudo para não a merecer.&#xA;&#xA;  Não se trata de ser antiwagneriano e sim fazer uma música sem sabor de chucrute.&#xA;&#xA;  Eu já disse que os animais são mais educados. Exemplo: um gato dorme numa poltrona. O homem vem e tira o gato. Eu jamais vi o contrário.&#xA;&#xA;  Os pintores e escultores vivem reproduzindo figuras de animais em suas obras. Os animais, eles mesmos, parecem ignorar por completo as artes plásticas. Eu desconheço qualquer pintura ou escultura feita por animais. Eles gostam, mesmo, é de música e arquitetura. Eles constroem ninhos e casas que são verdadeiras maravilhas artísticas e industriais para viver com suas famílias. E não resta dúvida de que eles praticam música até mais do que nós. Eles têm um código musical diferente do nosso, é bem verdade. Trata-se de uma outra escola. É preciso entender o que significa relinchar, miar, cacarejar, piar, mugir, latir, uivar, rugir, arrulhar, ronronar, grulhar, ganir para se ter uma ideia de sua arte sonora. Ela é tão bem ensinada de pai para filho que, em pouco tempo, o aluno se iguala ao mestre.&#xA;&#xA;  A Sociedade Protetora dos Animais protesta energicamente contra o recente engajamento de duas vacas pela Ópera de Paris para fazer um dueto em “Sortilégio”. Esses infelizes ruminantes, embriagados com o sucesso e em contato direto com a cabotinagem desses histrionistas, perdem pouco a pouco a sua dignidade e honradez profissional.&#xA;&#xA;  Jaques Dalcroze vem fazendo muito sucesso associando o esporte ao solfejo. Eu recomendo 3 sonatas de Beethoven, diariamente, que provocam um emagrecimento progressivo e muito sensível e 6 fugas de Bach, que exercem sobre as células gordurosas uma ação fulminante.&#xA;&#xA;  Atenção! O Teatro dos Campos Elísios comunica que providenciou uma equipe de orientadores ambulantes, encarregados de conduzir sãos e salvos às suas casas os professores de harmonia após cada representação da Sagração da Primavera de Stravinsky.&#xA;&#xA;  Quanto mais a gente se torna músico, mais a gente enlouquece.&#xA;&#xA;  O piano é como o dinheiro ― só é agradável para aqueles que o tocam.&#xA;&#xA;  Se me repugna dizer bem alto aquilo que eu penso bem baixo, é unicamente porque minha voz não é bastante forte.&#xA;&#xA;  Eu jamais leio um jornal que tem a minha opinião.&#xA;&#xA;  O impressionismo é a arte da imprecisão. Hoje em dia se caminha para a precisão.&#xA;&#xA;  Não devemos nos esquecer daquilo que acontece no music-hall e no circo. É de lá que vêm a criatividade, as tendências, as curiosidades, mais excitantes do métier.  &#xA;&#xA;  Sim madame. Todos morrem normalmente (eu vou explodir).&#xA;&#xA;  Durante toda a Grande Guerra, Ravel foi observador das observações observadas por observação nos observatórios dos observadores onde se observava ao rés do chão. Ele prestou grandes serviços ao País.&#xA;&#xA;  A Ópera e o Louvre possuem frigorífico e ossaria.&#xA;&#xA;  Alguns artistas pretendem ser enterrados vivos.&#xA;&#xA;  Sinal dos tempos: o artista vem de um profissional. O amador vem do artista.&#xA;&#xA;  Mostre-me algo novo e eu começarei tudo outra vez.&#xA;&#xA;  Nossas composições são garantidas contra quintas e oitavas paralelas. Os compositores da casa só empregam harmonias tradicionais e devidamente aprovadas por longo uso. Ao gosto de hoje. Toda a nossa música moderna foi cuidadosamente retocada por nossos funcionários especializados. Nosso princípio comercial: fazer o novo com o velho.&#xA;&#xA;  Eu cago música.&#xA;&#xA;cultura&#xA;&#xA;--------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://limelight-arts.com.au/wp-content/uploads/2025/06/Satie.jpg" alt="Pintura em estilo impressionista de um homem loiro e calvo, com óculos estilo “pince-nez”, de barba e com fraque. Ao fundo é posível ver um teclado de um piano e partituras. O homem está com uma postura sagaz, de sobrancelhas arqueadas, com a mão esquerda gentilmente encostada no rosto."></p>

<h5 id="detalhe-de-retrato-de-um-jovem-erik-satie-feito-por-antoine-de-la-rochefoucauld-1894">Detalhe de retrato de um jovem Erik Satie feito por Antoine de la Rochefoucauld, 1894.</h5>

<p>Tenho uma estranha atração por sujeitos estranhos. Talvez porque eu seja um, sim. Mas também porque, levando uma vida tão anódina, me encanta ver alguém “desafinando o coro dos contentes”, como dizia o poeta piauiense Torquato Neto ― outro esquisitão.</p>

<p>Quando conheço figuras assim, dissidentes de sua própria época, passo a pesquisar sobre tudo o que as circunda. Uma delas é o compositor francês Erik Satie, que viveu sua vida como um <em>performer</em>, como vocês verão logo abaixo.</p>

<p>Satie é o dono da composição “Gymnopédie nº 1”, incluída em playlists <a href="https://youtu.be/b9WKC5sT9Z4" rel="nofollow">“Once upon a time in Paris”</a>, que inclusive, por conta de sua natureza introspectiva, costuma aparecer com sample de edições de <a href="https://youtu.be/GMRiK7Kadhc" rel="nofollow">lo-fi hip-hop</a>.</p>

<p>Vivendo no período entre o fim do século XIX e começo do XX, tempo em que o pensamento positivista ainda era predominante, ele passou a manter um estilo de vida extremamente excêntrico e contraditório, para não dizer antinormativo, colecionando proposições artísticas e causos populares.</p>

<p>Outro dia estava folheando o livro “Música impopular” do compositor e crítico musical paulista Júlio Medaglia, onde o escritor fala sobre os principais nomes da música experimental do século passado, quando trombei com o texto sobre Satie que quero compartilhar aqui. Para expandi-lo e não o reduzir a um copicola, linkarei as composições que Medaglia mencionar.</p>

<p>Para quem se interessar pelo artista, sugiro a escuta do episódio <a href="https://sersonoro.net/2021/04/09/8-interferencias-2/" rel="nofollow">“Interferências” do podcast Ser Sonoro</a> que fala sobre outras anedotas “satí(e)ricas”e sobre a linguagem musical do compositor francês.</p>

<p>Boa leitura!</p>

<h2 id="erik-satie-só-o-humor-constrói-de-júlio-medaglia">“Erik Satie: só o humor constrói”, de Júlio Medaglia</h2>

<p>Bach codificou a gramática da composição musical do Ocidente. Mozart e Haydn estabeleceram formas amplas de expressão ― a sinfonia, a sonata etc. Beethoven, apoiado nessa gramática e nessas formas, subverteu as estruturas composicionais, criando contradições no discurso musical do início do século XIX, liberando a criação para procedimentos mais livres. Os principais compositores românticos aproveitaram-se disso e conduziram a criação musical ao subjetivismo, praticamente inventando uma forma nova para cada obra. Schönberg levou essa subjetividade e essa individualização da expressão ao extremo, à neurose, digamos, desembocando no que se convencionou chamar de expressionismo. Stravinsky e Varese “barbarizaram” a doce arte dos sons, espantando os mais bem-informados ouvidos e conceitos da época. Poderíamos seguir nesse raciocínio simplório, apoiando mais alguns nomes de personalidades de nossa evolução artística, que com talento e coragem mudaram o curso da história da música. Existe um elemento, porém, que, com igual talento e coragem, abalou as estruturas da música deste século, azucrinando corações e mentes de músicos, críticos e teóricos, mas, cuja arma empregada em sua investida contra ideias desgastadas era até então desconhecida: o humor ― mais precisamente o deboche. Depois de ter atuado como um verdadeiro “pai” do Impressionismo, conduzindo Debussy pelas mãos à criação de uma música “sem sabor de chucrute”, Erik Satie impacientou-se com os rumos que tomava a criação daquele período, despejando seu humor devastador contra tudo e contra todos. Acusado de amador por aqueles que só acreditavam na revolução feito sobre trilhos estáveis, Satie tira um diploma de compositor “com distinção” na Schola Cantorum de Paris aos quarenta anos de idade para que ninguém tivesse dúvidas quanto à sua capacidade técnica. Num período em que os autores se deliciavam, compondo obras com horas de duração, ele compunha peças com 18, 30 segundos. Acusado de incapaz para compor obras maiores, faz <a href="https://youtu.be/U5R8xe2cCbA" rel="nofollow">“Vexations”</a>, com dois dias de duração.</p>

<p>Quando o impressionismo francês se encanta com os exotismos da forte musicalidade espanhola, ele compõe uma obra chamada de “Espanhanha”. Aí, todos os maneirismos dessa música são devidamente anarquizados. No momento em que Debussy se queixa de que as obras de Satie carecem de uma definição formal, ele lhe envia “três peças em forma de pera”. Aliás, no período em que o impressionismo, ainda em evolução, caracterizava suas composições como “Clair de lune”, “Nuages”, “De l&#39;aube a midi sur la mer” ele contra-atacava com as suas, assim chamadas: “Embriões ressecados”, “Esboços e provocações de um cafetão de pau”, “Fantasiado de cavalo”, “Três valsas para um esnobe execrável”, “Prelúdios verdadeiramente flácidos” etc. Satie criou os primeiros <em>happenings</em> na música europeia, fazendo entrar um Citroën no palco em plena execução de uma de suas músicas, ou colocando sons e instrumentos “não musicais”, como máquinas de escrever, apito de navio, ruído de roda de loteria, barulho de água, sirenes , buzinas ou tiros de revólver, em seu balé <a href="https://youtu.be/9eJKY5LRFAE" rel="nofollow">“Parade”</a>. Para essa obra, aliás, encomendou um cenário a Picasso, obrigando o pintor a executá-lo em público. A cada pincelada do genial espanhol, todos aplaudiam. Para um de seus balés, Satie solicitou que a segunda parte não fosse dançada no palco, mas sim filmada. Encomendou, então, o trabalho de René Clair, que assim filmou o seu famoso <a href="https://youtu.be/RgwP_F6C0eE" rel="nofollow">“Entr&#39;acte”</a>. A orquestra acompanha, a cada segundo, a movimentação das cenas, sendo assim a primeira trilha sonora original para cinema (o velho maluco que aparece no início do filme pulando na frente de um canhão é o próprio Satie) [Nota: no link anterior, ele aparece aos 2m15s].</p>

<p><img src="https://laregledujeu.org/files/2025/03/EriK-Satie-scaled.jpeg" alt="Imagem de um homem idoso olhando para a câmera; ele está com o dedo indicador na bochecha, como quem a coça; ele está com óculos de aro fino."></p>

<h5 id="do-tempo-da-gravação-de-entr-acte-1920-retrato-por-henri-manuel-colorido-artificialmente">Do tempo da gravação de “Entr&#39;acte”, 1920. Retrato por Henri Manuel. Colorido artificialmente.</h5>

<p>Vivendo na mais absoluta pobreza no bairro de Arcueil, 16 quilômetros distante de Paris, num quarto sempre de portas e janelas fechadas e onde ninguém entrou até sua morte e onde havia apenas uma cama, uma escrivaninha e dois pianos (um em cima do outro) Satie conseguiu incomodar, mas não provar aos seus contemporâneos que o questionamento bem-humorado da cultura da época que ele propunha fazia sentido.</p>

<p>Como este texto não é sonoro, aqui ficam algumas de suas “tacadas” para que o leitor tenha uma ideia de seu h senso de amor à música.</p>

<blockquote><p>A jornada de um músico.</p>

<p>O artista deve organizar sua vida. Vejam a programação de minhas atividades diárias: às 7h18m eu acordo; das 10h23m às 11h47m eu me inspiro; às 12h11m eu tomo o desjejum e deixo a mesa às 12h14m. Faço um salutar passeio a cavalo às 13h19m até as 16h7m. Ocupações diversas (esgrima, reflexões, imobilidade, visitas, contemplação, excitação, natação etc.) das 16h20m às 18h47m. O jantar é servido às 19h16m e termina às 19h20m. Leitura de partituras em voz alta, das 20h9m às 21h59m. Deito-me regularmente às 22h37m. Semanalmente (na terça-feira) eu acordo sobressaltado às 3h19m.</p>

<p>Eu só me alimento com comida branca; ovos, açúcar, ossos ralados, gordura  animal, vitela, sal, coco, frango curtido em molho branco, suco de frutas, de arroz, de nabo, patês, queijos (brancos), salada de algodão e peixes (sem escama).</p>

<p>Eu fervo o meu vinho, espero esfriar e o bebo com uma pitada de fúcsia. Tenho bom apetite e nunca falo enquanto como (de medo de me engasgar). Respiro com cuidado (pouco de cada vez). Danço raramente. Eu ando sempre de lado para ver bem quem me segue.  Eu rio das coisas sérias, mas não deixo transparecer. Eu durmo apenas com um olho fechado. Minha cama é redonda e tem um buraco onde eu coloco a cabeça. De hora em hora um empregado toma minha temperatura e me devolve uma outra. Meu médico me recomendou para fumar diariamente e diz: “Se você não fumar, alguém fumará em seu lugar”.</p>

<p>Cocteau me ama (até demais), eu sei... Mas por que será que ele me dá tantos pontapés por debaixo da mesa?</p>

<p>Ravel recusou a “Legião de honra”, mas toda a sua música a aceita.</p>

<p>O negócio não é recusar a “Legião de honra” e sim fazer tudo para não a merecer.</p>

<p>Não se trata de ser antiwagneriano e sim fazer uma música sem sabor de chucrute.</p>

<p>Eu já disse que os animais são mais educados. Exemplo: um gato dorme numa poltrona. O homem vem e tira o gato. Eu jamais vi o contrário.</p>

<p>Os pintores e escultores vivem reproduzindo figuras de animais em suas obras. Os animais, eles mesmos, parecem ignorar por completo as artes plásticas. Eu desconheço qualquer pintura ou escultura feita por animais. Eles gostam, mesmo, é de música e arquitetura. Eles constroem ninhos e casas que são verdadeiras maravilhas artísticas e industriais para viver com suas famílias. E não resta dúvida de que eles praticam música até mais do que nós. Eles têm um código musical diferente do nosso, é bem verdade. Trata-se de uma outra escola. É preciso entender o que significa relinchar, miar, cacarejar, piar, mugir, latir, uivar, rugir, arrulhar, ronronar, grulhar, ganir para se ter uma ideia de sua arte sonora. Ela é tão bem ensinada de pai para filho que, em pouco tempo, o aluno se iguala ao mestre.</p>

<p>A Sociedade Protetora dos Animais protesta energicamente contra o recente engajamento de duas vacas pela Ópera de Paris para fazer um dueto em “Sortilégio”. Esses infelizes ruminantes, embriagados com o sucesso e em contato direto com a cabotinagem desses histrionistas, perdem pouco a pouco a sua dignidade e honradez profissional.</p>

<p>Jaques Dalcroze vem fazendo muito sucesso associando o esporte ao solfejo. Eu recomendo 3 sonatas de Beethoven, diariamente, que provocam um emagrecimento progressivo e muito sensível e 6 fugas de Bach, que exercem sobre as células gordurosas uma ação fulminante.</p>

<p>Atenção! O Teatro dos Campos Elísios comunica que providenciou uma equipe de orientadores ambulantes, encarregados de conduzir sãos e salvos às suas casas os professores de harmonia após cada representação da Sagração da Primavera de Stravinsky.</p>

<p>Quanto mais a gente se torna músico, mais a gente enlouquece.</p>

<p>O piano é como o dinheiro ― só é agradável para aqueles que o tocam.</p>

<p>Se me repugna dizer bem alto aquilo que eu penso bem baixo, é unicamente porque minha voz não é bastante forte.</p>

<p>Eu jamais leio um jornal que tem a minha opinião.</p>

<p>O impressionismo é a arte da imprecisão. Hoje em dia se caminha para a precisão.</p>

<p>Não devemos nos esquecer daquilo que acontece no <em>music-hall</em> e no circo. É de lá que vêm a criatividade, as tendências, as curiosidades, mais excitantes do <em>métier</em>.</p>

<p>Sim madame. Todos morrem normalmente (eu vou explodir).</p>

<p>Durante toda a Grande Guerra, Ravel foi observador das observações observadas por observação nos observatórios dos observadores onde se observava ao rés do chão. Ele prestou grandes serviços ao País.</p>

<p>A Ópera e o Louvre possuem frigorífico e ossaria.</p>

<p>Alguns artistas pretendem ser enterrados vivos.</p>

<p>Sinal dos tempos: o artista vem de um profissional. O amador vem do artista.</p>

<p>Mostre-me algo novo e eu começarei tudo outra vez.</p>

<p>Nossas composições são garantidas contra quintas e oitavas paralelas. Os compositores da casa só empregam harmonias tradicionais e devidamente aprovadas por longo uso. Ao gosto de hoje. Toda a nossa música moderna foi cuidadosamente retocada por nossos funcionários especializados. Nosso princípio comercial: fazer o novo com o velho.</p>

<p>Eu cago música.</p></blockquote>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:cultura" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cultura</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/erik-satie-so-o-humor-constroi-de-julio-medaglia</guid>
      <pubDate>Tue, 16 Jun 2026 23:54:18 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Sobre uma iconografia da desconexão </title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/sobre-uma-iconografia-da-desconexao</link>
      <description>&lt;![CDATA[Escrevi o Manifesto Offpunk com @ploum@mamot.fr, mas tomei a liberdade de desenhar os signos que o anunciariam. Como não tenho certeza de que esses estão claros para todos, decidi dissertar um pouco sobre o porquê de minhas escolhas.&#xA;&#xA;Alguns desses comentários vêm de conversas que tive com @diegopds@bolha.us ― que, aliás, escreveu um pouco sobre o meu texto.&#xA;&#xA;O primeiro símbolo que pensei relacionado ao estar desconectado que pensei seria o ícone de rede sem fio com uma haste de proibição. Porém, lembrei já quase de imediato da moda oportunista, e rapidamente caída no ostracismo, da frase “Não temos wi-fi, conversem entre vocês” posta nos cafés e restaurantes dos primeiros anos da Web 2.0.&#xA;&#xA;Queria, então, trabalhar com uma ideia ambígua a partir desse ícone, que não o anulasse, mas que, ao mesmo tempo, o subvertesse. A melhor opção, então, seria invertê-lo.&#xA;&#xA;Por um lado a rede sem fio invertida lembra um pouco a pirâmide. Aí se estabeleceria um ideograma (isto é, dois ícones cruzados para dar ideia de um terceiro): a inversão por um lado indica que a conectividade sugere um exercício de poder (do usuário, que tem nesta um símbolo de prestígio, mas também das empresas de tecnologia, concentradoras do capital desse mercdo); por outro, “inverter” a rede é uma atitude iconoclasta, análoga a retirar-lhe a importância.&#xA;&#xA;É como os ateus que invertem a cruz cristã. Assim como a cruz cristã invertida, o símbolo “Offpunk” apontam para o chão, para o inferno.&#xA;&#xA;Há uma contradição no meio disso tudo: a internet sempre foi a promessa do transcendente; o sinal de wi-fi, porém, aponta para baixo, o que indicia o terreno e o imanente. O signo do Offpunk não resolve essa contradição, e até o perturba ainda mais: postura que almeja uma presença plena, apontando para cima, tende a dar, por sua vez, ideia de transcendência.&#xA;&#xA;Porém, tudo isso vem de um esforço também de não se definir pela negação. Como dito há pouco, em um primeiro momento, rascunhei uma logo de “Proibido wi-fi”. Isso soaria como um discurso bem conservador. O “anti-tudo” não cria, só descria.&#xA;&#xA;Mas o que me motivou mesmo a mantê-lo é que ele passa a ideia ploumiana de “offline-first”, como expresso em seu “Computador feito para durar 50 anos”. Ao ler o manifesto do Forever Computer, percebi que ir contra a conectividade compulsória e compulsiva não é defender o fim da internet, mas apropriar-se da conectividade e adequá-la ritmo da vida.&#xA;&#xA;Como eu disse no Manifesto, o Offpunk enquanto estética ainda não é estabelecido. O ícone de rede invertida é o primeiro passo nessa direção.&#xA;&#xA;#notas #tecnologia #cultura&#xA;&#xA;---------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Escrevi o <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/manifesto-offpunk" rel="nofollow">Manifesto Offpunk</a> com <a href="https://blog.ayom.media/@/ploum@mamot.fr" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>ploum@mamot.fr</span></a>, mas tomei a liberdade de desenhar os signos que o anunciariam. Como não tenho certeza de que esses estão claros para todos, decidi dissertar um pouco sobre o porquê de minhas escolhas.</p>

<p>Alguns desses comentários vêm de conversas que tive com <a href="https://blog.ayom.media/@/diegopds@bolha.us" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>diegopds@bolha.us</span></a> ― que, aliás, <a href="https://curadoria.bearblog.dev/manifesto-offpunk-e-o-direito-a-desconexao/" rel="nofollow">escreveu um pouco sobre o meu texto</a>.</p>

<p>O primeiro símbolo que pensei relacionado ao estar desconectado que pensei seria o ícone de rede sem fio com uma haste de proibição. Porém, lembrei já quase de imediato da moda oportunista, e rapidamente caída no ostracismo, da frase “Não temos <em>wi-fi</em>, conversem entre vocês” posta nos cafés e restaurantes dos primeiros anos da Web 2.0.</p>

<p>Queria, então, trabalhar com uma ideia ambígua a partir desse ícone, que não o anulasse, mas que, ao mesmo tempo, o subvertesse. A melhor opção, então, seria invertê-lo.</p>

<p>Por um lado a rede sem fio invertida lembra um pouco a pirâmide. Aí se estabeleceria um ideograma (isto é, dois ícones cruzados para dar ideia de um terceiro): a inversão por um lado indica que a conectividade sugere um exercício de poder (do usuário, que tem nesta um símbolo de prestígio, mas também das empresas de tecnologia, concentradoras do capital desse mercdo); por outro, “inverter” a rede é uma atitude iconoclasta, análoga a retirar-lhe a importância.</p>

<p>É como os ateus que invertem a cruz cristã. Assim como a cruz cristã invertida, o símbolo “Offpunk” apontam para o chão, para o inferno.</p>

<p>Há uma contradição no meio disso tudo: a internet sempre foi a promessa do transcendente; o sinal de <em>wi-fi</em>, porém, aponta para baixo, o que indicia o terreno e o imanente. O signo do Offpunk não resolve essa contradição, e até o perturba ainda mais: postura que almeja uma presença plena, apontando para cima, tende a dar, por sua vez, ideia de transcendência.</p>

<p>Porém, tudo isso vem de um esforço também de não se definir pela negação. Como dito há pouco, em um primeiro momento, rascunhei uma logo de “Proibido <em>wi-fi</em>”. Isso soaria como um discurso bem conservador. O “anti-tudo” não cria, só descria.</p>

<p>Mas o que me motivou mesmo a mantê-lo é que ele passa a ideia ploumiana de “offline-first”, como expresso em seu <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/o-computador-feito-para-durar-50-anos-por-ploum" rel="nofollow">“Computador feito para durar 50 anos”</a>. Ao ler o manifesto do Forever Computer, percebi que ir contra a conectividade compulsória e compulsiva não é defender o fim da internet, mas apropriar-se da conectividade e adequá-la ritmo da vida.</p>

<p>Como eu disse no Manifesto, o Offpunk enquanto estética ainda não é estabelecido. O ícone de rede invertida é o primeiro passo nessa direção.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:notas" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">notas</span></a> <a href="/ideiasdechirico/tag:tecnologia" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">tecnologia</span></a> <a href="/ideiasdechirico/tag:cultura" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cultura</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/sobre-uma-iconografia-da-desconexao</guid>
      <pubDate>Tue, 26 May 2026 23:17:26 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Sobre uma adaptação feliz</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/sobre-uma-adaptacao-feliz</link>
      <description>&lt;![CDATA[Imagem de uma cartomante ao lado de uma trabalhadora que sorri; estão em uma sala escura, com seus rostos iluminados.&#xA;&#xA;Cena de “Hora da Estrela” (1986).&#xA;&#xA;Releituras e adaptações ― e samples (e remixes) ― participam ativamente do cotidiano da contemporaneidade. Nada mais pode ser novo, ao mesmo tempo em que nada pode ser singular. Há dessas peças “secundárias” por aí que expandem e mastigam tão bem a “fonte” que até lhe superam em alguns níveis.&#xA;&#xA;É o caso do filme “Hora da Estrela” (1986), de Suzana Amaral, adaptado da novela homônima de Clarice Lispector. A obra literária, que, ao ser lida, dá a impressão de que foi escrita de má vontade (em alguns momentos da vida da autora chegou até a ser renegada), com personagens mal desenvolvidos e “manchada” com uma voz de um narrador às vezes egocêntrico, toma uma vitalidade muito maior na película de Suzana.&#xA;&#xA;Aqui, a protagonista Macabéa é muito mais sensível, sem tomar, no entanto, o centro da narrativa. Há em jogo outras personagens, tão vivas quanto esta: suas companheiras da “pensão para moças”; Glória, sua colega de trabalho; e a cartomante (aliás genialmente interpretada por uma quase irreconhecível Fernanda Montenegro).&#xA;&#xA;O filme tem um tal desenvolvimento de suas figuras, que por vezes parece que o que vemos na maior parte do tempo trata-se, não de uma personagem principal, mas de uma personagem observadora. Aí, mais do que no livro, Macabéa é praticamente engolida por suas pares, permanecendo, inclusive, muitas vezes em segundo plano na fotografia. &#xA;&#xA;É aqui talvez onde resida o fio estruturante da obra: é como se tivéssemos diante de nós um spin-off, a história não contada dos figurantes ao redor da boa-ventura de Glória, a princesinha injustiçada que ganha o final feliz erroneamente prometido a Macabéa.&#xA;&#xA;Como nem tudo é perfeito, o filme carece de uma boa trilha sonora à altura de Macabéa, paralém do ruído da Rádio Relógio ― inclusive outra dessas personagens inauguradas pelo longa-metragem.&#xA;&#xA;“Hora da Estrela” está em exibição nos cinemas por ocasião de seu vindouro aniversário de 40 anos, com restauração do projeto Sessão Vitrine Petrobrás.&#xA;&#xA;#notas #cultura&#xA;&#xA;----------------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://bravo.abril.com.br/wp-content/uploads/2024/05/Copia-de-A-Hora-da-Estrela-Antes-da-Digitalizacao-01.jpeg?quality=70&amp;strip=info&amp;w=1024&amp;crop=1" alt="Imagem de uma cartomante ao lado de uma trabalhadora que sorri; estão em uma sala escura, com seus rostos iluminados."></p>

<h5 id="cena-de-hora-da-estrela-1986">Cena de “Hora da Estrela” (1986).</h5>

<p>Releituras e adaptações ― e samples (e remixes) ― participam ativamente do cotidiano da contemporaneidade. Nada mais pode ser novo, ao mesmo tempo em que nada pode ser singular. Há dessas peças “secundárias” por aí que expandem e mastigam tão bem a “fonte” que até lhe superam em alguns níveis.</p>

<p>É o caso do filme “Hora da Estrela” (1986), de Suzana Amaral, adaptado da novela homônima de Clarice Lispector. A obra literária, que, ao ser lida, dá a impressão de que foi escrita de má vontade (em alguns momentos da vida da autora chegou até a ser renegada), com personagens mal desenvolvidos e “manchada” com uma voz de um narrador às vezes egocêntrico, toma uma vitalidade muito maior na película de Suzana.</p>

<p>Aqui, a protagonista Macabéa é muito mais sensível, sem tomar, no entanto, o centro da narrativa. Há em jogo outras personagens, tão vivas quanto esta: suas companheiras da “pensão para moças”; Glória, sua colega de trabalho; e a cartomante (aliás genialmente interpretada por uma quase irreconhecível Fernanda Montenegro).</p>

<p>O filme tem um tal desenvolvimento de suas figuras, que por vezes parece que o que vemos na maior parte do tempo trata-se, não de uma personagem principal, mas de uma personagem observadora. Aí, mais do que no livro, Macabéa é praticamente engolida por suas pares, permanecendo, inclusive, muitas vezes em segundo plano na fotografia.</p>

<p>É aqui talvez onde resida o fio estruturante da obra: é como se tivéssemos diante de nós um <em>spin-off</em>, a história não contada dos figurantes ao redor da boa-ventura de Glória, a princesinha injustiçada que ganha o final feliz erroneamente prometido a Macabéa.</p>

<p>Como nem tudo é perfeito, o filme carece de uma boa trilha sonora à altura de Macabéa, paralém do ruído da Rádio Relógio ― inclusive outra dessas personagens inauguradas pelo longa-metragem.</p>

<p>“Hora da Estrela” está em exibição nos cinemas por ocasião de seu vindouro aniversário de 40 anos, com restauração do projeto Sessão Vitrine Petrobrás.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:notas" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">notas</span></a> <a href="/ideiasdechirico/tag:cultura" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cultura</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/sobre-uma-adaptacao-feliz</guid>
      <pubDate>Tue, 12 May 2026 21:39:25 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Notas costuradas</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-costuradas-myff</link>
      <description>&lt;![CDATA[que mais parece um blogroll.&#xA;&#xA;Um notebook submerso na água de rio&#xA;&#xA;Navegando na internet?&#xA;&#xA;Com o novo formato de posts que estou mantendo na aba Recados, não creio que seja muito interessante eu voltar a escrever microposts nas Notas Costuradas. Ao menos desta vez, irei compartilhar somente laços que acumulei nos últimos tempos.&#xA;&#xA;20 palavras japonesas para a chuva&#xA;&#xA;Miya Ando colecionou e ilustrou em livro 2000 palavras e expressões japonesas relacionadas à chuva. O MIT Press publicou ao menos 20 delas no laço abaixo:&#xA;&#xA;• 20 Japanese Words for Rain (The MIT Press Reader).&#xA;&#xA;Algumas dessas expressões são:&#xA;&#xA;Kabashira Tateba, Ame: observar uma nuvem de mosquitos ― sinal de chuva;&#xA;&#xA;Giu: chuva falsa;&#xA;&#xA;Ama ga Nukeru: o céu abre, aí chove canivetes;&#xA;&#xA;Kitsune no Yomeiri: o dia quando as raposas têm a sua cerimônia de casamento (talvez se referindo à chuva com sol);&#xA;&#xA;O que é interessante nesse tipo de texto é notar o quanto as línguas se adequam ao ambiente do falante. É como pensar nos dialetos nordestinos e na quantidade de expressões que se tem para falar do sol, do calor e das formas do vento.&#xA;&#xA;Arrobas Pralamentar&#xA;&#xA;Sítio que divulga nomes de parlamentares que votaram em projetos de lei impopulares e suas formas de contato (e-mail e redes sociais), além de outras informações, como partido político e onde foi eleito.&#xA;&#xA;• Arrobas Pralamentar: O pior congresso da história, por enquanto...&#xA;&#xA;Um soco inglês com materiais imitando dentes e gengiva&#xA;&#xA;O quão pior a internet pode ficar?&#xA;&#xA;  A teoria da enshittification de Cory Doctorow parte da premissa de que criamos uma maravilha tecnológica e que a ganância corporativa a arruinou. Mas e se não for esse o caso?&#xA;&#xA;Resenha do romancista e ensaísta estadunidense Jacob Bacharach do livro “Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It”, de Cory Doctorow. &#xA;&#xA;• O quão pior a internet pode ficar?, por Jacob Bacharach (Carbono ― UFRGS)&#xA;&#xA;Linhas nada positivas sobre o livro, mas reflexões muito boas. Me junto completamente à “resenha desta resenha” escrita pelo sol2070.&#xA;&#xA;Computação e ergonomia&#xA;&#xA;  When interfacing is painful, change yourself or change the computer? The Body and The Computer: Customizations, hacks, unlikely imaginings. How we make computers and computers make us.&#xA;&#xA;Um bloco do Are.na que encontrei outro dia. Uma coletânea de imagens com projetos de ergonomia computacional ou de computação curiosa. Um “bloco” seria o conjunto de ideias, laços, pdfs, vídeos e sons que cada usuário do are.na reune em torno de um só recipiente. O Are.na é um sítio ao qual vou quando quero explorar, recomendo bastante.&#xA;&#xA;• Are.na / Fletcher Bach / Ergonomic Computing&#xA;&#xA;Smartphones fantásticos&#xA;&#xA;  Uma série de instalações interativas desenvolvidas por estudantes do bacharelado em Design de Mídia e Interação do Écal, investigando de maneira crítica e distanciada nossa relação com os smartphones e a maneira com a qual eles influenciam nosso comportamento cotidiano.&#xA;&#xA;• Fantastic Smartphones (École Cantonale d&#39;Art de Lausanne ― ÉCAL)&#xA;&#xA;Mantendo os disquetes vivos&#xA;&#xA;  Há uma corrida contra o tempo para salvar tesouros históricos presos em antigos disquetes&#xA;&#xA;Matéria da Folha de São Paulo falando sobre o trabalho hercúleo de pesquisadores para manter o arquivo digital do cientista Stephen Hawking, que foi um early adopter do computador pessoal e sempre salvou suas coisas em mídias removíveis ― agora abandonadas.&#xA;&#xA;• Os disquetes esquecidos de Stephen Hawking por trás da corrida para evitar &#39;Idade das Trevas&#39; digital (Folha de São Paulo).&#xA;&#xA;Quem olhará pelos orelhões?&#xA;&#xA;Pequeno documentário amador sobre a história dos telefones públicos no Brasil, os chamados “orelhões”.&#xA;&#xA;Desde que vi este vídeo, peguei uma obsessão por “retrotelefonia”, telefones fixos, memórias associadas à ligações etc. Ando até mesmo pensando em comprar um telefone fixo. Me julguem!&#xA;&#xA;• O auge e a queda dos orelhões no Brasil (Canal 90 ― Youtube).&#xA;&#xA;Uberizando&#xA;&#xA;Texto dA Pública mostrando os critérios absurdos da Uber para cobrar mais em viagens ― ao tempo que paga menos aos motoristas.&#xA;&#xA;• O que você deve fazer para pagar menos no Uber – e aprender no caminho (Natalia Viana ― A Pública)&#xA;&#xA;Geriatria da tecnologia&#xA;&#xA;  Como o filme Uma Batalha Após a Outra retrata a guerra entre tecnologias.&#xA;&#xA;Eduardo Fernandes reflete sobre como temos de lidar com camadas e mais camadas de tecnologias e como velhas tecnologias estão se tornando “resistência” na era da ultradigitalização.&#xA;&#xA;Geriatria da tecnologia (Texto Sobre Tela ― Substack).&#xA;&#xA;  Cada homem é árbitro de suas próprias virtudes.&#xA;&#xA;― William Faulkner em “O Som e a Fúria”.&#xA;&#xA;#notas #cultura #tecnologia&#xA;&#xA;------------------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>que mais parece um <em>blogroll</em>.</p>

<p><img src="https://d2w9rnfcy7mm78.cloudfront.net/25974181/original_4de4e299c535712cfd48c4e086beceff.gif?1706422212?bc=0" alt="Um notebook submerso na água de rio" title="Um notebook submerso na água de rio"></p>

<h5 id="navegando-na-internet">Navegando na internet?</h5>

<p>Com o novo formato de posts que estou mantendo na aba <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/recados" rel="nofollow">Recados</a>, não creio que seja muito interessante eu voltar a escrever microposts nas Notas Costuradas. Ao menos desta vez, irei compartilhar somente laços que acumulei nos últimos tempos.</p>

<h2 id="20-palavras-japonesas-para-a-chuva">20 palavras japonesas para a chuva</h2>

<p>Miya Ando colecionou e ilustrou em livro 2000 palavras e expressões japonesas relacionadas à chuva. O MIT Press publicou ao menos 20 delas no laço abaixo:</p>

<p><a href="https://thereader.mitpress.mit.edu/20-japanese-words-for-rain/" rel="nofollow">• 20 Japanese Words for Rain</a> (The MIT Press Reader).</p>

<p>Algumas dessas expressões são:</p>

<p><em>Kabashira Tateba, Ame</em>: observar uma nuvem de mosquitos ― sinal de chuva;</p>

<p><em>Giu</em>: chuva falsa;</p>

<p><em>Ama ga Nukeru</em>: o céu abre, aí chove canivetes;</p>

<p><em>Kitsune no Yomeiri</em>: o dia quando as raposas têm a sua cerimônia de casamento (talvez se referindo à chuva com sol);</p>

<p>O que é interessante nesse tipo de texto é notar o quanto as línguas se adequam ao ambiente do falante. É como pensar nos dialetos nordestinos e na quantidade de expressões que se tem para falar do sol, do calor e das formas do vento.</p>

<h2 id="arrobas-pralamentar">Arrobas Pralamentar</h2>

<p>Sítio que divulga nomes de parlamentares que votaram em projetos de lei impopulares e suas formas de contato (<em>e-mail</em> e redes sociais), além de outras informações, como partido político e onde foi eleito.</p>

<p><a href="https://pralamentar.online/" rel="nofollow">• Arrobas Pralamentar: O pior congresso da história, por enquanto...</a></p>

<p><img src="https://d2w9rnfcy7mm78.cloudfront.net/2117978/original_cfbbfc21b09a9f5748fbb76f674febc1.png?1525159206?bc=1" alt="Um soco inglês com materiais imitando dentes e gengiva" title="Um soco inglês com materiais imitando dentes e gengiva"></p>

<h2 id="o-quão-pior-a-internet-pode-ficar">O quão pior a internet pode ficar?</h2>

<blockquote><p>A teoria da enshittification de Cory Doctorow parte da premissa de que criamos uma maravilha tecnológica e que a ganância corporativa a arruinou. Mas e se não for esse o caso?</p></blockquote>

<p>Resenha do romancista e ensaísta estadunidense Jacob Bacharach do livro “<em>Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It</em>”, de Cory Doctorow.</p>

<p><a href="https://www.ufrgs.br/carbono/2026/02/11/o-quao-pior-a-internet-pode-ficar/" rel="nofollow">• O quão pior a internet pode ficar?, por Jacob Bacharach</a> (Carbono ― UFRGS)</p>

<p>Linhas nada positivas sobre o livro, mas reflexões muito boas. Me junto completamente à <a href="https://sol2070.in/2026/02/critica-enshittification-bostificacao/" rel="nofollow">“resenha desta resenha” escrita pelo sol2070</a>.</p>

<h2 id="computação-e-ergonomia">Computação e ergonomia</h2>

<blockquote><p>When interfacing is painful, change yourself or change the computer? The Body and The Computer: Customizations, hacks, unlikely imaginings. How we make computers and computers make us.</p></blockquote>

<p>Um bloco do Are.na que encontrei outro dia. Uma coletânea de imagens com projetos de ergonomia computacional ou de computação curiosa. Um “bloco” seria o conjunto de ideias, laços, pdfs, vídeos e sons que cada usuário do are.na reune em torno de um só recipiente. O Are.na é um sítio ao qual vou quando quero explorar, recomendo bastante.</p>

<p><a href="https://www.are.na/fletcher-bach/ergonomic-computing" rel="nofollow">• Are.na / Fletcher Bach / Ergonomic Computing</a></p>

<h2 id="smartphones-fantásticos">Smartphones fantásticos</h2>

<blockquote><p>Uma série de instalações interativas desenvolvidas por estudantes do bacharelado em Design de Mídia e Interação do Écal, investigando de maneira crítica e distanciada nossa relação com os smartphones e a maneira com a qual eles influenciam nosso comportamento cotidiano.</p></blockquote>

<p><a href="https://ecal.ch/en/feed/projects/4894/fantastic-smartphones/" rel="nofollow">• Fantastic Smartphones</a> (École Cantonale d&#39;Art de Lausanne ― ÉCAL)</p>

<h2 id="mantendo-os-disquetes-vivos">Mantendo os disquetes vivos</h2>

<blockquote><p>Há uma corrida contra o tempo para salvar tesouros históricos presos em antigos disquetes</p></blockquote>

<p>Matéria da Folha de São Paulo falando sobre o trabalho hercúleo de pesquisadores para manter o arquivo digital do cientista Stephen Hawking, que foi um <em>early adopter</em> do computador pessoal e sempre salvou suas coisas em mídias removíveis ― agora abandonadas.</p>

<p><a href="https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/12/os-disquetes-esquecidos-de-stephen-hawking-por-tras-da-corrida-para-evitar-idade-das-trevas-digital.shtml" rel="nofollow">• Os disquetes esquecidos de Stephen Hawking por trás da corrida para evitar &#39;Idade das Trevas&#39; digital</a> (Folha de São Paulo).</p>

<h2 id="quem-olhará-pelos-orelhões">Quem olhará pelos orelhões?</h2>

<p>Pequeno documentário amador sobre a história dos telefones públicos no Brasil, os chamados “orelhões”.</p>

<p>Desde que vi este vídeo, peguei uma obsessão por “retrotelefonia”, telefones fixos, memórias associadas à ligações etc. Ando até mesmo pensando em comprar um telefone fixo. Me julguem!</p>

<p><a href="https://youtu.be/SBIEbgcfGSU" rel="nofollow">• O auge e a queda dos orelhões no Brasil</a> (Canal 90 ― Youtube).</p>

<h2 id="uberizando">Uberizando</h2>

<p>Texto dA Pública mostrando os critérios absurdos da Uber para cobrar mais em viagens ― ao tempo que paga menos aos motoristas.</p>

<p><a href="https://apublica.org/2026/01/o-que-voce-deve-fazer-para-pagar-menos-no-uber-e-aprender-no-caminho/" rel="nofollow">• O que você deve fazer para pagar menos no Uber – e aprender no caminho</a> (Natalia Viana ― A Pública)</p>

<h2 id="geriatria-da-tecnologia">Geriatria da tecnologia</h2>

<blockquote><p>Como o filme Uma Batalha Após a Outra retrata a guerra entre tecnologias.</p></blockquote>

<p>Eduardo Fernandes reflete sobre como temos de lidar com camadas e mais camadas de tecnologias e como velhas tecnologias estão se tornando “resistência” na era da ultradigitalização.</p>

<p><a href="https://textosobretela.com/p/geriatria-da-tecnologia" rel="nofollow">Geriatria da tecnologia</a> (Texto Sobre Tela ― Substack).</p>

<blockquote><p>Cada homem é árbitro de suas próprias virtudes.</p></blockquote>

<p>― William Faulkner em “O Som e a Fúria”.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:notas" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">notas</span></a> <a href="/ideiasdechirico/tag:cultura" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cultura</span></a> <a href="/ideiasdechirico/tag:tecnologia" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">tecnologia</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-costuradas-myff</guid>
      <pubDate>Sat, 21 Feb 2026 15:15:01 +0000</pubDate>
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      <title>Notas de voz sobre “Her” (2013)</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-de-voz-sobre-her-2013</link>
      <description>&lt;![CDATA[Um homem de pé diante de um computador de mesa; ao fundo, um espaçoso apartamento&#xA;&#xA;Imagem: cena de “Her” (2013).&#xA;&#xA;Ressalva. Em meados deste ano, assisti ao filme “Her” e durante a assistida, redigi algumas notas em um gravador de voz, a partir das quais eu gostaria de organizar uma crítica melhor organizada. Como o filme já foi bastante discutido, decidi que não valeria a pena tanto o esforço ― além de que as notas, como vocês verão, estão suficientemente estruturados, apesar da coloquialidade que não é comum na minha escrita. Por conta do filme ser bastante conhecido, me abstenho de qualquer introdução sua. Tentei deixá-las quase da mesma forma que foram transcritas automaticamente, somente com algumas adições e revisões de algumas expressões que o programa áudio-transcritor não conseguiu compreender bem.&#xA;&#xA;Notas de voz sobre “Her” (2013) &#xA;&#xA;Após 12 anos, desde o lançamento de “Her”, estamos cada vez mais próximos de criar um sistema operacional baseado em inteligência artificial. Então é a hora de discutir como poderia ser essa inteligência artificial.&#xA;&#xA;Nas primeiras vezes em que lhe assisti, encantou-me a estética, sobretudo a fotografia e o setape de computadores que aparecem no filme. Todo o longa-metragem foi recebido por mim e por outros tecnófilos quase como uma espécie de futuro desejado.&#xA;&#xA;A partir do atual estado de arte da sociedade e da tecnologia ― e sobretudo da inteligência artificial ―, outros lampejos me surgiram. Chamou-me atenção em especial em como é representado sua sociedade: inapta a expressar amor, necessitada de um redator profissional para redigir cartas afetuosas, uma necessidade provinda sobretudo de pessoas mais velhas. Além disso, há nesse cenário um fundo pouco explícito, mas hoje em dia conjecturável por conta das BigTech, no qual empresas lucram com solidão em massa.&#xA;&#xA;Mas, por outro lado, vejo um ideal de relação entre tecnologia e seres humanos em “Her”: uma relação amigável, de acolhimento e de confiança, na qual o dispositivo é sobretudo uma ferramenta responsiva, ainda que tenha “sentimentos”. &#xA;&#xA;Nota-se que a voz é o maior meio de orientar de comunicação com o computador, o que torna o filme mais envolvente. O som é um veículo mais acolhedor do que a visão, requer mais participação de quem tem contato com o veículo, o que faz todo o sentido no contexto do filme. Uma interface puramente visual tornaria o filme mais abstrato e menos envolvente.&#xA;&#xA;Outra coisa também muito interessante sobre esse filme é que, apesar de ele ter sido feito em 2013, em um período da ascensão das redes sociais, quando redes como o Facebook e o Twitter estava em alta, o diretor preferiu não as citar. A maior parte do tempo, as personagens do filme falam em e-meios e mesmo o e-meio é um veículo de notícias, então eles têm a newsletter como um veículo de comunicação de massas também.&#xA;&#xA;Essa escolha é lógica, eu creio que tenha a ver com o fato de que as redes sociais naquele tempo já eram um veículo muito abrasivo e, eliminando-as, a gente teria um filme mais cozy, essa coisa agradável, acolhedora, né? Sem tanta abrasividade, sem um cenário tão corrosivo que as redes sociais promovem.&#xA;&#xA;Tem algo também que me incomoda muito nesse filme, que explica o seu sucesso entre os homens, é que da personagem protagonista, um homem sensível, feminino, não se têm suas fragilidades mostradas no filme; a gente não entende porque é tão rejeitado, como é que ele tem tanta dificuldade com a sua relação com as mulheres.&#xA;&#xA;Um dos perigos que “Her” mostra certamente. Primeiro, que as empresas de tecnologia poderiam lucrar com a nossa solidão e com a nossa carência. Isso é indiscutível. Mas também relembra a importância de que, apesar da inteligência artificial, a gente mantenha a tecnologia em sua função de ferramenta, e não de brinquedo ou de meio de entretenimento. Afinal de contas, tudo no filme começa a desandar quando Theodore passa a se distrair com a “humanidade” sintética de “Samantha”, como é chamado o computador.&#xA;&#xA;Acho que é importante também lembrar que Sam Altman designou uma IA sua, a partir do conceito de “Her”. Isso faz pensar sobre como a gente tem que cuidar com a própria gramática visual dos nossos filmes criticando da tecnologia.&#xA;&#xA;Também percebo como algumas discussões são azeitadas no filme como, por exemplo, a questão da criatividade, não é? Em dado momento, quando o protagonista está em um passeio com seu computador, este compõe uma peça musicial que “combina com a situação”. Por nenhum no momento Theodore pensa sobre como a arte produzida por Samantha é sintética, sob quais parâmetros ela é designada.&#xA;&#xA;Então há uma certa aceitação sobre a criação por um inteligência artificial nesse cenário. Porque também ajuda a promover a IA com uma coisa positiva, cria toda essa gramática visual de “tecnopositividade” e seduz as pessoas, inclusive, né? Azeita a crítica a respeito da tecnologia.&#xA;&#xA;Eu gosto desse filme também por conta da relação agradável e azeitada com a tecnologia, mas também como ele promove a concepção de uma slow web, de uma slow tech, também por conta do e-meio ser o veículo principal de comunicação. Há sempre um momento para se receber notícias, e a IA percebe isso muito bem. Ela sabe o momento de dar certas notícias durante a interação, e isso também é positivo.&#xA;&#xA;#tecnologia #cultura #notas&#xA;&#xA;------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://scriptshadow.net/wp-content/uploads/2013/12/her-joaquin-phoenix-1.jpg" alt="Um homem de pé diante de um computador de mesa; ao fundo, um espaçoso apartamento"></p>

<h5 id="imagem-cena-de-her-2013">Imagem: cena de “Her” (2013).</h5>

<p><em>Ressalva</em>. Em meados deste ano, assisti ao filme “Her” e durante a assistida, redigi algumas notas em um gravador de voz, a partir das quais eu gostaria de organizar uma crítica melhor organizada. Como o filme já foi bastante discutido, decidi que não valeria a pena tanto o esforço ― além de que as notas, como vocês verão, estão suficientemente estruturados, apesar da coloquialidade que não é comum na minha escrita. Por conta do filme ser bastante conhecido, me abstenho de qualquer introdução sua. Tentei deixá-las quase da mesma forma que foram transcritas automaticamente, somente com algumas adições e revisões de algumas expressões que o programa áudio-transcritor não conseguiu compreender bem.</p>

<h2 id="notas-de-voz-sobre-her-2013">Notas de voz sobre “Her” (2013)</h2>

<p>Após 12 anos, desde o lançamento de “Her”, estamos cada vez mais próximos de criar um sistema operacional baseado em inteligência artificial. Então é a hora de discutir como poderia ser essa inteligência artificial.</p>

<p>Nas primeiras vezes em que lhe assisti, encantou-me a estética, sobretudo a fotografia e o setape de computadores que aparecem no filme. Todo o longa-metragem foi recebido por mim e por outros tecnófilos quase como uma espécie de futuro desejado.</p>

<p>A partir do atual estado de arte da sociedade e da tecnologia ― e sobretudo da inteligência artificial ―, outros lampejos me surgiram. Chamou-me atenção em especial em como é representado sua sociedade: inapta a expressar amor, necessitada de um redator profissional para redigir cartas afetuosas, uma necessidade provinda sobretudo de pessoas mais velhas. Além disso, há nesse cenário um fundo pouco explícito, mas hoje em dia conjecturável por conta das BigTech, no qual empresas lucram com solidão em massa.</p>

<p>Mas, por outro lado, vejo um ideal de relação entre tecnologia e seres humanos em “Her”: uma relação amigável, de acolhimento e de confiança, na qual o dispositivo é sobretudo uma ferramenta responsiva, ainda que tenha “sentimentos”.</p>

<p>Nota-se que a voz é o maior meio de orientar de comunicação com o computador, o que torna o filme mais envolvente. O som é um veículo mais acolhedor do que a visão, requer mais participação de quem tem contato com o veículo, o que faz todo o sentido no contexto do filme. Uma interface puramente visual tornaria o filme mais abstrato e menos envolvente.</p>

<p>Outra coisa também muito interessante sobre esse filme é que, apesar de ele ter sido feito em 2013, em um período da ascensão das redes sociais, quando redes como o Facebook e o Twitter estava em alta, o diretor preferiu não as citar. A maior parte do tempo, as personagens do filme falam em e-meios e mesmo o e-meio é um veículo de notícias, então eles têm a <em>newsletter</em> como um veículo de comunicação de massas também.</p>

<p>Essa escolha é lógica, eu creio que tenha a ver com o fato de que as redes sociais naquele tempo já eram um veículo muito abrasivo e, eliminando-as, a gente teria um filme mais <em>cozy</em>, essa coisa agradável, acolhedora, né? Sem tanta abrasividade, sem um cenário tão corrosivo que as redes sociais promovem.</p>

<p>Tem algo também que me incomoda muito nesse filme, que explica o seu sucesso entre os homens, é que da personagem protagonista, um homem sensível, feminino, não se têm suas fragilidades mostradas no filme; a gente não entende porque é tão rejeitado, como é que ele tem tanta dificuldade com a sua relação com as mulheres.</p>

<p>Um dos perigos que “Her” mostra certamente. Primeiro, que as empresas de tecnologia poderiam lucrar com a nossa solidão e com a nossa carência. Isso é indiscutível. Mas também relembra a importância de que, apesar da inteligência artificial, a gente mantenha a tecnologia em sua função de ferramenta, e não de brinquedo ou de meio de entretenimento. Afinal de contas, tudo no filme começa a desandar quando Theodore passa a se distrair com a “humanidade” sintética de “Samantha”, como é chamado o computador.</p>

<p>Acho que é importante também lembrar que Sam Altman designou uma IA sua, a partir do conceito de “Her”. Isso faz pensar sobre como a gente tem que cuidar com a própria gramática visual dos nossos filmes criticando da tecnologia.</p>

<p>Também percebo como algumas discussões são azeitadas no filme como, por exemplo, a questão da criatividade, não é? Em dado momento, quando o protagonista está em um passeio com seu computador, este compõe uma peça musicial que “combina com a situação”. Por nenhum no momento Theodore pensa sobre como a arte produzida por Samantha é sintética, sob quais parâmetros ela é designada.</p>

<p>Então há uma certa aceitação sobre a criação por um inteligência artificial nesse cenário. Porque também ajuda a promover a IA com uma coisa positiva, cria toda essa gramática visual de “tecnopositividade” e seduz as pessoas, inclusive, né? Azeita a crítica a respeito da tecnologia.</p>

