felipe siles

Espaço onde organizo, registro e compartilho algumas reflexões e práticas sobre tecnologia e cultura. Espero que seja útil e ajude a despertar boas ideias.

Nem todo mundo sabe, falo sobre tantos assuntos diversos aqui neste blogue, mas sou músico profissional, é minha atividade profissional principal. Toco acordeon, piano, leciono diversas disciplinas em um conservatório de música. Como criei este blogue para falar livremente de diversos assuntos, acabo fugindo um pouco da minha especialidade, sobre a qual costumo produzir academicamente. Mas me deu vontade de falar sobre esse tema de uma maneira mais leve e emocionada, orientado mais pelos afetos do que pelas regras da ABNT.

Ao longo da vida eu sempre tive, na perspectiva do profissional da música, um certo incômodo que de uns anos para cá eu consegui organizar e colocar nome. Gosto muito da ideia que aparece nos Contos de Terramar da Úrsula K. Le Guin: saber o nome das coisas ou das pessoas te dá poder sobre elas. Entrei em contato, durante o meu mestrado em Etnomusicologia, em uma disciplina da Antropologia, com o etnomusicólogo Thomás Turino, que divide as funções da música, principalmente entre música apresentacional e participativa. Embora a fronteira entre as duas possa ser uma nuvem cinzenta em vários casos e existam muitas críticas sérias e bem embasadas contra essa classificação, gosto de pensar, baixando a guarda da problematização, que existe música para ser ouvida, apreciada, e música para participar com o corpo, com palmas, cantando, dançando ou até tocando instrumentos musicais e interferindo na performance.

Sempre me achei diferentão de praticamente todos os meus amigos músicos e me sinto um peixe fora d'água em quase todas as disciplinas, congressos e espaços acadêmicos, a não ser por aqueles perfeitamente alinhados à minha temática de pesquisa, que é a música negra. E sempre foi nas disciplinas de Antropologia que pra mim as coisas faziam sentido, me sentia abraçado, confortável, entre pessoas que pareciam comigo, mesmo quando eram muito diferentes.

Acho que nem todo mundo sabe como pensa e se comporta um músico profissional médio (principalmente os letrados na partitura), e acredito que as pessoas ficariam chocadas se soubessem. Lógico que existem diversos perfis, essa é uma profissão muito diversa, mas eu percebo que muitos músicos são extremamente vaidosos, e gostam de exibir a sua técnica, e também gostam de ouvir outros músicos que são vaidosos. Dentro da lógica neoliberal, são consumidores, dos streamings e redes antissociais de seus músicos referência e principalmente de adquirir inúmeros equipamentos e instrumentos caros, sempre com a desculpa que é ferramenta de trabalho, que é pela fruição estética, mas sabemos que no fundo é pela vaidade mesmo (e/ou também pela reserva de mercado, já que o equipamento melhor hipoteticamente aumenta a chance de ter gigs).

Me esforço bastante para não ser uma pessoa moralista, porque acho que o moralismo é uma armadilha que as pessoas de esquerda e progressistas caíram nos últimos tempos, e é um buraco bem difícil de sair. Não tenho nada contra a vaidade, para ser sincero, acho que a vaidade faz parte da vida e da arte. Nem todo artista é vaidoso, mas acredito que a vaidade sempre está ali em algum nível, de alguma forma. Se você faz algo para alguém te ouvir ou te ler, acho que algum nível de vaidade há ali, e sendo esse nível saudável e não fazendo mal para ninguém, não vejo problema nenhum nisso. O problema é que existem vaidades que são danosas para a própria pessoa e seu entorno, longe de mim cagar regra, mas já cagando um pouco, tá cheio de músico rebolando pra pagar sua fatura do banco roxo porque parcelou aquela caixa de som de 30 mil reais. Eu sempre me contentei com instrumentos e equipamentos que suprem as minhas demandas profissionais, nesse ponto também sou bem diferentão.

Mas o que eu queria falar mesmo é sobre a música participativa do Thomas Turino, embora essa digressão foi importante para dar mais contexto a vocês. Sempre me incomodou o palco que hierarquiza, a ideia de ídolo e fãs, e a relação do ouvinte pela música que passa quase que só pelo consumo, embora isso seja meio complexo de afirmar desse jeito. Pra mim foi bem libertador descobrir que existem DJs e bandas punk que se recusam a tocar em palcos, que tocam no mesmo nível do público, isso é fantástico e mudou muito os meus parâmetros do que é qualidade musical, se é que existe alguma.

No senso comum do músico médio (pelo menos do músico letrado na teoria musical), a qualidade musical é medida (ou pelo menos tentada) pela complexidade e sofisticação da elaboração dos próprios elementos musicais, não só a letra, como pensa o grande público. A melodia tem que ser boa, a harmonia com acordes interessantes e surpreendentes, o ritmo dançante e envolvente, tudo isso faz parte do que é chamado de qualidade musical. Muita gente acha que alta cultura tem a ver apenas com escolhas estéticas da classe dominante, e essas pessoas não estão totalmente erradas. É que esse quadro é mais complexo, e muitas vezes essa chamada alta cultura de fato produz sofisticação estética, difícil de ser medida e mesurada pelo músico, talvez impossível pelo público comum.

Essas ideias com que entrei em contato foram transformando o que eu entendia por qualidade musical. E mais ou menos nessa época, quando eu fazia mestrado, em 2018, tinha acabado de gravar o disco Paulibucano do sambista Toinho Melodia. Só para explicar como que um pianista e sanfoneiro foi parar num grupo de samba, do qual orgulhosamente integro até hoje, 20 de agosto de 2025. Sempre fui bastante envolvido com o choro e, justamente, gostava do gênero por sua qualidade de música participativa, sempre achei fascinante a ideia de uma roda de choro onde um músico pode chegar no meio, sacar o seu bandolim ou flauta ou clarinete ou instrumento que for, e puxar um choro do seu repertório, interferindo na performance, emprestando a ela uma fluidez e imprevisibilidade muito interessantes. Mas eu descobri que no samba isso é elevado a milésima potência. Sou grato ao choro, por ter sido meu caminho para chegar no samba, mas hoje eu digo que o gênero musical que eu mais ouço, toco e sou apaixonado é o samba!

Toinho Melodia, que infelizmente já subiu, pra mim foi um grande mestre intelectual. Descobri que o samba não é só música, é a própria vida. O Toinho compunha sambas o tempo inteiro, no ônibus, no metrô, nas ruas de São Paulo, na hora do nosso café, intervalos dos ensaios. Nossas rodas de samba sempre foram rodeadas de histórias deliciosas e divertidas sobre as quais quero escrever neste blogue em algum momento. Se tem muito músico que gosta de acorde, de melodia, de nota, eu gosto de lembrar, relembrar, contar e recontar essas deliciosas histórias que o samba me proporcionou. E não é que o samba seja simples, o samba possui sim essa complexidade e alta elaboração estética. E mais ainda, o bônus que é esse fator da integração social.

E eu fui, aos poucos, sem correria e só na malemolência (como diz outro samba do nosso mestre) sacando que qualidade musical é isso também. O Toinho Melodia não gostava de falar sobre isso, mas chegou a ter um momento ruim na vida, virou até morador de rua. Quando foi reconhecido por Toniquinho Batuqueiro, um sambista que era uma de suas referências, sua vida começou a virar, venceu o câncer, conheceu uma rapaziada que abraçou sua obra, gravou seu primeiro disco autoral, viajou em turnê para sua terra natal, Recife, continuou fazendo o que sempre amou até o final da vida que é compor e cantar, e participar de rodas de samba, até onde foi possível. Ou seja, foi o samba que manteve digno e humano o Toinho, mesmo nos piores momentos. Me diz, se isso não é qualidade musical, muito mais que um acorde enfeitado com tensões e dissonâncias.

Mas enfim, nem todo músico pensa dessa forma, observo que a maioria pensa diferente. Não julgo, nem condeno, acho que tive um pouco de sorte também, de ter uma vivência maravilhosa como essa. Fico pensando naquela clássica frase de mãe: você não é todo mundo, se todo mundo se jogar de um precipício, você se joga também? Talvez esse texto tenha um pouco de soberba, empáfia, superioridade moral e vaidade, afinal só se diferencia do outros pra dar destaque a si mesmo. Mas, na verdade, ser tão diferente tem um aspecto que é meio triste em alguns momentos, que é a solidão e a incompreensão, sentimentos que me acompanham em diversos momentos: às vezes na minha rotina dando aula no conservatório (embora a maioria dos colegas já começou a entender a minha brisa, precisa paciência da minha parte também), nos congressos, disciplinas, concursos, etc. Não dá pra esperar que todo mundo entenda rápido a brisa de um pianista e sanfoneiro que gosta mesmo é de tocar samba.

Para não terminar para baixo, vou fazer um contraponto, eu sinto que tenho conseguido transmitir cada vez melhor essa minha visão da música, e isso tem a ver com dominar as palavras, voltando na Úrsula K. Le Guin, minha autora preferida de ficção, tem a ver com estudar, e me comunicar melhor, tem a ver com o doutorado, mas tem a ver também com Exu. É um movimento lento, pequeno, mas eu sinto que tem rolado, e diante dessas perspectivas diferentonas eu sinto, modéstia a parte, que acabei virando referência e descobrindo novas referências em alguns outros “solitários” ou peixes fora da água, como eu. E são essas ligações que me mantém motivado, alegre, criativo, otimista, vivo, como o samba manteve Toinho Melodia em seus piores momentos.

Gostaria muito de, antes de terminar esse texto, agradecer aos meus companheiros de Conjunto Picafumo e agregados, por serem meus parceiros nessa jornada: Rodolfo Gomes, André Santos, Matheus Oliveira, Verônica Borges, Laura Santos, Angela Coltri, Paulinho Timor, Merilyn Esposi, Kathleen Hoepers, Alfredo Castro e tantos outros. Gostaria de agradecer também os companheiros de outras rodas de samba, com quem tanto aprendi: Selito, Rafael Galante, Lobo, Ricardo Perito, Maurício Pazz, Lucas Brogiolo, Alysson Bruno, Rodolfo Stocco, Renato Pereira, Deni Domenico, Railídia, Paulo Godoy, Koka Pereira, Hélio Guadalupe, Roberta Oliveira, Leo La Selva, e tantos outros com quem fatalmente cometi a injustiça de esquecer de citar. É rememorar as histórias que vivi com vocês, e reouvir o nosso querido Paulibucano que vai me dando forças nos momentos de solidão. Obrigado, amo vocês!

Vou encerrar o texto citando a letra de “Vida de sambista” (Kiko Toledo, Ney Nunes e Toinho Melodia), que integra nosso álbum Paulibucano:

Não adiantou abdicar do samba o samba morava em seu coração ganhou dos seus o dom de sambar e do soberano a inspiração

Pra compor, pra sambar Na sutileza dos versos sonhar (2x)

A vida do sambista é o ano inteiro Vai além da ilusão de fevereiro No morro no asfalto, favela, planalto Jamais se intimida, não foge da briga

Sambista não manda recado E faz de qualquer desacato uma rima O tempo é um santo remédio que ensina (2x)

Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima! Felipe Siles é pesquisador musical, educador e produtor cultural. Escrevo esta coluna voluntariamente, mas se quiser me pagar um cafezinho e contribuir para que eu escreva mais, segue minha chave pix: felipesilespix@protonmail.com Este blogue não possui nenhum compromisso com a chamada big tech nem com a divulgação nas redes antissociais, então se você quer receber as postagens novas, sugiro utilizar um agregador RSS e acrescentar nele o seguinte link: https://blog.ayom.media/felipe-siles/feed/

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Cheguei no texto The Analog Life: 50 Ways to Unplug and Feel Human Again pelo fórum Órbita do Manual do Usuário e, reforçada a ressalva feita pelo Rodrigo Ghedin sobre o título meio apelativo, achei os hábitos que ele propõe bem interessantes, sendo que vários deles eu já pratico. Por curiosidade, no âmbito da minha vida pessoal, vão os meus comentários a respeito de cada hábito proposto por Tanner Garrity, autor do texto original:

Rituais diários tradicionais

  1. Ler antes de ir para a cama: já tive esse hábito, acabei perdendo, substituindo a leitura por um projetor com tv stick no meu quarto. Ler o texto me fez repensar isso, e pretendo nos próximos dias resgatar o antigo hábito, que era muito mais saudável;

  2. Faça o jantar em família sagrado: isso para mim no momento está fora de cogitação, o autor não considera que muitas pessoas moram sozinhas ou têm famílias desestruturadas e desfuncionais. Mas, em minha defesa, eu faço todas as refeições na mesa, na sala de jantar, sem televisão;

  3. Beba seu café em paz: já faço, a propósito, alguém falou em café aí?

  4. Leia o jornal: quem me acompanha no Mastodon pode ter trombado com a minha postagem dizendo que minha primeira aquisição assim que passar em um concurso público e adentrar definitivamente (?) a classe média será a assinatura da Revista Piauí. Por ora, vou consumindo notícias digitais mesmo, por podcast e RSS;

  5. Escrever a mão uma lista de tarefas todas as manhãs: eu utilizo o método Bullet Journal, até já escrevi sobre ele aqui neste blogue, então mantenho sim anotações diárias, nem sempre de manhã, mas acho que dá pra marcar um ponto aqui;

  6. Faça caminhadas pós-almoço: eu já sou uma pessoa sem carro, que anda bastante, sinceramente não sei se há necessidade desse hábito pra mim, porque já sou uma pessoa que anda organicamente pelo menos uns 30 minutos todos os dias. Inclusive, caminhar para mim é uma espécie de meditação em movimento, de longe meu exercício físico preferido;

  7. Converse com amigos e familiares ao telefone: melhor do que isso, tenho feito um esforço para encontrá-los pessoalmente;

  8. Assista filmes: outro hábito que eu mantive firme por muito tempo e que deu uma degringolada nos últimos tempos, vou procurar retomar. Também já escrevi neste blogue sobre o quanto eu dou preferências por assistir filmes a séries e os motivos;

  9. Use seu livro de receitas: tenho apenas um único livro, de receitas vegetarianas fáceis. Preciso fazer isso mesmo, e de repente adquirir pelo menos mais uns dois livros, boa dica;

  10. Assista ao pôr do sol: minha rotina atual não me permite fazer disso um hábito, mas fica no radar;

Os adeus mais difíceis

  1. Excluir suas contas: rapaz, se esse é o primeiro da lista difícil, pra mim tá fácil, vivo sem ter conta nesse lixo chamado Instagram desde dezembro de 2022, até já escrevi sobre isso aqui;

  2. Bloqueeie sites que desperdiçam seu tempo: atualmente não acho que seja necessário, pelo menos para mim;

  3. Faça seu telefone super chato: já tentei deixar meu telefone em preto e branco algumas vezes, mas por alguma razão, sempre volto ao normal, posso de repente tentar novamente;

  4. Tranque seus aplicativos: não possuo no celular aplicativos que me distraem, uma coisa que posso fazer é voltar a limitar o tempo do aplicativo Lichess no tablet, acho que é um dos poucos que me distraem muito tempo atualmente;

  5. Livre-se dos emails nos finais de semana: sábado para mim não é possível, já que trabalho nesse dia, mas já tenho feito isso aos domingos, pelo menos, inclusive não vejo nem whatsapp nesse dia, para desespero dos meus amigos e familiares;

Dispositivos com função única

  1. Vitrola: já tenho, ponto para mim, só falta usar um pouco mais;

  2. Câmera fotográfica: tenho também e uso, ponto;

  3. Rádio de bolso: já pensei várias vezes em comprar, vou voltar a considerar;

  4. Tablet de papel: talvez mais pra frente, meio caro, acho que vou continuar com meu tablet normal mesmo, por razões financeiras;

  5. Temporizador de cozinha: tenho dois, ponto para mim;

  6. Despertador: tenho também, ponto;

  7. E-reader: tenho, ponto;

  8. Relógio de pulso: amo, tenho uma coleção, ponto;

  9. Console de jogos: tenho um Xbox One, e um PC gamer retrô para jogar emuladores, que eu mesmo instalei o sistema operacional e customizei, ponto;

  10. Burrofone: tenho um, mas não consegui incorporar na minha rotina, já que utilizo muitos aplicativos para me locomover de transporte público. Acabei comprando um burrofone, mas virou meu “celular do ladrão” que uso no carnaval e em outros eventos grandes. Infelizmente para nós brasileiros a oferta de burrofones é muito limitada, já que se trata de um produto extremamente nichado;

Trilhas de papel

  1. Calendário: além de ter, o meu é simplesmente lindo demais, do portal jornalístico O joio e o trigo, que comprei para ter esse lindo e funcional item na minha casa, além de apoiar financeiramente o jornalismo independente;

  2. Diário: conforme já citei, mantenho sim um diário, uso o método Bullet Journal;

  3. Envie cartas a mão: BRABO, essa vai ficar no meu radar também;

  4. Enquadre suas fotos preferidas: tenho vontade de fazer uma coisa ainda mais legal, que é presentear amigos e familiares com fotografias impressas e enquadradas, quero botar esse plano pra funcionar em breve;

  5. Coletar lembranças: olha, o autor até faz a ressalva que isso é meio anti-Marie Kondo, e nesse caso eu estou fechado com a autora japonesa, sou dessas pessoas que junta muita coisa, preciso na verdade é dar uma simplificada, ter menos coisas e mais controle sobre elas;

Reconexão social

  1. Organize um jogo de cartas semanal: a minha resposta para quase todos os tópicos aqui vai ser parecida, tenho já um contexto profissional e pessoal onde convivo com muitas pessoas, acho que essas dicas são válidas para pessoas mais solitárias, mas para mim torna-se o oposto, já tenho uma vida social agitada, preciso de mais momentos comigo mesmo;

  2. Junte-se a um clube: clube de leitura é algo que está no meu radar faz tempo, em algum momento vai rolar;

  3. Permaneça nos locais, após os eventos: difícil na conjuntura atual, mas já fiz muito isso quando tinha mais tempo livre, realmente rende bons frutos;

  4. Ir em eventos ao vivo: cai de novo na questão da minha vida muito corrida, mas sinto falta de ir em mais peças de teatro e espetáculos de dança;

  5. Ser anfitrião de jantares: também é um plano antigo que em algum momento vou concretizar, adoro cozinhar e receber pessoas em casa, ainda vou me organizar pra isso;

  6. Aceitar mais convites: na atual rotina corrida é um pouco difícil, mas eu já tinha lido livros sobre como conquistar a pessoa amada (kkkk me julguem), que falavam da importância de estar disponível para socializar. Entra no radar também;

