Notas Costuradas

Nas últimas Notas Costuradas eu havia anunciado a página Recados, onde faço comentários mais curtos e despretensiosos.

Uma leitora destas Ideias, porém, pede que eu não largue as ~notas das Notas Costuradas, uma vez que as atualizações da página Recados não vão para o RSS. Por outro lado, vejo que essa mesma página não recebe tantas visitas.

Tentarei resolver esse dilema por um meio-termo: mantenho as atualizações, quase na mesma frequência com que eu mantinha meu perfil de microblogue fediversal; ao mesmo tempo as republico nas Notas Costuradas, só que com um pouco mais de desenvolvimento.

Além dessa ressalva, queria dizer publicamente que a partir de agora estou mais comprometido com a escrita de prosa ficcional ― ou algo assim. Há um tempo tenho me interessado por crônica, esse gênero que representa tão bem o Brasil.

A última publicação foi algo nesse sentido. No entanto, está mais próxima de um conto do que de uma crônica; mas já é algum exercício. Tenho pensado seriamente em partir para o pastiche, imitando mestres cronistas que admiro, como Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade e Décio Pignatari (esse Pelé da crônica). Essa foi a técnica que adotei para aprender/apreender poesia, que busquei registrar através do meu livro autopublicado “Estudando Poesia”. Funcionou para este tipo de literatura. Espero que funcione para a prosa.

É isso. Sigam na leitura:

Ainda sobre dilemas

Configuro um software para transcrever minhas notas em áudio, o Speech Note. Eu costumava utilizá-lo antes de formatar o computador. Como voltei a gravar mais áudios como forma de “sentir que estou escrevendo”, decidi baixar o programa e prepará-lo.

Ele é uma mão na roda, mas que está tomando muito tempo. Às vezes penso se não seria melhor escrever somente com os recursos primários ― papel, caneta e cabeça ―; que o desenvolvimento de ferramentas de escrita na verdade está é complexificando uma coisa que é simples: escrever. Digo, não escrever em si, mas: passar uma mensagem para outra pessoa.

De qualquer forma, gosto de experimentar novas ferramentas, e sempre o enfatizei aqui. Talvez o que esteja me aborrecendo seja a curva de aprendizado que cada ferramenta me toma. Um baita dilema. Quem domina somente os instrumentos básicos não passaria por isso. Porém, eu que domino instrumentos alternativos, digo: por que não reinventar aquilo que já está dado como definitivo, uma vez que cada instrumento é determinante para o texto?

Blogues x Newsletters

Rolando pelo Lerama, posso dizer com toda a certeza: blogues têm mais molho do que newsletters. Felizmente ainda há alguns desses últimos que se salvam, mas em geral os demais parecem mais revivais do Tumblr, soa algo da adolescência tardia, uma poesia barata aqui, uma fotinha bonitinha ali, um desabafo praculá. Uma breguice só.

E escrevem muito mal. Não consigo terminar a maioria dos textos que começo a ler, não há cadência na escrita, não há costura alguma, textos que andam em círculos sempre, sempre redundantes e cheio de clichês. Ler o primeiro parágrafo e ler qualquer outro não faz diferença. Dá igual.

O mais engraçado de tudo é que “newsletter” só se resume a Substack. Só tem essa plataforma de newsletter por acaso? (E nem o povo do Fediverso para divulgar mais o Ghost...). Quando as pessoas se referirem a toda e qualquer newsletter como “Substack”, quero só ver...

Ainda sobre polarizações

Rolo pelo Lemmy. Claramente há uma grande cisão entre um Fediverso “shitposting” e um Fediverso discursivo. Os lemmyanos diferenciam esses dois polos (que raramente se tocam) como “blogoverso” e “fioverso”, respectivamente.

No período em que estive dentro do Mastodon e outras plataformas de microblogue, sentia falta exatamente desse ímpeto de debate, que eu via em comunidades anglófonos ou italófonos. Pode ser também que isso seja algo cultural, que o Fediverso brasileiro não curta mesmo discutir. Quando descobri que era possível publicar em comunidades mais verborrágicas, como Lemmy e Friendica, mesmo sem ter conta nessas plataformas, fiquei mais tranquilo.

Espero que a esta altura do campeonato, os dois polos estejam um pouco mais integrados. Isso não é tão visível a partir do chamado “fioverso”.

Proton Mail não vale o que sai da bunda

Troquei o meu serviço de e-mail. O Proton estava praticamente com o espaço esgotado. Decidi trocá-lo porque o Proton só disponibiliza 1GB de armazenamento de mensagens. Quando comecei com o serviço, era até suficiente. Dois anos depois, já está lotado.

Então pensei “Bom, já que é para trocar, vou tentar um outro serviço que tenha outros recursos”. Decidi assumir um Disroot, porque ele permite logar em clientes de terceiros, como Thunderbird. Através do Thunderbird, é possível manter mensagens em modo offline, e agendar seu envio.

O Proton não o permite. Simplesmente. Para tanto, é necessário um tal de Bridge sei-lá-o-quê-das-quantas, que só é acessível por uma conta premium. Só é possível ver e-mails via desktop pelo webmail. “Até aí, tudo bem”.

Agora, com a conta nova criada, o que se faz? Configura-se o encaminhamento automático para o endereço novo, que será utilizado como primário. Negócio tranquilo, coisa de rotina. Fi-lo diversas outras vezes com contas Gmail.

E eis que para a minha surpresa, acabo de saber que Proton não permite encaminhamento automático em um plano gratuito. A principal suíte privativa anti-Google tem táticas de marketing que faria um CEO techbro ter espasmos de tesão.

Felizmente, os demais serviços da Proton são decentes. Mas em matéria de jardim murado, Proton é docente.

América do Sol

Tenho trocado o café por suco. Às vezes paro e penso e me pergunto por que diabos esse fetiche por bebidas quentes em um país calorento como o nosso. Faz mais sentido utilizar a comida e a bebida para nos resfriar...

Faço das palavras do Rodrigo Ghedin as minhas:

Por que aquele chapéu em formato de cone, típico na Ásia (Vietnã, China), não é usado no Brasil? Esse Sol de rachar... O chapéu é tipo um guarda-sol pessoal. Seria estranho se eu usasse um?

Aliás, aqui em casa tenho esse chapéu (chamado de “nón lá”) que comprei por míseros R$ 20,00 em Salvador, e pretendo usá-lo com mais frequência até que eu me sinta mais confortável. Já o usei algumas vezes e é bem agradável, parece até feito para o nosso clima.

Blogue + e-mail = liberdade

Se você tem um sítio pessoal ou um blogue, peço encarecidamente: divulgue o seu e-mail. Da forma mais objetiva possível. Nem todo mundo está interessado em lhe seguir via rede social, mas sim interagir de par para par ou ao menos mandar um feedback.

Muito se fala no Fediverso sobre combate contra monopólios, mas um e-mail somado a um blogue ou sítio pessoal bate de longe qualquer protocolo alternativo de comunicação no quesito descentralização.

Linkroll

Ainda sobre blogues e e-mails, @ploum@mamot.fr fala por que não precisamos criar mais protocolos descentralizados e alternativos, mas sim utilizar a atual infraestrutura de forma que não atravesse monopólios tecnológicos.

The biggest lesson I take is that “social networks” are not about protocols but about how we use the existing infrastructure. Microsoft and Google are working hard to make sure you hate email and hate building a website. But we don’t have to obey.

• The Social Smolnet (ploum.net)

Filtro para o OpenStreetMap que exibe instâncias do Fediverso pelo mundo. Já espoilerando: o Brasil atualmente detém cinco instâncias com servidores locais: pixelfed.com.br, mastodon.com.br, burn.this.town, colorid.es, bolha.us. As quatro últimas são comunidades Mastodon.

• Fediverse Near Me (OpenStreetMap)

Belo artigo de opinião do Rodrigo Ghedin sobre o atual movimento de proibição de redes sociais para menores de idade em todo o mundo:

Não existe idade certa para essas coisas. E, ainda assim, tudo isso está normalizado. As pessoas reclamam de estarem viciadas no Instagram ou no TikTok, dos golpes chancelados pelas plataformas em todo anúncio que veem, dos vídeos com cenas atrozes que saltam do mais absoluto nada, e... tudo bem? Continua tudo igual. Talvez devêssemos tratar redes sociais como tratamos o tabagismo no Brasil. Proibidas para menores e com restrições mais severas que atinjam (e beneficiem) a todos.

• Redes sociais afetam adultos também (Manual do Usuário)

Eduardo Fernandes inverte os papéis com a ferramenta generativa: a IA escreve o comando e o autor envia a resposta. Achei um exercício de escrita bastante interessante.

• Gemini e Claude querem que eu fale sobre morte (Texto Sobre Tela).

Gifavetta, artista nômade digital, viajou pelo Brasil registrando dezenas de placas escritas à mão e muros grafitados para criar a Tipografia Vernacular 0800, um repositório de fontes baseado em letras de manuscritos urbanos:

• Tipografia Vernacular 0800 (gifavetta.art)

@lucianohbraga@instagram.com decidiu imprimir suas newsletters favoritas e pregar em uma parede do bairro Bom Fim, em Porto Alegre. Isso me faz pensar que, estamos tão cansados do algoritmo e da tela, que, qualquer chance que tivermos para fruir um texto, mesmo digital, fora desse meio, estaremos dentro.

Isso também me fez pensar em como precisamos criar formas de compartilhar nossas curadorias. A minha já é esta: manter um blogue. Essa é a maneira que encontrei para contribuir para uma deslinearização da experiência na internet.

• Pegue uma news (Instagram).

Uma árvore genealógica dos gêneros musicais, organizados por época, cada qual com uma playlist bem curada. É mais do que um sítio web, é uma peça de arte e de pesquisa séria. Simplesmente viciado nesse espaço!

• The genealogy and History of Popular Music Genres (musicmap.info)

Um medley infinito em estilo Habboo de personagens de cartuns, séries, games, memes e cultura pop em geral dentro de uma espécie de edifício-fábrica. Atualizado esporadicamente. Adorando conhecer memes, os mais obscuros...

• Floor 796

Artigo da Piauí reproduzindo o prefácio de “Um homem chamado Opinião” (de Márcio Pinheiro), escrito por Marcelo Rubens Paiva, autor de “Feliz Ano Velho” e “Ainda Estou Aqui”. O livro retrata a trajetória de Fernando Gasparian, empresário que manteve o jornal Opinião, o qual continha uma postura progressista e de sutil subversão, durante a ditadura militar.

A L&PM Editores publica em abril a biografia Um homem chamado Opinião, de Márcio Pinheiro, sobre a trajetória de Fernando Gasparian (1930-2006). Empresário da indústria têxtil, depois do golpe militar de 1964 foi perseguido e asfixiado economicamente pelo governo devido a suas posições liberais e acabou se exilando na Inglaterra. De volta ao Brasil no início da década de 1970, criou o semanário Opinião, que entre 1972 e 1977 seria um dos principais e mais ousados veículos da imprensa a enfrentar a ditadura e sua censura, como descreve o trecho a seguir do livro, cujo prefácio é do escritor Marcelo Rubens Paiva.

• Um jornal de Opinião (Revista Piauí).

Luciana Morin (@luciana@organica.social) explica o que é o protocolo RSS e faz uma bela curadoria de feeds. Fiquei muito feliz de ter encontrado vários links funcionais de endereços dos quais já busquei um RSS...

• Sabote a economia da atenção construindo sua própria timeline via RSS (O sol na cabeça).

Citações

Como dizia um amigo meu, surrealismo é quando você dá uma surra no realismo.

Bráulio Tavares.

A transição pra vida adulta é marcada pelo dia em que você vai ao centro da cidade comprar agulha pra fogão à gás.

@ivanjeronimo@bolha.one

If this new chatbot is so efficient, why do you need to force your employees to use it? Why do you need to advertise the fact that you are using it? Are you that insecure? If I truly had a powerful tool, I would not talk about it. I would only show it to my employees, asking them to not tell the competition about it. And I will let the employees discover by themselves how efficient it is by giving bonuses to the most efficient.

@ploum@mamot.fr

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