Um passeio pelo apartamento de Ivan Jerônimo

Capa do livro '60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento', de Ivan Jerônimo. O título está contornado por um retângulo vermelho. Ao fundo, uma ilustração de uma visão panorâmica feita em aquarela.

Imagem: capa do livro “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”. Cortesia do autor.

Quem já leu o meu blogroll sabe o quanto admiro a escrita de Ivan Jerônimo ― designer, fotógrafo e jornalista nascido em São Paulo, mas radicado em Florianópolis. Além de grande cronista, Ivan também é um bom curador, sempre lançando ótimas recomendações de leituras no seu Mastodon @ivanjeronimo@bolha.one.

Seu texto blogal, longe de ser mera descrição de suas ilustrações, tem um frescor próprio de quem cresceu com a nata da crônica brasileira e que, não só aprendeu as lições de um Paulo Mendes Campos ou de um Carlos Drummond de Andrade, mas também soube como tornar célebre o célere, ao tempo que amalgama imagem e escrita. É isso que primeiramente me marcou na leitura do seu “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento” (2025).

Já há alguns meses vínhamos trocando e-mails quando decidimos trocar também livros: eu lhe enviaria o meu autopublicado “Estudando Poesia” (2025) e ele me enviaria o seu também autopublicado “60 dias dentro de casa”.

Imagem. O mesmo livro, só que aberto em sua contracapa, onde se vê um macerador com um pilão de pedra desenhado. Sobre isso lê-se 'Para Arlon, Obrigado por propor uma troca ― real ― nestes tempos de compartilhamentos efêmeros. Boa leitura! Ivan Jerônimo. Florianópolis, 2/8/26

Imagem: dedicatória do livro (incrível aliás como a tinta escrita se assemelha à tinta impressa!).

“60 dias” foi escrito em um contexto de isolamento severo durante o período de maior urgência da pandemia de Covid-19, a partir daquele fatídico março de 2020 até maio do mesmo ano. Ivan, participante ativo dos Urban Sketchers ― grupos ao redor do mundo que costumam se encontrar para desenhar as cidades (logo, uma atividade outdoor) ―, viu-se em uma condição indoor na qual não poderia desenhar outra coisa a não ser seu apartamento.

Organizou seus registros no livro em quatro seções: “Da janela”, “Objetos”, “Ambientes” e “Autorretratos”. Interessante aliás sua ordem de seleção: suas artes partem do exterior (a vista da janela, a rua, o terraço), passam pelos objetos e espaços internos (cafeteira, cozinha) e culminam numa série de autorretratos ― ou, diríamos, “o interior do interior”. É como se com a urgência do isolamento, sair do “modo piloto” diário tivesse o forçado a voltar-se menos ao mundo e mais a si mesmo; e é como se, a partir do passeio que fez no seu entorno e em sua casa, desse também um passeio em si mesmo.

Livro aberto ao meio, onde se vê ilustrações de um par de tênis de tênis do lado direito, e do lado direito, headphones. Abaixo de cada desenho, um texto detalhando o processo criativo de cada um.

Imagem: ilustrações em “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”.

Não se pode dizer ao certo se é um livro de artes com descrições ou um livro de crônicas ilustradas. Já naquele tempo, sua escrita se revelava despojada e íntima. Junto de cada ilustração, vemos a descrição do processo ilustrativo, o que cada objeto lhe remete, e, por fim, a descrição das ferramentas utilizadas. A miríade de técnicas utilizadas (analógicas e digitais) revelam um artista experimental e curioso.

Como se não bastasse o seu conteúdo, a qualidade da impressão e o papel escolhido (cuchê fosco) conferem ainda mais valor ao livro enquanto objeto.

Livro aberto ao meio, em que se vê outro desenho em aquarela mostrando uma visão panorâmica da cidade de Florianópolis. A ilustração toma duas páginas.

Imagem: ilustrações em “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”.

Em cada página, Ivan dá à vista a vitalidade de espaços ou objetos que costumamos ignorar: a máquina de lavar roupa, o poste, o banheiro. Assim, desautomatizamos nosso olhar diante do banal e do cotidiano, vendo beleza até mesmo nas pequenas engrenagens de nossos utensílios.

Não posso deixar de enxergar nesse foco no minúsculo e no imediato como uma tentativa também de suportar o horror da pandemia, com especial atenção ao Brasil, cujo saldo de mortos pandêmicos ultrapassou 700 mil em dois anos, presente de um governo autoritário e anticientífico que, aliás, ainda tem a audácia de querer retornar nestas eleições.

Livro aberto ao meio, onde se vê ao lado esquerdo, no topo da página, uma ilustração de um toca discos feito em unipin. No restante do espaço, vê-se texto detalhando o processo do desenho.

Imagem: ilustrações em “60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento”.

“60 dias dentro de casa: um diário ilustrado do isolamento” é uma tímida lição de como a arte pode nos dar abrigo, mas também é a memória íntima de um período de descaso sanitário, o qual não poderemos nunca nos esquecer.


Sou Arlon de Serra Grande, professor, ensaísta, poeta, entusiasta de Linux e autor do livro autopublicado “Estudando Poesia” em que reflito sobre como se dá o aprendizado da linguagem poética. Se quiser adquirir um exemplar, fazer uma contribuição para este blogueiro, fazer recomendações, sugerir correções de texto ou comentar este post, clique no link abaixo.


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CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter