Sobre uma nostalgia ortográfica

Amigos meus, crianças saídas dos anos 2000, suspiram de saudade pelo sinal trema.

Não lhes tiro a razão.

Em uma língua opaca como a portuguesa, na qual a relação entre fala e escrita não é assim transparente, qualquer indicador de pronúncia adequada à norma padrão é bem vindo.

Falo por mim: a falta desse sinal é tanta, que quando quero saber se “u” é pronunciado em ocorrências de “qu” e “gu”, recorro a um velho e grosso dicionário que guardo em casa, onde o trema é ainda marcado.

Mas há outra coisa da qual sinto ainda mais falta do que deste sinal: de quando “k”, “y” e “w” não integravam o alfabeto de língua portuguesa.

Quantos pesadelos esse trio já me causou...

Por mais que, antes do “desacordo ortográfico”, o brasileiro médio já o utilizasse quase que clandestinamente através de nomes próprios (sobretudo de gente trabalhadora) e lojas populares, a presença dessas consoantes demarcava uma linha linguística clara.

Antes do desacordo, quando elas apareciam em um texto lusófono qualquer, era como se nos estivesse dito: “Estamos em terreno estrangeiro”. Logo, ao leitor era sinalizado de que a pronúncia da palavra não era igual às anteriores.

Sim, podemos delimitar este mesmo terreno hoje em dia com o itálico, em caso de texto digitado, ou com aspas, em caso de texto manuscrito; no entanto, antes da aceitação desse trio alienígena, a própria língua delineava suas fronteiras.

Outro dia, estive preocupado com o significado de “typo” (pronunciado “taipo”). Havia, então, esse irascível ípsilon. Escrevo seu nome por extenso para que se veja o quão nauseabundo é. Ípsilon. Imagine a dificuldade que é para uma criança pronunciá-la. Imagine até mesmo suas variantes! ― Luiz Gonzaga, soletrando o alfabeto em famosa canção, canta a letra como “ipsilone”.

Então, folheando um dicionário de inglês-português, dei-me conta desta falta: eu simplesmente não sabia onde ficava o ípsilon no alfabeto anglófono! (E temo que nem algum outro dia o saberei...) Afinal, minha alfabetização foi anterior à inclusão das três consoantes estrangeiras!

Tentando sanar minha dúvida, passei pelas palavras iniciadas por “ti” (afinal de contas, em alguns países, chamam ípsilon de “i grega” ― logo, a consoante só poderia estar próxima à vogal “i”). Debalde. Para a minha surpresa, ípsilon está mais perto é de “z”!

Já teci até alguns truques para memorizar seus lugares: sei que “k” está algo assim próximo do “j” (tento até lembrar do presidente Juscelino Kubitschek); e que o “w”, cujo nome em português é derivado de “double u” (“duplo u”), deve ficar então perto desta vogal. Mas na hora agá, me escapam esses mnemônicos...

Sou de partido de que a inclusão dessas três letrinhas somente complicou ainda mais a alfabetização no Brasil. Suas posições alfabéticas são mais outros três dados que estudantes escolares ― já muito ocupados em aprender a tabuada de sete, tipos de substantivos e o passinho do Jamal ― vão ter de se preocupar em aprender...

A noção do que é adequado fica cada vez mais confusa quanto mais normas criamos. Isto vale para a sociedade, para a arte e também para a língua.

Além disso tudo, sempre gostei de palavras aportuguesadas.

“Leiaute”, “copidesque” e “uísque” são marcas de um esforço de aclimatar termos técnicos e/ou estrangeiros ao ambiente lusófono ― evitando, assim, a inclusão do trio na língua portuguesa. Achá-las cafonas ou toscas só indicia o viralatismo de um pensamento tecno-elitista, que só consegue comunicar um saber-fazer em inglês ― “prompt”, “brainstorm”, “fork” etc., etc.

Parece conservadorismo da minha parte, mas não, não sou contra estrangeirismos; sou contra o estrangeiro transplantado sem a nossa consciência e consentimento. Entretanto, quando transformamos palavras estrangeiras em língua materna, as domesticamos; quando, porém, estrangeiramos palavras maternas, somos domesticados.

#cotidiano


CC BY-SA 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter