Uma primeira primeira vez

Não há exercício melhor de autoconhecimento do que lembrar, não das primeiras vezes ― essas nos aparecem dia após dia (basta ter a sensibilidade necessária para percebê-las) ―, mas sim das primeiras primeiras vezes, aquelas da infância e da adolescência, de quando o mundo era gigante como o pai da gente.

Até para que eu próprio me conheça enquanto conto uma delas, deixo que o leitor a entreveja...

Eram idos dos anos oitenta, na gloriosa Serra Grande, onde cresci, casei e criei meus três filhos ― que talvez não saibam (por enquanto) dessa história. Estavam ainda em alta as discotecas. Minha cidade, por mais pequena que fosse, dispunha de boas e grandes praças, boates e (vejam só como as coisas mudam!) cinemas. Assim, os namorados estavam bem servidos de programas e, ainda que esses por acaso faltassem, ainda sobravam as serestas e os namoros na varanda ― esses doces e clandestinos ensaios sexuais.

No entanto, para um menino de 15 anos, tudo isso ainda não passava de histórias de amigos e parentes mais velhos. Eu ainda sairia com um “pão” pela primeira vez naquela noitinha de quinta-feira.

Era hora.

Ao entardecer, enquanto tocava a habitual “Ave Maria” no radinho de meu pai distraído no quintal, lá estava eu penteando meus cabelos molhados, com a ajuda do espelhinho de aro laranja. Vestindo a roupa nova em folha saída da costureira ainda àquela tarde, fui sorrateiramente ao quarto dele para tomar emprestadas duas borrifadas de seu melhor perfume.

Fechando cuidadosamente o portão de casa, fui à praça central me sentindo o próprio Tony Ramos.

Já era média noite quando eu a vi, aquela que seria uma das minhas primeiras primeiras vezes... Do seu nome, já não lembro mais, mas poderíamos chamá-la de Mirian.

Amigos meus, mais experimentados, sugeriram que eu a levasse para o cinema, o que Mirian declinou:

― A próxima sessão é muito tarde, e a sala mais próxima está assim de mofo!

Certo. As recentes chuvas justificavam o mofo, mas agora eu teria um escurinho a menos onde a beijar e, quem sabe...

Sobravam a praça e a boate. A primeira, com privacidade zero, nem pensar, a não ser que eu estourasse a lâmpada do poste. A segunda, bem, seria um risco, porque, salvo se por um milagre de termos a pista toda para nós, ficaríamos muito expostos ― aí, já viu: nada de bitoca. Além de tudo, não diria que eu era um exímio dançarino, mas vai que tocava uma música lenta, mais fácil de dançar, e ainda por cima agarradinho...

Apressados por conta da chuva que se aproximava outra vez, quase a atropelando, entramos na discoteca.

Iluminada por mil cores, um calor danado, a pista estava tinindo! Muita gente, pouca chance. Se eu não cuidasse, era capaz até de pegarem a dona que eu levei.

Mas fiquei. Vi que estava curtindo e que já estava na minha. Agora era cuidar para não lhe pisar no pé tentando imitar John Travolta de “Grease”.

Nas minhas limitações, dancei; nas minhas limitações a agarrei; mas nas minhas limitações não cheguei nos finalmentes. Muita luz, muita gente.

Dançávamos bem juntinhos ao som de “Woman”, de John Lennon, até que ― blam! ―, cai a energia. Bem, era agora ou nunca! Um belo de um blecaute, mas eu estava de olhos bem abertos quando lhe tasquei a língua em cheio. Seu gosto era algo entre agridoce e verde-musgo. Estranho ainda era aquela boca sem dentes...

E aí, quando fez-se luz outra vez, Mirian disse:

― Ei, menino, é mais pra baixo, tu 'tá beijando é meu nariz!

#cotidiano


CC BY-NC 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter