Como ouço podcasts
Ou: “a escuta podcastal: um dossiê”
Este não é um tutorial de como ouvir podcasts. Isso vocês já sabem: baixa-se um agregador qualquer (eu utilizo o AntennaPod) e segue-se algum programa a partir de uma pesquisa; quando este publicar um novo episódio, se receberá uma notificação e se o reproduzirá ou não.
O que quero falar nesta crônica é sobre uma “pragmática podcastal”, os modos com os quais ouço os queridos programas de áudio.
Ao contrário do texto, o áudio não tem uma recepção previsível. Isto é, ao escrever um texto, sei como o leitor o fruirá ― através da tela de um dispositivo eletrônico móvel (telefone, computador, leitor digital ― Kindle, Kobo, etc.), talvez a partir de um impresso (caso tenha uma impressora, por exemplo); este leitor estará estático ― seja sentado, deitado ou, raras vezes, de pé; talvez com a atenção plena, talvez com breves lapsos de desatenção causada por um pensamento que o texto provocou, por algum barulho que o gato fez, por uma notificação que de algum dispositivo soou...
O mesmo não acontece com o áudio.
Por conta do áudio, permite-se estar em segundo plano, flexibiliza a recepção da informação; acho, pois, que é necessário algo como um “design sonoro” ou “design sonoplástico”, considerando as possibilidades de escuta do programa. A fim de auxiliar estudos nessa área vindoura, aqui vão os modos como escuto podcasts:
1) sentado em ônibus, com fones de ouvidos ― a “base”, uma “posição neutra”, um “grau zero da escuta”, na qual em geral se começa a ouvir os programas e na qual se pode ouvir quaisquer programas de áudio; nesta posição pode se ouvir de tudo, desde noticiário até storytelling; pessoalmente, onde tudo começou, o ponto no qual percebi que o podcast se tornaria uma necessidade básica como água e eletricidade; a propósito, quando eu escutava o infernal “Medo e Delírio em Brasília”, era somente sentado em um banco de ônibus com fones de ouvidos que eu conseguia compreender alguma coisa; o banco de ônibus é tipo de “sinagoga dos podcasts”;
2) lavando louça, com amplificação via Bluetooth; uma posição robusta, que comporta muitas possibilidades; prevista, porém aparentemente pouco considerada, já que algumas vozes e vírgulas sonoras não podem ser ouvidas plenamente por conta da água corrente e do tilintar das panelas ― vozes tenores, como a de Matias Pinto do Xadrez Verbal, ficam em desvantagem nesta posição auditiva; há variações como 2.1) lavando louça, com fones de ouvidos; e 2.2) lavando louça, a partir do alto-falante do telefone ― que requeririam uma atenção especial de sonoplastia;
3) cozinhando, com amplificação via Bluetooth; aqui é que o bicho pega, aqui que a arte do design sonoro deveria entrar em cena; apesar de haver uma certa estabilidade do ouvinte ― afinal, seu único movimento é de em média dois metros, entre a geladeira e o fogão ―, os utensílios domésticos tilintam em demasia; nessa atividade há uma estranha dinâmica de “pianos” e “fortes”, com momentos de calmaria, como quando a água está fervendo na panela, intercalados com momentos de cacofonia e ruídos intermitentes, como quando o óleo quente recebe a tal “mistura”; nenhuma voz, vírgula, música ou qualquer outro som grosso suporta a um tonitruante ssssSSSSSHHHHHHHHHHhhhhh;
4) escovando os dentes, a partir dos alto-falantes do telefone; à frente da posição “escutando no ônibus com fones de ouvido”, esta é aquela na qual sinto mais plenitude mental ― ou “mentitude” (para não utilizar o irascível mindfulness) ―, nesta atividade acústica ou em qualquer outra de quaisquer outros tipos; ao contrário de seu predecessor “escutando no ônibus com fones de ouvidos”, quando se escuta um episódio de podcast no banheiro durante a escovação, nada de mau pode acontecer; o movimento de escovação dentária é algo como um estímulo à atenção auditiva, é uma espécie de mantra tátil-acústico; um metassigno ― limpa-se os dentes ao tempo em que se limpa a mente (um “paramorfismo”, em termos de Semiótica); ao meu ver, todo programa de áudio deveria ser desenhado para que fosse otimizado nesta ocasião; parafraseando Junichiro Tanizaki, foi nos momentos de escuta simultânea à escovação dentária que os poetas fizeram seus melhores poemas...; ouvir programas como Manual do Usuário, com a suave voz de Rodrigo Ghedin, ao tempo que se escovam os dentes, é análogo à prática da meditação; variações como “escovando os dentes com fones de ouvidos” não surtem o mesmo efeito de mentitude, uma vez que o som da escova compete com o do áudio ― o crânio, como boa caixa acústica que é, amplifica o ruído de suas cerdas ―; dessa forma, dessacraliza-se este que é um modelo de receptividade acústica, uma “posição de lótus” do ouvinte; como nada é perfeito, por conta do curto período da higiene bucal, não é possível usufruir de muitos episódios nesta posição ― mas, estendendo a escovação, quão brancos meus dentes ficaram desde que comecei a ouvir podcasts depois de terminar o almoço...;
5) caminhando, com fones de ouvidos; postura extremamente superestimada, uma vez que o “podespectador” tem de lidar com toda sorte de intempéries e ruídos externos; por exemplo, na posição pré-sentado-no-ônibus-com-fones-de-ouvidos, isto é, quando se está prestes a pegar a condução, o ouvinte é incapaz de se ater a quaisquer palavras ditas que sejam; tudo se trata de não perder o transporte, passar na catraca e sentar o mais rápido possível, com a chance de permanecer de pé a viagem inteira;
6) deitado na cama, via alto-falantes do telefone; outro modelo bem estabelecido; algumas aplicações de podcasts (como o supracitado AntennaPod) otimizam-no com recurso temporizador agendado, a partir do qual, em determinada hora, o episódio é pausado após um determinado tempo ― ideal para quem escuta antes de dormir; inclusive, alguns podcasts, como o famigerado “Ser Sonoro”, foram desenhados especificamente para serem escutados única e exclusivamente na cama, antes de dormir.
Quem dera se todo programa de áudio aplicasse um UX listen design dessa forma!
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