<p>Eu gosto desse filme também por conta da relação agradável e azeitada com a tecnologia, mas também como ele promove a concepção de uma <em>slow web</em>, de uma <em>slow tech</em>, também por conta do e-meio ser o veículo principal de comunicação. Há sempre um momento para se receber notícias, e a IA percebe isso muito bem. Ela sabe o momento de dar certas notícias durante a interação, e isso também é positivo.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:tecnologia" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">tecnologia</span></a> <a href="/ideiasdechirico/tag:cultura" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cultura</span></a> <a href="/ideiasdechirico/tag:notas" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">notas</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-de-voz-sobre-her-2013</guid>
      <pubDate>Thu, 25 Dec 2025 21:56:14 +0000</pubDate>
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    <item>
      <title>Curtos e grossos</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/curtos-e-grossos</link>
      <description>&lt;![CDATA[Diz-se que alguém  é “curto e grosso” quando é direto ao ponto, sem rodeios, às vezes ― e este o sentido principal ― grosseiramente objetivo. Percebo que esse traço não é benquisto no Brasil, ao menos em sociedade. Passei a o notar no período em que ensinei português para estrangeiros. Ao contrário do brasileiro médio, a pessoa do Congo, do Quênia ou da Colômbia não tem muitos dedos para dizer um “não” ou “não gostei”.&#xA;&#xA;O “curto e grosso” não é bem aceito no Brasil. Em sociedade. Em literatura, acho particularmente a forma ideal de se passar uma informação ou macroinformação a alguém que nunca ouviu falar a respeito de determinada matéria. Salvo alguns belos calhamaços como “The Cantos”, de Pound, os livros que mais me marcaram ou que mais me ensinaram, não tinham mais do que 150 páginas. Nesta publicação quero falar um pouco delas.&#xA;&#xA;Os livros “curtos e grossos”, para além de serem breves, também são aqueles que, por alguma razão fizeram-me reler ao menos uma vez na vida; aqueles que, em avulsos momentos de dispersão, me visitam sem fazer alarde ou epifanias; obras que ficaram não só na memória, mas na memória muscular. Sua leitura flui tão bem que eu o poderia ler em uma tarde, malgrado o fato de conterem em si um alto grau de informação.&#xA;&#xA;“O que é comunicação poética” (1987), de Décio Pignatari&#xA;&#xA;A primeira obra que me vem à mente quando penso nessas características é esse antológico livro do poeta, ensaísta, tradutor e paulista Décio Pignatari. Na primeira leitura que fiz, há dez anos, me encantou em especial a forma com a qual o autor fazia o uso da palavra para explicar os processos da própria arte da palavra ― coisa rara em prosa em língua portuguesa é um texto introdutório bem escrito!&#xA;&#xA;Com esse livrinho, Pignatari pretende fornecer os recursos para possibilitar o mínimo de competência poética ao leitor, e de certa forma dessacralizar a poesia, tornando-a uma arte como qualquer outra (citando Pound logo no início, o autor diz que a poesia estaria mais próxima das artes plásticas do que da literatura); e que, como arte, necessita mais de técnica do que de inspiração.&#xA;&#xA;Também foi através de “O que é comunicação poética que peguei o gosto por semiótica, a ciência que busca entender os processos das linguagens. O autor comenta versos ou construções poéticas não pelo campo do discurso ou do simbólico (verbal), mas pelo campo da sintaxe formal e da estrutura (não verbal). Cheguei a o ler três ou quatro vezes, e em todas elas tenho lampejos sobre a linguagem poética e aprendo um pouco mais sobre escrever, tanto poesia, quanto prosa, visto que Pignatari não escreve ― ele joga bola com as palavras.&#xA;&#xA;“Saber ver arquitetura” (1948), de Bruno Zevi&#xA;&#xA;Nos primeiros dias em que cursei arquitetura, em um longínquo ano de 2016, uma pergunta circundava todas as aulas: o que é arquitetura?&#xA;&#xA;Confunde-se arquitetura com engenharia e até mesmo com design (diz um meme que “Arquitetura é design de edifícios”). Isso porque as três áreas, em maior ou menor grau, trabalham com estruturas.&#xA;&#xA;No entanto, foi com a leitura de um livrinho introdutório sobre a matéria que a minha dúvida foi sanada.&#xA;&#xA;Duas coisas saltaram-me aos olhos nessa leitura: o texto muito bem escrito de um autor que não tem a escrita como principal meio de expressão, e o modo com o qual o autor relaciona todas as linguagens e áreas. Para o arquiteto italiano Bruno Zevi, o desenvolvimento da Teoria da Relatividade e também da linguagem cubista na pintura foram imprescindíveis para o desenvolvimento de uma linguagem e de uma teoria da arquitetura modernas como conhecemos.&#xA;&#xA;A razão dessas influências? Através dessas duas macroideias, os teóricos de arquitetura perceberam a importância do fator tempo para a linguagem arquitetônica ― de tal modo que Zevi defende que um edifício só pode ser entendido à distância através de um registro em vídeo, não tanto por fotografia ou planta baixa...&#xA;&#xA;Outro exemplo da dialética e interdisciplinaridade na arquitetura: o arquiteto Aldo Rossi aponta que a teoria linguística de Ferdinand de Saussure (que Jung vai adotar em sua teoria de psicanálise) foi determinante em seus projetos, já que trabalham com modelos e estereótipos coletivos.&#xA;&#xA;Ler sobre arquitetura mostra-nos que as coisas não estão assim setorizadas com as gostaríamos, mas sim em eterno diálogo e triálogo com outras artes, linguagens, tecnologias e ciências.&#xA;&#xA;Saí do curso de arquitetura em 2019 para ingressar na graduação de Letras, porém as lições que Zevi deixou sobre interdisciplinaridade fizeram-me estar sempre alerta nas aulas do Centro de Humanidades quando alguém quer delimitar e setorizar conhecimentos. A importância desses estudos é tanto que, mesmo depois de sair do curso, segui lendo sobre arquitetura, sobretudo arquitetura contemporânea, área na qual não pude me aprofundar durante essa graduação.&#xA;&#xA;Na era da eletricidade, tudo está interconectado. O todo afeta as partes e, sobretudo, as partes afetam o todo. Arquitetura ensinou-me a rejeitar uma postura especialista, de gênio individual, para adotar uma postura polímata, de membro de uma equipe.&#xA;&#xA;“Em louvor das sombras” (1933), de Junichiro Tanizaki&#xA;&#xA;A primeira vez em que ouvi uma menção ao ensaio de Tanizaki foi numa conversa entre amigos. Na casa de um deles, que era mantenedor de um sebo virtual, em seu quarto lotado de livros e artigos curiosos, estava “Em louvor das sombras”. Saltou-me aos olhos a fina espessura do livro que se contrastava com a bela capa azul, ilustrada com uma iluminura tradicional japonesa ao centro. Após ler o seu resumo de contracapa, tornou-se uma leitura pendente.&#xA;&#xA;Como não o encontrava disponível em lugar algum (aquele exemplar do sebo virtual estava vendido, ou sendo lido naquele momento), decidi buscar por uma cópia sua na internet. Encontrei uma tradução em português... de Portugal. A linguagem rebuscada do português europeu em nada conversava com o estilo enxuto e direto do ensaísta japonês. Lembro claramente de leituras suas feitas na cama, nas quais eu acabava dormindo ― por mais interessante que fosse o texto.&#xA;&#xA;Há mais ou menos dois anos, porém, em uma leva de livros doados para o Centro Acadêmico de Letras da minha faculdade, lá estava o danado outra vez, mas em versão anglófona: “In praise of shadows”, na primeiríssima edição dos Estados Unidos, pela Leete&#39;s Island Books, de 1977. Como eu tinha por mim que a língua inglesa e a japonesa de certa forma aproximavam-se quanto à sintaxe simplificada e à natureza ideogramática, de justaposição de vocábulos, achei que seria uma boa opção. Decidi dar mais uma chance ao livro.&#xA;&#xA;E disso resultou uma das leituras mais fluidas e influentes da minha vida.&#xA;&#xA;“Em louvor das sombras” parte de iniciais reclamações de Tanizaki sobre como as tecnologias elétricas como o abajur, a lâmpada, o ventilador e a grelha elétrica, importadas todas do Ocidente, estavam impactando negativamente sua cultura tradicional, sobretudo a sua arquitetura. No entanto, posteriormente Tanizaki desenha uma cartografia de como as sombras e as penumbras estão presentes na moda, na música, no comportamento e até mesmo na culinária japonesas; contrastando-as com a busca incessante pela luz dentro da cultura ocidental.&#xA;&#xA;Tanizaki não se restringe somente à estética, e fala sobre as implicações de não haver uma ciência local e sobre como as invenções modernas não são desenhadas considerando os mais velhos (isso ainda no primeiro quarto do século XX!)&#xA;&#xA;A edição estadunidense está prefaciada pela professor Charles Moore, da Escola de Arquitetura UCLA, o que pode dar a entender que o livro interessa apenas a quem está envolvido com design ou arquitetura. Ceio que, entretanto, seja um bom livro àqueles que se interessem pela cultura japonesa tradicional de um modo geral, bem como pelo efeito das novas tecnologias em povos que não estão circunscritos no seu desenvolvimento e produção.&#xA;&#xA;Essa obra é mais um lembrete de que as tecnologias, mais do que importar discursos, abalam culturas inteiras...&#xA;&#xA;“Os loureiros estão cortados” (1887), de Edouard Dujardin&#xA;&#xA;Todos os livros sobre os quais falei até agora são aqueles que me instruíram sobre alguma coisa. Porém “Os loureiros estão cortados”, novela de Edouard Dujardin, foi um daqueles que mais me entreteram.&#xA;&#xA;Como diz o escritor francês em uma carta a seus pais: “[O livro] é simplesmente o relato de seis horas da vida de um jovem apaixonado por uma demoiselle ― seis horas durante as quais nada, nenhuma aventura acontece, e, na maior parte do tempo, o personagem está sozinho”. É isso. Um passeio de fim de tarde e começo de noite de uma Paris vitoriana. C&#39;est tout.&#xA;&#xA;No entanto, todo o encanto dos “Loureiros” está em sua linguagem...&#xA;&#xA;O texto todo é composto quase sempre em primeira pessoa, ou em “POV”, como defini “Se em uma noite de inverno um viajante”, de Italo Calvino, em uma das notas costuradas. Encantam em Dujardin a escrita impressionista, colorida e em movimento constante, sem elipses, logo, de “planos sequências”. É como assumir a posição de protagonista do livro.&#xA;&#xA;James Joyce, romancista que escreveu o colossal “Ulisses”, recomendou “Os loureiros” a um amigo, a fim de que esse reconhecesse a inspiração do autor irlandês para o monólogo ininterrupto de Molly Bloom, de cerca de 150 páginas.&#xA;&#xA;Certa vez o li em uma única tarde, durante uma viagem de duas horas na Serra Grande. Gosto de como as cenas são construídas e de como o uso da linguagem é posto como protagonista do livro, sempre a emular o “fluxo de consciência” (conceito esse, inclusive, para o qual essa novela foi determinante).&#xA;&#xA;Se eu fosse escrever uma narrativa, seria algo como “Os loureiros estão cortados”. É um desses livros leves, mas extraordinariamente originais, que se leem quando tudo vai mal.&#xA;&#xA;cultura&#xA;&#xA;-------------------------------------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Diz-se que alguém  é “curto e grosso” quando é direto ao ponto, sem rodeios, às vezes ― e este o sentido principal ― grosseiramente objetivo. Percebo que esse traço não é benquisto no Brasil, ao menos em sociedade. Passei a o notar no período em que ensinei português para estrangeiros. Ao contrário do brasileiro médio, a pessoa do Congo, do Quênia ou da Colômbia não tem muitos dedos para dizer um “não” ou “não gostei”.</p>

<p>O “curto e grosso” não é bem aceito no Brasil. Em sociedade. Em literatura, acho particularmente a forma ideal de se passar uma informação ou macroinformação a alguém que nunca ouviu falar a respeito de determinada matéria. Salvo alguns belos calhamaços como “The Cantos”, de Pound, os livros que mais me marcaram ou que mais me ensinaram, não tinham mais do que 150 páginas. Nesta publicação quero falar um pouco delas.</p>

<p>Os livros “curtos e grossos”, para além de serem breves, também são aqueles que, por alguma razão fizeram-me reler ao menos uma vez na vida; aqueles que, em avulsos momentos de dispersão, me visitam sem fazer alarde ou epifanias; obras que ficaram não só na memória, mas na memória muscular. Sua leitura flui tão bem que eu o poderia ler em uma tarde, malgrado o fato de conterem em si um alto grau de informação.</p>

<h2 id="o-que-é-comunicação-poética-1987-de-décio-pignatari">“O que é comunicação poética” (1987), de Décio Pignatari</h2>

<p>A primeira obra que me vem à mente quando penso nessas características é esse antológico livro do poeta, ensaísta, tradutor e paulista Décio Pignatari. Na primeira leitura que fiz, há dez anos, me encantou em especial a forma com a qual o autor fazia o uso da palavra para explicar os processos da própria arte da palavra ― coisa rara em prosa em língua portuguesa é um texto introdutório bem escrito!</p>

<p>Com esse livrinho, Pignatari pretende fornecer os recursos para possibilitar o mínimo de competência poética ao leitor, e de certa forma dessacralizar a poesia, tornando-a uma arte como qualquer outra (citando Pound logo no início, o autor diz que a poesia estaria mais próxima das artes plásticas do que da literatura); e que, como arte, necessita mais de técnica do que de inspiração.</p>

<p>Também foi através de “O que é comunicação poética que peguei o gosto por semiótica, a ciência que busca entender os processos das linguagens. O autor comenta versos ou construções poéticas não pelo campo do discurso ou do simbólico (verbal), mas pelo campo da sintaxe formal e da estrutura (não verbal). Cheguei a o ler três ou quatro vezes, e em todas elas tenho lampejos sobre a linguagem poética e aprendo um pouco mais sobre escrever, tanto poesia, quanto prosa, visto que Pignatari não escreve ― ele joga bola com as palavras.</p>

<h2 id="saber-ver-arquitetura-1948-de-bruno-zevi">“Saber ver arquitetura” (1948), de Bruno Zevi</h2>

<p>Nos primeiros dias em que cursei arquitetura, em um longínquo ano de 2016, uma pergunta circundava todas as aulas: o que é arquitetura?</p>

<p>Confunde-se arquitetura com engenharia e até mesmo com <em>design</em> (diz um meme que “Arquitetura é <em>design</em> de edifícios”). Isso porque as três áreas, em maior ou menor grau, trabalham com estruturas.</p>

<p>No entanto, foi com a leitura de um livrinho introdutório sobre a matéria que a minha dúvida foi sanada.</p>

<p>Duas coisas saltaram-me aos olhos nessa leitura: o texto muito bem escrito de um autor que não tem a escrita como principal meio de expressão, e o modo com o qual o autor relaciona todas as linguagens e áreas. Para o arquiteto italiano Bruno Zevi, o desenvolvimento da Teoria da Relatividade e também da linguagem cubista na pintura foram imprescindíveis para o desenvolvimento de uma linguagem e de uma teoria da arquitetura modernas como conhecemos.</p>

<p>A razão dessas influências? Através dessas duas macroideias, os teóricos de arquitetura perceberam a importância do fator tempo para a linguagem arquitetônica ― de tal modo que Zevi defende que um edifício só pode ser entendido à distância através de um registro em vídeo, não tanto por fotografia ou planta baixa...</p>

<p>Outro exemplo da dialética e interdisciplinaridade na arquitetura: o arquiteto Aldo Rossi aponta que a teoria linguística de Ferdinand de Saussure (que Jung vai adotar em sua teoria de psicanálise) foi determinante em seus projetos, já que trabalham com modelos e estereótipos coletivos.</p>

<p>Ler sobre arquitetura mostra-nos que as coisas não estão assim setorizadas com as gostaríamos, mas sim em eterno diálogo e triálogo com outras artes, linguagens, tecnologias e ciências.</p>

<p>Saí do curso de arquitetura em 2019 para ingressar na graduação de Letras, porém as lições que Zevi deixou sobre interdisciplinaridade fizeram-me estar sempre alerta nas aulas do Centro de Humanidades quando alguém quer delimitar e setorizar conhecimentos. A importância desses estudos é tanto que, mesmo depois de sair do curso, segui lendo sobre arquitetura, sobretudo arquitetura contemporânea, área na qual não pude me aprofundar durante essa graduação.</p>

<p>Na era da eletricidade, tudo está interconectado. O todo afeta as partes e, sobretudo, as partes afetam o todo. Arquitetura ensinou-me a rejeitar uma postura especialista, de gênio individual, para adotar uma postura polímata, de membro de uma equipe.</p>

<h2 id="em-louvor-das-sombras-1933-de-junichiro-tanizaki">“Em louvor das sombras” (1933), de Junichiro Tanizaki</h2>

<p>A primeira vez em que ouvi uma menção ao ensaio de Tanizaki foi numa conversa entre amigos. Na casa de um deles, que era mantenedor de um sebo virtual, em seu quarto lotado de livros e artigos curiosos, estava “Em louvor das sombras”. Saltou-me aos olhos a fina espessura do livro que se contrastava com a bela capa azul, ilustrada com uma iluminura tradicional japonesa ao centro. Após ler o seu resumo de contracapa, tornou-se uma leitura pendente.</p>

<p>Como não o encontrava disponível em lugar algum (aquele exemplar do sebo virtual estava vendido, ou sendo lido naquele momento), decidi buscar por uma cópia sua na internet. Encontrei uma tradução em português... de Portugal. A linguagem rebuscada do português europeu em nada conversava com o estilo enxuto e direto do ensaísta japonês. Lembro claramente de leituras suas feitas na cama, nas quais eu acabava dormindo ― por mais interessante que fosse o texto.</p>

<p>Há mais ou menos dois anos, porém, em uma leva de livros doados para o Centro Acadêmico de Letras da minha faculdade, lá estava o danado outra vez, mas em versão anglófona: “<em>In praise of shadows</em>”, na primeiríssima edição dos Estados Unidos, pela Leete&#39;s Island Books, de 1977. Como eu tinha por mim que a língua inglesa e a japonesa de certa forma aproximavam-se quanto à sintaxe simplificada e à natureza ideogramática, de justaposição de vocábulos, achei que seria uma boa opção. Decidi dar mais uma chance ao livro.</p>

<p>E disso resultou uma das leituras mais fluidas e influentes da minha vida.</p>

<p>“Em louvor das sombras” parte de iniciais reclamações de Tanizaki sobre como as tecnologias elétricas como o abajur, a lâmpada, o ventilador e a grelha elétrica, importadas todas do Ocidente, estavam impactando negativamente sua cultura tradicional, sobretudo a sua arquitetura. No entanto, posteriormente Tanizaki desenha uma cartografia de como as sombras e as penumbras estão presentes na moda, na música, no comportamento e até mesmo na culinária japonesas; contrastando-as com a busca incessante pela luz dentro da cultura ocidental.</p>

<p>Tanizaki não se restringe somente à estética, e fala sobre as implicações de não haver uma ciência local e sobre como as invenções modernas não são desenhadas considerando os mais velhos (isso ainda no primeiro quarto do século XX!)</p>

<p>A edição estadunidense está prefaciada pela professor Charles Moore, da Escola de Arquitetura UCLA, o que pode dar a entender que o livro interessa apenas a quem está envolvido com <em>design</em> ou arquitetura. Ceio que, entretanto, seja um bom livro àqueles que se interessem pela cultura japonesa tradicional de um modo geral, bem como pelo efeito das novas tecnologias em povos que não estão circunscritos no seu desenvolvimento e produção.</p>

<p>Essa obra é mais um lembrete de que as tecnologias, mais do que importar discursos, abalam culturas inteiras...</p>

<h2 id="os-loureiros-estão-cortados-1887-de-edouard-dujardin">“Os loureiros estão cortados” (1887), de Edouard Dujardin</h2>

<p>Todos os livros sobre os quais falei até agora são aqueles que me instruíram sobre alguma coisa. Porém “Os loureiros estão cortados”, novela de Edouard Dujardin, foi um daqueles que mais me entreteram.</p>

<p>Como diz o escritor francês em uma carta a seus pais: “[O livro] é simplesmente o relato de seis horas da vida de um jovem apaixonado por uma <em>demoiselle</em> ― seis horas durante as quais nada, nenhuma aventura acontece, e, na maior parte do tempo, o personagem está sozinho”. É isso. Um passeio de fim de tarde e começo de noite de uma Paris vitoriana. <em>C&#39;est tout</em>.</p>

<p>No entanto, todo o encanto dos “Loureiros” está em sua linguagem...</p>

<p>O texto todo é composto quase sempre em primeira pessoa, ou em “POV”, como defini “Se em uma noite de inverno um viajante”, de Italo Calvino, em uma das <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-costuradas-s6vc" rel="nofollow">notas costuradas</a>. Encantam em Dujardin a escrita impressionista, colorida e em movimento constante, sem elipses, logo, de “planos sequências”. É como assumir a posição de protagonista do livro.</p>

<p>James Joyce, romancista que escreveu o colossal “Ulisses”, recomendou “Os loureiros” a um amigo, a fim de que esse reconhecesse a inspiração do autor irlandês para o monólogo ininterrupto de Molly Bloom, de cerca de 150 páginas.</p>

<p>Certa vez o li em uma única tarde, durante uma viagem de duas horas na Serra Grande. Gosto de como as cenas são construídas e de como o uso da linguagem é posto como protagonista do livro, sempre a emular o “fluxo de consciência” (conceito esse, inclusive, para o qual essa novela foi determinante).</p>

<p>Se eu fosse escrever uma narrativa, seria algo como “Os loureiros estão cortados”. É um desses livros leves, mas extraordinariamente originais, que se leem quando tudo vai mal.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:cultura" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cultura</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/curtos-e-grossos</guid>
      <pubDate>Fri, 05 Dec 2025 20:57:48 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Discurso para concludentes do PEC-PLE 2025</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/discurso-para-concludentes-do-pec-ple-2025</link>
      <description>&lt;![CDATA[Ressalva: No último dia 28 aconteceu a cerimônia de entrega dos certificados do curso de português para estrangeiros do Núcleo de Línguas da minha universidade. Como relato nesta publicação, ministrei aulas de português como língua estrangeira (PLE) desde fevereiro deste ano por meio do Programa Estudantes-Convênio (PEC-PLE), cujo objetivo é preparar estudantes de outros países para a prova Celpe-Bras. Como sou concludente do curso de Letras, infelizmente já não poderei seguir com as aulas no ano que vem.&#xA;&#xA;Como tinha muito o que falar naquele momento, decidi escrever um texto sobre a minha relação especial com o ensino de PLE, com a língua portuguesa em si, e algumas considerações sobre o Brasil enquanto país de acolhimento. Antes mesmo de começar o pronunciamento, falei um pouco sobre o impacto dessas aulas em minha formação, como me encontrei bem nesse ramo educacional e também chamei a atenção para a falta de formação para o ensino de português para estrangeiros nas universidades brasileiras.&#xA;&#xA;Bati esse texto à máquina de escrever na tarde anterior ao evento, mas, apesar da pressa e do improviso, penso que consegui condensar bem a minha postura sobre o meu idioma materno e sobre meu país.&#xA;&#xA;Transcrevo-o aqui tanto porque alguns alunos os quais eu gostaria de que estivessem lá não puderam comparecer, quanto porque penso que esta fala possa interessar a mais pessoas. Nesta transcrição fiz algumas correções, mas procurei manter também algumas adaptações que fiz no momento da fala.&#xA;&#xA;Aqui o texto:&#xA;&#xA;Discurso para concludentes do PEC-PLE 2025&#xA;&#xA;Pronunciado em 28 de outubro às 16h30 no Núcleo de Línguas da Universidade Estadual do Ceará, campus Itaperi&#xA;&#xA;Boa tarde a todos.&#xA;&#xA;Bom, aqui estamos. Finalmente posso falar em português com todos vocês! É com esta língua que penso todos os dias, com que amo, aquela com que expresso meus medos e meus sonhos da forma mais precisa possível; e é esta língua que herdo a vocês!&#xA;&#xA;Esta minha fala é o atestado de meu trabalho com Alef e Tobias nos últimos oito meses. Em fevereiro, eu não podia falar uma frase sequer, sem que, para ser entendido, precisasse modular minha fala, explicar termos, fazer breves traduções; hoje posso utilizar minha língua da forma mais sofisticada possível, que sei que todos vocês irão me compreender! E mais: serão capazes de dar uma resposta à altura.&#xA;&#xA;Sei que alguns de vocês vieram ao Brasil aprender português sobretudo para a realização de uma prova de proficiência linguística. Felicito-lhes pela coragem. Não sei se eu mesmo o faria. No entanto, gostaria de que o interesse de vocês ultrapassasse o nível instrumental deste idioma. Esta é a língua dos meus pais e dos meus melhores amigos; ensiná-la a vocês foi mais do que um trabalho: foi parte de uma missão. Entendam-na como um presente que lhes dou.&#xA;&#xA;“Minha língua é minha pátria”, diz uma canção de Caetano Veloso que estudamos em sala de aula. A partir do momento em que vocês aprenderam esta língua com que falo, não estão pura e simplesmente habilitados a iniciar estudos universitários no Brasil; vocês ingressaram na comunidade lusófona, que se espalha pelos quatro cantos do mundo, até mesmo em países que não têm o português como idioma oficial.&#xA;&#xA;Se você fala a língua com que falo ou a aprende, você é meu compatriota; se você me entende, você me é um irmão. Digo isto não somente por mim: é assim que os brasileiros interpretamos a nossa língua. Quando um brasileiro vê um estrangeiro a aprender a sua língua, para ele significa mais uma pessoa do mundo desconhecido com que pode se comunicar, é mais uma antena com que pode transmitir sua mensagem para o mundo.&#xA;&#xA;Atualmente tenho domínio de quatro línguas estrangeiras; e com toda a minha franqueza, tenho de admitir que o português segue como minha favorita. Não porque eu tenha alguma afeição somente, mas porque com esta língua é possível fazer tudo: é possível cantar desde o punk rock mais rasgado de um Garotos Podres até o mais sensível chorinho de Cartola; pode-se fazer a literatura mais dura de um João Cabral de Melo Neto ou de um Graciliano Ramos, mas pode-se fazer a literatura mais barroca de um Guimarães Rosa ou de Cecília Meireles. A língua portuguesa pode tudo. Pode poetizar, pode cinemar, pode musicar. E também pode (e deve) se internacionalizar. E nisto nós professores e vocês estudantes pudemos contribuir.&#xA;&#xA;E tão diverso quanto esta língua são os países que a falam. Somos atualmente 265 milhões de pessoas lusófonas, espalhadas nas Américas, na África, na Europa e, em algum grau, na Ásia e na Oceania. Mas talvez não haja outro país que mais fez desta língua sua bandeira do que o Brasil.&#xA;&#xA;Sei que alguns de vocês podem pensar, e pensam certo, que a implementação da língua portuguesa é resultado de um processo de colonização e de regimes autoritários subsequentes. Até meados do século XIX, esta não era sequer o idioma mais falado em território brasileiro. Nas primeiras décadas do século XX, logo após uma série de genocídios [de povos] indígenas causados pelo império lusobrasileiro, a ditadura Vargas proibiu que qualquer outra língua que não o português fosse falada e até mesmo ensinada pelos brasileiros, malgrado a constante onda de imigração de japoneses, italianos e alemães em nosso país, iniciada no século anterior.&#xA;&#xA;Ao fim de tudo, o português acabou sendo a única língua falada oficialmente nos mais de oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil. Com suas variações, com seus dialetos, mas falada. E em seu bojo guardou a influência de todos os povos que por ela percorreram: árabes, africanos, ameríndios, europeus.&#xA;&#xA;O brasileiro é hoje majoritariamente monolíngue, mas faz desta língua a sua ferramenta de trabalho e o seu brinquedo.&#xA;&#xA;Quando suas jornadas neste país acabarem, espero que ao menos alguns de vocês fiquem. Mas se não ficarem, que levem o Brasil aonde forem.&#xA;&#xA;Entendam no entanto que não existe um Brasil. Existem Brasis. Tão diverso quanto sua língua, é este país difícil de ser definido. O comediante francês Paul Cabannes certa vez disse que no Brasil nada é pouco; no Brasil tudo é muito: se alguém dança, ela dança muito; se namora, namora muito; se estuda, estuda muito. E neste país de intensidades espero que vocês também sejam, aprendam, amem e festejem muito.&#xA;&#xA;E quero dizer que, independentemente de quais sejam seus planos neste país, com a maior franqueza do mundo: vai dar certo. Cedo ou tarde, vocês conseguirão realizar tudo o que quiserem no Brasil. Ele pode ter um monte de problemas, mas tudo o que se sonha no Brasil, se realiza. Como diria o poeta Décio Pignatari: “No Brasil, só não resulta o que você não faz”.&#xA;&#xA;E a partir deste programa, estou certo de que estou mais perto de realizar o meu sonho que é tornar o português uma linguagem internacional e o Brasil um país internacional. Por isso, agradeço a cada um de vocês que participou deste pequeno passo na nossa História.&#xA;&#xA;Enantchê nuê, Cotonou!&#xA;&#xA;Natonde mingue, Brazzaville! Natonde mingue, Kinshassa!&#xA;&#xA;Obrigadu, Dili!&#xA;&#xA;Assantsi, Nairóbi!&#xA;&#xA;Gracias, gente de Cienfuegos, Bogotá y San José!&#xA;&#xA;Um grande abraço desde a Serra Grande, a terra onde nasci. Good luck, bonne chance, vos deseo suerte.&#xA;&#xA;Obrigado pela atenção!&#xA;&#xA;Post-scriptum: todo o poder ao Sul global!&#xA;&#xA;cultura&#xA;&#xA;-----------------------------------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><em>Ressalva</em>: No último dia 28 aconteceu a cerimônia de entrega dos certificados do curso de português para estrangeiros do Núcleo de Línguas da minha universidade. Como relato <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/sala-de-aula" rel="nofollow">nesta publicação</a>, ministrei aulas de português como língua estrangeira (PLE) desde fevereiro deste ano por meio do <a href="https://www.uece.br/ecint/pec-ple/" rel="nofollow">Programa Estudantes-Convênio</a> (PEC-PLE), cujo objetivo é preparar estudantes de outros países para a prova <a href="https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames-educacionais/celpe-bras" rel="nofollow">Celpe-Bras</a>. Como sou concludente do curso de Letras, infelizmente já não poderei seguir com as aulas no ano que vem.</p>

<p>Como tinha muito o que falar naquele momento, decidi escrever um texto sobre a minha relação especial com o ensino de PLE, com a língua portuguesa em si, e algumas considerações sobre o Brasil enquanto país de acolhimento. Antes mesmo de começar o pronunciamento, falei um pouco sobre o impacto dessas aulas em minha formação, como me encontrei bem nesse ramo educacional e também chamei a atenção para a falta de formação para o ensino de português para estrangeiros nas universidades brasileiras.</p>

<p>Bati esse texto à máquina de escrever na tarde anterior ao evento, mas, apesar da pressa e do improviso, penso que consegui condensar bem a minha postura sobre o meu idioma materno e sobre meu país.</p>

<p>Transcrevo-o aqui tanto porque alguns alunos os quais eu gostaria de que estivessem lá não puderam comparecer, quanto porque penso que esta fala possa interessar a mais pessoas. Nesta transcrição fiz algumas correções, mas procurei manter também algumas adaptações que fiz no momento da fala.</p>

<p>Aqui o texto:</p>

<h2 id="discurso-para-concludentes-do-pec-ple-2025">Discurso para concludentes do PEC-PLE 2025</h2>

<h3 id="pronunciado-em-28-de-outubro-às-16h30-no-núcleo-de-línguas-da-universidade-estadual-do-ceará-campus-itaperi">Pronunciado em 28 de outubro às 16h30 no Núcleo de Línguas da Universidade Estadual do Ceará, <em>campus</em> Itaperi</h3>

<p>Boa tarde a todos.</p>

<p>Bom, aqui estamos. Finalmente posso falar em português com todos vocês! É com esta língua que penso todos os dias, com que amo, aquela com que expresso meus medos e meus sonhos da forma mais precisa possível; e é esta língua que herdo a vocês!</p>

<p>Esta minha fala é o atestado de meu trabalho com Alef e Tobias nos últimos oito meses. Em fevereiro, eu não podia falar uma frase sequer, sem que, para ser entendido, precisasse modular minha fala, explicar termos, fazer breves traduções; hoje posso utilizar minha língua da forma mais sofisticada possível, que sei que todos vocês irão me compreender! E mais: serão capazes de dar uma resposta à altura.</p>

<p>Sei que alguns de vocês vieram ao Brasil aprender português sobretudo para a realização de uma prova de proficiência linguística. Felicito-lhes pela coragem. Não sei se eu mesmo o faria. No entanto, gostaria de que o interesse de vocês ultrapassasse o nível instrumental deste idioma. Esta é a língua dos meus pais e dos meus melhores amigos; ensiná-la a vocês foi mais do que um trabalho: foi parte de uma missão. Entendam-na como um presente que lhes dou.</p>

<p>“Minha língua é minha pátria”, diz uma canção de Caetano Veloso que estudamos em sala de aula. A partir do momento em que vocês aprenderam esta língua com que falo, não estão pura e simplesmente habilitados a iniciar estudos universitários no Brasil; vocês ingressaram na comunidade lusófona, que se espalha pelos quatro cantos do mundo, até mesmo em países que não têm o português como idioma oficial.</p>

<p>Se você fala a língua com que falo ou a aprende, você é meu compatriota; se você me entende, você me é um irmão. Digo isto não somente por mim: é assim que os brasileiros interpretamos a nossa língua. Quando um brasileiro vê um estrangeiro a aprender a sua língua, para ele significa mais uma pessoa do mundo desconhecido com que pode se comunicar, é mais uma antena com que pode transmitir sua mensagem para o mundo.</p>

<p>Atualmente tenho domínio de quatro línguas estrangeiras; e com toda a minha franqueza, tenho de admitir que o português segue como minha favorita. Não porque eu tenha alguma afeição somente, mas porque com esta língua é possível fazer tudo: é possível cantar desde o punk rock mais rasgado de um Garotos Podres até o mais sensível chorinho de Cartola; pode-se fazer a literatura mais dura de um João Cabral de Melo Neto ou de um Graciliano Ramos, mas pode-se fazer a literatura mais barroca de um Guimarães Rosa ou de Cecília Meireles. A língua portuguesa pode tudo. Pode poetizar, pode cinemar, pode musicar. E também pode (e deve) se internacionalizar. E nisto nós professores e vocês estudantes pudemos contribuir.</p>

<p>E tão diverso quanto esta língua são os países que a falam. Somos atualmente 265 milhões de pessoas lusófonas, espalhadas nas Américas, na África, na Europa e, em algum grau, na Ásia e na Oceania. Mas talvez não haja outro país que mais fez desta língua sua bandeira do que o Brasil.</p>

<p>Sei que alguns de vocês podem pensar, e pensam certo, que a implementação da língua portuguesa é resultado de um processo de colonização e de regimes autoritários subsequentes. Até meados do século XIX, esta não era sequer o idioma mais falado em território brasileiro. Nas primeiras décadas do século XX, logo após uma série de genocídios [de povos] indígenas causados pelo império lusobrasileiro, a ditadura Vargas proibiu que qualquer outra língua que não o português fosse falada e até mesmo ensinada pelos brasileiros, malgrado a constante onda de imigração de japoneses, italianos e alemães em nosso país, iniciada no século anterior.</p>

<p>Ao fim de tudo, o português acabou sendo a única língua falada oficialmente nos mais de oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil. Com suas variações, com seus dialetos, mas falada. E em seu bojo guardou a influência de todos os povos que por ela percorreram: árabes, africanos, ameríndios, europeus.</p>

<p>O brasileiro é hoje majoritariamente monolíngue, mas faz desta língua a sua ferramenta de trabalho e o seu brinquedo.</p>

<p>Quando suas jornadas neste país acabarem, espero que ao menos alguns de vocês fiquem. Mas se não ficarem, que levem o Brasil aonde forem.</p>

<p>Entendam no entanto que não existe um Brasil. Existem Brasis. Tão diverso quanto sua língua, é este país difícil de ser definido. O comediante francês Paul Cabannes certa vez disse que no Brasil nada é pouco; no Brasil tudo é muito: se alguém dança, ela dança muito; se namora, namora muito; se estuda, estuda muito. E neste país de intensidades espero que vocês também sejam, aprendam, amem e festejem muito.</p>

<p>E quero dizer que, independentemente de quais sejam seus planos neste país, com a maior franqueza do mundo: vai dar certo. Cedo ou tarde, vocês conseguirão realizar tudo o que quiserem no Brasil. Ele pode ter um monte de problemas, mas tudo o que se sonha no Brasil, se realiza. Como diria o poeta Décio Pignatari: “No Brasil, só não resulta o que você não faz”.</p>

<p>E a partir deste programa, estou certo de que estou mais perto de realizar o meu sonho que é tornar o português uma linguagem internacional e o Brasil um país internacional. Por isso, agradeço a cada um de vocês que participou deste pequeno passo na nossa História.</p>

<p><em>Enantchê nuê, Cotonou!</em></p>

<p><em>Natonde mingue, Brazzaville! Natonde mingue, Kinshassa!</em></p>

<p><em>Obrigadu, Dili!</em></p>

<p><em>Assantsi, Nairóbi!</em></p>

<p><em>Gracias, gente de Cienfuegos, Bogotá y San José!</em></p>

<p>Um grande abraço desde a Serra Grande, a terra onde nasci. <em>Good luck, bonne chance, vos deseo suerte</em>.</p>

<p>Obrigado pela atenção!</p>

<p><em>Post-scriptum</em>: todo o poder ao Sul global!</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:cultura" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cultura</span></a></p>

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      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/discurso-para-concludentes-do-pec-ple-2025</guid>
      <pubDate>Thu, 30 Oct 2025 12:17:08 +0000</pubDate>
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