“Oficialmente diplomado”

Imagem: Rafaelle “Hélia” Bernardo. O autor tendo o seu momento?
O fim da carreira na graduação nas peças de entretenimento é sempre anunciado com a fatídica cena dos capelos voando no ar ao som de “Marchas de Pompa e Circunstância”, de Edward Elgar. No nosso imaginário, depois que os capelos e livros e papéis e lágrimas caem, esse é o nosso grand finale, nosso “¡Adios, amigos!”. It's all, folks! C'est fini! Os créditos do filme de nossa vida faltam pouco subir na retina da mente. Quem dera se, ao menos uma vez, a vida fosse um filme da Sessão da Tarde...
Mas em outra tarde qualquer, com uma pastinha na mão, eu cruzava o campus da Universidade Estadual do Ceará outra vez. Eu estava um pouco descrente de que eu conseguiria meu diploma universitário, prometido há alguns meses logo após a formatura. Afinal, no Brasil, tudo que se relaciona à papelada requer duas ou três visitas. Além disso, estava preparado para dar de cara com a porta, pois já davam 16h no meu relógio quando passei pelo portão principal.
Chegando lá, a partir de um beco estreito pixado com poças d'água de ar-condicionado, surpresa: o departamento estava aberto! A porta de vidro cintilava ao sol da tarde finda. Abro-a gentilmente...
Um balcão envidraçado com capacidade para três funcionários era ocupado somente por um. Usava óculos e tinha barba e cabelo ralos.
― Boa tarde. Vim retirar o meu diploma universitário.
― Boa. Qual o curso e a data de formatura, por favor?
― Letras, final de janeiro deste ano.
― Documento com foto?
― Aqui.
Depois de catar o documento em uma caixa, aquele homem até então tão humilde tomou um tom professoral, como se falasse com um pupilo:
― Primeiramente parabéns pela conquista. Este é um momento de muita importância para a Universidade.
Então, entre cerimonioso e sarcástico:
―...e como retribuição, você ganha um brinde.
Debaixo da bancada, retirou um envelope um pouco maior do que uma folha A4, cujo amarelo, debaixo da luz fluorescente, mais do que qualquer outra coisa naquela sala sem enfeites ou avisos, brilhava.
A seguir, sacou daquela mesma região um papel fosco com o meu nome impresso.
― É o original?
― Cópia. Assine aqui.
Assinei. Delicada e cerimoniosamente, retirou debaixo um largo papel igualzinho ao anterior, mas no qual o escudo da Universidade brilhava. Apresentou-me então uma caneta que tinha uma pena bastante distinta, cuja extremidade segurava com as pontas do indicador e do polegar.
― Esta caneta tem uma tinta de rápida absorção. Agora assine cuidadosamente aqui...
Não sei se por toda a liturgia, acabei garatujando o meu próprio nome no documento. Por fim, falou-me a quais documentos eu teria direito de ter segunda via, deu algumas orientações sobre a conservação do papel do diploma e contou causos sobre gente que perdeu o documento.
Com um sorriso tímido no rosto, quase orgulhoso, como se fosse o próprio reitor, declarou enfim:
― Pronto, meu rapaz, agora você está oficialmente diplomado. Boa sorte na vida.
Sua voz ecoou na sala fria e sóbria. De repente um rumor de ar-condicionado, até então imperceptível, fez-se mais forte. Aquele era o fim definitivo.
Na memória ainda os flashes, os confetes e os capelos pairando no ar.
Mentiram para mim.
CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter