Compondo com bipes e bits

Algumas vezes pensamos que a internet se resume a três ou quatro “apps”, e que é disso tudo que se trata a vida virtual na década de 2020. Para piorar, ainda temos a ação algorítmica de um chatbot que, voluntária ou involuntariamente, intermedeia a nossa navegação e concentra informações que estão em milhares de sítios web em alguns tópicos mais ou menos úteis.

Aí em um belo dia, temos uma dúvida. Boa mesmo. Entramos em uma página qualquer. Nesta página há um link que nos leva a outro que nos leva a outro. De repente estamos enlaçados ― não é à toa que os hispano-hablantes tratam os links por enlaces!

Esta sensação de serendipidade e de descoberta espontânea é cada vez mais rara neste curralzinho em que as grandes corporações nos meteram.

Mas vou falar da descoberta mais recente que me retornou esta sensação.

No último fim de semana formatei meu computador. O meu novo sistema, Debian, veio quase “puro”, sem pacotes e drivers pré-instalados, o que precisou que eu fosse atrás deles sempre que desse algum problema ou alguma conexão não fosse reconhecida.

Estava aqui mexendo com o GRUB do meu sistema. Para quem não sabe, GRUB é tipo um portal dos sistemas abertos e gratuitos. É ele quem define qual será a primeira mídia que vai carregar, quanto tempo levará para abrir, se vai mostrar as opções de mídia e tal.

Acontece que o GRUB sempre perguntava qual sistema eu queria carregar, pedindo enter sempre. Cansado de sempre ter que esperar por isso, fui atrás de saber como automatizar esse processo.

No meio disso, tive que abrir um arquivo de script que define como o GRUB se comportará; resolvi o problema de automatização, mas lá no finzinho do arquivo tinha uma nota dizendo assim:

Uncomment to get a beep at grub start

(Isto é, “'Descomente' para ter o bipe na inicialização do GRUB”).

Aí eu: “O que diabo é esse bipe?”

Bom, ativei essa opção e reiniciei a máquina.

O “bipe” em questão era o aviso que os computadores de até meados de 2010 costumavam dar para dizer que a máquina estava íntegra. Até esse período as fabricantes punham por padrão uma peça chamada “alto-falante piezoelétrico” (ou “piezo”), uma espécie de campainha que gera som a partir de movimento mecânico com aplicação de tensão elétrica. Hoje em dia, ao menos para notebooks, os bipes funcionam de outra forma.

Se esta descrição ainda ficou abstrata, é só lembrar das melodias do Gameboy ou de minigames ― eles usam mecanismos parecidos.

A linha do meu notebook, um Dell Inspiron 3421 (de 2013), foi uma das últimas, presumo, a adicionar o “piezo” na placa-mãe. Daí o meu susto: não é comum notebooks biparem!

Mas como gostei daquilo! Era um som alto, vivo, sério, que ritualizava o uso do computador... Só que o tom era meio frio, uma nota “lá” com um timbre de pai que chama pra jantar tarde da noite. Queria um tom mais aberto, mais alegre, algo que dissesse “Tudo pronto!”

Pesquisei, pesquisei, aí encontrei o tom que queria, deixei assim:

GRUB _ INIT _ TUNE=“480 880 1”

Não vou saber explicar tintim por tintim como esse código funciona, mas um desses números diz a frequência da vibração (isto é, seu tom), outro, o tanto de tempo que ele permanecerá e outra coisa que agora não sei dizer. “GRUB _ INIT _ TUNE”, significa literalmente “toque de inicialização do GRUB”. Resumo da ópera: esses três números aí valem só por um bipe.

Nisso fiquei pensando “Se tem um código assim, quer dizer que dá para programar melodias, não?”

Pois sim. Dá para programar melodias para serem tocadas na inicialização do computador, sim, senhor! Sem programas de interfaces complexas e usando recursos mínimos, o laptop vira um instrumento musical!

Só que aí que vem o problema: não queria ficar reiniciando a máquina sempre só para ouvir a melodia. Eis que há um sítio do Github, o Breadmaker, que emula um GRUB _ INIT _ TUNE fornecido. No link do Breadmaker a seguir, vocês podem ver um efeito sonoro bem conhecido:

• GRUB _ INIT _ TUNE tester v0.9.5

Fui entrando um pouco mais nisso e descobri que há toda uma comunidade em torno de composições e covers com bipes de GRUB.

Pelo Youtube dá para encontrar registros (bem antigos aliás) de algumas dessas melodias postas em prática.

• Final Countdown

• Marcha de Darth Vander

Infelizmente, não encontrei o que eu queria: um conjunto de computadores preparados para tocarem tons harmonicamente, numa pegada bem kraftwerkiana. Fica aí a ideia.

Isso é só um lembrete de como a internet ainda pode ser um lugar de descoberta e de relações comunitárias ― ainda que seja para nerdices e experimentações de nicho.


Sou Arlon de Serra Grande, professor, ensaísta, poeta, entusiasta de Linux e autor do livro autopublicado “Estudando Poesia” em que reflito sobre como se dá o aprendizado da linguagem poética. Se quiser adquirir um exemplar, fazer uma contribuição para este blogueiro, fazer recomendações, sugerir correções de texto ou comentar este post, clique no link abaixo.


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