“Patati & Patatá Cult”

Imagem: capa do álbum “Sound Circo”, de O Cheiro do Queijo.
Em julho deste ano, um grupo de rap apareceu no programa Cultura Livre, da gloriosa TV Cultura.
No Cultura Livre já apareceram Xablau, Tim Bernardes, Catatau, Juçara Marçal e outros figurões da música alternativa brasileira contemporânea, pateticamente chamada de “nova MPB”.
(Um picho daqui de Fortaleza diz que MPB deveria significar “Música Periférica Brasileira” ― é do que se trata o que vou falar agora).
“A revolução vem do interior” (“Distrito Santo Pacífico”).
E aí esse grupo de rap, além de ser da periferia do Brasil, mais precisamente Maracanaú (na grande Fortaleza), é formado por artistas de rua, gente que cantava em pontos de ônibus. Para ser mais preciso, era gente do circo. Gente da itinerância mesmo.
Mas como dizia vovó, humor é coisa séria.
O Cheiro do Queijo é mais do que um grupo de rap, é um grupo de invenção, isto é, ultrapassa a música e cai no happening, pratica um rap-happening, digo, um rappening.
Afinal, sua música não está singularmente no som ou na palavra, mas no gesto dantesco, na roupa bufônica, no movimento corporal circense; não está aqui ou ali, mas aqui e ali; está em toda parte, com partes que se entrechocam.
E quando não há parte alguma, ainda há palavra falada.
O que interessa mais a este texto, porém, é a tática semiótica dO Cheiro do Queijo. Praticando esse rappening, aparenta ser um happy-rap. Circo, cores, palhaçada, gaiatice: e tascam-lhe de palhaços.
E... de certa forma, eles o são. As letras, longe de carregarem o cenho franzido de um Sabotage ou de um Criolo, esbofetam, zombam, troçam e nos levam a um riso reflexivo, uma habilidade própria dos palhaços.
(Diz-se que nas antigas monarquias aos palhaços, e somente a eles, era dado o direito de criticar o rei ― aliás, Marshall McLuhan, o grande teórico-teólogo das mídias, costumava dizer que toda piada era na verdade uma reclamação).
Pois bem.
Em comentários nas redes sociais, gente que caiu de paraquedas no vídeo do grupo cearense o batizou de “Patati & Patatá Cult”. Como se afinal fosse algum demérito musical ou estético parecem palhaços.
É ainda aquela ideia renitente na cabeça do povo de que o compositor brasileiro deve ser um “complexado”, que Tom Zé critica em “Complexo de Épico”.
“E eu só queria ser um artista, tive que tirar CNPJ” (“Aburocracia”).
Mas eis que um dos vocalistas dO Cheiro do Queijo, Abu da Pereba, responde à habitual pergunta no fim do programa:
― “Cultura Livre” segundo O Cheiro do Queijo?
― “Cultura Livre” é cearense não precisar vir pra São Paulo pra fazer sucesso.
Riram.
Mas todos nós sabíamos que aquele “palhaço” foi mais sério do que nunca.
CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter