Em 2026, Brasil levou Hexa

A palavra Hexa em cor amarela sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido

Texto alternativo: A palavra “Hexa” em cor amarela sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido. Arte: Arlon de Serra Grande.

Para quem não acreditou, sim, o Brasil levou um hexa...

Não, não vivo em um universo paralelo em que os brasileiros fomos campeões. Me explico:

2006, Copa do Mundo sediada na Alemanha, Brasil perde de 1x0 para a França (com Kaká em campo) ― primeira hecatombe¹; 2010, com sede na África do Sul, já em campo com o influenciador “sabor” jogador Neymar, perdemos de 2x1 para a “Laranja Mecânica” ― segunda hecatombe ― (lembro de me divertir um monte com as montagens do Mundo Canibal sobre os jogos, isso tornou a derrota mais leve); a grande e fatídica hecatombe foi a de 2014 quando, em casa, perdemos de 7x1 para a Alemanha (com Neymar nocauteado, o clima no estádio era de terra arrasada mesmo antes do jogo); 2018, em terra russa, fomos de 2x1 para Bélgica (alguém lembra desse jogo?) ― quarta hecatombe ―; no Qatar, 2022, empatados, perdemos por pênaltis (esse cassino futebolístico) para a Croácia ― quinta hecatombe ―; em solo ianque, 2026, acabamos de sair de oitavas por uma preguiçosa Noruega que nos venceu por 2x1 (com gol de pênalti de Neymar, que por pouco não nos envergonha com uma troca de tapas com o goleiro norueguês) ― sexta hecatombe.

Assim, levamos um hexa ― mas um hexatombe. Seis vezes sacrificado em nome de qualquer coisa que não participe do Brasil enquanto nação. Como li no dia seguinte à derrota, “A ideia da seleção como alma da brasilidade perdeu sentido”.

A palavra Tombe em cor vermelha sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido

Texto alternativo: A palavra “Tombe” em cor vermelha sobre fundo verde ― as duas cores são invertidas bem rápido. Arte: Arlon de Serra Grande.

Ao mesmo tempo, já não temos uma nova bossa para chamar de nossa. A esperança da Fórmula 1 morreu. Ainda assim não resistimos ao sonho de sermos campeões no futebol. Avançamos para o segundo quarto do século XXI ainda tentando manter a mesma concepção de país que tínhamos no século anterior.

Por outro lado, nos apareceram o skateboarding, o surfe e a ginástica rítmica, categorias em que fomos ouro nas últimas Olimpíadas. Há ainda a tímida promessa no tênis de mesa de um Hugo Calderano que venceu campeonatos na China, país que acumula basicamente todos os troféus nesse esporte. Ainda por cima, a pouco lembrada poesia experimental e propositiva que herdamos dos poetas concretos de 1950 ainda hoje nos rende frutos...

Vamborandá. Pode ser que esse “hexa” seja um sinal de que devamos jogar menos com bola e jogar mais com ideias a fim de construirmos um outro Brasil ― pós-Pelé, pós-Senna, pós-tudo.

¹: He.ca.tom.be (do grego antigo ἑκατόμβη, composto de ἑκατόν “cem” e βοῦς “boi”) é o sacrifício de cem reses aos deuses na Grécia Antiga. Os lusitanos ofereciam hecatombes ao modo grego. Modernamente o termo é aplicado a grandes catástrofes.

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