  7. Jogar em equipes esportivas: tenho vontade de disputar torneios de xadrez, fica no radar;

  8. Seja voluntário uma vez ao mês: excelente ideia, entra no radar;

  9. Convide pessoas para suas tarefas: boa ideia, tem umas paredes aqui em casa precisando de uma tinta (rs);

Viaje como se estivesse em 2003

  1. Deixe partes da sua viagem sem planejamento: sempre faço isso, importantíssimo, ponto pra mim;

  2. Fale com moradores locais: eu sou uma pessoa anti-turismo, ainda quero escrever sobre isso no blogue, mas a minha relação em praticamente todas as minha viagens é criar laços e ligações não-comerciais no local, então mais um ponto pra mim;

  3. Compre um guia de viagem: me parece muito turístico e contraria os itens anteriores;

  4. Enviar cartões postais: idem;

  5. Explore seu quintal: já faço bastante, e ando a cidade toda a pé, ponto para mim;

Sem rastreamento

  1. Dormir sem um aplicativo medindo a qualidade do seu sono: usei esses aplicativos quando eram novidade, mas abandonei rapidamente, quando percebi que o padrão do meu sono era quase sempre igual;

  2. Pare de registrar seus treinos: que treinos? kkkkkk

  3. Deixe passar batido: para mim é difícil perder episódio de podcast, até porque eu acompanho poucos, e gosto de não perder nenhum episódio deles. Já senti essa ansiedade que o autor menciona quando seguia muitos podcasts, então a redução pra mim funcionou bem, logo nessa eu vou ficar devendo;

  4. Faça coisas sem registrar: já faço, o tempo todo, meu rolo de câmera do celular vive às moscas, ponto para mim;

  5. Desativar seus relatórios de tempo de tela: já fiz também, foram importantes durante um tempo, mas se tornaram irrelevantes, como o próprio uso do celular.

Conclusão

Gostei da brincadeira, eu acho que esse tipo de lista precisa ser encarada com alguma leveza para também não gerar mais ansiedade ao nos deparar com coisas interessantes que estamos perdendo e, contraditariamente, gerar uma espécie de FOMO, que é o que o mundo digital provoca em nós. Mas acredito que se a lista do Tanner Garrity servir para um pouco de reflexão e auto-cuidado, já ajuda bastante.

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Não trabalho profissionalmente com tecnologia, mas sou um entusiasta do software livre e um dos meus hobbies é configurar pequenos aparelhos dedicados a funções específicas. Já tive uma TV Box rodando lisinho um servidor de Nextcloud, e funcionou direitinho uns anos até falecer. E fazia muito tempo que eu queria fazer um experimento de montar um console gamer retrô a partir de alguma TV Box ou Raspberry que tivesse dando sopa por aí. E esse dia chegou! O generoso Biloti, a quem muito agradeço, ofereceu no Mastodon alguns computadores antigos dos quais ele estava se desfazendo, e como moramos na região de Campinas (SP), pedi para reservar um deles para mim e combinamos a entrega, ali pelo centro da cidade. Acabei demorando um pouquinho para colocar o projeto em ação, devido ao fato de que o mini PC precisava trocar a bateria da placa mãe, mas eis que descobri que essa complexa manutenção numa ótima lojinha da minha cidade custou a bagatela de R$30,00. Vamos à ficha técnica do mini PC:

Acer Revo Aspire R3600 CPU: Intel Atom 230 HD: 320GB Memória RAM: 4GB Video: nVidia ION integrada Arquitetura: 32 bits

Depois desse complexo concerto, comecei a botar a mão na massa para montar meu mini PC gamer, o primeiro passo foi a escolha do sistema operacional, optei pelo Lakka, vi alguns reviews na internet elogiosos e me pareceu simples de instalar e configurar. Baixei a imagem da distro no site oficial, escolhendo a modalidade Generic PC e depois 32 bits CPU. Confesso que tive dificuldade em montar o pendrive bootável (inclusive já adianto que todos os pontos onde tive dificuldade se deram pelo fato de que a maioria dos tutoriais na internet eram orientados para o Windows, e eu fiz todo o processo pelo Debian Linux). O site oficial recomenda o Balena Etcher, mas não consegui instalá-lo em nenhum dos meus dois computadores com Debian, e os programas que eu costumo usar não montam o pendrive se o arquivo não for .iso. Depois de muita pesquisa e quebração de cabeça, consegui montar o pendrive bootável pelo Impression, que consegui instalar na minha máquina via Flathub. Feito o pendrive, o restante, pelo menos pra mim, é caminho da roça hehehe espeta o pendrive no bicho, liga, entra na BIOS, muda o dispositivo de boot pro pendrive e instala o bicho. Sucesso!!!

Enquanto o processo de instalação acontecia, comecei a baixar as famosas ROMs para rodar nos emuladores que já vêm nativos no Lakka. Não vou entrar em detalhes sobre essa parte porque tecnicamente se trata de pirataria, mas é fácil descobrir por aí pesquisando sobre emuladores e roms. Optei, pelo menos em um primeiro momento, por baixar ROMs de videogames até no máximo 16 bits, para obter um bom desempenho num computador com hardware mais modesto. Pensando nisso, baixei ROMs de:

  • 8 bits: Atari 2600, Master System, Nintendinho, Game Gear, Game Boy e Game Boy Color;
  • 16 bits: Mega Drive, Sega CD, Super Nintendo e Neo Geo.

(Mais para frente quero testar o desempenho de ROMS de consoles de 32 bits, vou começar por videogames com hardware mais leves como Game Boy Advanced e 32X Mega Drive, mas depois arriscar outros consoles mais potentes, como Sega Saturno e PlayStation. Se fizer o teste, eu edito este texto futuramente contando como foi.)

Instalado o sistema operacional e baixadas as ROMS, veio mais uma parte que precisei levemente quebrar a cabeça. É que o sistema de compartilhamento padrão de arquivos do Lakka é o Samba, e ele não está instalado no meu computador, e não consegui fazer a instalação, por ignorância mesmo. Vi que o Lakka tem a opção de compartilhamento por SSH, que é mais familiar para mim, e ativei essa opção. Consegui acessar o Lakka via SSH primeiro pelo terminal, mas depois acabei achando mais prático instalar o Dolphin na minha máquina e mexer direto pelo gerenciador de arquivos. Ah, demorei um pouco para descobrir: a senha padrão de root do SSH do Lakka é root.

Copiadas as ROMs para o miniPC gamer, começou a jogatina! A parte legal é que a maioria dos emuladores mais conhecidos já vêm instalados, então é só colocar as ROMs mesmo e começar a diversão. Num primeiro momento, pedi para o Lakka analisar o diretório onde estavam as ROMs e depois me arrependi um pouco, além de demorar uma eternidade, ele criou listas de jogos gigantescas, onde é até difícil encontrar o jogo que você quer jogar. E se você pede pra analisar de novo, ele vai criando vários itens repetidos nas listas. Acabei optando, então, por um uso mais minimalista, deletei as listas e agora peço para analisar apenas a ROM do jogo que vou jogar naquele momento, assim ficam listados no menu principal apenas os jogos que eu de fato jogo. E toda a biblioteca está a disposição para testes, mas um pouco mais escondida, perfeito pra mim! Saí jogando vários clássicos, como Sonic, Alladin, Yoshi Island, entre outros!!!

Ah, usei o joystick do meu Xbox One ligado no cabo USB, funcionou bem, inclusive o botão do meio acessa o menu, o que achei ótimo! Porém, não sei se por causa da qualidade do cabo, ou da saída do controle, ele desconecta com uma certa frequência, o que é um pouco irritante, e quando a pilha está acabando começa a desconectar toda hora também. Então encomendei um joystick do tipo Xbox, só que com o cabo já embutido, acredito que vá melhor a experiência, qualquer coisa conto pra vocês na edição do presente texto. Mas achei ótimo que o sistema operacional funciona muito bem só com o joystick, sem necessidade de teclado e mouse.

Uma coisa que comecei a refletir depois de montar esse PC Gamer Retro é o quanto a biblioteca de diversos consoles antigos é rica, muito boa e com ótima qualidade. Fiquei pensando se a gente precisa mesmo de tanta novidade, jogo novo, ficar comprando jogo, console, sei lá, a diversão tá ali disponível, e de qualidade muito boa! Temos muito o que explorar nesses clássicos ainda, sempre tem algo que não ainda não conhecemos dentro do que já foi lançado.

Quando eu era criança e adolescente, jogando meu Master System e depois Super Nintendo, minha dificuldade no inglês dificultou um pouco a minha experiência em alguns RPGs, que é um gênero que eu adoro, e acabava que eu sempre precisava recorrer aos chamados detonados para terminar esses jogos. Estou jogando agora os RPGs clássicos, só que em português ou espanhol, para aproveitar melhor a experiência. Comecei por Legend of Zelda: Oracle of Ages do Game Boy Color, e quero desbravar a franquia no mundo dos 8 bits e 16 bits. Depois pretendo revisitar Final Fantasy, Chrono Trigger e outros clássicos do gênero.

Enfim, a experiência de revisitar esses clássicos tem sido tão positiva que o meu Xbox One tá parado, parado... vamos ver o que acontece com ele nos próximos capítulos...

Custo da operação: – R$17,10 = ida e volta de ônibus de Cosmópolis para Campinas; – R$30,00 = troca da bateria da placa mãe; – energia elétrica e internet, que já pagaria mesmo; – algumas horas de vida que não voltam mais (rs).

Equipamentos que eu já tinha e foram utilizados no processo: – televisão; – computador; – Joystick de Xbox One.

Edição: faltou mencionar o desempenho. Os jogos todos rodaram lisos, mesmo os de NeoGeo, que exigem mais processamento. Já quando rodei os jogos com outra tarefa no fundo, como reconhecer pastas ou baixar capas de jogos, o desempenho caiu consideravelmente e os jogos 16 bits ficaram engasgados, os de 8 bits rodando normal. Minha recomendação, se tiver configurações parecidas de hardware, é não rodar outras tarefas durante a jogatina.

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“Estou vendo que você, assim como tantos outros, descobriu os prazeres do Espelho de Ojesed. Imagino, que a essa altura, já sabe o que ele faz. Deixe-me lhe dar uma pista. O homem mais feliz do mundo iria olhar para o espelho e veria a si próprio, exatamente como ele é. (...) Ele nos mostra, nada mais, nada menos, do que os desejos mais profundos e desesperados dos nossos corações. (...) Lembre-se de uma coisa, Harry! Esse espelho não nos dá o conhecimento, nem a verdade. Muitos homens definharam diante dele, até enlouqueceram”. (Alvo Dumbledore no filme Harry Potter e a Pedra Filosofal, da famigerada e devidamente cancelada escritora transfóbica J.K.Rowling. Antes que me cancelem também, eu só gostaria de lembrar que até mesmo o relógio parado acerta a hora duas vezes ao dia.)

Já é sabido, por diversas fontes, que o Brasil é um país cujos habitantes passam horas e horas com o nariz metido em frente às telas. Seja pela simples observação cotidiana, no transporte público, espaços públicos ou até num círculo de amigos; ou seja recorrendo a fontes mais robustas de informação, conseguimos chegar facilmente a essa conclusão. Segundo matéria do Jornal da USP de 2023, o brasileiro passa em média 56% do seu tempo acordado em frente a telas. Já essa matéria do Metrópoles, de 2024, coloca o Brasil como segundo colocado do ranking mundial em relação a países que passam mais tempo online. Uma média de 9h13min, atrás apenas da África do Sul, com 9h24. Além disso, segundo reportagens, o Brasil é o segundo país que mais consome streaming no mundo (Metrópoles, 2021), o terceiro maior consumidor de redes sociais (Metrópoles, 2023) e o maior mercado gamer da América Latina (Techtudo, 2023).

Até agora vejo a questão ser interpretada numa chave moralista, do tipo: “o brasileiro não gosta de ler, não quer saber de estudos, só quer saber de celular” ou paternalista, no sentido de que “esse é o entretenimento que o povo gosta, a intelectualidade é que precisa se render aos hábitos populares e falar com a galera criando seu canal de divulgação científica no Instagram (nada contra, nada a favor também)”. O que eu venho propor é mais uma chave interpretativa: será que o fato de tantos rankings apontarem para uma convergência, que é o tempo médio gasto em escapismo digital, seja na verdade o sintoma e não a doença em si?

Estamos em uma sociedade profundamente e historicamente desigual. Durante muito tempo, o estudo e o trabalho foram a promessa de mobilidade social para uma população marginalizada. Gerações cresceram vendo seus avós, pais e tios se matando de estudar e trabalhar, sem alcançarem a promessa. Eles, no fundo sabem, que essa promessa contempla pouquíssimos, e sabem que o Estado brasileiro e as instituições em geral não estão nem aí para eles.

Soma-se a isso todas as camadas de violências contra alguns segmentos marginalizados. A título de exemplo e indício nesse sentido, existe uma matéria de 2023 do TechTudo, que informa que o maior percentual de gamers no Brasil são pessoas negras e pardas. A matéria supracitada no começo do texto sobre streamings, informa que o maior percentual de assinantes é de mulheres. Um episódio anedótico, mas quando estive em uma aldeia indígena em São Paulo, em idos de 2019, me chamou a atenção uma forte adesão dos jovens indígenas ao jogo de celular Free Fire, mas enfim, carece de dados mais detalhados e estudos mais aprofundados. Os idosos, que também são marginalizados e tiveram sua vida precarizada pelos ajustes e reformas na Previdência Social, são o público alvo preferido das milícias digitais, e é sabido que passam muito tempo no Whatsapp e Telegram, consumindo e disseminando conteúdos de extrema direita. Extrema direita essa conhecida por sua estética que flerta com o entretenimento de gosto duvidoso e seu discurso descolado da realidade material, ou seja, escapista.

O cenário brasileiro é tão desolador e o processo de precarização da vida está em estágios tão avançados, que eu acredito que essa tendência tende a se agravar. Esse cenário distópico é o paraíso para a extrema direita, e para os bravateiros e oportunistas de plantão, que vendem sonhos e ilusões, sejam promessas de emagrecimento, corpo perfeito, chip da beleza, enriquecimento através de esquemas de pirâmides, BETs, empreendedorismo e todo tipo de picaretagem e malandragem já conhecida por aí.

Para os governos e oligarquias é muito cômoda essa situação. Você não precisa gastar dinheiro com cultura, com parques, com entretenimento saudável, com segurança pública, se o jovem periférico está enfurnado em casa jogando Fortnite e rolando Reels do Instagram. Para a mãe desse garoto é melhor ele em casa no celular do que na rua correndo o risco de ser morto pelo tráfico, pela milícia ou pela polícia. O escapismo brasileiro não é questão de escolha, para algumas pessoas, é questão de vida ou morte.

Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima! Felipe Siles é pesquisador musical, educador e produtor cultural. Escrevo esta coluna voluntariamente, mas se quiser me pagar um cafezinho e contribuir para que eu escreva mais, segue minha chave pix: felipesilespix@protonmail.com Este blogue não possui nenhum compromisso com a chamada big tech nem com a divulgação nas redes antissociais, então se você quer receber as postagens novas, sugiro utilizar um agregador RSS e acrescentar nele o seguinte link: https://blog.ayom.media/felipe-siles/feed/

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Introdução

Como sou uma pessoa de origem nas classes mais populares, que até conseguiu através dos estudos uma relativa mobilidade social, o impulso de gastar, consumir, se recompensar é um fantasma que está sempre me rondando. Como quase todo mundo que tem cartão de crédito, já perdi a mão e adquiri uma dívida gigantesca. Como não tenho parentes ricos para recorrer, sou sempre eu mesmo quem precisa corrigir as minhas próprias merdas, então fui ao longo dos anos consumindo diversos materiais de educação financeiro: textos, vídeos, livros, etc. Mas a maior dificuldade diante da maioria desses materiais, é que nunca tive a disciplina e paciência de anotar tudo o que gasto. Inclusive, sempre achei uma tarefa meio burra, já que existem outras formas de fazer esse registro, como o próprio extrato do banco ou do cartão.

Como a maior parte da minha carreira profissional é como profissional autônomo, a sazonalidade dos pagamentos aumentavam o caos financeiro. Daí que descobri, quase que por acaso, o livro Finanças para autônomos de Eduardo Amuri e, de tudo que eu consumi sobre o assunto, foi o que mais faz sentido pra mim. Acabei adaptando algumas dicas do livro, e outras inventei. Vou enumerar, então, que medidas são essas que uso para controlar meu dinheiro e indicar se foram tiradas/adaptadas ou não desse livro.

Este texto é despretensioso, não tem objetivo de ser um guia financeiro para ninguém, apenas um registro de como eu faço as coisas, do meu jeito, que pode servir ou não para outras pessoas. Mas não sou especialista em finanças, se precisar de ajuda de verdade, procure um profissional especializado.

Capa do livro Finanças para autônomos, de Eduardo Amuri

1. Calculo a média das coisas

Essa é uma dica retirada do livro. Como para praticamente todo mundo os valores das receitas e principalmente despesas flutuam, é bem importante calcular as coisas pela média. Quanto maior a amostragem, mais perto vai estar da realidade concreta do dia-a-dia. Então eu tenho uma planilha mensal com receitas e gastos. As receitas e gastos que são fixos, simplesmente coloco o valor, e as que são flexíveis, coloco a média mensal. Organizo tudo detalhado: receitas como bolsa de doutorado, e despesas como assinaturas, faxina, transporte, alimentação, etc. Ah, os investimentos que faço de maneira recorrente, minha reserva de emergência e meu pé de meia, estão nessa planilha também. Essa planilha me ajuda a ter uma visão do todo. E do lado dela coloco colunas referentes aos meses do ano, e vou ticando conforme vou efetuando ou recebendo os pagamentos.

2. Cartões pré-pagos

Uma dica que eu achei muito interessante no livro, mas não achava muito prática no mundo contemporâneo: o autor aconselha o leitor a sacar dinheiro físico toda semana, e usar apenas o montante sacado. Já tentei fazer isso, mas a falta de troco dos estabelecimentos me fez perder tempo e passar raiva. Mesmo assim, a ideia nunca saiu da minha cabeça, do meu radar, e eu ficava pensando como aplicar o conceito no mundo dos bancos digitais e do pix. Eis que encontrei a solução: cartão de débito ou crédito pré-pago. Existem diversos bancos e financeiras que oferecem esse serviço, não vou dizer quais por dois motivos: primeiro, não vou fazer propaganda de banco (me poupo dessa vergonha); e segundo, porque o texto periga ficar datado, já que instituições podem acrescentar ou retirar esse produto de seu cardápio de serviços oferecidos.

Eu possuo três cartões pré-pagos: em um deles deixo todos os débitos automáticos (contas, assinaturas, doações, etc), e recarrego esse cartão uma vez por mês, assim que cai a minha bolsa de doutorado. Tenho um cartão de débito pré-pago para utilizar no dia-a-dia, principalmente para comer em restaurantes, feiras, padarias, etc, eu brinco que é o meu VR. E um cartão de crédito pré-pago que uso para pequenos gastos esporádicos em aplicativos (basicamente carro particular, entrega de comida e recarga de bilhete de transporte público). E como uso menos esse cartão de crédito, ele ainda me salva quando o de débito, que utilizo mais, acaba o saldo. Esses dois cartões, que utilizo no meu cotidiano, são recarregados toda segunda-feira. E, lógico, coloco os valores das recargas como gastos fixos na minha planilha. Como existem meses de 4 e de 5 semanas, eu multiplico esse gasto na planilha mensal por 4,5. Costuma funcionar.

3. Poupo, logo existo

Meio óbvio, mas acho importante mencionar: todo mês eu destino 10% do que eu ganho para uma reserva emergencial e 10% invisto no meu pé de meia, que é um dinheiro que eu pretendo sacar só quando eu me aposentar. Dessa forma, 20% do que eu ganho é investido. Eu queria até investir mais, mas já notei que quando eu invisto mais que isso, meu dinheiro acaba mais rápido e eu preciso ficar mexendo na reserva emergencial. Dentro do patamar do que eu ganho e consumo, esses 20% até que ficam equilibrados.

4. Vendo coisas que não usa mais

Uma coisa que eu gosto muito de fazer é vender coisas que tenho e não uso mais. Como eu disse no começo do texto, houve épocas onde eu consumi muito, até para me recompensar e sentir o processo de mobilidade social (aquele prazer de comprar algo que você não podia ter antes, como por exemplo o álbum de figurinhas da Copa do Mundo). Acabou que eu acumulei muita coisa que não uso. Hobbies e coleções que comecei e depois abandonei, principalmente. E pode ser que o que está parado na sua casa possa ser útil para outra pessoa.

Já testei diversos sites de vendas, eu gosto muito daquele lá que as pessoas vendem coisas que elas enjoaram kkkk, pelo menos é um site brasileiro. As taxas são altas, mas o serviço é bom, e é um dos únicos lugares onde dá pra vender livros, já que o público desse site é majoritariamente de classe média. Já vi muita gente reclamando da galera fazer ofertas baixas, e conheço muita gente que fica alimentando aquele fetiche de que suas coisas podem ser vendidas bem caras para um colecionador. Eu sou bem desapegado, faço uma pesquisa de preço e coloco tudo na média ou até abaixo do preço médio, para desapegar logo. Pra quem não tem nada, meio é dobro. Eu acho que se um objeto render qualquer troco é melhor do que a situação dele parado na minha casa rendendo R$0,00. E não me preocupo em recuperar o que investi nesses objetos ou até com uma eventual valorização de um objeto raro, vejo mais esse hobbie como uma contenção de danos, já gastei dinheiro que não podia mesmo, como que eu recupero pelo menos uma parte dele?

E lembre-se, essa tarefa demanda um trabalhinho: é fazer o anúncio, responder eventualmente alguma pergunta de cliente, embalar o produto, levar no correio ou na transportadora, então planeje-se. Eu saco o dinheiro obtido com essas vendas uma vez ao mês, e jogo numa conta separada, que uso para algo bem específico, que prefiro não dizer o que é, por questões de privacidade.

5. Tenho várias contas bancárias (todas gratuitas), cada uma com uma função diferente

Em primeiro lugar, se você paga mensalidade da sua conta bancária, eu sugiro dar uma olhada em um conteúdo da Nath Finanças, onde ela ensina como obter contas gratuitas em praticamente todos os bancos famosos. Vai naquele site de vídeos que você sabe qual é, digita Nath Finanças, o nome do seu banco e “conta gratuita”, você certamente achará o tutorial (não vem me pedir o link, pelo amor de Jah, acha você).

Eu tenho contas separadas para receitas e gastos separados. Tenho uma conta apenas para receber minha bolsa de doutorado. Outra conta só para receber os freelas. Tenho as contas dos cartões pré-pagos que eu mencionei. A reserva de emergência ainda fica em outra conta de banco. Essa é a forma que eu encontrei para evitar gastos acidentais e principalmente pra ficar organizado, e até mesmo para dificultar meu próprio acesso a algumas dessas contas.

Eu tenho dois dispositivos móveis, onde estão meus aplicativos de banco. No meu celular, está apenas um desses aplicativos de banco, aquele banco do meu cartão pré-pago, e onde eu já deixo aquele famoso dinheiro do ladrão, caso eu seja assaltado. Os demais aplicativos de banco ficam em outro dispositivo, do qual não vou entrar em maiores detalhes, por questões de segurança pessoal.

Conclusão

Faz pouco mais de um ano que me organizo dessa maneira e vem dando muito certo. Consegui nesse período até pagar 3 dívidas grandes que tinha com banco. Minha reserva de emergência foi suficiente para me salvar de alguns perrengues: comprei um computador de gabinete quando meu notebook deu pau, ajudei meu irmão a pagar a cirurgia de uma das nossas cachorras, e volta e meia salvo algum amigo ou parente que tá numa situação financeira complicada.

Não sou um exemplo de sucesso, sou apenas uma pessoa de classe média baixa, que trabalha muito, cozinha a própria comida e se locomove na maior parte do tempo de ônibus, mas esse método me ajudou a tirar a preocupação financeira da minha cabeça, que já tirou muitas noites de sono, felizmente não me assombra mais... vamos ver até quando... tomara que por muito tempo...

Ainda não estou 100% satisfeito e quero ao longo dos anos adotar formas mais simples e baratas de viver, até para conseguir poupar mais dinheiro. Minha vida já é bem austera, mas sinto que ainda dá pra fazer pequenos ajustes para torná-la ainda mais simples, os saudosos Pepe Mujica e Papa Francisco são meus musos inspiradores. Mas para a minha vida hoje, tá funcionando direitinho e me poupando de passar sustos e perrengues.

P.S.: não confio nesses aplicativos de controle financeiro que puxam a movimentação direto do aplicativo do banco, não me parece seguro fazer isso.

P.S.2: hoje em dia não utilizo cartão de crédito nem cheque especial, a duras penas aprendi a fugir dessas duas armadilhas.

P.S.3: nunca negocie dívida direto com o banco, existem instituições terceiras que fazem a negociação muito mais vantajosa para o devedor. Uma dessas instituições é aquela onde o nome da pessoa vai parar quando ela está devendo.

Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima! Felipe Siles é pesquisador musical, educador e produtor cultural. Escrevo esta coluna voluntariamente, mas se quiser me pagar um cafezinho e contribuir para que eu escreva mais, segue minha chave pix: felipesilespix@protonmail.com Este blogue não possui nenhum compromisso com a chamada big tech nem com a divulgação nas redes antissociais, então se você quer receber as postagens novas, sugiro utilizar um agregador RSS e acrescentar nele o seguinte link: https://blog.ayom.media/felipe-siles/feed/

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Peço licença povaria!

A BBC News Brasil publicou uma matéria da jornalista Thais Carrança, analisando os dados do Censo 2022 relativos à religião. A manchete destaca o arrefecimento do crescimento evangélico, inédito desde 1960. Ao longo da matéria podemos também constatar que o Brasil nunca foi um país tão religiosamente diverso como no momento.

Mas a grande notícia para o povo do asé, é que as religiões de matriz africana (umbanda e o candomblé) mais do que triplicaram seu tamanho em relação ao censo anterior, obtendo o maior crescimento percentual dentre todas as religiões no Brasil. Se em 2010 éramos 525,6 mil, em 2022 subimos nosso número para 1,8 milhões, representando 1% da população brasileira. Trata-se de um número ainda pequeno, se comparado aos cristãos por exemplo (só de católicos são 100 milhões), mas não se trata de um número desprezível. 1,8 milhões de pessoas está num patamar parecido com a população da cidade de Curitiba e de países como Letônia, Kosovo e Bahrein.

Ao olhar com mais calma a matéria e os dados trazidos por ela, alguns pontos que me chamam a atenção:

  1. Muitas pessoas que eram adeptas de religiões de matriz africana, mas antes se declaravam como católicas ou espíritas, passaram a afirmar sua religiosidade e ancestralidade. A própria matéria fala sobre isso no item 2, e o declínio no número de espíritas e católicos pode ser um indício que fortaleça esse argumento. Acho esse ponto particularmente positivo, pois apesar de todo o preconceito, racismo e intolerância religiosa que sofremos, as pessoas estão perdendo o medo de assumir suas identidades, o que é muito positivo. É muito provável que o número de adeptos de religiões de matriz africana não era de 525,6 mil na realidade concreta de 2010, certamente esse número estava subestimado;

  2. No item 8 a matéria discute a escolaridade dos grupos religiosos. Os espíritas são de longe os mais escolarizados, 48% possuem nível superior, porém os adeptos de candomblé e umbanda vêm logo atrás, com 25,5%. Acredito que isso seja um reflexo da política de cotas raciais nas últimas décadas. Uma parcela da população passou a acessar a universidade pública, e passou a produzir discurso oficial. Muitas dessas pessoas encontraram um ambiente hostil nessas instituições, e precisaram se reconectar com suas negritudes justamente no espaço do terreiro. Formou-se uma nova classe média negra e parda, intelectualizada, que produz e consome conhecimento, informação e cultura afro-centradas. Esse engajamento intelectual e religioso da classe média negra nos terreiros acaba emprestando legitimidade e respaldo à causa, criando um ambiente em que mesmo as pessoas que não pertencem a essas classes médias negras passem a perder o medo de assumir sua religiosidade. Creio que esse mesmo fenômeno esteja conectado ao aumento de pessoas que se declaram como pretas e pardas, já que o debate em torno do letramento racial ganhou popularidade e capilaridade nos últimos anos;

  3. Acredito que o número de adeptos de religiões de matriz africana pode até estar subestimado, já que existe uma grande zona cinzenta que é a categoria “Outras”, onde estão 7 milhões de brasileiros. Creio que muita gente pode ter se declarado como pertencente a religiosidades afro-brasileiras menos numerosas que o candomblé e a umbanda, como por exemplo: o culto tradicional iorubá Esin Orisa Ibilé (ao qual pertenço), o Terecô maranhense, a vertente cubana do culto de Ifá, entre muitas outras expressões espirituais africanas, afro-brasileiras e afro-indígenas. Por essa matéria, não conseguimos ainda dados mais precisos da categoria “Outros”, talvez valha a pena aguardar novas divulgações do IBGE com mais dados, para fazer uma nova análise.

Na condição de devoto do orixá, fico extremamente feliz com o crescimento, espero que seja um pequeno indício de que, apesar de tantos retrocessos que estamos passando com o avanço mundial da extrema direita, a semente de um mundo com maior diversidade cultural e religiosa começou a brotar.

Asé!

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Após a última derrota acachapante da seleção brasileira masculina de futebol para a Argentina, em partida válida pelas Eliminatórias da Copa, ocorrida em 25 de março de 2025, fui pesquisar em portais conhecidos para ler opiniões sobre o ocorrido. Porém, o texto que me chamou a atenção foi publicado no mesmo dia da partida às 11h33 da manhã, ou seja, é anterior ao certame. A publicação tem autoria da jornalista Milly Lacombe e é entitulado Declarações de jogadores da seleção indicam por que Neymar virou um culto. Lacombe demonstra, de forma brilhante, como Neymar se tornou um mito, que representa algo de um passado mítico do futebol brasileiro que desejamos resgatar, mas ao mesmo tempo em que, em termos materiais, ele não é um jogador de futebol de elite, na prática, há pelo menos sete anos. Para reforçar a questão do mito, Lacombe exalta também o quanto transformamos artificialmente esse jogador num camisa 10, sendo que em sua melhor versão (entre 2015 e 2017), Neymar era um ponta esquerdo, agudo, driblador, ou seja, um camisa 11. Essa crença cega — por parte de jogadores, comissão técnica, e até parte da torcida e imprensa — em um mito, um culto, um herói que, sozinho, vai resgatar a mágica do futebol brasileira e nos trazer o hexa, me chamou a atenção para um descompasso entre o meio do futebol masculino (e seus muitos agentes) e a realidade concreta e material. Mas observando outros fatos, percebi que se trata de uma recorrência e não de um caso isolado.

Em minha opinião pessoal, Neymar é uma pessoa que usou o futebol para atingir seu objetivo verdadeiro, o de se tornar uma celebridade. No Brasil, um país com desigualdade social terminal e sérios problemas estruturais, é de se imaginar que as camadas populares desejem a mobilidade social. Sempre foi assim, inclusive. Para os mais pobres, historicamente, a música e o esporte foram caminhos mais pavimentados para isso, então é normal que, nesse contexto, jovens de origem popular se identifiquem com estrelas do esporte e da música, e sonhem com esse estrelato, para que tenham acesso ao que foi negado a eles: uma vida de conforto material. Isso inclusive é legítimo. Porém, o fenômeno da instagramação da vida distorce esse sonho legítimo, prometendo fama e fortuna para qualquer suposto reles mortal que conseguir seguidores, engajamento e joinhas. Um prato cheio para a juventude que sonha com uma vida melhor, que vê no Neymar como alguém que alcançou esse sucesso. É bom lembrar que o brasileiro passa, em média, 56% do seu tempo acordado em frente à telas de smartphones e computadores, e os aplicativos onde passa maior parte de seu tempo são todos da chamada big tech, sendo o Instagram o grande campeão, consumindo 35% desse tempo online. Trocando em miúdos, o brasileiro passa, em média, mais tempo em um mundo fictício moldado pela publicidade e pelo oligopólio do que lidando com a realidade concreta e material.

Essa instagramação da vida aprofunda um deslocamento com a realidade material, que culmina em fenômenos interligados: fake news, negacionismo climático e científico, mitomania recorrente de políticos e chefes de estado, entre outras coisas. Quando olhamos para a realidade social da maioria dos jogadores, é fácil notar (até pela cor de suas peles e pela textura de seus cabelos) que a maioria esmagadora veio das classes populares, mais suscetíveis a esses fenômenos, tendo o Instagram como uma das poucas formas acessíveis de lazer e entretenimento (já que a polícia brasileira mata jovens negros em bailes funk, melhor ficar vivo vendo Reels mesmo). Olhando por essa forma, fica factível compreender porque o fenômeno da extrema direita no Brasil tem grande lastro popular, e isso afeta esses jogadores, mesmo os que atuam na Europa. É relativamente comum ver jogadores brasileiros de futebol masculino se manifestando politicamente do lado da extrema direita. Um dos mais conhecidos nesse sentido é o ex-volante com passagem marcante pelo Palmeiras, Felipe Melo. Felipe Melo, um simbolo dessa bravataria viril, naturalmente aplaudiu as declarações de “porrada nos argentinos” dadas pelo atacante da seleção Raphinha no podcast do ex-atacante e ídolo da seleção Romário. O resultado, vexatório para Raphinha e para o futebol brasileiro, veio na forma de porrada simbólica no futebol praticado pelos argentinos na partida.

Engajamento, likes e número de seguidores, nas regras atuais do futebol, não alteram o placar de uma partida, atualmente são os gols que fazem isso. Mas ao invés de se concentrar em realizar um trabalho pé no chão para que os gols aconteçam, toda a cadeia do futebol brasileira dobra a aposta na bravata. Tite, um técnico de personalidade mais pragmática, procurou montar o time de forma sólida, olhando para a realidade do futebol brasileiro no mundo, colocou a seleção de forma honrosa no lugar compatível com seu futebol praticado: quartas de finais nas últimas duas Copas do Mundo, ou seja, entre as oito melhores seleções do mundo, um lugar decepcionante se pensarmos na história do futebol brasileiro, mas bem ok, se pensarmos na desorganização e estrutura desse mesmo futebol na atualidade. Mas pragmatismo e realidade não geram engajamento com essa população que passa metade de sua vida no Instagram, e o técnico Tite até hoje é extremamente impopular, sendo que os representantes do futebol arte no imaginário comum ainda são os integrantes da seleção de 2006 cujos heróis mitológicos, pasmem, alcançaram o mesmo resultado de Tite na Copa: quartas de final. Essa parcela da população, que venera 2006, é a mesma que espera que o Tigrinho ou alguma BET traga o hexa para nós.

Após o término do contrato de Tite, em 2022, o Brasil se organizou atrás de uma promessa, a vinda de Carlo Ancelotti para o comando da seleção. Para aguardar o término de contrato do italiano, colocou dois técnicos interinos no comando da amarelinha: inicialmente Ramón Menezes e, posteriormente, Fernando Diniz, ambos com resultados catastróficos. Diante da realidade material da renovação de contrato de Ancelotti com o Real Madrid, Ednaldo Rodrigues contrata Dorival Júnior, que assume o posto mobilizando o discurso do resgate desse futebol mítico, com a famigerada e desgastada cartada de valorização dos atletas que atuam no território nacional. Aproveitando o fato de que infelizmetne citei o famigerado personagem Ednaldo Rodrigues, é bom lembrar que foi recentemente reeleito presidente da CBF com declarações denominando como “triunfo da democracia” o pleito em que foi candidato único. Voltando à Dorival, alguns meses antes, em setembro de 2024, o técnico prometeu o Brasil na final da Copa do Mundo.

A bravata, a promessa e a ilusão (des)estruturam e (des)organizam o futebol brasileiro atualmente, que chegou a um nível de aprofundamento de sua natureza no entretenimento e escapismo à condição radical de inimigo da realidade material. Bem na época em que o futebol se torna mais racional, científico, onde se consolida na metrópole comercial e econômica, a Europa, o futebol dos dados, estatísticas, scouts e profissionais com conhecimento científico. O Brasil confirma sua vocação vira-latas e vai ficando para trás nesse quesito, e esperneia com a bravata de que nosso jeito de fazer as coisas ainda é melhor, na base do improviso, do talento, das soluções fáceis e da resolução através de um herói mítico individual. Em uma terra fértil para o pensamento coach (que curiosamente significa treinador esporivo em inglês), a bravata se torna método em todas as etapas da cadeia de trabalho do futebol masculino, desde o seu presidente (que é quem deveria dar o exemplo) ao garoto que está ingressando na categoria de base de um clube com sonho de jogar na Europa, passando por jogadores profissionais e comissões técnicas, são todos aliados nessa guerra contra a realidade material.

Tenho convicção de que não há solução: podem convocar para a seleção brasileira masculina de futebol apenas jogadores que atuam no Brasil, ou jogadores que atuam na Europa. Podem convocar jogadores cascudos ou bailarinos. Podem convocar jogadores medalhões ou desconhecidos. Podem contratar um técnico estrangeiro renomado. Podem contratar até um técnico de outro planeta. O problema não será resolvido. Porque o problema é cultural e está entranhado em raízes do senso comum do povo brasileiro, que tem sua percepção de realidade moldada pela big tech. No cenário atual nos resta continuar acompanhando esse defunto vivo, chamado seleção brasileira masculina de futebol, que morreu em 2014 no Mineirão, mas que para nosso desespero continua nos assombrando a cada data FIFA.

Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima! Felipe Siles é pesquisador musical, educador e produtor cultural. Escrevo esta coluna voluntariamente, mas se quiser me pagar um cafezinho e contribuir para que eu escreva mais, segue minha chave pix: felipesilespix@protonmail.com Este blogue não possui nenhum compromisso com a chamada big tech nem com a divulgação nas redes antissociais, então se você quer receber as postagens novas, sugiro utilizar um agregador RSS e acrescentar nele o seguinte link: https://blog.ayom.media/felipe-siles/feed/

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O fenômeno que vou narrar não é novo, o historiador José Ramos Tinhorão já aponta há muito tempo a identificação da classe média brasileira com a classe média dos Estados Unidos, e a não identificação com a classe popular do Brasil. Segundo a crítica de Tinhorão, presente em diversos de seus livros, essa identificação cultural da classe média com o americano — que se dava principalmente na música (o jazz), no cinema e no vestuário — culminou na Bossa Nova. Porém, a reflexão que eu tento fazer aqui se dá em cima de processo semelhante, mas que foi por mim presenciado no início dos anos 2000: a popularização das séries americanas aqui no Brasil.

Eram os anos 2000, início do governo Lula 1, os Estados Unidos foram abalados pelo atentado terrorista do 11 de setembro de 2001 e, apesar do arranhão, pelo menos naquele momento ainda permaneciam no topo do mundo. No Brasil, por uma série de fatores, começou o processo de grande mobilidade social, levando ao inchaço da classe média no país. Quem vive no Brasil sabe, acho que nem a Judith Butler é capaz de imaginar que por aqui a classe social não é só questão de patrimônio, mas também de performance. A classe popular faz tudo para parecer a classe média, a classe média emula comportamentos da classe dominante, e a classe dominante jura que é pobre, que não é tão privilegiada assim... como dizem, isso aqui não é para amadores.

Essa performance de classe social ocupa o nosso imaginário de uma forma que a gente nem se dá conta direito. Eu, que sou oriundo das classes populares, me lembro que desde criança minha mãe vivia me enchendo a paciência com a questão da aparência: não pode andar na rua de chinelo e bermuda, precisa cortar o cabelo (o cabelo não pode em hipótese nenhuma ficar armado, estilo black), até pra ir no mercado precisa se arrumar.

No Brasil do Lula 1 as placas tectônicas das classes sociais começaram a se mover, e a classe média, que passou a ter os seus ambientes frequentados agora também pelas classes populares (aeroporto, rolezinhos no shopping, etc), precisava se distinguir dos subalternos, no aspecto cultural, o que também não é nada novo (até mesmo antes da Revolução Francesa, os nobres ameaçados pela burguesia que ascendia se diferenciavam pelo gosto artístico). O cinema e a música já não davam mais conta de diferenciar tanto assim as duas classes, já que ambas consumiam mais ou menos os mesmos produtos: a classe média ia no cinema, a classe popular assistia o mesmo filme quando passava na Tela Quente; a classe média comprava CDs, a classe popular ouvia as mesmas músicas no rádio ou em fitas K7. E é nessa mesma época que começou a se popularizar um tipo de entretenimento: a TV à cabo.

É seguro dizer que, nessa época, o principal entretenimento das classes populares era a televisão aberta: novelas, futebol, Jornal Nacional, Silvio Santos, etc. E a classe média, com TV à cabo, gostava de Friends, Two and Half Man, House, Lost. A classe popular consumia as séries americanas só quando passavam dubladas na tv aberta: Todo mundo odeia o Chris é um bom exemplo. Eu me lembro bem do estranhamento que tive, pois a partir do meu ingresso em universidade pública em 2003, passei a conviver com esses dois mundos. Na minha casa a gente assistia Kubanacan e Domingo Legal (assim como na casa de meus amigos do Ensino Médio), já meus amigos de faculdade assistiam Law and Order.

E a classe média, ameaçada pela classe popular ascendente, fazia questão de reforçar esses limites, adquirindo produtos das suas séries preferidas: livros, canecas, camisetas, etc. Conversavam entre eles sobre as tais séries, deixando quem não acompanha esse mundo boiando na conversa. Desenvolviam piadas e compartilhavam referências entre eles: “ah, isso é tão fulaninho do Friends” (p.s.: não sei o nome de nenhum personagem dessa série), também com o objetivo de se diferenciar do pobre, que assistia Ratinho e Ana Maria Braga.

Assim como aconteceu com a música e o cinema, esse consumo de séries hoje se massificou, e não é mais possível diferenciar as classes sociais no Brasil pelos produtos culturais que elas consomem, já que todas consomem os mesmos produtos. Essa massificação deve-se a inúmeros fatores: a TV à cabo que cada mais se popularizou, a chegada do streaming, e das redes antissociais com seus famigerados algoritmos.

Porém, você lembra que o Brasil é o lugar onde o pobre quer parecer a classe média, a classe média quer parecer o rico, e o rico quer parecer o pobre, né? Pois é... O rico pode viajar para os Estados Unidos praticamente a hora que quiser, a classe média não necessariamente, precisa planejar bem a viagem. E essas séries trouxeram uma familiaridade com a cultura, o jeito de pensar e até com a geografia dos Estados Unidos. Sentiram-se contemplados, porque na performance da classe média em parecer classe alta, esse conhecimento pode até fazer com que pareça que eles conhecem a terra do Tio Sam, como se viajassem para lá o tempo todo.

O pobre, assim que teve acesso a esse produto cultural, passou a consumi-lo para performar uma imagem de classe média. Diferente do filme, a série está ali contigo o tempo todo, uma vez por semana, todo dia, depende, mas é uma presença constante, é diferente do filme onde você fica exposto às ideias americanas por duas horas e depois volta pra Banheira do Gugu e pras Videocassetadas. E o povão, que tinha seu imaginário de desejos povoado pela novela das oito, passou a desejar o sonho americano, aquele american way of life. Tanto classe média como classe popular sonham com a mobilidade e ascenção social, e agora ambos buscam essa ascenção através da mesma bússola, que é esse estilo de vida americano, o que também ajuda a explicar o fenômeno do empreendedorismo e a praga dos coachs.

Pouca gente no Brasil conseguiu capitalizar e organizar esse desejo e esse imaginário como a extrema direita, até os dias de hoje inclusive. A babação de ovo para o Trump, o Bolsonaro batendo continência para a bandeira dos Estados Unidos, liberação do porte de armas, importação de movimento antivax, vocabulário coach, tudo isso mexe com o desejo de mobilidade social do povo, que a partir do consumo das séries se organizou e se alinhou ao american way of life. No senso comum do povão, tudo que venha dos Estados Unidos é melhor, sentimento que é muito bem ilustrado pelo personagem Renan do Choque de Cultura. Esse sentimento já existia por conta de Hollywood, mas foi aprofundado com o consumo das séries.

Lógico que as séries sozinhas não são responsáveis pela ascenção do facismo brasileiro, há também a contribuição dos jogos de videogame, filmes, música, comida ultraprocessada e outros produtos culturais. Mas pude ver de perto, o quanto essas séries foram utilizadas como marcador de classe social, na medida que falar mal ou simplesmente dizer que não liga para How I meet your mother ou Orange is new black é como ofender a mãe de algumas pessoas, porque faz a pessoa lembrar que a fronteira entre classe popular e classe média é mais frágil que a masculinidade, o que faz essa pessoa ir correndo para o Starbucks tomar um café meia boca e continuar no auto-engano.

E até hoje, mesmo dentro do campo progressista, eu consigo sacar a origem social de pessoas da minha geração facilmente pelas suas referências culturais. As minhas referências de anos 2000 estavam a maioria na TV aberta, no máximo na MTV, que pegava na TV aberta em alguns lugares. Eu sou capaz de reconhecer infinitos jogadores de futebol, mas devo saber no máximo o nome de uns trinta atores dos Estados Unidos. Vai ver que é por perceber esse fenômeno que eu até hoje não tenho a menor boa vontade com séries, não acompanho quase nenhuma, com poucas exceções. E também porque são muito grandes, tenho mais o que fazer...

Espero que este texto tenha sido útil, até a próxima! Felipe Siles é pesquisador musical, educador e produtor cultural. Escrevo esta coluna voluntariamente, mas se quiser me pagar um cafezinho e contribuir para que eu escreva mais, segue minha chave pix: felipesilespix@protonmail.com Este blogue não possui nenhum compromisso com a chamada big tech nem com a divulgação nas redes antissociais, então se você quer receber as postagens novas, sugiro utilizar um agregador RSS e acrescentar nele o seguinte link: https://blog.ayom.media/felipe-siles/feed/

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Esse é um texto bem com cara de final de ano. Afinal, vem o recesso e a maioria dos trabalhadores pode ter um pouco mais de tempo livre, descanso e muitos aproveitam para fazer andar a fila de filmes e séries. Não sou diferente, e apesar de ainda estar trabalhando, por conta da minha vida de profissional autônomo, tenho utilizado essa quebra na minha rotina normal para fazer testes, reflexões, consolidações e ajustes na maneira como eu escolho meu entretenimento audiovisual.

Mas Siles, que chatice! Precisa ser organizado até nisso? Não é só sentar na TV, relaxar e assistir o que quiser? Pode ser, se funciona assim pra você, ótimo! Mas eu acho que se a gente não precisasse de curadoria, não haveriam algoritmos de streamings e redes sociais nos entupindo de sugestões de filmes e séries. Quem conhece bem este blogue, já sacou que eu sou bem avesso a esses algoritmos e sua propaganda, acredito que cada sujeito ou grupo social deveria exercitar investigar o que realmente gosta de consumir, procurando se alienar dessa publicidade (na medida do possível) com o objetivo de auto-conhecimento, auto-descoberta e qualidade de vida, que realmente nos faça descansar do trabalho, e não gere ainda mais ansiedade. Fazendo um paralelo com alimentação, nunca vi propaganda na televisão de alimentos orgânicos, mas apesar disso eles são a parte principal da minha alimentação há muitos anos.

No sentido de evitar a ansiedade, eu sigo alguns princípios, que funcionam para mim. Podem não funcionar para você, mas isso aqui não é um guia ou manual da coisa certa a se fazer, apenas um relato pessoal da experiência que funciona para mim, e aproveite o quanto esse relato for útil para você. Minhas regras, por um entretenimento menos ansioso, são:

  • Prefiro me alienar de lançamentos e de hypes, com exceção de quando tenho a oportunidade de ir ao cinema, porque aí vou inevitavelmente assistir algo que está em cartaz. Mas dentro da minha casa, na frente da minha televisão, tento ao máximo ignorar o que todo mundo tá vendo, afinal sou um radical daquela regra da mamãe: “você não é todo mundo”;
  • Proibido mexer no celular ou em qualquer aparelho digital enquanto assisto um filme, série, etc;
  • O horário de televisão, assim como sua duração é pré estabelecido dentro da minha rotina;
  • Menos é mais, melhor ver poucas coisas e se divertir com elas do que tentar dar conta de várias e ficar perdido, ansioso e entediado, ou ficar criando listas e metas intermináveis e depois lidar com auto-cobrança.

A última regra e uma opinião muito impopular: pessoalmente, evito as séries. Na minha opinião elas são produtos meramente comerciais e sua explosão e popularização só se justifica na necessidade dos serviços de streaming demandarem produtos que vão prender o usuário na assinatura. No meu caso, um trabalhador com tempo livre escasso, as séries além de consumir muito tempo livre, ainda geram um nível de ansiedade, já que elas são produzidas para viciar e provocar a maratona. E sou uma pessoa que valoriza a rotina, as 8 horas de sono, as refeições no horário correto (as minhas costumam ser acompanhadas de um podcast), então dispenso esse formato de entretenimento. E tem uma pitada de old school e saudosismo também, ainda acho que a sétima arte, o cinema, os filmes, ainda é uma forma de entretenimento superior, seja lá o que isso queira dizer.

Substituto as séries por animes, que em geral são ótimos produtos culturais, com duração bem mais curta dos episódios. Enquanto uma série em geral tem episódios de cerca de 1 hora, um anime dificilmente chega a 30 minutos. Ou seja, ao invés de assistir dois episódios de uma série, eu prefiro assistir um filme (ou seja, uma história com começo, meio e fim, pelo menos assim espero rs), ou então 4 episódios de anime (animes diferentes, ou o mesmo anime, se eu estiver maratonando).

Outro detalhe interessante, com essa coisa de diversos streamings irem reduzindo o compartilhamento de assinaturas, fui deixando diversos serviços e atualmente assino apenas dois, que me contemplam bem (Max e Telecine), e compartilho a senha do Crunchyroll, assinado pelo meu irmão. Para as coisas que eu gosto de assistir essas assinaturas são suficientes. E se tiver algum produto cultural que eu queira muito ver, que esteja em outro serviços, sempre existem meios de assistir, se é que você me entende...

Contextualizado o meu gosto pessoal, minhas regras, vamos a como eu monto a minha curadoria:

  • Animes: acabo escolhendo por recomendações de amigos mesmo, esse é um assunto que eu sempre converso em determinadas rodas de amizades. Gosto de acompanhar alguns que ainda estão sendo produzidos, assistindo semanalmente o episódio novo. Gosto muito mais dessa forma de consumir do que as maratonas, acho mais gostoso e menos ansioso assistir desse jeito. Mas não posso negar que às vezes gosto de maratonar um anime, quando ele me pega muito. Vou acompanhando esses que estão sendo produzidos na atualidade uma vez por semana, e também pego um mais “antigo” para ir assistindo aos poucos. Esse “antigo” eu gosto de pegar bem os clássicos mesmo, consagrados pelo gênero e assisto um de cada vez, no máximo dois, não gosto de conciliar vários. Outra coisa, eu evito deixar a “lista de favoritos” muito grande, deixo só os novos que estou acompanhando, e o(s) “antigo(s)”, e quando termino de ver o(s) “antigo(s)”, tiro ele da lista. Atualmente estou considerando como ideal assistir no máximo 4 episódios de anime por dia, e se for futuramente mexer nesse número será para diminuir, e não aumentar;

  • Filmes: eu odeio aquela sensação de indecisão ao escolher um filme. Então já salvo vários que quero assistir na famosa “minha lista” e gosto de definir algum critério para a sequência que vou assistir. Exemplos: todos os filmes do Studio Ghibli (ou de outro estúdio), todos os filmes do Spike Lee (ou de outro diretor), filmes biográficos, filmes com um ator específico, filmes de um gênero específico, todos os filmes de uma trilogia ou coleção, etc. Esse tipo de critério ajuda muito na escolha do filme que vou assistir, já que a escolha é um processo cansativo para o cérebro e a ideia é relaxar e se divertir. E é legal que você fica no clima de um determinado tipo de filme. Por exemplo, assisti na sequência filmes biográficos sobre Pixinguinha e Elis Regina, foi uma experiência interessante e acabei traçando mentalmente diversos paralelos entre essas duas produções. Se nos animes eu evito a “minha lista” muito longa, aqui vou simplesmente adicionando tudo que quero ver, sem muito filtro, mas também não me cobro pra ver tudo num prazo específico, apenas penso nesse monte de filme como se fosse a minha locadora pessoal (essa só o pessoal dos anos 1980 e 1990 vai pegar a referência kkkk).

Outra coisa que acho legal é produzir um registro das coisas que assisto. Tenho utilizado as plataformas Justwatch e Letterboxd para isso. E elas também são muito úteis para descobrir em qual serviço de streaming está algum produto cultural que eu queira ver. Se você quiser me seguir no Letterboxd.

Mais uma coisa: eu não sou dessas pessoas que acha que todo entretenimento tem que ser “cult”, tem que levar à reflexão, etc. tem horas que eu amo assistir um filme de porrada para desligar o cérebro mesmo, viva o escapismo! Mas trocar a realidade dura de trabalhador no capitalismo tardio por um entretenimento raso 100% do tempo, é algo que eu evito também, então tento minimamente equilibrar. Normalmente eu gosto de assistir as coisas mais rasas durante a semana, depois de um dia cansativo de trabalho e deixar a arte mais profunda, “cult”, nobre, etc para os feriados e finais de semana.

Última coisa, prometo: não precisamos ocupar todo o tempo livre também, com filmes, séries, leituras, podcasts, músicas, passeios... o ócio também faz parte da vida, e lidar com ele tem sido um desafio na conteporaneidade, mas penso que valha a pena encará-lo, em nome de uma vida melhor.

Bom descanso, e bom entretenimento!

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Obs.: em geral, não estou considerando aplicativos muito básicos, como relógio, calendário, chamadas, calculadora, loja de aplicativos, etc, normalmente uso o nativo

1. Smartphone com Android

  • Tocadores: AntennaPod, Transistor, VLC, Tidal, NewPipe
  • Mapas e navegação: Google Maps, Moovit,
  • Nuvens e sincronização: IDrive, Nextcloud, DAVx5
  • Mensagens: Beeper
  • Bloco de notas: Joplin
  • Navegador: Firefox Focus
  • Passivos: TC Control, Screen Time
  • Launcher: Smart Launcher
  • Senhas e autenticação: KeePass, Ente Auth P.S.: vários desses aplicativos foram instalados via F-Droid

2. Tablet com IOS, vulgo iPad

  • Nativos Apple: Safari, Email, Calendário
  • Leitura: Omnivore (deus o tenha), Zotero, PDF Gear
  • Notas: Joplin
  • Nuvens e sincronização: IDrive, Nextcloud
  • Nas aulas de música que leciono: Musescore, Metronomo, iGrand Piano, iReal Pro
  • Mensagens: Beeper
  • Entretenimento: Lichess, Sofascore, JustWatch, Letterboxd
  • Senhas e autenticação: KeePass, Ente Auth

3. Computadores com Linux

(Notebook com Manjaro; PC de gabinete com Debian) – E-mails e calendário: Thunderbird – Navegador: Firefox – Mensagens: Ferdium – Nuvens e sincronização: IDrive, Nextcloud – Notas: Joplin – Pacotes de escritório: Libre Office, Only Office – Produção musical: Musescore, Audacity, Ardour – Senhas e autenticação: KeePass, Ente Auth – Tocadores: VLC, FreeTube – Gestão de textos e livros: Zotero, Calibre

4. Projeções para 2025

Quero começar a usar mais o Syncthing, até pra aliviar meu uso de nuvens, que é meio pesado. Para substituir o finado Omnivore, migrei para o Pocket. Também quero me tornar mais analógico, em 2024 já substitui aplicativos de tarefas que usava pelo bom e velho caderninho físico, utilizando o método do Bullet Journal, vamos ver o que 2025 me reserva, nesse sentido. E sempre estou aberto a testar e eventualmente incorporar na minha rotina novos aplicativos, preferencialmente livres e de código aberto.

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