“Erik Satie: só o humor constrói”, de Júlio Medaglia

Pintura em estilo impressionista de um homem loiro e calvo, com óculos estilo “pince-nez”, de barba e com fraque. Ao fundo é posível ver um teclado de um piano e partituras. O homem está com uma postura sagaz, de sobrancelhas arqueadas, com a mão esquerda gentilmente encostada no rosto.

Detalhe de retrato de um jovem Erik Satie feito por Antoine de la Rochefoucauld, 1894.

Tenho uma estranha atração por sujeitos estranhos. Talvez porque eu seja um, sim. Mas também porque, levando uma vida tão anódina, me encanta ver alguém “desafinando o coro dos contentes”, como dizia o poeta piauiense Torquato Neto ― outro esquisitão.

Quando conheço figuras assim, dissidentes de sua própria época, passo a pesquisar sobre tudo o que as circunda. Uma delas é o compositor francês Erik Satie, que viveu sua vida como um performer, como vocês verão logo abaixo.

Satie é o dono da composição “Gymnopédie nº 1”, incluída em playlists “Once upon a time in Paris”, que inclusive, por conta de sua natureza introspectiva, costuma aparecer com sample de edições de lo-fi hip-hop.

Vivendo no período entre o fim do século XIX e começo do XX, tempo em que o pensamento positivista ainda era predominante, ele passou a manter um estilo de vida extremamente excêntrico e contraditório, para não dizer antinormativo, colecionando proposições artísticas e causos populares.

Outro dia estava folheando o livro “Música impopular” do compositor e crítico musical paulista Júlio Medaglia, onde o escritor fala sobre os principais nomes da música experimental do século passado, quando trombei com o texto sobre Satie que quero compartilhar aqui. Para expandi-lo e não o reduzir a um copicola, linkarei as composições que Medaglia mencionar.

Para quem se interessar pelo artista, sugiro a escuta do episódio “Interferências” do podcast Ser Sonoro que fala sobre outras anedotas “satí(e)ricas”e sobre a linguagem musical do compositor francês.

Boa leitura!

“Erik Satie: só o humor constrói”, de Júlio Medaglia

Bach codificou a gramática da composição musical do Ocidente. Mozart e Haydn estabeleceram formas amplas de expressão ― a sinfonia, a sonata etc. Beethoven, apoiado nessa gramática e nessas formas, subverteu as estruturas composicionais, criando contradições no discurso musical do início do século XIX, liberando a criação para procedimentos mais livres. Os principais compositores românticos aproveitaram-se disso e conduziram a criação musical ao subjetivismo, praticamente inventando uma forma nova para cada obra. Schönberg levou essa subjetividade e essa individualização da expressão ao extremo, à neurose, digamos, desembocando no que se convencionou chamar de expressionismo. Stravinsky e Varese “barbarizaram” a doce arte dos sons, espantando os mais bem-informados ouvidos e conceitos da época. Poderíamos seguir nesse raciocínio simplório, apoiando mais alguns nomes de personalidades de nossa evolução artística, que com talento e coragem mudaram o curso da história da música. Existe um elemento, porém, que, com igual talento e coragem, abalou as estruturas da música deste século, azucrinando corações e mentes de músicos, críticos e teóricos, mas, cuja arma empregada em sua investida contra ideias desgastadas era até então desconhecida: o humor ― mais precisamente o deboche. Depois de ter atuado como um verdadeiro “pai” do Impressionismo, conduzindo Debussy pelas mãos à criação de uma música “sem sabor de chucrute”, Erik Satie impacientou-se com os rumos que tomava a criação daquele período, despejando seu humor devastador contra tudo e contra todos. Acusado de amador por aqueles que só acreditavam na revolução feito sobre trilhos estáveis, Satie tira um diploma de compositor “com distinção” na Schola Cantorum de Paris aos quarenta anos de idade para que ninguém tivesse dúvidas quanto à sua capacidade técnica. Num período em que os autores se deliciavam, compondo obras com horas de duração, ele compunha peças com 18, 30 segundos. Acusado de incapaz para compor obras maiores, faz “Vexations”, com dois dias de duração.

Quando o impressionismo francês se encanta com os exotismos da forte musicalidade espanhola, ele compõe uma obra chamada de “Espanhanha”. Aí, todos os maneirismos dessa música são devidamente anarquizados. No momento em que Debussy se queixa de que as obras de Satie carecem de uma definição formal, ele lhe envia “três peças em forma de pera”. Aliás, no período em que o impressionismo, ainda em evolução, caracterizava suas composições como “Clair de lune”, “Nuages”, “De l'aube a midi sur la mer” ele contra-atacava com as suas, assim chamadas: “Embriões ressecados”, “Esboços e provocações de um cafetão de pau”, “Fantasiado de cavalo”, “Três valsas para um esnobe execrável”, “Prelúdios verdadeiramente flácidos” etc. Satie criou os primeiros happenings na música europeia, fazendo entrar um Citroën no palco em plena execução de uma de suas músicas, ou colocando sons e instrumentos “não musicais”, como máquinas de escrever, apito de navio, ruído de roda de loteria, barulho de água, sirenes , buzinas ou tiros de revólver, em seu balé “Parade”. Para essa obra, aliás, encomendou um cenário a Picasso, obrigando o pintor a executá-lo em público. A cada pincelada do genial espanhol, todos aplaudiam. Para um de seus balés, Satie solicitou que a segunda parte não fosse dançada no palco, mas sim filmada. Encomendou, então, o trabalho de René Clair, que assim filmou o seu famoso “Entr'acte”. A orquestra acompanha, a cada segundo, a movimentação das cenas, sendo assim a primeira trilha sonora original para cinema (o velho maluco que aparece no início do filme pulando na frente de um canhão é o próprio Satie) [Nota: no link anterior, ele aparece aos 2m15s].

Imagem de um homem idoso olhando para a câmera; ele está com o dedo indicador na bochecha, como quem a coça; ele está com óculos de aro fino.

Do tempo da gravação de “Entr'acte”, 1920. Retrato por Henri Manuel. Colorido artificialmente.

Vivendo na mais absoluta pobreza no bairro de Arcueil, 16 quilômetros distante de Paris, num quarto sempre de portas e janelas fechadas e onde ninguém entrou até sua morte e onde havia apenas uma cama, uma escrivaninha e dois pianos (um em cima do outro) Satie conseguiu incomodar, mas não provar aos seus contemporâneos que o questionamento bem-humorado da cultura da época que ele propunha fazia sentido.

Como este texto não é sonoro, aqui ficam algumas de suas “tacadas” para que o leitor tenha uma ideia de seu h senso de amor à música.

A jornada de um músico.

O artista deve organizar sua vida. Vejam a programação de minhas atividades diárias: às 7h18m eu acordo; das 10h23m às 11h47m eu me inspiro; às 12h11m eu tomo o desjejum e deixo a mesa às 12h14m. Faço um salutar passeio a cavalo às 13h19m até as 16h7m. Ocupações diversas (esgrima, reflexões, imobilidade, visitas, contemplação, excitação, natação etc.) das 16h20m às 18h47m. O jantar é servido às 19h16m e termina às 19h20m. Leitura de partituras em voz alta, das 20h9m às 21h59m. Deito-me regularmente às 22h37m. Semanalmente (na terça-feira) eu acordo sobressaltado às 3h19m.

Eu só me alimento com comida branca; ovos, açúcar, ossos ralados, gordura animal, vitela, sal, coco, frango curtido em molho branco, suco de frutas, de arroz, de nabo, patês, queijos (brancos), salada de algodão e peixes (sem escama).

Eu fervo o meu vinho, espero esfriar e o bebo com uma pitada de fúcsia. Tenho bom apetite e nunca falo enquanto como (de medo de me engasgar). Respiro com cuidado (pouco de cada vez). Danço raramente. Eu ando sempre de lado para ver bem quem me segue. Eu rio das coisas sérias, mas não deixo transparecer. Eu durmo apenas com um olho fechado. Minha cama é redonda e tem um buraco onde eu coloco a cabeça. De hora em hora um empregado toma minha temperatura e me devolve uma outra. Meu médico me recomendou para fumar diariamente e diz: “Se você não fumar, alguém fumará em seu lugar”.

Cocteau me ama (até demais), eu sei... Mas por que será que ele me dá tantos pontapés por debaixo da mesa?

Ravel recusou a “Legião de honra”, mas toda a sua música a aceita.

O negócio não é recusar a “Legião de honra” e sim fazer tudo para não a merecer.

Não se trata de ser antiwagneriano e sim fazer uma música sem sabor de chucrute.

Eu já disse que os animais são mais educados. Exemplo: um gato dorme numa poltrona. O homem vem e tira o gato. Eu jamais vi o contrário.

Os pintores e escultores vivem reproduzindo figuras de animais em suas obras. Os animais, eles mesmos, parecem ignorar por completo as artes plásticas. Eu desconheço qualquer pintura ou escultura feita por animais. Eles gostam, mesmo, é de música e arquitetura. Eles constroem ninhos e casas que são verdadeiras maravilhas artísticas e industriais para viver com suas famílias. E não resta dúvida de que eles praticam música até mais do que nós. Eles têm um código musical diferente do nosso, é bem verdade. Trata-se de uma outra escola. É preciso entender o que significa relinchar, miar, cacarejar, piar, mugir, latir, uivar, rugir, arrulhar, ronronar, grulhar, ganir para se ter uma ideia de sua arte sonora. Ela é tão bem ensinada de pai para filho que, em pouco tempo, o aluno se iguala ao mestre.

A Sociedade Protetora dos Animais protesta energicamente contra o recente engajamento de duas vacas pela Ópera de Paris para fazer um dueto em “Sortilégio”. Esses infelizes ruminantes, embriagados com o sucesso e em contato direto com a cabotinagem desses histrionistas, perdem pouco a pouco a sua dignidade e honradez profissional.

Jaques Dalcroze vem fazendo muito sucesso associando o esporte ao solfejo. Eu recomendo 3 sonatas de Beethoven, diariamente, que provocam um emagrecimento progressivo e muito sensível e 6 fugas de Bach, que exercem sobre as células gordurosas uma ação fulminante.

Atenção! O Teatro dos Campos Elísios comunica que providenciou uma equipe de orientadores ambulantes, encarregados de conduzir sãos e salvos às suas casas os professores de harmonia após cada representação da Sagração da Primavera de Stravinsky.

Quanto mais a gente se torna músico, mais a gente enlouquece.

O piano é como o dinheiro ― só é agradável para aqueles que o tocam.

Se me repugna dizer bem alto aquilo que eu penso bem baixo, é unicamente porque minha voz não é bastante forte.

Eu jamais leio um jornal que tem a minha opinião.

O impressionismo é a arte da imprecisão. Hoje em dia se caminha para a precisão.

Não devemos nos esquecer daquilo que acontece no music-hall e no circo. É de lá que vêm a criatividade, as tendências, as curiosidades, mais excitantes do métier.

Sim madame. Todos morrem normalmente (eu vou explodir).

Durante toda a Grande Guerra, Ravel foi observador das observações observadas por observação nos observatórios dos observadores onde se observava ao rés do chão. Ele prestou grandes serviços ao País.

A Ópera e o Louvre possuem frigorífico e ossaria.

Alguns artistas pretendem ser enterrados vivos.

Sinal dos tempos: o artista vem de um profissional. O amador vem do artista.

Mostre-me algo novo e eu começarei tudo outra vez.

Nossas composições são garantidas contra quintas e oitavas paralelas. Os compositores da casa só empregam harmonias tradicionais e devidamente aprovadas por longo uso. Ao gosto de hoje. Toda a nossa música moderna foi cuidadosamente retocada por nossos funcionários especializados. Nosso princípio comercial: fazer o novo com o velho.

Eu cago música.

#cultura


CC BY-SA 4.0Ideias de ChiricoComente isto via e-mailInscreva-se na newsletter