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    <title>Ideias de Chirico</title>
    <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/</link>
    <description>Em lembrança do pintor surrealista greco-italiano Giorgio de Chirico (1888 - 1978), o maior ilustrador de ideias de jerico ― e de Chirico!</description>
    <pubDate>Thu, 18 Jun 2026 08:10:13 +0000</pubDate>
    <item>
      <title>“Erik Satie: só o humor constrói”, de Júlio Medaglia</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/erik-satie-so-o-humor-constroi-de-julio-medaglia</link>
      <description>&lt;![CDATA[Pintura em estilo impressionista de um homem loiro e calvo, com óculos estilo “pince-nez”, de barba e com fraque. Ao fundo é posível ver um teclado de um piano e partituras. O homem está com uma postura sagaz, de sobrancelhas arqueadas, com a mão esquerda gentilmente encostada no rosto.&#xA;&#xA;Detalhe de retrato de um jovem Erik Satie feito por Antoine de la Rochefoucauld, 1894.&#xA;&#xA;Tenho uma estranha atração por sujeitos estranhos. Talvez porque eu seja um, sim. Mas também porque, levando uma vida tão anódina, me encanta ver alguém “desafinando o coro dos contentes”, como dizia o poeta piauiense Torquato Neto ― outro esquisitão.&#xA;&#xA;Quando conheço figuras assim, dissidentes de sua própria época, passo a pesquisar sobre tudo o que as circunda. Uma delas é o compositor francês Erik Satie, que viveu sua vida como um performer, como vocês verão logo abaixo. &#xA;&#xA;Satie é o dono da composição “Gymnopédie nº 1”, incluída em playlists “Once upon a time in Paris”, que inclusive, por conta de sua natureza introspectiva, costuma aparecer com sample de edições de lo-fi hip-hop.&#xA;&#xA;Vivendo no período entre o fim do século XIX e começo do XX, tempo em que o pensamento positivista ainda era predominante, ele passou a manter um estilo de vida extremamente excêntrico e contraditório, para não dizer antinormativo, colecionando proposições artísticas e causos populares.&#xA;&#xA;Outro dia estava folheando o livro “Música impopular” do compositor e crítico musical paulista Júlio Medaglia, onde o escritor fala sobre os principais nomes da música experimental do século passado, quando trombei com o texto sobre Satie que quero compartilhar aqui. Para expandi-lo e não o reduzir a um copicola, linkarei as composições que Medaglia mencionar.&#xA;&#xA;Para quem se interessar pelo artista, sugiro a escuta do episódio “Interferências” do podcast Ser Sonoro que fala sobre outras anedotas “satí(e)ricas”e sobre a linguagem musical do compositor francês.&#xA;&#xA;Boa leitura!&#xA;&#xA;“Erik Satie: só o humor constrói”, de Júlio Medaglia&#xA;&#xA;Bach codificou a gramática da composição musical do Ocidente. Mozart e Haydn estabeleceram formas amplas de expressão ― a sinfonia, a sonata etc. Beethoven, apoiado nessa gramática e nessas formas, subverteu as estruturas composicionais, criando contradições no discurso musical do início do século XIX, liberando a criação para procedimentos mais livres. Os principais compositores românticos aproveitaram-se disso e conduziram a criação musical ao subjetivismo, praticamente inventando uma forma nova para cada obra. Schönberg levou essa subjetividade e essa individualização da expressão ao extremo, à neurose, digamos, desembocando no que se convencionou chamar de expressionismo. Stravinsky e Varese “barbarizaram” a doce arte dos sons, espantando os mais bem-informados ouvidos e conceitos da época. Poderíamos seguir nesse raciocínio simplório, apoiando mais alguns nomes de personalidades de nossa evolução artística, que com talento e coragem mudaram o curso da história da música. Existe um elemento, porém, que, com igual talento e coragem, abalou as estruturas da música deste século, azucrinando corações e mentes de músicos, críticos e teóricos, mas, cuja arma empregada em sua investida contra ideias desgastadas era até então desconhecida: o humor ― mais precisamente o deboche. Depois de ter atuado como um verdadeiro “pai” do Impressionismo, conduzindo Debussy pelas mãos à criação de uma música “sem sabor de chucrute”, Erik Satie impacientou-se com os rumos que tomava a criação daquele período, despejando seu humor devastador contra tudo e contra todos. Acusado de amador por aqueles que só acreditavam na revolução feito sobre trilhos estáveis, Satie tira um diploma de compositor “com distinção” na Schola Cantorum de Paris aos quarenta anos de idade para que ninguém tivesse dúvidas quanto à sua capacidade técnica. Num período em que os autores se deliciavam, compondo obras com horas de duração, ele compunha peças com 18, 30 segundos. Acusado de incapaz para compor obras maiores, faz “Vexations”, com dois dias de duração.&#xA;&#xA;Quando o impressionismo francês se encanta com os exotismos da forte musicalidade espanhola, ele compõe uma obra chamada de “Espanhanha”. Aí, todos os maneirismos dessa música são devidamente anarquizados. No momento em que Debussy se queixa de que as obras de Satie carecem de uma definição formal, ele lhe envia “três peças em forma de pera”. Aliás, no período em que o impressionismo, ainda em evolução, caracterizava suas composições como “Clair de lune”, “Nuages”, “De l&#39;aube a midi sur la mer” ele contra-atacava com as suas, assim chamadas: “Embriões ressecados”, “Esboços e provocações de um cafetão de pau”, “Fantasiado de cavalo”, “Três valsas para um esnobe execrável”, “Prelúdios verdadeiramente flácidos” etc. Satie criou os primeiros happenings na música europeia, fazendo entrar um Citroën no palco em plena execução de uma de suas músicas, ou colocando sons e instrumentos “não musicais”, como máquinas de escrever, apito de navio, ruído de roda de loteria, barulho de água, sirenes , buzinas ou tiros de revólver, em seu balé “Parade”. Para essa obra, aliás, encomendou um cenário a Picasso, obrigando o pintor a executá-lo em público. A cada pincelada do genial espanhol, todos aplaudiam. Para um de seus balés, Satie solicitou que a segunda parte não fosse dançada no palco, mas sim filmada. Encomendou, então, o trabalho de René Clair, que assim filmou o seu famoso “Entr&#39;acte”. A orquestra acompanha, a cada segundo, a movimentação das cenas, sendo assim a primeira trilha sonora original para cinema (o velho maluco que aparece no início do filme pulando na frente de um canhão é o próprio Satie) [Nota: no link anterior, ele aparece aos 2m15s].&#xA;&#xA;Imagem de um homem idoso olhando para a câmera; ele está com o dedo indicador na bochecha, como quem a coça; ele está com óculos de aro fino.&#xA;&#xA;Do tempo da gravação de “Entr&#39;acte”, 1920. Retrato por Henri Manuel. Colorido artificialmente.&#xA;&#xA;Vivendo na mais absoluta pobreza no bairro de Arcueil, 16 quilômetros distante de Paris, num quarto sempre de portas e janelas fechadas e onde ninguém entrou até sua morte e onde havia apenas uma cama, uma escrivaninha e dois pianos (um em cima do outro) Satie conseguiu incomodar, mas não provar aos seus contemporâneos que o questionamento bem-humorado da cultura da época que ele propunha fazia sentido.&#xA;&#xA;Como este texto não é sonoro, aqui ficam algumas de suas “tacadas” para que o leitor tenha uma ideia de seu h senso de amor à música.&#xA;&#xA;  A jornada de um músico. &#xA;&#xA;  O artista deve organizar sua vida. Vejam a programação de minhas atividades diárias: às 7h18m eu acordo; das 10h23m às 11h47m eu me inspiro; às 12h11m eu tomo o desjejum e deixo a mesa às 12h14m. Faço um salutar passeio a cavalo às 13h19m até as 16h7m. Ocupações diversas (esgrima, reflexões, imobilidade, visitas, contemplação, excitação, natação etc.) das 16h20m às 18h47m. O jantar é servido às 19h16m e termina às 19h20m. Leitura de partituras em voz alta, das 20h9m às 21h59m. Deito-me regularmente às 22h37m. Semanalmente (na terça-feira) eu acordo sobressaltado às 3h19m.&#xA;&#xA;  Eu só me alimento com comida branca; ovos, açúcar, ossos ralados, gordura  animal, vitela, sal, coco, frango curtido em molho branco, suco de frutas, de arroz, de nabo, patês, queijos (brancos), salada de algodão e peixes (sem escama).&#xA;&#xA;  Eu fervo o meu vinho, espero esfriar e o bebo com uma pitada de fúcsia. Tenho bom apetite e nunca falo enquanto como (de medo de me engasgar). Respiro com cuidado (pouco de cada vez). Danço raramente. Eu ando sempre de lado para ver bem quem me segue.  Eu rio das coisas sérias, mas não deixo transparecer. Eu durmo apenas com um olho fechado. Minha cama é redonda e tem um buraco onde eu coloco a cabeça. De hora em hora um empregado toma minha temperatura e me devolve uma outra. Meu médico me recomendou para fumar diariamente e diz: “Se você não fumar, alguém fumará em seu lugar”.&#xA;&#xA;  Cocteau me ama (até demais), eu sei... Mas por que será que ele me dá tantos pontapés por debaixo da mesa?&#xA;&#xA;  Ravel recusou a “Legião de honra”, mas toda a sua música a aceita.&#xA;&#xA;  O negócio não é recusar a “Legião de honra” e sim fazer tudo para não a merecer.&#xA;&#xA;  Não se trata de ser antiwagneriano e sim fazer uma música sem sabor de chucrute.&#xA;&#xA;  Eu já disse que os animais são mais educados. Exemplo: um gato dorme numa poltrona. O homem vem e tira o gato. Eu jamais vi o contrário.&#xA;&#xA;  Os pintores e escultores vivem reproduzindo figuras de animais em suas obras. Os animais, eles mesmos, parecem ignorar por completo as artes plásticas. Eu desconheço qualquer pintura ou escultura feita por animais. Eles gostam, mesmo, é de música e arquitetura. Eles constroem ninhos e casas que são verdadeiras maravilhas artísticas e industriais para viver com suas famílias. E não resta dúvida de que eles praticam música até mais do que nós. Eles têm um código musical diferente do nosso, é bem verdade. Trata-se de uma outra escola. É preciso entender o que significa relinchar, miar, cacarejar, piar, mugir, latir, uivar, rugir, arrulhar, ronronar, grulhar, ganir para se ter uma ideia de sua arte sonora. Ela é tão bem ensinada de pai para filho que, em pouco tempo, o aluno se iguala ao mestre.&#xA;&#xA;  A Sociedade Protetora dos Animais protesta energicamente contra o recente engajamento de duas vacas pela Ópera de Paris para fazer um dueto em “Sortilégio”. Esses infelizes ruminantes, embriagados com o sucesso e em contato direto com a cabotinagem desses histrionistas, perdem pouco a pouco a sua dignidade e honradez profissional.&#xA;&#xA;  Jaques Dalcroze vem fazendo muito sucesso associando o esporte ao solfejo. Eu recomendo 3 sonatas de Beethoven, diariamente, que provocam um emagrecimento progressivo e muito sensível e 6 fugas de Bach, que exercem sobre as células gordurosas uma ação fulminante.&#xA;&#xA;  Atenção! O Teatro dos Campos Elísios comunica que providenciou uma equipe de orientadores ambulantes, encarregados de conduzir sãos e salvos às suas casas os professores de harmonia após cada representação da Sagração da Primavera de Stravinsky.&#xA;&#xA;  Quanto mais a gente se torna músico, mais a gente enlouquece.&#xA;&#xA;  O piano é como o dinheiro ― só é agradável para aqueles que o tocam.&#xA;&#xA;  Se me repugna dizer bem alto aquilo que eu penso bem baixo, é unicamente porque minha voz não é bastante forte.&#xA;&#xA;  Eu jamais leio um jornal que tem a minha opinião.&#xA;&#xA;  O impressionismo é a arte da imprecisão. Hoje em dia se caminha para a precisão.&#xA;&#xA;  Não devemos nos esquecer daquilo que acontece no music-hall e no circo. É de lá que vêm a criatividade, as tendências, as curiosidades, mais excitantes do métier.  &#xA;&#xA;  Sim madame. Todos morrem normalmente (eu vou explodir).&#xA;&#xA;  Durante toda a Grande Guerra, Ravel foi observador das observações observadas por observação nos observatórios dos observadores onde se observava ao rés do chão. Ele prestou grandes serviços ao País.&#xA;&#xA;  A Ópera e o Louvre possuem frigorífico e ossaria.&#xA;&#xA;  Alguns artistas pretendem ser enterrados vivos.&#xA;&#xA;  Sinal dos tempos: o artista vem de um profissional. O amador vem do artista.&#xA;&#xA;  Mostre-me algo novo e eu começarei tudo outra vez.&#xA;&#xA;  Nossas composições são garantidas contra quintas e oitavas paralelas. Os compositores da casa só empregam harmonias tradicionais e devidamente aprovadas por longo uso. Ao gosto de hoje. Toda a nossa música moderna foi cuidadosamente retocada por nossos funcionários especializados. Nosso princípio comercial: fazer o novo com o velho.&#xA;&#xA;  Eu cago música.&#xA;&#xA;cultura&#xA;&#xA;--------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://limelight-arts.com.au/wp-content/uploads/2025/06/Satie.jpg" alt="Pintura em estilo impressionista de um homem loiro e calvo, com óculos estilo “pince-nez”, de barba e com fraque. Ao fundo é posível ver um teclado de um piano e partituras. O homem está com uma postura sagaz, de sobrancelhas arqueadas, com a mão esquerda gentilmente encostada no rosto."></p>

<h5 id="detalhe-de-retrato-de-um-jovem-erik-satie-feito-por-antoine-de-la-rochefoucauld-1894">Detalhe de retrato de um jovem Erik Satie feito por Antoine de la Rochefoucauld, 1894.</h5>

<p>Tenho uma estranha atração por sujeitos estranhos. Talvez porque eu seja um, sim. Mas também porque, levando uma vida tão anódina, me encanta ver alguém “desafinando o coro dos contentes”, como dizia o poeta piauiense Torquato Neto ― outro esquisitão.</p>

<p>Quando conheço figuras assim, dissidentes de sua própria época, passo a pesquisar sobre tudo o que as circunda. Uma delas é o compositor francês Erik Satie, que viveu sua vida como um <em>performer</em>, como vocês verão logo abaixo.</p>

<p>Satie é o dono da composição “Gymnopédie nº 1”, incluída em playlists <a href="https://youtu.be/b9WKC5sT9Z4" rel="nofollow">“Once upon a time in Paris”</a>, que inclusive, por conta de sua natureza introspectiva, costuma aparecer com sample de edições de <a href="https://youtu.be/GMRiK7Kadhc" rel="nofollow">lo-fi hip-hop</a>.</p>

<p>Vivendo no período entre o fim do século XIX e começo do XX, tempo em que o pensamento positivista ainda era predominante, ele passou a manter um estilo de vida extremamente excêntrico e contraditório, para não dizer antinormativo, colecionando proposições artísticas e causos populares.</p>

<p>Outro dia estava folheando o livro “Música impopular” do compositor e crítico musical paulista Júlio Medaglia, onde o escritor fala sobre os principais nomes da música experimental do século passado, quando trombei com o texto sobre Satie que quero compartilhar aqui. Para expandi-lo e não o reduzir a um copicola, linkarei as composições que Medaglia mencionar.</p>

<p>Para quem se interessar pelo artista, sugiro a escuta do episódio <a href="https://sersonoro.net/2021/04/09/8-interferencias-2/" rel="nofollow">“Interferências” do podcast Ser Sonoro</a> que fala sobre outras anedotas “satí(e)ricas”e sobre a linguagem musical do compositor francês.</p>

<p>Boa leitura!</p>

<h2 id="erik-satie-só-o-humor-constrói-de-júlio-medaglia">“Erik Satie: só o humor constrói”, de Júlio Medaglia</h2>

<p>Bach codificou a gramática da composição musical do Ocidente. Mozart e Haydn estabeleceram formas amplas de expressão ― a sinfonia, a sonata etc. Beethoven, apoiado nessa gramática e nessas formas, subverteu as estruturas composicionais, criando contradições no discurso musical do início do século XIX, liberando a criação para procedimentos mais livres. Os principais compositores românticos aproveitaram-se disso e conduziram a criação musical ao subjetivismo, praticamente inventando uma forma nova para cada obra. Schönberg levou essa subjetividade e essa individualização da expressão ao extremo, à neurose, digamos, desembocando no que se convencionou chamar de expressionismo. Stravinsky e Varese “barbarizaram” a doce arte dos sons, espantando os mais bem-informados ouvidos e conceitos da época. Poderíamos seguir nesse raciocínio simplório, apoiando mais alguns nomes de personalidades de nossa evolução artística, que com talento e coragem mudaram o curso da história da música. Existe um elemento, porém, que, com igual talento e coragem, abalou as estruturas da música deste século, azucrinando corações e mentes de músicos, críticos e teóricos, mas, cuja arma empregada em sua investida contra ideias desgastadas era até então desconhecida: o humor ― mais precisamente o deboche. Depois de ter atuado como um verdadeiro “pai” do Impressionismo, conduzindo Debussy pelas mãos à criação de uma música “sem sabor de chucrute”, Erik Satie impacientou-se com os rumos que tomava a criação daquele período, despejando seu humor devastador contra tudo e contra todos. Acusado de amador por aqueles que só acreditavam na revolução feito sobre trilhos estáveis, Satie tira um diploma de compositor “com distinção” na Schola Cantorum de Paris aos quarenta anos de idade para que ninguém tivesse dúvidas quanto à sua capacidade técnica. Num período em que os autores se deliciavam, compondo obras com horas de duração, ele compunha peças com 18, 30 segundos. Acusado de incapaz para compor obras maiores, faz <a href="https://youtu.be/U5R8xe2cCbA" rel="nofollow">“Vexations”</a>, com dois dias de duração.</p>

<p>Quando o impressionismo francês se encanta com os exotismos da forte musicalidade espanhola, ele compõe uma obra chamada de “Espanhanha”. Aí, todos os maneirismos dessa música são devidamente anarquizados. No momento em que Debussy se queixa de que as obras de Satie carecem de uma definição formal, ele lhe envia “três peças em forma de pera”. Aliás, no período em que o impressionismo, ainda em evolução, caracterizava suas composições como “Clair de lune”, “Nuages”, “De l&#39;aube a midi sur la mer” ele contra-atacava com as suas, assim chamadas: “Embriões ressecados”, “Esboços e provocações de um cafetão de pau”, “Fantasiado de cavalo”, “Três valsas para um esnobe execrável”, “Prelúdios verdadeiramente flácidos” etc. Satie criou os primeiros <em>happenings</em> na música europeia, fazendo entrar um Citroën no palco em plena execução de uma de suas músicas, ou colocando sons e instrumentos “não musicais”, como máquinas de escrever, apito de navio, ruído de roda de loteria, barulho de água, sirenes , buzinas ou tiros de revólver, em seu balé <a href="https://youtu.be/9eJKY5LRFAE" rel="nofollow">“Parade”</a>. Para essa obra, aliás, encomendou um cenário a Picasso, obrigando o pintor a executá-lo em público. A cada pincelada do genial espanhol, todos aplaudiam. Para um de seus balés, Satie solicitou que a segunda parte não fosse dançada no palco, mas sim filmada. Encomendou, então, o trabalho de René Clair, que assim filmou o seu famoso <a href="https://youtu.be/RgwP_F6C0eE" rel="nofollow">“Entr&#39;acte”</a>. A orquestra acompanha, a cada segundo, a movimentação das cenas, sendo assim a primeira trilha sonora original para cinema (o velho maluco que aparece no início do filme pulando na frente de um canhão é o próprio Satie) [Nota: no link anterior, ele aparece aos 2m15s].</p>

<p><img src="https://laregledujeu.org/files/2025/03/EriK-Satie-scaled.jpeg" alt="Imagem de um homem idoso olhando para a câmera; ele está com o dedo indicador na bochecha, como quem a coça; ele está com óculos de aro fino."></p>

<h5 id="do-tempo-da-gravação-de-entr-acte-1920-retrato-por-henri-manuel-colorido-artificialmente">Do tempo da gravação de “Entr&#39;acte”, 1920. Retrato por Henri Manuel. Colorido artificialmente.</h5>

<p>Vivendo na mais absoluta pobreza no bairro de Arcueil, 16 quilômetros distante de Paris, num quarto sempre de portas e janelas fechadas e onde ninguém entrou até sua morte e onde havia apenas uma cama, uma escrivaninha e dois pianos (um em cima do outro) Satie conseguiu incomodar, mas não provar aos seus contemporâneos que o questionamento bem-humorado da cultura da época que ele propunha fazia sentido.</p>

<p>Como este texto não é sonoro, aqui ficam algumas de suas “tacadas” para que o leitor tenha uma ideia de seu h senso de amor à música.</p>

<blockquote><p>A jornada de um músico.</p>

<p>O artista deve organizar sua vida. Vejam a programação de minhas atividades diárias: às 7h18m eu acordo; das 10h23m às 11h47m eu me inspiro; às 12h11m eu tomo o desjejum e deixo a mesa às 12h14m. Faço um salutar passeio a cavalo às 13h19m até as 16h7m. Ocupações diversas (esgrima, reflexões, imobilidade, visitas, contemplação, excitação, natação etc.) das 16h20m às 18h47m. O jantar é servido às 19h16m e termina às 19h20m. Leitura de partituras em voz alta, das 20h9m às 21h59m. Deito-me regularmente às 22h37m. Semanalmente (na terça-feira) eu acordo sobressaltado às 3h19m.</p>

<p>Eu só me alimento com comida branca; ovos, açúcar, ossos ralados, gordura  animal, vitela, sal, coco, frango curtido em molho branco, suco de frutas, de arroz, de nabo, patês, queijos (brancos), salada de algodão e peixes (sem escama).</p>

<p>Eu fervo o meu vinho, espero esfriar e o bebo com uma pitada de fúcsia. Tenho bom apetite e nunca falo enquanto como (de medo de me engasgar). Respiro com cuidado (pouco de cada vez). Danço raramente. Eu ando sempre de lado para ver bem quem me segue.  Eu rio das coisas sérias, mas não deixo transparecer. Eu durmo apenas com um olho fechado. Minha cama é redonda e tem um buraco onde eu coloco a cabeça. De hora em hora um empregado toma minha temperatura e me devolve uma outra. Meu médico me recomendou para fumar diariamente e diz: “Se você não fumar, alguém fumará em seu lugar”.</p>

<p>Cocteau me ama (até demais), eu sei... Mas por que será que ele me dá tantos pontapés por debaixo da mesa?</p>

<p>Ravel recusou a “Legião de honra”, mas toda a sua música a aceita.</p>

<p>O negócio não é recusar a “Legião de honra” e sim fazer tudo para não a merecer.</p>

<p>Não se trata de ser antiwagneriano e sim fazer uma música sem sabor de chucrute.</p>

<p>Eu já disse que os animais são mais educados. Exemplo: um gato dorme numa poltrona. O homem vem e tira o gato. Eu jamais vi o contrário.</p>

<p>Os pintores e escultores vivem reproduzindo figuras de animais em suas obras. Os animais, eles mesmos, parecem ignorar por completo as artes plásticas. Eu desconheço qualquer pintura ou escultura feita por animais. Eles gostam, mesmo, é de música e arquitetura. Eles constroem ninhos e casas que são verdadeiras maravilhas artísticas e industriais para viver com suas famílias. E não resta dúvida de que eles praticam música até mais do que nós. Eles têm um código musical diferente do nosso, é bem verdade. Trata-se de uma outra escola. É preciso entender o que significa relinchar, miar, cacarejar, piar, mugir, latir, uivar, rugir, arrulhar, ronronar, grulhar, ganir para se ter uma ideia de sua arte sonora. Ela é tão bem ensinada de pai para filho que, em pouco tempo, o aluno se iguala ao mestre.</p>

<p>A Sociedade Protetora dos Animais protesta energicamente contra o recente engajamento de duas vacas pela Ópera de Paris para fazer um dueto em “Sortilégio”. Esses infelizes ruminantes, embriagados com o sucesso e em contato direto com a cabotinagem desses histrionistas, perdem pouco a pouco a sua dignidade e honradez profissional.</p>

<p>Jaques Dalcroze vem fazendo muito sucesso associando o esporte ao solfejo. Eu recomendo 3 sonatas de Beethoven, diariamente, que provocam um emagrecimento progressivo e muito sensível e 6 fugas de Bach, que exercem sobre as células gordurosas uma ação fulminante.</p>

<p>Atenção! O Teatro dos Campos Elísios comunica que providenciou uma equipe de orientadores ambulantes, encarregados de conduzir sãos e salvos às suas casas os professores de harmonia após cada representação da Sagração da Primavera de Stravinsky.</p>

<p>Quanto mais a gente se torna músico, mais a gente enlouquece.</p>

<p>O piano é como o dinheiro ― só é agradável para aqueles que o tocam.</p>

<p>Se me repugna dizer bem alto aquilo que eu penso bem baixo, é unicamente porque minha voz não é bastante forte.</p>

<p>Eu jamais leio um jornal que tem a minha opinião.</p>

<p>O impressionismo é a arte da imprecisão. Hoje em dia se caminha para a precisão.</p>

<p>Não devemos nos esquecer daquilo que acontece no <em>music-hall</em> e no circo. É de lá que vêm a criatividade, as tendências, as curiosidades, mais excitantes do <em>métier</em>.</p>

<p>Sim madame. Todos morrem normalmente (eu vou explodir).</p>

<p>Durante toda a Grande Guerra, Ravel foi observador das observações observadas por observação nos observatórios dos observadores onde se observava ao rés do chão. Ele prestou grandes serviços ao País.</p>

<p>A Ópera e o Louvre possuem frigorífico e ossaria.</p>

<p>Alguns artistas pretendem ser enterrados vivos.</p>

<p>Sinal dos tempos: o artista vem de um profissional. O amador vem do artista.</p>

<p>Mostre-me algo novo e eu começarei tudo outra vez.</p>

<p>Nossas composições são garantidas contra quintas e oitavas paralelas. Os compositores da casa só empregam harmonias tradicionais e devidamente aprovadas por longo uso. Ao gosto de hoje. Toda a nossa música moderna foi cuidadosamente retocada por nossos funcionários especializados. Nosso princípio comercial: fazer o novo com o velho.</p>

<p>Eu cago música.</p></blockquote>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:cultura" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cultura</span></a></p>

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      <pubDate>Tue, 16 Jun 2026 23:54:18 +0000</pubDate>
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      <title>“Oficialmente diplomado”</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/oficialmente-diplomado</link>
      <description>&lt;![CDATA[Multidão de pessoas com beca em uma cerimônia de formatura dentro de um ginásio iluminado com holofotes. ao fundo é possível ver capelos voando e alguns confetes.&#xA;&#xA;Imagem: Rafaelle “Hélia” Bernardo. O autor tendo o seu momento?&#xA;&#xA;O fim da carreira na graduação nas peças de entretenimento é sempre anunciado com a fatídica cena dos capelos voando no ar ao som de “Marchas de Pompa e Circunstância”, de Edward Elgar. No nosso imaginário, depois que os capelos e livros e papéis e lágrimas caem, esse é o nosso grand finale, nosso “¡Adios, amigos!”. It&#39;s all, folks! C&#39;est fini! Os créditos do filme de nossa vida faltam pouco subir na retina da mente. Quem dera se, ao menos uma vez, a vida fosse um filme da Sessão da Tarde...&#xA;&#xA;Mas em outra tarde qualquer, com uma pastinha na mão, eu cruzava o campus da Universidade Estadual do Ceará outra vez. Eu estava um pouco descrente de que eu conseguiria meu diploma universitário, prometido há alguns meses logo após a formatura. Afinal, no Brasil, tudo que se relaciona à papelada requer duas ou três visitas. Além disso, estava preparado para dar de cara com a porta, pois já davam 16h no meu relógio quando passei pelo portão principal.&#xA;&#xA;Chegando lá, a partir de um beco estreito pixado com poças d&#39;água de ar-condicionado, surpresa: o departamento estava aberto! A porta de vidro cintilava ao sol da tarde finda. Abro-a gentilmente...&#xA;&#xA;Um balcão envidraçado com capacidade para três funcionários era ocupado somente por um. Usava óculos e tinha barba e cabelo ralos.&#xA;&#xA;― Boa tarde. Vim retirar o meu diploma universitário.&#xA;&#xA;― Boa. Qual o curso e a data de formatura, por favor?&#xA;&#xA;― Letras, final de janeiro deste ano.&#xA;&#xA;― Documento com foto?&#xA;&#xA;― Aqui.&#xA;&#xA;Depois de catar o documento em uma caixa, aquele homem até então tão humilde tomou um tom professoral, como se falasse com um pupilo:&#xA;&#xA;― Primeiramente parabéns pela conquista. Este é um momento de muita importância para a Universidade.&#xA;&#xA;Então, entre cerimonioso e sarcástico:&#xA;&#xA;―...e como retribuição, você ganha um brinde.&#xA;&#xA;Debaixo da bancada, retirou um envelope um pouco maior do que uma folha A4, cujo amarelo, debaixo da luz fluorescente, mais do que qualquer outra coisa naquela sala sem enfeites ou avisos, brilhava.&#xA;&#xA;A seguir, sacou daquela mesma região um papel fosco com o meu nome impresso.&#xA;&#xA;― É o original?&#xA;&#xA;― Cópia. Assine aqui.&#xA;&#xA;Assinei. Delicada e cerimoniosamente, retirou debaixo um largo papel igualzinho ao anterior, mas no qual o escudo da Universidade brilhava. Apresentou-me então uma caneta que tinha uma pena bastante distinta, cuja extremidade segurava com as pontas do indicador e do polegar. &#xA;&#xA;― Esta caneta tem uma tinta de rápida absorção. Agora assine cuidadosamente aqui...&#xA;&#xA;Não sei se por toda a liturgia, acabei garatujando o meu próprio nome no documento. Por fim, falou-me a quais documentos eu teria direito de ter segunda via, deu algumas orientações sobre a conservação do papel do diploma e contou causos sobre gente que perdeu o documento.&#xA;&#xA;Com um sorriso tímido no rosto, quase orgulhoso, como se fosse o próprio reitor, declarou enfim:&#xA;&#xA;― Pronto, meu rapaz, agora você está oficialmente diplomado. Boa sorte na vida.&#xA;&#xA;Sua voz ecoou na sala fria e sóbria. De repente um rumor de ar-condicionado, até então imperceptível, fez-se mais forte. Aquele era o fim definitivo.&#xA;&#xA;Na memória ainda os flashes, os confetes e os capelos pairando no ar. &#xA;&#xA;Mentiram para mim.&#xA;&#xA;cotidiano&#xA;&#xA;--------------------------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://i.imgur.com/OHZcbfU.jpeg" alt="Multidão de pessoas com beca em uma cerimônia de formatura dentro de um ginásio iluminado com holofotes. ao fundo é possível ver capelos voando e alguns confetes." title="Multidão de pessoas com beca em uma cerimônia de formatura dentro de um ginásio iluminado com holofotes. ao fundo é possível ver capelos voando e alguns confetes."></p>

<h5 id="imagem-rafaelle-hélia-bernardo-o-autor-tendo-o-seu-momento">Imagem: Rafaelle “Hélia” Bernardo. O autor tendo o seu momento?</h5>

<p>O fim da carreira na graduação nas peças de entretenimento é sempre anunciado com a fatídica cena dos capelos voando no ar ao som de “Marchas de Pompa e Circunstância”, de Edward Elgar. No nosso imaginário, depois que os capelos e livros e papéis e lágrimas caem, esse é o nosso <em>grand finale</em>, nosso “<em>¡Adios, amigos!</em>”. <em>It&#39;s all, folks! C&#39;est fini!</em> Os créditos do filme de nossa vida faltam pouco subir na retina da mente. Quem dera se, ao menos uma vez, a vida fosse um filme da Sessão da Tarde...</p>

<p>Mas em outra tarde qualquer, com uma pastinha na mão, eu cruzava o campus da Universidade Estadual do Ceará outra vez. Eu estava um pouco descrente de que eu conseguiria meu diploma universitário, prometido há alguns meses logo após a formatura. Afinal, no Brasil, tudo que se relaciona à papelada requer duas ou três visitas. Além disso, estava preparado para dar de cara com a porta, pois já davam 16h no meu relógio quando passei pelo portão principal.</p>

<p>Chegando lá, a partir de um beco estreito pixado com poças d&#39;água de ar-condicionado, surpresa: o departamento estava aberto! A porta de vidro cintilava ao sol da tarde finda. Abro-a gentilmente...</p>

<p>Um balcão envidraçado com capacidade para três funcionários era ocupado somente por um. Usava óculos e tinha barba e cabelo ralos.</p>

<p>― Boa tarde. Vim retirar o meu diploma universitário.</p>

<p>― Boa. Qual o curso e a data de formatura, por favor?</p>

<p>― Letras, final de janeiro deste ano.</p>

<p>― Documento com foto?</p>

<p>― Aqui.</p>

<p>Depois de catar o documento em uma caixa, aquele homem até então tão humilde tomou um tom professoral, como se falasse com um pupilo:</p>

<p>― Primeiramente parabéns pela conquista. Este é um momento de muita importância para a Universidade.</p>

<p>Então, entre cerimonioso e sarcástico:</p>

<p>―...e como retribuição, você ganha um brinde.</p>

<p>Debaixo da bancada, retirou um envelope um pouco maior do que uma folha A4, cujo amarelo, debaixo da luz fluorescente, mais do que qualquer outra coisa naquela sala sem enfeites ou avisos, brilhava.</p>

<p>A seguir, sacou daquela mesma região um papel fosco com o meu nome impresso.</p>

<p>― É o original?</p>

<p>― Cópia. Assine aqui.</p>

<p>Assinei. Delicada e cerimoniosamente, retirou debaixo um largo papel igualzinho ao anterior, mas no qual o escudo da Universidade brilhava. Apresentou-me então uma caneta que tinha uma pena bastante distinta, cuja extremidade segurava com as pontas do indicador e do polegar.</p>

<p>― Esta caneta tem uma tinta de rápida absorção. Agora assine cuidadosamente aqui...</p>

<p>Não sei se por toda a liturgia, acabei garatujando o meu próprio nome no documento. Por fim, falou-me a quais documentos eu teria direito de ter segunda via, deu algumas orientações sobre a conservação do papel do diploma e contou causos sobre gente que perdeu o documento.</p>

<p>Com um sorriso tímido no rosto, quase orgulhoso, como se fosse o próprio reitor, declarou enfim:</p>

<p>― Pronto, meu rapaz, agora você está oficialmente diplomado. Boa sorte na vida.</p>

<p>Sua voz ecoou na sala fria e sóbria. De repente um rumor de ar-condicionado, até então imperceptível, fez-se mais forte. Aquele era o fim definitivo.</p>

<p>Na memória ainda os <em>flashes</em>, os confetes e os capelos pairando no ar.</p>

<p>Mentiram para mim.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:cotidiano" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cotidiano</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/oficialmente-diplomado</guid>
      <pubDate>Wed, 10 Jun 2026 20:36:53 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Offpunk: baixando a internet</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/offpunk-baixando-a-internet</link>
      <description>&lt;![CDATA[Reprodução de tela do navegador Offpunk. Uma tela com fundo escuro, e texto em branco. O título do texto está em vermelho e os “links” estão em azul. Abaixo, há uma imagem borrada que parece ser de um coelho.&#xA;&#xA;Em um mundo compulsoriamente conectado, passei a interagir mais com páginas web desconectado através de Offpunk, um navegador desenhado para um uso humano da internet. Imagem: offpunk.net&#xA;&#xA;Seguir feeds por RSS é complicado. “Complicado” não no sentido de ser difícil de usar. Falo da diversidade de conteúdo que o protocolo proporciona. Esse protocolo flexibiliza bastante o rol de publicações as quais pode se acompanhar, mas, exatamente por serem diversas, requerem dispositivos que se adequem a essa diversidade.&#xA;&#xA;Já há mais ou menos quatro anos que tento distribuir meus feeds através de pelo menos três aparelhos: um telefone, um leitor digital Kindle e um computador.&#xA;&#xA;Falei da minha experiência de [Kindle com RSS através deste artigo]&#xA;&#xA;• Leia mais com Kindle + RSS + calibre (Ideias de Chirico)&#xA;&#xA;Entretanto, com tanta variedade midiática, é difícil organizar os conteúdos adequados para cada dispositivo.&#xA;&#xA;Publicações curtos (microblogues, sobretudo) ficam no telefone; aquelas que tinham imagens como centro das publicações ficam no computador; outras que tinham textos mais longos, ficam no Kindle.&#xA;&#xA;Lateralmente a esse fator, ainda havia o critério de conexão. A grande sacada do RSS em uma era perpassada pelo algoritmo e pela coleta massiva de dados é que ele apresenta uma internet que prescinde de conexão ininterrupta, que pode ser acessada posteriormente, sem acesso à conexão.&#xA;&#xA;Alguns feeds, porém, exigiam essa conexão constante para que as imagens fossem carregadas. A grande maioria dos agregadores não as baixam em cache como ocorre com textos ou áudios (como é o caso de podcasts, que também são veiculados por RSS).&#xA;&#xA;Além desses problemas, ainda havia o da contabilização dos posts não lidos. Já escrevi nestas Ideias de Chirico sobre a minha ojeriza contra a metrificação e a numeralização da vida digital.&#xA;&#xA;• Abandonando redes sociais “numéricas” (Ideias de Chirico)&#xA;&#xA;Em todos os agregadores de feed que experimentei se quantifica quantos artigos ainda estão na fila de leitura; em consequência há um ímpeto de zerá-la a todo custo. &#xA;&#xA;Não obstante tudo isso, a minha leitura se restringia somente àquilo que foi baixado, sem poder abrir links anexados caso estivesse offline ou momentaneamente sem conexão.&#xA;&#xA;Foi aí que experimentei o navegador Offpunk.&#xA;&#xA;Navegando offline&#xA;&#xA;Offpunk... Esse nome lhe deve ser familiar, não é? Afinal, foi esse navegador que batizou o Manifesto que publiquei mês passado.&#xA;&#xA;Esse projeto foi desenvolvido por @ploum@mamot.fr, que também me ajudou a escrever o texto citado acima. Sua ideia era criar um meio de navegar entre os protocolos HTML, Gopher, Gemini e RSS (!), dentro de um terminal de computador (!), através de uma sincronização que poria todo o conteúdo carregado em cache temporário (!). (Tudo isso ainda somado com o bônus de os novos artigos não serem notificados ou numerados de alguma forma como acontece com a imensa maioria dos agregadores...)&#xA;&#xA;Eu já conhecia o projeto, o experimentando por algumas páginas e me encantou muito a sua filosofia offline first, que atualmente aplico a basicamente todos os meus dispositivos. A experiência havia permanecido somente no campo da curiosidade. Mas somente agora dei uma chance real para inclui-lo dentro da minha rotina.&#xA;&#xA;O foco principal do navegador Offpunk é o texto, mas veja só: ele permite o download de imagens! A minha jornada com RSS teve um final feliz. Com alguns desafios, porém.&#xA;&#xA;Processo de adaptação&#xA;&#xA;O primeiro desses desafios foi adequar-se à dinâmica do terminal. A minha experiência com esse recurso era até então um pouco superficial, ao qual eu recorria só para instalar algum programa de fora do repositório dedicado ao meu sistema operacional.&#xA;&#xA;No início a interação com texto puro é esquisita, mas aos poucos o aspecto simplificado do terminal atrai e se acaba por criar simpatia pelo texto verde sobre um fundo preto. Além de tudo, a atividade no meu computador é mais orientada ao teclado do que ao mouse.&#xA;&#xA;Dentro do navegador Offpunk, não há interação com qualquer recurso visual do tipo “botão” ou “campo de texto” por intermédio do mouse, a não ser para cópia de texto. Somado a isso, Ploum optou por acionar alguns comandos provindos do editor Vim para rolar pela página. Vim é tido como um dos editores de texto mais otimizados para teclado. Por eu já estar estudando Vim há um tempo, pude utilizar o que aprendi dentro do navegador. Mas deixo avisado que o conhecimento nesse software não é necessário para a navegação plena no Offpunk.&#xA;&#xA;O segundo dos desafios foi o volume de comandos. Só para se ter ideia, para interagir com links dentro de uma página, há três possibilidades: “v” apresenta sua url; “t” adiciona-o a uma fila de leitua; por fim, ao escrever o seu número correspondente a um link, abre-se a página linkada, se ela já estiver em cache.&#xA;&#xA;Porém, Ploum fez um ótimo trabalho de instrução com o seu tutorial; além disso, cada comando retorna uma descrição detalhada quando seguida de um “help”; todos os comandos documentados pela versão do usuário são listados quando se lança o comando “help” sozinho.&#xA;&#xA;Junta a esses auxílios, a leitura dos workflow na página oficial do projeto dentro do protocolo Gemini me ajudou muito a entender as formas com as quais posso me apropriar do navegador. Destaco em especial o workflow de Ploum, que é, ao meu ver, o mais informativo de todos.&#xA;&#xA;• How I use Offpunk ― by Ploum (offpunk.net)&#xA;&#xA;Salvei a página acima dentro de uma lista de “bookmarks” para, sempre que tiver algum tempo livre ou alguma dúvida, fazer uma leitura da página e experimentar algum comando novo.&#xA;&#xA;Eu diria que a curva de aprendizado com esse navegador não ultrapassa uma semana se se praticar todos os dias com as instruções disponibilizadas no sítio oficial.&#xA;&#xA;A fim de apresentar a forma com a qual navego com o programa, os recursos de que dispõe e como ele se comporta, apresentarei agora o meu próprio workflow, baseado no modelo citado.&#xA;&#xA;Meu fluxo com Offpunk&#xA;&#xA;Logo que acordo, ligo o computador. Minha rede sem fio é desativada por padrão, através de uma chave no teclado. Quando a ativo, abro o terminal, aciono o Offpunk e digito:&#xA;&#xA;O número se refere ao tempo em minutos e atualiza todas as listas. 50 mil minutos é mais ou menos o tempo desde a última vez em que li todos os feeds. A minha lista de leitura é atualizada ao menos uma vez ao dia.&#xA;&#xA;Como o Offpunk baixa não só texto, mas também imagens, ele custa um pouco a terminar o processo, mas não mais do que o tempo de fazer um café da manhã.&#xA;&#xA;Uma vez que o carregamento acaba e o meu café está pronto, digito:&#xA;&#xA;para garantir que nenhum outro dado seja carregado. Isso é importante para poupar e aproveitar os dados já em cache. A fim também de poupar bateria do meu computador, desativo a rede sem fio através daquele mesmo atalho no teclado.&#xA;&#xA;Para seguir com artigos que foram carregados da minha lista RSS ou que salvei na fila de leitura (chamado de “tour”), escrevo&#xA;&#xA;Caso o artigo seja legal, mas eu não tenho tempo o suficiente naquele momento, o direciono para a minha lista de “ler depois”:&#xA;&#xA;Decidi nomear esta lista como “ler” porque é mais prático de ser digitado do que qualquer outro nome. &#xA;&#xA;Ao fim do “tour”, vejo os artigos que estão na lista “ler” com&#xA;&#xA;Após a leitura, arquivo o artigo:&#xA;&#xA;Isso garante que, caso eu precise retomar o texto lido, não precise revisitar o histórico, que pode ser acessado por&#xA;&#xA;Essa última lista tem um limite de 200 sítios da web.&#xA;&#xA;Alguns artigos vêm com imagens em formato de miniatura pixelada, como mostrada na reprodução no começo desta publicação. Caso eu queira abri-la em alta definição, digito&#xA;&#xA;onde “X” é seu número correspondente. Ela abrirá no leitor de imagens padrão do sistema, que no meu caso é o Ristretto. Se ela me interessar, faço uma cópia com Ctrl + S.&#xA;&#xA;Caso eu queira ver para onde vai um link posto em um texto, posso ver a sua url com&#xA;&#xA;em que “X” é o número do link. Se ele parecer legal, ponho-o na lista de sincronização com&#xA;&#xA;e aí na próxima vez que o Offpunk for atualizado, o artigo poderá ser visitado através de um “tour”. Quer dizer, não só o artigo, mas os links que estão conectados àquela página.&#xA;&#xA;Se o sítio for interessante, talvez eu queira compartilhá-lo com um amigo por e-mail:&#xA;&#xA;(para abrir o meu cliente de e-mail com o link no corpo de texto) ou&#xA;&#xA;(para direcionar o endereço direto para algum contato específico).&#xA;&#xA;Posso também seguir o sítio por RSS, caso o navegador forneça um feed:&#xA;&#xA;A lista “rss” é atualizada com “sync” e seus novos artigos são postos em “tour”. Mas tenho uma outra lista que é atualizada, mas seus artigos só podem ser lidos caso eu os visite:&#xA;&#xA;Essa é útil para fontes que são muito noticiosas ou que às vezes vêm com a visualização quebrada (sobretudo perfis do Mastodon).&#xA;&#xA;Caso eu já tenha visto tudo, checo ainda se não há mais nada a ser lido com &#xA;&#xA;e saio da aplicação com Ctrl + D.&#xA;&#xA;E a navegação conectada?&#xA;&#xA;Quanto à pesquisa, Offpunk é focado em artigos publicados no protocolo Gemini, através do motor de busca Kennedy.&#xA;&#xA;Há uma forma de modificar o motor de busca padrão, mas até agora não encontrei nenhum que rodasse dentro do Offpunk. Tampouco faço buscas constantes no protocolo Gemini. Talvez eu devesse lhe dar mais chance.&#xA;&#xA;Caso eu precise buscar alguma informação conectado, abro meu navegador padrão (Librewolf), vejo se há alguma página que me seja útil e daí, se eu não tiver disponibilidade para uma leitura aprofundada, abro o navegador Offpunk, colo o endereço da página e em seguida escrevo&#xA;&#xA;Assim, tem-se não só um navegador, mas um agregador de feeds e uma pasta de leituras pendentes potencializados com imagens e links anexados salvos em cache, e munidos de uma navegação privada, já que as páginas não são carregadas em uma interface visual com Javascript ativo.&#xA;&#xA;Definitivamente, Offpunk é um navegador desenhado para um uso humano da internet, no qual o usuário, não um terceiro (algoritmo, notificação ou plataforma), é quem decide o seu caminho a ser trilhado e a frequência de seu acesso.&#xA;&#xA;Cruzadinha com as palavras &#39;Gopher&#39;, &#39;Gemini&#39;, &#39;RSS&#39;, &#39;Offline first&#39;, &#39;Smol web&#39; e &#39;Terminal&#39; que formam a palavra &#39;Resist&#39;&#xA;&#xA;Imagem: offpunk.net&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://offpunk.net/screenshots/1.png" alt="Reprodução de tela do navegador Offpunk. Uma tela com fundo escuro, e texto em branco. O título do texto está em vermelho e os “links” estão em azul. Abaixo, há uma imagem borrada que parece ser de um coelho." title="Reprodução de tela do navegador Offpunk. Uma tela com fundo escuro, e texto em branco. O título do texto está em vermelho e os links estão em azul. Abaixo, há uma imagem borrada que parece ser de um coelho."></p>

<h5 id="em-um-mundo-compulsoriamente-conectado-passei-a-interagir-mais-com-páginas-web-desconectado-através-de-offpunk-um-navegador-desenhado-para-um-uso-humano-da-internet-imagem-offpunk-net">Em um mundo compulsoriamente conectado, passei a interagir mais com páginas <em>web</em> desconectado através de Offpunk, um navegador desenhado para um uso humano da <em>internet</em>. Imagem: offpunk.net</h5>

<p>Seguir <em>feeds</em> por <a href="https://manualdousuario.net/como-usar-feeds-rss/" rel="nofollow">RSS</a> é complicado. “Complicado” não no sentido de ser difícil de usar. Falo da diversidade de conteúdo que o protocolo proporciona. Esse protocolo flexibiliza bastante o rol de publicações as quais pode se acompanhar, mas, exatamente por serem diversas, requerem dispositivos que se adequem a essa diversidade.</p>

<p>Já há mais ou menos quatro anos que tento distribuir meus <em>feeds</em> através de pelo menos três aparelhos: um telefone, um leitor digital Kindle e um computador.</p>

<p>Falei da minha experiência de [Kindle com RSS através deste artigo]</p>

<p>• <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/leia-mais-com-kindle-rss-calibre" rel="nofollow">Leia mais com Kindle + RSS + calibre</a> (Ideias de Chirico)</p>

<p>Entretanto, com tanta variedade midiática, é difícil organizar os conteúdos adequados para cada dispositivo.</p>

<p>Publicações curtos (microblogues, sobretudo) ficam no telefone; aquelas que tinham imagens como centro das publicações ficam no computador; outras que tinham textos mais longos, ficam no Kindle.</p>

<p>Lateralmente a esse fator, ainda havia o critério de conexão. A grande sacada do RSS em uma era perpassada pelo algoritmo e pela coleta massiva de dados é que ele apresenta uma <em>internet</em> que prescinde de conexão ininterrupta, que pode ser acessada posteriormente, sem acesso à conexão.</p>

<p>Alguns <em>feeds</em>, porém, exigiam essa conexão constante para que as imagens fossem carregadas. A grande maioria dos agregadores não as baixam em <em>cache</em> como ocorre com textos ou áudios (como é o caso de <em>podcasts</em>, que também são veiculados por RSS).</p>

<p>Além desses problemas, ainda havia o da contabilização dos <em>posts</em> não lidos. Já escrevi nestas Ideias de Chirico sobre a minha ojeriza contra a metrificação e a numeralização da vida digital.</p>

<p>• <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/abandonando-redes-sociais-numericas" rel="nofollow">Abandonando redes sociais “numéricas”</a> (Ideias de Chirico)</p>

<p>Em todos os agregadores de <em>feed</em> que experimentei se quantifica quantos artigos ainda estão na fila de leitura; em consequência há um ímpeto de zerá-la a todo custo.</p>

<p>Não obstante tudo isso, a minha leitura se restringia somente àquilo que foi baixado, sem poder abrir <em>links</em> anexados caso estivesse <em>offline</em> ou momentaneamente sem conexão.</p>

<p>Foi aí que experimentei o navegador Offpunk.</p>

<h2 id="navegando-offline">Navegando <em>offline</em></h2>

<p>Offpunk... Esse nome lhe deve ser familiar, não é? Afinal, foi esse navegador que batizou o <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/manifesto-offpunk" rel="nofollow">Manifesto</a> que publiquei mês passado.</p>

<p>Esse projeto foi desenvolvido por <a href="https://blog.ayom.media/@/ploum@mamot.fr" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>ploum@mamot.fr</span></a>, que também me ajudou a escrever o texto citado acima. Sua ideia era criar um meio de navegar entre os protocolos HTML, Gopher, Gemini e RSS (!), dentro de um terminal de computador (!), através de uma sincronização que poria todo o conteúdo carregado em <em>cache</em> temporário (!). (Tudo isso ainda somado com o bônus de os novos artigos não serem notificados ou numerados de alguma forma como acontece com a imensa maioria dos agregadores...)</p>

<p>Eu já conhecia o projeto, o experimentando por algumas páginas e me encantou muito a sua filosofia <em>offline first</em>, que atualmente aplico a basicamente todos os meus dispositivos. A experiência havia permanecido somente no campo da curiosidade. Mas somente agora dei uma chance real para inclui-lo dentro da minha rotina.</p>

<p>O foco principal do navegador Offpunk é o texto, mas veja só: ele permite o <em>download</em> de imagens! A minha jornada com RSS teve um final feliz. Com alguns desafios, porém.</p>

<h2 id="processo-de-adaptação">Processo de adaptação</h2>

<p>O primeiro desses desafios foi adequar-se à dinâmica do terminal. A minha experiência com esse recurso era até então um pouco superficial, ao qual eu recorria só para instalar algum programa de fora do repositório dedicado ao meu sistema operacional.</p>

<p>No início a interação com texto puro é esquisita, mas aos poucos o aspecto simplificado do terminal atrai e se acaba por criar simpatia pelo texto verde sobre um fundo preto. Além de tudo, a atividade no meu computador é mais orientada ao teclado do que ao <em>mouse</em>.</p>

<p>Dentro do navegador Offpunk, não há interação com qualquer recurso visual do tipo “botão” ou “campo de texto” por intermédio do <em>mouse</em>, a não ser para cópia de texto. Somado a isso, Ploum optou por acionar alguns comandos provindos do editor Vim para rolar pela página. Vim é tido como um dos editores de texto mais otimizados para teclado. Por eu já estar estudando Vim há um tempo, pude utilizar o que aprendi dentro do navegador. Mas deixo avisado que o conhecimento nesse <em>software</em> não é necessário para a navegação plena no Offpunk.</p>

<p>O segundo dos desafios foi o volume de comandos. Só para se ter ideia, para interagir com <em>links</em> dentro de uma página, há três possibilidades: “v” apresenta sua url; “t” adiciona-o a uma fila de leitua; por fim, ao escrever o seu número correspondente a um link, abre-se a página linkada, se ela já estiver em <em>cache</em>.</p>

<p>Porém, Ploum fez um ótimo trabalho de instrução com o seu tutorial; além disso, cada comando retorna uma descrição detalhada quando seguida de um “help”; todos os comandos documentados pela versão do usuário são listados quando se lança o comando “help” sozinho.</p>

<p>Junta a esses auxílios, a leitura dos <em>workflow</em> na página oficial do projeto dentro do protocolo Gemini me ajudou muito a entender as formas com as quais posso me apropriar do navegador. Destaco em especial o <em>workflow</em> de Ploum, que é, ao meu ver, o mais informativo de todos.</p>

<p>• <a href="https://offpunk.net/workflow_ploum.html" rel="nofollow">How I use Offpunk ― by Ploum</a> (offpunk.net)</p>

<p>Salvei a página acima dentro de uma lista de “bookmarks” para, sempre que tiver algum tempo livre ou alguma dúvida, fazer uma leitura da página e experimentar algum comando novo.</p>

<p>Eu diria que a curva de aprendizado com esse navegador não ultrapassa uma semana se se praticar todos os dias com as instruções disponibilizadas no sítio oficial.</p>

<p>A fim de apresentar a forma com a qual navego com o programa, os recursos de que dispõe e como ele se comporta, apresentarei agora o meu próprio <em>workflow</em>, baseado no modelo citado.</p>

<h2 id="meu-fluxo-com-offpunk">Meu fluxo com Offpunk</h2>

<p>Logo que acordo, ligo o computador. Minha rede sem fio é desativada por padrão, através de uma chave no teclado. Quando a ativo, abro o terminal, aciono o Offpunk e digito:</p>

<p><code>sync 50000</code></p>

<p>O número se refere ao tempo em minutos e atualiza todas as listas. 50 mil minutos é mais ou menos o tempo desde a última vez em que li todos os <em>feeds</em>. A minha lista de leitura é atualizada ao menos uma vez ao dia.</p>

<p>Como o Offpunk baixa não só texto, mas também imagens, ele custa um pouco a terminar o processo, mas não mais do que o tempo de fazer um café da manhã.</p>

<p>Uma vez que o carregamento acaba e o meu café está pronto, digito:</p>

<p><code>off</code></p>

<p>para garantir que nenhum outro dado seja carregado. Isso é importante para poupar e aproveitar os dados já em <em>cache</em>. A fim também de poupar bateria do meu computador, desativo a rede sem fio através daquele mesmo atalho no teclado.</p>

<p>Para seguir com artigos que foram carregados da minha lista RSS ou que salvei na fila de leitura (chamado de “tour”), escrevo</p>

<p><code>t</code></p>

<p>Caso o artigo seja legal, mas eu não tenho tempo o suficiente naquele momento, o direciono para a minha lista de “ler depois”:</p>

<p><code>add ler</code></p>

<p>Decidi nomear esta lista como “ler” porque é mais prático de ser digitado do que qualquer outro nome.</p>

<p>Ao fim do “tour”, vejo os artigos que estão na lista “ler” com</p>

<p><code>list ler</code></p>

<p>Após a leitura, arquivo o artigo:</p>

<p><code>archive</code></p>

<p>Isso garante que, caso eu precise retomar o texto lido, não precise revisitar o histórico, que pode ser acessado por</p>

<p><code>history</code></p>

<p>Essa última lista tem um limite de 200 sítios da <em>web</em>.</p>

<p>Alguns artigos vêm com imagens em formato de miniatura pixelada, como mostrada na reprodução no começo desta publicação. Caso eu queira abri-la em alta definição, digito</p>

<p><code>open X</code></p>

<p>onde “X” é seu número correspondente. Ela abrirá no leitor de imagens padrão do sistema, que no meu caso é o Ristretto. Se ela me interessar, faço uma cópia com Ctrl + S.</p>

<p>Caso eu queira ver para onde vai um link posto em um texto, posso ver a sua url com</p>

<p><code>v X</code></p>

<p>em que “X” é o número do link. Se ele parecer legal, ponho-o na lista de sincronização com</p>

<p><code>t X</code></p>

<p>e aí na próxima vez que o Offpunk for atualizado, o artigo poderá ser visitado através de um “tour”. Quer dizer, não só o artigo, mas os links que estão conectados àquela página.</p>

<p>Se o sítio for interessante, talvez eu queira compartilhá-lo com um amigo por e-mail:</p>

<p><code>share</code></p>

<p>(para abrir o meu cliente de e-mail com o link no corpo de texto) ou</p>

<p><code>share email@dominio.com</code></p>

<p>(para direcionar o endereço direto para algum contato específico).</p>

<p>Posso também seguir o sítio por RSS, caso o navegador forneça um <em>feed</em>:</p>

<p><code>add rss</code></p>

<p>A lista “rss” é atualizada com “sync” e seus novos artigos são postos em “tour”. Mas tenho uma outra lista que é atualizada, mas seus artigos só podem ser lidos caso eu os visite:</p>

<p><code>list news</code></p>

<p>Essa é útil para fontes que são muito noticiosas ou que às vezes vêm com a visualização quebrada (sobretudo perfis do Mastodon).</p>

<p>Caso eu já tenha visto tudo, checo ainda se não há mais nada a ser lido com</p>

<p><code>list tour</code></p>

<p>e saio da aplicação com Ctrl + D.</p>

<h2 id="e-a-navegação-conectada">E a navegação conectada?</h2>

<p>Quanto à pesquisa, Offpunk é focado em artigos publicados no protocolo Gemini, através do motor de busca Kennedy.</p>

<p>Há uma forma de modificar o motor de busca padrão, mas até agora não encontrei nenhum que rodasse dentro do Offpunk. Tampouco faço buscas constantes no protocolo Gemini. Talvez eu devesse lhe dar mais chance.</p>

<p>Caso eu precise buscar alguma informação conectado, abro meu navegador padrão (Librewolf), vejo se há alguma página que me seja útil e daí, se eu não tiver disponibilidade para uma leitura aprofundada, abro o navegador Offpunk, colo o endereço da página e em seguida escrevo</p>

<p><code>tour</code></p>

<p>Assim, tem-se não só um navegador, mas um agregador de <em>feeds</em> e uma pasta de leituras pendentes potencializados com imagens e links anexados salvos em <em>cache</em>, e munidos de uma navegação privada, já que as páginas não são carregadas em uma interface visual com Javascript ativo.</p>

<p>Definitivamente, Offpunk é um navegador desenhado para um uso humano da <em>internet</em>, no qual o usuário, não um terceiro (algoritmo, notificação ou plataforma), é quem decide o seu caminho a ser trilhado e a frequência de seu acesso.</p>

<p><img src="https://offpunk.net/screenshots/resist.png" alt="Cruzadinha com as palavras &#39;Gopher&#39;, &#39;Gemini&#39;, &#39;RSS&#39;, &#39;Offline first&#39;, &#39;Smol web&#39; e &#39;Terminal&#39; que formam a palavra &#39;Resist&#39;" title="Cruzadinha com as palavras &#39;Gopher&#39;, &#39;Gemini&#39;, &#39;RSS&#39;, &#39;Offline first&#39;, &#39;Smol web&#39; e &#39;Terminal&#39; que formam a palavra &#39;Resist&#39;"></p>

<h5 id="imagem-offpunk-net">Imagem: offpunk.net</h5>

<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

<hr>
]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/offpunk-baixando-a-internet</guid>
      <pubDate>Fri, 05 Jun 2026 18:43:37 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Sobre uma iconografia da desconexão </title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/sobre-uma-iconografia-da-desconexao</link>
      <description>&lt;![CDATA[Escrevi o Manifesto Offpunk com @ploum@mamot.fr, mas tomei a liberdade de desenhar os signos que o anunciariam. Como não tenho certeza de que esses estão claros para todos, decidi dissertar um pouco sobre o porquê de minhas escolhas.&#xA;&#xA;Alguns desses comentários vêm de conversas que tive com @diegopds@bolha.us ― que, aliás, escreveu um pouco sobre o meu texto.&#xA;&#xA;O primeiro símbolo que pensei relacionado ao estar desconectado que pensei seria o ícone de rede sem fio com uma haste de proibição. Porém, lembrei já quase de imediato da moda oportunista, e rapidamente caída no ostracismo, da frase “Não temos wi-fi, conversem entre vocês” posta nos cafés e restaurantes dos primeiros anos da Web 2.0.&#xA;&#xA;Queria, então, trabalhar com uma ideia ambígua a partir desse ícone, que não o anulasse, mas que, ao mesmo tempo, o subvertesse. A melhor opção, então, seria invertê-lo.&#xA;&#xA;Por um lado a rede sem fio invertida lembra um pouco a pirâmide. Aí se estabeleceria um ideograma (isto é, dois ícones cruzados para dar ideia de um terceiro): a inversão por um lado indica que a conectividade sugere um exercício de poder (do usuário, que tem nesta um símbolo de prestígio, mas também das empresas de tecnologia, concentradoras do capital desse mercdo); por outro, “inverter” a rede é uma atitude iconoclasta, análoga a retirar-lhe a importância.&#xA;&#xA;É como os ateus que invertem a cruz cristã. Assim como a cruz cristã invertida, o símbolo “Offpunk” apontam para o chão, para o inferno.&#xA;&#xA;Há uma contradição no meio disso tudo: a internet sempre foi a promessa do transcendente; o sinal de wi-fi, porém, aponta para baixo, o que indicia o terreno e o imanente. O signo do Offpunk não resolve essa contradição, e até o perturba ainda mais: postura que almeja uma presença plena, apontando para cima, tende a dar, por sua vez, ideia de transcendência.&#xA;&#xA;Porém, tudo isso vem de um esforço também de não se definir pela negação. Como dito há pouco, em um primeiro momento, rascunhei uma logo de “Proibido wi-fi”. Isso soaria como um discurso bem conservador. O “anti-tudo” não cria, só descria.&#xA;&#xA;Mas o que me motivou mesmo a mantê-lo é que ele passa a ideia ploumiana de “offline-first”, como expresso em seu “Computador feito para durar 50 anos”. Ao ler o manifesto do Forever Computer, percebi que ir contra a conectividade compulsória e compulsiva não é defender o fim da internet, mas apropriar-se da conectividade e adequá-la ritmo da vida.&#xA;&#xA;Como eu disse no Manifesto, o Offpunk enquanto estética ainda não é estabelecido. O ícone de rede invertida é o primeiro passo nessa direção.&#xA;&#xA;#notas #tecnologia #cultura&#xA;&#xA;---------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Escrevi o <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/manifesto-offpunk" rel="nofollow">Manifesto Offpunk</a> com <a href="https://blog.ayom.media/@/ploum@mamot.fr" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>ploum@mamot.fr</span></a>, mas tomei a liberdade de desenhar os signos que o anunciariam. Como não tenho certeza de que esses estão claros para todos, decidi dissertar um pouco sobre o porquê de minhas escolhas.</p>

<p>Alguns desses comentários vêm de conversas que tive com <a href="https://blog.ayom.media/@/diegopds@bolha.us" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>diegopds@bolha.us</span></a> ― que, aliás, <a href="https://curadoria.bearblog.dev/manifesto-offpunk-e-o-direito-a-desconexao/" rel="nofollow">escreveu um pouco sobre o meu texto</a>.</p>

<p>O primeiro símbolo que pensei relacionado ao estar desconectado que pensei seria o ícone de rede sem fio com uma haste de proibição. Porém, lembrei já quase de imediato da moda oportunista, e rapidamente caída no ostracismo, da frase “Não temos <em>wi-fi</em>, conversem entre vocês” posta nos cafés e restaurantes dos primeiros anos da Web 2.0.</p>

<p>Queria, então, trabalhar com uma ideia ambígua a partir desse ícone, que não o anulasse, mas que, ao mesmo tempo, o subvertesse. A melhor opção, então, seria invertê-lo.</p>

<p>Por um lado a rede sem fio invertida lembra um pouco a pirâmide. Aí se estabeleceria um ideograma (isto é, dois ícones cruzados para dar ideia de um terceiro): a inversão por um lado indica que a conectividade sugere um exercício de poder (do usuário, que tem nesta um símbolo de prestígio, mas também das empresas de tecnologia, concentradoras do capital desse mercdo); por outro, “inverter” a rede é uma atitude iconoclasta, análoga a retirar-lhe a importância.</p>

<p>É como os ateus que invertem a cruz cristã. Assim como a cruz cristã invertida, o símbolo “Offpunk” apontam para o chão, para o inferno.</p>

<p>Há uma contradição no meio disso tudo: a internet sempre foi a promessa do transcendente; o sinal de <em>wi-fi</em>, porém, aponta para baixo, o que indicia o terreno e o imanente. O signo do Offpunk não resolve essa contradição, e até o perturba ainda mais: postura que almeja uma presença plena, apontando para cima, tende a dar, por sua vez, ideia de transcendência.</p>

<p>Porém, tudo isso vem de um esforço também de não se definir pela negação. Como dito há pouco, em um primeiro momento, rascunhei uma logo de “Proibido <em>wi-fi</em>”. Isso soaria como um discurso bem conservador. O “anti-tudo” não cria, só descria.</p>

<p>Mas o que me motivou mesmo a mantê-lo é que ele passa a ideia ploumiana de “offline-first”, como expresso em seu <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/o-computador-feito-para-durar-50-anos-por-ploum" rel="nofollow">“Computador feito para durar 50 anos”</a>. Ao ler o manifesto do Forever Computer, percebi que ir contra a conectividade compulsória e compulsiva não é defender o fim da internet, mas apropriar-se da conectividade e adequá-la ritmo da vida.</p>

<p>Como eu disse no Manifesto, o Offpunk enquanto estética ainda não é estabelecido. O ícone de rede invertida é o primeiro passo nessa direção.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:notas" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">notas</span></a> <a href="/ideiasdechirico/tag:tecnologia" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">tecnologia</span></a> <a href="/ideiasdechirico/tag:cultura" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cultura</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/sobre-uma-iconografia-da-desconexao</guid>
      <pubDate>Tue, 26 May 2026 23:17:26 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Notas costuradas</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-costuradas-qgsz</link>
      <description>&lt;![CDATA[A única forma de tornar a internet descentralizada outra vez é não segurar o leitor em uma mesma página. Por isso compartilho mais um desses compêndios de links que colho por aí nos raros momentos em que estou conectado. Sugiro que os abram sempre a partir de um navegador de computador.&#xA;&#xA;Como ando meio desmotivado para escrever, pensei em organizá-los a fim de ao menos tentar voltar à ativa no blogue.&#xA;&#xA;Já deixo aqui claro que, como passei a divulgar o endereço deste sítio web para meus alunos escolares, de agora em diante tentarei manter uma linguagem mais family-friendly. Não que eu seja um boca-suja, mas, bem... vocês entenderão.&#xA;&#xA;Linkroll&#xA;&#xA;Uma calculadora que estima quanto os anunciantes pagam para se exibirem a você. Para o meu perfil, de alguém que acessa internet por cerca de uma hora por dia, pagam 36 centavos de dólar por hora de anúncio. Parece pouco, mas é mais de R$ 273 por mês. Multiplique isso por... bilhões de pessoas?&#xA;&#xA;• Attention worth&#xA;&#xA;Estava lembrando outro dia sobre o sítio web oficial do Décio Pignatari, poeta, tradutor e pensador do Brasil, um dos iniciadores da Poesia Concreta. O espaço virtual foi desenhado pela designer e também poeta André Valias. Das coisas que eu acho mais incrível nesse sítio é a aba de traduções, posta em ordem cronológica. Pignatari contempla em sua obra tradutora mais de dois mil anos de poesia.&#xA;&#xA;• SITE OFICIAL ― DÉCIO PIGNATARI&#xA;&#xA;Ainda sobre Poesia Concreta, um sítio com o acervo de todas as edições da Revista Código, uma das revistas nas quais os poetas concretos publicavam suas poesias. Para quem curte design e poesia de vanguarda, são um prato cheio de inspiração. Sempre que tenho um tempinho, dou uma visitada na Revista Código.&#xA;&#xA;• codigorevista.org&#xA;&#xA;Campanha publicitária da Forbrukerradet (tente pronunciá-lo), um “conselho de cliente” norueguesa, satirizando a emerdificação digital através de um personagem que escalou na vida piorando produtos que já funcionavam bem. &#xA;&#xA;• A Day in the Life of an Enshittificator (Youtube)&#xA;&#xA;“Combata o Câncer” é uma campanha da VML Health e da Fuck Cancer com uma ideia inusitada: eles sugerem que você, homem, “descabele o palhaço” 21 vezes por mês. Por quê? Pesquisas mostram que, com essa frequência ~orgásmica, pode se reduzir o risco de câncer de próstata em até 22%. Não exagere na estatística.&#xA;&#xA;• Beat Cancer Off (letsfcancer ― Youtube)&#xA;&#xA;“Televisão, o olho do amanhã” é um curta-metragem francês de 1947 antecipando com humor o desenvolvimento dos veículos de comunicação.&#xA;&#xA;Muitos dos comportamentos encontrados no filme se assemelham a compartamentos provocados pelo smartphone ― que, grosso modo, é a evolução da televisão.&#xA;&#xA;Infelizmente no Youtube só há legendas automáticas em francês. Para quem souber essa língua, vale muito a pena.&#xA;&#xA;Télévision, oeil de demain ― “Televisão, o olho do amanhã”&#xA;&#xA;Artigo da Intercept Brasil com uma entrevista do pesquisador belga Mark Coeckelbergh, da área de Filosofia da Mídia, sobre a atual relação entre as BigTech e o governo estadunidense.&#xA;&#xA;Alguns trechos que me chamaram a atenção:&#xA;&#xA;  A diferença [entre fascismo e tecnofascismo], segundo ele [Coeckelbergh], é que, enquanto líderes autoritários como Adolf Hitler lançavam mão abertamente de violência, repressão a vozes dissidentes e dependiam de movimentos de massa para ter legitimidade, o tecnofascismo oferece ferramentas de controle mais silenciosas, menos visíveis e mais precisas: os algoritmos. Diferentemente do fascismo clássico, o tecnofascismo não precisou forçar as pessoas ou criar medo. As ferramentas tecnológicas atuais, como os algoritmos, conseguem saber do que você precisa antes mesmo que imagine. Com isso, as pessoas foram dominadas pelo prazer e pela conveniência oferecidos pela IA e suas corporações, tornando-se seres dóceis e obedientes.&#xA;&#xA;  [Mark Coeckelbergh:] Os EUA e o Vale do Silício têm essa ideologia neoliberal, muito anti-Estado, livre-mercado, libertários. Mas ao mesmo tempo, a tecnologia nos EUA é definitivamente financiada pelo governo através do Departamento de Defesa, por exemplo, agora chamado de Departamento da Guerra. Há definitivamente ligações financeiras entre governos e big techs.&#xA;&#xA;  Eu defendo uma visão em que os seres humanos se relacionem mais entre si, e um futuro que tenha mais essa característica. Precisamos de tecnologias que são [sic] agregadoras, que unam as pessoas em vez de isolá-las, que permitam ação coletiva, deliberação.&#xA;&#xA;• Entrevista: Como a IA abre caminho para o tecnofascismo&#xA;&#xA;Página que mostra textualmente o que o seu navegador está entregando de informação a partir do seu dispositivo. Alternar o link entre dois browsers me mostrou o quanto LibreWolf faz um trabalho decente no que diz respeito à conservação da privacidade...&#xA;&#xA;• taken.&#xA;&#xA;Não acompanho tanto a Rádio Novelo, mas curti muito esse episódio em que as locutoras entrevistam um colecionador de correio de voz, um precursor do recado de voz, uma mídia física (disco de vinil e mais tarde fita cassete) gravada nos correios e enviado por carta, muito popular no começo do século passado, em um tempo em que telefone ainda era coisa de alienígena.&#xA;&#xA;• Vozes do Além (Rádio Novelo Apresenta)&#xA;&#xA;Citações&#xA;&#xA;  Uma coisa que eu gostava quando fazia karatê é que nós, faixas brancas, éramos orientados pelos faixas amarelas, poupando o sensei e os karatecas mais experientes de ficar nos ensinando coisas muito básicas. Eu queria que tudo na vida funcionasse meio que desse jeito. Exemplo: nesse sistema eu seria faixa preta em viajar de ônibus, se você não sabe se esse ônibus vai pra Paulínia ou pra Cosmópolis, pergunta ali pro faixa amarela, não enche a p* do meu saco.&#xA;&#xA;• ― @felipesiles@ayom.media&#xA;&#xA;  A disputa pela atenção se fragmentou: há mercado para a concentração longa (podcasts, filmes, séries), curta (Shorts, TikTok) e para a difusa (livestreaming). A ideia é ocupar cada microfragmento de vida com mídia.&#xA;&#xA;― Eduardo Fernandes, Texto Sobre Tela&#xA;&#xA;  Passam-se três quartos da vida a se preparar para a felicidade; mas não se pode crer que por isso o último quarto se passe na alegria. &#xA;&#xA;André Gide, 1895.&#xA;&#xA;  Se os grandes clássicos são eternos, é porque estão sempre se modificando. O rio é mais durável do que o mármore.&#xA;&#xA;― Roland Barthes em “Notas sobre André Gide e o seu Diário”.&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>A única forma de tornar a internet descentralizada outra vez é não segurar o leitor em uma mesma página. Por isso compartilho mais um desses compêndios de <em>links</em> que colho por aí nos raros momentos em que estou conectado. Sugiro que os abram sempre a partir de um navegador de computador.</p>

<p>Como ando meio desmotivado para escrever, pensei em organizá-los a fim de ao menos tentar voltar à ativa no blogue.</p>

<p>Já deixo aqui claro que, como passei a divulgar o endereço deste sítio <em>web</em> para meus alunos escolares, de agora em diante tentarei manter uma linguagem mais <em>family-friendly</em>. Não que eu seja um boca-suja, mas, bem... vocês entenderão.</p>

<h2 id="linkroll">Linkroll</h2>

<p>Uma calculadora que estima quanto os anunciantes pagam para se exibirem a você. Para o meu perfil, de alguém que acessa internet por cerca de uma hora por dia, pagam 36 centavos de dólar por hora de anúncio. Parece pouco, mas é mais de R$ 273 por mês. Multiplique isso por... bilhões de pessoas?</p>

<p>• <a href="https://attentionworth.com/" rel="nofollow">Attention worth</a></p>

<p>Estava lembrando outro dia sobre o sítio <em>web</em> oficial do Décio Pignatari, poeta, tradutor e pensador do Brasil, um dos iniciadores da Poesia Concreta. O espaço virtual foi desenhado pela designer e também poeta André Valias. Das coisas que eu acho mais incrível nesse sítio é a aba de traduções, posta em ordem cronológica. Pignatari contempla em sua obra tradutora mais de dois mil anos de poesia.</p>

<p>• <a href="https://deciopignatari.com/" rel="nofollow">SITE OFICIAL ― DÉCIO PIGNATARI</a></p>

<p>Ainda sobre Poesia Concreta, um sítio com o acervo de todas as edições da Revista Código, uma das revistas nas quais os poetas concretos publicavam suas poesias. Para quem curte design e poesia de vanguarda, são um prato cheio de inspiração. Sempre que tenho um tempinho, dou uma visitada na Revista Código.</p>

<p>• <a href="https://www.codigorevista.org/nave/" rel="nofollow">codigorevista.org</a></p>

<p>Campanha publicitária da Forbrukerradet (tente pronunciá-lo), um “conselho de cliente” norueguesa, satirizando a emerdificação digital através de um personagem que escalou na vida piorando produtos que já funcionavam bem.</p>

<p>• <a href="https://youtu.be/T4Upf_B9RLQ" rel="nofollow">A Day in the Life of an Enshittificator</a> (Youtube)</p>

<p>“Combata o Câncer” é uma campanha da VML Health e da Fuck Cancer com uma ideia inusitada: eles sugerem que você, homem, “descabele o palhaço” 21 vezes por mês. Por quê? Pesquisas mostram que, com essa frequência ~orgásmica, pode se reduzir o risco de câncer de próstata em até 22%. Não exagere na estatística.</p>

<p>• <a href="https://www.youtube.com/watch?v=UGD0TAkwdOA" rel="nofollow">Beat Cancer Off</a> (letsfcancer ― Youtube)</p>

<p>“Televisão, o olho do amanhã” é um curta-metragem francês de 1947 antecipando com humor o desenvolvimento dos veículos de comunicação.</p>

<p>Muitos dos comportamentos encontrados no filme se assemelham a compartamentos provocados pelo <em>smartphone</em> ― que, <em>grosso modo</em>, é a evolução da televisão.</p>

<p>Infelizmente no Youtube só há legendas automáticas em francês. Para quem souber essa língua, vale muito a pena.</p>

<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=DY7WZsNkr_M" rel="nofollow">Télévision, oeil de demain ― “Televisão, o olho do amanhã”</a></p>

<p>Artigo da Intercept Brasil com uma entrevista do pesquisador belga Mark Coeckelbergh, da área de Filosofia da Mídia, sobre a atual relação entre as BigTech e o governo estadunidense.</p>

<p>Alguns trechos que me chamaram a atenção:</p>

<blockquote><p>A diferença [entre fascismo e tecnofascismo], segundo ele [Coeckelbergh], é que, enquanto líderes autoritários como Adolf Hitler lançavam mão abertamente de violência, repressão a vozes dissidentes e dependiam de movimentos de massa para ter legitimidade, o tecnofascismo oferece ferramentas de controle mais silenciosas, menos visíveis e mais precisas: os algoritmos. Diferentemente do fascismo clássico, o tecnofascismo não precisou forçar as pessoas ou criar medo. As ferramentas tecnológicas atuais, como os algoritmos, conseguem saber do que você precisa antes mesmo que imagine. Com isso, as pessoas foram dominadas pelo prazer e pela conveniência oferecidos pela IA e suas corporações, tornando-se seres dóceis e obedientes.</p>

<p>[Mark Coeckelbergh:] Os EUA e o Vale do Silício têm essa ideologia neoliberal, muito anti-Estado, livre-mercado, libertários. Mas ao mesmo tempo, a tecnologia nos EUA é definitivamente financiada pelo governo através do Departamento de Defesa, por exemplo, agora chamado de Departamento da Guerra. Há definitivamente ligações financeiras entre governos e big techs.</p>

<p>Eu defendo uma visão em que os seres humanos se relacionem mais entre si, e um futuro que tenha mais essa característica. Precisamos de tecnologias que são [sic] agregadoras, que unam as pessoas em vez de isolá-las, que permitam ação coletiva, deliberação.</p></blockquote>

<p>• <a href="https://www.intercept.com.br/2026/03/26/entrevista-como-a-ia-abre-caminho-para-o-tecnofascismo/" rel="nofollow">Entrevista: Como a IA abre caminho para o tecnofascismo</a></p>

<p>Página que mostra textualmente o que o seu navegador está entregando de informação a partir do seu dispositivo. Alternar o link entre dois browsers me mostrou o quanto <a href="https://librewolf.net/" rel="nofollow">LibreWolf</a> faz um trabalho decente no que diz respeito à conservação da privacidade...</p>

<p>• <a href="https://sinceyouarrived.world/taken" rel="nofollow">taken.</a></p>

<p>Não acompanho tanto a Rádio Novelo, mas curti muito esse episódio em que as locutoras entrevistam um colecionador de correio de voz, um precursor do recado de voz, uma mídia física (disco de vinil e mais tarde fita cassete) gravada nos correios e enviado por carta, muito popular no começo do século passado, em um tempo em que telefone ainda era coisa de alienígena.</p>

<p>• <a href="https://radionovelo.com.br/originais/apresenta/vozes-do-alem/" rel="nofollow">Vozes do Além</a> (Rádio Novelo Apresenta)</p>

<h2 id="citações">Citações</h2>

<blockquote><p>Uma coisa que eu gostava quando fazia karatê é que nós, faixas brancas, éramos orientados pelos faixas amarelas, poupando o sensei e os karatecas mais experientes de ficar nos ensinando coisas muito básicas. Eu queria que tudo na vida funcionasse meio que desse jeito. Exemplo: nesse sistema eu seria faixa preta em viajar de ônibus, se você não sabe se esse ônibus vai pra Paulínia ou pra Cosmópolis, pergunta ali pro faixa amarela, não enche a p* do meu saco.</p></blockquote>

<p>• <a href="https://ayom.media/@felipesiles/116308755672094914" rel="nofollow">― <a href="https://blog.ayom.media/@/felipesiles@ayom.media" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>felipesiles@ayom.media</span></a></a></p>

<blockquote><p> A disputa pela atenção se fragmentou: há mercado para a concentração longa (podcasts, filmes, séries), curta (Shorts, TikTok) e para a difusa (livestreaming). A ideia é ocupar cada microfragmento de vida com mídia.</p></blockquote>

<p>― Eduardo Fernandes, <a href="https://textosobretela.com/p/mudancas-na-guerra-pela-atencao" rel="nofollow">Texto Sobre Tela</a></p>

<blockquote><p>Passam-se três quartos da vida a se preparar para a felicidade; mas não se pode crer que por isso o último quarto se passe na alegria.</p></blockquote>

<p>André Gide, 1895.</p>

<blockquote><p>Se os grandes clássicos são eternos, é porque estão sempre se modificando. O rio é mais durável do que o mármore.</p></blockquote>

<p>― Roland Barthes em “Notas sobre André Gide e o seu Diário”.</p>

<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-costuradas-qgsz</guid>
      <pubDate>Sun, 24 May 2026 17:04:06 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Sobre uma adaptação feliz</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/sobre-uma-adaptacao-feliz</link>
      <description>&lt;![CDATA[Imagem de uma cartomante ao lado de uma trabalhadora que sorri; estão em uma sala escura, com seus rostos iluminados.&#xA;&#xA;Cena de “Hora da Estrela” (1986).&#xA;&#xA;Releituras e adaptações ― e samples (e remixes) ― participam ativamente do cotidiano da contemporaneidade. Nada mais pode ser novo, ao mesmo tempo em que nada pode ser singular. Há dessas peças “secundárias” por aí que expandem e mastigam tão bem a “fonte” que até lhe superam em alguns níveis.&#xA;&#xA;É o caso do filme “Hora da Estrela” (1986), de Suzana Amaral, adaptado da novela homônima de Clarice Lispector. A obra literária, que, ao ser lida, dá a impressão de que foi escrita de má vontade (em alguns momentos da vida da autora chegou até a ser renegada), com personagens mal desenvolvidos e “manchada” com uma voz de um narrador às vezes egocêntrico, toma uma vitalidade muito maior na película de Suzana.&#xA;&#xA;Aqui, a protagonista Macabéa é muito mais sensível, sem tomar, no entanto, o centro da narrativa. Há em jogo outras personagens, tão vivas quanto esta: suas companheiras da “pensão para moças”; Glória, sua colega de trabalho; e a cartomante (aliás genialmente interpretada por uma quase irreconhecível Fernanda Montenegro).&#xA;&#xA;O filme tem um tal desenvolvimento de suas figuras, que por vezes parece que o que vemos na maior parte do tempo trata-se, não de uma personagem principal, mas de uma personagem observadora. Aí, mais do que no livro, Macabéa é praticamente engolida por suas pares, permanecendo, inclusive, muitas vezes em segundo plano na fotografia. &#xA;&#xA;É aqui talvez onde resida o fio estruturante da obra: é como se tivéssemos diante de nós um spin-off, a história não contada dos figurantes ao redor da boa-ventura de Glória, a princesinha injustiçada que ganha o final feliz erroneamente prometido a Macabéa.&#xA;&#xA;Como nem tudo é perfeito, o filme carece de uma boa trilha sonora à altura de Macabéa, paralém do ruído da Rádio Relógio ― inclusive outra dessas personagens inauguradas pelo longa-metragem.&#xA;&#xA;“Hora da Estrela” está em exibição nos cinemas por ocasião de seu vindouro aniversário de 40 anos, com restauração do projeto Sessão Vitrine Petrobrás.&#xA;&#xA;#notas #cultura&#xA;&#xA;----------------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://bravo.abril.com.br/wp-content/uploads/2024/05/Copia-de-A-Hora-da-Estrela-Antes-da-Digitalizacao-01.jpeg?quality=70&amp;strip=info&amp;w=1024&amp;crop=1" alt="Imagem de uma cartomante ao lado de uma trabalhadora que sorri; estão em uma sala escura, com seus rostos iluminados."></p>

<h5 id="cena-de-hora-da-estrela-1986">Cena de “Hora da Estrela” (1986).</h5>

<p>Releituras e adaptações ― e samples (e remixes) ― participam ativamente do cotidiano da contemporaneidade. Nada mais pode ser novo, ao mesmo tempo em que nada pode ser singular. Há dessas peças “secundárias” por aí que expandem e mastigam tão bem a “fonte” que até lhe superam em alguns níveis.</p>

<p>É o caso do filme “Hora da Estrela” (1986), de Suzana Amaral, adaptado da novela homônima de Clarice Lispector. A obra literária, que, ao ser lida, dá a impressão de que foi escrita de má vontade (em alguns momentos da vida da autora chegou até a ser renegada), com personagens mal desenvolvidos e “manchada” com uma voz de um narrador às vezes egocêntrico, toma uma vitalidade muito maior na película de Suzana.</p>

<p>Aqui, a protagonista Macabéa é muito mais sensível, sem tomar, no entanto, o centro da narrativa. Há em jogo outras personagens, tão vivas quanto esta: suas companheiras da “pensão para moças”; Glória, sua colega de trabalho; e a cartomante (aliás genialmente interpretada por uma quase irreconhecível Fernanda Montenegro).</p>

<p>O filme tem um tal desenvolvimento de suas figuras, que por vezes parece que o que vemos na maior parte do tempo trata-se, não de uma personagem principal, mas de uma personagem observadora. Aí, mais do que no livro, Macabéa é praticamente engolida por suas pares, permanecendo, inclusive, muitas vezes em segundo plano na fotografia.</p>

<p>É aqui talvez onde resida o fio estruturante da obra: é como se tivéssemos diante de nós um <em>spin-off</em>, a história não contada dos figurantes ao redor da boa-ventura de Glória, a princesinha injustiçada que ganha o final feliz erroneamente prometido a Macabéa.</p>

<p>Como nem tudo é perfeito, o filme carece de uma boa trilha sonora à altura de Macabéa, paralém do ruído da Rádio Relógio ― inclusive outra dessas personagens inauguradas pelo longa-metragem.</p>

<p>“Hora da Estrela” está em exibição nos cinemas por ocasião de seu vindouro aniversário de 40 anos, com restauração do projeto Sessão Vitrine Petrobrás.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:notas" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">notas</span></a> <a href="/ideiasdechirico/tag:cultura" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cultura</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/sobre-uma-adaptacao-feliz</guid>
      <pubDate>Tue, 12 May 2026 21:39:25 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Manifesto Offpunk</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/manifesto-offpunk</link>
      <description>&lt;![CDATA[Sinal do Manifesto Offpunk, um símbolo de rede sem fio de cabeça para baixo.&#xA;&#xA;A revolução não será digitalizada.&#xA;&#xA;• English version&#xA;&#xA;Ao tempo que se aponta para a hiperconexão como um sintoma de um futuro inescapável, um movimento tímido e incômodo se insinua: o da desconexão proposital e propositiva. A adoção por “telefones burros” tem crescido nos últimos anos; câmeras digitais voltaram a ser utilizadas, assim como as fitas cassete e também as máquinas de escrever! Há também um estranho movimento de adoção do jornal... de papel. Até o minidisc, que foi esquecido por conta do tocador de .mp3, renasceu das cinzas&#xA;&#xA;No início do século, a internet era a promessa do último ato da “Aldeia Global”, preconizado por Marshall McLuhan. Computadores, caros e escassos (por isso, às vezes, coletivos), eram portais de um além-mundo. Governos, despendendo um bom valor, buscavam garantir que classes pobres fossem “incluídas” digitalmente.&#xA;&#xA;Chegamos lá. Agora caminhamos para a marca de três dispositivos conectados por pessoa em todo o mundo, segundo estimativas da Cisco Visual Network Index para a década de 2020.&#xA;&#xA;O digital é ubíquo e tido como garantido. Inclusos digitais à revelia, já não nos conectamos mais à internet. Simplesmente vivemos nela.&#xA;&#xA;Qual como se vestíssemos um uniforme, guardamos o telefone no bolso para trabalhar, para viver, para amar.&#xA;&#xA;A tecnologia digital deixou de ser ferramenta para se tornar ambiente ― um ambiente do qual não se pode fugir. Isto é, uma prisão.&#xA;&#xA;----------------------------------&#xA;&#xA;“Garantir o não digital é um dever, não um retorno ao passado”, Giulio Cavalli.&#xA;&#xA;-----------------------------------&#xA;&#xA;Neste cenário de conectividade compulsória, às vezes gratuita, a verdadeira dissidência não é burlar o sistema — é simplesmente recusar-se a fazer parte dele.&#xA;&#xA;Como o escritor belga de sci-fi e desenvolvedor de software Ploum defende, os punks da nossa era são aqueles que ousam viver sem smartphone ― ou “offpunks”, como agora prefiro chamar.&#xA;&#xA;Conexão como arma de guerra&#xA;&#xA;Fruto de um desenvolvimento tecnológico centralizado e monopolista, a distribuição de internet ou de serviços digitais tornou-se uma arma de guerra. Quando países com hard power entram em conflito, buscam interromper não apenas o fornecimento de água e de gás ― cortam internet como tática bélica. A Rússia o fez em investidas contra a Ucrânia; Israel o faz dentro da Palestina.&#xA;&#xA;No fim de 2025, o juíz francês Nicolas Guillou da Corte Penal Internacional perdeu todo o acesso a vários serviços digitais americanos ― como hospedaria, compras online e banco ― fornecidos por empresas americanas como AirBNB, Amazon e PayPal. Os Estados Unidos justificaram tal sanção porque Guillou abriu mandados de prisão contra o primeiro ministro israelense, Benyamin Nétanyahou, e seu ministro da defesa, Yoav Gallant, por conta de ataques israelenses de cunho genocida em território palestino. Os Estados Unidos são o principal país apoiador das ações de Israel na Ásia Central.&#xA;&#xA;A postura offpunk nasce de uma constatação simples e incômoda: o reino do digital é frágil. Ao mesmo tempo, toda a vida social é forçosamente imbuída dentro desse ambiente. Logo, tal postura leva em consideração que é preciso não depender totalmente dos serviços virtuais sob o risco de um deles ser sancionado ou não estar disponível. Exemplos como a queda de servidores da Microsoft que impactou serviços bancários em todo o mundo em meados de 2024, a sanção do Twitter/X pelo governo brasileiro em fins de 2024, e a queda global dos servidores da Amazon e da Cloudfare em fins de 2025, que levou vários domínios na internet à queda, escancararam, não só a sua fragilidade, mas a nossa dependência a esses serviços.&#xA;&#xA;Quando o sistema cai ― por sanção política, por pane ou por guerra ―, o que existe em linha simplesmente evapora. Fica-se de mãos amarradas se a única opção é o digital.&#xA;&#xA;Afinal de contas, a conexão ininterrupta não é uma garantia, principalmente em países do Sul global ou sob conflito político interno ou externo, ou mesmo em situação de paz ― na cidade de São Paulo, Brasil, por conta de sua política de fornecimento de energia terceirizado da Itália, em dias de chuva possui constantes quedas de energia. Nesses territórios, é preciso sempre contar com o analógico como um plano B. &#xA;&#xA;Minimalismo digital e offpunk&#xA;&#xA;É preciso não confundir offpunk com minimalismo digital.&#xA;&#xA;O minimalismo digital é uma abordagem liberal sobre a desconexão, totalmente voltado à autoagência, sem criticar estruturas de poder.&#xA;&#xA;Como não se pode ter uma vida offline tranquila, tira-se dela todo o digital imersivo (ou “viciante”), a fim de se configurarem os ambientes conectados para serem simulacros de uma vida analógica. Off, ma non troppo.&#xA;&#xA;O que precisamos mesmo é da possibilidade de uma desconexão total; o direito de ir e vir sem que precisemos de portar um telefone inteligente de última geração e de estar disponíveis à comunicação por 24/7.&#xA;&#xA;Trine Syvertsen demonstra muito bem em seu “Detox Digital: a política da desconexão” (2020) como o minimalismo digital participa de uma agenda neoliberal de redirecionamento da responsabilidade de solução de problemas estruturais (anteriormente ao cargo de órgãos coletivos) para indivíduos comuns ― o usuário médio de um telefone moderno. Além disso, a autora identifica que o motivo pelo qual as pessoas buscam esse tipo de detox pode ser resumido em três pês: presença, produtividade e privacidade ― todas pautas individuais.&#xA;&#xA;Ou seja, se você perde os momentos de socialização por conta do telefone, se não produz na empresa ou em projetos pessoais por conta de notificações ou se está de saco cheio de ser monitorado e objetificado pela Big Tech, isso tudo é culpa exclusiva sua por não se disciplinar o suficiente e nem estudar formas de torná-lo menos atraente ― não por conta de um modelo de negócios baseado em economia de atenção, vigilância em massa e software propositalmente viciante.&#xA;&#xA;Essa delegação de responsabilidade por letramento coaduna com a leitura sobre a sociedade contemporânea feita do intelectual teuto-coreano Byung-Chul Han em seu “Agonia de Eros” que diz que&#xA;&#xA;  A autoexploração é muito mais eficiente do que a exploração alheia, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade.&#xA;&#xA;Um outro sintoma dessa delegação de responsabilidade são totens de autoatendimento em supermercados, farmácias e bancos, que incumbem ao cliente a tarefa de fazer sua própria operação mercantil ou bancária, na maioria das vezes sem um auxiliar, fazendo o trabalho de um funcionário e sem ganhar nenhum desconto na compra; caso se cometa um erro durante a compra, isso vai para a conta do cliente, não para a empresa.&#xA;&#xA;O offpunk, ao contrário, por mais que seja um comportamento provindo de um alto letramento digital, defende uma desconexão despretensiosa, sem o prejuízo de se estar à margem de atividades sociais e do exercício da cidadania.&#xA;&#xA;Por fim, enquanto que o minimalismo digital vê a desconexão como um meio de produzir mais, o offpunk não vê o detox digital como um meio de maior produtividade, porque na verdade ele é uma atitude de anticonsumo.&#xA;&#xA;Definições&#xA;&#xA;Offpunk não é um estilo de vida. É uma postura diante do digitalização, é a busca por uma coletivização possível do detox digital, explorando o caráter político-social da desconexão. Ela reinvidica o lazer, a cidadania e a comunicação sem a obrigatoriedade de um intermediário digital; não luta pelo fim da internet, mas batalha por uma vida possível sem a conexão ininterrupta.&#xA;&#xA;E como postura que é, o offpunk está mais próximo de uma tática secular, como a meditação e a guerrilha.&#xA;&#xA;Além disso, percebe-se que cada vez mais os meandros do trabalho moderno, mesmo aqueles que envolvem atividades analógicas, como o ensino, estão cada vez mais invadidos por processos digitais. Na década de 2020, o uso comum da internet só pode ser associado ao trabalho, ao tempo que a desconexão só pode ser associada ao lazer.&#xA;&#xA;Desse modo, uma postura offpunk defende a vida além do trabalho.&#xA;&#xA;Por outro lado, com tantas camadas desnecessárias de digitalização em nosso cotidiano, em certos momentos vê-se no analógico meios mais fluidos e diretos de solução de problemas (ver “instrumentos offpunk”)&#xA;&#xA;São offpunks: uma adolescente que adota um telefone básico e ingressa em um clube ludista; um audiófilo que, insatisfeito com o Spotify, decide adquirir um toca-discos ou um tocador de mp3; um expert que utiliza sistemas ciberseguros; quem combate a obsolescência de dispositivos eletrônicos instalando-lhes Linux ou custom-ROMs; um trabalhador autônomo que desativa redes sociais comerciais como Instagram e Facebook; uma pessoa idosa que resiste ao telefone inteligente e que consegue meios de driblar a digitalização.&#xA;&#xA;Offpunk não é nostalgia. Não é tecnofobia ingênua nem fuga romântica para um passado imaginário. É, antes de tudo, busca por soberania e autoagência. Parafraseando o escritor brasileiro Eduardo Fernandes, enquanto offpunk,&#xA;&#xA;  Revolução tecnológica não é revolucionária, desatualizar não é reacionário.&#xA;&#xA;A estética offpunk&#xA;&#xA;O offpunk ainda não tem um rosto, mas temos algumas pista de como ele pode ser. A primeira delas pode vir de uma definição recente de Ploum sob sua própria ação na internet: “techpunk”, um tecnófilo antissistema.&#xA;&#xA;Como falado anteriormente, offpunk trata-se de uma postura diante do estado de tecnologia no mundo contemporâneo, não de uma utopia/distopia ou uma estética visual que participam de um movimento cultural mais abrangente como “solarpunk” ou “cyberpunk”.&#xA;&#xA;Alguns exemplares offpunk:&#xA;&#xA;1) na informática, o navegador Offpunk, para protocolo Gemini, que batiza este manifesto;&#xA;&#xA;2) no design, o conceito de “Forever Computer” e o telefone Mudita Kompakt;&#xA;&#xA;3) na sociedade, o clube ludista de Nova York;&#xA;&#xA;4) na literatura, “Bikepunk” (2025);&#xA;&#xA;5) no cinema, &#34;Uma Batalha Atrás da Outra&#34; (2025).&#xA;&#xA;  Em Uma Batalha Após a Outra, a “obsolescência”, o downgrade é uma estratégia de liberdade. Os personagens recorrem a aparelhos velhos e modificáveis pra criar uma rede de comunicação e segurança paralela. Quando as tecnologias recentes (como smartphones) aparecem, são pra colocar a vida em risco, pra reprimir e impedir planos de se concretizarem.&#xA;&#xA;― Eduardo Fernandes (Texto Sobre Tela).&#xA;&#xA;No filme teuto-japonês “Dias Perfeitos” (2023), assistimos à rotina idílica de Hirayama, um zelador da Tokyo Project de banheiros públicos, que nas horas livres tira fotos com filme, ouve música com fita cassete, pedala, lê um livro antes de dormir e aprecia cada momento de seus dias ― desconectado e muito-bem-obrigado.&#xA;&#xA;O Japão, famoso por ser um país que consegue equilibrar o moderno e o tradicional, provém totens de pagamento em dinheiro vivo, comunicação empresarial via telefonia pública, retrocomputação utilizada por grandes empresas ― como fax e disquete. Na Índia, onde há talvez o melhor serviço de telefonia do mundo, o cidadão médio faz em torno de 90 ligações por dia.&#xA;&#xA;Reinvidicações&#xA;&#xA;São pautas relacionadas ao offpunk:&#xA;&#xA;1) o combate contra a superprodução;&#xA;&#xA;2) o combate contra a obsolescência programada;&#xA;&#xA;3) o combate contra a “internet das coisas”, buscando quebrar o círculo vicioso entre dispositivos interconectados que tomam nosso tempo e sugam nossos dados a fim de alimentar Big Data;&#xA;&#xA;4) o combate contra economia de atenção;&#xA;&#xA;5) a redução da escala de trabalho, que pouco a pouco enfia cada vez mais a atividade laboral no campo virtual;&#xA;&#xA;6) o direito ao lazer, à cidadania e ao trabalho sem a necessidade de um dispositivo digital;&#xA;&#xA;7) a emergência de uma inclusão digital plena das classes mais pobres e de populações idosas, o que conta não só com a acessibilidade de um dispositivo eletrônico, mas também com o letramento digital para a utilização e manutenção autônomas desse mesmo dispositivo, visando uma menor dependência de terceiros.&#xA;&#xA;Defende o colunista italiano Giulio Cavalli:&#xA;&#xA;  É verdade: a digitalização simplifica, agiliza, e uniformiza procedimentos. Mas somente para quem consegue estar dentro dela. Para todos os demais o futuro é uma porta fechada.&#xA;&#xA;― “Garantir o não digital é um direito, não um retorno ao passado” (lettera43)&#xA;&#xA;Instrumentos offpunk:&#xA;&#xA;1) o dinheiro vivo ― é prático, não demanda nem de eletricidade e nem de internet e garante que os dados pessoais não sejam armazenados em sistemas de Big Data;&#xA;&#xA;2) meios analógicos ― garantem que uma comunicação independente da internet seja possível ou que o objeto seja de fato seu (e não alugado), pois tangível: discos, tocadores de mp3/mp4, rádio, jornais impressos;&#xA;&#xA;3) meios digitais revividos ― e-mail, sites “brutalistas” de baixo custo, câmeras digitais, telefones “burros”;&#xA;&#xA;4) meios de armazenamento e transferência de arquivos ― garantem que dados digitais não sejam surrupiados com uma eventual queda de conexão: discos rígidos, cartões de memória, pendrives, serviços de nuvem autogeridos e locais.&#xA;&#xA;5) protocolos de comunicação alternativa: mensageiros via Bluetooth (Bitchat), Gemini, e-mail criptografado, navegação em cebola (Tor), XMPP.&#xA;&#xA;Desafios:&#xA;&#xA;1) ultrapassar as conveniências do digital (pesquisa, tradução de textos, entretenimento fácil, pagamento à distância);&#xA;&#xA;2) acessar espaços sociais permitidos ou facilitados somente pelo digital (concertos, cinema, restaurantes);&#xA;&#xA;3) fazer redes de trabalho sem intermédio do digital.&#xA;&#xA;----------------------------&#xA;&#xA;Defendemos o direito inegociável ao não digital. O direito de compartilhar sem intermédio de algoritmos, de organizar-se socialmente sem mediação de plataformas, de resistir ao imperativo da presença em linha.&#xA;&#xA;Enquanto houver monopólio de tecnologia nas garras de umas poucas empresas do Norte Global; enquanto houver vigilância de massa com anuência do Estado; enquanto houver coleta massiva de dados ― e a ausência de transparência quanto ao uso dos dados coletados ―; enquanto houver economia de atenção, que usurpa o nosso valioso tempo livre a fim de que vejamos alguns anúncios em serviços digitais essenciais; enquanto houver infraestruturas impedindo a soberania digital em países do Sul global; enquanto houver digitalização compulsória em um mundo onde a internet não é tratada como direito básico inalienável ― a revolução não será digitalizada.&#xA;&#xA;Este texto foi escrito originalmente em português e é assinado por Arlon de Serra Grande e Lionel Dricot (t.c.c @ploum.mamot.fr).&#xA;&#xA;Verão de 2026.&#xA;&#xA;tecnologia&#xA;&#xA;----------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://i.imgur.com/5gAjGvd.png" alt="Sinal do Manifesto Offpunk, um símbolo de rede sem fio de cabeça para baixo." title="Sinal do Manifesto Offpunk, um símbolo de rede sem fio de cabeça para baixo."></p>

<h5 id="a-revolução-não-será-digitalizada">A revolução não será digitalizada.</h5>

<p>• <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/offpunk-manifesto" rel="nofollow">English version</a></p>

<p>Ao tempo que se aponta para a hiperconexão como um sintoma de um futuro inescapável, um movimento tímido e incômodo se insinua: o da desconexão proposital e propositiva. A adoção por “telefones burros” tem crescido nos últimos anos; câmeras digitais voltaram a ser utilizadas, assim como as fitas cassete e também as máquinas de escrever! <a href="https://slate.com/human-interest/2023/09/media-literacy-print-newspapers-tiktok-influencer-kelsey-russell.html" rel="nofollow">Há também um estranho movimento de adoção do jornal... de papel</a>. <a href="https://www.theverge.com/2024/10/7/24264266/still-have-a-minidisc-player-around" rel="nofollow">Até o minidisc, que foi esquecido por conta do tocador de .mp3, renasceu das cinzas</a></p>

<p>No início do século, a internet era a promessa do último ato da “Aldeia Global”, preconizado por Marshall McLuhan. Computadores, caros e escassos (por isso, às vezes, coletivos), eram portais de um além-mundo. Governos, despendendo um bom valor, buscavam garantir que classes pobres fossem “incluídas” digitalmente.</p>

<p>Chegamos lá. Agora caminhamos para a marca de <a href="https://www.cisco.com/c/dam/m/en_us/solutions/service-provider/vni-forecast-highlights/pdf/Global_2020_Forecast_Highlights.pdf" rel="nofollow">três dispositivos conectados por pessoa em todo o mundo</a>, segundo estimativas da Cisco Visual Network Index para a década de 2020.</p>

<p>O digital é ubíquo e tido como garantido. Inclusos digitais à revelia, já não nos conectamos mais à internet. Simplesmente <em>vivemos nela</em>.</p>

<p>Qual como se vestíssemos um uniforme, guardamos o telefone no bolso para trabalhar, para viver, para amar.</p>

<p>A tecnologia digital deixou de ser ferramenta para se tornar ambiente ― um ambiente do qual não se pode fugir. Isto é, uma prisão.</p>

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<h1 id="garantir-o-não-digital-é-um-dever-não-um-retorno-ao-passado-giulio-cavalli">“Garantir o não digital é um dever, não um retorno ao passado”, Giulio Cavalli.</h1>

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<p>Neste cenário de conectividade compulsória, às vezes gratuita, a verdadeira dissidência não é burlar o sistema — é simplesmente recusar-se a fazer parte dele.</p>

<p>Como o escritor belga de sci-fi e desenvolvedor de <em>software</em> <a href="https://ploum.net/2025-11-17-techpunk.html" rel="nofollow">Ploum defende</a>, os <em>punks</em> da nossa era são aqueles que ousam viver sem <em>smartphone</em> ― ou “<em>offpunks</em>”, como agora prefiro chamar.</p>

<h2 id="conexão-como-arma-de-guerra">Conexão como arma de guerra</h2>

<p>Fruto de um desenvolvimento tecnológico centralizado e monopolista, a distribuição de internet ou de serviços digitais tornou-se uma arma de guerra. Quando países com <em>hard power</em> entram em conflito, buscam interromper não apenas o fornecimento de água e de gás ― cortam internet como tática bélica. A Rússia o fez em investidas contra a Ucrânia; Israel o faz dentro da Palestina.</p>

<p>No fim de 2025, <a href="https://www.lemonde.fr/international/article/2025/11/19/nicolas-guillou-juge-francais-de-la-cpi-sanctionne-par-les-etats-unis-face-aux-attaques-les-magistrats-de-la-cour-tiendront_6654016_3210.html" rel="nofollow">o juíz francês Nicolas Guillou da Corte Penal Internacional perdeu todo o acesso a vários serviços digitais americanos</a> ― como hospedaria, compras online e banco ― fornecidos por empresas americanas como AirBNB, Amazon e PayPal. Os Estados Unidos justificaram tal sanção porque Guillou abriu mandados de prisão contra o primeiro ministro israelense, Benyamin Nétanyahou, e seu ministro da defesa, Yoav Gallant, por conta de ataques israelenses de cunho genocida em território palestino. Os Estados Unidos são o principal país apoiador das ações de Israel na Ásia Central.</p>

<p>A postura <em>offpunk</em> nasce de uma constatação simples e incômoda: o reino do digital é frágil. Ao mesmo tempo, toda a vida social é forçosamente imbuída dentro desse ambiente. Logo, tal postura leva em consideração que é preciso não depender totalmente dos serviços virtuais sob o risco de um deles ser sancionado ou não estar disponível. Exemplos como <a href="https://www.financialexpress.com/life/technology-microsoft-outage-disrupts-banks-airlines-and-stock-exchange-full-list-of-services-impacted-3558631/" rel="nofollow">a queda de servidores da Microsoft que impactou serviços bancários em todo o mundo em meados de 2024</a>, a sanção do <a href="https://www.gazetadigital.com.br/editorias/brasil/x-continua-bloqueado-no-brasil-apesar-de-ter-suas-dividas-quitadas-entenda/783707" rel="nofollow">Twitter/X pelo governo brasileiro em fins de 2024</a>, e a <a href="https://lifehacker.com/tech/cloudflare-amazon-web-sites-and-services-down" rel="nofollow">queda global dos servidores da Amazon e da Cloudfare em fins de 2025, que levou vários domínios na internet à queda</a>, escancararam, não só a sua fragilidade, mas a nossa dependência a esses serviços.</p>

<p>Quando o sistema cai ― por sanção política, por pane ou por guerra ―, o que existe em linha simplesmente evapora. Fica-se de mãos amarradas se a única opção é o digital.</p>

<p>Afinal de contas, a conexão ininterrupta não é uma garantia, principalmente em países do Sul global ou sob conflito político interno ou externo, ou mesmo em situação de paz ― na cidade de São Paulo, Brasil, por conta de sua política de fornecimento de energia terceirizado da Itália, em dias de chuva possui constantes quedas de energia. Nesses territórios, é preciso sempre contar com o analógico como um plano B.</p>

<h2 id="minimalismo-digital-e-offpunk">Minimalismo digital e <em>offpunk</em></h2>

<p>É preciso não confundir <em>offpunk</em> com minimalismo digital.</p>

<p>O minimalismo digital é uma abordagem liberal sobre a desconexão, totalmente voltado à autoagência, sem criticar estruturas de poder.</p>

<p>Como não se pode ter uma vida <em>offline</em> tranquila, tira-se dela todo o digital imersivo (ou “viciante”), a fim de se configurarem os ambientes conectados para serem simulacros de uma vida analógica. <em>Off, ma non troppo</em>.</p>

<p>O que precisamos mesmo é da possibilidade de uma desconexão total; o direito de ir e vir sem que precisemos de portar um telefone inteligente de última geração e de estar disponíveis à comunicação por 24/7.</p>

<p>Trine Syvertsen demonstra muito bem em seu “Detox Digital: a política da desconexão” (2020) como o minimalismo digital participa de uma agenda neoliberal de redirecionamento da responsabilidade de solução de problemas estruturais (anteriormente ao cargo de órgãos coletivos) para indivíduos comuns ― o usuário médio de um telefone moderno. Além disso, a autora identifica que o motivo pelo qual as pessoas buscam esse tipo de detox pode ser resumido em três pês: presença, produtividade e privacidade ― todas pautas individuais.</p>

<p>Ou seja, se você perde os momentos de socialização por conta do telefone, se não produz na empresa ou em projetos pessoais por conta de notificações ou se está de saco cheio de ser monitorado e objetificado pela Big Tech, isso tudo é culpa exclusiva sua por não se disciplinar o suficiente e nem estudar formas de torná-lo menos atraente ― não por conta de um modelo de negócios baseado em economia de atenção, vigilância em massa e <em>software</em> propositalmente viciante.</p>

<p>Essa delegação de responsabilidade por letramento coaduna com a leitura sobre a sociedade contemporânea feita do intelectual teuto-coreano Byung-Chul Han em seu “Agonia de Eros” que diz que</p>

<blockquote><p>A autoexploração é muito mais eficiente do que a exploração alheia, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade.</p></blockquote>

<p>Um outro sintoma dessa delegação de responsabilidade são totens de autoatendimento em supermercados, farmácias e bancos, que incumbem ao cliente a tarefa de fazer sua própria operação mercantil ou bancária, na maioria das vezes sem um auxiliar, fazendo o trabalho de um funcionário e sem ganhar nenhum desconto na compra; caso se cometa um erro durante a compra, isso vai para a conta do cliente, não para a empresa.</p>

<p>O <em>offpunk</em>, ao contrário, por mais que seja um comportamento provindo de um alto letramento digital, defende uma desconexão despretensiosa, sem o prejuízo de se estar à margem de atividades sociais e do exercício da cidadania.</p>

<p>Por fim, enquanto que o minimalismo digital vê a desconexão como um meio de produzir mais, o <em>offpunk</em> não vê o detox digital como um meio de maior produtividade, porque na verdade ele é uma atitude de anticonsumo.</p>

<h2 id="definições">Definições</h2>

<p><em>Offpunk</em> não é um estilo de vida. É uma postura diante do digitalização, é a busca por uma coletivização possível do detox digital, explorando o caráter político-social da desconexão. Ela reinvidica o lazer, a cidadania e a comunicação sem a obrigatoriedade de um intermediário digital; não luta pelo fim da internet, mas batalha por uma vida possível sem a conexão ininterrupta.</p>

<p>E como postura que é, o <em>offpunk</em> está mais próximo de uma tática secular, como a meditação e a guerrilha.</p>

<p>Além disso, percebe-se que cada vez mais os meandros do trabalho moderno, mesmo aqueles que envolvem atividades analógicas, como o ensino, estão cada vez mais invadidos por processos digitais. Na década de 2020, o uso comum da internet só pode ser associado ao trabalho, ao tempo que a desconexão só pode ser associada ao lazer.</p>

<p>Desse modo, uma postura <em>offpunk</em> defende a vida além do trabalho.</p>

<p>Por outro lado, com tantas camadas desnecessárias de digitalização em nosso cotidiano, em certos momentos vê-se no analógico meios mais fluidos e diretos de solução de problemas (ver “instrumentos <em>offpunk</em>”)</p>

<p>São <em>offpunks</em>: uma adolescente que adota um telefone básico e ingressa em um clube ludista; um audiófilo que, insatisfeito com o Spotify, decide adquirir um toca-discos ou um tocador de mp3; um expert que utiliza sistemas ciberseguros; quem combate a obsolescência de dispositivos eletrônicos instalando-lhes Linux ou custom-ROMs; um trabalhador autônomo que desativa redes sociais comerciais como Instagram e Facebook; uma pessoa idosa que resiste ao telefone inteligente e que consegue meios de driblar a digitalização.</p>

<p>Offpunk não é nostalgia. Não é tecnofobia ingênua nem fuga romântica para um passado imaginário. É, antes de tudo, busca por soberania e autoagência. Parafraseando o escritor brasileiro <a href="https://textosobretela.com/p/geriatria-da-tecnologia" rel="nofollow">Eduardo Fernandes</a>, enquanto <em>offpunk</em>,</p>

<blockquote><p>Revolução tecnológica não é revolucionária, desatualizar não é reacionário.</p></blockquote>

<h2 id="a-estética-offpunk">A estética <em>offpunk</em></h2>

<p>O <em>offpunk</em> ainda não tem um rosto, mas temos algumas pista de como ele pode ser. A primeira delas pode vir de uma definição recente de Ploum sob sua própria ação na internet: “techpunk”, um tecnófilo antissistema.</p>

<p>Como falado anteriormente, <em>offpunk</em> trata-se de uma postura diante do estado de tecnologia no mundo contemporâneo, não de uma utopia/distopia ou uma estética visual que participam de um movimento cultural mais abrangente como “<em>solarpunk</em>” ou “<em>cyberpunk</em>”.</p>

<p>Alguns exemplares <em>offpunk</em>:</p>

<p>1) na informática, o navegador <a href="https://ploum.net/2026-02-09-offpunk3.html" rel="nofollow">Offpunk</a>, para protocolo Gemini, que batiza este manifesto;</p>

<p>2) no <em>design</em>, o conceito de <a href="https://ploum.net/the-computer-built-to-last-50-years/index.html" rel="nofollow">“Forever Computer”</a> e o telefone Mudita Kompakt;</p>

<p>3) na sociedade, o clube ludista de Nova York;</p>

<p>4) na literatura, “Bikepunk” (2025);</p>

<p>5) no cinema, “Uma Batalha Atrás da Outra” (2025).</p>

<blockquote><p>Em Uma Batalha Após a Outra, a “obsolescência”, o <em>downgrade</em> é uma estratégia de liberdade. Os personagens recorrem a aparelhos velhos e modificáveis pra criar uma rede de comunicação e segurança paralela. Quando as tecnologias recentes (como smartphones) aparecem, são pra colocar a vida em risco, pra reprimir e impedir planos de se concretizarem.</p></blockquote>

<p>― <a href="https://textosobretela.com/p/geriatria-da-tecnologia" rel="nofollow">Eduardo Fernandes</a> (Texto Sobre Tela).</p>

<p>No filme teuto-japonês “Dias Perfeitos” (2023), assistimos à rotina idílica de Hirayama, um zelador da Tokyo Project de banheiros públicos, que nas horas livres tira fotos com filme, ouve música com fita cassete, pedala, lê um livro antes de dormir e aprecia cada momento de seus dias ― desconectado e muito-bem-obrigado.</p>

<p>O Japão, famoso por ser um país que consegue equilibrar o moderno e o tradicional, provém totens de pagamento em dinheiro vivo, comunicação empresarial via telefonia pública, retrocomputação utilizada por grandes empresas ― como fax e disquete. Na Índia, onde há talvez o melhor serviço de telefonia do mundo, o cidadão médio faz em torno de 90 ligações por dia.</p>

<h2 id="reinvidicações">Reinvidicações</h2>

<p>São pautas relacionadas ao <em>offpunk</em>:</p>

<p>1) o combate contra a superprodução;</p>

<p>2) o combate contra a obsolescência programada;</p>

<p>3) o combate contra a “internet das coisas”, buscando quebrar o círculo vicioso entre dispositivos interconectados que tomam nosso tempo e sugam nossos dados a fim de alimentar Big Data;</p>

<p>4) o combate contra economia de atenção;</p>

<p>5) a redução da escala de trabalho, que pouco a pouco enfia cada vez mais a atividade laboral no campo virtual;</p>

<p>6) o direito ao lazer, à cidadania e ao trabalho sem a necessidade de um dispositivo digital;</p>

<p>7) a emergência de uma inclusão digital plena das classes mais pobres e de populações idosas, o que conta não só com a acessibilidade de um dispositivo eletrônico, mas também com o letramento digital para a utilização e manutenção autônomas desse mesmo dispositivo, visando uma menor dependência de terceiros.</p>

<p>Defende o colunista italiano Giulio Cavalli:</p>

<blockquote><p>É verdade: a digitalização simplifica, agiliza, e uniformiza procedimentos. Mas somente para quem consegue estar dentro dela. Para todos os demais o futuro é uma porta fechada.</p></blockquote>

<p>― <a href="https://www.lettera43.it/spid-digitalizzazione-pa-esclusione-diritti-sinistra/" rel="nofollow">“Garantir o não digital é um direito, não um retorno ao passado”</a> (lettera43)</p>

<h2 id="instrumentos-offpunk">Instrumentos <em>offpunk</em>:</h2>

<p>1) o dinheiro vivo ― é prático, não demanda nem de eletricidade e nem de internet e garante que os dados pessoais não sejam armazenados em sistemas de Big Data;</p>

<p>2) meios analógicos ― garantem que uma comunicação independente da internet seja possível ou que o objeto seja de fato seu (e não alugado), pois tangível: discos, tocadores de mp3/mp4, rádio, jornais impressos;</p>

<p>3) meios digitais revividos ― e-mail, sites “brutalistas” de baixo custo, câmeras digitais, telefones “burros”;</p>

<p>4) meios de armazenamento e transferência de arquivos ― garantem que dados digitais não sejam surrupiados com uma eventual queda de conexão: discos rígidos, cartões de memória, pendrives, serviços de nuvem autogeridos e locais.</p>

<p>5) protocolos de comunicação alternativa: mensageiros via Bluetooth (Bitchat), Gemini, e-mail criptografado, navegação em cebola (Tor), XMPP.</p>

<h2 id="desafios">Desafios:</h2>

<p>1) ultrapassar as conveniências do digital (pesquisa, tradução de textos, entretenimento fácil, pagamento à distância);</p>

<p>2) acessar espaços sociais permitidos ou facilitados somente pelo digital (concertos, cinema, restaurantes);</p>

<p>3) fazer redes de trabalho sem intermédio do digital.</p>

<hr>

<p>Defendemos o direito inegociável ao não digital. O direito de compartilhar sem intermédio de algoritmos, de organizar-se socialmente sem mediação de plataformas, de resistir ao imperativo da presença em linha.</p>

<p>Enquanto houver monopólio de tecnologia nas garras de umas poucas empresas do Norte Global; enquanto houver vigilância de massa com anuência do Estado; enquanto houver coleta massiva de dados ― e a ausência de transparência quanto ao uso dos dados coletados ―; enquanto houver economia de atenção, que usurpa o nosso valioso tempo livre a fim de que vejamos alguns anúncios em serviços digitais essenciais; enquanto houver infraestruturas impedindo a soberania digital em países do Sul global; enquanto houver digitalização compulsória em um mundo onde a internet não é tratada como direito básico inalienável ― a revolução não será digitalizada.</p>

<p>Este texto foi escrito originalmente em português e é assinado por Arlon de Serra Grande e Lionel Dricot (t.c.c @ploum.mamot.fr).</p>

<p>Verão de 2026.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:tecnologia" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">tecnologia</span></a></p>

<hr>

<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/manifesto-offpunk</guid>
      <pubDate>Fri, 08 May 2026 13:51:02 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Sobre uma nostalgia ortográfica</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/sobre-uma-nostalgia-ortografica</link>
      <description>&lt;![CDATA[Amigos meus, crianças saídas dos anos 2000, suspiram de saudade pelo sinal trema.&#xA;&#xA;Não lhes tiro a razão. &#xA;&#xA;Em uma língua opaca como a portuguesa, na qual a relação entre fala e escrita não é assim transparente, qualquer indicador de pronúncia adequada à norma padrão é bem vindo. &#xA;&#xA;Falo por mim: a falta desse sinal é tanta, que quando quero saber se “u” é pronunciado em ocorrências de “qu” e “gu”, recorro a um velho e grosso dicionário que guardo em casa, onde o trema é ainda marcado.&#xA;&#xA;Mas há outra coisa da qual sinto ainda mais falta do que deste sinal: de quando “k”, “y” e “w” não integravam o alfabeto de língua portuguesa.&#xA;&#xA;Quantos pesadelos esse trio já me causou...&#xA;&#xA;Por mais que, antes do “desacordo ortográfico”, o brasileiro médio já o utilizasse quase que clandestinamente através de nomes próprios (sobretudo de gente trabalhadora) e lojas populares, a presença dessas consoantes demarcava uma linha linguística clara.&#xA;&#xA;Antes do desacordo, quando elas apareciam em um texto lusófono qualquer, era como se nos estivesse dito: “Estamos em terreno estrangeiro”. Logo, ao leitor era sinalizado de que a pronúncia da palavra não era igual às anteriores.&#xA;&#xA;Sim, podemos delimitar este mesmo terreno hoje em dia com o itálico, em caso de texto digitado, ou com aspas, em caso de texto manuscrito; no entanto, antes da aceitação desse trio alienígena, a própria língua delineava suas fronteiras.&#xA;&#xA;Outro dia, estive preocupado com o significado de “typo” (pronunciado “taipo”). Havia, então, esse irascível ípsilon. Escrevo seu nome por extenso para que se veja o quão nauseabundo é. Ípsilon. Imagine a dificuldade que é para uma criança pronunciá-la. Imagine até mesmo suas variantes! ― Luiz Gonzaga, soletrando o alfabeto em famosa canção, canta a letra como “ipsilone”.&#xA;&#xA;Então, folheando um dicionário de inglês-português, dei-me conta desta falta: eu simplesmente não sabia onde ficava o ípsilon no alfabeto anglófono! (E temo que nem algum outro dia o saberei...)  Afinal, minha alfabetização foi anterior à inclusão das três consoantes estrangeiras!&#xA;&#xA;Tentando sanar minha dúvida, passei pelas palavras iniciadas por “ti” (afinal de contas, em alguns países, chamam ípsilon de “i grega” ― logo, a consoante só poderia estar próxima à vogal “i”). Debalde. Para a minha surpresa, ípsilon está mais perto é de “z”!&#xA;&#xA;Já teci até alguns truques para memorizar seus lugares: sei que “k” está algo assim próximo do “j” (tento até lembrar do presidente Juscelino Kubitschek); e que o “w”, cujo nome em português é derivado de “double u” (“duplo u”), deve ficar então perto desta vogal. Mas na hora agá, me escapam esses mnemônicos...&#xA;&#xA;Sou de partido de que a inclusão dessas três letrinhas somente complicou ainda mais a alfabetização no Brasil. Suas posições alfabéticas são mais outros três dados que estudantes escolares ― já muito ocupados em aprender a tabuada de sete, tipos de substantivos e o passinho do Jamal ― vão ter de se preocupar em aprender...&#xA;&#xA;A noção do que é adequado fica cada vez mais confusa quanto mais normas criamos. Isto vale para a sociedade, para a arte e também para a língua.&#xA;&#xA;Além disso tudo, sempre gostei de palavras aportuguesadas.&#xA;&#xA;“Leiaute”, “copidesque” e “uísque” são marcas de um esforço de aclimatar termos técnicos e/ou estrangeiros ao ambiente lusófono ― evitando, assim, a inclusão do trio na língua portuguesa. Achá-las cafonas ou toscas só indicia o viralatismo de um pensamento tecno-elitista, que só consegue comunicar um saber-fazer em inglês ― “prompt”, “brainstorm”, “fork” etc., etc.&#xA;&#xA;Parece conservadorismo da minha parte, mas não, não sou contra estrangeirismos; sou contra o estrangeiro transplantado sem a nossa consciência e consentimento. Entretanto, quando transformamos palavras estrangeiras em língua materna, as domesticamos; quando, porém, estrangeiramos palavras maternas, somos domesticados.&#xA;&#xA;cotidiano&#xA;&#xA;-----------------------------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Amigos meus, crianças saídas dos anos 2000, suspiram de saudade pelo sinal trema.</p>

<p>Não lhes tiro a razão.</p>

<p>Em uma língua opaca como a portuguesa, na qual a relação entre fala e escrita não é assim transparente, qualquer indicador de pronúncia adequada à norma padrão é bem vindo.</p>

<p>Falo por mim: a falta desse sinal é tanta, que quando quero saber se “u” é pronunciado em ocorrências de “qu” e “gu”, recorro a um velho e grosso dicionário que guardo em casa, onde o trema é ainda marcado.</p>

<p>Mas há outra coisa da qual sinto ainda mais falta do que deste sinal: de quando “k”, “y” e “w” não integravam o alfabeto de língua portuguesa.</p>

<p>Quantos pesadelos esse trio já me causou...</p>

<p>Por mais que, antes do “desacordo ortográfico”, o brasileiro médio já o utilizasse quase que clandestinamente através de nomes próprios (sobretudo de gente trabalhadora) e lojas populares, a presença dessas consoantes demarcava uma linha linguística clara.</p>

<p>Antes do desacordo, quando elas apareciam em um texto lusófono qualquer, era como se nos estivesse dito: “Estamos em terreno estrangeiro”. Logo, ao leitor era sinalizado de que a pronúncia da palavra não era igual às anteriores.</p>

<p>Sim, podemos delimitar este mesmo terreno hoje em dia com o itálico, em caso de texto digitado, ou com aspas, em caso de texto manuscrito; no entanto, antes da aceitação desse trio alienígena, a própria língua delineava suas fronteiras.</p>

<p>Outro dia, estive preocupado com o significado de “<em>typo</em>” (pronunciado “taipo”). Havia, então, esse irascível ípsilon. Escrevo seu nome por extenso para que se veja o quão nauseabundo é. Ípsilon. Imagine a dificuldade que é para uma criança pronunciá-la. Imagine até mesmo suas variantes! ― Luiz Gonzaga, soletrando o alfabeto em famosa canção, canta a letra como “ipsilone”.</p>

<p>Então, folheando um dicionário de inglês-português, dei-me conta desta falta: eu simplesmente não sabia onde ficava o ípsilon no alfabeto anglófono! (E temo que nem algum outro dia o saberei...)  Afinal, minha alfabetização foi anterior à inclusão das três consoantes estrangeiras!</p>

<p>Tentando sanar minha dúvida, passei pelas palavras iniciadas por “ti” (afinal de contas, em alguns países, chamam ípsilon de “i grega” ― logo, a consoante só poderia estar próxima à vogal “i”). Debalde. Para a minha surpresa, ípsilon está mais perto é de “z”!</p>

<p>Já teci até alguns truques para memorizar seus lugares: sei que “k” está algo assim próximo do “j” (tento até lembrar do presidente Juscelino Kubitschek); e que o “w”, cujo nome em português é derivado de “<em>double u</em>” (“duplo u”), deve ficar então perto desta vogal. Mas na hora agá, me escapam esses mnemônicos...</p>

<p>Sou de partido de que a inclusão dessas três letrinhas somente complicou ainda mais a alfabetização no Brasil. Suas posições alfabéticas são mais outros três dados que estudantes escolares ― já muito ocupados em aprender a tabuada de sete, tipos de substantivos e o passinho do Jamal ― vão ter de se preocupar em aprender...</p>

<p>A noção do que é adequado fica cada vez mais confusa quanto mais normas criamos. Isto vale para a sociedade, para a arte e também para a língua.</p>

<p>Além disso tudo, sempre gostei de palavras aportuguesadas.</p>

<p>“Leiaute”, “copidesque” e “uísque” são marcas de um esforço de aclimatar termos técnicos e/ou estrangeiros ao ambiente lusófono ― evitando, assim, a inclusão do trio na língua portuguesa. Achá-las cafonas ou toscas só indicia o viralatismo de um pensamento tecno-elitista, que só consegue comunicar um saber-fazer em inglês ― “<em>prompt</em>”, “<em>brainstorm</em>”, “<em>fork</em>” etc., etc.</p>

<p>Parece conservadorismo da minha parte, mas não, não sou contra estrangeirismos; sou contra o estrangeiro transplantado sem a nossa consciência e consentimento. Entretanto, quando transformamos palavras estrangeiras em língua materna, as domesticamos; quando, porém, estrangeiramos palavras maternas, somos domesticados.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:cotidiano" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cotidiano</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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]]></content:encoded>
      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/sobre-uma-nostalgia-ortografica</guid>
      <pubDate>Mon, 04 May 2026 22:06:47 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Como ouço podcasts</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/como-ouco-podcasts</link>
      <description>&lt;![CDATA[Ou: “a escuta podcastal: um dossiê”&#xA;&#xA;Este não é um tutorial de como ouvir podcasts. Isso vocês já sabem: baixa-se um agregador qualquer (eu utilizo o AntennaPod) e segue-se algum programa a partir de uma pesquisa; quando este publicar um novo episódio, se receberá uma notificação e se o reproduzirá ou não.&#xA;&#xA;O que quero falar nesta crônica é sobre uma “pragmática podcastal”, os modos com os quais ouço os queridos programas de áudio.&#xA;&#xA;Ao contrário do texto, o áudio não tem uma recepção previsível. Isto é, ao escrever um texto, sei como o leitor o fruirá ― através da tela de um dispositivo eletrônico móvel (telefone, computador, leitor digital ― Kindle, Kobo, etc.), talvez a partir de um impresso (caso tenha uma impressora, por exemplo); este leitor estará estático ― seja sentado, deitado ou, raras vezes, de pé; talvez com a atenção plena, talvez com breves lapsos de desatenção causada por um pensamento que o texto provocou, por algum barulho que o gato fez, por uma notificação que de algum dispositivo soou...&#xA;&#xA;O mesmo não acontece com o áudio.&#xA;&#xA;Por conta do áudio, permite-se estar em segundo plano, flexibiliza a recepção da informação; acho, pois, que é necessário algo como um “design sonoro” ou “design sonoplástico”, considerando as possibilidades de escuta do programa. A fim de auxiliar estudos nessa área vindoura, aqui vão os modos como escuto podcasts:&#xA;&#xA;1) sentado em ônibus, com fones de ouvidos ― a “base”, uma “posição neutra”, um “grau zero da escuta”, na qual em geral se começa a ouvir os programas e na qual se pode ouvir quaisquer programas de áudio; nesta posição pode se ouvir de tudo, desde noticiário até storytelling; pessoalmente, onde tudo começou, o ponto no qual percebi que o podcast se tornaria uma necessidade básica como água e eletricidade; a propósito, quando eu escutava o infernal “Medo e Delírio em Brasília”, era somente sentado em um banco de ônibus com fones de ouvidos que eu conseguia compreender alguma coisa; o banco de ônibus é tipo de “sinagoga dos podcasts”;&#xA;&#xA;2) lavando louça, com amplificação via Bluetooth; uma posição robusta, que comporta muitas possibilidades; prevista, porém aparentemente pouco considerada, já que algumas vozes e vírgulas sonoras não podem ser ouvidas plenamente por conta da água corrente e do tilintar das panelas ― vozes tenores, como a de Matias Pinto do Xadrez Verbal, ficam em desvantagem nesta posição auditiva; há variações como 2.1) lavando louça, com fones de ouvidos; e 2.2) lavando louça, a partir do alto-falante do telefone ― que requeririam uma atenção especial de sonoplastia;&#xA;&#xA;3) cozinhando, com amplificação via Bluetooth; aqui é que o bicho pega, aqui que a arte do design sonoro deveria entrar em cena; apesar de haver uma certa estabilidade do ouvinte ― afinal, seu único movimento é de em média dois metros, entre a geladeira e o fogão ―, os utensílios domésticos tilintam em demasia; nessa atividade há uma estranha dinâmica de “pianos” e “fortes”, com momentos de calmaria, como quando a água está fervendo na panela, intercalados com momentos de cacofonia e ruídos intermitentes, como quando o óleo quente recebe a tal “mistura”; nenhuma voz, vírgula, música ou qualquer outro som grosso suporta a um tonitruante ssssSSSSSHHHHHHHHHHhhhhh;&#xA;&#xA;4) escovando os dentes, a partir dos alto-falantes do telefone; à frente da posição “escutando no ônibus com fones de ouvido”, esta é aquela na qual sinto mais plenitude mental ― ou “mentitude” (para não utilizar o irascível mindfulness) ―, nesta atividade acústica ou em qualquer outra de quaisquer outros tipos; ao contrário de seu predecessor “escutando no ônibus com fones de ouvidos”, quando se escuta um episódio de podcast no banheiro durante a escovação, nada de mau pode acontecer; o movimento de escovação dentária é algo como um estímulo à atenção auditiva, é uma espécie de mantra tátil-acústico; um metassigno ― limpa-se os dentes ao tempo em que se limpa a mente (um “paramorfismo”, em termos de Semiótica); ao meu ver, todo programa de áudio deveria ser desenhado para que fosse otimizado nesta ocasião; parafraseando Junichiro Tanizaki, foi nos momentos de escuta simultânea à escovação dentária que os poetas fizeram seus melhores poemas...; ouvir programas como Manual do Usuário, com a suave voz de Rodrigo Ghedin, ao tempo que se escovam os dentes, é análogo à prática da meditação; variações como “escovando os dentes com fones de ouvidos” não surtem o mesmo efeito de mentitude, uma vez que o som da escova compete com o do áudio ― o crânio, como boa caixa acústica que é, amplifica o ruído de suas cerdas ―; dessa forma, dessacraliza-se este que é um modelo de receptividade acústica, uma “posição de lótus” do ouvinte; como nada é perfeito, por conta do curto período da higiene bucal, não é possível usufruir de muitos episódios nesta posição ― mas, estendendo a escovação, quão brancos meus dentes ficaram desde que comecei a ouvir podcasts depois de terminar o almoço...;&#xA;&#xA;5) caminhando, com fones de ouvidos; postura extremamente superestimada, uma vez que o “podespectador” tem de lidar com toda sorte de intempéries e ruídos externos; por exemplo, na posição pré-sentado-no-ônibus-com-fones-de-ouvidos, isto é, quando se está prestes a pegar a condução, o ouvinte é incapaz de se ater a quaisquer palavras ditas que sejam; tudo se trata de não perder o transporte, passar na catraca e sentar o mais rápido possível, com a chance de permanecer de pé a viagem inteira;&#xA;&#xA;6) deitado na cama, via alto-falantes do telefone; outro modelo bem estabelecido; algumas aplicações de podcasts (como o supracitado AntennaPod) otimizam-no com recurso temporizador agendado, a partir do qual, em determinada hora, o episódio é pausado após um determinado tempo ― ideal para quem escuta antes de dormir; inclusive, alguns podcasts, como o famigerado “Ser Sonoro”, foram desenhados especificamente para serem escutados única e exclusivamente na cama, antes de dormir.&#xA;&#xA;Quem dera se todo programa de áudio aplicasse um UX listen design dessa forma!&#xA;&#xA;cotidiano&#xA;&#xA;-----------------------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h3 id="ou-a-escuta-podcastal-um-dossiê">Ou: “a escuta podcastal: um dossiê”</h3>

<p>Este não é um tutorial de como ouvir podcasts. Isso vocês já sabem: baixa-se um agregador qualquer (eu utilizo o AntennaPod) e segue-se algum programa a partir de uma pesquisa; quando este publicar um novo episódio, se receberá uma notificação e se o reproduzirá ou não.</p>

<p>O que quero falar nesta crônica é sobre uma “pragmática podcastal”, os modos com os quais ouço os queridos programas de áudio.</p>

<p>Ao contrário do texto, o áudio não tem uma recepção previsível. Isto é, ao escrever um texto, sei como o leitor o fruirá ― através da tela de um dispositivo eletrônico móvel (telefone, computador, leitor digital ― Kindle, Kobo, etc.), talvez a partir de um impresso (caso tenha uma impressora, por exemplo); este leitor estará estático ― seja sentado, deitado ou, raras vezes, de pé; talvez com a atenção plena, talvez com breves lapsos de desatenção causada por um pensamento que o texto provocou, por algum barulho que o gato fez, por uma notificação que de algum dispositivo soou...</p>

<p>O mesmo não acontece com o áudio.</p>

<p>Por conta do áudio, permite-se estar em segundo plano, flexibiliza a recepção da informação; acho, pois, que é necessário algo como um “<em>design</em> sonoro” ou “<em>design</em> sonoplástico”, considerando as possibilidades de escuta do programa. A fim de auxiliar estudos nessa área vindoura, aqui vão os modos como escuto podcasts:</p>

<p>1) sentado em ônibus, com fones de ouvidos ― a “base”, uma “posição neutra”, um “grau zero da escuta”, na qual em geral se começa a ouvir os programas e na qual se pode ouvir quaisquer programas de áudio; nesta posição pode se ouvir de tudo, desde noticiário até <em>storytelling</em>; pessoalmente, onde tudo começou, o ponto no qual percebi que o podcast se tornaria uma necessidade básica como água e eletricidade; a propósito, quando eu escutava o infernal “Medo e Delírio em Brasília”, era somente sentado em um banco de ônibus com fones de ouvidos que eu conseguia compreender alguma coisa; o banco de ônibus é tipo de “sinagoga dos podcasts”;</p>

<p>2) lavando louça, com amplificação via Bluetooth; uma posição robusta, que comporta muitas possibilidades; prevista, porém aparentemente pouco considerada, já que algumas vozes e vírgulas sonoras não podem ser ouvidas plenamente por conta da água corrente e do tilintar das panelas ― vozes tenores, como a de Matias Pinto do Xadrez Verbal, ficam em desvantagem nesta posição auditiva; há variações como 2.1) lavando louça, com fones de ouvidos; e 2.2) lavando louça, a partir do alto-falante do telefone ― que requeririam uma atenção especial de sonoplastia;</p>

<p>3) cozinhando, com amplificação via Bluetooth; aqui é que o bicho pega, aqui que a arte do design sonoro deveria entrar em cena; apesar de haver uma certa estabilidade do ouvinte ― afinal, seu único movimento é de em média dois metros, entre a geladeira e o fogão ―, os utensílios domésticos tilintam em demasia; nessa atividade há uma estranha dinâmica de “pianos” e “fortes”, com momentos de calmaria, como quando a água está fervendo na panela, intercalados com momentos de cacofonia e ruídos intermitentes, como quando o óleo quente recebe a tal “mistura”; nenhuma voz, vírgula, música ou qualquer outro som grosso suporta a um tonitruante ssssSSSSSHHHHHHHHHHhhhhh;</p>

<p>4) escovando os dentes, a partir dos alto-falantes do telefone; à frente da posição “escutando no ônibus com fones de ouvido”, esta é aquela na qual sinto mais plenitude mental ― ou “mentitude” (para não utilizar o irascível <em>mindfulness</em>) ―, nesta atividade acústica ou em qualquer outra de quaisquer outros tipos; ao contrário de seu predecessor “escutando no ônibus com fones de ouvidos”, quando se escuta um episódio de podcast no banheiro durante a escovação, nada de mau pode acontecer; o movimento de escovação dentária é algo como um estímulo à atenção auditiva, é uma espécie de mantra tátil-acústico; um metassigno ― limpa-se os dentes ao tempo em que se limpa a mente (um “paramorfismo”, em termos de Semiótica); ao meu ver, todo programa de áudio deveria ser desenhado para que fosse otimizado nesta ocasião; parafraseando Junichiro Tanizaki, foi nos momentos de escuta simultânea à escovação dentária que os poetas fizeram seus melhores poemas...; ouvir programas como Manual do Usuário, com a suave voz de Rodrigo Ghedin, ao tempo que se escovam os dentes, é análogo à prática da meditação; variações como “escovando os dentes com fones de ouvidos” não surtem o mesmo efeito de mentitude, uma vez que o som da escova compete com o do áudio ― o crânio, como boa caixa acústica que é, amplifica o ruído de suas cerdas ―; dessa forma, dessacraliza-se este que é um modelo de receptividade acústica, uma “posição de lótus” do ouvinte; como nada é perfeito, por conta do curto período da higiene bucal, não é possível usufruir de muitos episódios nesta posição ― mas, estendendo a escovação, quão brancos meus dentes ficaram desde que comecei a ouvir podcasts depois de terminar o almoço...;</p>

<p>5) caminhando, com fones de ouvidos; postura extremamente superestimada, uma vez que o “podespectador” tem de lidar com toda sorte de intempéries e ruídos externos; por exemplo, na posição pré-sentado-no-ônibus-com-fones-de-ouvidos, isto é, quando se está prestes a pegar a condução, o ouvinte é incapaz de se ater a quaisquer palavras ditas que sejam; tudo se trata de não perder o transporte, passar na catraca e sentar o mais rápido possível, com a chance de permanecer de pé a viagem inteira;</p>

<p>6) deitado na cama, via alto-falantes do telefone; outro modelo bem estabelecido; algumas aplicações de podcasts (como o supracitado AntennaPod) otimizam-no com recurso temporizador agendado, a partir do qual, em determinada hora, o episódio é pausado após um determinado tempo ― ideal para quem escuta antes de dormir; inclusive, alguns podcasts, como o famigerado “Ser Sonoro”, foram desenhados especificamente para serem escutados única e exclusivamente na cama, antes de dormir.</p>

<p>Quem dera se todo programa de áudio aplicasse um <em>UX listen design</em> dessa forma!</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:cotidiano" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">cotidiano</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/como-ouco-podcasts</guid>
      <pubDate>Tue, 21 Apr 2026 00:50:52 +0000</pubDate>
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      <title>Notas costuradas</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-costuradas-11qr</link>
      <description>&lt;![CDATA[Imagem de um homem vestindo terno com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo&#xA;&#xA;Imagem: Robert Longo ― via Flashbak&#xA;&#xA;Como é de hábito, sempre que publico um textão, costuro algumas notas.&#xA;&#xA;Para quem ficou interessado pelo Manifesto Offpunk: sim, o escrevi todo em português, mas publiquei em inglês para dar-lhe um maior alcance. Logo mais publicarei a versão original, e mês que vem, se tudo der certo, sai também uma versão em francês, traduzida pelo @ploum@mamot.fr.&#xA;&#xA;Primeira experiência com newsletter&#xA;&#xA;Subscrevi a uma newsletter pela primeira vez. Substack, para variar. Costumava seguir algumas dessas revistinhas por RSS, mas a integração com o protocolo é ridícula, sempre quebra dentro do agregador e, na maioria das vezes, requer conexão ininterrupta ― o que não tem nadas a ver com o éthos do RSS. No ato da subscrição, apareceram mais uns dois popapes pedindo para seguir outras revistinhas. Substack já nasceu emerdificado. Mas a ver como será essa experiência. Ainda preferirei RSS de qualquer modo.&#xA;&#xA;Imagem de um homem vestindo terno com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo&#xA;&#xA;Imagem: Robert Longo ― via Flashbak&#xA;&#xA;Um tratado universal para netiquetas&#xA;&#xA;Está mais do que na hora de criarem uma lista universal de netiquetas, da qual independe de plataforma. Eu incluiria uma: se for deixar de seguir uma pessoa, bloqueie e desbloqueie em seguida, a fim de tirá-la da sua lista de seguidores. Isso é básico.&#xA;&#xA;Porque precisamos garantir o não digital &#xA;&#xA;Forçaram tanto os mais velhos a usar um smartphone, que agora os coitados não sabem nem ligar o aparelho quando ele desliga, puxar cortina de configurações ― nada. Uma senhorinha que mantém um sítio na fronteira entre Piauí e Ceará estava me pedindo ajuda porque entrou na aba de “Whatstatus” e não sabia voltar para o chat. Esse é o nível de desbalanço em que nos colocaram. Praticamente jogaram os idosos na digitalização e eles levam caldo da tecnologia todo santo dia.&#xA;&#xA;Imagem de uma mulher vestindo roupa formal com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo&#xA;&#xA;Imagem: Robert Longo ― via Flashbak&#xA;&#xA;Linkroll&#xA;&#xA;Artigo da Intercept Brasil com uma entrevista do pesquisador belga Mark Coeckelbergh, da área de Filosofia da Mídia, sobre a atual relação entre as BigTech e o governo estadunidense.&#xA;&#xA;Alguns trechos que me chamaram a atenção:&#xA;&#xA;  A diferença [entre fascismo e tecnofascismo], segundo ele [Coeckelbergh], é que, enquanto líderes autoritários como Adolf Hitler lançavam mão abertamente de violência, repressão a vozes dissidentes e dependiam de movimentos de massa para ter legitimidade, o tecnofascismo oferece ferramentas de controle mais silenciosas, menos visíveis e mais precisas: os algoritmos. Diferentemente do fascismo clássico, o tecnofascismo não precisou forçar as pessoas ou criar medo. As ferramentas tecnológicas atuais, como os algoritmos, conseguem saber do que você precisa antes mesmo que imagine. Com isso, as pessoas foram dominadas pelo prazer e pela conveniência oferecidos pela IA e suas corporações, tornando-se seres dóceis e obedientes.&#xA;&#xA;  [Mark Coeckelbergh:] Os EUA e o Vale do Silício têm essa ideologia neoliberal, muito anti-Estado, livre-mercado, libertários. Mas ao mesmo tempo, a tecnologia nos EUA é definitivamente financiada pelo governo através do Departamento de Defesa, por exemplo, agora chamado de Departamento da Guerra. Há definitivamente ligações financeiras entre governos e big techs.&#xA;&#xA;  Eu defendo uma visão em que os seres humanos se relacionem mais entre si, e um futuro que tenha mais essa característica. Precisamos de tecnologias que são agregadoras, que unam as pessoas em vez de isolá-las, que permitam ação coletiva, deliberação.&#xA;&#xA;• Entrevista: Como a IA abre caminho para o tecnofascismo&#xA;&#xA;Imagem de uma mulher vestindo roupa formal com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo&#xA;&#xA;Imagem: Robert Longo ― via Flashbak&#xA;&#xA;Campanha publicitária da Forbrukerradet (tente pronunciá-lo), um “conselho de cliente” norueguesa, satirizando a emerdificação digital através de um personagem que escalou na vida piorando produtos.&#xA;&#xA;• A Day in the Life of an Enshittificator (Youtube)&#xA;&#xA;“Combata o Câncer” é uma campanha da VML Health e da Fuck Cancer com uma ideia inusitada: eles sugerem que você se masturbe 21 vezes por mês. Pesquisas mostram que essa frequência de ejaculação pode reduzir o risco de câncer de próstata em até 22%:&#xA;&#xA;Beat Cancer Off (letsfcancer ― Youtube)&#xA;&#xA;“Possíveis distúrbios cognitivos-comportamentais induzidos pela tecnologia”, é um esquema satírico feito pela VIZsweet e com apoio da @infoisbeautiful@vis.social, que nos faz pensar na nossa relação com tecnologias e dispositivos eletrônicos em geral&#xA;&#xA;“Possible tech-induced cognitive-behavioural disorders” (Information is Beautiful)&#xA;&#xA;Não gosto tanto de ouvir Rádio Novelo, mas curti muito esse episódio em que as locutoras entrevistam um colecionador de correio de voz, uma mídia física (disco de vinil e mais tarde fita cassete) gravada nos correios e enviado por carta, muito popular no começo do século passado, em um tempo em que telefone ainda era coisa de alienígena.&#xA;&#xA;Vozes do Além (Rádio Novelo Apresenta)&#xA;&#xA;Imagem de um homem vestindo terno com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo&#xA;&#xA;Imagem: Robert Longo ― via Flashbak&#xA;&#xA;Uma calculadora que estima quanto os anunciantes pagam para se exibirem a você. Para o meu perfil, pagam 36 centavos de dólar por hora de anúncio. Parece pouco, mas é mais de R$ 273 por mês.&#xA;&#xA;What&#39;s Your Attention Worth | The Ad Spend Calculator&#xA;&#xA;Sítio oficial do Décio Pignatari, poeta, tradutor e pensador do Brasil, um dos iniciadores da Poesia Concreta. O espaço virtual foi desenhado pela designer e também poeta André Valias, no aniversário de morte de 10 anos do Décio, em 2022. Das coisas que eu acho mais incríveis nesse sítio é a aba de traduções, posta em ordem cronológica; as traduções do DP vão de Safo à Tsevetaeva, quase dois milênios de poesias...&#xA;&#xA;SITE OFICIAL ― DÉCIO PIGNATARI&#xA;&#xA;Ainda sobre Poesia Concreta, um sítio com o acervo de todas as edições da Revista Código, uma das revistas nas quais os poetas concretos publicavam suas poesias. Para quem curte design e poesia de vanguarda, são um prato cheio de inspiração. Sempre que tenho um tempinho, dou uma visitada na Revista Código.&#xA;&#xA;codigorevista.org&#xA;&#xA;Citações&#xA;&#xA;  Uma coisa que eu gostava quando fazia karatê é que nós, faixas brancas, éramos orientados pelos faixas amarelas, poupando o sensei e os karatecas mais experientes de ficar nos ensinando coisas muito básicas. Eu queria que tudo na vida funcionasse meio que desse jeito. Exemplo: nesse sistema eu seria faixa preta em viajar de ônibus, se você não sabe se esse ônibus vai pra Paulínia ou pra Cosmópolis, pergunta ali pro faixa amarela, não enche a porra do meu saco.&#xA;&#xA;― @felipesiles@ayom.media&#xA;&#xA;  (Abro uma pausa parentética para uma “digressão curiosa”, qual seja concernente ao destino de certas pessoas em relação ao próprio nome. Esse Schoenmaekers, por exemplo: seu nome, provável corruptela “melhorada” de “schömaekers” ― “sapateiro(s)”, em holandês quer dizer “fazedor(es) do belo”... Edgar Poe tinha o destino inscrito no próprio nome: poe(ta), poe(t). Contraditório o destino de outro grande poeta de nosso século, Ezra Pound. Com prenome bíblico, apoiou o fascismo de Mussolini e foi acusado de anti-semitismo; filho de Homer Pound (que foi funcionário da Casa da Moeda estadunidense), chegou a escrever ensaios e panfletos sobre a reforma monetária, para não dizer que o tema da usura é um dos temas centrais de seu poema épico, The cantos (Pound, como se sabe, quer dizer libra) Já Mallarmé (= “mal armado”) sofreu desde os bancos escolares, fez do erotismo um de seus temas fálico-secretos. Para acréscimo de seus males, era de baixa estatura ― e mais sofreria ainda por sua obra, objeto de ataques constantes e até rasteiros. Fernando Pessoa negou o nome, dividindo-se em outras pessoas e outros nomes ― os famosos heterônimos (Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Albero Caeiro). Waldemar Cordeiro, com seus 1,90 m de altura, foi o rebelde e agressivo líder dos artistas concretos de São Paulo, na década de 50. E Mondrian, ao ouvir e pensar o seu nome à francesa, não podia deixar de pensar, ver e ouvir “Monde/Rien” [Mundo/Nada]&#xA;&#xA;― Décio Pignatari em “Semiótica da Arte e da Arquitetura”.&#xA;&#xA;notas&#xA;&#xA;--------------------------&#xA;&#xA;CC BY-SA 4.0 • Ideias de Chirico • Comente isto via e-mail • Inscreva-se na newsletter&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;-------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://flashbak.com/wp-content/uploads/2026/04/men-in-the-cities-21-640x923.jpg" alt="Imagem de um homem vestindo terno com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo"></p>

<h5 id="imagem-robert-longo-via-flashbak-https-flashbak-com-men-in-the-city-482513">Imagem: Robert Longo ― via <a href="https://flashbak.com/men-in-the-city-482513/" rel="nofollow">Flashbak</a></h5>

<p>Como é de hábito, sempre que publico um textão, costuro algumas notas.</p>

<p>Para quem ficou interessado pelo Manifesto Offpunk: sim, o escrevi todo em português, mas publiquei em inglês para dar-lhe um maior alcance. Logo mais publicarei a versão original, e mês que vem, se tudo der certo, sai também uma versão em francês, traduzida pelo <a href="https://blog.ayom.media/@/ploum@mamot.fr" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>ploum@mamot.fr</span></a>.</p>

<h2 id="primeira-experiência-com-newsletter">Primeira experiência com newsletter</h2>

<p>Subscrevi a uma newsletter pela primeira vez. Substack, para variar. Costumava seguir algumas dessas revistinhas por RSS, mas a integração com o protocolo é ridícula, sempre quebra dentro do agregador e, na maioria das vezes, requer conexão ininterrupta ― o que não tem nadas a ver com o éthos do RSS. No ato da subscrição, apareceram mais uns dois popapes pedindo para seguir outras revistinhas. Substack já nasceu emerdificado. Mas a ver como será essa experiência. Ainda preferirei RSS de qualquer modo.</p>

<p><img src="https://flashbak.com/wp-content/uploads/2026/04/men-in-the-cities-17-640x923.jpg" alt="Imagem de um homem vestindo terno com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo"></p>

<h5 id="imagem-robert-longo-via-flashbak-https-flashbak-com-men-in-the-city-482513-1">Imagem: Robert Longo ― via <a href="https://flashbak.com/men-in-the-city-482513/" rel="nofollow">Flashbak</a></h5>

<h2 id="um-tratado-universal-para-netiquetas">Um tratado universal para netiquetas</h2>

<p>Está mais do que na hora de criarem uma lista universal de netiquetas, da qual independe de plataforma. Eu incluiria uma: se for deixar de seguir uma pessoa, bloqueie e desbloqueie em seguida, a fim de tirá-la da sua lista de seguidores. Isso é básico.</p>

<h2 id="porque-precisamos-garantir-o-não-digital">Porque precisamos garantir o não digital</h2>

<p>Forçaram tanto os mais velhos a usar um smartphone, que agora os coitados não sabem nem ligar o aparelho quando ele desliga, puxar cortina de configurações ― nada. Uma senhorinha que mantém um sítio na fronteira entre Piauí e Ceará estava me pedindo ajuda porque entrou na aba de “Whatstatus” e não sabia voltar para o chat. Esse é o nível de desbalanço em que nos colocaram. Praticamente jogaram os idosos na digitalização e eles levam caldo da tecnologia todo santo dia.</p>

<p><img src="https://flashbak.com/wp-content/uploads/2026/04/men-in-the-cities-6-640x923.jpg" alt="Imagem de uma mulher vestindo roupa formal com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo"></p>

<h5 id="imagem-robert-longo-via-flashbak-https-flashbak-com-men-in-the-city-482513-2">Imagem: Robert Longo ― via <a href="https://flashbak.com/men-in-the-city-482513/" rel="nofollow">Flashbak</a></h5>

<h2 id="linkroll">Linkroll</h2>

<p>Artigo da Intercept Brasil com uma entrevista do pesquisador belga Mark Coeckelbergh, da área de Filosofia da Mídia, sobre a atual relação entre as BigTech e o governo estadunidense.</p>

<p>Alguns trechos que me chamaram a atenção:</p>

<blockquote><p>A diferença [entre fascismo e tecnofascismo], segundo ele [Coeckelbergh], é que, enquanto líderes autoritários como Adolf Hitler lançavam mão abertamente de violência, repressão a vozes dissidentes e dependiam de movimentos de massa para ter legitimidade, o tecnofascismo oferece ferramentas de controle mais silenciosas, menos visíveis e mais precisas: os algoritmos. Diferentemente do fascismo clássico, o tecnofascismo não precisou forçar as pessoas ou criar medo. As ferramentas tecnológicas atuais, como os algoritmos, conseguem saber do que você precisa antes mesmo que imagine. Com isso, as pessoas foram dominadas pelo prazer e pela conveniência oferecidos pela IA e suas corporações, tornando-se seres dóceis e obedientes.</p>

<p>[Mark Coeckelbergh:] Os EUA e o Vale do Silício têm essa ideologia neoliberal, muito anti-Estado, livre-mercado, libertários. Mas ao mesmo tempo, a tecnologia nos EUA é definitivamente financiada pelo governo através do Departamento de Defesa, por exemplo, agora chamado de Departamento da Guerra. Há definitivamente ligações financeiras entre governos e big techs.</p>

<p>Eu defendo uma visão em que os seres humanos se relacionem mais entre si, e um futuro que tenha mais essa característica. Precisamos de tecnologias que são agregadoras, que unam as pessoas em vez de isolá-las, que permitam ação coletiva, deliberação.</p></blockquote>

<p><a href="https://www.intercept.com.br/2026/03/26/entrevista-como-a-ia-abre-caminho-para-o-tecnofascismo/" rel="nofollow">• Entrevista: Como a IA abre caminho para o tecnofascismo</a></p>

<p><img src="https://flashbak.com/wp-content/uploads/2026/04/men-in-the-cities-15-640x923.jpg" alt="Imagem de uma mulher vestindo roupa formal com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo"></p>

<h5 id="imagem-robert-longo-via-flashbak-https-flashbak-com-men-in-the-city-482513-3">Imagem: Robert Longo ― via <a href="https://flashbak.com/men-in-the-city-482513/" rel="nofollow">Flashbak</a></h5>

<p>Campanha publicitária da Forbrukerradet (tente pronunciá-lo), um “conselho de cliente” norueguesa, satirizando a emerdificação digital através de um personagem que escalou na vida piorando produtos.</p>

<p><a href="https://youtu.be/T4Upf_B9RLQ" rel="nofollow">• A Day in the Life of an Enshittificator</a> (Youtube)</p>

<p>“Combata o Câncer” é uma campanha da VML Health e da Fuck Cancer com uma ideia inusitada: eles sugerem que você se masturbe 21 vezes por mês. Pesquisas mostram que essa frequência de ejaculação pode reduzir o risco de câncer de próstata em até 22%:</p>

<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=UGD0TAkwdOA&amp;t=99" rel="nofollow">Beat Cancer Off</a> (letsfcancer ― Youtube)</p>

<p>“Possíveis distúrbios cognitivos-comportamentais induzidos pela tecnologia”, é um esquema satírico feito pela VIZsweet e com apoio da <a href="https://blog.ayom.media/@/infoisbeautiful@vis.social" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>infoisbeautiful@vis.social</span></a>, que nos faz pensar na nossa relação com tecnologias e dispositivos eletrônicos em geral</p>

<p><a href="https://informationisbeautiful.net/visualizations/intermental/" rel="nofollow">“Possible tech-induced cognitive-behavioural disorders”</a> (Information is Beautiful)</p>

<p>Não gosto tanto de ouvir Rádio Novelo, mas curti muito esse episódio em que as locutoras entrevistam um colecionador de correio de voz, uma mídia física (disco de vinil e mais tarde fita cassete) gravada nos correios e enviado por carta, muito popular no começo do século passado, em um tempo em que telefone ainda era coisa de alienígena.</p>

<p><a href="https://radionovelo.com.br/originais/apresenta/vozes-do-alem/" rel="nofollow">Vozes do Além</a> (Rádio Novelo Apresenta)</p>

<p><img src="https://flashbak.com/wp-content/uploads/2026/04/men-in-the-cities-14-640x923.jpeg" alt="Imagem de um homem vestindo terno com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo"></p>

<h5 id="imagem-robert-longo-via-flashbak-https-flashbak-com-men-in-the-city-482513-4">Imagem: Robert Longo ― via <a href="https://flashbak.com/men-in-the-city-482513/" rel="nofollow">Flashbak</a></h5>

<p>Uma calculadora que estima quanto os anunciantes pagam para se exibirem a você. Para o meu perfil, pagam 36 centavos de dólar por hora de anúncio. Parece pouco, mas é mais de R$ 273 por mês.</p>

<p><a href="https://attentionworth.com/" rel="nofollow">What&#39;s Your Attention Worth | The Ad Spend Calculator</a></p>

<p>Sítio oficial do Décio Pignatari, poeta, tradutor e pensador do Brasil, um dos iniciadores da Poesia Concreta. O espaço virtual foi desenhado pela designer e também poeta André Valias, no aniversário de morte de 10 anos do Décio, em 2022. Das coisas que eu acho mais incríveis nesse sítio é a aba de traduções, posta em ordem cronológica; as traduções do DP vão de Safo à Tsevetaeva, quase dois milênios de poesias...</p>

<p><a href="https://deciopignatari.com/" rel="nofollow">SITE OFICIAL ― DÉCIO PIGNATARI</a></p>

<p>Ainda sobre Poesia Concreta, um sítio com o acervo de todas as edições da Revista Código, uma das revistas nas quais os poetas concretos publicavam suas poesias. Para quem curte design e poesia de vanguarda, são um prato cheio de inspiração. Sempre que tenho um tempinho, dou uma visitada na Revista Código.</p>

<p><a href="https://www.codigorevista.org/nave/" rel="nofollow">codigorevista.org</a></p>

<h2 id="citações">Citações</h2>

<blockquote><p>Uma coisa que eu gostava quando fazia karatê é que nós, faixas brancas, éramos orientados pelos faixas amarelas, poupando o sensei e os karatecas mais experientes de ficar nos ensinando coisas muito básicas. Eu queria que tudo na vida funcionasse meio que desse jeito. Exemplo: nesse sistema eu seria faixa preta em viajar de ônibus, se você não sabe se esse ônibus vai pra Paulínia ou pra Cosmópolis, pergunta ali pro faixa amarela, não enche a porra do meu saco.</p></blockquote>

<p>― <a href="https://ayom.media/@felipesiles/116308755672094914" rel="nofollow"><a href="https://blog.ayom.media/@/felipesiles@ayom.media" class="u-url mention" rel="nofollow">@<span>felipesiles@ayom.media</span></a></a></p>

<blockquote><p>(Abro uma pausa parentética para uma “digressão curiosa”, qual seja concernente ao destino de certas pessoas em relação ao próprio nome. Esse Schoenmaekers, por exemplo: seu nome, provável corruptela “melhorada” de “schömaekers” ― “sapateiro(s)”, em holandês quer dizer “fazedor(es) do belo”... Edgar Poe tinha o destino inscrito no próprio nome: poe(ta), poe(t). Contraditório o destino de outro grande poeta de nosso século, Ezra Pound. Com prenome bíblico, apoiou o fascismo de Mussolini e foi acusado de anti-semitismo; filho de Homer Pound (que foi funcionário da Casa da Moeda estadunidense), chegou a escrever ensaios e panfletos sobre a reforma monetária, para não dizer que o tema da <em>usura</em> é um dos temas centrais de seu poema épico, <em>The cantos</em> (Pound, como se sabe, quer dizer libra) Já Mallarmé (= “mal armado”) sofreu desde os bancos escolares, fez do erotismo um de seus temas fálico-secretos. Para acréscimo de seus males, era de baixa estatura ― e mais sofreria ainda por sua obra, objeto de ataques constantes e até rasteiros. Fernando Pessoa negou o nome, dividindo-se em outras pessoas e outros nomes ― os famosos heterônimos (Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Albero Caeiro). Waldemar Cordeiro, com seus 1,90 m de altura, foi o rebelde e agressivo líder dos artistas concretos de São Paulo, na década de 50. E Mondrian, ao ouvir e pensar o seu nome à francesa, não podia deixar de pensar, ver e ouvir “<em>Monde/Rien</em>” [Mundo/Nada]</p></blockquote>

<p>― Décio Pignatari em “Semiótica da Arte e da Arquitetura”.</p>

<p><a href="/ideiasdechirico/tag:notas" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">notas</span></a></p>

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<p><a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt-br" rel="nofollow">CC BY-SA 4.0</a> • <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> • <a href="mailto:arlondeserragrande@disroot.org" rel="nofollow">Comente isto via e-mail</a> • <a href="https://app.nouri.sh/campaigns/7728/subscribers/new" rel="nofollow">Inscreva-se na newsletter</a></p>

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      <guid>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-costuradas-11qr</guid>
      <pubDate>Fri, 17 Apr 2026 00:12:10 +0000</pubDate>
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