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    <title>Ayom Blog Reader</title>
    <link>https://blog.ayom.media</link>
    <description>Read the latest posts from Ayom Blog.</description>
    <pubDate>Sat, 25 Apr 2026 14:20:41 +0000</pubDate>
    <item>
      <title>Como ouço podcasts</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/como-ouco-podcasts</link>
      <description>&lt;![CDATA[Ou: “a escuta podcastal: um dossiê”&#xA;&#xA;Este não é um tutorial de como ouvir podcasts. Isso vocês já sabem: baixa-se um agregador qualquer (eu utilizo o AntennaPod) e segue-se algum programa a partir de uma pesquisa; quando este publicar um novo episódio, se receberá uma notificação e se o reproduzirá ou não.&#xA;&#xA;O que quero falar nesta crônica é sobre uma “pragmática podcastal”, os modos com os quais ouço os queridos programas de áudio.&#xA;&#xA;Ao contrário do texto, o áudio não tem uma recepção previsível. Isto é, ao escrever um texto, sei como o leitor o fruirá ― através da tela de um dispositivo eletrônico móvel (telefone, computador, leitor digital ― Kindle, Kobo, etc.), talvez a partir de um impresso (caso tenha uma impressora, por exemplo); este leitor estará estático ― seja sentado, deitado ou, raras vezes, de pé; talvez com a atenção plena, talvez com breves lapsos de desatenção causada por um pensamento que o texto provocou, por algum barulho que o gato fez, por uma notificação que de algum dispositivo soou...&#xA;&#xA;O mesmo não acontece com o áudio.&#xA;&#xA;Por conta do áudio, permite-se estar em segundo plano, flexibiliza a recepção da informação; acho, pois, que é necessário algo como um “design sonoro” ou “design sonoplástico”, considerando as possibilidades de escuta do programa. A fim de auxiliar estudos nessa área vindoura, aqui vão os modos como escuto podcasts:&#xA;&#xA;1) sentado em ônibus, com fones de ouvidos ― a “base”, uma “posição neutra”, um “grau zero da escuta”, na qual em geral se começa a ouvir os programas e na qual se pode ouvir quaisquer programas de áudio; nesta posição pode se ouvir de tudo, desde noticiário até storytelling; pessoalmente, onde tudo começou, o ponto no qual percebi que o podcast se tornaria uma necessidade básica como água e eletricidade; a propósito, quando eu escutava o infernal “Medo e Delírio em Brasília”, era somente sentado em um banco de ônibus com fones de ouvidos que eu conseguia compreender alguma coisa; o banco de ônibus é tipo de “sinagoga dos podcasts”;&#xA;&#xA;2) lavando louça, com amplificação via Bluetooth; uma posição robusta, que comporta muitas possibilidades; prevista, porém aparentemente pouco considerada, já que algumas vozes e vírgulas sonoras não podem ser ouvidas plenamente por conta da água corrente e do tilintar das panelas ― vozes tenores, como a de Matias Pinto do Xadrez Verbal, ficam em desvantagem nesta posição auditiva; há variações como 2.1) lavando louça, com fones de ouvidos; e 2.2) lavando louça, a partir do alto-falante do telefone ― que requeririam uma atenção especial de sonoplastia;&#xA;&#xA;3) cozinhando, com amplificação via Bluetooth; aqui é que o bicho pega, aqui que a arte do design sonoro deveria entrar em cena; apesar de haver uma certa estabilidade do ouvinte ― afinal, seu único movimento é de em média dois metros, entre a geladeira e o fogão ―, os utensílios domésticos tilintam em demasia; nessa atividade há uma estranha dinâmica de “pianos” e “fortes”, com momentos de calmaria, como quando a água está fervendo na panela, intercalados com momentos de cacofonia e ruídos intermitentes, como quando o óleo quente recebe a tal “mistura”; nenhuma voz, vírgula, música ou qualquer outro som grosso suporta a um tonitruante ssssSSSSSHHHHHHHHHHhhhhh;&#xA;&#xA;4) escovando os dentes, a partir dos alto-falantes do telefone; à frente da posição “escutando no ônibus com fones de ouvido”, esta é aquela na qual sinto mais plenitude mental ― ou “mentitude” (para não utilizar o irascível mindfulness) ―, nesta atividade acústica ou em qualquer outra de quaisquer outros tipos; ao contrário de seu predecessor “escutando no ônibus com fones de ouvidos”, quando se escuta um episódio de podcast no banheiro durante a escovação, nada de mau pode acontecer; o movimento de escovação dentária é algo como um estímulo à atenção auditiva, é uma espécie de mantra tátil-acústico; um metassigno ― limpa-se os dentes ao tempo em que se limpa a mente (um “paramorfismo”, em termos de Semiótica); ao meu ver, todo programa de áudio deveria ser desenhado para que fosse otimizado nesta ocasião; parafraseando Junichiro Tanizaki, foi nos momentos de escuta simultânea à escovação dentária que os poetas fizeram seus melhores poemas...; ouvir programas como Manual do Usuário, com a suave voz de Rodrigo Ghedin, ao tempo que se escovam os dentes, é análogo à prática da meditação; variações como “escovando os dentes com fones de ouvidos” não surtem o mesmo efeito de mentitude, uma vez que o som da escova compete com o do áudio ― o crânio, como boa caixa acústica que é, amplifica o ruído de suas cerdas ―; dessa forma, dessacraliza-se este que é um modelo de receptividade acústica, uma “posição de lótus” do ouvinte; como nada é perfeito, por conta do curto período da higiene bucal, não é possível usufruir de muitos episódios nesta posição ― mas, estendendo a escovação, quão brancos meus dentes ficaram desde que comecei a ouvir podcasts depois de terminar o almoço...;&#xA;&#xA;5) caminhando, com fones de ouvidos; postura extremamente superestimada, uma vez que o “podespectador” tem de lidar com toda sorte de intempéries e ruídos externos; por exemplo, na posição pré-sentado-no-ônibus-com-fones-de-ouvidos, isto é, quando se está prestes a pegar a condução, o ouvinte é incapaz de se ater a quaisquer palavras ditas que sejam; tudo se trata de não perder o transporte, passar na catraca e sentar o mais rápido possível, com a chance de permanecer de pé a viagem inteira;&#xA;&#xA;6) deitado na cama, via alto-falantes do telefone; outro modelo bem estabelecido; algumas aplicações de podcasts (como o supracitado AntennaPod) otimizam-no com recurso temporizador agendado, a partir do qual, em determinada hora, o episódio é pausado após um determinado tempo ― ideal para quem escuta antes de dormir; inclusive, alguns podcasts, como o famigerado “Ser Sonoro”, foram desenhados especificamente para serem escutados única e exclusivamente na cama, antes de dormir.&#xA;&#xA;Quem dera se todo programa de áudio aplicasse um UX listen design dessa forma!&#xA;&#xA;cotidiano&#xA;&#xA;-----------------------------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h3 id="ou-a-escuta-podcastal-um-dossiê">Ou: “a escuta podcastal: um dossiê”</h3>

<p>Este não é um tutorial de como ouvir podcasts. Isso vocês já sabem: baixa-se um agregador qualquer (eu utilizo o AntennaPod) e segue-se algum programa a partir de uma pesquisa; quando este publicar um novo episódio, se receberá uma notificação e se o reproduzirá ou não.</p>

<p>O que quero falar nesta crônica é sobre uma “pragmática podcastal”, os modos com os quais ouço os queridos programas de áudio.</p>

<p>Ao contrário do texto, o áudio não tem uma recepção previsível. Isto é, ao escrever um texto, sei como o leitor o fruirá ― através da tela de um dispositivo eletrônico móvel (telefone, computador, leitor digital ― Kindle, Kobo, etc.), talvez a partir de um impresso (caso tenha uma impressora, por exemplo); este leitor estará estático ― seja sentado, deitado ou, raras vezes, de pé; talvez com a atenção plena, talvez com breves lapsos de desatenção causada por um pensamento que o texto provocou, por algum barulho que o gato fez, por uma notificação que de algum dispositivo soou...</p>

<p>O mesmo não acontece com o áudio.</p>

<p>Por conta do áudio, permite-se estar em segundo plano, flexibiliza a recepção da informação; acho, pois, que é necessário algo como um “<em>design</em> sonoro” ou “<em>design</em> sonoplástico”, considerando as possibilidades de escuta do programa. A fim de auxiliar estudos nessa área vindoura, aqui vão os modos como escuto podcasts:</p>

<p>1) sentado em ônibus, com fones de ouvidos ― a “base”, uma “posição neutra”, um “grau zero da escuta”, na qual em geral se começa a ouvir os programas e na qual se pode ouvir quaisquer programas de áudio; nesta posição pode se ouvir de tudo, desde noticiário até <em>storytelling</em>; pessoalmente, onde tudo começou, o ponto no qual percebi que o podcast se tornaria uma necessidade básica como água e eletricidade; a propósito, quando eu escutava o infernal “Medo e Delírio em Brasília”, era somente sentado em um banco de ônibus com fones de ouvidos que eu conseguia compreender alguma coisa; o banco de ônibus é tipo de “sinagoga dos podcasts”;</p>

<p>2) lavando louça, com amplificação via Bluetooth; uma posição robusta, que comporta muitas possibilidades; prevista, porém aparentemente pouco considerada, já que algumas vozes e vírgulas sonoras não podem ser ouvidas plenamente por conta da água corrente e do tilintar das panelas ― vozes tenores, como a de Matias Pinto do Xadrez Verbal, ficam em desvantagem nesta posição auditiva; há variações como 2.1) lavando louça, com fones de ouvidos; e 2.2) lavando louça, a partir do alto-falante do telefone ― que requeririam uma atenção especial de sonoplastia;</p>

<p>3) cozinhando, com amplificação via Bluetooth; aqui é que o bicho pega, aqui que a arte do design sonoro deveria entrar em cena; apesar de haver uma certa estabilidade do ouvinte ― afinal, seu único movimento é de em média dois metros, entre a geladeira e o fogão ―, os utensílios domésticos tilintam em demasia; nessa atividade há uma estranha dinâmica de “pianos” e “fortes”, com momentos de calmaria, como quando a água está fervendo na panela, intercalados com momentos de cacofonia e ruídos intermitentes, como quando o óleo quente recebe a tal “mistura”; nenhuma voz, vírgula, música ou qualquer outro som grosso suporta a um tonitruante ssssSSSSSHHHHHHHHHHhhhhh;</p>

<p>4) escovando os dentes, a partir dos alto-falantes do telefone; à frente da posição “escutando no ônibus com fones de ouvido”, esta é aquela na qual sinto mais plenitude mental ― ou “mentitude” (para não utilizar o irascível <em>mindfulness</em>) ―, nesta atividade acústica ou em qualquer outra de quaisquer outros tipos; ao contrário de seu predecessor “escutando no ônibus com fones de ouvidos”, quando se escuta um episódio de podcast no banheiro durante a escovação, nada de mau pode acontecer; o movimento de escovação dentária é algo como um estímulo à atenção auditiva, é uma espécie de mantra tátil-acústico; um metassigno ― limpa-se os dentes ao tempo em que se limpa a mente (um “paramorfismo”, em termos de Semiótica); ao meu ver, todo programa de áudio deveria ser desenhado para que fosse otimizado nesta ocasião; parafraseando Junichiro Tanizaki, foi nos momentos de escuta simultânea à escovação dentária que os poetas fizeram seus melhores poemas...; ouvir programas como Manual do Usuário, com a suave voz de Rodrigo Ghedin, ao tempo que se escovam os dentes, é análogo à prática da meditação; variações como “escovando os dentes com fones de ouvidos” não surtem o mesmo efeito de mentitude, uma vez que o som da escova compete com o do áudio ― o crânio, como boa caixa acústica que é, amplifica o ruído de suas cerdas ―; dessa forma, dessacraliza-se este que é um modelo de receptividade acústica, uma “posição de lótus” do ouvinte; como nada é perfeito, por conta do curto período da higiene bucal, não é possível usufruir de muitos episódios nesta posição ― mas, estendendo a escovação, quão brancos meus dentes ficaram desde que comecei a ouvir podcasts depois de terminar o almoço...;</p>

<p>5) caminhando, com fones de ouvidos; postura extremamente superestimada, uma vez que o “podespectador” tem de lidar com toda sorte de intempéries e ruídos externos; por exemplo, na posição pré-sentado-no-ônibus-com-fones-de-ouvidos, isto é, quando se está prestes a pegar a condução, o ouvinte é incapaz de se ater a quaisquer palavras ditas que sejam; tudo se trata de não perder o transporte, passar na catraca e sentar o mais rápido possível, com a chance de permanecer de pé a viagem inteira;</p>

<p>6) deitado na cama, via alto-falantes do telefone; outro modelo bem estabelecido; algumas aplicações de podcasts (como o supracitado AntennaPod) otimizam-no com recurso temporizador agendado, a partir do qual, em determinada hora, o episódio é pausado após um determinado tempo ― ideal para quem escuta antes de dormir; inclusive, alguns podcasts, como o famigerado “Ser Sonoro”, foram desenhados especificamente para serem escutados única e exclusivamente na cama, antes de dormir.</p>

<p>Quem dera se todo programa de áudio aplicasse um <em>UX listen design</em> dessa forma!</p>

<p>#cotidiano</p>

<hr>
]]></content:encoded>
      <author>Ideias de Chirico</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/moap97lzfi</guid>
      <pubDate>Tue, 21 Apr 2026 00:50:52 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Resenha sobre o filme &#34;Trapo&#34; (2025) de João Chimendes</title>
      <link>https://blog.ayom.media/felipe-siles/resenha-sobre-o-filme-trapo-2025-de-joao-chimendes</link>
      <description>&lt;![CDATA[ATENÇÃO: este texto revela o final do filme; portanto, se você é sensível a esse tipo de informação, sugiro que assista ao curta de 20 minutos antes de ler o texto.&#xA;&#xA;Imagem do filme, onde vemos um menino sentado entregando um vidro de catchup à sua amiga, que está de pé&#xA;&#xA;Meus filmes preferidos são aqueles que continuam me acompanhando, em minha cabeça, mesmo dias ou até semanas depois de assisti-los. É o caso deste curta-metragem, Trapo, do diretor João Chimendes, produzido na cidade de Uruguaiana-RS. A princípio, achei o filme apenas divertido, uma espécie de Saneamento Básico protagonizado por crianças, mas as reflexões da obra continuaram se aprofundando na minha mente por dias.&#xA;&#xA;Uruguaiana tem cerca de 100 mil habitantes, cerca de 30 mil a mais do que a cidade onde moro, Cosmópolis-SP. Faço esse registro porque minha interpretação da mensagem do filme passa muito pelo reconhecimento de uma poética produzida por pessoas que têm problemas parecidos com os que eu enfrento na condição de artista suburbano.&#xA;&#xA;Trapo nos apresenta o protagonista Léo, um menino que sonha em ser cineasta e fazer filmes. &#34;Sonho&#34; é eufemismo: o menino é obcecado pela ideia, e praticamente todas as suas ações no filme convergem para esse objetivo. O filme começa com Léo perdendo a sua comparsa no plano, a amiguinha Manu, que compartilha com ele o celular e um peixe, que são peças importantes na produção cinematográfica que estão fazendo. Léo perde sua companheira Manu para Porto Alegre, para a cidade grande, e eis que o nosso pequeno herói se depara com seu primeiro obstáculo para se tornar um cineasta: a solidão e também a condição de suburbano, interiorano. Ao perder sua comparsa, Léo sangra pelo catchup cenográfico improvisado para o filme.&#xA;&#xA;A partir daí, o nosso pequeno herói Léo terá que enfrentar o segundo e mais difícil obstáculo em sua jornada de cineasta: a própria família. Essa é uma realidade de pessoas marginalizadas que desejam se tornar artistas. A verdade nua e crua é que, com algumas exceções, a porra da família só atrapalha esse nosso sonho. Não o fazem por mal, mas, como engrenagens de um sistema que as colocou em posição subalterna, elas reproduzem as opressões que sofreram, dificultando ou até impedindo os filhos de acessar as oportunidades que lhes foram negadas pela sociedade, com o objetivo de protegê-los de dores e frustrações, gerando assim (adivinha), dor e frustração. É um papel semelhante ao que podemos observar no filme Matrix: qualquer pessoa comum, ao perceber uma ameaça à Matrix, transforma-se no Agente Smith e defende aquele mundo, com aquelas regras, a qualquer custo. A maioria dos artistas periféricos e marginalizados precisa transpor a própria família como obstáculo, e os traumas e feridas decorrentes dessa luta costumam acompanhá-los pelo resto de sua trajetória, compondo suas poéticas e visões artísticas.&#xA;&#xA;Léo precisa lutar contra um mundo que é hostil ao seu sonho autêntico; tudo nele parece uma violência nesse sentido. Precisa enfrentar a mãe, que, à duras penas, o sustenta sozinha, com seu trabalho de costureira. Mergulhada na sua necessidade de sobreviver, a mãe não compreende o garoto. Quando ele pergunta se uma câmera fotográfica funciona, ela responde que aquilo é lixo. O sonho de Léo é lixo para a sociedade como está estabelecida, e a sociedade como está estabelecida, em efeito de espelho, é lixo para Léo, como veremos no episódio com o celular de sua tia.&#xA;&#xA;Léo, malandramente, engana a própria tia para roubar seu celular, e poder fazer seus filmes. Para liberar espaço na memória, apaga todas as fotos da tia, que são selfies muito parecidas. Aqui, Léo demonstra sua transgressão, desobediência e falta de identificação com um mundo superficial e homogeneizante, que registra de maneira plastificada todas as experiências no formato de selfie. É a própria quebra do personagem com a ideia do ensimesmamento contemporâneo, em oposição a uma ideia de mundo que desperta reflexão, arte, que deixa legado, que tem especificidade e autenticidade. &#xA;&#xA;Léo ainda envia por aplicativo de mensagem uma foto mostrando o dedo do meio para um peguete de sua tia. Porque é isso: ao artista marginalizado, suburbano, o mundo é hostil; somos forjados nessa hostilidade, e não temos sangue de barata e nem precisamos reproduzir um bom mocismo agradável para a classe média estabelecida. Ser artista marginal é xingar a própria mãe de palavrão, é roubar o celular da própria tia. É ser desobediente, é conservar-se ético e fiel à sua autenticidade em um mundo que quer aprisionar você na homogeneidade e na superficialidade, mesmo que isso signifique ter um mau comportamento frente àqueles que são obstáculos a este objetivo.&#xA;&#xA;Eis que Léo passa, em sua jornada, pela morte do herói: é obrigado a devolver o celular da tia, ouve a maior bronca, chora e implora para que a tia não apague seu filme. Ainda é acusado pela própria mãe, desconfiada pelo episódio anterior, de roubar os seus tecidos, a matéria prima do seu ganha-pão. Briga com a mãe, xinga-a com alguns palavrões, discute, enfrenta e chora. Léo não é um herói nos moldes virtuosos do bom mocismo. É humano: sonha, encanta-se, grita, chora, rouba, mente e xinga.&#xA;&#xA;E, no final do filme, na virada em que Léo enfrenta a mãe e foge de casa, ou seja, ao transpor o seu maior obstáculo, ele encontra, no meio do mato, à noite, uma figura mítica, formada pelos trapos de sua mãe, segurando o peixe de Manu. Essa figura mítica abre ampla margem para diversas interpretações e subjetividades. Minha interpretação é de que ela representa a própria ARTE; ou seja, Léo encontra seu verdadeiro espírito artístico, que é formado por uma estranha amálgama de suas dores e dificuldades (os trapos do trabalho da mãe) com seu sonho (o peixe, que também remete à amizade e parceria com Manu). Uma figura que mistura a beleza poética à estranheza e ao desconforto, ou seja, a própria arte. É um final muito lindo e surpreendente, já que o filme aparentemente não indica que teremos um desfecho fantástico.&#xA;&#xA;Trapo é um dos filmes mais impressionantes que eu já vi, pela competência de trazer tanta profundidade em 20 minutos de história. Para mim não é nenhuma surpresa ter levado o prêmio de melhor filme gaúcho no tradicional Festival de Gramado-RS. Foi também um dos filmes que mais falou comigo, com as minhas dores e delícias de ser um artista periférico: de cidade pequena, negro e vindo das classes populares. Não sou diferente de Léo, não abrimos mão de sermos artistas, mesmo com a sociedade capitalista sendo hostil às nossas verdades. Ser artista é um compromisso ético com essa auntenticidade e com o mundo que desejamos; a despeito das dores do processo, se mil vidas eu tivesse, nas mil vidas eu seria artista. Porque manter-se artista nesse mundo plastificado e superficial é escolher manter-se vivo.&#xA;&#xA;Mais curta-metragens e menos reels!]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>ATENÇÃO: este texto revela o final do filme; portanto, se você é sensível a esse tipo de informação, sugiro que assista ao curta de 20 minutos antes de ler o texto.</p>

<p><img src="https://festivaldecinemadegramado.com/wp-content/uploads/2025/07/188491.jpg" alt="Imagem do filme, onde vemos um menino sentado entregando um vidro de catchup à sua amiga, que está de pé"></p>

<p>Meus filmes preferidos são aqueles que continuam me acompanhando, em minha cabeça, mesmo dias ou até semanas depois de assisti-los. É o caso deste curta-metragem, <em>Trapo</em>, do diretor João Chimendes, produzido na cidade de Uruguaiana-RS. A princípio, achei o filme apenas divertido, uma espécie de <em>Saneamento Básico</em> protagonizado por crianças, mas as reflexões da obra continuaram se aprofundando na minha mente por dias.</p>

<p>Uruguaiana tem cerca de 100 mil habitantes, cerca de 30 mil a mais do que a cidade onde moro, Cosmópolis-SP. Faço esse registro porque minha interpretação da mensagem do filme passa muito pelo reconhecimento de uma poética produzida por pessoas que têm problemas parecidos com os que eu enfrento na condição de artista suburbano.</p>

<p>Trapo nos apresenta o protagonista Léo, um menino que sonha em ser cineasta e fazer filmes. “Sonho” é eufemismo: o menino é obcecado pela ideia, e praticamente todas as suas ações no filme convergem para esse objetivo. O filme começa com Léo perdendo a sua comparsa no plano, a amiguinha Manu, que compartilha com ele o celular e um peixe, que são peças importantes na produção cinematográfica que estão fazendo. Léo perde sua companheira Manu para Porto Alegre, para a cidade grande, e eis que o nosso pequeno herói se depara com seu primeiro obstáculo para se tornar um cineasta: a solidão e também a condição de suburbano, interiorano. Ao perder sua comparsa, Léo sangra pelo catchup cenográfico improvisado para o filme.</p>

<p>A partir daí, o nosso pequeno herói Léo terá que enfrentar o segundo e mais difícil obstáculo em sua jornada de cineasta: a própria família. Essa é uma realidade de pessoas marginalizadas que desejam se tornar artistas. <strong>A verdade nua e crua é que, com algumas exceções, a porra da família só atrapalha esse nosso sonho</strong>. Não o fazem por mal, mas, como engrenagens de um sistema que as colocou em posição subalterna, elas reproduzem as opressões que sofreram, dificultando ou até impedindo os filhos de acessar as oportunidades que lhes foram negadas pela sociedade, com o objetivo de protegê-los de dores e frustrações, gerando assim (adivinha), dor e frustração. É um papel semelhante ao que podemos observar no filme Matrix: qualquer pessoa comum, ao perceber uma ameaça à Matrix, transforma-se no Agente Smith e defende aquele mundo, com aquelas regras, a qualquer custo. A maioria dos artistas periféricos e marginalizados precisa transpor a própria família como obstáculo, e os traumas e feridas decorrentes dessa luta costumam acompanhá-los pelo resto de sua trajetória, compondo suas poéticas e visões artísticas.</p>

<p>Léo precisa lutar contra um mundo que é hostil ao seu sonho autêntico; tudo nele parece uma violência nesse sentido. Precisa enfrentar a mãe, que, à duras penas, o sustenta sozinha, com seu trabalho de costureira. Mergulhada na sua necessidade de sobreviver, a mãe não compreende o garoto. Quando ele pergunta se uma câmera fotográfica funciona, ela responde que aquilo é lixo. O sonho de Léo é lixo para a sociedade como está estabelecida, e a sociedade como está estabelecida, em efeito de espelho, é lixo para Léo, como veremos no episódio com o celular de sua tia.</p>

<p>Léo, malandramente, engana a própria tia para roubar seu celular, e poder fazer seus filmes. Para liberar espaço na memória, apaga todas as fotos da tia, que são selfies muito parecidas. Aqui, Léo demonstra sua transgressão, desobediência e falta de identificação com um mundo superficial e homogeneizante, que registra de maneira plastificada todas as experiências no formato de selfie. É a própria quebra do personagem com a ideia do ensimesmamento contemporâneo, em oposição a uma ideia de mundo que desperta reflexão, arte, que deixa legado, que tem especificidade e autenticidade.</p>

<p>Léo ainda envia por aplicativo de mensagem uma foto mostrando o dedo do meio para um peguete de sua tia. Porque é isso: ao artista marginalizado, suburbano, o mundo é hostil; somos forjados nessa hostilidade, e não temos sangue de barata e nem precisamos reproduzir um bom mocismo agradável para a classe média estabelecida. Ser artista marginal é xingar a própria mãe de palavrão, é roubar o celular da própria tia. É ser desobediente, é conservar-se ético e fiel à sua autenticidade em um mundo que quer aprisionar você na homogeneidade e na superficialidade, mesmo que isso signifique ter um mau comportamento frente àqueles que são obstáculos a este objetivo.</p>

<p>Eis que Léo passa, em sua jornada, pela morte do herói: é obrigado a devolver o celular da tia, ouve a maior bronca, chora e implora para que a tia não apague seu filme. Ainda é acusado pela própria mãe, desconfiada pelo episódio anterior, de roubar os seus tecidos, a matéria prima do seu ganha-pão. Briga com a mãe, xinga-a com alguns palavrões, discute, enfrenta e chora. Léo não é um herói nos moldes virtuosos do bom mocismo. É humano: sonha, encanta-se, grita, chora, rouba, mente e xinga.</p>

<p>E, no final do filme, na virada em que Léo enfrenta a mãe e foge de casa, ou seja, ao transpor o seu maior obstáculo, ele encontra, no meio do mato, à noite, uma figura mítica, formada pelos trapos de sua mãe, segurando o peixe de Manu. Essa figura mítica abre ampla margem para diversas interpretações e subjetividades. Minha interpretação é de que ela representa a própria ARTE; ou seja, Léo encontra seu verdadeiro espírito artístico, que é formado por uma estranha amálgama de suas dores e dificuldades (os trapos do trabalho da mãe) com seu sonho (o peixe, que também remete à amizade e parceria com Manu). Uma figura que mistura a beleza poética à estranheza e ao desconforto, ou seja, a própria arte. É um final muito lindo e surpreendente, já que o filme aparentemente não indica que teremos um desfecho fantástico.</p>

<p>Trapo é um dos filmes mais impressionantes que eu já vi, pela competência de trazer tanta profundidade em 20 minutos de história. Para mim não é nenhuma surpresa ter levado o prêmio de melhor filme gaúcho no tradicional Festival de Gramado-RS. Foi também um dos filmes que mais falou comigo, com as minhas dores e delícias de ser um artista periférico: de cidade pequena, negro e vindo das classes populares. Não sou diferente de Léo, não abrimos mão de sermos artistas, mesmo com a sociedade capitalista sendo hostil às nossas verdades. Ser artista é um compromisso ético com essa auntenticidade e com o mundo que desejamos; a despeito das dores do processo, se mil vidas eu tivesse, nas mil vidas eu seria artista. Porque manter-se artista nesse mundo plastificado e superficial é escolher manter-se vivo.</p>

<p>Mais curta-metragens e menos reels!</p>
]]></content:encoded>
      <author>felipe siles</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/fx0frtm09k</guid>
      <pubDate>Sun, 19 Apr 2026 19:58:22 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Notas costuradas</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-costuradas-11qr</link>
      <description>&lt;![CDATA[Imagem de um homem vestindo terno com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo&#xA;&#xA;Imagem: Robert Longo ― via Flashbak&#xA;&#xA;Como é de hábito, sempre que publico um textão, costuro algumas notas.&#xA;&#xA;Para quem ficou interessado pelo Manifesto Offpunk: sim, o escrevi todo em português, mas publiquei em inglês para dar-lhe um maior alcance. Logo mais publicarei a versão original, e mês que vem, se tudo der certo, sai também uma versão em francês, traduzida pelo @ploum@mamot.fr.&#xA;&#xA;Primeira experiência com newsletter&#xA;&#xA;Subscrevi a uma newsletter pela primeira vez. Substack, para variar. Costumava seguir algumas dessas revistinhas por RSS, mas a integração com o protocolo é ridícula, sempre quebra dentro do agregador e, na maioria das vezes, requer conexão ininterrupta ― o que não tem nadas a ver com o éthos do RSS. No ato da subscrição, apareceram mais uns dois popapes pedindo para seguir outras revistinhas. Substack já nasceu emerdificado. Mas a ver como será essa experiência. Ainda preferirei RSS de qualquer modo.&#xA;&#xA;Imagem de um homem vestindo terno com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo&#xA;&#xA;Imagem: Robert Longo ― via Flashbak&#xA;&#xA;Um tratado universal para netiquetas&#xA;&#xA;Está mais do que na hora de criarem uma lista universal de netiquetas, da qual independe de plataforma. Eu incluiria uma: se for deixar de seguir uma pessoa, bloqueie e desbloqueie em seguida, a fim de tirá-la da sua lista de seguidores. Isso é básico.&#xA;&#xA;Porque precisamos garantir o não digital &#xA;&#xA;Forçaram tanto os mais velhos a usar um smartphone, que agora os coitados não sabem nem ligar o aparelho quando ele desliga, puxar cortina de configurações ― nada. Uma senhorinha que mantém um sítio na fronteira entre Piauí e Ceará estava me pedindo ajuda porque entrou na aba de “Whatstatus” e não sabia voltar para o chat. Esse é o nível de desbalanço em que nos colocaram. Praticamente jogaram os idosos na digitalização e eles levam caldo da tecnologia todo santo dia.&#xA;&#xA;Imagem de uma mulher vestindo roupa formal com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo&#xA;&#xA;Imagem: Robert Longo ― via Flashbak&#xA;&#xA;Linkroll&#xA;&#xA;Artigo da Intercept Brasil com uma entrevista do pesquisador belga Mark Coeckelbergh, da área de Filosofia da Mídia, sobre a atual relação entre as BigTech e o governo estadunidense.&#xA;&#xA;Alguns trechos que me chamaram a atenção:&#xA;&#xA;  A diferença [entre fascismo e tecnofascismo], segundo ele [Coeckelbergh], é que, enquanto líderes autoritários como Adolf Hitler lançavam mão abertamente de violência, repressão a vozes dissidentes e dependiam de movimentos de massa para ter legitimidade, o tecnofascismo oferece ferramentas de controle mais silenciosas, menos visíveis e mais precisas: os algoritmos. Diferentemente do fascismo clássico, o tecnofascismo não precisou forçar as pessoas ou criar medo. As ferramentas tecnológicas atuais, como os algoritmos, conseguem saber do que você precisa antes mesmo que imagine. Com isso, as pessoas foram dominadas pelo prazer e pela conveniência oferecidos pela IA e suas corporações, tornando-se seres dóceis e obedientes.&#xA;&#xA;  [Mark Coeckelbergh:] Os EUA e o Vale do Silício têm essa ideologia neoliberal, muito anti-Estado, livre-mercado, libertários. Mas ao mesmo tempo, a tecnologia nos EUA é definitivamente financiada pelo governo através do Departamento de Defesa, por exemplo, agora chamado de Departamento da Guerra. Há definitivamente ligações financeiras entre governos e big techs.&#xA;&#xA;  Eu defendo uma visão em que os seres humanos se relacionem mais entre si, e um futuro que tenha mais essa característica. Precisamos de tecnologias que são agregadoras, que unam as pessoas em vez de isolá-las, que permitam ação coletiva, deliberação.&#xA;&#xA;• Entrevista: Como a IA abre caminho para o tecnofascismo&#xA;&#xA;Imagem de uma mulher vestindo roupa formal com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo&#xA;&#xA;Imagem: Robert Longo ― via Flashbak&#xA;&#xA;Campanha publicitária da Forbrukerradet (tente pronunciá-lo), um “conselho de cliente” norueguesa, satirizando a emerdificação digital através de um personagem que escalou na vida piorando produtos.&#xA;&#xA;• A Day in the Life of an Enshittificator (Youtube)&#xA;&#xA;“Combata o Câncer” é uma campanha da VML Health e da Fuck Cancer com uma ideia inusitada: eles sugerem que você se masturbe 21 vezes por mês. Pesquisas mostram que essa frequência de ejaculação pode reduzir o risco de câncer de próstata em até 22%:&#xA;&#xA;Beat Cancer Off (letsfcancer ― Youtube)&#xA;&#xA;“Possíveis distúrbios cognitivos-comportamentais induzidos pela tecnologia”, é um esquema satírico feito pela VIZsweet e com apoio da @infoisbeautiful@vis.social, que nos faz pensar na nossa relação com tecnologias e dispositivos eletrônicos em geral&#xA;&#xA;“Possible tech-induced cognitive-behavioural disorders” (Information is Beautiful)&#xA;&#xA;Não gosto tanto de ouvir Rádio Novelo, mas curti muito esse episódio em que as locutoras entrevistam um colecionador de correio de voz, uma mídia física (disco de vinil e mais tarde fita cassete) gravada nos correios e enviado por carta, muito popular no começo do século passado, em um tempo em que telefone ainda era coisa de alienígena.&#xA;&#xA;Vozes do Além (Rádio Novelo Apresenta)&#xA;&#xA;Imagem de um homem vestindo terno com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo&#xA;&#xA;Imagem: Robert Longo ― via Flashbak&#xA;&#xA;Uma calculadora que estima quanto os anunciantes pagam para se exibirem a você. Para o meu perfil, pagam 36 centavos de dólar por hora de anúncio. Parece pouco, mas é mais de R$ 273 por mês.&#xA;&#xA;What&#39;s Your Attention Worth | The Ad Spend Calculator&#xA;&#xA;Sítio oficial do Décio Pignatari, poeta, tradutor e pensador do Brasil, um dos iniciadores da Poesia Concreta. O espaço virtual foi desenhado pela designer e também poeta André Valias, no aniversário de morte de 10 anos do Décio, em 2022. Das coisas que eu acho mais incríveis nesse sítio é a aba de traduções, posta em ordem cronológica; as traduções do DP vão de Safo à Tsevetaeva, quase dois milênios de poesias...&#xA;&#xA;SITE OFICIAL ― DÉCIO PIGNATARI&#xA;&#xA;Ainda sobre Poesia Concreta, um sítio com o acervo de todas as edições da Revista Código, uma das revistas nas quais os poetas concretos publicavam suas poesias. Para quem curte design e poesia de vanguarda, são um prato cheio de inspiração. Sempre que tenho um tempinho, dou uma visitada na Revista Código.&#xA;&#xA;codigorevista.org&#xA;&#xA;Citações&#xA;&#xA;  Uma coisa que eu gostava quando fazia karatê é que nós, faixas brancas, éramos orientados pelos faixas amarelas, poupando o sensei e os karatecas mais experientes de ficar nos ensinando coisas muito básicas. Eu queria que tudo na vida funcionasse meio que desse jeito. Exemplo: nesse sistema eu seria faixa preta em viajar de ônibus, se você não sabe se esse ônibus vai pra Paulínia ou pra Cosmópolis, pergunta ali pro faixa amarela, não enche a porra do meu saco.&#xA;&#xA;― @felipesiles@ayom.media&#xA;&#xA;  (Abro uma pausa parentética para uma “digressão curiosa”, qual seja concernente ao destino de certas pessoas em relação ao próprio nome. Esse Schoenmaekers, por exemplo: seu nome, provável corruptela “melhorada” de “schömaekers” ― “sapateiro(s)”, em holandês quer dizer “fazedor(es) do belo”... Edgar Poe tinha o destino inscrito no próprio nome: poe(ta), poe(t). Contraditório o destino de outro grande poeta de nosso século, Ezra Pound. Com prenome bíblico, apoiou o fascismo de Mussolini e foi acusado de anti-semitismo; filho de Homer Pound (que foi funcionário da Casa da Moeda estadunidense), chegou a escrever ensaios e panfletos sobre a reforma monetária, para não dizer que o tema da usura é um dos temas centrais de seu poema épico, The cantos (Pound, como se sabe, quer dizer libra) Já Mallarmé (= “mal armado”) sofreu desde os bancos escolares, fez do erotismo um de seus temas fálico-secretos. Para acréscimo de seus males, era de baixa estatura ― e mais sofreria ainda por sua obra, objeto de ataques constantes e até rasteiros. Fernando Pessoa negou o nome, dividindo-se em outras pessoas e outros nomes ― os famosos heterônimos (Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Albero Caeiro). Waldemar Cordeiro, com seus 1,90 m de altura, foi o rebelde e agressivo líder dos artistas concretos de São Paulo, na década de 50. E Mondrian, ao ouvir e pensar o seu nome à francesa, não podia deixar de pensar, ver e ouvir “Monde/Rien” [Mundo/Nada]&#xA;&#xA;― Décio Pignatari em “Semiótica da Arte e da Arquitetura”.&#xA;&#xA;notas&#xA;&#xA;--------------------------&#xA;]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://flashbak.com/wp-content/uploads/2026/04/men-in-the-cities-21-640x923.jpg" alt="Imagem de um homem vestindo terno com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo"></p>

<h5 id="imagem-robert-longo-via-flashbak-https-flashbak-com-men-in-the-city-482513">Imagem: Robert Longo ― via <a href="https://flashbak.com/men-in-the-city-482513/" rel="nofollow">Flashbak</a></h5>

<p>Como é de hábito, sempre que publico um textão, costuro algumas notas.</p>

<p>Para quem ficou interessado pelo Manifesto Offpunk: sim, o escrevi todo em português, mas publiquei em inglês para dar-lhe um maior alcance. Logo mais publicarei a versão original, e mês que vem, se tudo der certo, sai também uma versão em francês, traduzida pelo @ploum@mamot.fr.</p>

<h2 id="primeira-experiência-com-newsletter">Primeira experiência com newsletter</h2>

<p>Subscrevi a uma newsletter pela primeira vez. Substack, para variar. Costumava seguir algumas dessas revistinhas por RSS, mas a integração com o protocolo é ridícula, sempre quebra dentro do agregador e, na maioria das vezes, requer conexão ininterrupta ― o que não tem nadas a ver com o éthos do RSS. No ato da subscrição, apareceram mais uns dois popapes pedindo para seguir outras revistinhas. Substack já nasceu emerdificado. Mas a ver como será essa experiência. Ainda preferirei RSS de qualquer modo.</p>

<p><img src="https://flashbak.com/wp-content/uploads/2026/04/men-in-the-cities-17-640x923.jpg" alt="Imagem de um homem vestindo terno com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo"></p>

<h5 id="imagem-robert-longo-via-flashbak-https-flashbak-com-men-in-the-city-482513-1">Imagem: Robert Longo ― via <a href="https://flashbak.com/men-in-the-city-482513/" rel="nofollow">Flashbak</a></h5>

<h2 id="um-tratado-universal-para-netiquetas">Um tratado universal para netiquetas</h2>

<p>Está mais do que na hora de criarem uma lista universal de netiquetas, da qual independe de plataforma. Eu incluiria uma: se for deixar de seguir uma pessoa, bloqueie e desbloqueie em seguida, a fim de tirá-la da sua lista de seguidores. Isso é básico.</p>

<h2 id="porque-precisamos-garantir-o-não-digital">Porque precisamos garantir o não digital</h2>

<p>Forçaram tanto os mais velhos a usar um smartphone, que agora os coitados não sabem nem ligar o aparelho quando ele desliga, puxar cortina de configurações ― nada. Uma senhorinha que mantém um sítio na fronteira entre Piauí e Ceará estava me pedindo ajuda porque entrou na aba de “Whatstatus” e não sabia voltar para o chat. Esse é o nível de desbalanço em que nos colocaram. Praticamente jogaram os idosos na digitalização e eles levam caldo da tecnologia todo santo dia.</p>

<p><img src="https://flashbak.com/wp-content/uploads/2026/04/men-in-the-cities-6-640x923.jpg" alt="Imagem de uma mulher vestindo roupa formal com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo"></p>

<h5 id="imagem-robert-longo-via-flashbak-https-flashbak-com-men-in-the-city-482513-2">Imagem: Robert Longo ― via <a href="https://flashbak.com/men-in-the-city-482513/" rel="nofollow">Flashbak</a></h5>

<h2 id="linkroll">Linkroll</h2>

<p>Artigo da Intercept Brasil com uma entrevista do pesquisador belga Mark Coeckelbergh, da área de Filosofia da Mídia, sobre a atual relação entre as BigTech e o governo estadunidense.</p>

<p>Alguns trechos que me chamaram a atenção:</p>

<blockquote><p>A diferença [entre fascismo e tecnofascismo], segundo ele [Coeckelbergh], é que, enquanto líderes autoritários como Adolf Hitler lançavam mão abertamente de violência, repressão a vozes dissidentes e dependiam de movimentos de massa para ter legitimidade, o tecnofascismo oferece ferramentas de controle mais silenciosas, menos visíveis e mais precisas: os algoritmos. Diferentemente do fascismo clássico, o tecnofascismo não precisou forçar as pessoas ou criar medo. As ferramentas tecnológicas atuais, como os algoritmos, conseguem saber do que você precisa antes mesmo que imagine. Com isso, as pessoas foram dominadas pelo prazer e pela conveniência oferecidos pela IA e suas corporações, tornando-se seres dóceis e obedientes.</p>

<p>[Mark Coeckelbergh:] Os EUA e o Vale do Silício têm essa ideologia neoliberal, muito anti-Estado, livre-mercado, libertários. Mas ao mesmo tempo, a tecnologia nos EUA é definitivamente financiada pelo governo através do Departamento de Defesa, por exemplo, agora chamado de Departamento da Guerra. Há definitivamente ligações financeiras entre governos e big techs.</p>

<p>Eu defendo uma visão em que os seres humanos se relacionem mais entre si, e um futuro que tenha mais essa característica. Precisamos de tecnologias que são agregadoras, que unam as pessoas em vez de isolá-las, que permitam ação coletiva, deliberação.</p></blockquote>

<p><a href="https://www.intercept.com.br/2026/03/26/entrevista-como-a-ia-abre-caminho-para-o-tecnofascismo/" rel="nofollow">• Entrevista: Como a IA abre caminho para o tecnofascismo</a></p>

<p><img src="https://flashbak.com/wp-content/uploads/2026/04/men-in-the-cities-15-640x923.jpg" alt="Imagem de uma mulher vestindo roupa formal com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo"></p>

<h5 id="imagem-robert-longo-via-flashbak-https-flashbak-com-men-in-the-city-482513-3">Imagem: Robert Longo ― via <a href="https://flashbak.com/men-in-the-city-482513/" rel="nofollow">Flashbak</a></h5>

<p>Campanha publicitária da Forbrukerradet (tente pronunciá-lo), um “conselho de cliente” norueguesa, satirizando a emerdificação digital através de um personagem que escalou na vida piorando produtos.</p>

<p><a href="https://youtu.be/T4Upf_B9RLQ" rel="nofollow">• A Day in the Life of an Enshittificator</a> (Youtube)</p>

<p>“Combata o Câncer” é uma campanha da VML Health e da Fuck Cancer com uma ideia inusitada: eles sugerem que você se masturbe 21 vezes por mês. Pesquisas mostram que essa frequência de ejaculação pode reduzir o risco de câncer de próstata em até 22%:</p>

<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=UGD0TAkwdOA&amp;t=99" rel="nofollow">Beat Cancer Off</a> (letsfcancer ― Youtube)</p>

<p>“Possíveis distúrbios cognitivos-comportamentais induzidos pela tecnologia”, é um esquema satírico feito pela VIZsweet e com apoio da @infoisbeautiful@vis.social, que nos faz pensar na nossa relação com tecnologias e dispositivos eletrônicos em geral</p>

<p><a href="https://informationisbeautiful.net/visualizations/intermental/" rel="nofollow">“Possible tech-induced cognitive-behavioural disorders”</a> (Information is Beautiful)</p>

<p>Não gosto tanto de ouvir Rádio Novelo, mas curti muito esse episódio em que as locutoras entrevistam um colecionador de correio de voz, uma mídia física (disco de vinil e mais tarde fita cassete) gravada nos correios e enviado por carta, muito popular no começo do século passado, em um tempo em que telefone ainda era coisa de alienígena.</p>

<p><a href="https://radionovelo.com.br/originais/apresenta/vozes-do-alem/" rel="nofollow">Vozes do Além</a> (Rádio Novelo Apresenta)</p>

<p><img src="https://flashbak.com/wp-content/uploads/2026/04/men-in-the-cities-14-640x923.jpeg" alt="Imagem de um homem vestindo terno com o corpo contorcido sobre um terraço em Nova York. Fotografia de Robert Longo"></p>

<h5 id="imagem-robert-longo-via-flashbak-https-flashbak-com-men-in-the-city-482513-4">Imagem: Robert Longo ― via <a href="https://flashbak.com/men-in-the-city-482513/" rel="nofollow">Flashbak</a></h5>

<p>Uma calculadora que estima quanto os anunciantes pagam para se exibirem a você. Para o meu perfil, pagam 36 centavos de dólar por hora de anúncio. Parece pouco, mas é mais de R$ 273 por mês.</p>

<p><a href="https://attentionworth.com/" rel="nofollow">What&#39;s Your Attention Worth | The Ad Spend Calculator</a></p>

<p>Sítio oficial do Décio Pignatari, poeta, tradutor e pensador do Brasil, um dos iniciadores da Poesia Concreta. O espaço virtual foi desenhado pela designer e também poeta André Valias, no aniversário de morte de 10 anos do Décio, em 2022. Das coisas que eu acho mais incríveis nesse sítio é a aba de traduções, posta em ordem cronológica; as traduções do DP vão de Safo à Tsevetaeva, quase dois milênios de poesias...</p>

<p><a href="https://deciopignatari.com/" rel="nofollow">SITE OFICIAL ― DÉCIO PIGNATARI</a></p>

<p>Ainda sobre Poesia Concreta, um sítio com o acervo de todas as edições da Revista Código, uma das revistas nas quais os poetas concretos publicavam suas poesias. Para quem curte design e poesia de vanguarda, são um prato cheio de inspiração. Sempre que tenho um tempinho, dou uma visitada na Revista Código.</p>

<p><a href="https://www.codigorevista.org/nave/" rel="nofollow">codigorevista.org</a></p>

<h2 id="citações">Citações</h2>

<blockquote><p>Uma coisa que eu gostava quando fazia karatê é que nós, faixas brancas, éramos orientados pelos faixas amarelas, poupando o sensei e os karatecas mais experientes de ficar nos ensinando coisas muito básicas. Eu queria que tudo na vida funcionasse meio que desse jeito. Exemplo: nesse sistema eu seria faixa preta em viajar de ônibus, se você não sabe se esse ônibus vai pra Paulínia ou pra Cosmópolis, pergunta ali pro faixa amarela, não enche a porra do meu saco.</p></blockquote>

<p>― <a href="https://ayom.media/@felipesiles/116308755672094914" rel="nofollow">@felipesiles@ayom.media</a></p>

<blockquote><p>(Abro uma pausa parentética para uma “digressão curiosa”, qual seja concernente ao destino de certas pessoas em relação ao próprio nome. Esse Schoenmaekers, por exemplo: seu nome, provável corruptela “melhorada” de “schömaekers” ― “sapateiro(s)”, em holandês quer dizer “fazedor(es) do belo”... Edgar Poe tinha o destino inscrito no próprio nome: poe(ta), poe(t). Contraditório o destino de outro grande poeta de nosso século, Ezra Pound. Com prenome bíblico, apoiou o fascismo de Mussolini e foi acusado de anti-semitismo; filho de Homer Pound (que foi funcionário da Casa da Moeda estadunidense), chegou a escrever ensaios e panfletos sobre a reforma monetária, para não dizer que o tema da <em>usura</em> é um dos temas centrais de seu poema épico, <em>The cantos</em> (Pound, como se sabe, quer dizer libra) Já Mallarmé (= “mal armado”) sofreu desde os bancos escolares, fez do erotismo um de seus temas fálico-secretos. Para acréscimo de seus males, era de baixa estatura ― e mais sofreria ainda por sua obra, objeto de ataques constantes e até rasteiros. Fernando Pessoa negou o nome, dividindo-se em outras pessoas e outros nomes ― os famosos heterônimos (Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Albero Caeiro). Waldemar Cordeiro, com seus 1,90 m de altura, foi o rebelde e agressivo líder dos artistas concretos de São Paulo, na década de 50. E Mondrian, ao ouvir e pensar o seu nome à francesa, não podia deixar de pensar, ver e ouvir “<em>Monde/Rien</em>” [Mundo/Nada]</p></blockquote>

<p>― Décio Pignatari em “Semiótica da Arte e da Arquitetura”.</p>

<p>#notas</p>

<hr>
]]></content:encoded>
      <author>Ideias de Chirico</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/jw5hy6taro</guid>
      <pubDate>Fri, 17 Apr 2026 00:12:10 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Offpunk Manifesto</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/offpunk-manifesto</link>
      <description>&lt;![CDATA[Logo of offpunk Manifesto, a up-side down symbol of wireless internet&#xA;&#xA;The revolution will not be digitized.&#xA;&#xA;At a time when hyper-connectivity is pointed to as a symptom of an inescapable future, a shy and uncomfortable movement is insinuating itself: that of purposeful and intentional disconnection. The adoption of &#34;dumb phones&#34; has grown in recent years. Digital cameras are being used again. As are cassette tapes. And also typewriters... There is also a movement towards adopting the newspaper. Even the minidisc, forgotten because of the mp3 player, has risen from the ashes.&#xA;&#xA;At the beginning of the century, the internet was the promise of the final act of the &#34;Global Village,&#34; advocated by Marshall McLuhan. Computers, expensive and scarce (hence, sometimes communal), were portals to an otherworld. Governments, spending considerable sums, sought to ensure that poor classes were digitally &#34;included.&#34;&#xA;&#xA;We got there. We are now heading towards the mark of three connected devices per person worldwide, according to Cisco Visual Network Index estimates for the 2020s.&#xA;&#xA;The digital is ubiquitous and taken for granted. Included digitally whether we like it or not, we no longer connect to the internet. We simply live in it.&#xA;&#xA;As if wearing a uniform, we keep our phones in our pockets to work, to live, to love.&#xA;&#xA;Digital technology has ceased to be a tool and has become an environment — an environment from which one cannot escape. That is, a prison.&#xA;&#xA;----------------------------------&#xA;&#xA;&#34;Ensuring the non-digital is a duty, not a return to the past,&#34; Giulio Cavalli.&#xA;&#xA;-----------------------------------&#xA;&#xA;In this scenario of compulsory, sometimes unnecessary, connectivity, true dissent isn&#39;t bypassing the system — it&#39;s simply refusing to be part of it.&#xA;&#xA;As the belgian sci-fi writer and software developer Ploum argues, the “punks” of our era are those who dare to live without a smartphone — or &#34;offpunks,&#34; as I now prefer to call them.&#xA;&#xA;Connection as a Weapon of War&#xA;&#xA;The result of centralized, monopolistic technological development, the distribution of internet or digital services has become a weapon of war. When countries with “hard power” enter conflict, they seek to disrupt not only water and gas supplies — they cut off the internet as a wartime tactic. Russia did so in offensives against Ukraine; Israel does so within Palestine.&#xA;&#xA;At the end of 2025, French judge Nicolas Guillou of the International Criminal Court lost all access to several American digital services — such as hosting, online shopping, and banking — provided by American companies like Airbnb, Amazon, and PayPal. The United States justified this sanction because Guillou issued arrest warrants against Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu and his Defense Minister Yoav Gallant, due to Israeli attacks of a genocidal nature in Palestinian territory. The United States is the main country supporting Israel&#39;s actions in Central Asia.&#xA;&#xA;The offpunk stance is born from a simple and uncomfortable observation: the digital realm is fragile. At the same time, all social life is forcibly embedded within this environment. Therefore, this stance takes into account that one must not depend entirely on virtual services, at the risk of one of them being sanctioned or becoming unavailable. Examples like the Microsoft server outage that impacted banking services worldwide in mid-2024, the sanction of Twitter/X by the Brazilian government in late 2024, and the global outage of Amazon and Cloudflare servers in late 2025, which took down numerous domains on the internet, laid bare not only its fragility but also our dependence on these services.&#xA;&#xA;When the system goes down — due to political sanction, outage, or war — what exists online simply evaporates. You are left helpless if your only option is digital.&#xA;&#xA;After all, uninterrupted connection is not a guarantee, especially in countries of the global South or those under internal or external political conflict, or even in peace situation ― in the city of São Paulo, Brasil, due to its policy of outsourcing its energy supply from Italy, there are frequent power outages on rainy days. In these countries, one must always count on analog as a Plan B.&#xA;&#xA;Digital Minimalism and Offpunk&#xA;&#xA;It&#39;s important not to confuse “offpunk” with digital minimalism.&#xA;&#xA;Digital minimalism is a liberal approach to disconnection, entirely focused on individual agency, without criticizing power structures.&#xA;&#xA;Since a peaceful offline life is not possible, it strips away all immersive (or &#34;addictive&#34;) digital elements from it, in order to configure connected environments to be simulacra of an analog life. Off, ma non troppo.&#xA;&#xA;What we truly need is the possibility of total disconnection; the right of going around without the needing of carrying the newest smartphone and being available for 24/7 communication.&#xA;&#xA;Trine Syvertsen demonstrates very well in her &#34;Digital Detox: The Politics of Disconnecting&#34; (2020) how digital minimalism participates in a neoliberal agenda of shifting the responsibility for solving structural problems (previously the purview of collective institutions) onto ordinary individuals — an average user of a modern phone. Furthermore, the author identifies that the reason people seek this type of detox can be summarized by three P&#39;s: presence, productivity, and privacy — all individual agendas.&#xA;&#xA;In other words, if you miss moments of socialization because of your phone, if you don&#39;t produce at work or on personal projects due to notifications, or if you&#39;re fed up with being monitored and objectified by Big Tech, it&#39;s all exclusively your fault for not disciplining yourself enough and not studying ways to make it less appealing — not because of a business model based on the economy attention, mass surveillance, and by-design addictive software.&#xA;&#xA;This delegation of responsibility for literacy aligns with the German-Korean intellectual Byung-Chul Han’s analysis of contemporary society in his book The Agony of Eros, in which he states that&#xA;&#xA;  Self-exploitation is far more efficient than exploitation by others, as it goes hand in hand with a sense of freedom.&#xA;&#xA;Another symptom of this delegation of responsibility is the self-service kiosks found in supermarkets, pharmacies, and banks, which entrust customers with the task of conducting their own retail or banking transactions, most often without an assistant, doing the work of an employee and without receiving any discount on their purchase; if a mistake is made during the transaction, it is charged to the customer’s account, not the company’s.&#xA;&#xA;Offpunk, on the other hand, even though it&#39;s a tech-savvy behavior, advocates for unpretentious disconnection, without the detriment of being on the edge of social activities and the exercise of citizenship.&#xA;&#xA;Finally, while digital minimalism sees disconnection as a means to produce more, offpunk does not view digital detox as a means to greater productivity, because it is, in fact, an attitude of anti-consumption.&#xA;&#xA;Definitions&#xA;&#xA;Offpunk is not a lifestyle. It is a stance towards digitalization, the pursuit of a possible collectivization of digital detox, exploring the social and political character of disconnection. It reclaims leisure, citizenship, and communication without the obligation of a digital intermediary; it does not fight for the end of the internet, but battles for a practible life without uninterrupted connection.&#xA;&#xA;And as a stance, offpunk is closer to a secular tactic, like meditation and guerrilla warfare.&#xA;&#xA;Furthermore, it is noticeable that the intricacies of modern work, even those involving analog activities like teaching, are increasingly invaded by digital processes. In the 2020s, the common use of internet can only be associated with work, as disconnection can only be associated with leisure.&#xA;&#xA;Thus, an offpunk stance defends life beyond work.&#xA;&#xA;On the other hand, with so many unnecessary layers of digitalization in our daily lives, at certain moments one finds in the analog more fluid and direct means of solving problems (read the section &#34;offpunk instruments&#34;).&#xA;&#xA;Offpunks include: a teenager who adopts a basic phone and joins a luddite club; an audiophile who, dissatisfied with Spotify, decides to acquire a record player or an mp3 player; an expert who uses cybersecurity systems; those who fight electronic device obsolescence by installing Linux or custom ROMs on their devices; a self-employed worker who deactivates their commercial social media like Instagram and Facebook; an elderly person who resists using smartphone and finds ways to circumvent digitalization.&#xA;&#xA;Offpunk is not nostalgia. It is not a naive technophobia nor a romantic escape to an imaginary past. It is, above it all, a search for sovereignty and self-managing. Paraphrasing Eduardo Fernandes, as an offpunk:&#xA;&#xA;  Technological revolution is not revolutionary, becoming outdated is not reactionary.&#xA;&#xA;The Offpunk Aesthetic&#xA;&#xA;Offpunk doesn&#39;t have a face yet, but we have some clues as to what it might look like. The first one might come from a recent definition by Ploum of his own action on internet: &#34;technopunk,&#34; an anti-system technophile.&#xA;&#xA;As mentioned earlier, offpunk is about a stance towards the state of technology in the contemporary world, not an utopia/dystopia or a visual aesthetic that participate of wider cultural movement such as &#34;solarpunk&#34; or &#34;cyberpunk.&#34;&#xA;&#xA;Some offpunk examples:&#xA;&#xA;1) in computing, the Offpunk browser for the Gemini protocol, which names this manifesto;&#xA;2) in design, the concept of the &#34;Forever Computer&#34; and the Mudita Kompakt phone;&#xA;3) in society, the New York Luddite Club;&#xA;4) in literature, &#34;Bikepunk&#34; (2025);&#xA;5) in cinema, &#34;One Battle After Another&#34; (2025).&#xA;&#xA;  In One Battle After Another, &#34;obsolescence,&#34; the downgrade is a strategy for freedom. The characters resort to old, customisable devices to create a parallel communication and security network. When new technologies (such as smartphones) emerge, they’re meant to put lives at risk, to suppress people, and to prevent plans from coming to fruition.&#xA;&#xA;— Eduardo Fernandes (Texto Sobre Tela).&#xA;&#xA;In the German-Japanese film &#34;Perfect Days&#34; (2023), we watch the idyllic routine of Hirayama, a cleaner for the Tokyo Project public toilets, who, in his free time, takes photographs, listens to music on cassette players, rides a bicycle, reads books before sleeping, and appreciates every moment of his days — disconnected and doing fine.&#xA;&#xA;Japan, famous for being a country that manages to balance the modern and the traditional, provides cash payment kiosks, business communication via landline telephone, retrocomputing used by large companies — like fax and floppy disks. In India, which perhaps has the best telephone system in the world, the average citizen makes around 90 calls per day.&#xA;&#xA;Demands&#xA;&#xA;Issues related to offpunk include:&#xA;&#xA;1) the fight against overproduction;&#xA;&#xA;2) the fight against planned obsolescence;&#xA;&#xA;3) the fight against the &#34;internet of things,&#34; seeking to break the vicious circle of interconnected devices that consume our time and drain our data to feed Big Data;&#xA;&#xA;4) the fight against the economy attention;&#xA;&#xA;5) reducing working hours, which gradually push labor activity further into the virtual field;&#xA;&#xA;6) the right to leisure, to citizenship, and to work without the needing of a digital device;&#xA;&#xA;7) the urge of a wide inclusion of the poorest and elderly segments of the population to the digital world, which depends not only on acessing an electronic device but also on digital literacy for their independent use and maintenance of that device, aiming a decreasing dependence on others.&#xA;&#xA;Italian columnist Giulio Cavalli argues:&#xA;&#xA;  It&#39;s true: digitalization simplifies, speeds up, and standardizes procedures. But only for those who can be part of it. For everyone else, the future is a closed door.&#xA;&#xA;— &#34;Ensuring the non-digital is a right, not a return to the past&#34; (lettera43)&#xA;&#xA;Offpunk Instruments:&#xA;&#xA;1) cash — it&#39;s practical, requires neither electricity nor internet, and ensures personal data isn&#39;t stored in Big Data systems;&#xA;&#xA;2) analogue media – ensure that communication independent of the internet is possible, or that the item is actually yours (and not rented), as it is a physical object: records, mp3/mp4 players, radio, printed newspapers;&#xA;&#xA;3) revived digital media — email, low-cost &#34;brutalist&#34; websites, digital cameras, &#34;dumb&#34; phones;&#xA;&#xA;4) file storage and transfer media — they ensure digital data isn&#39;t lost in the event of a connection outage: hard drives, memory cards, USB drives, self-managed local cloud services;&#xA;&#xA;5) alternative communication protocols: messengers via Bluetooth (Bitchat), Gemini, encrypted email, onion browsing (Tor), XMPP.&#xA;&#xA;Challenges:&#xA;&#xA;1) overcoming digital conveniences (searching, text translation, easy entertainment, remote payment);&#xA;&#xA;2) accessing social spaces permitted or facilitated only through digital means (concerts, cinemas, restaurants);&#xA;&#xA;3) building professional networks without digital intermediation.&#xA;&#xA;----------------------------&#xA;&#xA;We defend the non-negotiable right to the non-digital. The right to share without the intermediation of algorithms, to organize socially without the mediation of platforms, to resist the imperative of online presence.&#xA;&#xA;As long as a handful of companies in the Global North maintain a monopoly on technology; as long as mass surveillance continues with the state’s consent; as long as there is widespread data collection — and a lack of transparency regarding the use of the collected data — ; as long as there is an economy attention that usurps our valuable free time to force us view some ads on essential digital services; as long as there are infrastructures hindering digital sovereignty in Global South countries; as long as there is compulsory digitalization in a world where the internet is not treated as a basic, inalienable right — the revolution will not be digitized.&#xA;&#xA;This text was originally written in Brazilian Portuguese and is signed by Arlon de Serra Grande and Lionel Dricot (a.k.a. @ploum@mamot.fr).&#xA;&#xA;Fall 2026.&#xA;&#xA;tecnologia&#xA;&#xA;----------------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://i.imgur.com/5gAjGvd.png" alt="Logo of offpunk Manifesto, a up-side down symbol of wireless internet" title="Logo of offpunk Manifesto, a up-side down symbol of wireless internet"></p>

<h5 id="the-revolution-will-not-be-digitized">The revolution will not be digitized.</h5>

<p>At a time when hyper-connectivity is pointed to as a symptom of an inescapable future, a shy and uncomfortable movement is insinuating itself: that of purposeful and intentional disconnection. The adoption of “dumb phones” has grown in recent years. Digital cameras are being used again. <a href="https://www.nytimes.com/2024/10/03/arts/music/cassette-revival-tape-decks.html" rel="nofollow">As are cassette tapes.</a> And also typewriters... <a href="https://slate.com/human-interest/2023/09/media-literacy-print-newspapers-tiktok-influencer-kelsey-russell.html" rel="nofollow">There is also a movement towards adopting the newspaper.</a> <a href="https://www.theverge.com/2024/10/7/24264266/still-have-a-minidisc-player-around" rel="nofollow">Even the minidisc, forgotten because of the mp3 player, has risen from the ashes.</a></p>

<p>At the beginning of the century, the internet was the promise of the final act of the “Global Village,” advocated by Marshall McLuhan. Computers, expensive and scarce (hence, sometimes communal), were portals to an otherworld. Governments, spending considerable sums, sought to ensure that poor classes were digitally “included.”</p>

<p>We got there. We are now heading towards the mark of <a href="https://www.cisco.com/c/dam/m/en_us/solutions/service-provider/vni-forecast-highlights/pdf/Global_2020_Forecast_Highlights.pdf" rel="nofollow">three connected devices per person worldwide</a>, according to Cisco Visual Network Index estimates for the 2020s.</p>

<p>The digital is ubiquitous and taken for granted. Included digitally whether we like it or not, we no longer connect to the internet. We simply <em>live in it</em>.</p>

<p>As if wearing a uniform, we keep our phones in our pockets to work, to live, to love.</p>

<p>Digital technology has ceased to be a tool and has become an environment — an environment from which one cannot escape. That is, a prison.</p>

<hr>

<h1 id="ensuring-the-non-digital-is-a-duty-not-a-return-to-the-past-giulio-cavalli">“Ensuring the non-digital is a duty, not a return to the past,” Giulio Cavalli.</h1>

<hr>

<p>In this scenario of compulsory, sometimes unnecessary, connectivity, true dissent isn&#39;t bypassing the system — it&#39;s simply refusing to be part of it.</p>

<p>As the belgian sci-fi writer and software developer <a href="https://ploum.net/2025-11-17-techpunk.html" rel="nofollow">Ploum argues</a>, the “punks” of our era are those who dare to live without a smartphone — or “offpunks,” as I now prefer to call them.</p>

<h2 id="connection-as-a-weapon-of-war">Connection as a Weapon of War</h2>

<p>The result of centralized, monopolistic technological development, the distribution of internet or digital services has become a weapon of war. When countries with “hard power” enter conflict, they seek to disrupt not only water and gas supplies — they cut off the internet as a wartime tactic. Russia did so in offensives against Ukraine; Israel does so within Palestine.</p>

<p>At the end of 2025, <a href="https://www.lemonde.fr/international/article/2025/11/19/nicolas-guillou-juge-francais-de-la-cpi-sanctionne-par-les-etats-unis-face-aux-attaques-les-magistrats-de-la-cour-tiendront_6654016_3210.html" rel="nofollow">French judge Nicolas Guillou of the International Criminal Court lost all access to several American digital services</a> — such as hosting, online shopping, and banking — provided by American companies like Airbnb, Amazon, and PayPal. The United States justified this sanction because Guillou issued arrest warrants against Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu and his Defense Minister Yoav Gallant, due to Israeli attacks of a genocidal nature in Palestinian territory. The United States is the main country supporting Israel&#39;s actions in Central Asia.</p>

<p>The <em>offpunk</em> stance is born from a simple and uncomfortable observation: the digital realm is fragile. At the same time, all social life is forcibly embedded within this environment. Therefore, this stance takes into account that one must not depend entirely on virtual services, at the risk of one of them being sanctioned or becoming unavailable. Examples like <a href="https://www.financialexpress.com/life/technology-microsoft-outage-disrupts-banks-airlines-and-stock-exchange-full-list-of-services-impacted-3558631/" rel="nofollow">the Microsoft server outage that impacted banking services worldwide in mid-2024</a>, the <a href="https://www.gazetadigital.com.br/editorias/brasil/x-continua-bloqueado-no-brasil-apesar-de-ter-suas-dividas-quitadas-entenda/783707" rel="nofollow">sanction of Twitter/X by the Brazilian government in late 2024</a>, and the <a href="https://lifehacker.com/tech/cloudflare-amazon-web-sites-and-services-down" rel="nofollow">global outage of Amazon and Cloudflare servers in late 2025, which took down numerous domains on the internet</a>, laid bare not only its fragility but also our dependence on these services.</p>

<p>When the system goes down — due to political sanction, outage, or war — what exists online simply evaporates. You are left helpless if your only option is digital.</p>

<p>After all, uninterrupted connection is not a guarantee, especially in countries of the global South or those under internal or external political conflict, or even in peace situation ― in the city of São Paulo, Brasil, due to its policy of outsourcing its energy supply from Italy, there are frequent power outages on rainy days. In these countries, one must always count on analog as a Plan B.</p>

<h2 id="digital-minimalism-and-offpunk">Digital Minimalism and Offpunk</h2>

<p>It&#39;s important not to confuse “offpunk” with digital minimalism.</p>

<p>Digital minimalism is a liberal approach to disconnection, entirely focused on individual agency, without criticizing power structures.</p>

<p>Since a peaceful offline life is not possible, it strips away all immersive (or “addictive”) digital elements from it, in order to configure connected environments to be simulacra of an analog life. <em>Off, ma non troppo</em>.</p>

<p>What we truly need is the possibility of total disconnection; the right of going around without the needing of carrying the newest smartphone and being available for 24/7 communication.</p>

<p>Trine Syvertsen demonstrates very well in her “Digital Detox: The Politics of Disconnecting” (2020) how digital minimalism participates in a neoliberal agenda of shifting the responsibility for solving structural problems (previously the purview of collective institutions) onto ordinary individuals — an average user of a modern phone. Furthermore, the author identifies that the reason people seek this type of detox can be summarized by three P&#39;s: presence, productivity, and privacy — all individual agendas.</p>

<p>In other words, if you miss moments of socialization because of your phone, if you don&#39;t produce at work or on personal projects due to notifications, or if you&#39;re fed up with being monitored and objectified by Big Tech, it&#39;s all exclusively your fault for not disciplining yourself enough and not studying ways to make it less appealing — not because of a business model based on the economy attention, mass surveillance, and by-design addictive software.</p>

<p>This delegation of responsibility for literacy aligns with the German-Korean intellectual Byung-Chul Han’s analysis of contemporary society in his book <em>The Agony of Eros</em>, in which he states that</p>

<blockquote><p>Self-exploitation is far more efficient than exploitation by others, as it goes hand in hand with a sense of freedom.</p></blockquote>

<p>Another symptom of this delegation of responsibility is the self-service kiosks found in supermarkets, pharmacies, and banks, which entrust customers with the task of conducting their own retail or banking transactions, most often without an assistant, doing the work of an employee and without receiving any discount on their purchase; if a mistake is made during the transaction, it is charged to the customer’s account, not the company’s.</p>

<p>Offpunk, on the other hand, even though it&#39;s a tech-savvy behavior, advocates for unpretentious disconnection, without the detriment of being on the edge of social activities and the exercise of citizenship.</p>

<p>Finally, while digital minimalism sees disconnection as a means to produce more, offpunk does not view digital detox as a means to greater productivity, because it is, in fact, an attitude of anti-consumption.</p>

<h2 id="definitions">Definitions</h2>

<p>Offpunk is not a lifestyle. It is a stance towards digitalization, the pursuit of a possible collectivization of digital detox, exploring the social and political character of disconnection. It reclaims leisure, citizenship, and communication without the obligation of a digital intermediary; it does not fight for the end of the internet, but battles for a practible life without uninterrupted connection.</p>

<p>And as a stance, offpunk is closer to a secular tactic, like meditation and guerrilla warfare.</p>

<p>Furthermore, it is noticeable that the intricacies of modern work, even those involving analog activities like teaching, are increasingly invaded by digital processes. In the 2020s, the common use of internet can only be associated with work, as disconnection can only be associated with leisure.</p>

<p>Thus, an offpunk stance defends life beyond work.</p>

<p>On the other hand, with so many unnecessary layers of digitalization in our daily lives, at certain moments one finds in the analog more fluid and direct means of solving problems (read the section “offpunk instruments”).</p>

<p>Offpunks include: a teenager who adopts a basic phone and joins a luddite club; an audiophile who, dissatisfied with Spotify, decides to acquire a record player or an mp3 player; an expert who uses cybersecurity systems; those who fight electronic device obsolescence by installing Linux or custom ROMs on their devices; a self-employed worker who deactivates their commercial social media like Instagram and Facebook; an elderly person who resists using smartphone and finds ways to circumvent digitalization.</p>

<p>Offpunk is not nostalgia. It is not a naive technophobia nor a romantic escape to an imaginary past. It is, above it all, a search for sovereignty and self-managing. Paraphrasing <a href="https://textosobretela.com/p/geriatria-da-tecnologia" rel="nofollow">Eduardo Fernandes</a>, as an offpunk:</p>

<blockquote><p>Technological revolution is not revolutionary, becoming outdated is not reactionary.</p></blockquote>

<h2 id="the-offpunk-aesthetic">The Offpunk Aesthetic</h2>

<p>Offpunk doesn&#39;t have a face yet, but we have some clues as to what it might look like. The first one might come from a recent definition by Ploum of his own action on internet: “technopunk,” an anti-system technophile.</p>

<p>As mentioned earlier, offpunk is about a stance towards the state of technology in the contemporary world, not an utopia/dystopia or a visual aesthetic that participate of wider cultural movement such as “<em>solarpunk</em>” or “<em>cyberpunk</em>.”</p>

<p>Some offpunk examples:</p>

<p>1) in computing, the <a href="https://ploum.net/2026-02-09-offpunk3.html" rel="nofollow">Offpunk</a> browser for the Gemini protocol, which names this manifesto;
2) in <em>design</em>, the concept of the <a href="https://ploum.net/the-computer-built-to-last-50-years/index.html" rel="nofollow">“Forever Computer”</a> and the Mudita Kompakt phone;
3) in society, the New York Luddite Club;
4) in literature, “Bikepunk” (2025);
5) in cinema, “One Battle After Another” (2025).</p>

<blockquote><p>In One Battle After Another, “obsolescence,” the downgrade is a strategy for freedom. The characters resort to old, customisable devices to create a parallel communication and security network. When new technologies (such as smartphones) emerge, they’re meant to put lives at risk, to suppress people, and to prevent plans from coming to fruition.</p></blockquote>

<p>— <a href="https://textosobretela.com/p/geriatria-da-tecnologia" rel="nofollow">Eduardo Fernandes</a> (Texto Sobre Tela).</p>

<p>In the German-Japanese film “Perfect Days” (2023), we watch the idyllic routine of Hirayama, a cleaner for the Tokyo Project public toilets, who, in his free time, takes photographs, listens to music on cassette players, rides a bicycle, reads books before sleeping, and appreciates every moment of his days — disconnected and doing fine.</p>

<p>Japan, famous for being a country that manages to balance the modern and the traditional, provides cash payment kiosks, business communication via landline telephone, retrocomputing used by large companies — like fax and floppy disks. In India, which perhaps has the best telephone system in the world, the average citizen makes around 90 calls per day.</p>

<h2 id="demands">Demands</h2>

<p>Issues related to offpunk include:</p>

<p>1) the fight against overproduction;</p>

<p>2) the fight against planned obsolescence;</p>

<p>3) the fight against the “internet of things,” seeking to break the vicious circle of interconnected devices that consume our time and drain our data to feed Big Data;</p>

<p>4) the fight against the economy attention;</p>

<p>5) reducing working hours, which gradually push labor activity further into the virtual field;</p>

<p>6) the right to leisure, to citizenship, and to work without the needing of a digital device;</p>

<p>7) the urge of a wide inclusion of the poorest and elderly segments of the population to the digital world, which depends not only on acessing an electronic device but also on digital literacy for their independent use and maintenance of that device, aiming a decreasing dependence on others.</p>

<p>Italian columnist Giulio Cavalli argues:</p>

<blockquote><p>It&#39;s true: digitalization simplifies, speeds up, and standardizes procedures. But only for those who can be part of it. For everyone else, the future is a closed door.</p></blockquote>

<p>— <a href="https://www.lettera43.it/spid-digitalizzazione-pa-esclusione-diritti-sinistra/" rel="nofollow">“Ensuring the non-digital is a right, not a return to the past”</a> (lettera43)</p>

<h2 id="offpunk-instruments">Offpunk Instruments:</h2>

<p>1) cash — it&#39;s practical, requires neither electricity nor internet, and ensures personal data isn&#39;t stored in Big Data systems;</p>

<p>2) analogue media – ensure that communication independent of the internet is possible, or that the item is actually yours (and not rented), as it is a physical object: records, mp3/mp4 players, radio, printed newspapers;</p>

<p>3) revived digital media — email, low-cost “brutalist” websites, digital cameras, “dumb” phones;</p>

<p>4) file storage and transfer media — they ensure digital data isn&#39;t lost in the event of a connection outage: hard drives, memory cards, USB drives, self-managed local cloud services;</p>

<p>5) alternative communication protocols: messengers via Bluetooth (Bitchat), Gemini, encrypted email, onion browsing (Tor), XMPP.</p>

<h2 id="challenges">Challenges:</h2>

<p>1) overcoming digital conveniences (searching, text translation, easy entertainment, remote payment);</p>

<p>2) accessing social spaces permitted or facilitated only through digital means (concerts, cinemas, restaurants);</p>

<p>3) building professional networks without digital intermediation.</p>

<hr>

<p>We defend the non-negotiable right to the non-digital. The right to share without the intermediation of algorithms, to organize socially without the mediation of platforms, to resist the imperative of online presence.</p>

<p>As long as a handful of companies in the Global North maintain a monopoly on technology; as long as mass surveillance continues with the state’s consent; as long as there is widespread data collection — and a lack of transparency regarding the use of the collected data — ; as long as there is an economy attention that usurps our valuable free time to force us view some ads on essential digital services; as long as there are infrastructures hindering digital sovereignty in Global South countries; as long as there is compulsory digitalization in a world where the internet is not treated as a basic, inalienable right — the revolution will not be digitized.</p>

<p>This text was originally written in Brazilian Portuguese and is signed by Arlon de Serra Grande and Lionel Dricot (a.k.a. @ploum@mamot.fr).</p>

<p>Fall 2026.</p>

<p>#tecnologia</p>

<hr>
]]></content:encoded>
      <author>Ideias de Chirico</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/q3wtch1676</guid>
      <pubDate>Wed, 15 Apr 2026 00:35:12 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Resenha sobre o filme &#34;La teta asustada&#34; (Claudia Llosa, 2009)</title>
      <link>https://blog.ayom.media/felipe-siles/resenha-sobre-o-filme-la-teta-asustada-claudia-llosa-2009</link>
      <description>&lt;![CDATA[AVISO: O presente texto, em algum momento, revelará o final do filme. Portanto, se você é sensível a isso, sugiro que o assista antes da leitura.&#xA;&#xA;iframe width=&#34;560&#34; height=&#34;315&#34; src=&#34;https://www.youtube.com/embed/1gquq9-k54g?si=fL6ZWZyi-5-7WZyz&#34; title=&#34;YouTube video player&#34; frameborder=&#34;0&#34; allow=&#34;accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share&#34; referrerpolicy=&#34;strict-origin-when-cross-origin&#34; allowfullscreen/iframe&#xA;&#xA;&#34;La teta asustada&#34; é uma espécie de doença espiritual, presente no imaginário popular peruano, originada em um passado ancestral indígena. Essa doença acomete crianças nascidas de estupro que, ao beber o leite da mãe violentada, acabam &#34;sem alma&#34;, ou seja, com uma subjetividade baseada no medo e na paralisia. Fausta, a protagonista do filme, sofre deste mal e, além disso, para evitar a repetição da história, ela possui uma batata dentro da própria vagina, que provoca ao longo da narrativa alguns problemas de saúde na personagem.&#xA;&#xA;A primeira cena já é muito forte, a mãe de Fausta entoa uma cantiga que carrega todo seu legado de dor e sofrimento, e morre diante da filha. Fausta se vê como responsável por cuidar do corpo da mãe, e também de seu legado, porém todo o resto do mundo parece ser hostil a isso: a falta de dinheiro para enterrar o corpo com dignidade; seu tio que quer resolver a situação enterrando-a no quintal; e o médico insensível que não a escuta e não procura compreender sua subjetividade. Até mesmo os casamentos populares organizados por sua família parecem uma afronta à verdade e essência de Fausta.&#xA;&#xA;Eis que surge uma oportunidade para ela trabalhar na casa de uma pianista, onde duas relações praticamente opostas vão se desenrolar: a relação com a patroa e com o jardineiro Noé. Aos trancos e barrancos, Fausta vai construindo uma relação com a patroa, que gosta de ouvi-la cantar e até paga por isso. Em um momento de solidão e fragilidade emocional, a patroa chega a lhe confessar um segredo de infância. A relação aparentemente vai bem, Fausta consegue se identificar naquela mulher solitária, a despeito do nítido abismo social. Mas, por acreditar na sinceridade dessa relação, é punida de maneira cruel: Fausta se coloca como uma igual, demonstra humanidade e empatia ao fazer um comentário simpático sobre o concerto de piano da patroa. Esta, que vê os empregados apenas como meros instrumentos para realizar seus caprichos e desejos e faz questão de colocá-los em seus devidos lugares, não suporta a inocência e humanidade de Fausta nesse gesto tão despretensioso, o que a leva a expulsá-la do carro, rompendo seu acordo trabalhista e, principalmente, o acordo de dar-lhe pérolas cada vez que ela cantasse. Essas pérolas são de vital importância para Fausta, já que a patroa recusou adiantamento de salário e seriam uma forma de bancar o enterro da mãe antes do casamento da prima. Seu tio fixou o casamento como prazo para que possam resolver a situação do cadáver, pois não quer a própria filha casando-se com uma pessoa morta em casa. &#xA;&#xA;Do outro lado está Noé, o jardineiro, o único aparentemente interessado em construir alguma relação genuína com Fausta. Porém, essa relação também vai sendo construída aos trancos e barrancos, Fausta desconfia de Noé desde a primeira vez que se encontram, onde ela pede para que ele mostre as mãos para entrar na mansão. Eles entram numa discussão sobre as escolhas de Fausta, que se irrita por ele não conseguir compreender o ponto de vista dela e, de certa maneira, desdenhar de (ou confrontar?) seu trauma. Noé se dispõe a acompanhar Fausta até em casa, sempre sob a desconfiança da protagonista, que se acentua quando ele oferece doces de presente a ela, que são atirados no chão.&#xA;&#xA;Fausta compreendia o mundo a partir da violência, principalmente a de gênero. Porém, sua verdade é abalada ao encontrar as pérolas prometidas por sua patroa no chão, próximo de sua casa. Ficamos por um momento sem compreender como elas foram parar ali, até que Fausta é acometida por mais um desmaio (que ocorre em diversos pontos da história, devido à questão da batata). Em seu momento de maior fragilidade, vemos as mãos de um homem sobre Fausta; compartilhamos o mesmo medo da protagonista e esperamos o pior. Contudo, para nossa surpresa, o homem ajeita a roupa de Fausta com carinho paternal e a socorre. O homem é Noé, entendemos que foi ele quem &#34;roubou&#34; as pérolas da patroa. Fausta percebe o peso de ter rejeitado e tratado com desconfiança a única pessoa em quem poderia confiar de verdade, desabando em pranto. Ao notar o descompasso entre sua subjetividade, orientada pelo trauma, e aquele gesto objetivo surpreendentemente humano, ela, em lágrimas, pede a Noé que a leve para fazer a cirurgia de retirada da batata, dando fim ao objeto que simboliza a sua dor e autofagia. &#xA;&#xA;&#34;La teta asustada&#34; é uma história potente sobre traumas, dor e, principalmente, desejo. Fausta, por sua história de trauma e dor, é impedida de desejar. A metáfora não podia ser mais literal do que uma batata no próprio órgão, impedindo o ato sexual. A autodefesa e desconfiança se voltam contra ela própria, atacando sua saúde e contaminando todas as suas relações, mesmo entre seus familiares. O próximo trauma, o próximo perigo é uma sombra que sempre ronda, mas não se concretiza da maneira como ela espera: a hipotética cova no quintal vira uma piscina onde as crianças se divertem, o potencial estuprador Noé se mostra um amigo leal e a patroa se mostra o perigo que ela deveria ter temido de verdade.&#xA;&#xA;O processo de transformação de Fausta começa com o falecimento da mãe, que é a pessoa que lhe passou o trauma, criando uma situação de instabilidade que culmina, no final do filme, com a cirurgia e o reestabelecimento de sua capacidade de confiar nas pessoas e se relacionar. Com o dinheiro das pérolas, o corpo da mãe ganha um final digno: é devolvido ao mar a caminho de sua terra natal, simbolizando o respeito e carinho de Fausta por sua genitora. Esse carinho de Fausta pela mãe move praticamente todas as suas ações no filme. E, ao final, Fausta recebe um presente, presumimos que de Noé, uma flor que brota de uma batata, demonstrando que até mesmo os traumas mais profundos e violentos podem florescer. E você? Quanto é definido pelos seus traumas? Quanto eles te impedem de florescer para o novo?&#xA;&#xA;cartaz do filme]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>AVISO: O presente texto, em algum momento, revelará o final do filme. Portanto, se você é sensível a isso, sugiro que o assista antes da leitura.</p>

<iframe width="560" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/1gquq9-k54g?si=fL6ZWZyi-5-7WZyz" title="YouTube video player" frameborder="0" allowfullscreen=""></iframe>

<p>“La teta asustada” é uma espécie de doença espiritual, presente no imaginário popular peruano, originada em um passado ancestral indígena. Essa doença acomete crianças nascidas de estupro que, ao beber o leite da mãe violentada, acabam “sem alma”, ou seja, com uma subjetividade baseada no medo e na paralisia. Fausta, a protagonista do filme, sofre deste mal e, além disso, para evitar a repetição da história, ela possui uma batata dentro da própria vagina, que provoca ao longo da narrativa alguns problemas de saúde na personagem.</p>

<p>A primeira cena já é muito forte, a mãe de Fausta entoa uma cantiga que carrega todo seu legado de dor e sofrimento, e morre diante da filha. Fausta se vê como responsável por cuidar do corpo da mãe, e também de seu legado, porém todo o resto do mundo parece ser hostil a isso: a falta de dinheiro para enterrar o corpo com dignidade; seu tio que quer resolver a situação enterrando-a no quintal; e o médico insensível que não a escuta e não procura compreender sua subjetividade. Até mesmo os casamentos populares organizados por sua família parecem uma afronta à verdade e essência de Fausta.</p>

<p>Eis que surge uma oportunidade para ela trabalhar na casa de uma pianista, onde duas relações praticamente opostas vão se desenrolar: a relação com a patroa e com o jardineiro Noé. Aos trancos e barrancos, Fausta vai construindo uma relação com a patroa, que gosta de ouvi-la cantar e até paga por isso. Em um momento de solidão e fragilidade emocional, a patroa chega a lhe confessar um segredo de infância. A relação aparentemente vai bem, Fausta consegue se identificar naquela mulher solitária, a despeito do nítido abismo social. Mas, por acreditar na sinceridade dessa relação, é punida de maneira cruel: Fausta se coloca como uma igual, demonstra humanidade e empatia ao fazer um comentário simpático sobre o concerto de piano da patroa. Esta, que vê os empregados apenas como meros instrumentos para realizar seus caprichos e desejos e faz questão de colocá-los em seus devidos lugares, não suporta a inocência e humanidade de Fausta nesse gesto tão despretensioso, o que a leva a expulsá-la do carro, rompendo seu acordo trabalhista e, principalmente, o acordo de dar-lhe pérolas cada vez que ela cantasse. Essas pérolas são de vital importância para Fausta, já que a patroa recusou adiantamento de salário e seriam uma forma de bancar o enterro da mãe antes do casamento da prima. Seu tio fixou o casamento como prazo para que possam resolver a situação do cadáver, pois não quer a própria filha casando-se com uma pessoa morta em casa.</p>

<p>Do outro lado está Noé, o jardineiro, o único aparentemente interessado em construir alguma relação genuína com Fausta. Porém, essa relação também vai sendo construída aos trancos e barrancos, Fausta desconfia de Noé desde a primeira vez que se encontram, onde ela pede para que ele mostre as mãos para entrar na mansão. Eles entram numa discussão sobre as escolhas de Fausta, que se irrita por ele não conseguir compreender o ponto de vista dela e, de certa maneira, desdenhar de (ou confrontar?) seu trauma. Noé se dispõe a acompanhar Fausta até em casa, sempre sob a desconfiança da protagonista, que se acentua quando ele oferece doces de presente a ela, que são atirados no chão.</p>

<p>Fausta compreendia o mundo a partir da violência, principalmente a de gênero. Porém, sua verdade é abalada ao encontrar as pérolas prometidas por sua patroa no chão, próximo de sua casa. Ficamos por um momento sem compreender como elas foram parar ali, até que Fausta é acometida por mais um desmaio (que ocorre em diversos pontos da história, devido à questão da batata). Em seu momento de maior fragilidade, vemos as mãos de um homem sobre Fausta; compartilhamos o mesmo medo da protagonista e esperamos o pior. Contudo, para nossa surpresa, o homem ajeita a roupa de Fausta com carinho paternal e a socorre. O homem é Noé, entendemos que foi ele quem “roubou” as pérolas da patroa. Fausta percebe o peso de ter rejeitado e tratado com desconfiança a única pessoa em quem poderia confiar de verdade, desabando em pranto. Ao notar o descompasso entre sua subjetividade, orientada pelo trauma, e aquele gesto objetivo surpreendentemente humano, ela, em lágrimas, pede a Noé que a leve para fazer a cirurgia de retirada da batata, dando fim ao objeto que simboliza a sua dor e autofagia.</p>

<p>“La teta asustada” é uma história potente sobre traumas, dor e, principalmente, desejo. Fausta, por sua história de trauma e dor, é impedida de desejar. A metáfora não podia ser mais literal do que uma batata no próprio órgão, impedindo o ato sexual. A autodefesa e desconfiança se voltam contra ela própria, atacando sua saúde e contaminando todas as suas relações, mesmo entre seus familiares. O próximo trauma, o próximo perigo é uma sombra que sempre ronda, mas não se concretiza da maneira como ela espera: a hipotética cova no quintal vira uma piscina onde as crianças se divertem, o potencial estuprador Noé se mostra um amigo leal e a patroa se mostra o perigo que ela deveria ter temido de verdade.</p>

<p>O processo de transformação de Fausta começa com o falecimento da mãe, que é a pessoa que lhe passou o trauma, criando uma situação de instabilidade que culmina, no final do filme, com a cirurgia e o reestabelecimento de sua capacidade de confiar nas pessoas e se relacionar. Com o dinheiro das pérolas, o corpo da mãe ganha um final digno: é devolvido ao mar a caminho de sua terra natal, simbolizando o respeito e carinho de Fausta por sua genitora. Esse carinho de Fausta pela mãe move praticamente todas as suas ações no filme. E, ao final, Fausta recebe um presente, presumimos que de Noé, uma flor que brota de uma batata, demonstrando que até mesmo os traumas mais profundos e violentos podem florescer. E você? Quanto é definido pelos seus traumas? Quanto eles te impedem de florescer para o novo?</p>

<p><img src="https://external-content.duckduckgo.com/iu/?u=https%3A%2F%2Ftse2.mm.bing.net%2Fth%2Fid%2FOIP.mLeMkrTL-ycUzWz9lgYPzwHaE8%3Fpid%3DApi&amp;f=1&amp;ipt=42ad5017d9868614a313e13ea1d4e105f1696a2fd9b2c1fdd01acaa125610f99&amp;ipo=images" alt="cartaz do filme"></p>
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      <author>felipe siles</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/oqs1nia9n6</guid>
      <pubDate>Sun, 29 Mar 2026 23:17:52 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Governo digital e desrespeito ao software livre no Brasil</title>
      <link>https://blog.ayom.media/daltux/governo-digital-e-desrespeito-ao-software-livre-no-brasil</link>
      <description>&lt;![CDATA[Toda a estrutura de &#34;governo digital&#34; que tem sido montada há alguns anos ao redor do chamado &#34;Gov.BR&#34; infelizmente vai na contramão do software livre e, ultimamente, envolve a exigência de software privativo &amp;mdash; que priva as pessoas das liberdades digitais essenciais &amp;mdash; não só do próprio governo central como também do mais alto capital estrangeiro (&#34;big tech&#34;). !--more--Isso culmina com a entrega do controle do cidadão às duas fornecedoras estadunidenses de sistemas operacionais para computação móvel. Embora pareça hoje, não foi sempre assim. Porém, não chega a surpreender uma pouca adesão à causa do software livre: infelizmente, pouca gente sequer sabe o que significa isoftware/i livre, muito menos bem e, em grande medida, isso se dá por confusão com &#34;código aberto&#34;, algo estimulado e literalmente patrocinado pela própria ibig tech/i, replicado até por quem, mesmo com boas intenções, deseja conciliar tudo.&#xA;&#xA;Afinal, coalizão geralmente traz resultados. Talvez não coubesse envolver moral na questão, e sim continuar a tentar o que passa impressão de pragmatismo, algo mais comumente aceito. Contudo, não fica tão difícil entender quais partes acabaram dominando e assim continuarão.&#xA;&#xA;Enquanto quem tolera a convivência com software privativo em nome do pragmatismo defende que somente assim uma transformação social &#34;para o código aberto&#34; seria possível, será que os que chamam de &#34;radicais&#34; do software livre não seriam mais pragmáticos ainda? Em vez de lhes atribuir adjetivos pejorativos, é melhor admirar mais quem se esforça muito para colocar em prática já o que idealizam esses movimentos (por mais conciliatórios que sejam), recusando software privativo em alguma medida conforme suas condições, progressivamente que seja, não apenas em um eventual futuro distante que talvez nunca chegue enquanto se admite o contrário.&#xA;&#xA;Alguém precisa lembrar, questionar e cobrar detalhes com profundidade, senão, muitas vezes, nem percebemos os problemas ou acabamos ajudando a normalizá-los ou reforçá-los.&#xA;&#xA;#softwareLivre #governo #brasil #soberaniaDigital]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Toda a estrutura de “governo digital” que tem sido montada há alguns anos ao redor do chamado “Gov.BR” infelizmente vai na contramão do <a href="https://www.gnu.org/philosophy/free-sw.html" rel="nofollow"><em>software</em> livre</a> e, ultimamente, envolve a exigência de <em>software</em> privativo — que priva as pessoas das <a href="https://www.gnu.org/philosophy/free-sw.html#four-freedoms" rel="nofollow">liberdades digitais essenciais</a> — não só do próprio governo central como também do mais alto capital estrangeiro (”<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Gigante_da_tecnologia" rel="nofollow"><em>big tech</em></a>”). Isso culmina com a entrega do controle do cidadão às duas fornecedoras estadunidenses de sistemas operacionais para <a href="https://www.gnu.org/proprietary/malware-mobiles.html" rel="nofollow">computação móvel</a>. Embora pareça hoje, não foi sempre assim. Porém, não chega a surpreender uma pouca adesão à causa do <em>software</em> livre: infelizmente, pouca gente sequer sabe <a href="https://www.gnu.org/philosophy/free-sw.html" rel="nofollow">o que significa <i>software</i> livre</a>, muito menos bem e, em grande medida, isso se dá por <a href="https://trisquel.info/en/wiki/why-open-source-misses-point-free-software" rel="nofollow">confusão com “código aberto”</a>, algo estimulado e literalmente <a href="https://opensource.org/sponsors" rel="nofollow">patrocinado pela própria <i>big tech</i></a>, replicado até por quem, mesmo com boas intenções, deseja conciliar tudo.</p>

<p>Afinal, coalizão geralmente traz resultados. Talvez não coubesse envolver moral na questão, e sim <em>continuar</em> a tentar o que passa impressão de pragmatismo, algo mais comumente aceito. Contudo, não fica tão difícil entender quais partes acabaram dominando e assim continuarão.</p>

<p>Enquanto quem tolera a convivência com <a href="https://gnu.org/proprietary" rel="nofollow"><em>software</em> privativo</a> em nome do pragmatismo defende que somente assim uma transformação social “para o <a href="https://www.gnu.org/philosophy/words-to-avoid.html#Open" rel="nofollow">código aberto</a>” seria possível, será que os que chamam de “radicais” do <em>software</em> livre não seriam mais <a href="https://aulete.com.br/pragmatismo" rel="nofollow">pragmáticos</a> ainda? Em vez de lhes atribuir adjetivos pejorativos, é melhor admirar mais quem se esforça muito para colocar em prática <strong>já</strong> o que idealizam esses movimentos (por mais conciliatórios que sejam), <a href="https://forum.ayom.media/post/65138" rel="nofollow">recusando <em>software</em> privativo</a> em alguma medida conforme suas condições, progressivamente que seja, não apenas em um eventual futuro distante que talvez nunca chegue enquanto se admite o contrário.</p>

<p><em>Alguém</em> precisa lembrar, questionar e cobrar detalhes com profundidade, senão, muitas vezes, nem percebemos os problemas ou acabamos ajudando a normalizá-los ou reforçá-los.</p>

<p>#softwareLivre #governo #brasil #soberaniaDigital</p>
]]></content:encoded>
      <author>daltux</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/9igcyipcmv</guid>
      <pubDate>Sun, 29 Mar 2026 00:38:24 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Notas Costuradas</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/notas-costuradas-60lb</link>
      <description>&lt;![CDATA[Nas últimas Notas Costuradas eu havia anunciado a página Recados, onde faço comentários mais curtos e despretensiosos.&#xA;&#xA;Uma leitora destas Ideias, porém, pede que eu não largue as ~notas das Notas Costuradas, uma vez que as atualizações da página Recados não vão para o RSS. Por outro lado, vejo que essa mesma página não recebe tantas visitas.&#xA;&#xA;Tentarei resolver esse dilema por um meio-termo: mantenho as atualizações, quase na mesma frequência com que eu mantinha meu perfil de microblogue fediversal; ao mesmo tempo as republico nas Notas Costuradas, só que com um pouco mais de desenvolvimento.&#xA;&#xA;Além dessa ressalva, queria dizer publicamente que a partir de agora estou mais comprometido com a escrita de prosa ficcional ― ou algo assim. Há um tempo tenho me interessado por crônica, esse gênero que representa tão bem o Brasil.&#xA;&#xA;A última publicação foi algo nesse sentido. No entanto, está mais próxima de um conto do que de uma crônica; mas já é algum exercício. Tenho pensado seriamente em partir para o pastiche, imitando mestres cronistas que admiro, como Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade e Décio Pignatari (esse Pelé da crônica). Essa foi a técnica que adotei para aprender/apreender poesia, que busquei registrar através do meu livro autopublicado “Estudando Poesia”. Funcionou para este tipo de literatura. Espero que funcione para a prosa.&#xA;&#xA;É isso. Sigam na leitura:&#xA;&#xA;Ainda sobre dilemas&#xA;&#xA;Configuro um software para transcrever minhas notas em áudio, o Speech Note. Eu costumava utilizá-lo antes de formatar o computador. Como voltei a gravar mais áudios como forma de “sentir que estou escrevendo”, decidi baixar o programa e prepará-lo.&#xA;&#xA;Ele é uma mão na roda, mas que está tomando muito tempo. Às vezes penso se não seria melhor escrever somente com os recursos primários ― papel, caneta e cabeça ―; que o desenvolvimento de ferramentas de escrita na verdade está é complexificando uma coisa que é simples: escrever. Digo, não escrever em si, mas: passar uma mensagem para outra pessoa.&#xA;&#xA;De qualquer forma, gosto de experimentar novas ferramentas, e sempre o enfatizei aqui. Talvez o que esteja me aborrecendo seja a curva de aprendizado que cada ferramenta me toma. Um baita dilema. Quem domina somente os instrumentos básicos não passaria por isso. Porém, eu que domino instrumentos alternativos, digo: por que não reinventar aquilo que já está dado como definitivo, uma vez que cada instrumento é determinante para o texto?&#xA;&#xA;Blogues x Newsletters&#xA;&#xA;Rolando pelo Lerama, posso dizer com toda a certeza: blogues têm mais molho do que newsletters. Felizmente ainda há alguns desses últimos que se salvam, mas em geral os demais parecem mais revivais do Tumblr, soa algo da adolescência tardia, uma poesia barata aqui, uma fotinha bonitinha ali, um desabafo praculá. Uma breguice só.&#xA;&#xA;E escrevem muito mal. Não consigo terminar a maioria dos textos que começo a ler, não há cadência na escrita, não há costura alguma, textos que andam em círculos sempre, sempre redundantes e cheio de clichês. Ler o primeiro parágrafo e ler qualquer outro não faz diferença. Dá igual. &#xA;&#xA;O mais engraçado de tudo é que “newsletter” só se resume a Substack. Só tem essa plataforma de newsletter por acaso? (E nem o povo do Fediverso para divulgar mais o Ghost...). Quando as pessoas se referirem a toda e qualquer newsletter como “Substack”, quero só ver...&#xA;&#xA;Ainda sobre polarizações&#xA;&#xA;Rolo pelo Lemmy. Claramente há uma grande cisão entre um Fediverso “shitposting” e um Fediverso discursivo. Os lemmyanos diferenciam esses dois polos (que raramente se tocam) como “blogoverso” e “fioverso”, respectivamente.&#xA;&#xA;No período em que estive dentro do Mastodon e outras plataformas de microblogue, sentia falta exatamente desse ímpeto de debate, que eu via em comunidades anglófonos ou italófonos. Pode ser também que isso seja algo cultural, que o Fediverso brasileiro não curta mesmo discutir. Quando descobri que era possível publicar em comunidades mais verborrágicas, como Lemmy e Friendica, mesmo sem ter conta nessas plataformas, fiquei mais tranquilo.&#xA;&#xA;Espero que a esta altura do campeonato, os dois polos estejam um pouco mais integrados. Isso não é tão visível a partir do chamado “fioverso”.&#xA;&#xA;Proton Mail não vale o que sai da bunda&#xA;&#xA;Troquei o meu serviço de e-mail. O Proton estava praticamente com o espaço esgotado. Decidi trocá-lo porque o Proton só disponibiliza 1GB de armazenamento de mensagens. Quando comecei com o serviço, era até suficiente. Dois anos depois, já está lotado.&#xA;&#xA;Então pensei “Bom, já que é para trocar, vou tentar um outro serviço que tenha outros recursos”. Decidi assumir um Disroot, porque ele permite logar em clientes de terceiros, como Thunderbird. Através do Thunderbird, é possível manter mensagens em modo offline, e agendar seu envio.&#xA;&#xA;O Proton não o permite. Simplesmente. Para tanto, é necessário um tal de Bridge sei-lá-o-quê-das-quantas, que só é acessível por uma conta premium. Só é possível ver e-mails via desktop pelo webmail. “Até aí, tudo bem”.&#xA;&#xA;Agora, com a conta nova criada, o que se faz? Configura-se o encaminhamento automático para o endereço novo, que será utilizado como primário. Negócio tranquilo, coisa de rotina. Fi-lo diversas outras vezes com contas Gmail.&#xA;&#xA;E eis que para a minha surpresa, acabo de saber que Proton não permite encaminhamento automático em um plano gratuito. A principal suíte privativa anti-Google tem táticas de marketing que faria um CEO techbro ter espasmos de tesão.&#xA;&#xA;Felizmente, os demais serviços da Proton são decentes. Mas em matéria de jardim murado, Proton é docente.&#xA;&#xA;América do Sol&#xA;&#xA;Tenho trocado o café por suco. Às vezes paro e penso e me pergunto por que diabos esse fetiche por bebidas quentes em um país calorento como o nosso. Faz mais sentido utilizar a comida e a bebida para nos resfriar...&#xA;&#xA;Faço das palavras do Rodrigo Ghedin as minhas:&#xA;&#xA;  Por que aquele chapéu em formato de cone, típico na Ásia (Vietnã, China), não é usado no Brasil? Esse Sol de rachar... O chapéu é tipo um guarda-sol pessoal. Seria estranho se eu usasse um?&#xA;&#xA;Aliás, aqui em casa tenho esse chapéu (chamado de “nón lá”) que comprei por míseros R$ 20,00 em Salvador, e pretendo usá-lo com mais frequência até que eu me sinta mais confortável. Já o usei algumas vezes e é bem agradável, parece até feito para o nosso clima.&#xA;&#xA;Blogue + e-mail = liberdade&#xA;&#xA;Se você tem um sítio pessoal ou um blogue, peço encarecidamente: divulgue o seu e-mail. Da forma mais objetiva possível. Nem todo mundo está interessado em lhe seguir via rede social, mas sim interagir de par para par ou ao menos mandar um feedback.&#xA;&#xA;Muito se fala no Fediverso sobre combate contra monopólios, mas um e-mail somado a um blogue ou sítio pessoal bate de longe qualquer protocolo alternativo de comunicação no quesito descentralização.&#xA;&#xA;Linkroll&#xA;&#xA;Ainda sobre blogues e e-mails, @ploum@mamot.fr fala por que não precisamos criar mais protocolos descentralizados e alternativos, mas sim utilizar a atual infraestrutura de forma que não atravesse monopólios tecnológicos.&#xA;&#xA;  The biggest lesson I take is that &#34;social networks&#34; are not about protocols but about how we use the existing infrastructure. Microsoft and Google are working hard to make sure you hate email and hate building a website. But we don’t have to obey.&#xA;&#xA;• The Social Smolnet (ploum.net)&#xA;&#xA;Filtro para o OpenStreetMap que exibe instâncias do Fediverso pelo mundo. Já espoilerando: o Brasil atualmente detém cinco instâncias com servidores locais: pixelfed.com.br, mastodon.com.br, burn.this.town, colorid.es, bolha.us. As quatro últimas são comunidades Mastodon.&#xA;&#xA;• Fediverse Near Me (OpenStreetMap)&#xA;&#xA;Belo artigo de opinião do Rodrigo Ghedin sobre o atual movimento de proibição de redes sociais para menores de idade em todo o mundo:&#xA;&#xA;  Não existe idade certa para essas coisas. E, ainda assim, tudo isso está normalizado. As pessoas reclamam de estarem viciadas no Instagram ou no TikTok, dos golpes chancelados pelas plataformas em todo anúncio que veem, dos vídeos com cenas atrozes que saltam do mais absoluto nada, e... tudo bem? Continua tudo igual. Talvez devêssemos tratar redes sociais como tratamos o tabagismo no Brasil. Proibidas para menores e com restrições mais severas que atinjam (e beneficiem) a todos.&#xA;&#xA;• Redes sociais afetam adultos também (Manual do Usuário)&#xA;&#xA;Eduardo Fernandes inverte os papéis com a ferramenta generativa: a IA escreve o comando e o autor envia a resposta. Achei um exercício de escrita bastante interessante.&#xA;&#xA;• Gemini e Claude querem que eu fale sobre morte (Texto Sobre Tela).&#xA;&#xA;Gifavetta, artista nômade digital, viajou pelo Brasil registrando dezenas de placas escritas à mão e muros grafitados para criar a Tipografia Vernacular 0800, um repositório de fontes baseado em letras de manuscritos urbanos:&#xA;&#xA;• Tipografia Vernacular 0800 (gifavetta.art)&#xA;&#xA;@lucianohbraga@instagram.com decidiu imprimir suas newsletters favoritas e pregar em uma parede do bairro Bom Fim, em Porto Alegre. Isso me faz pensar que, estamos tão cansados do algoritmo e da tela, que, qualquer chance que tivermos para fruir um texto, mesmo digital, fora desse meio, estaremos dentro.&#xA;&#xA;Isso também me fez pensar em como precisamos criar formas de compartilhar nossas curadorias. A minha já é esta: manter um blogue. Essa é a maneira que encontrei para contribuir para uma deslinearização da experiência na internet.&#xA;&#xA;• Pegue uma news (Instagram).&#xA;&#xA;Uma árvore genealógica dos gêneros musicais, organizados por época, cada qual com uma playlist bem curada. É mais do que um sítio web, é uma peça de arte e de pesquisa séria. Simplesmente viciado nesse espaço!&#xA;&#xA;• The genealogy and History of Popular Music Genres (musicmap.info)&#xA;&#xA;Um medley infinito em estilo Habboo de personagens de cartuns, séries, games, memes e cultura pop em geral dentro de uma espécie de edifício-fábrica. Atualizado esporadicamente. Adorando conhecer memes, os mais obscuros...&#xA;&#xA;• Floor 796&#xA;&#xA;Artigo da Piauí reproduzindo o prefácio de “Um homem chamado Opinião” (de Márcio Pinheiro), escrito por Marcelo Rubens Paiva, autor de “Feliz Ano Velho” e “Ainda Estou Aqui”. O livro retrata a trajetória de Fernando Gasparian, empresário que manteve o jornal Opinião, o qual continha uma postura progressista e de sutil subversão, durante a ditadura militar.&#xA;&#xA;  A L&amp;PM Editores publica em abril a biografia Um homem chamado Opinião, de Márcio Pinheiro, sobre a trajetória de Fernando Gasparian (1930-2006). Empresário da indústria têxtil, depois do golpe militar de 1964 foi perseguido e asfixiado economicamente pelo governo devido a suas posições liberais e acabou se exilando na Inglaterra. De volta ao Brasil no início da década de 1970, criou o semanário Opinião, que entre 1972 e 1977 seria um dos principais e mais ousados veículos da imprensa a enfrentar a ditadura e sua censura, como descreve o trecho a seguir do livro, cujo prefácio é do escritor Marcelo Rubens Paiva.&#xA;&#xA;• Um jornal de Opinião (Revista Piauí).&#xA;&#xA;Luciana Morin (@luciana@organica.social) explica o que é o protocolo RSS e faz uma bela curadoria de feeds. Fiquei muito feliz de ter encontrado vários links funcionais de endereços dos quais já busquei um RSS...&#xA;&#xA;• Sabote a economia da atenção construindo sua própria timeline via RSS (O sol na cabeça).&#xA;&#xA;Citações&#xA;&#xA;  Como dizia um amigo meu, surrealismo é quando você dá uma surra no realismo. &#xA;&#xA;― Bráulio Tavares.&#xA;&#xA;  A transição pra vida adulta é marcada pelo dia em que você vai ao centro da cidade comprar agulha pra fogão à gás.&#xA;&#xA;― @ivanjeronimo@bolha.one&#xA;&#xA;  If this new chatbot is so efficient, why do you need to force your employees to use it? Why do you need to advertise the fact that you are using it? Are you that insecure? If I truly had a powerful tool, I would not talk about it. I would only show it to my employees, asking them to not tell the competition about it. And I will let the employees discover by themselves how efficient it is by giving bonuses to the most efficient.&#xA;&#xA;― @ploum@mamot.fr&#xA;&#xA;notas&#xA;&#xA;-------------------------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Nas últimas Notas Costuradas eu havia anunciado a página <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/recados" rel="nofollow">Recados</a>, onde faço comentários mais curtos e despretensiosos.</p>

<p>Uma leitora destas Ideias, porém, pede que eu não largue as ~notas das Notas Costuradas, uma vez que as atualizações da página Recados não vão para o RSS. Por outro lado, vejo que essa mesma página não recebe tantas visitas.</p>

<p>Tentarei resolver esse dilema por um meio-termo: mantenho as atualizações, quase na mesma frequência com que eu mantinha meu perfil de microblogue fediversal; ao mesmo tempo as republico nas Notas Costuradas, só que com um pouco mais de desenvolvimento.</p>

<p>Além dessa ressalva, queria dizer publicamente que a partir de agora estou mais comprometido com a escrita de prosa ficcional ― ou algo assim. Há um tempo tenho me interessado por crônica, esse gênero que representa tão bem o Brasil.</p>

<p>A última publicação foi algo nesse sentido. No entanto, está mais próxima de um conto do que de uma crônica; mas já é algum exercício. Tenho pensado seriamente em partir para o pastiche, imitando mestres cronistas que admiro, como Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade e Décio Pignatari (esse Pelé da crônica). Essa foi a técnica que adotei para aprender/apreender poesia, que busquei registrar através do meu livro autopublicado “Estudando Poesia”. Funcionou para este tipo de literatura. Espero que funcione para a prosa.</p>

<p>É isso. Sigam na leitura:</p>

<h2 id="ainda-sobre-dilemas">Ainda sobre dilemas</h2>

<p>Configuro um <em>software</em> para transcrever minhas notas em áudio, o Speech Note. Eu costumava utilizá-lo antes de formatar o computador. Como voltei a gravar mais áudios como forma de “sentir que estou escrevendo”, decidi baixar o programa e prepará-lo.</p>

<p>Ele é uma mão na roda, mas que está tomando muito tempo. Às vezes penso se não seria melhor escrever somente com os recursos primários ― papel, caneta e cabeça ―; que o desenvolvimento de ferramentas de escrita na verdade está é complexificando uma coisa que é simples: escrever. Digo, não escrever em si, mas: passar uma mensagem para outra pessoa.</p>

<p>De qualquer forma, gosto de experimentar novas ferramentas, e sempre o enfatizei aqui. Talvez o que esteja me aborrecendo seja a curva de aprendizado que cada ferramenta me toma. Um baita dilema. Quem domina somente os instrumentos básicos não passaria por isso. Porém, eu que domino instrumentos alternativos, digo: por que não reinventar aquilo que já está dado como definitivo, uma vez que cada instrumento é determinante para o texto?</p>

<h2 id="blogues-x-newsletters">Blogues x Newsletters</h2>

<p>Rolando pelo <a href="https://lerama.pcdomanual.com/" rel="nofollow">Lerama</a>, posso dizer com toda a certeza: blogues têm mais molho do que <em>newsletters</em>. Felizmente ainda há alguns desses últimos que se salvam, mas em geral os demais parecem mais revivais do Tumblr, soa algo da adolescência tardia, uma poesia barata aqui, uma fotinha bonitinha ali, um desabafo praculá. Uma breguice só.</p>

<p>E escrevem muito mal. Não consigo terminar a maioria dos textos que começo a ler, não há cadência na escrita, não há costura alguma, textos que andam em círculos sempre, sempre redundantes e cheio de clichês. Ler o primeiro parágrafo e ler qualquer outro não faz diferença. Dá igual.</p>

<p>O mais engraçado de tudo é que “<em>newsletter</em>” só se resume a Substack. Só tem essa plataforma de newsletter por acaso? (E nem o povo do Fediverso para divulgar mais o <a href="https://fedi.tips/ghost-blogs-and-newsletters-on-the-fediverse/" rel="nofollow">Ghost</a>...). Quando as pessoas se referirem a toda e qualquer <em>newsletter</em> como “Substack”, quero só ver...</p>

<h2 id="ainda-sobre-polarizações">Ainda sobre polarizações</h2>

<p>Rolo pelo Lemmy. Claramente há uma grande cisão entre um Fediverso “<em>shitposting</em>” e um Fediverso discursivo. Os lemmyanos diferenciam esses dois polos (que raramente se tocam) como “blogoverso” e “fioverso”, respectivamente.</p>

<p>No período em que estive dentro do Mastodon e outras plataformas de microblogue, sentia falta exatamente desse ímpeto de debate, que eu via em comunidades anglófonos ou italófonos. Pode ser também que isso seja algo cultural, que o Fediverso brasileiro não curta mesmo discutir. Quando descobri que era possível publicar em comunidades mais verborrágicas, como Lemmy e Friendica, mesmo sem ter conta nessas plataformas, fiquei mais tranquilo.</p>

<p>Espero que a esta altura do campeonato, os dois polos estejam um pouco mais integrados. Isso não é tão visível a partir do chamado “fioverso”.</p>

<h2 id="proton-mail-não-vale-o-que-sai-da-bunda">Proton Mail não vale o que sai da bunda</h2>

<p>Troquei o meu serviço de <em>e-mail</em>. O Proton estava praticamente com o espaço esgotado. Decidi trocá-lo porque o Proton só disponibiliza 1GB de armazenamento de mensagens. Quando comecei com o serviço, era até suficiente. Dois anos depois, já está lotado.</p>

<p>Então pensei “Bom, já que é para trocar, vou tentar um outro serviço que tenha outros recursos”. Decidi assumir um Disroot, porque ele permite logar em clientes de terceiros, como Thunderbird. Através do Thunderbird, é possível manter mensagens em modo <em>offline</em>, e agendar seu envio.</p>

<p>O Proton não o permite. Simplesmente. Para tanto, é necessário um tal de Bridge sei-lá-o-quê-das-quantas, que só é acessível por uma conta <em>premium</em>. Só é possível ver <em>e-mails</em> via <em>desktop</em> pelo <em>webmail</em>. “Até aí, tudo bem”.</p>

<p>Agora, com a conta nova criada, o que se faz? Configura-se o encaminhamento automático para o endereço novo, que será utilizado como primário. Negócio tranquilo, coisa de rotina. Fi-lo diversas outras vezes com contas Gmail.</p>

<p>E eis que para a minha surpresa, acabo de saber que <strong>Proton não permite encaminhamento automático em um plano gratuito</strong>. A principal suíte privativa anti-Google tem táticas de marketing que faria um CEO techbro ter espasmos de tesão.</p>

<p>Felizmente, os demais serviços da Proton são decentes. Mas em matéria de jardim murado, Proton é docente.</p>

<h2 id="américa-do-sol">América do Sol</h2>

<p>Tenho trocado o café por suco. Às vezes paro e penso e me pergunto por que diabos esse fetiche por bebidas quentes em um país calorento como o nosso. Faz mais sentido utilizar a comida e a bebida para nos resfriar...</p>

<p>Faço das palavras do <a href="https://rodrigo.ghed.in/blog/chapeu-vietnamita" rel="nofollow">Rodrigo Ghedin</a> as minhas:</p>

<blockquote><p>Por que aquele chapéu em formato de cone, típico na Ásia (Vietnã, China), não é usado no Brasil? Esse Sol de rachar... O chapéu é tipo um guarda-sol pessoal. Seria estranho se eu usasse um?</p></blockquote>

<p>Aliás, aqui em casa tenho esse chapéu (chamado de “nón lá”) que comprei por míseros R$ 20,00 em Salvador, e pretendo usá-lo com mais frequência até que eu me sinta mais confortável. Já o usei algumas vezes e é bem agradável, parece até feito para o nosso clima.</p>

<h2 id="blogue-e-mail-liberdade">Blogue + e-mail = liberdade</h2>

<p>Se você tem um sítio pessoal ou um blogue, peço encarecidamente: divulgue o seu <em>e-mail</em>. Da forma mais objetiva possível. Nem todo mundo está interessado em lhe seguir via rede social, mas sim interagir de par para par ou ao menos mandar um <em>feedback</em>.</p>

<p>Muito se fala no Fediverso sobre combate contra monopólios, mas um <em>e-mail</em> somado a um blogue ou sítio pessoal bate de longe qualquer protocolo alternativo de comunicação no quesito descentralização.</p>

<h2 id="linkroll">Linkroll</h2>

<p>Ainda sobre blogues e <em>e-mails</em>, @ploum@mamot.fr fala por que não precisamos criar mais protocolos descentralizados e alternativos, mas sim utilizar a atual infraestrutura de forma que não atravesse monopólios tecnológicos.</p>

<blockquote><p>The biggest lesson I take is that “social networks” are not about protocols but about how we use the existing infrastructure. Microsoft and Google are working hard to make sure you hate email and hate building a website. But we don’t have to obey.</p></blockquote>

<p><a href="https://ploum.net/2026-03-20-social-smolnet.html" rel="nofollow">• The Social Smolnet</a> (ploum.net)</p>

<p>Filtro para o OpenStreetMap que exibe instâncias do Fediverso pelo mundo. Já espoilerando: o Brasil atualmente detém cinco instâncias com servidores locais: pixelfed.com.br, mastodon.com.br, burn.this.town, colorid.es, bolha.us. As quatro últimas são comunidades Mastodon.</p>

<p><a href="https://umap.openstreetmap.fr/en/map/fediverse-near-me_828094#3/25.80/29.79" rel="nofollow">• Fediverse Near Me</a> (OpenStreetMap)</p>

<p>Belo artigo de opinião do Rodrigo Ghedin sobre o atual movimento de proibição de redes sociais para menores de idade em todo o mundo:</p>

<blockquote><p>Não existe idade certa para essas coisas. E, ainda assim, tudo isso está normalizado. As pessoas reclamam de estarem viciadas no Instagram ou no TikTok, dos golpes chancelados pelas plataformas em todo anúncio que veem, dos vídeos com cenas atrozes que saltam do mais absoluto nada, e... tudo bem? Continua tudo igual. Talvez devêssemos tratar redes sociais como tratamos o tabagismo no Brasil. Proibidas para menores e com restrições mais severas que atinjam (e beneficiem) a todos.</p></blockquote>

<p><a href="https://manualdousuario.net/criancas-adolescentes-banir-redes-sociais/" rel="nofollow">• Redes sociais afetam adultos também</a> (Manual do Usuário)</p>

<p>Eduardo Fernandes inverte os papéis com a ferramenta generativa: a IA escreve o comando e o autor envia a resposta. Achei um exercício de escrita bastante interessante.</p>

<p><a href="https://textosobretela.com/p/gemini-e-claude-querem-que-eu-fale" rel="nofollow">• Gemini e Claude querem que eu fale sobre morte</a> (Texto Sobre Tela).</p>

<p>Gifavetta, artista nômade digital, viajou pelo Brasil registrando dezenas de placas escritas à mão e muros grafitados para criar a Tipografia Vernacular 0800, um repositório de fontes baseado em letras de manuscritos urbanos:</p>

<p><a href="https://www.gifavetta.art/tipografia-0800" rel="nofollow">• Tipografia Vernacular 0800</a> (gifavetta.art)</p>

<p>@lucianohbraga@instagram.com decidiu imprimir suas <em>newsletters</em> favoritas e pregar em uma parede do bairro Bom Fim, em Porto Alegre. Isso me faz pensar que, estamos tão cansados do algoritmo e da tela, que, qualquer chance que tivermos para fruir um texto, mesmo digital, fora desse meio, estaremos dentro.</p>

<p>Isso também me fez pensar em como precisamos criar formas de compartilhar nossas curadorias. A minha já é esta: manter um blogue. Essa é a maneira que encontrei para contribuir para uma deslinearização da experiência na internet.</p>

<p><a href="https://www.instagram.com/p/DVEu__QkZj9" rel="nofollow">• Pegue uma news</a> (Instagram).</p>

<p>Uma árvore genealógica dos gêneros musicais, organizados por época, cada qual com uma <em>playlist</em> bem curada. É mais do que um sítio <em>web</em>, é uma peça de arte e de pesquisa séria. Simplesmente viciado nesse espaço!</p>

<p><a href="https://www.musicmap.info/" rel="nofollow">• The genealogy and History of Popular Music Genres</a> (musicmap.info)</p>

<p>Um <em>medley</em> infinito em estilo Habboo de personagens de cartuns, séries, <em>games</em>, memes e cultura pop em geral dentro de uma espécie de edifício-fábrica. Atualizado esporadicamente. Adorando conhecer memes, os mais obscuros...</p>

<p><a href="https://floor796.com" rel="nofollow">• Floor 796</a></p>

<p>Artigo da Piauí reproduzindo o prefácio de “Um homem chamado Opinião” (de Márcio Pinheiro), escrito por Marcelo Rubens Paiva, autor de “Feliz Ano Velho” e “Ainda Estou Aqui”. O livro retrata a trajetória de Fernando Gasparian, empresário que manteve o jornal Opinião, o qual continha uma postura progressista e de sutil subversão, durante a ditadura militar.</p>

<blockquote><p>A L&amp;PM Editores publica em abril a biografia Um homem chamado Opinião, de Márcio Pinheiro, sobre a trajetória de Fernando Gasparian (1930-2006). Empresário da indústria têxtil, depois do golpe militar de 1964 foi perseguido e asfixiado economicamente pelo governo devido a suas posições liberais e acabou se exilando na Inglaterra. De volta ao Brasil no início da década de 1970, criou o semanário Opinião, que entre 1972 e 1977 seria um dos principais e mais ousados veículos da imprensa a enfrentar a ditadura e sua censura, como descreve o trecho a seguir do livro, cujo prefácio é do escritor Marcelo Rubens Paiva.</p></blockquote>

<p><a href="https://piaui.uol.com.br/um-jornal-de-opiniao/" rel="nofollow">• Um jornal de Opinião</a> (Revista Piauí).</p>

<p>Luciana Morin (@luciana@organica.social) explica o que é o protocolo RSS e faz uma <strong>bela</strong> curadoria de <em>feeds</em>. Fiquei muito feliz de ter encontrado vários links funcionais de endereços dos quais já busquei um RSS...</p>

<p><a href="https://osolnacabeca.com.br/sabote-a-economia-da-atencao-com-rss/" rel="nofollow">• Sabote a economia da atenção construindo sua própria timeline via RSS</a> (O sol na cabeça).</p>

<h2 id="citações">Citações</h2>

<blockquote><p>Como dizia um amigo meu, surrealismo é quando você dá uma surra no realismo.</p></blockquote>

<p>― <a href="https://mundofantasmo.blogspot.com/2026/02/5222-cinema-e-realismo-1922026.html" rel="nofollow">Bráulio Tavares</a>.</p>

<blockquote><p>A transição pra vida adulta é marcada pelo dia em que você vai ao centro da cidade comprar agulha pra fogão à gás.</p></blockquote>

<p>― <a href="https://bolha.one/@ivanjeronimo/116233873554779336" rel="nofollow">@ivanjeronimo@bolha.one</a></p>

<blockquote><p>If this new chatbot is so efficient, why do you need to force your employees to use it? Why do you need to advertise the fact that you are using it? Are you that insecure? If I truly had a powerful tool, I would not talk about it. I would only show it to my employees, asking them to not tell the competition about it. And I will let the employees discover by themselves how efficient it is by giving bonuses to the most efficient.</p></blockquote>

<p>― <a href="https://mamot.fr/@ploum/116091828284929072" rel="nofollow">@ploum@mamot.fr</a></p>

<p>#notas</p>

<hr>
]]></content:encoded>
      <author>Ideias de Chirico</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/dpbkxubsjs</guid>
      <pubDate>Wed, 25 Mar 2026 21:47:16 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Uma primeira primeira vez</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/uma-primeira-primeira-vez</link>
      <description>&lt;![CDATA[Não há exercício melhor de autoconhecimento do que lembrar, não das primeiras vezes ― essas nos aparecem dia após dia (basta ter a sensibilidade necessária para percebê-las) ―, mas sim das primeiras primeiras vezes, aquelas da infância e da adolescência, de quando o mundo era gigante como o pai da gente.&#xA;&#xA;Até para que eu próprio me conheça enquanto conto uma delas, deixo que o leitor a entreveja...&#xA;&#xA;Eram idos dos anos oitenta, na gloriosa Serra Grande, onde cresci, casei e criei meus três filhos ― que talvez não saibam (por enquanto) dessa história. Estavam ainda em alta as discotecas. Minha cidade, por menor que fosse, dispunha de boas e grandes praças, boates e (vejam só como as coisas mudam!) cinemas. Assim, os namorados estavam bem servidos de programas e, ainda que esses por acaso faltassem, ainda sobravam as serestas e os namoros na varanda ― esses doces e clandestinos ensaios sexuais.&#xA;&#xA;No entanto, para um menino de 15 anos, tudo isso ainda não passava de histórias de amigos e parentes mais velhos. Eu ainda sairia com um “pão” pela primeira vez naquela noitinha de quinta-feira.&#xA;&#xA;Era hora.&#xA;&#xA;Ao entardecer, enquanto tocava a habitual “Ave Maria” no radinho de meu pai distraído no quintal, lá estava eu penteando meus cabelos molhados, com a ajuda do espelhinho de aro laranja. Vestindo a roupa nova em folha saída da costureira ainda àquela tarde, fui sorrateiramente ao quarto dele para tomar emprestadas duas borrifadas de seu melhor perfume.&#xA;&#xA;Fechando cuidadosamente o portão de casa, fui à praça central me sentindo o próprio Tony Ramos.&#xA;&#xA;Já era média noite quando eu a vi, aquela que seria uma das minhas primeiras primeiras vezes... Do seu nome, já não lembro mais, mas poderíamos chamá-la de Mirian.&#xA;&#xA;Amigos meus, mais experimentados, sugeriram que eu a levasse para o cinema, o que Mirian declinou:&#xA;&#xA;― A próxima sessão é muito tarde, e a sala mais próxima está assim de mofo!&#xA;&#xA;Certo. As recentes chuvas justificavam o mofo, mas agora eu teria um escurinho a menos onde a beijar e, quem sabe...&#xA;&#xA;Sobravam a praça e a boate. A primeira, com privacidade zero, nem pensar, a não ser que eu estourasse a lâmpada do poste. A segunda, bem, seria um risco, porque, salvo se por um milagre de termos a pista toda para nós, ficaríamos muito expostos ― aí, já viu: nada de bitoca. Além de tudo, não diria que eu era um exímio dançarino, mas vai que tocava uma música lenta, mais fácil de dançar, e ainda por cima agarradinho...&#xA;&#xA;Apressados por conta da chuva que se aproximava outra vez, quase a atropelando, entramos na discoteca.&#xA;&#xA;Iluminada por mil cores, um calor danado, a pista estava tinindo! Muita gente, pouca chance. Se eu não cuidasse, era capaz até de pegarem a dona que eu levei.&#xA;&#xA;Mas fiquei. Vi que estava curtindo e que já estava na minha. Agora era cuidar para não lhe pisar no pé tentando imitar John Travolta de “Grease”.&#xA;&#xA;Nas minhas limitações, dancei; nas minhas limitações a agarrei; mas nas minhas limitações não cheguei nos finalmentes. Muita luz, muita gente.&#xA;&#xA;Dançávamos bem juntinhos ao som de “Woman”, de John Lennon, até que ― blam! ―, cai a energia. Bem, era agora ou nunca! Um belo de um blecaute, mas eu estava de olhos bem abertos quando lhe tasquei a língua em cheio. Seu gosto era algo entre agridoce e verde-musgo. Estranho ainda era aquela boca sem dentes...&#xA;&#xA;E aí, quando fez-se luz outra vez, Mirian disse:&#xA;&#xA;― Ei, menino, é mais pra baixo, tu &#39;tá beijando é meu nariz!&#xA;&#xA;cotidiano&#xA;&#xA;----------------]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Não há exercício melhor de autoconhecimento do que lembrar, não das primeiras vezes ― essas nos aparecem dia após dia (basta ter a sensibilidade necessária para percebê-las) ―, mas sim das primeiras primeiras vezes, aquelas da infância e da adolescência, de quando o mundo era gigante como o pai da gente.</p>

<p>Até para que eu próprio me conheça enquanto conto uma delas, deixo que o leitor a entreveja...</p>

<p>Eram idos dos anos oitenta, na gloriosa Serra Grande, onde cresci, casei e criei meus três filhos ― que talvez não saibam (por enquanto) dessa história. Estavam ainda em alta as discotecas. Minha cidade, por menor que fosse, dispunha de boas e grandes praças, boates e (vejam só como as coisas mudam!) cinemas. Assim, os namorados estavam bem servidos de programas e, ainda que esses por acaso faltassem, ainda sobravam as serestas e os namoros na varanda ― esses doces e clandestinos ensaios sexuais.</p>

<p>No entanto, para um menino de 15 anos, tudo isso ainda não passava de histórias de amigos e parentes mais velhos. Eu ainda sairia com um “pão” pela primeira vez naquela noitinha de quinta-feira.</p>

<p>Era hora.</p>

<p>Ao entardecer, enquanto tocava a habitual “Ave Maria” no radinho de meu pai distraído no quintal, lá estava eu penteando meus cabelos molhados, com a ajuda do espelhinho de aro laranja. Vestindo a roupa nova em folha saída da costureira ainda àquela tarde, fui sorrateiramente ao quarto dele para tomar emprestadas duas borrifadas de seu melhor perfume.</p>

<p>Fechando cuidadosamente o portão de casa, fui à praça central me sentindo o próprio Tony Ramos.</p>

<p>Já era média noite quando eu a vi, aquela que seria uma das minhas primeiras primeiras vezes... Do seu nome, já não lembro mais, mas poderíamos chamá-la de Mirian.</p>

<p>Amigos meus, mais experimentados, sugeriram que eu a levasse para o cinema, o que Mirian declinou:</p>

<p>― A próxima sessão é muito tarde, e a sala mais próxima está assim de mofo!</p>

<p>Certo. As recentes chuvas justificavam o mofo, mas agora eu teria um escurinho a menos onde a beijar e, quem sabe...</p>

<p>Sobravam a praça e a boate. A primeira, com privacidade zero, nem pensar, a não ser que eu estourasse a lâmpada do poste. A segunda, bem, seria um risco, porque, salvo se por um milagre de termos a pista toda para nós, ficaríamos muito expostos ― aí, já viu: nada de bitoca. Além de tudo, não diria que eu era um exímio dançarino, mas vai que tocava uma música lenta, mais fácil de dançar, e ainda por cima agarradinho...</p>

<p>Apressados por conta da chuva que se aproximava outra vez, quase a atropelando, entramos na discoteca.</p>

<p>Iluminada por mil cores, um calor danado, a pista estava tinindo! Muita gente, pouca chance. Se eu não cuidasse, era capaz até de pegarem a dona que eu levei.</p>

<p>Mas fiquei. Vi que estava curtindo e que já estava na minha. Agora era cuidar para não lhe pisar no pé tentando imitar John Travolta de “<em>Grease</em>”.</p>

<p>Nas minhas limitações, dancei; nas minhas limitações a agarrei; mas nas minhas limitações não cheguei nos finalmentes. Muita luz, muita gente.</p>

<p>Dançávamos bem juntinhos ao som de “Woman”, de John Lennon, até que ― blam! ―, cai a energia. Bem, era agora ou nunca! Um belo de um blecaute, mas eu estava de olhos bem abertos quando lhe tasquei a língua em cheio. Seu gosto era algo entre agridoce e verde-musgo. Estranho ainda era aquela boca sem dentes...</p>

<p>E aí, quando fez-se luz outra vez, Mirian disse:</p>

<p>― Ei, menino, é mais pra baixo, tu &#39;tá beijando é meu nariz!</p>

<p>#cotidiano</p>

<hr>
]]></content:encoded>
      <author>Ideias de Chirico</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/md3qbu19k2</guid>
      <pubDate>Tue, 24 Mar 2026 20:26:01 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Dilema sobre asas</title>
      <link>https://blog.ayom.media/daltux/dilema-sobre-asas</link>
      <description>&lt;![CDATA[Privacidade é impossível sem software livre. Desenho: águia com asas abertas e fones segura escudo com sigla NSA e cabos que simbolizam interceptação. Logo da FSF. URL u.fsf.org/prism&#xA;&#xA;Estamos, ao menos no Brasil, no que parece ser praticamente o cúmulo de uma virtual impossibilidade do proletariado e da pequena burguesia participarem do que é essencial ao cotidiano no capitalismo, ou seja, a troca de moeda, caso não se sujeitem a isoftware/i privativo de liberdade em níveis crescentes.!--more-- O pior é que isso tem extrapolado limites, na última década, tendo em vista que não basta apenas executar no seu computador eventuais programas privativos, dedicados ou no navegador da Web, controlados pelo serviço bancário: ficou normalizada a exigência de biTRApps/i/b em tornozeleiras eletrônicas de bolso dominadas por um duopólio de fornecedores estadunidenses que representam o maior capital da história.&#xA;&#xA;Nesse cenário, ficamos esperançosos ao termos notícia de que há uma instituição financeira que se diferencia por não exigir TRApps em tornozeleiras e até encoraja o desenvolvimento de software, que pode ser livre, para interagir com seus serviços. Nisso se incluiria o tão aclamado #Pix, que dizem ser revolucionário e pode vir a ser, mas que reforça o domínio do duopólio enquanto as demais casas bancárias ainda não permitem que o indivíduo faça esse tipo de transação fora das crescentemente degradantes condições expostas acima.&#xA;&#xA;Abrir a conta é bastante simples, pelo sítio da Web, se você tolerar a execução de JavaScript privativo da instituição e também, lamentavelmente, do ReCaptcha, de um daqueles fornecedores que gostaríamos de evitar e que ainda usa sua interação para treinar modelos de reconhecimento de padrões em imagens. Ignorando esse problema inicial, vamos em frente, em prol do bem maior.&#xA;&#xA;Você é, então, encorajado a receber um código de confirmação do número telefônico por um serviço de mensageria específico sob total controle de um outro fornecedor multibilionário estadunidense, reforçando um virtual monopólio sobre esse tipo de aplicação. Felizmente, se prestar atenção, consegue trocar isso pelo recebimento de uma mensagem curta de texto em qualquer tipo de tornozeleira. Todos ainda ficam obrigados a carregar um dispositivo de rastreamento no bolso, por mais simples que seja. Poderiam oferecer a alternativa de entregar o código por uma chamada de voz, o que funcionaria em um telefone qualquer, mesmo fixo, mas vamos considerar que o &#34;SMS&#34; já é um avanço!&#xA;&#xA;Com a confirmação de que seu número de telefone existe, a conta é imediatamente criada, disponível para entrada no sistema da instituição pela Web, sob as condições típicas. É possível bloquear, com NoScript e GNU LibreJS, a execução de scripts de diversos terceiros, e ainda ter o sistema funcional.&#xA;&#xA;Para que a conta fique realmente funcional, como era de se esperar, você ainda precisa apresentar documentos oficiais para comprovar sua identidade. É estimulado a utilizar meios indesejados para receber um outro endereço a ser aberto para poder enviar a documentação. Com atenção, felizmente percebe um botão para simplesmente copiar o URL. Que alívio!&#xA;&#xA;Abre o endereço copiado. Aí, superando novamente o problema de scripts indesejados, é que surge um belo dilema em relação a #privacidade, #soberaniaDigital e #softwareLivre sobre o qual gostaria de comentários antes de decidir se vale a pena relevar:&#xA;&#xA;Você não vai enviar seus documentos pessoais à instituição que está contratando. Está lidando diretamente com uma empresa estadunidense, com domínio que termina com .ai e que apresenta termos de privacidade muito duvidosos e que, de toda forma, pela extraterritorialidade, jamais conseguiria exigir cumprimento. Vale a pena entregar de &#34;mão beijada&#34; dados sensíveis àquilo, sujeito a tal jurisdição?&#xA;&#xA;Provavelmente, diversas outras instituições financeiras subcontratam serviços de análise de dados similares, porém, normalmente, você entrega os dados a elas, não diretamente aos terceiros. Sua relação é apenas com elas. No caso em questão, dá-se a impressão de que a instituição contratada se exime da responsabilidade sobre esses dados, já que, para iniciar o processo de comprovação de identidade, você precisaria aceitar as condições da empresa estrangeira, em sítio dela.&#xA;&#xA;Eu, diante dessa situação, preferi aguardar para amadurecer melhor as ideias. Não sei se ignoro mais esse problema, que me parece tão mais grave até do que a execução de software privativo, no intuito de conseguir executar software livre depois, que seria o objetivo alcançável. Espero receber opiniões de ativistas das áreas envolvidas em @daltux@snac.daltux.net ou na sala XMPP da comunidade GNU brasileira: xmpp:usuarios-gnu@salas.suchat.org?join&#xA;]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://snac.daltux.net/daltux/s/post-e72593921612637ac666bc222a0b81ba.png" alt="Privacidade é impossível sem software livre. Desenho: águia com asas abertas e fones segura escudo com sigla NSA e cabos que simbolizam interceptação. Logo da FSF. URL u.fsf.org/prism"></p>

<p>Estamos, ao menos no Brasil, no que parece ser praticamente o cúmulo de uma virtual impossibilidade do proletariado e da pequena burguesia participarem do que é essencial ao cotidiano no capitalismo, ou seja, a troca de moeda, caso não se sujeitem a <a href="https://www.gnu.org/proprietary/" rel="nofollow"><i>software</i> privativo de liberdade</a> em níveis crescentes. O pior é que isso tem extrapolado limites, na última década, tendo em vista que não basta apenas executar no seu computador eventuais programas privativos, dedicados ou <a href="https://www.gnu.org/philosophy/wwworst-app-store.html" rel="nofollow">no navegador da Web</a>, controlados pelo serviço bancário: ficou normalizada a exigência de <a href="https://www.fsfla.org/ikiwiki/texto/TRApps.pt.html" rel="nofollow"><b><i>TRApps</i></b></a> em <a href="https://www.gnu.org/proprietary/malware-mobiles.html" rel="nofollow">tornozeleiras eletrônicas de bolso</a> dominadas por um duopólio de fornecedores estadunidenses que representam o maior capital da história.</p>

<p>Nesse cenário, ficamos esperançosos ao termos notícia de que há uma instituição financeira que se diferencia por não exigir TRApps em tornozeleiras e até encoraja o desenvolvimento de <em>software</em>, que pode ser <a href="https://www.gnu.org/philosophy/free-sw.html" rel="nofollow">livre</a>, para interagir com seus serviços. Nisso se incluiria o tão aclamado #Pix, que dizem ser revolucionário e pode vir a ser, mas que reforça o domínio do duopólio enquanto as demais casas bancárias ainda não permitem que o indivíduo faça esse tipo de transação fora das crescentemente degradantes condições expostas acima.</p>

<p>Abrir a conta é bastante simples, pelo sítio da Web, se você tolerar a execução de <a href="https://www.gnu.org/philosophy/javascript-trap.html" rel="nofollow">JavaScript privativo</a> da instituição e também, lamentavelmente, do ReCaptcha, de um daqueles fornecedores que gostaríamos de evitar e que ainda usa sua interação para treinar modelos de reconhecimento de padrões em imagens. Ignorando esse problema inicial, vamos em frente, em prol do bem maior.</p>

<p>Você é, então, encorajado a receber um código de confirmação do número telefônico por um serviço de mensageria específico sob total controle de um outro fornecedor multibilionário estadunidense, reforçando um virtual monopólio sobre esse tipo de aplicação. Felizmente, se prestar atenção, consegue trocar isso pelo recebimento de uma mensagem curta de texto em qualquer tipo de tornozeleira. Todos ainda ficam obrigados a carregar um dispositivo de rastreamento no bolso, por mais simples que seja. Poderiam oferecer a alternativa de entregar o código por uma chamada de voz, o que funcionaria em um telefone qualquer, mesmo fixo, mas vamos considerar que o “SMS” já é um avanço!</p>

<p>Com a confirmação de que seu número de telefone existe, a conta é imediatamente criada, disponível para entrada no sistema da instituição pela Web, sob as condições típicas. É possível bloquear, com <a href="https://noscript.net/" rel="nofollow">NoScript</a> e <a href="https://www.gnu.org/software/librejs/" rel="nofollow">GNU LibreJS</a>, a execução de <em>scripts</em> de diversos terceiros, e ainda ter o sistema funcional.</p>

<p>Para que a conta fique realmente funcional, como era de se esperar, você ainda precisa apresentar documentos oficiais para comprovar sua identidade. É estimulado a utilizar meios indesejados para receber um outro endereço a ser aberto para poder enviar a documentação. Com atenção, felizmente percebe um botão para simplesmente copiar o URL. Que alívio!</p>

<p>Abre o endereço copiado. Aí, superando novamente o problema de scripts indesejados, é que surge um belo dilema em relação a #privacidade, #soberaniaDigital e #softwareLivre sobre o qual gostaria de comentários antes de decidir se vale a pena relevar:</p>

<p>Você não vai enviar seus documentos pessoais à instituição que está contratando. Está lidando diretamente com uma empresa estadunidense, com domínio que termina com <code>.ai</code> e que apresenta termos de privacidade muito duvidosos e que, de toda forma, pela extraterritorialidade, jamais conseguiria exigir cumprimento. Vale a pena entregar de “mão beijada” dados sensíveis àquilo, sujeito a tal jurisdição?</p>

<p>Provavelmente, diversas outras instituições financeiras subcontratam serviços de análise de dados similares, porém, normalmente, você entrega os dados a elas, não diretamente aos terceiros. Sua relação é apenas com elas. No caso em questão, dá-se a impressão de que a instituição contratada se exime da responsabilidade sobre esses dados, já que, para iniciar o processo de comprovação de identidade, você precisaria aceitar as condições da empresa estrangeira, em sítio dela.</p>

<p>Eu, diante dessa situação, preferi aguardar para amadurecer melhor as ideias. Não sei se ignoro mais esse problema, que me parece tão mais grave até do que a execução de <em>software</em> privativo, no intuito de conseguir executar <em>software</em> livre depois, que seria o objetivo alcançável. Espero receber opiniões de ativistas das áreas envolvidas em @daltux@snac.daltux.net ou na sala <a href="https://forum.ayom.media/post/60917" title="Dicas para se iniciar com XMPP" rel="nofollow">XMPP</a> da comunidade GNU brasileira: <a href="xmpp:usuarios-gnu@salas.suchat.org?join" rel="nofollow"><code>xmpp:usuarios-gnu@salas.suchat.org?join</code></a></p>
]]></content:encoded>
      <author>daltux</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/e8s1oawy9q</guid>
      <pubDate>Sun, 08 Mar 2026 01:14:54 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Vocabulário, repertório e imaginação</title>
      <link>https://blog.ayom.media/yuribravos/vocabulario-repertorio-e-imaginacao</link>
      <description>&lt;![CDATA[Outro dia estava jogando alguns jogos do tabuleiros com um amigo e minha esposa e comentei que algumas obras que assisto ou leio se tornam um lastro para as outras.&#xA;&#xA;Ele apertou os olhos e disse: &#34;se tornam o quê?&#34;. &#34;Um lastro&#34;. E aí aconteceu uma cena não tão incomum na minha vida que é explicar o que uma palavra significa e depois a pessoa ficar &#34;nossa, só você usa essa palavra&#34;. &#xA;&#xA;Por um lado, sim, acho que tenha um vocabulário bem extenso. Quando jovem eu li bastante, hoje depois de me livrar da faculdade estou voltando a ler como na juventude (em vez de ler apenas livros técnicos). Falo três línguas estrangeiras além do português, o que faz o vocabulário aumentar e se entrelaçar. Tenho um dicionário de referência para cada uma dessas línguas e uso sempre que preciso. Escuto o podcast do Prof. Pasquale quase diariamente kkkk eu genuinamente gosto. &#xA;&#xA;Por outro lado... Às vezes sinto que as pessoas se contentam com um vocabulário muito limitado. Lastro é uma palavra que se aprende em história e geografia, no ensino fundamental, quando estudamos que o dólar nasceu lastreado em ouro. Não é uma palavra tão obscura assim! Mas também não é isso que eu quero dizer.&#xA;&#xA;Vocabulário e repertório&#xA;Conhecer as palavras exatas para as coisas é uma boa medida de fluência numa língua: o termo mais específico no lugar de uma expressão mais genérica é indicativo de domínio do idioma.&#xA;&#xA;Mas conhecer as palavras exatas também é uma medida de repertório sobre as coisas. É uma consequência da busca interessada sobre qualquer tema. Jargões nascem assim. Eu, pessoalmente, adoro saber de fatos curiosos sobre as coisas. Mesmo que eu não domine profundamente um assunto, me agrada saber os rudimentos. E assim eu vou descobrindo novas coisas e, naturalmente, novas palavras.&#xA;&#xA;Daí que, ter um vocabulário amplo foi o resultado do desejo de entender as coisas.&#xA;&#xA;Repertório e imaginação&#xA;Ter poucas palavras disponíveis é também ter pouco espaço de manobra para pensar e fazer coisas novas ou, talvez, até de reformular coisas antigas e correlacionar o que sempre esteve ali, próximo, mas não interligado.&#xA;&#xA;Me parece difícil que boas ideias surjam sem uma destreza mental e experiência prévia. Nem estou falando aqui sobre instrução, embora a conversa tenha começado num tema eminentemente instrutivo. É só depois de ter tentado, pensado e confabulado bastante que conseguimos alcançar um resultado bom. Repertório e imaginação vão e vem para gerar boas ideias.&#xA;&#xA;Um ranço&#xA;A ideia desse post veio, claro, com o acontecido descrito no começo, e com uma sensação horrível toda vez que eu escuto o presidente dos Estragos Unidos falar. A impressão que tenho é que o cara conhece entre 30 e 50 palavras e as repete independente na circunstância. &#34;Eu gosto disso&#34;, &#34;Ele foi bom para nós&#34;, &#34;Foi muito bom&#34;... Isso para não entrar nos absurdos e só citar as frases repetidas à exaustão. &#xA;&#xA;Não admira que naquela cachola laranja só ventile ideias retrógradas e políticas de duzentos anos atrás. Eu me sinto o próprio Caetano Veloso esculhambando um jornalista em sua mocidade.&#xA;&#xA;Esse, porém, é um parêntesis, porque basta de dizer o que não presta, vamos dizer o que presta!&#xA;&#xA;Vocabulário e imaginação&#xA;Há quem diga e estudos apontam que a própria estrutura de uma língua limita o que nós podemos pensar. Há pensamentos que não parecem encaixar na língua materna e se nos restringimos a ela, ficamos incapazes de pensar certas coisas. Só isso já valia aprender uma língua estrangeira. Às vezes basta saber que certas estruturam mudam ou que outras palavras podem significar aquela mesma coisa ou ainda conhecer as etimologias das palavras pra gente conseguir pensar um pouco fora do quadrado.&#xA;&#xA;Conheçam palavras e impressionem o seus amigos, garanto que vai valer a pena!]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Outro dia estava jogando alguns jogos do tabuleiros com um amigo e minha esposa e comentei que algumas obras que assisto ou leio se tornam um <em>lastro</em> para as outras.</p>

<p>Ele apertou os olhos e disse: “se tornam o quê?”. “Um lastro”. E aí aconteceu uma cena não tão incomum na minha vida que é explicar o que uma palavra significa e depois a pessoa ficar “nossa, só você usa essa palavra”.</p>

<p>Por um lado, sim, acho que tenha um vocabulário bem extenso. Quando jovem eu li bastante, hoje depois de me livrar da faculdade estou voltando a ler como na juventude (em vez de ler apenas livros técnicos). Falo três línguas estrangeiras além do português, o que faz o vocabulário aumentar e se entrelaçar. Tenho um dicionário de referência para cada uma dessas línguas e uso sempre que preciso. Escuto o podcast do Prof. Pasquale quase diariamente kkkk eu genuinamente gosto.</p>

<p>Por outro lado... Às vezes sinto que as pessoas se contentam com um vocabulário muito limitado. Lastro é uma palavra que se aprende em história e geografia, no ensino fundamental, quando estudamos que o dólar nasceu <em>lastreado</em> em ouro. Não é uma palavra tão obscura assim! Mas também não é isso que eu quero dizer.</p>

<h2 id="vocabulário-e-repertório">Vocabulário e repertório</h2>

<p>Conhecer as palavras exatas para as coisas é uma boa medida de fluência numa língua: o termo mais específico no lugar de uma expressão mais genérica é indicativo de domínio do idioma.</p>

<p>Mas conhecer as palavras exatas também é uma medida de repertório sobre as coisas. É uma consequência da busca interessada sobre qualquer tema. Jargões nascem assim. Eu, pessoalmente, adoro saber de fatos curiosos sobre as coisas. Mesmo que eu não domine profundamente um assunto, me agrada saber os rudimentos. E assim eu vou descobrindo novas coisas e, naturalmente, novas palavras.</p>

<p>Daí que, ter um vocabulário amplo foi o resultado do desejo de entender as coisas.</p>

<h2 id="repertório-e-imaginação">Repertório e imaginação</h2>

<p>Ter poucas palavras disponíveis é também ter pouco espaço de manobra para pensar e fazer coisas novas ou, talvez, até de reformular coisas antigas e correlacionar o que sempre esteve ali, próximo, mas não interligado.</p>

<p>Me parece difícil que boas ideias surjam sem uma destreza mental e experiência prévia. Nem estou falando aqui sobre instrução, embora a conversa tenha começado num tema eminentemente instrutivo. É só depois de ter tentado, pensado e confabulado bastante que conseguimos alcançar um resultado bom. Repertório e imaginação vão e vem para gerar boas ideias.</p>

<h2 id="um-ranço">Um ranço</h2>

<p>A ideia desse post veio, claro, com o acontecido descrito no começo, e com uma sensação horrível toda vez que eu escuto o presidente dos Estragos Unidos falar. A impressão que tenho é que o cara conhece entre 30 e 50 palavras e as repete independente na circunstância. “Eu gosto disso”, “Ele foi bom para nós”, “Foi muito bom”... Isso para não entrar nos absurdos e só citar as frases repetidas à exaustão.</p>

<p>Não admira que naquela cachola laranja só ventile ideias retrógradas e políticas de duzentos anos atrás. Eu me sinto o próprio <a href="https://www.youtube.com/watch?v=lL-cjXPZIHQ" rel="nofollow">Caetano Veloso esculhambando um jornalista em sua mocidade</a>.</p>

<p>Esse, porém, é um parêntesis, porque basta de dizer o que não presta, vamos dizer o que presta!</p>

<h2 id="vocabulário-e-imaginação">Vocabulário e imaginação</h2>

<p>Há quem diga e <strong>estudos apontam</strong> que a própria estrutura de uma língua limita o que nós podemos pensar. Há pensamentos que não parecem encaixar na língua materna e se nos restringimos a ela, ficamos incapazes de pensar certas coisas. Só isso já valia aprender uma língua estrangeira. Às vezes basta saber que certas estruturam mudam ou que outras palavras podem significar aquela mesma coisa ou ainda conhecer as etimologias das palavras pra gente conseguir pensar um pouco fora do quadrado.</p>

<p>Conheçam palavras e impressionem o seus amigos, garanto que vai valer a pena!</p>
]]></content:encoded>
      <author>yuribravos</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/zqe8j68bin</guid>
      <pubDate>Tue, 13 Jan 2026 18:28:11 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Sobre decisões coletivas</title>
      <link>https://blog.ayom.media/felipe-siles/sobre-decisoes-coletivas</link>
      <description>&lt;![CDATA[Esse é um tema sobre o qual quero escrever faz tempo, e eis que apareceu o cenário ideal para a sua escrita: tempo livre proporcionado pelo recesso de final de ano, e a observação de mais um coletivo do qual faço parte patinando na hora de concretizar decisões. &#xA;&#xA;Participo de inúmeros coletivos, sempre participei desde que comecei a minha vida adulta. Sou músico e produtor cultural, ou seja, participo e participei de muitas bandas, grupos musicais, companhias de teatro, de dança, de cinema, etc., além de grupos com outros interesses: política, religiosidades de matriz afro, software livre, pesquisa acadêmica, etc. &#xA;&#xA;Em praticamente todos esses grupos, compostos majoritariamente por pessoas minimamente progressistas, percebo uma ideia de que decisões coletivas são melhores, mais democráticas. Concordo com esse ponto, acho que não há dúvidas sobre isso. Mas, na prática, percebo que esse fundamento é subvertido em burocracia e quando percebemos, só pra citar um exemplo, todos estão votando em qual a melhor cor do logo do grupo, sendo que a maioria não tem conhecimento técnico pra isso, e muitos nem queriam estar sendo consultados sobre o assunto. As decisões se arrastam, tudo no grupo caminha muito lentamente, e cada decisão, por menor que seja, precisa ser discutida, deliberada e aprovada pela maioria.&#xA;&#xA;Essa dinâmica acaba tornando o grupo um fardo pesado pra quem participa. Quem tem conhecimento técnico em uma tarefa ou habilidade se frustra porque outras pessoas estão sempre dando pitaco em seu trabalho, e acabam tendo seu esforço em prol do coletivo submetido a uma certa vigilância de aprovação da maioria. As pessoas que já são cansadas e ocupadas pelo próprio capitalismo tardio, acabam tendo que gastar uma enorme energia para defender coisas que são óbvias para ela, provocando mais ocupação, cansaço e desgaste. Outras que não dispõem dessa energia vão alimentando um ressentimento, cinismo ou até uma postura automática de &#34;tanto faz&#34;.&#xA;&#xA;Surge aquela ideia de que nada ali acontece, e alguns acabam defendendo que se houvesse um líder centralizador, pra tomar as decisões, a coisa funcionaria melhor. Como falei antes, participo e participei de muitos grupos e, em alguns deles, realmente há um líder nítido e, nesses casos (quando o líder é bom), o grupo costuma ser muito mais dinâmico nas suas tomadas concretas de decisões. Aí surgem aqueles debates como se a coletividade não funcionasse e as soluções mais centralizadoras fossem melhores.&#xA;&#xA;Mas eu acho que tem um problema aí que pouca gente nesses coletivos nota. Não é a coletividade que não funciona, mas para funcionar ela precisa estar baseada na CONFIANÇA. Tenho a impressão de que esse vício de decidir coletivamente todas as coisas é apenas um verniz para:&#xA;que todos possam dar pitaco no trabalho alheio;&#xA;um sinal de desconfiança sobre a decisão do outro, afinal a minha decisão que é a certa e preciso convencer todos disso;&#xA;insegurança das pessoas de arcar sozinho com a responsabilidade e o ônus de uma decisão ruim. &#xA;&#xA;Aí acaba que as pessoas ficam dando pitaco no trabalho umas das outras, querendo tomar decisões coletivas que poderiam caber à uma pessoa com competência técnica e aptidão para aquela tarefa, o que normalmente termina em briga e ressentimento.&#xA;&#xA;Outro fator também é o ranqueamento e &#34;enquetização&#34; de todos os aspectos da vida: damos estrelas para estabelecimentos, restaurantes, entregadores, filmes, séries, os serviços que usamos e conteúdos que seguimos nos empurram um monte de enquetes pra responder, criando a ilusão de que tudo aquilo que é avaliado positivamente por muitas pessoas é melhor. Existe uma ideia meio autoritária nisso, como se democracia fosse uma ditadura da maioria, como se massas de pessoas nunca errassem, a voz do povo é a voz de deus, porém a história nos mostra que um grande número de pessoas já cometeu e comete grandes cagadas também.&#xA;&#xA;Vamos evocar a imagem de um pequeno vilarejo auto gerido e auto sustentável. Eu imagino que esse vilarejo teria pessoas responsáveis pela cozinha, pessoas responsáveis pelo uso e manutenção de ferramnetas, pessoas responsáveis pela obtenção de recursos (água, alimento, madeira, minerais, etc). Cada pessoa, por aptidão, vocação ou afinidade com a tarefa, com o passar dos anos começaria a ficar muito bom naquilo. Pensem agora numa pessoa que se dedicou a vida inteira a cozinhar para o vilarejo se faz sentido os moradores fazerem uma enquete para decidir os ingredientes que essa pessoa deve usar na próxima refeição. Parece um pouco absurdo porque é. Esse vilarejo hipotético, assim como diversas comunidades tradicionais, porque cada um desenvolve habilidades, as coloca a serviço do coletivo, e todos confiam nas pessoas e nessas habilidades.&#xA;&#xA;Eu acredito num ideal de coletividade mais ou menos por aí: todas as pessoas possuem confiança umas nas outras, ninguém dá pitacos no trabalho de ninguém, todas as pessoas possuem liberdade e autonomia para desenvolver as suas tarefas da maneira como acharem melhor e o grupo arca com o ônus coletivo de decisões ruins. Acredito que essa é a forma de extrair o melhor da coletividade e o melhor do individualismo, já que não vejo essas duas esferas como necessariamente antagônicas ou excludentes. Chegar nesse modelo é fácil? Claro que não, afinal confiança não se constrói do dia pra noite. E para isso acontecer todos precisam ter nitidez qual a &#34;cola social&#34; que une aquele coletivo, o que mobiliza a todos, que os torna mais unidos que diferentes. &#xA;&#xA;Para terminar o texto, uma frase atribuída ao José Saramago que gosto bastante: &#34;aprendi a não convencer ninguém. O convencimento é um desrespeito, uma tentativa de colonização do outro&#34;. Será que estamos prontos para essa coletividade radical, onde não tentamos convencer ninguém de nada, apenas vivemos, amamos, trabalhamos e confiamos nas pessoas?]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Esse é um tema sobre o qual quero escrever faz tempo, e eis que apareceu o cenário ideal para a sua escrita: tempo livre proporcionado pelo recesso de final de ano, e a observação de mais um coletivo do qual faço parte patinando na hora de concretizar decisões.</p>

<p>Participo de inúmeros coletivos, sempre participei desde que comecei a minha vida adulta. Sou músico e produtor cultural, ou seja, participo e participei de muitas bandas, grupos musicais, companhias de teatro, de dança, de cinema, etc., além de grupos com outros interesses: política, religiosidades de matriz afro, software livre, pesquisa acadêmica, etc.</p>

<p>Em praticamente todos esses grupos, compostos majoritariamente por pessoas minimamente progressistas, percebo uma ideia de que decisões coletivas são melhores, mais democráticas. Concordo com esse ponto, acho que não há dúvidas sobre isso. Mas, na prática, percebo que esse fundamento é subvertido em burocracia e quando percebemos, só pra citar um exemplo, todos estão votando em qual a melhor cor do logo do grupo, sendo que a maioria não tem conhecimento técnico pra isso, e muitos nem queriam estar sendo consultados sobre o assunto. As decisões se arrastam, tudo no grupo caminha muito lentamente, e cada decisão, por menor que seja, precisa ser discutida, deliberada e aprovada pela maioria.</p>

<p>Essa dinâmica acaba tornando o grupo um fardo pesado pra quem participa. Quem tem conhecimento técnico em uma tarefa ou habilidade se frustra porque outras pessoas estão sempre dando pitaco em seu trabalho, e acabam tendo seu esforço em prol do coletivo submetido a uma certa vigilância de aprovação da maioria. As pessoas que já são cansadas e ocupadas pelo próprio capitalismo tardio, acabam tendo que gastar uma enorme energia para defender coisas que são óbvias para ela, provocando mais ocupação, cansaço e desgaste. Outras que não dispõem dessa energia vão alimentando um ressentimento, cinismo ou até uma postura automática de “tanto faz”.</p>

<p>Surge aquela ideia de que nada ali acontece, e alguns acabam defendendo que se houvesse um líder centralizador, pra tomar as decisões, a coisa funcionaria melhor. Como falei antes, participo e participei de muitos grupos e, em alguns deles, realmente há um líder nítido e, nesses casos (quando o líder é bom), o grupo costuma ser muito mais dinâmico nas suas tomadas concretas de decisões. Aí surgem aqueles debates como se a coletividade não funcionasse e as soluções mais centralizadoras fossem melhores.</p>

<p>Mas eu acho que tem um problema aí que pouca gente nesses coletivos nota. Não é a coletividade que não funciona, mas para funcionar ela precisa estar baseada na <strong>CONFIANÇA</strong>. Tenho a impressão de que esse vício de decidir coletivamente todas as coisas é apenas um verniz para:
– que todos possam dar pitaco no trabalho alheio;
– um sinal de desconfiança sobre a decisão do outro, afinal a minha decisão que é a certa e preciso convencer todos disso;
– insegurança das pessoas de arcar sozinho com a responsabilidade e o ônus de uma decisão ruim.</p>

<p>Aí acaba que as pessoas ficam dando pitaco no trabalho umas das outras, querendo tomar decisões coletivas que poderiam caber à uma pessoa com competência técnica e aptidão para aquela tarefa, o que normalmente termina em briga e ressentimento.</p>

<p>Outro fator também é o ranqueamento e “enquetização” de todos os aspectos da vida: damos estrelas para estabelecimentos, restaurantes, entregadores, filmes, séries, os serviços que usamos e conteúdos que seguimos nos empurram um monte de enquetes pra responder, criando a ilusão de que tudo aquilo que é avaliado positivamente por muitas pessoas é melhor. Existe uma ideia meio autoritária nisso, como se democracia fosse uma ditadura da maioria, como se massas de pessoas nunca errassem, a voz do povo é a voz de deus, porém a história nos mostra que um grande número de pessoas já cometeu e comete grandes cagadas também.</p>

<p>Vamos evocar a imagem de um pequeno vilarejo auto gerido e auto sustentável. Eu imagino que esse vilarejo teria pessoas responsáveis pela cozinha, pessoas responsáveis pelo uso e manutenção de ferramnetas, pessoas responsáveis pela obtenção de recursos (água, alimento, madeira, minerais, etc). Cada pessoa, por aptidão, vocação ou afinidade com a tarefa, com o passar dos anos começaria a ficar muito bom naquilo. Pensem agora numa pessoa que se dedicou a vida inteira a cozinhar para o vilarejo se faz sentido os moradores fazerem uma enquete para decidir os ingredientes que essa pessoa deve usar na próxima refeição. Parece um pouco absurdo porque é. Esse vilarejo hipotético, assim como diversas comunidades tradicionais, porque cada um desenvolve habilidades, as coloca a serviço do coletivo, e todos confiam nas pessoas e nessas habilidades.</p>

<p>Eu acredito num ideal de coletividade mais ou menos por aí: todas as pessoas possuem confiança umas nas outras, ninguém dá pitacos no trabalho de ninguém, todas as pessoas possuem liberdade e autonomia para desenvolver as suas tarefas da maneira como acharem melhor e o grupo arca com o ônus coletivo de decisões ruins. Acredito que essa é a forma de extrair o melhor da coletividade e o melhor do individualismo, já que não vejo essas duas esferas como necessariamente antagônicas ou excludentes. Chegar nesse modelo é fácil? Claro que não, afinal confiança não se constrói do dia pra noite. E para isso acontecer todos precisam ter nitidez qual a “cola social” que une aquele coletivo, o que mobiliza a todos, que os torna mais unidos que diferentes.</p>

<p>Para terminar o texto, uma frase atribuída ao José Saramago que gosto bastante: “aprendi a não convencer ninguém. O convencimento é um desrespeito, uma tentativa de colonização do outro”. Será que estamos prontos para essa coletividade radical, onde não tentamos convencer ninguém de nada, apenas vivemos, amamos, trabalhamos e confiamos nas pessoas?</p>
]]></content:encoded>
      <author>felipe siles</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/qbsa8uq84t</guid>
      <pubDate>Mon, 05 Jan 2026 19:20:36 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Trova</title>
      <link>https://blog.ayom.media/john/trova</link>
      <description>&lt;![CDATA[Eu queria ser sutiã&#xA;&#xA;Desses que lembram arreios&#xA;&#xA;Pra apertar toda manhã&#xA;&#xA;Os biquinhos dos teus seios&#xA;&#xA;– Zé Trindade&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Vi essa trova no vídeo do canal Aprofundo sobre o Faustão. Aos 11:36, aparece o trecho de uma entrevista do Faustão com uma pessoa não creditada (pelo menos não encontrei), mas que acredito ser o humorista Zé Trindade. Buscando pela internet não encontrei a trova em lugar nenhum, então fica aqui o registro.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Eu queria ser sutiã</p>

<p>Desses que lembram arreios</p>

<p>Pra apertar toda manhã</p>

<p>Os biquinhos dos teus seios</p>

<p><em>– Zé Trindade</em></p>

<hr>

<p>Vi essa trova no vídeo do canal <a href="https://youtu.be/3G9xzE5wftM?t=696" rel="nofollow">Aprofundo sobre o Faustão</a>. Aos 11:36, aparece o trecho de uma entrevista do Faustão com uma pessoa não creditada (pelo menos não encontrei), mas que acredito ser o humorista <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Z%C3%A9_Trindade" rel="nofollow">Zé Trindade</a>. Buscando pela internet não encontrei a trova em lugar nenhum, então fica aqui o registro.</p>
]]></content:encoded>
      <author>john</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/2w6fiwrvdz</guid>
      <pubDate>Sat, 27 Dec 2025 18:28:35 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Perda de mandato e condenação criminal</title>
      <link>https://blog.ayom.media/john/perda-de-mandato-e-condenacao-criminal</link>
      <description>&lt;![CDATA[Algumas notas sobre a anulação da votação que salvou o mandato da Carla Zambelli.&#xA;&#xA;Li a notícia há pouco e ainda não cheguei a ler o inteiro teor da decisão, mas pelos fundamentos divulgados, dá pra notar o seguinte:&#xA;&#xA;A constituição define quais são as situações que podem levar a cassação do mandato parlamentar. Elas estão previstas no art. 55:&#xA;&#xA;  Art. 55. Perderá o mandato o Deputado ou Senador:&#xA;&#xA;  I - que infringir qualquer das proibições estabelecidas no artigo anterior;&#xA;  II - cujo procedimento for declarado incompatível com o decoro parlamentar;&#xA;  III - que deixar de comparecer, em cada sessão legislativa, à terça parte das sessões ordinárias da Casa a que pertencer, salvo licença ou missão por esta autorizada;&#xA;  IV - que perder ou tiver suspensos os direitos políticos;&#xA;  V - quando o decretar a Justiça Eleitoral, nos casos previstos nesta Constituição;&#xA;  VI - que sofrer condenação criminal em sentença transitada em julgado. &#xA;&#xA;Nos termos do Art. 55, §3º, CF, em algumas dessas situações, a mesa diretora da Câmara ou do Senado tem o dever constitucional de declarar a perda do mandato. São elas:&#xA;&#xA;excesso de faltas;&#xA;perda ou suspensão dos direitos políticos e&#xA;por decreto da Justiça Eleitoral, nos casos previstos pela CF.&#xA;&#xA;Em outras, previstas no art. 55, §2º , a Câmara ou o Senado tem o direito de decidir, por maioria absoluta, sobre a perda do mandato. São elas:&#xA;&#xA;Infringir as proibições do art. 54, CF;&#xA;Quebra de decoro parlamentar e &#xA;Condenação criminal em sentença transitada em julgado. &#xA;&#xA;A questão fundamental é se a Câmara dos Deputados tinha discricionariedade para decidir se tirava o mandato de Zambelli ou não, ou, alternativamente, se esse seria um ato vinculado, ou seja, a mesa da Câmara teria a obrigação de realizar o ato.&#xA;&#xA;Aparentemente, uma questão simples. Bastaria ver se o caso da Zambelli se enquadra nas hipóteses do §2º ou 3º do art. 55. Mas tem uma complicação. De acordo com a Constituição, a condenação criminal transitada em julgado importa na suspensão dos direitos políticos, enquanto durar a pena:&#xA;&#xA;  Art. 15. É vedada a cassação de direitos políticos, cuja perda ou suspensão só se dará nos casos de: &#xA;&#xA;  III - condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos; &#xA;&#xA;Ou seja, por ter sido condenada em sentença transitada em julgado, Zambelli está com seus direitos políticos suspensos.&#xA;&#xA;Assim se cria uma aparente antinomia no texto constitucional que prevê dois procedimentos mutuamente excludentes para o caso de perda de mandato por condenação criminal. &#xA;&#xA;Então cabe à Câmara decidir em votação, já que é um caso de condenação criminal, ou cabe à mesa diretora da Câmara declarar a perda em um ato vinculado, tendo em vista a perda dos direitos políticos?&#xA;&#xA;Alexandre de Moraes decidiu pela última opção e por isso anulou a votação que salvou o mandato da Zambelli. Nisso ele seguiu a jurisprudência do STF que tem esse entendimento desde, pelo menos a época do mensalão.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Algumas notas sobre a anulação da votação que salvou o mandato da Carla Zambelli.</p>

<p>Li a notícia há pouco e ainda não cheguei a ler o inteiro teor da decisão, mas pelos fundamentos divulgados, dá pra notar o seguinte:</p>

<p>A constituição define quais são as situações que podem levar a cassação do mandato parlamentar. Elas estão previstas no art. 55:</p>

<blockquote><p>Art. 55. Perderá o mandato o Deputado ou Senador:</p>

<p>I – que infringir qualquer das proibições estabelecidas no artigo anterior;
II – cujo procedimento for declarado incompatível com o decoro parlamentar;
III – que deixar de comparecer, em cada sessão legislativa, à terça parte das sessões ordinárias da Casa a que pertencer, salvo licença ou missão por esta autorizada;
IV – que perder ou tiver suspensos os direitos políticos;
V – quando o decretar a Justiça Eleitoral, nos casos previstos nesta Constituição;
VI – que sofrer condenação criminal em sentença transitada em julgado.</p></blockquote>

<p>Nos termos do Art. 55, §3º, CF, em algumas dessas situações, a mesa diretora da Câmara ou do Senado tem o dever constitucional de declarar a perda do mandato. São elas:</p>
<ul><li>excesso de faltas;</li>
<li>perda ou suspensão dos direitos políticos e</li>
<li>por decreto da Justiça Eleitoral, nos casos previstos pela CF.</li></ul>

<p>Em outras, previstas no art. 55, §2º , a Câmara ou o Senado tem o direito de decidir, por maioria absoluta, sobre a perda do mandato. São elas:</p>
<ul><li>Infringir as proibições do art. 54, CF;</li>
<li>Quebra de decoro parlamentar e</li>
<li>Condenação criminal em sentença transitada em julgado.</li></ul>

<p>A questão fundamental é se a Câmara dos Deputados tinha discricionariedade para decidir se tirava o mandato de Zambelli ou não, ou, alternativamente, se esse seria um ato vinculado, ou seja, a mesa da Câmara teria a obrigação de realizar o ato.</p>

<p>Aparentemente, uma questão simples. Bastaria ver se o caso da Zambelli se enquadra nas hipóteses do §2º ou 3º do art. 55. Mas tem uma complicação. De acordo com a Constituição, a condenação criminal transitada em julgado importa na suspensão dos direitos políticos, enquanto durar a pena:</p>

<blockquote><p>Art. 15. É vedada a cassação de direitos políticos, cuja perda ou suspensão só se dará nos casos de:</p>

<p>III – condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos;</p></blockquote>

<p>Ou seja, por ter sido condenada em sentença transitada em julgado, Zambelli está com seus direitos políticos suspensos.</p>

<p>Assim se cria uma aparente antinomia no texto constitucional que prevê dois procedimentos mutuamente excludentes para o caso de perda de mandato por condenação criminal.</p>

<p>Então cabe à Câmara decidir em votação, já que é um caso de condenação criminal, ou cabe à mesa diretora da Câmara declarar a perda em um ato vinculado, tendo em vista a perda dos direitos políticos?</p>

<p>Alexandre de Moraes decidiu pela última opção e por isso anulou a votação que salvou o mandato da Zambelli. Nisso ele seguiu a jurisprudência do STF que tem esse entendimento desde, pelo menos a época do mensalão.</p>
]]></content:encoded>
      <author>john</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/q916equ1sh</guid>
      <pubDate>Fri, 12 Dec 2025 01:57:13 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Desbloqueando meu kindle</title>
      <link>https://blog.ayom.media/john/desbloqueando-meu-kindle</link>
      <description>&lt;![CDATA[Meu kindle é um modelo mais antigo, um Kindle Paperwhite de 7ª geração, de 2015. Já há muitos anos deixo ele em modo avião, então eu sabia que ele não era atualizado há bastante tempo. Daí que resolvi desbloqueá-lo, inspirado por esse vídeo: &#xA;&#xA;iframe width=&#34;560&#34; height=&#34;315&#34; src=&#34;https://www.youtube.com/embed/Qtk7ERwlIAk?si=IY1aBfETPfXqABq6&#34; title=&#34;YouTube video player&#34; frameborder=&#34;0&#34; allow=&#34;accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share&#34; referrerpolicy=&#34;strict-origin-when-cross-origin&#34; allowfullscreen/iframe&#xA;&#xA;O desbloqueio (jailbreak) é um processo que consiste em remover as restrições de software de um dispositivo eletrônico feitas pelo fabricante. No meu caso, permitir que o kindle rode software além do leitor oficial da Amazon.&#xA;&#xA;Mas pra quê isso?&#xA;&#xA;Tem algumas razões: Em primeiro lugar, a flexibilidade de formatos. Por padrão, o kindle só lê os arquivos .MOBI ou .AZW proprietários da Amazon. Usar outros formatos como .epub, .pdf ou .cbz dependia da boa vontade da amazon ou de usar um conversor como o do Calibre. Sem o bloqueio da Amazon, o KOReader mostra todos os formatos mais comuns de arquivos com tranquilidade. Ler um epub se resume agora a arrastar e soltar o arquivo na pasta do kindle.&#xA;&#xA;Outra questão foi o lado da customização. O KOReader oferece muito mais controle sobre a exibição do ebook, com muito mais fontes e opções de diagramação. Além de não ter ads e me deixar usar a imagem que eu quiser como screensaver.&#xA;&#xA;Por último, mas talvez até mais importante, é a questão de que o kindle é meu e eu acho zoado que a Amazon decida como eu posso usá-lo. Acho zoado que ela controle o tipo de arquivos que o meu kindle pode abrir, acho zoado que ela possa mudar o que ela quiser nos livros que eu comprei. Acho zoado que ela possa meter a mão na minha biblioteca. Enfim, é uma questão de ter controle sobre os aparelhos que eu uso. &#xA;&#xA;Como foi o processo&#xA;&#xA;Conforme o vídeo sugere, segui as orientações desta wiki, mantida pela comunidade: https://kindlemodding.org&#xA;&#xA;Um dos pré-requisitos para o jailbrek (desbloqueio) é que a memória do kindle esteja quase cheia, com entre 20-90MB de espaço lívre no máximo, para evitar que o kindle atualize durante o processo. Então baixei o Kindle Disk Filler Utility, mas não deu pra continuar o processo no dia porque o kindle tava sem bateria kkkk&#xA;&#xA;No dia seguinte acabei não conseguindo usar o KDFU porque, por alguma razão, minha permissão pra rodar o script foi negada. Até fuçei um pouquinho, mas não estava a fim de arrumar isso no momento. Então resolvi fazer o jailbreak assim mesmo. Presumi que sendo um hardware velho, sem suporte oficial, ele não atualizaria automaticamente. E deu certo. Configurei o acesso à rede aqui de casa (nunca tinha conectado o kindle aqui) e em seguida reativei o modo avião. Seguindo as instruções da página, reiniciei o aparelho.&#xA;&#xA;Baixei o WinterBreak pelo link da wiki. O processo todo é bem banal, só que tem algumas idas e vindas. Além do WinterBreak, é preciso instalar o  Hotfix, que permite que o desbloqueio seja mantido depois de atualizar. Depois, instalar o KUAL (Kindle Unified Application Launcher) e o MRPI (MobileRead Package Installer) para rodar aplicativos não-oficiais. Por último, instalei o KOReader, um visualizador de documentos para dispositivos E Ink. Parece muita coisa, mas foi bem tranquilo. A forma de instalar as coisas no kindle é bem simples, basta copiar os arquivos direto na pasta do kindle no pc. Foi só seguir o tutorial aqui que a mágica aconteceu. &#xA;&#xA;Processo pronto, tudo estava funcionando perfeitamente, só tinha uma última coisa que eu queria fazer - colocar um screensaver maneiro. Com o KOReader é bem fácil, basta preparar a imagem pra tela de e-ink, converter para o formato epub e salvar na pasta do KOReader no Kindle. Esse link explica direitinho e ainda tem uma ferramenta pra dimensionar sua imagem no tamanho certo pro seu dispositivo.&#xA;&#xA;Resultado&#xA;&#xA;Depois de um processo que, descontadas as interrupções, deve ser durado uns 20 minutos, eis o meu kindle desbloqueado:&#xA;&#xA;a href=&#34;https://ibb.co/BKr4ygnY&#34;img src=&#34;https://i.ibb.co/CsMJbnPS/jailbroke-kindle.jpg&#34; alt=&#34;jailbroke-kindle&#34; border=&#34;0&#34;/a&#xA;&#xA;Minha primeira impressão é de que a interface do kindle ficou mais parecida com a de um computador, bem focado em navegação por pastas e arquivos. Eu acho bem ok, mas algumas pessoas podem estranhar a falta daquele design de aplicativo da Amazon. Todos os livros que eu já tinha continuam disponíveis (mas as capas dos .mobi não estão aparecendo. uma coisa aí pra resolver) e os .epub que eu coloquei pra testar funcionaram direitinho.&#xA;&#xA;No fim das contas foi bem fácil e acho que valeu a pena. Se você só lê livros comprados na amazon ou pelo kindle unlimited, talvez seja melhor deixar o kindle como está. Mas se você quer mais liberdade de escolha nos formatos dos seus ebooks, menos propaganda ou se opõe filosoficamente aos jardins murados da big techs, recomendo libertar seu aparelho!&#xA;&#xA;]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Meu kindle é um modelo mais antigo, um Kindle Paperwhite de 7ª geração, de 2015. Já há muitos anos deixo ele em modo avião, então eu sabia que ele não era atualizado há bastante tempo. Daí que resolvi desbloqueá-lo, inspirado por esse vídeo:</p>

<iframe width="560" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/Qtk7ERwlIAk?si=IY1aBfETPfXqABq6" title="YouTube video player" frameborder="0" allowfullscreen=""></iframe>

<p>O desbloqueio (jailbreak) é um processo que consiste em remover as restrições de software de um dispositivo eletrônico feitas pelo fabricante. No meu caso, permitir que o kindle rode software além do leitor oficial da Amazon.</p>

<p><strong>Mas pra quê isso?</strong></p>

<p>Tem algumas razões: Em primeiro lugar, a <strong>flexibilidade de formatos</strong>. Por padrão, o kindle só lê os arquivos .MOBI ou .AZW proprietários da Amazon. Usar outros formatos como .epub, .pdf ou .cbz dependia da boa vontade da amazon ou de usar um conversor como o do Calibre. Sem o bloqueio da Amazon, o KOReader mostra todos os formatos mais comuns de arquivos com tranquilidade. Ler um epub se resume agora a arrastar e soltar o arquivo na pasta do kindle.</p>

<p>Outra questão foi o lado da <strong>customização</strong>. O KOReader oferece muito mais controle sobre a exibição do ebook, com muito mais fontes e opções de diagramação. Além de não ter ads e me deixar usar a imagem que eu quiser como screensaver.</p>

<p>Por último, mas talvez até mais importante, é a questão de que o kindle é meu e eu acho zoado que a Amazon decida como eu posso usá-lo. Acho zoado que ela controle o tipo de arquivos que o meu kindle pode abrir, acho zoado que ela possa mudar o que ela quiser nos livros que eu comprei. Acho zoado que ela possa meter a mão na minha biblioteca. Enfim, é uma questão de ter <strong>controle sobre os aparelhos que eu uso</strong>.</p>

<p><strong>Como foi o processo</strong></p>

<p>Conforme o vídeo sugere, segui as orientações desta wiki, mantida pela comunidade: <a href="https://kindlemodding.org" rel="nofollow">https://kindlemodding.org</a></p>

<p>Um dos pré-requisitos para o jailbrek (desbloqueio) é que a memória do kindle esteja quase cheia, com entre 20-90MB de espaço lívre no máximo, para evitar que o kindle atualize durante o processo. Então baixei o <a href="https://github.com/iiroak/Kindle-Filler-Disk" rel="nofollow">Kindle Disk Filler Utility</a>, mas não deu pra continuar o processo no dia porque o kindle tava sem bateria kkkk</p>

<p>No dia seguinte acabei não conseguindo usar o KDFU porque, por alguma razão, minha permissão pra rodar o script foi negada. Até fuçei um pouquinho, mas não estava a fim de arrumar isso no momento. Então resolvi fazer o jailbreak assim mesmo. Presumi que sendo um hardware velho, sem suporte oficial, ele não atualizaria automaticamente. E deu certo. Configurei o acesso à rede aqui de casa (nunca tinha conectado o kindle aqui) e em seguida reativei o modo avião. Seguindo as instruções da página, reiniciei o aparelho.</p>

<p>Baixei o <strong>WinterBreak</strong> pelo link da wiki. O processo todo é bem banal, só que tem algumas idas e vindas. Além do WinterBreak, é preciso instalar o  <strong>Hotfix</strong>, que permite que o desbloqueio seja mantido depois de atualizar. Depois, instalar o <strong>KUAL</strong> (Kindle Unified Application Launcher) e o <strong>MRPI</strong> (MobileRead Package Installer) para rodar aplicativos não-oficiais. Por último, instalei o <strong>KOReader</strong>, um visualizador de documentos para dispositivos E Ink. Parece muita coisa, mas foi bem tranquilo. A forma de instalar as coisas no kindle é bem simples, basta copiar os arquivos direto na pasta do kindle no pc. Foi só seguir o tutorial <a href="https://kindlemodding.org" rel="nofollow">aqui</a> que a mágica aconteceu.</p>

<p>Processo pronto, tudo estava funcionando perfeitamente, só tinha uma última coisa que eu queria fazer – colocar um screensaver maneiro. Com o KOReader é bem fácil, basta preparar a imagem pra tela de e-ink, converter para o formato epub e salvar na pasta do KOReader no Kindle. Esse <a href="https://www.ebookscreensaver.com/blog/koreader-screensaver-setup-guide" rel="nofollow">link</a> explica direitinho e ainda tem uma ferramenta pra dimensionar sua imagem no tamanho certo pro seu dispositivo.</p>

<p><strong>Resultado</strong></p>

<p>Depois de um processo que, descontadas as interrupções, deve ser durado uns 20 minutos, eis o meu kindle desbloqueado:</p>

<p><a href="https://ibb.co/BKr4ygnY" rel="nofollow"><img src="https://i.ibb.co/CsMJbnPS/jailbroke-kindle.jpg" alt="jailbroke-kindle"></a></p>

<p>Minha primeira impressão é de que a interface do kindle ficou mais parecida com a de um computador, bem focado em navegação por pastas e arquivos. Eu acho bem ok, mas algumas pessoas podem estranhar a falta daquele design de aplicativo da Amazon. Todos os livros que eu já tinha continuam disponíveis (mas as capas dos .mobi não estão aparecendo. uma coisa aí pra resolver) e os .epub que eu coloquei pra testar funcionaram direitinho.</p>

<p>No fim das contas foi bem fácil e acho que valeu a pena. Se você só lê livros comprados na amazon ou pelo kindle unlimited, talvez seja melhor deixar o kindle como está. Mas se você quer mais liberdade de escolha nos formatos dos seus ebooks, menos propaganda ou se opõe filosoficamente aos jardins murados da big techs, recomendo libertar seu aparelho!</p>
]]></content:encoded>
      <author>john</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/evfxlwksjm</guid>
      <pubDate>Thu, 11 Dec 2025 22:37:00 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Não se organize</title>
      <link>https://blog.ayom.media/felipe-siles/nao-se-organize</link>
      <description>&lt;![CDATA[Não use aplicativos para gerir tarefas&#xA;Não use diários, nem bullet journal&#xA;No máximo escreva as tarefas no whatsapp num grupo consigo mesmo&#xA;Ou melhor&#xA;Não escreva em lugar nenhum, apenas guarde na sua cabeça e deixe a informação naturalmente se dissolver no seu cérebro&#xA;&#xA;Não faça registros escritos, apenas fotográficos, com o celular&#xA;Não faça planilhas, não leia e-mails&#xA;Use todo seu tempo livre rodando a feed do seu Instagram ou TikTok&#xA;Não use Mastodon, Fediverse&#xA;Não use software livres e de código aberto&#xA;Dependa do Google para todas as coisas que você conseguir&#xA;Passe todo seu tempo acordado com a cara enfiada no celular&#xA;&#xA;Não faça planos&#xA;Não seja pontual&#xA;Não seja eficiente&#xA;Não cumpra acordos, nem combinados&#xA;&#xA;Seja distraído&#xA;Esqueça todas as coisas&#xA;Não preste atenção em nada e nem em ningém&#xA;Apenas em você mesmo&#xA;Porque você é superior a todas as outras pessoas&#xA;&#xA;Não ande de transporte público, nem de bicicleta&#xA;Compre um carro e se mate de trabalhar para pagar as parcelas, manutenção, impostos, seguro&#xA;Xingue quem não anda de carro&#xA;Ameace atropelar esse infeliz&#xA;Não dê carona para ninguém&#xA;&#xA;Não cozinhe&#xA;Coma apenas ultraprocessados&#xA;Tome Coca Zero&#xA;Peça comida apenas pelo iFood&#xA;Depois você vê como consegue (ou não) pagar o cartão de crédito&#xA;Tenha a geladeira sempre vazia&#xA;Não compre utensílios de cozinha&#xA;&#xA;Faça academia&#xA;Tire muita selfie&#xA;Poste essas selfies com um verso bíblico&#xA;Não faça outras atividades físicas que não a academia&#xA;&#xA;Viaje apenas para fazer turismo&#xA;Estabeleça a relação com os locais apenas de consumo&#xA;Não descanse até visitar todos os pontos turísticos da cidade&#xA;Você voltará esgotado para o trabalho&#xA;Mas terá o que importa de verdade&#xA;Muitas fotos no feed do seu Instagram&#xA;&#xA;Não durma&#xA;Vare a madrugada assitindo séries na Netflix&#xA;Só veja filmes e séries que estão no hype&#xA;Maratone o máximo de séries que conseguir&#xA;Fique longe dos livros&#xA;Durma no local correto&#xA;&#xA;O único local que deve ser frequentado além da sua casa e seu trabalho&#xA;É a igreja&#xA;Fique longe do candomblé, umbanda e religiões que não são cristãs&#xA;Quando sair para se divertir&#xA;Beba o máximo possível para não ter que lidar sóbrio com as outras pessoas&#xA;&#xA;Defina seu espectro político pelas redes sociais&#xA;Fique longe de correntes marginais, como o anarquismo ou o socialismo&#xA;Faça militância pelas redes sociais&#xA;Seu letramento político é construido por memes&#xA;Fique longe das ruas&#xA;&#xA;SE VOCÊ DESCUMPRIR ESSAS REGRAS SERÁ SEVERAMENTE PUNIDO VOCÊ ESTARÁ INFRINGINDO O ESPÍRITO DO SEU TEMPO AS PESSOAS VÃO PERCEBER A SUA EFICIÊNCIA A SUA PONTUALIDADE E VÃO TE ENCHER DE TRABALHO DE DEMANDAS DE TAREFAS ATÉ TE ESGOTAR NO MAIS PROFUNDO BURNOUT TE ANIQUILAR NA MARGINALIDADE SIMBÓLICA DO CANSAÇO AS PESSOAS VÃO TE ADOECER ATÉ VOCÊ SE ENCAIXAR NO ESQUEMA DELAS OU ATÉ MORRER TENTANDO SAIR DESSE LABIRINTO LEMBRA DO AGENTE SMITH DE MATRIX QUALQUER MOVIMENTO FORA DA MATRIX SERÁ SEVERAMENTE PUNIDO E O RESPONSÁVEL ELIMINADO]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Não use aplicativos para gerir tarefas
Não use diários, nem bullet journal
No máximo escreva as tarefas no whatsapp num grupo consigo mesmo
Ou melhor
Não escreva em lugar nenhum, apenas guarde na sua cabeça e deixe a informação naturalmente se dissolver no seu cérebro</p>

<p>Não faça registros escritos, apenas fotográficos, com o celular
Não faça planilhas, não leia e-mails
Use todo seu tempo livre rodando a feed do seu Instagram ou TikTok
Não use Mastodon, Fediverse
Não use software livres e de código aberto
Dependa do Google para todas as coisas que você conseguir
Passe todo seu tempo acordado com a cara enfiada no celular</p>

<p>Não faça planos
Não seja pontual
Não seja eficiente
Não cumpra acordos, nem combinados</p>

<p>Seja distraído
Esqueça todas as coisas
Não preste atenção em nada e nem em ningém
Apenas em você mesmo
Porque você é superior a todas as outras pessoas</p>

<p>Não ande de transporte público, nem de bicicleta
Compre um carro e se mate de trabalhar para pagar as parcelas, manutenção, impostos, seguro
Xingue quem não anda de carro
Ameace atropelar esse infeliz
Não dê carona para ninguém</p>

<p>Não cozinhe
Coma apenas ultraprocessados
Tome Coca Zero
Peça comida apenas pelo iFood
Depois você vê como consegue (ou não) pagar o cartão de crédito
Tenha a geladeira sempre vazia
Não compre utensílios de cozinha</p>

<p>Faça academia
Tire muita selfie
Poste essas selfies com um verso bíblico
Não faça outras atividades físicas que não a academia</p>

<p>Viaje apenas para fazer turismo
Estabeleça a relação com os locais apenas de consumo
Não descanse até visitar todos os pontos turísticos da cidade
Você voltará esgotado para o trabalho
Mas terá o que importa de verdade
Muitas fotos no feed do seu Instagram</p>

<p>Não durma
Vare a madrugada assitindo séries na Netflix
Só veja filmes e séries que estão no hype
Maratone o máximo de séries que conseguir
Fique longe dos livros
Durma no local correto</p>

<p>O único local que deve ser frequentado além da sua casa e seu trabalho
É a igreja
Fique longe do candomblé, umbanda e religiões que não são cristãs
Quando sair para se divertir
Beba o máximo possível para não ter que lidar sóbrio com as outras pessoas</p>

<p>Defina seu espectro político pelas redes sociais
Fique longe de correntes marginais, como o anarquismo ou o socialismo
Faça militância pelas redes sociais
Seu letramento político é construido por memes
Fique longe das ruas</p>

<p>SE VOCÊ DESCUMPRIR ESSAS REGRAS SERÁ SEVERAMENTE PUNIDO VOCÊ ESTARÁ INFRINGINDO O ESPÍRITO DO SEU TEMPO AS PESSOAS VÃO PERCEBER A SUA EFICIÊNCIA A SUA PONTUALIDADE E VÃO TE ENCHER DE TRABALHO DE DEMANDAS DE TAREFAS ATÉ TE ESGOTAR NO MAIS PROFUNDO BURNOUT TE ANIQUILAR NA MARGINALIDADE SIMBÓLICA DO CANSAÇO AS PESSOAS VÃO TE ADOECER ATÉ VOCÊ SE ENCAIXAR NO ESQUEMA DELAS OU ATÉ MORRER TENTANDO SAIR DESSE LABIRINTO LEMBRA DO AGENTE SMITH DE MATRIX QUALQUER MOVIMENTO FORA DA MATRIX SERÁ SEVERAMENTE PUNIDO E O RESPONSÁVEL ELIMINADO</p>
]]></content:encoded>
      <author>felipe siles</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/alcp8ww1h0</guid>
      <pubDate>Mon, 01 Dec 2025 21:04:56 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Attack on Titan é propaganda fascista</title>
      <link>https://blog.ayom.media/john/attack-on-titan-e-propaganda-fascista</link>
      <description>&lt;![CDATA[Pense comigo nessa sinopse por um segundo:&#xA;&#xA;Temos um povo que vive numa ilha, os &#34;Eldianos&#34;. Eles são descendentes de um império antigo que caiu em desgraça, donos de uma linhagem &#34;mítica&#34; com um passado glorioso. Esse povo se vê completamente ameaçado pelo resto do mundo, pelo continente, que tem mais gente e guarda um ressentimento profundo pela opressão que sofreu nas mãos desses antigos mestres.&#xA;&#xA;A única &#34;opção&#34; que lhes resta é se submeter, aceitar pacificamente seu destino e desaparecer numa espécie de autodestruição demográfica.&#xA;&#xA;SÓ QUE... um grupo de jovens militares não aceita isso. Eles decidem que a melhor defesa é o ataque. E eles partem para cima primeiro, num espetáculo de destruição total, para dar ao povo da ilha uma chance de derrotar seus inimigos e, quem sabe, restaurar a antiga glória do império.&#xA;&#xA;Se essa descrição soou familiar, talvez até um pouco... desconfortável, é porque ela deveria. Para mim, a coisa é bem evidente: Attack on Titan é, na sua essência, propaganda fascista.&#xA;&#xA;Vamos ponto a ponto:&#xA;&#xA;A &#34;ameaça&#34; externa é 100% real. O mundo realmente quer destruir Eldia. A ameaça é iminente, total e genocida. Esse é um tropo clássico da retórica fascista: &#34;somos nós contra o mundo, eles querem nos aniquilar&#34;. A grande diferença é que, na vida real, essa ameaça é quase sempre inventada ou grosseiramente exagerada para justificar o autoritarismo. Em AoT, a ameaça é real, o que justifica a paranoia e as medidas extremas que vêm a seguir.&#xA;&#xA;O genocídio como solução &#34;viável&#34;. O &#34;Rugido da Terra&#34;. O plano de Eren não é só uma loucura, ele é apresentado como uma opção estratégica. E pior: uma que funciona. O genocídio coloca Eldia não apenas em segurança, mas no caminho para se tornar a potência hegemônica mundial, provavelmente sob um novo regime fascista e militarista. A obra normaliza o ato mais extremo de todos como uma &#34;escolha difícil&#34;.&#xA;&#xA;Quem é o verdadeiro protagonista? Pense nos personagens &#34;anti-fascistas&#34; da série, a galera da Aliança (Armin, Mikasa, Levi, Jean, Connie, etc.) que tenta desesperadamente impedir o genocídio. Eles são retratados como ingênuos, idealistas e, no fim, são meros coadjuvantes na grande jogada. O verdadeiro protagonista, o motor da história, o cara cujas motivações entendemos... é o Eren. O cara que dá o golpe e comete o genocídio.&#xA;&#xA;Eren, o Messias Fascista (e sua redenção). O Eren não é só um vilão. Ele é construído como um messias trágico. Ele &#34;faz o que precisa ser feito&#34; pelo seu povo, sacrificando a própria alma. E mesmo depois do ato mais monstruoso que se pode imaginar, a história gasta um tempo enorme para humanizar suas motivações e &#34;redimi-lo&#34; aos olhos dos amigos (e do público). Ele acaba como um herói incompreendido, não como o maior genocida da história.&#xA;&#xA;Mas o que realmente me faz torcer o nariz e acende todos os alertas é o contexto.&#xA;&#xA;Aquele parágrafo inicial que eu escrevi não é só sobre Attack on Titan. É um retrato bem fiel do imaginário da extrema-direita japonesa.&#xA;&#xA;O Japão, como país, tem uma dificuldade enorme de lidar com seu passado fascista e imperialista da Segunda Guerra Mundial. O ensino de história por lá é, para ser gentil, negligente com os crimes de guerra e as atrocidades cometidas pelo Império. E hoje, existe um movimento crescente de uma extrema-direita nacionalista que adoraria &#34;recuperar&#34; esse passado militarista, que vê o Japão como uma vítima e que sonha com a restauração de sua &#34;antiga glória&#34;.&#xA;&#xA;Nesse cenário, uma história como Attack on Titan — sobre um povo &#34;injustiçado&#34; que mora numa ilha e precisa de um exército forte e de um líder disposto a tudo para se proteger do mundo ressentido e restaurar sua glória — ressoa com ideias que são, no mínimo, muito, muito perigosas.&#xA;&#xA;Enfim, não estou aqui para dizer que você é fascista por gostar de Attack on Titan. A arte é complexa, a animação é espetacular, os personagens são cativantes e a trama é viciante. Eu mesmo acompanhei por anos.&#xA;&#xA;Mas, para mim, é impossível fechar os olhos para a mensagem política que está gritando na nossa cara. A gente pode (e deve) curtir uma obra, mas sem nunca, jamais, desligar o senso crítico.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Pense comigo nessa sinopse por um segundo:</p>

<p>Temos um povo que vive numa ilha, os “Eldianos”. Eles são descendentes de um império antigo que caiu em desgraça, donos de uma linhagem “mítica” com um passado glorioso. Esse povo se vê completamente ameaçado pelo resto do mundo, pelo continente, que tem mais gente e guarda um ressentimento profundo pela opressão que sofreu nas mãos desses antigos mestres.</p>

<p>A única “opção” que lhes resta é se submeter, aceitar pacificamente seu destino e desaparecer numa espécie de autodestruição demográfica.</p>

<p>SÓ QUE... um grupo de jovens militares não aceita isso. Eles decidem que a melhor defesa é o ataque. E eles partem para cima primeiro, num espetáculo de destruição total, para dar ao povo da ilha uma chance de derrotar seus inimigos e, quem sabe, restaurar a antiga glória do império.</p>

<p>Se essa descrição soou familiar, talvez até um pouco... desconfortável, é porque ela deveria. Para mim, a coisa é bem evidente: Attack on Titan é, na sua essência, propaganda fascista.</p>

<p>Vamos ponto a ponto:</p>

<p><strong>A “ameaça” externa é 100% real.</strong> O mundo realmente quer destruir Eldia. A ameaça é iminente, total e genocida. Esse é um tropo clássico da retórica fascista: “somos nós contra o mundo, eles querem nos aniquilar”. A grande diferença é que, na vida real, essa ameaça é quase sempre inventada ou grosseiramente exagerada para justificar o autoritarismo. Em AoT, a ameaça é real, o que justifica a paranoia e as medidas extremas que vêm a seguir.</p>

<p><strong>O genocídio como solução “viável”</strong>. O “Rugido da Terra”. O plano de Eren não é só uma loucura, ele é apresentado como uma opção estratégica. E pior: uma que funciona. O genocídio coloca Eldia não apenas em segurança, mas no caminho para se tornar a potência hegemônica mundial, provavelmente sob um novo regime fascista e militarista. A obra normaliza o ato mais extremo de todos como uma “escolha difícil”.</p>

<p><strong>Quem é o verdadeiro protagonista?</strong> Pense nos personagens “anti-fascistas” da série, a galera da Aliança (Armin, Mikasa, Levi, Jean, Connie, etc.) que tenta desesperadamente impedir o genocídio. Eles são retratados como ingênuos, idealistas e, no fim, são meros coadjuvantes na grande jogada. O verdadeiro protagonista, o motor da história, o cara cujas motivações entendemos... é o Eren. O cara que dá o golpe e comete o genocídio.</p>

<p><strong>Eren, o Messias Fascista (e sua redenção)</strong>. O Eren não é só um vilão. Ele é construído como um messias trágico. Ele “faz o que precisa ser feito” pelo seu povo, sacrificando a própria alma. E mesmo depois do ato mais monstruoso que se pode imaginar, a história gasta um tempo enorme para humanizar suas motivações e “redimi-lo” aos olhos dos amigos (e do público). Ele acaba como um herói incompreendido, não como o maior genocida da história.</p>

<p>Mas o que realmente me faz torcer o nariz e acende todos os alertas é o contexto.</p>

<p>Aquele parágrafo inicial que eu escrevi não é só sobre Attack on Titan. É um retrato bem fiel do imaginário da extrema-direita japonesa.</p>

<p>O Japão, como país, tem uma dificuldade enorme de lidar com seu passado fascista e imperialista da Segunda Guerra Mundial. O ensino de história por lá é, para ser gentil, negligente com os crimes de guerra e as atrocidades cometidas pelo Império. E hoje, existe um movimento crescente de uma extrema-direita nacionalista que adoraria “recuperar” esse passado militarista, que vê o Japão como uma vítima e que sonha com a restauração de sua “antiga glória”.</p>

<p>Nesse cenário, uma história como Attack on Titan — sobre um povo “injustiçado” que mora numa ilha e precisa de um exército forte e de um líder disposto a tudo para se proteger do mundo ressentido e restaurar sua glória — ressoa com ideias que são, no mínimo, muito, muito perigosas.</p>

<p>Enfim, não estou aqui para dizer que você é fascista por gostar de Attack on Titan. A arte é complexa, a animação é espetacular, os personagens são cativantes e a trama é viciante. Eu mesmo acompanhei por anos.</p>

<p>Mas, para mim, é impossível fechar os olhos para a mensagem política que está gritando na nossa cara. A gente pode (e deve) curtir uma obra, mas sem nunca, jamais, desligar o senso crítico.</p>
]]></content:encoded>
      <author>john</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/cw5mq51ro3</guid>
      <pubDate>Fri, 24 Oct 2025 10:46:37 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>GNU Linux-libre: liberte e renove o núcleo de sua máquina com o repositório Freesh</title>
      <link>https://blog.ayom.media/daltux/gnu-linux-libre-liberte-e-renove-sua-maquina-com-freesh</link>
      <description>&lt;![CDATA[img alt=&#34;Desenho cartunístico de um pinguim azul que segura um escovão e uma toalha, como se acabasse de tomar banho.&#34; src=&#34;https://www.fsfla.org/ikiwiki/selibre/linux-libre/freedo.svg&#34; width=&#34;150&#34; align=&#34;right&#34; title=&#34;Freedo, mascote do Linux-libre. Desenho de Rubén Rodrígues Pérez.&#34;GNU Linux-libre é, atualmente, o núcleo oficial do sistema operacional GNU. É quase o mesmo que Linux, o grande kernel que costuma ser usado não apenas com o GNU como com diversos outros. Contudo, Linux-libre é o resultado de um processo de detecção e limpeza de partes privativas a cada lançamento do Linux, visando garantir, diferentemente deste, que seja 100% software livre.&#xA;&#xA;!--more--Leia mais sobre esse projeto tão fundamental para a liberdade de software em sua página oficial (em inglês) ou em artigo da Wikipédia.&#xA;&#xA;Freesh&#xA;&#xA;O projeto GNU Linux-libre, mantido por FSFLA com apoio da FSF, possui um repositório chamado Freesh, compatível com apt. Ele contém pacotes em formato deb do kernel prontos para instalação em PureOS, Trisquel ou tantas outras distribuições de GNU derivadas de Debian, mesmo aquelas que normalmente são acompanhadas do Linux comum &amp;mdash; o famoso kernel que não é considerado software livre por conter módulos com conteúdo binário desacompanhado de código-fonte ou ofuscado e que, portanto, priva a comunidade de uma ou mais das suas liberdades essenciais.&#xA;&#xA;  Similarmente, há também um repositório compatível com dnf chamado RPM Freedom.&#xA;&#xA;O repositório Freesh, ao mesmo tempo em que possibilita libertar uma máquina do software privativo trazido pelo Linux comum, ainda pode causar o efeito colateral de deixá-la mais renovada, pois apresenta os lançamentos mais recentes do kernel, que poderiam demorar muito a chegar a ela. Após defini-lo em arquivo no diretório /etc/apt/sources.list.d, basta atualizar os dados dos repositórios e instalar o metapacote linux-libre para ter a últimíssima versão do kernel ou, se desejar algo testado por mais tempo, linux-libre-lts.&#xA;&#xA;Espelhos&#xA;&#xA;Os repositórios raiz do projeto GNU Linux-libre são mantidos pela FSFLA em estrutura cedida pela FSF, em Boston, com alguns espelhos voluntariamente mantidos pelo mundo. Considerando a data de escrita deste texto, há poucos dias, eram três, em Austrália, Equador e Turquia. Assim, surgiu a ideia de criar um espelho do Freesh no servidor de daltux.net como forma de contribuir com o projeto. Ele já foi adicionado à lista de espelhos lida pelo gerenciador de pacotes a cada atualização, se tiverem sido seguidas as instruções de instalação padrão da página do Freesh. Nesse caso, não é preciso fazer mais nada para aproveitá-lo. Também é possível definir diretamente https://daltux.net/freesh/ como origem, se desejar recorrer apenas a esse espelho &amp;mdash; algo menos recomendável.&#xA;&#xA;O novo espelho está situado na Alemanha. Permanece importante a criação de mais espelhos, em especial no Brasil, como em outros locais. Quem tiver alguma infraestrutura e interesse de realizar isso, que não é nada complicado, pode entrar em contato se precisar de mais detalhes. Basicamente, será a execução periódica de Shell script para atualizar com rsync um diretório a ser servido por HTTP(s).&#xA;&#xA;Exemplo&#xA;&#xA;Eis um exemplo de execução de atualização+limpeza de pacotes que demonstra a utilização de mais de um espelho automaticamente pelo apt ao baixar o linux-libre versão 6.17.2:&#xA;&#xA;$ sudo sh -c &#39;apt update &amp;&amp; apt upgrade --verbose-versions &amp;&amp; apt autopurge &amp;&amp; apt clean &amp;&amp; echo &amp;&amp; df -h / &amp;&amp; echo &amp;&amp; uptime&#39;&#xA;&#xA;[...]&#xA;Get:6 http://linux-libre.fsfla.org/pub/linux-libre/freesh/mirrors.txt Mirrorlist [171 B]&#xA;[...]&#xA;1 package can be upgraded. Run &#39;apt list --upgradable&#39; to see it.&#xA;[...]&#xA;Upgrading:&#xA;   linux-libre (6.17.1 =  6.17.2)&#xA;&#xA;Installing dependencies:&#xA;   linux-image-6.17.2-gnu (6.17.2-gnu-1.0)&#xA;&#xA;Summary:&#xA;  Upgrading: 1, Installing: 1, Removing: 0, Not Upgrading: 0&#xA;  Download size: 103 MB&#xA;  Space needed: 576 MB / [...] available&#xA;  └─ in /boot:  84.5 MB / [...] available&#xA;&#xA;Continue? [Y/n]&#xA;Get:1 http://linux-libre.fsfla.org/pub/linux-libre/freesh/mirrors.txt Mirrorlist [171 B]&#xA;Get:3 https://daltux.net/freesh freesh/main amd64 linux-libre amd64 6.17.2 [780 B]&#xA;Get:2 https://mirror.cedia.org.ec/linux-libre/freesh freesh/main amd64 linux-image-6.17.2-gnu amd64 6.17.2-gnu-1.0 [103 MB]&#xA;Fetched 103 MB in 20s (5154 kB/s)&#xA;[...]&#xA;Setting up linux-libre (6.17.2) ...&#xA;[...]&#xA;&#xA;Dica adicional: nala&#xA;&#xA;Algo sobre o gerenciador de pacotes apt em geral: quando o mesmo pacote/versão está disponível em mais de uma origem configurada, ele já usa origens aleatórias para baixar cada pacote e pode passar a outra origem caso alguma apresente erro. Se desejar, mais do que isso, tentar usar paralelamente mais de um espelho definido para baixar o mesmo pacote, o programa nala consegue realizar isso. Vale a pena? Depende: cumulando essas condições com gargalos no lado do servidor, pode haver benefício. Senão, continue usando apt normalmente.&#xA;&#xA;A dica mais importante é evitar repositórios que contenham software não livre.&#xA;&#xA;#GNU #LinuxLibre #Linux #Debian #apt #SoftwareLivre]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img alt="Desenho cartunístico de um pinguim azul que segura um escovão e uma toalha, como se acabasse de tomar banho." src="https://www.fsfla.org/ikiwiki/selibre/linux-libre/freedo.svg" width="150" align="right" title="Freedo, mascote do Linux-libre. Desenho de Rubén Rodrígues Pérez.">GNU <strong>Linux-libre</strong> é, atualmente, o núcleo oficial do sistema operacional <a href="https://gnu.org" rel="nofollow">GNU</a>. É <em>quase</em> o mesmo que Linux, o grande <em>kernel</em> que costuma ser usado não apenas com o GNU como com diversos outros. Contudo, Linux-libre é o resultado de um processo de detecção e limpeza de partes privativas a cada lançamento do Linux, visando garantir, diferentemente deste, que seja <strong>100%</strong> <a href="https://www.gnu.org/philosophy/free-sw.html" rel="nofollow"><em>software</em> livre</a>.</p>

<p>Leia mais sobre esse projeto tão fundamental para a liberdade de <em>software</em> em sua <a href="https://linux-libre.fsfla.org/" rel="nofollow">página oficial (em inglês)</a> ou em artigo da <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/GNU_Linux-libre" rel="nofollow">Wikipédia</a>.</p>

<h2 id="freesh">Freesh</h2>

<p>O projeto GNU Linux-libre, mantido por <a href="https://fsfla.org" title="Fundação Software Livre América Latina" rel="nofollow">FSFLA</a> com apoio da <a href="https://fsf.org" title="Free Software Foundation" rel="nofollow">FSF</a>, possui um repositório chamado <a href="https://www.fsfla.org/ikiwiki/selibre/linux-libre/freesh" rel="nofollow"><strong>Freesh</strong></a>, compatível com <code>apt</code>. Ele contém pacotes em formato <code>deb</code> do <em>kernel</em> prontos para instalação em <a href="https://pureos.net" rel="nofollow">PureOS</a>, <a href="https://trisquel.info" rel="nofollow">Trisquel</a> ou tantas outras <a href="https://www.gnu.org/distros/" rel="nofollow"><strong>distribuições</strong> de GNU</a> derivadas de <a href="https://www.gnu.org/distros/common-distros.html#Debian" rel="nofollow">Debian</a>, mesmo aquelas que normalmente são acompanhadas do Linux comum — o famoso <em>kernel</em> que não é considerado <em>software</em> livre por conter módulos com conteúdo binário desacompanhado de código-fonte ou ofuscado e que, portanto, <a href="https://aulete.com.br/privar" title="Definição do verbo privar segundo o dicionário Aulete" rel="nofollow"><strong>priva</strong></a> a comunidade de uma ou mais das suas <a href="https://www.gnu.org/philosophy/free-sw.html#four-freedoms" rel="nofollow">liberdades essenciais</a>.</p>

<blockquote><p>Similarmente, há também um repositório compatível com <code>dnf</code> chamado <a href="https://www.fsfla.org/ikiwiki/selibre/linux-libre/rpmfreedom" rel="nofollow">RPM Freedom</a>.</p></blockquote>

<p>O repositório <strong><em>Freesh</em></strong>, ao mesmo tempo em que possibilita libertar uma máquina do <em>software</em> privativo trazido pelo Linux comum, ainda pode causar o efeito colateral de deixá-la mais renovada, pois apresenta os lançamentos mais recentes do <em>kernel</em>, que poderiam demorar muito a chegar a ela. Após defini-lo em arquivo no diretório <code>/etc/apt/sources.list.d</code>, basta atualizar os dados dos repositórios e instalar o metapacote <strong><code>linux-libre</code></strong> para ter a últimíssima versão do <em>kernel</em> ou, se desejar algo testado por mais tempo, <strong><code>linux-libre-lts</code></strong>.</p>

<h2 id="espelhos">Espelhos</h2>

<p>Os repositórios raiz do projeto GNU Linux-libre são mantidos pela FSFLA em estrutura cedida pela FSF, em Boston, com alguns espelhos voluntariamente mantidos pelo mundo. Considerando a data de escrita deste texto, há poucos dias, eram três, em Austrália, Equador e Turquia. Assim, surgiu a ideia de criar um espelho do <strong>Freesh</strong> no servidor de <code>daltux.net</code> como forma de contribuir com o projeto. Ele já <a href="https://www.fsfla.org/pipermail/linux-libre/2025-October/003605.html" title="Mensagem de Jason Self à lista de discussão do Linux-libre na FSFLA sobre a inclusão do espelho na lista." rel="nofollow">foi adicionado</a> à <a href="https://linux-libre.fsfla.org/pub/linux-libre/freesh/mirrors.txt" rel="nofollow">lista de espelhos</a> lida pelo gerenciador de pacotes a cada atualização, se tiverem sido seguidas as instruções de instalação padrão da página do Freesh. Nesse caso, não é preciso fazer mais nada para aproveitá-lo. Também é possível definir diretamente <code>https://daltux.net/freesh/</code> como origem, se desejar recorrer apenas a esse espelho — algo menos recomendável.</p>

<p>O novo espelho está situado na Alemanha. Permanece importante a criação de mais espelhos, em especial no Brasil, como em outros locais. Quem tiver alguma infraestrutura e interesse de realizar isso, que não é nada complicado, pode entrar em <a href="https://daltux.net/" title="Veja página com meios de contactar o autor" rel="nofollow">contato</a> se precisar de mais detalhes. Basicamente, será a execução periódica de <a href="https://daltux.net/freesh/freesh-mirror.sh" title="Baixe, analise, adapte o script freesh-mirror.sh" rel="nofollow"><em>Shell script</em></a> para atualizar com <code>rsync</code> um diretório a ser servido por HTTP(s).</p>

<h3 id="exemplo">Exemplo</h3>

<p>Eis um exemplo de execução de atualização+limpeza de pacotes que demonstra a utilização de mais de um espelho automaticamente pelo <code>apt</code> ao baixar o <code>linux-libre</code> versão <code>6.17.2</code>:</p>

<pre><code class="language-shell">$ sudo sh -c &#39;apt update &amp;&amp; apt upgrade --verbose-versions &amp;&amp; apt autopurge &amp;&amp; apt clean &amp;&amp; echo &amp;&amp; df -h / &amp;&amp; echo &amp;&amp; uptime&#39;

[...]
Get:6 http://linux-libre.fsfla.org/pub/linux-libre/freesh/mirrors.txt Mirrorlist [171 B]
[...]
1 package can be upgraded. Run &#39;apt list --upgradable&#39; to see it.
[...]
Upgrading:
   linux-libre (6.17.1 =&gt; 6.17.2)

Installing dependencies:
   linux-image-6.17.2-gnu (6.17.2-gnu-1.0)

Summary:
  Upgrading: 1, Installing: 1, Removing: 0, Not Upgrading: 0
  Download size: 103 MB
  Space needed: 576 MB / [...] available
  └─ in /boot:  84.5 MB / [...] available

Continue? [Y/n]
Get:1 http://linux-libre.fsfla.org/pub/linux-libre/freesh/mirrors.txt Mirrorlist [171 B]
Get:3 https://daltux.net/freesh freesh/main amd64 linux-libre amd64 6.17.2 [780 B]
Get:2 https://mirror.cedia.org.ec/linux-libre/freesh freesh/main amd64 linux-image-6.17.2-gnu amd64 6.17.2-gnu-1.0 [103 MB]
Fetched 103 MB in 20s (5154 kB/s)
[...]
Setting up linux-libre (6.17.2) ...
[...]
</code></pre>

<h3 id="dica-adicional-nala">Dica adicional: nala</h3>

<p>Algo sobre o gerenciador de pacotes <code>apt</code> em geral: quando o mesmo pacote/versão está disponível em mais de uma origem configurada, ele já usa origens aleatórias para baixar cada pacote e pode passar a outra origem caso alguma apresente erro. Se desejar, mais do que isso, tentar usar paralelamente mais de um espelho definido para baixar o mesmo pacote, o programa <code>nala</code> consegue realizar isso. Vale a pena? Depende: cumulando essas condições com gargalos no lado do servidor, pode haver benefício. Senão, continue usando <code>apt</code> normalmente.</p>

<p>A dica mais importante é evitar repositórios que contenham <em>software</em> não livre.</p>

<p>#GNU #LinuxLibre #Linux #Debian #apt #SoftwareLivre</p>
]]></content:encoded>
      <author>daltux</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/zsnn0x3vwa</guid>
      <pubDate>Tue, 14 Oct 2025 15:43:34 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Vale brigar pelos conceitos - corrupção e soberania</title>
      <link>https://blog.ayom.media/john/vale-brigar-pelos-conceitos-corrupcao-e-soberania</link>
      <description>&lt;![CDATA[Um sintoma da dificuldade da esquerda em determinar a pauta do debate público é nossa incapacidade de engajar no debate sobre conceitos políticos fundamentais de forma não-reativa. Não conseguimos afirmar nossa compreensão e nossas propostas sobre temas políticos relevantes porque o impulso reativo de antagonizar a direita acaba se tornando o conteúdo da nossa posição política. Se eles são contra, eu sou a favor. Se eles são a favor, eu sou contra. Sem nuances possíveis.&#xA;&#xA;Um exemplo é o combate à corrupção e ao patrimonialismo na política brasileira. Essa foi uma bandeira histórica dos grupos que formaram as instituições político-partidárias da esquerda nacional. Era uma plataforma quase exclusiva de petistas e trabalhistas nos anos 90. Porém, quando o PT se tornou o gestor da máquina estatal, estruturada historicamente em torno da corrupção e do patrimonialismo, a direita instrumentalizou o discurso de moralidade na administração pública. E a resposta da esquerda, ao invés de qualificar a discussão sobre problemas estruturais da governança estatal brasileira, foi de desqualificar e reduzir a importância do combate à corrupção. O que é ainda mais surpreendente considerando os enormes avanços na institucionalização do controle interno e externo sobre as contas públicas durante os governos do PT. A narrativa e a ação pra mostrar existiam, mas na prática a bandeira da luta contra a corrupção foi cedida para a direita. &#xA;&#xA;Não entenda aqui uma defesa do centrismo ou de uma suposta moderação nas posições políticas. Pelo contrário, quebrar esse ciclo de reatividade, que rebaixa a esquerda ao pensamento binário da direita, demanda uma afirmação radical dos valores que definem e diferenciam a esquerda política. &#xA;&#xA;A recente vitória discursiva da esquerda com a bandeira da defesa da soberania nacional é um ótimo exemplo disso.  Foi possível auferir ganhos políticos e possivelmente eleitorais avançando uma leitura propriamente de esquerda do que significa nacionalismo, ou patriotismo. Para isso, foi preciso deslocar o centro dos conceitos do vazio performático que é a estética bolsonarista para a concretude de posicionamentos acerca da soberania geoeconômica nacional e a resistência a tentativas estrangeiras de interferência nos assuntos internos.&#xA;&#xA;O problema é que fomos praticamente empurrados à força para essa posição pelos erros táticos da direita. A questão da reatividade persiste, apesar da importantíssima vitória nessa batalha pelo significado dos conceitos. Mas os aprendizados dessa campanha podem ser aplicados em outras áreas, para avançar sobre consensos sociais até agora dominados pela direita. Um exemplo que me vem à mente é a pressão por uma reforma tributária que tenha por princípio a justiça tributária, não apenas defendendo o aumento de impostos para os ricos, mas o alívio da carga tributária sobre os pobres.&#xA;&#xA;Isso seria adequar o discurso às demandas e necessidades concretas da classe trabalhadora sem abandonar valores fundamentais. Um nó que a esquerda ainda precisa desfazer em outros temas também, como empreendedorismo, segurança pública, conservadorismo religioso, etc. E é importante fazer isso tomando a condução do debate, sem ir à reboque da direita, porque não dá pra confiar que eles vão sempre entregar a disputa conceitual de bandeja, como dessa vez.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Um sintoma da dificuldade da esquerda em determinar a pauta do debate público é nossa incapacidade de engajar no debate sobre conceitos políticos fundamentais de forma não-reativa. Não conseguimos afirmar nossa compreensão e nossas propostas sobre temas políticos relevantes porque o impulso reativo de antagonizar a direita acaba se tornando o conteúdo da nossa posição política. Se eles são contra, eu sou a favor. Se eles são a favor, eu sou contra. Sem nuances possíveis.</p>

<p>Um exemplo é o combate à corrupção e ao patrimonialismo na política brasileira. Essa foi uma bandeira histórica dos grupos que formaram as instituições político-partidárias da esquerda nacional. Era uma plataforma quase exclusiva de petistas e trabalhistas nos anos 90. Porém, quando o PT se tornou o gestor da máquina estatal, estruturada historicamente em torno da corrupção e do patrimonialismo, a direita instrumentalizou o discurso de moralidade na administração pública. E a resposta da esquerda, ao invés de qualificar a discussão sobre problemas estruturais da governança estatal brasileira, foi de desqualificar e reduzir a importância do combate à corrupção. O que é ainda mais surpreendente considerando os enormes avanços na institucionalização do controle interno e externo sobre as contas públicas durante os governos do PT. A narrativa e a ação pra mostrar existiam, mas na prática a bandeira da luta contra a corrupção foi cedida para a direita.</p>

<p>Não entenda aqui uma defesa do centrismo ou de uma suposta moderação nas posições políticas. Pelo contrário, quebrar esse ciclo de reatividade, que rebaixa a esquerda ao pensamento binário da direita, demanda uma afirmação radical dos valores que definem e diferenciam a esquerda política.</p>

<p>A recente vitória discursiva da esquerda com a bandeira da defesa da soberania nacional é um ótimo exemplo disso.  Foi possível auferir ganhos políticos e possivelmente eleitorais avançando uma leitura propriamente de esquerda do que significa nacionalismo, ou patriotismo. Para isso, foi preciso deslocar o centro dos conceitos do vazio performático que é a estética bolsonarista para a concretude de posicionamentos acerca da soberania geoeconômica nacional e a resistência a tentativas estrangeiras de interferência nos assuntos internos.</p>

<p>O problema é que fomos praticamente empurrados à força para essa posição pelos erros táticos da direita. A questão da reatividade persiste, apesar da importantíssima vitória nessa batalha pelo significado dos conceitos. Mas os aprendizados dessa campanha podem ser aplicados em outras áreas, para avançar sobre consensos sociais até agora dominados pela direita. Um exemplo que me vem à mente é a pressão por uma reforma tributária que tenha por princípio a justiça tributária, não apenas defendendo o aumento de impostos para os ricos, mas o alívio da carga tributária sobre os pobres.</p>

<p>Isso seria adequar o discurso às demandas e necessidades concretas da classe trabalhadora sem abandonar valores fundamentais. Um nó que a esquerda ainda precisa desfazer em outros temas também, como empreendedorismo, segurança pública, conservadorismo religioso, etc. E é importante fazer isso tomando a condução do debate, sem ir à reboque da direita, porque não dá pra confiar que eles vão sempre entregar a disputa conceitual de bandeja, como dessa vez.</p>
]]></content:encoded>
      <author>john</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/ng8tpz1fcq</guid>
      <pubDate>Sun, 21 Sep 2025 16:30:04 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>A solidão de um músico diferentão</title>
      <link>https://blog.ayom.media/felipe-siles/a-solidao-de-um-musico-diferentao</link>
      <description>&lt;![CDATA[Nem todo mundo sabe, falo sobre tantos assuntos diversos aqui neste blogue, mas sou músico profissional, é minha atividade profissional principal. Toco acordeon, piano, leciono diversas disciplinas em um conservatório de música. Como criei este blogue para falar livremente de diversos assuntos, acabo fugindo um pouco da minha especialidade, sobre a qual costumo produzir academicamente. Mas me deu vontade de falar sobre esse tema de uma maneira mais leve e emocionada, orientado mais pelos afetos do que pelas regras da ABNT.&#xA;&#xA;Ao longo da vida eu sempre tive, na perspectiva do profissional da música, um certo incômodo que de uns anos para cá eu consegui organizar e colocar nome. Gosto muito da ideia que aparece nos Contos de Terramar da Úrsula K. Le Guin: saber o nome das coisas ou das pessoas te dá poder sobre elas. Entrei em contato, durante o meu mestrado em Etnomusicologia, em uma disciplina da Antropologia, com o etnomusicólogo Thomás Turino, que divide as funções da música, principalmente entre música apresentacional e participativa. Embora a fronteira entre as duas possa ser uma nuvem cinzenta em vários casos e existam muitas críticas sérias e bem embasadas contra essa classificação, gosto de pensar, baixando a guarda da problematização, que existe música para ser ouvida, apreciada, e música para participar com o corpo, com palmas, cantando, dançando ou até tocando instrumentos musicais e interferindo na performance.&#xA;&#xA;Sempre me achei diferentão de praticamente todos os meus amigos músicos e me sinto um peixe fora d&#39;água em quase todas as disciplinas, congressos e espaços acadêmicos, a não ser por aqueles perfeitamente alinhados à minha temática de pesquisa, que é a música negra. E sempre foi nas disciplinas de Antropologia que pra mim as coisas faziam sentido, me sentia abraçado, confortável, entre pessoas que pareciam comigo, mesmo quando eram muito diferentes. &#xA;&#xA;Acho que nem todo mundo sabe como pensa e se comporta um músico profissional médio (principalmente os letrados na partitura), e acredito que as pessoas ficariam chocadas se soubessem. Lógico que existem diversos perfis, essa é uma profissão muito diversa, mas eu percebo que muitos músicos são extremamente vaidosos, e gostam de exibir a sua técnica, e também gostam de ouvir outros músicos que são vaidosos. Dentro da lógica neoliberal, são consumidores, dos streamings e redes antissociais de seus músicos referência e principalmente de adquirir inúmeros equipamentos e instrumentos caros, sempre com a desculpa que é ferramenta de trabalho, que é pela fruição estética, mas sabemos que no fundo é pela vaidade mesmo (e/ou também pela reserva de mercado, já que o equipamento melhor hipoteticamente aumenta a chance de ter gigs).&#xA;&#xA;Me esforço bastante para não ser uma pessoa moralista, porque acho que o moralismo é uma armadilha que as pessoas de esquerda e progressistas caíram nos últimos tempos, e é um buraco bem difícil de sair. Não tenho nada contra a vaidade, para ser sincero, acho que a vaidade faz parte da vida e da arte. Nem todo artista é vaidoso, mas acredito que a vaidade sempre está ali em algum nível, de alguma forma. Se você faz algo para alguém te ouvir ou te ler, acho que algum nível de vaidade há ali, e sendo esse nível saudável e não fazendo mal para ninguém, não vejo problema nenhum nisso. O problema é que existem vaidades que são danosas para a própria pessoa e seu entorno, longe de mim cagar regra, mas já cagando um pouco, tá cheio de músico rebolando pra pagar sua fatura do banco roxo porque parcelou aquela caixa de som de 30 mil reais. Eu sempre me contentei com instrumentos e equipamentos que suprem as minhas demandas profissionais, nesse ponto também sou bem diferentão.&#xA;&#xA;Mas o que eu queria falar mesmo é sobre a música participativa do Thomas Turino, embora essa digressão foi importante para dar mais contexto a vocês. Sempre me incomodou o palco que hierarquiza, a ideia de ídolo e fãs, e a relação do ouvinte pela música que passa quase que só pelo consumo, embora isso seja meio complexo de afirmar desse jeito. Pra mim foi bem libertador descobrir que existem DJs e bandas punk que se recusam a tocar em palcos, que tocam no mesmo nível do público, isso é fantástico e mudou muito os meus parâmetros do que é qualidade musical, se é que existe alguma.&#xA;&#xA;No senso comum do músico médio (pelo menos do músico letrado na teoria musical), a qualidade musical é medida (ou pelo menos tentada) pela complexidade e sofisticação da elaboração dos próprios elementos musicais, não só a letra, como pensa o grande público. A melodia tem que ser boa, a harmonia com acordes interessantes e surpreendentes, o ritmo dançante e envolvente, tudo isso faz parte do que é chamado de qualidade musical. Muita gente acha que alta cultura tem a ver apenas com escolhas estéticas da classe dominante, e essas pessoas não estão totalmente erradas. É que esse quadro é mais complexo, e muitas vezes essa chamada alta cultura de fato produz sofisticação estética, difícil de ser medida e mesurada pelo músico, talvez impossível pelo público comum.&#xA;&#xA;Essas ideias com que entrei em contato foram transformando o que eu entendia por qualidade musical. E mais ou menos nessa época, quando eu fazia mestrado, em 2018, tinha acabado de gravar o disco Paulibucano do sambista Toinho Melodia. Só para explicar como que um pianista e sanfoneiro foi parar num grupo de samba, do qual orgulhosamente integro até hoje, 20 de agosto de 2025. Sempre fui bastante envolvido com o choro e, justamente, gostava do gênero por sua qualidade de música participativa, sempre achei fascinante a ideia de uma roda de choro onde um músico pode chegar no meio, sacar o seu bandolim ou flauta ou clarinete ou instrumento que for, e puxar um choro do seu repertório, interferindo na performance, emprestando a ela uma fluidez e imprevisibilidade muito interessantes. Mas eu descobri que no samba isso é elevado a milésima potência. Sou grato ao choro, por ter sido meu caminho para chegar no samba, mas hoje eu digo que o gênero musical que eu mais ouço, toco e sou apaixonado é o samba!&#xA;&#xA;Toinho Melodia, que infelizmente já subiu, pra mim foi um grande mestre intelectual. Descobri que o samba não é só música, é a própria vida. O Toinho compunha sambas o tempo inteiro, no ônibus, no metrô, nas ruas de São Paulo, na hora do nosso café, intervalos dos ensaios. Nossas rodas de samba sempre foram rodeadas de histórias deliciosas e divertidas sobre as quais quero escrever neste blogue em algum momento. Se tem muito músico que gosta de acorde, de melodia, de nota, eu gosto de lembrar, relembrar, contar e recontar essas deliciosas histórias que o samba me proporcionou. E não é que o samba seja simples, o samba possui sim essa complexidade e alta elaboração estética. E mais ainda, o bônus que é esse fator da integração social.&#xA;&#xA;E eu fui, aos poucos, sem correria e só na malemolência (como diz outro samba do nosso mestre) sacando que qualidade musical é isso também. O Toinho Melodia não gostava de falar sobre isso, mas chegou a ter um momento ruim na vida, virou até morador de rua. Quando foi reconhecido por Toniquinho Batuqueiro, um sambista que era uma de suas referências, sua vida começou a virar, venceu o câncer, conheceu uma rapaziada que abraçou sua obra, gravou seu primeiro disco autoral, viajou em turnê para sua terra natal, Recife, continuou fazendo o que sempre amou até o final da vida que é compor e cantar, e participar de rodas de samba, até onde foi possível. Ou seja, foi o samba que manteve digno e humano o Toinho, mesmo nos piores momentos. Me diz, se isso não é qualidade musical, muito mais que um acorde enfeitado com tensões e dissonâncias.&#xA;&#xA;Mas enfim, nem todo músico pensa dessa forma, observo que a maioria pensa diferente. Não julgo, nem condeno, acho que tive um pouco de sorte também, de ter uma vivência maravilhosa como essa. Fico pensando naquela clássica frase de mãe: você não é todo mundo, se todo mundo se jogar de um precipício, você se joga também? Talvez esse texto tenha um pouco de soberba, empáfia, superioridade moral e vaidade, afinal só se diferencia do outros pra dar destaque a si mesmo. Mas, na verdade, ser tão diferente tem um aspecto que é meio triste em alguns momentos, que é a solidão e a incompreensão, sentimentos que me acompanham em diversos momentos: às vezes na minha rotina dando aula no conservatório (embora a maioria dos colegas já começou a entender a minha brisa, precisa paciência da minha parte também), nos congressos, disciplinas, concursos, etc. Não dá pra esperar que todo mundo entenda rápido a brisa de um pianista e sanfoneiro que gosta mesmo é de tocar samba.&#xA;&#xA;Para não terminar para baixo, vou fazer um contraponto, eu sinto que tenho conseguido transmitir cada vez melhor essa minha visão da música, e isso tem a ver com dominar as palavras, voltando na Úrsula K. Le Guin, minha autora preferida de ficção, tem a ver com estudar, e me comunicar melhor, tem a ver com o doutorado, mas tem a ver também com Exu. É um movimento lento, pequeno, mas eu sinto que tem rolado, e diante dessas perspectivas diferentonas eu sinto, modéstia a parte, que acabei virando referência e descobrindo novas referências em alguns outros &#34;solitários&#34; ou peixes fora da água, como eu. E são essas ligações que me mantém motivado, alegre, criativo, otimista, vivo, como o samba manteve Toinho Melodia em seus piores momentos. &#xA;&#xA;Gostaria muito de, antes de terminar esse texto, agradecer aos meus companheiros de Conjunto Picafumo e agregados, por serem meus parceiros nessa jornada: Rodolfo Gomes, André Santos, Matheus Oliveira, Verônica Borges, Laura Santos, Angela Coltri, Paulinho Timor, Merilyn Esposi, Kathleen Hoepers, Alfredo Castro e tantos outros. Gostaria de agradecer também os companheiros de outras rodas de samba, com quem tanto aprendi: Selito, Rafael Galante, Lobo, Ricardo Perito, Maurício Pazz, Lucas Brogiolo, Alysson Bruno, Rodolfo Stocco, Renato Pereira, Deni Domenico, Railídia, Paulo Godoy, Koka Pereira, Hélio Guadalupe, Roberta Oliveira, Leo La Selva, e tantos outros com quem fatalmente cometi a injustiça de esquecer de citar. É rememorar as histórias que vivi com vocês, e reouvir o nosso querido Paulibucano que vai me dando forças nos momentos de solidão. Obrigado, amo vocês!&#xA;&#xA;Vou encerrar o texto citando a letra de &#34;Vida de sambista&#34; (Kiko Toledo, Ney Nunes e Toinho Melodia), que integra nosso álbum Paulibucano:&#xA;&#xA;Não adiantou abdicar do samba&#xA;o samba morava em seu coração&#xA;ganhou dos seus o dom de sambar&#xA;e do soberano a inspiração&#xA;&#xA;Pra compor, pra sambar&#xA;Na sutileza dos versos sonhar (2x)&#xA;&#xA;A vida do sambista é o ano inteiro&#xA;Vai além da ilusão de fevereiro&#xA;No morro no asfalto, favela, planalto&#xA;Jamais se intimida, não foge da briga&#xA;&#xA;Sambista não manda recado&#xA;E faz de qualquer desacato uma rima&#xA;O tempo é um santo remédio que ensina (2x)]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Nem todo mundo sabe, falo sobre tantos assuntos diversos aqui neste blogue, mas sou músico profissional, é minha atividade profissional principal. Toco acordeon, piano, leciono diversas disciplinas em um conservatório de música. Como criei este blogue para falar livremente de diversos assuntos, acabo fugindo um pouco da minha especialidade, sobre a qual costumo produzir academicamente. Mas me deu vontade de falar sobre esse tema de uma maneira mais leve e emocionada, orientado mais pelos afetos do que pelas regras da ABNT.</p>

<p>Ao longo da vida eu sempre tive, na perspectiva do profissional da música, um certo incômodo que de uns anos para cá eu consegui organizar e colocar nome. Gosto muito da ideia que aparece nos Contos de Terramar da Úrsula K. Le Guin: saber o nome das coisas ou das pessoas te dá poder sobre elas. Entrei em contato, durante o meu mestrado em Etnomusicologia, em uma disciplina da Antropologia, com o etnomusicólogo Thomás Turino, que divide as funções da música, principalmente entre música apresentacional e participativa. Embora a fronteira entre as duas possa ser uma nuvem cinzenta em vários casos e existam muitas críticas sérias e bem embasadas contra essa classificação, gosto de pensar, baixando a guarda da problematização, que existe música para ser ouvida, apreciada, e música para participar com o corpo, com palmas, cantando, dançando ou até tocando instrumentos musicais e interferindo na performance.</p>

<p>Sempre me achei diferentão de praticamente todos os meus amigos músicos e me sinto um peixe fora d&#39;água em quase todas as disciplinas, congressos e espaços acadêmicos, a não ser por aqueles perfeitamente alinhados à minha temática de pesquisa, que é a música negra. E sempre foi nas disciplinas de Antropologia que pra mim as coisas faziam sentido, me sentia abraçado, confortável, entre pessoas que pareciam comigo, mesmo quando eram muito diferentes.</p>

<p>Acho que nem todo mundo sabe como pensa e se comporta um músico profissional médio (principalmente os letrados na partitura), e acredito que as pessoas ficariam chocadas se soubessem. Lógico que existem diversos perfis, essa é uma profissão muito diversa, mas eu percebo que muitos músicos são extremamente vaidosos, e gostam de exibir a sua técnica, e também gostam de ouvir outros músicos que são vaidosos. Dentro da lógica neoliberal, são consumidores, dos streamings e redes antissociais de seus músicos referência e principalmente de adquirir inúmeros equipamentos e instrumentos caros, sempre com a desculpa que é ferramenta de trabalho, que é pela fruição estética, mas sabemos que no fundo é pela vaidade mesmo (e/ou também pela reserva de mercado, já que o equipamento melhor hipoteticamente aumenta a chance de ter gigs).</p>

<p>Me esforço bastante para não ser uma pessoa moralista, porque acho que o moralismo é uma armadilha que as pessoas de esquerda e progressistas caíram nos últimos tempos, e é um buraco bem difícil de sair. Não tenho nada contra a vaidade, para ser sincero, acho que a vaidade faz parte da vida e da arte. Nem todo artista é vaidoso, mas acredito que a vaidade sempre está ali em algum nível, de alguma forma. Se você faz algo para alguém te ouvir ou te ler, acho que algum nível de vaidade há ali, e sendo esse nível saudável e não fazendo mal para ninguém, não vejo problema nenhum nisso. O problema é que existem vaidades que são danosas para a própria pessoa e seu entorno, longe de mim cagar regra, mas já cagando um pouco, tá cheio de músico rebolando pra pagar sua fatura do banco roxo porque parcelou aquela caixa de som de 30 mil reais. Eu sempre me contentei com instrumentos e equipamentos que suprem as minhas demandas profissionais, nesse ponto também sou bem diferentão.</p>

<p>Mas o que eu queria falar mesmo é sobre a música participativa do Thomas Turino, embora essa digressão foi importante para dar mais contexto a vocês. Sempre me incomodou o palco que hierarquiza, a ideia de ídolo e fãs, e a relação do ouvinte pela música que passa quase que só pelo consumo, embora isso seja meio complexo de afirmar desse jeito. Pra mim foi bem libertador descobrir que existem DJs e bandas punk que se recusam a tocar em palcos, que tocam no mesmo nível do público, isso é fantástico e mudou muito os meus parâmetros do que é qualidade musical, se é que existe alguma.</p>

<p>No senso comum do músico médio (pelo menos do músico letrado na teoria musical), a qualidade musical é medida (ou pelo menos tentada) pela complexidade e sofisticação da elaboração dos próprios elementos musicais, não só a letra, como pensa o grande público. A melodia tem que ser boa, a harmonia com acordes interessantes e surpreendentes, o ritmo dançante e envolvente, tudo isso faz parte do que é chamado de qualidade musical. Muita gente acha que alta cultura tem a ver apenas com escolhas estéticas da classe dominante, e essas pessoas não estão totalmente erradas. É que esse quadro é mais complexo, e muitas vezes essa chamada alta cultura de fato produz sofisticação estética, difícil de ser medida e mesurada pelo músico, talvez impossível pelo público comum.</p>

<p>Essas ideias com que entrei em contato foram transformando o que eu entendia por qualidade musical. E mais ou menos nessa época, quando eu fazia mestrado, em 2018, tinha acabado de gravar o disco Paulibucano do sambista Toinho Melodia. Só para explicar como que um pianista e sanfoneiro foi parar num grupo de samba, do qual orgulhosamente integro até hoje, 20 de agosto de 2025. Sempre fui bastante envolvido com o choro e, justamente, gostava do gênero por sua qualidade de música participativa, sempre achei fascinante a ideia de uma roda de choro onde um músico pode chegar no meio, sacar o seu bandolim ou flauta ou clarinete ou instrumento que for, e puxar um choro do seu repertório, interferindo na performance, emprestando a ela uma fluidez e imprevisibilidade muito interessantes. Mas eu descobri que no samba isso é elevado a milésima potência. Sou grato ao choro, por ter sido meu caminho para chegar no samba, mas hoje eu digo que <strong>o gênero musical que eu mais ouço, toco e sou apaixonado é o samba!</strong></p>

<p>Toinho Melodia, que infelizmente já subiu, pra mim foi um grande mestre intelectual. Descobri que o samba não é só música, é a própria vida. O Toinho compunha sambas o tempo inteiro, no ônibus, no metrô, nas ruas de São Paulo, na hora do nosso café, intervalos dos ensaios. Nossas rodas de samba sempre foram rodeadas de histórias deliciosas e divertidas sobre as quais quero escrever neste blogue em algum momento. Se tem muito músico que gosta de acorde, de melodia, de nota, eu gosto de lembrar, relembrar, contar e recontar essas deliciosas histórias que o samba me proporcionou. E não é que o samba seja simples, o samba possui sim essa complexidade e alta elaboração estética. E mais ainda, o bônus que é esse fator da integração social.</p>

<p>E eu fui, aos poucos, sem correria e só na malemolência (como diz outro samba do nosso mestre) sacando que qualidade musical é isso também. O Toinho Melodia não gostava de falar sobre isso, mas chegou a ter um momento ruim na vida, virou até morador de rua. Quando foi reconhecido por Toniquinho Batuqueiro, um sambista que era uma de suas referências, sua vida começou a virar, venceu o câncer, conheceu uma rapaziada que abraçou sua obra, gravou seu primeiro disco autoral, viajou em turnê para sua terra natal, Recife, continuou fazendo o que sempre amou até o final da vida que é compor e cantar, e participar de rodas de samba, até onde foi possível. Ou seja, foi o samba que manteve digno e humano o Toinho, mesmo nos piores momentos. Me diz, se isso não é qualidade musical, muito mais que um acorde enfeitado com tensões e dissonâncias.</p>

<p>Mas enfim, nem todo músico pensa dessa forma, observo que a maioria pensa diferente. Não julgo, nem condeno, acho que tive um pouco de sorte também, de ter uma vivência maravilhosa como essa. Fico pensando naquela clássica frase de mãe: você não é todo mundo, se todo mundo se jogar de um precipício, você se joga também? Talvez esse texto tenha um pouco de soberba, empáfia, superioridade moral e vaidade, afinal só se diferencia do outros pra dar destaque a si mesmo. Mas, na verdade, ser tão diferente tem um aspecto que é meio triste em alguns momentos, que é a solidão e a incompreensão, sentimentos que me acompanham em diversos momentos: às vezes na minha rotina dando aula no conservatório (embora a maioria dos colegas já começou a entender a minha brisa, precisa paciência da minha parte também), nos congressos, disciplinas, concursos, etc. Não dá pra esperar que todo mundo entenda rápido a brisa de um pianista e sanfoneiro que gosta mesmo é de tocar samba.</p>

<p>Para não terminar para baixo, vou fazer um contraponto, eu sinto que tenho conseguido transmitir cada vez melhor essa minha visão da música, e isso tem a ver com dominar as palavras, voltando na Úrsula K. Le Guin, minha autora preferida de ficção, tem a ver com estudar, e me comunicar melhor, tem a ver com o doutorado, mas tem a ver também com Exu. É um movimento lento, pequeno, mas eu sinto que tem rolado, e diante dessas perspectivas diferentonas eu sinto, modéstia a parte, que acabei virando referência e descobrindo novas referências em alguns outros “solitários” ou peixes fora da água, como eu. E são essas ligações que me mantém motivado, alegre, criativo, otimista, vivo, como o samba manteve Toinho Melodia em seus piores momentos.</p>

<p>Gostaria muito de, antes de terminar esse texto, agradecer aos meus companheiros de Conjunto Picafumo e agregados, por serem meus parceiros nessa jornada: Rodolfo Gomes, André Santos, Matheus Oliveira, Verônica Borges, Laura Santos, Angela Coltri, Paulinho Timor, Merilyn Esposi, Kathleen Hoepers, Alfredo Castro e tantos outros. Gostaria de agradecer também os companheiros de outras rodas de samba, com quem tanto aprendi: Selito, Rafael Galante, Lobo, Ricardo Perito, Maurício Pazz, Lucas Brogiolo, Alysson Bruno, Rodolfo Stocco, Renato Pereira, Deni Domenico, Railídia, Paulo Godoy, Koka Pereira, Hélio Guadalupe, Roberta Oliveira, Leo La Selva, e tantos outros com quem fatalmente cometi a injustiça de esquecer de citar. É rememorar as histórias que vivi com vocês, e reouvir o nosso querido Paulibucano que vai me dando forças nos momentos de solidão. Obrigado, amo vocês!</p>

<p>Vou encerrar o texto citando a letra de “Vida de sambista” (Kiko Toledo, Ney Nunes e Toinho Melodia), que integra nosso álbum Paulibucano:</p>

<p>Não adiantou abdicar do samba
o samba morava em seu coração
ganhou dos seus o dom de sambar
e do soberano a inspiração</p>

<p>Pra compor, pra sambar
Na sutileza dos versos sonhar (2x)</p>

<p>A vida do sambista é o ano inteiro
Vai além da ilusão de fevereiro
No morro no asfalto, favela, planalto
Jamais se intimida, não foge da briga</p>

<p>Sambista não manda recado
E faz de qualquer desacato uma rima
O tempo é um santo remédio que ensina (2x)</p>
]]></content:encoded>
      <author>felipe siles</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/5xa4kff7ca</guid>
      <pubDate>Thu, 21 Aug 2025 01:24:57 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>O Linux é para ser instalado a cada nova versão? Será que não? 🐧🆙💭</title>
      <link>https://blog.ayom.media/daltux/o-linux-e-para-ser-instalado-a-cada-nova-versao</link>
      <description>&lt;![CDATA[Para quem se pergunta se é preciso reinstalar Linux a cada nova versão lançada, a resposta, francamente, é sim! E isso é muito mais frequente do que o establishment faz com que você acredite. Ainda que resumida, o que segue é uma explicação técnica, mas vá diretamente ao fim se preferir.&#xA;&#xA;!--more--A cada nova versão disponibilizada nos repositórios configurados em sua máquina, você tem alguma alternativa para atualizar o Linux a não ser por sua instalação? Negativo. Seu gerenciador de pacotes instala o novo Linux e normalmente desinstala os anteriores, exceto um que ficará de salvaguarda. Quando reiniciar a máquina, portanto, um Linux novo será executado. Em Debian e derivados, isso é definido pelo metapacote linux-image-amd64, o mais comum, cuja descrição é:&#xA;&#xA;Linux for 64-bit PCs (meta-package)&#xA;&#xA;No momento desta redação, sua dependência concreta é o pacote linux-image-6.12.38+deb13-amd64 (= 6.12.38-1). Quando for lançada uma versão posterior de Linux no repositório, por alteração da dependência do meta-pacote citado, um novo pacote concreto do Linux será sugerido pelo gerenciador de pacotes. A não ser continuar com o Linux antigo (ou remendá-lo durante a execução em alguns casos excepcionais), não há outra operação que pode ser feita sobre isso: você vai instalar o Linux novo.&#xA;&#xA;Sim: como visto, Linux é um entre centenas de componentes necessários para operar sua máquina da forma projetada, em um conjunto reunido por distribuidores do que costuma ser o GNU, com o kernel Linux.&#xA;&#xA;Um fenômeno que ocorre há tempos é denominado sinédoque, um tipo específico de metonímia. Isso causa estranhamento por quem defende que, em vez do nome de parte, as pessoas poderiam lembrar de chamar o todo pelo seu nome próprio: GNU. Para, mesmo assim, mencionar o kernel: GNU/Linux.&#xA;&#xA;a href=&#34;https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e1/Debian13%22Trixie%22GNU%2BLinux.png&#34; title=&#34;Captura de tela do terminal com dados sobre Linux, o kernel.&#34;img src=&#34;https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e1/Debian13%22Trixie%22GNU%2BLinux.png&#34; alt=&#34;Captura de tela de terminal Xfce com saídas de comandos uname-a, lsb_release -a, apt policy e apt show sobre pacotes linux-image-amd64&#34; width=&#34;100%&#34;/a&#xA;&#xA;#Linux #GNU #GNUlinux #Debian #Debian13 #Trixie]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Para quem se pergunta se é preciso reinstalar <a href="https://foldoc.org/linux" title="Linux e o sistema GNU" rel="nofollow">Linux</a> a cada nova versão lançada, a resposta, francamente, é <strong>sim!</strong> E isso é muito mais frequente do que o <em>establishment</em> faz com que você acredite. Ainda que resumida, o que segue é uma explicação técnica, mas vá diretamente ao fim se preferir.</p>

<p>A cada nova versão disponibilizada nos repositórios configurados em sua máquina, você tem alguma alternativa para atualizar o <strong>Linux</strong> a não ser por sua instalação? Negativo. Seu gerenciador de pacotes instala o novo Linux e normalmente desinstala os anteriores, exceto um que ficará de salvaguarda. Quando reiniciar a máquina, portanto, um Linux novo será executado. Em Debian e derivados, isso é definido pelo <a href="https://packages.debian.org/trixie/linux-image-amd64" rel="nofollow">metapacote <code>linux-image-amd64</code></a>, o mais comum, cuja descrição é:</p>

<pre><code>Linux for 64-bit PCs (meta-package)
</code></pre>

<p>No momento desta redação, sua dependência concreta é o pacote <a href="https://packages.debian.org/trixie/linux-image-6.12.38+deb13-amd64" rel="nofollow"><code>linux-image-6.12.38+deb13-amd64 (= 6.12.38-1)</code></a>. Quando for lançada uma versão posterior de Linux no repositório, por alteração da dependência do meta-pacote citado, um novo pacote concreto do Linux será sugerido pelo gerenciador de pacotes. A não ser continuar com o Linux antigo (ou <a href="https://www.kernel.org/doc/html/latest/livepatch/livepatch.html" rel="nofollow">remendá-lo</a> durante a execução em alguns casos excepcionais), não há outra operação que pode ser feita sobre isso: você <strong>vai instalar o Linux novo</strong>.</p>

<p>Sim: como visto, Linux é um entre centenas de componentes necessários para operar sua máquina da forma projetada, em um conjunto reunido por distribuidores do que costuma ser o <a href="https://www.gnu.org/gnu/linux-and-gnu.pt-br.html" rel="nofollow"><strong>GNU</strong>, com o <em>kernel</em> Linux</a>.</p>

<p>Um fenômeno que ocorre há tempos é denominado <a href="https://aulete.com.br/sin%C3%A9doque" rel="nofollow"><strong>sinédoque</strong></a>, um tipo específico de <a href="https://aulete.com.br/meton%C3%ADmia" rel="nofollow">metonímia</a>. Isso causa estranhamento por quem defende que, em vez do nome de parte, as pessoas poderiam lembrar de chamar o todo pelo seu nome próprio: <a href="https://www.gnu.org/gnu/gnu-history.pt-br.html" rel="nofollow">GNU</a>. Para, mesmo assim, mencionar o <em>kernel</em>: <a href="https://www.gnu.org/gnu/gnu-linux-faq.html" rel="nofollow">GNU/Linux</a>.</p>

<p><a href="https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e1/Debian_13_%22Trixie%22_GNU%2BLinux.png" title="Captura de tela do terminal com dados sobre Linux, o kernel." rel="nofollow"><img src="https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e1/Debian_13_%22Trixie%22_GNU%2BLinux.png" alt="Captura de tela de terminal Xfce com saídas de comandos uname-a, lsb_release -a, apt policy e apt show sobre pacotes linux-image-amd64" width="100%"></a></p>

<p>#Linux #GNU #GNUlinux #Debian #Debian13 #Trixie</p>
]]></content:encoded>
      <author>daltux</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/fw0sbz1b9b</guid>
      <pubDate>Sun, 10 Aug 2025 07:45:01 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Persistência linguística</title>
      <link>https://blog.ayom.media/daltux/persistencia-linguistica</link>
      <description>&lt;![CDATA[Pelo Mastodon, Alda Vigdís suplica para que as pessoas parem de traduzir código postal para inglês como &#34;Zip Code&#34;, termo específico dos EUA, enquanto o mais adequado mundialmente seria &#34;postal code&#34;. A sensação que Alda sofre deve ser similar à de ativistas do software livre ao verem tanta menção a &#34;Linux&#34; ignorando o GNU em contextos nos quais este poderia ou deveria ser citado.&#xA;&#xA;!--more--Quando alguém, senão por desconhecimento, chama tudo de &#34;Linux&#34; e ainda desdenha ativistas do software livre que solicitam o mesmo espaço para o GNU, acaba desacreditando décadas de luta pelas liberdades tecnológicas de todas as pessoas, algo muito mais holístico do que &#34;open source&#34; (código aberto), assim como GNU é mais abrangente do que Linux.&#xA;&#xA;Descubra por que &#34;código aberto&#34; foge do &#34;software livre&#34;: conheça as diferenças em fundamentos e objetivos.&#xA;&#xA;Sim, ativistas insistem não somente em corrigir termos, mas em promover software livre em cada oportunidade de afastar as pessoas do software privativo, instrumento de poder injusto. Na era da informação, tudo está conectado: desde TRApps de academia até as políticas públicas. Quando aceitamos a história reescrita e dominada pelo mercado para vender &#34;código aberto&#34; como mero modo de produção, afastando-se dos ideais da liberdade de software, normalizamos um mundo onde somos meros consumidores passivos.&#xA;&#xA;Veja quem são usuários do GNU que nunca ouviram falar de GNU.&#xA;&#xA;Cada escolha é um ato político: garantir que a tecnologia sirva às pessoas, não o contrário. Se apagarmos nossa história, perderemos a capacidade de exigir ferramentas que respeitem nossa autonomia. O abismo não é inevitável — mas construímos pontes com ações concretas, não com silêncio. Solidariedade a Alda.&#xA;&#xA;💙 #SoftwareLivre #TecnologiaÉPolítica #tecnopolítica #GNU #GNUlinux #FreeSoftware]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Pelo Mastodon, <a href="https://topspicy.social/@alda/114992328428291811" title="Publicação de Alda Vigdís no Mastodon" rel="nofollow">Alda Vigdís suplica</a> para que as pessoas parem de traduzir <strong>código postal</strong> para inglês como “<strong><em>Zip Code</em></strong>”, termo específico dos EUA, enquanto o mais adequado mundialmente seria “<strong><em>postal code</em></strong>”. A sensação que Alda sofre deve ser similar à de ativistas do <em>software</em> livre ao verem tanta menção a “<a href="https://www.gnu.org/gnu/linux-and-gnu.html" title="Linux e GNU" rel="nofollow">Linux</a>” ignorando o <a href="https://www.gnu.org/gnu/gnu-history.pt-br.html" title="Visão geral do sistema GNU" rel="nofollow"><strong>GNU</strong></a> em contextos nos quais este poderia ou deveria ser citado.</p>

<p>Quando alguém, senão por desconhecimento, chama tudo de “Linux” e ainda desdenha ativistas do <a href="https://www.gnu.org/philosophy/free-sw.pt-br.html" title="O que é software livre" rel="nofollow"><em>software</em> livre</a> que solicitam o mesmo espaço para o GNU, acaba desacreditando décadas de luta pelas liberdades tecnológicas de todas as pessoas, algo muito mais holístico do que “<em>open source</em>” (código aberto), assim como GNU é mais abrangente do que Linux.</p>
<ul><li>Descubra <a href="https://www.gnu.org/philosophy/open-source-misses-the-point.pt-br.html" rel="nofollow">por que “código aberto” foge do “<em>software</em> livre”: conheça as diferenças em fundamentos e objetivos</a>.</li></ul>

<p>Sim, ativistas insistem não somente em corrigir termos, mas em promover <em>software</em> livre em cada oportunidade de afastar as pessoas do <a href="https://www.gnu.org/proprietary/proprietary.pt-br.html" title="Software privativo ou não livre, significa o que não respeita a comunidade e a liberdade do usuário. Um programa privativo coloca seu desenvolvedor ou dono em uma posição de poder sobre seus usuários. Esse poder é, por si só, uma injustiça." rel="nofollow"><em>software</em> privativo</a>, instrumento de poder injusto. Na era da informação, tudo está conectado: desde <a href="https://www.fsfla.org/ikiwiki/texto/TRApps.pt.html" title="A armadilha dos TRApps - Alexandre Oliva/FSFLA" rel="nofollow">TR<em>Apps</em></a> de academia até as políticas públicas. Quando aceitamos a história reescrita e dominada pelo mercado para vender “código aberto” como mero modo de produção, afastando-se dos ideais da liberdade de <em>software</em>, normalizamos um mundo onde somos meros consumidores passivos.</p>
<ul><li>Veja quem são <a href="https://www.gnu.org/gnu/gnu-users-never-heard-of-gnu.pt-br.html" rel="nofollow">usuários do GNU que nunca ouviram falar de GNU</a>.</li></ul>

<p>Cada escolha é um ato político: garantir que a tecnologia sirva às pessoas, não o contrário. Se apagarmos nossa história, perderemos a capacidade de exigir ferramentas que respeitem nossa autonomia. O abismo não é inevitável — mas construímos pontes com ações concretas, não com silêncio. Solidariedade a Alda.</p>

<p>💙 #SoftwareLivre #TecnologiaÉPolítica #tecnopolítica #GNU #GNUlinux #FreeSoftware</p>
]]></content:encoded>
      <author>daltux</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/9rznliokb2</guid>
      <pubDate>Fri, 08 Aug 2025 22:41:13 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Amo animais</title>
      <link>https://blog.ayom.media/niidea/amo-animais</link>
      <description>&lt;![CDATA[Amo animais&#xA;&#xA;Negocio curioso que descobri vendo uma quantidade pouco saudável de perfis do bumble é o seguinte:&#xA;&#xA;Nenhuma das pessoas que diz amar animais é vegana.&#xA;&#xA;Veganos ou mesmo vegetarianos quase não aparecem, mas quando aparecem, nunca dizem amar animais.&#xA;&#xA;Doidera né? Ou não. Pelo menos a parte dos veganos. Não são pessoas movidas por amor, o buraco é bem mais embaixo. Não sou vegana mas muitas pessoas conhecidas sim e fui a feiras eventos cursos e nunca, jamais, ouvi nada sobre amor. Nunquinha. Tem ideologia sim, mas de uma forma muito mais... pragmática? Não sei. De qualquer forma eu gosto. Toda militancia baseada em amor me parece rasa, como o tal &#34;love is love&#34; que e a coisa mais higienizada que vi.&#xA;&#xA;E eu gosto de amar, hein? Para caralho. Eu tenho o cantico de salomao versiculo 8:7 tatuado no peito. &#xA;&#xA;....&#xA;&#xA;Os perfis de bumble que amam animais? Cachorro. Eles amam cachorro. Às vezes gatos. Com uma frequencia alarmante cavalos. Que eles montam. O que é simplesmente tortura.&#xA;&#xA;Ah e metade desses perfis comentam por texto ou emoji ou foto que eles também AMAM churrasco.&#xA;&#xA;Enfim&#xA;&#xA;Não tenho muito mais a elaborar. Alias nada a elaborar, era só uma observação. Se quiser comentar algo e esse texto magicamente chegou mais longe que meus mutuals, me menciona em @sondra@masto.donte.com.br]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>#Amo animais</p>

<p>Negocio curioso que descobri vendo uma quantidade pouco saudável de perfis do bumble é o seguinte:</p>

<p>Nenhuma das pessoas que diz amar animais é vegana.</p>

<p>Veganos ou mesmo vegetarianos quase não aparecem, mas quando aparecem, nunca dizem amar animais.</p>

<p>Doidera né? Ou não. Pelo menos a parte dos veganos. Não são pessoas movidas por amor, o buraco é bem mais embaixo. Não sou vegana mas muitas pessoas conhecidas sim e fui a feiras eventos cursos e nunca, jamais, ouvi nada sobre amor. Nunquinha. Tem ideologia sim, mas de uma forma muito mais... pragmática? Não sei. De qualquer forma eu gosto. Toda militancia baseada em amor me parece rasa, como o tal “love is love” que e a coisa mais higienizada que vi.</p>

<p>E eu gosto de amar, hein? Para caralho. Eu tenho o cantico de salomao versiculo 8:7 tatuado no peito.</p>

<p>....</p>

<p>Os perfis de bumble que amam animais? Cachorro. Eles amam cachorro. Às vezes gatos. Com uma frequencia alarmante cavalos. Que eles montam. O que é simplesmente tortura.</p>

<p>Ah e metade desses perfis comentam por texto ou emoji ou foto que eles também AMAM churrasco.</p>

<p>Enfim</p>

<p>Não tenho muito mais a elaborar. Alias nada a elaborar, era só uma observação. Se quiser comentar algo e esse texto magicamente chegou mais longe que meus mutuals, me menciona em @sondra@masto.donte.com.br</p>
]]></content:encoded>
      <author>Ni idea</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/wpv7zd1yks</guid>
      <pubDate>Thu, 17 Jul 2025 14:40:18 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Sin interés en la política</title>
      <link>https://blog.ayom.media/niidea/sin-interes-en-la-politica</link>
      <description>&lt;![CDATA[Sin interés en la política&#xA;&#xA;App de namoro é terrível e tal já sabemos. Mas uma coisa que gosto no bumble é que um dos elementos que podemos colocar no perfil é a orientação (?) política não na bio, mas num coiso de marcar opções. &#xA;&#xA;Segundo o DataEu 50% das pessoas não colocam nada nessa parte. E das que colocam algo, 70% colocam &#34;sem interesse na política&#34; e o resto varia entre centro, direita, esquerda e socialista (sim as opções tem duas esquerdas por alguma razão)&#xA;&#xA;Se eu tivesse muita grana sobrando eu pagaria pra usar, só pra poder filtrar e ver só perfis que marquem esquerda e facilitar minha vida. Mas supreendentemente nem é tanto porque eu gostaria de não ver pessoas de direita, que sabem o que querem pro mundo, e sim pra filtrar os que não se interessam por política.&#xA;&#xA;Veja bem, eu não quero passar um date falando sobre como o mundo está se acabando lentamente e vivemos uma distopia etc. Não é como se eu passasse todo o dia militante. Mas boy como vc coloca literalmente &#34;eu não ligo pra nada que afeta os outros e pra nada que me afeta pq sou tão obtuso que não percebo de as coisas me afetam pq possp ir no starbucks e pra mim isso é sinal de que a justiça divina existe&#34;?????&#xA;&#xA;E se é alguém superficial de 20 anos... ok. Não acho bom sinal mas entendo que tuas prioridades estejam em outro lugar.&#xA;&#xA;Mas vejo essa opção marcada em profissional da MEDICINA, ECONOMIA, PSICOLOGIA...&#xA;&#xA;Como assim? Aaaaaaaa&#xA;&#xA;Ou sei lá em pessoas que dizem que gostam da natureza, ou de férias ou que são feministas. Pessoas interessadas em responsabilidade afetiva, livros, FILOSOFIA...&#xA;&#xA;Como vc pode passar pela vida interessado em coisas intrisicamente políticas e ao mesmo tempo ignorando todas as forças que constantemente decidem tudo por vc? Voluntariamente?&#xA;&#xA;Eu passo reto nos que são de direita, sim. Mas segundo minha profunda analise sociológica de app de namoro, nosso problema está mais na porção da sociedade que não liga do que na que liga errado. Eu hein]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>#Sin interés en la política</p>

<p>App de namoro é terrível e tal já sabemos. Mas uma coisa que gosto no bumble é que um dos elementos que podemos colocar no perfil é a orientação (?) política não na bio, mas num coiso de marcar opções.</p>

<p>Segundo o DataEu 50% das pessoas não colocam nada nessa parte. E das que colocam algo, 70% colocam “sem interesse na política” e o resto varia entre centro, direita, esquerda e socialista (sim as opções tem duas esquerdas por alguma razão)</p>

<p>Se eu tivesse muita grana sobrando eu pagaria pra usar, só pra poder filtrar e ver só perfis que marquem esquerda e facilitar minha vida. Mas supreendentemente nem é tanto porque eu gostaria de não ver pessoas de direita, que sabem o que querem pro mundo, e sim pra filtrar os que não se interessam por política.</p>

<p>Veja bem, eu não quero passar um date falando sobre como o mundo está se acabando lentamente e vivemos uma distopia etc. Não é como se eu passasse todo o dia militante. Mas boy como vc coloca literalmente “eu não ligo pra nada que afeta os outros e pra nada que me afeta pq sou tão obtuso que não percebo de as coisas me afetam pq possp ir no starbucks e pra mim isso é sinal de que a justiça divina existe”?????</p>

<p>E se é alguém superficial de 20 anos... ok. Não acho bom sinal mas entendo que tuas prioridades estejam em outro lugar.</p>

<p>Mas vejo essa opção marcada em profissional da MEDICINA, ECONOMIA, PSICOLOGIA...</p>

<p>Como assim? Aaaaaaaa</p>

<p>Ou sei lá em pessoas que dizem que gostam da natureza, ou de férias ou que são feministas. Pessoas interessadas em responsabilidade afetiva, livros, FILOSOFIA...</p>

<p>Como vc pode passar pela vida interessado em coisas intrisicamente políticas e ao mesmo tempo ignorando todas as forças que constantemente decidem tudo por vc? Voluntariamente?</p>

<p>Eu passo reto nos que são de direita, sim. Mas segundo minha profunda analise sociológica de app de namoro, nosso problema está mais na porção da sociedade que não liga do que na que liga errado. Eu hein</p>
]]></content:encoded>
      <author>Ni idea</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/tbrlm7p435</guid>
      <pubDate>Fri, 11 Jul 2025 12:53:15 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>a gente se acostuma</title>
      <link>https://blog.ayom.media/niidea/a-gente-se-acostuma</link>
      <description>&lt;![CDATA[Eu to vivendo umas paradas muito estranhas desde março aqui em casa&#xA;&#xA;Os móveis estão se movendo, somando ou subtraindo e eu to tendo que lidar com o estresse totalmente sem sentido disso, já que no geral é pra melhor mesmo.&#xA;&#xA;Aí hoje um negócio pegou tão forte que percebi um negócio.&#xA;&#xA;A gente se acostuma muito com as coisas mesmo quando elas não estão boas. A gente prefere um ruim conhecido a um bom desconhecido. Não sempre, mas vezes o suficiente pra ser estranho demais.&#xA;&#xA;Primeiro veio a cama. Essa parte foi ok pq a cama melhorou muito meu quarto e fiquei feliz. Mas aí a cama velha foi pra sala e de repente minha sala super espaçosa passou a ser como todas por aí cheia de coisas. Mas ok isso é entendível, ninguém gosta de amontoar do nada.&#xA;&#xA;Aí pula uns três meses quase e levam embora o sofá. Eu me resisti muito porque ele ainda servia apesar de estar com aspecto horrível por ser destruído pela gata e ficar largando espuma todos os dias pelos lados. Ele saiu e de repente eu tinha espaço de novo. Não como antes nem de nenhuma forma ideal, mas serve pra dançar forró, aí tudo bem. Acho que superei o sofá.&#xA;&#xA;Mas hoje fiz a mudança menos drástica de todas eu to estressada até agora. Girei a geladeira no lugar em 90 graus. Ah, e limpei em cima e toda a porta do lado de fora que além de meses de mancha de mãos também tinha outros respingos e manchas totalmente sem explicação, tava meio nojento. E também agora é bem mais cômodo abrir e olhar dentro e pegar e colocar coisas pq eu nao to entre a porta e a parede tendo que me espremer e fazer malabares. Mas me sinto incomoda??? a geladeira parece mais pequena???? E não é só isso. Limpei mas fiquei sentindo que me cegava a luz refletindo nela? Ela está no mesmo lugar que antes, mas agora é a porta e não a parte do lado. &#xA;&#xA;Acho que tenho saudade do incômodo e da sujeira. A sujeira é dos últimos meses (nos quais limpei ela por dentro mais de uma vez e não sei pq nao limpei por fora) mas eu já tinha familiaridade com as manchas. E a incomodidade... 6 anos quase. Sem precisar, fiz isso pra não ter que fechar a porta da cozinha. Mas é perfeitamente possível e viável e assim é objetivamente melhor.&#xA;&#xA;Mas não acostumo&#xA;]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Eu to vivendo umas paradas muito estranhas desde março aqui em casa</p>

<p>Os móveis estão se movendo, somando ou subtraindo e eu to tendo que lidar com o estresse totalmente sem sentido disso, já que no geral é pra melhor mesmo.</p>

<p>Aí hoje um negócio pegou tão forte que percebi um negócio.</p>

<p>A gente se acostuma muito com as coisas mesmo quando elas não estão boas. A gente prefere um ruim conhecido a um bom desconhecido. Não sempre, mas vezes o suficiente pra ser estranho demais.</p>

<p>Primeiro veio a cama. Essa parte foi ok pq a cama melhorou muito meu quarto e fiquei feliz. Mas aí a cama velha foi pra sala e de repente minha sala super espaçosa passou a ser como todas por aí cheia de coisas. Mas ok isso é entendível, ninguém gosta de amontoar do nada.</p>

<p>Aí pula uns três meses quase e levam embora o sofá. Eu me resisti muito porque ele ainda servia apesar de estar com aspecto horrível por ser destruído pela gata e ficar largando espuma todos os dias pelos lados. Ele saiu e de repente eu tinha espaço de novo. Não como antes nem de nenhuma forma ideal, mas serve pra dançar forró, aí tudo bem. Acho que superei o sofá.</p>

<p>Mas hoje fiz a mudança menos drástica de todas eu to estressada até agora. Girei a geladeira no lugar em 90 graus. Ah, e limpei em cima e toda a porta do lado de fora que além de meses de mancha de mãos também tinha outros respingos e manchas totalmente sem explicação, tava meio nojento. E também agora é bem mais cômodo abrir e olhar dentro e pegar e colocar coisas pq eu nao to entre a porta e a parede tendo que me espremer e fazer malabares. Mas me sinto incomoda??? a geladeira parece mais pequena???? E não é só isso. Limpei mas fiquei sentindo que me cegava a luz refletindo nela? Ela está no mesmo lugar que antes, mas agora é a porta e não a parte do lado.</p>

<p>Acho que tenho saudade do incômodo e da sujeira. A sujeira é dos últimos meses (nos quais limpei ela por dentro mais de uma vez e não sei pq nao limpei por fora) mas eu já tinha familiaridade com as manchas. E a incomodidade... 6 anos quase. Sem precisar, fiz isso pra não ter que fechar a porta da cozinha. Mas é perfeitamente possível e viável e assim é objetivamente melhor.</p>

<p>Mas não acostumo</p>
]]></content:encoded>
      <author>Ni idea</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/jcknuay7v0</guid>
      <pubDate>Sun, 29 Jun 2025 01:09:23 +0000</pubDate>
    </item>
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      <title>confusão mental</title>
      <link>https://blog.ayom.media/niidea/confusao-mental</link>
      <description>&lt;![CDATA[Ontem fui pra uma festa junina e na volta senti muito frio. Aí pensei em como fui burra de não sair com cachecol de casa e como a gente não aprende de certos erros. Aí pensei ok vou escrever la no blog sobre como às vezes a gente não aprende.&#xA;&#xA;Mas não formei nem meia ideia e pensei em desenvolver isso depois. No caminho pra casa ia sentindo frio e pensando pensamentos e varios deles concluiram em ok vou fazer um post no blog sobre ESTE outro tema. Já nem lembro quais coisas eram. Eram varios e parecian por 5 segundos ser uma boa ideia.&#xA;&#xA;Como resolve isso? Tenho uma séria desconfiança de que ir anotando todas as ideias num caderninhos quando as tengo e ver o que rola escrever depois não vai funcionar e vai ser como as notas de ideias geniais que tenho quando to drogada: ao estar sobria perdem o sentido.&#xA;&#xA;Bateu até uma tristeza pensei que não poderia sustentar um blogue assim, sem nunca ter nem metade de uma ideia mais ou menos formada. Espero poder mesmo assim. Veremos. Me desejem sorte.&#xA;&#xA;Enfim. Se vc ta saindo e pensa não vou voltar pra buscar coisa x (óculos escuro, gorro, agua...) pra nao atrasar porque o uber/pessoa ta esperando... VOLTE pegue essa coisa. Aprenda do meu erro.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Ontem fui pra uma festa junina e na volta senti muito frio. Aí pensei em como fui burra de não sair com cachecol de casa e como a gente não aprende de certos erros. Aí pensei ok vou escrever la no blog sobre como às vezes a gente não aprende.</p>

<p>Mas não formei nem meia ideia e pensei em desenvolver isso depois. No caminho pra casa ia sentindo frio e pensando pensamentos e varios deles concluiram em ok vou fazer um post no blog sobre ESTE outro tema. Já nem lembro quais coisas eram. Eram varios e parecian por 5 segundos ser uma boa ideia.</p>

<p>Como resolve isso? Tenho uma séria desconfiança de que ir anotando todas as ideias num caderninhos quando as tengo e ver o que rola escrever depois não vai funcionar e vai ser como as notas de ideias geniais que tenho quando to drogada: ao estar sobria perdem o sentido.</p>

<p>Bateu até uma tristeza pensei que não poderia sustentar um blogue assim, sem nunca ter nem metade de uma ideia mais ou menos formada. Espero poder mesmo assim. Veremos. Me desejem sorte.</p>

<p>Enfim. Se vc ta saindo e pensa não vou voltar pra buscar coisa x (óculos escuro, gorro, agua...) pra nao atrasar porque o uber/pessoa ta esperando... VOLTE pegue essa coisa. Aprenda do meu erro.</p>
]]></content:encoded>
      <author>Ni idea</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/g1g8dk07l4</guid>
      <pubDate>Mon, 23 Jun 2025 14:12:19 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Esses dias li um texto bacana num blogue e percebi qual é uma das principais...</title>
      <link>https://blog.ayom.media/niidea/esses-dias-li-um-texto-bacana-num-blogue-e-percebi-qual-e-uma-das-principais</link>
      <description>&lt;![CDATA[Esses dias li um texto bacana num blogue e percebi qual é uma das principais razões pra eu enrolar tanto pra escrever o meu: eu não sei escrever em estilo blogue.&#xA;&#xA;Antes eu só argumentava que não sei escrever. Mas isso é genérico e meio falso, como podem ver estou escrevendo e sendo entendida (espero)&#xA;&#xA;Mas é que em blogue bacana tem uma estrutura basica apesar de possiveis variações que é que os assuntos tem uma conclusão. A pessoa começa contando uma história (às vezes bem tangente ao assunto e só pra efeito dramático) aí chega na parte principal, conta os conflitos surgidos com o assunto e no final chega a uma conclusão, uma moral da história, um final feliz, uma resposta, enfim, deu pra entender.&#xA;&#xA;Aí percebi que sempre que eu pensava em escrever aqui ficava procurando uma RESPOSTA ao assunto pra poder seguir essa estrutura, e como eu quase nunca tenho essa resposta pq to constantemente confusa com tudo e ignoro coisa demais, ficava uma ideia meio solta que eu sentia que simplesmente não dava pra escrever. &#xA;&#xA;Ironicamente e talvez pela única vez, hoje tenho uma resposta. E é o ato mesmo de escrever e publicar. E é que eu vou simplesmente escrever nem que seja uma ideia solta. Não vai ter um fio narrativo/argumentativo como os blogues legais, sinto muito.&#xA;&#xA;Se liberar de travas auto impostas é bom demais, recomendo.&#xA;&#xA;]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Esses dias li um texto bacana num blogue e percebi qual é uma das principais razões pra eu enrolar tanto pra escrever o meu: eu não sei escrever em estilo blogue.</p>

<p>Antes eu só argumentava que não sei escrever. Mas isso é genérico e meio falso, como podem ver estou escrevendo e sendo entendida (espero)</p>

<p>Mas é que em blogue bacana tem uma estrutura basica apesar de possiveis variações que é que os assuntos tem uma conclusão. A pessoa começa contando uma história (às vezes bem tangente ao assunto e só pra efeito dramático) aí chega na parte principal, conta os conflitos surgidos com o assunto e no final chega a uma conclusão, uma moral da história, um final feliz, uma resposta, enfim, deu pra entender.</p>

<p>Aí percebi que sempre que eu pensava em escrever aqui ficava procurando uma RESPOSTA ao assunto pra poder seguir essa estrutura, e como eu quase nunca tenho essa resposta pq to constantemente confusa com tudo e ignoro coisa demais, ficava uma ideia meio solta que eu sentia que simplesmente não dava pra escrever.</p>

<p>Ironicamente e talvez pela única vez, hoje tenho uma resposta. E é o ato mesmo de escrever e publicar. E é que eu vou simplesmente escrever nem que seja uma ideia solta. Não vai ter um fio narrativo/argumentativo como os blogues legais, sinto muito.</p>

<p>Se liberar de travas auto impostas é bom demais, recomendo.</p>
]]></content:encoded>
      <author>Ni idea</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/9061mvyam4</guid>
      <pubDate>Thu, 19 Jun 2025 14:35:20 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Quase me mataram</title>
      <link>https://blog.ayom.media/vereda/quase-me-mataram</link>
      <description>&lt;![CDATA[O compartilhamento deste texto é permitido segundo a licença CC BY-ND 4.0.&#xA;&#xA;Tags: #Militância #Pessoal&#xA;&#xA;Os últimos meses foram turbulentos. Nessa turbulência, desenvolvi a habilidade de me automutilar e formulei planos de tirar minha própria vida. Mudanças irresponsáveis na prescrição medicamentosa feitas por um médico que mentia ser psiquiatra coincidiram com a interrupção da melhora que eu relatei na última publicação. Deveria ser óbvio, mas eu precisei passar por muito sofrimento até me ensinarem que especialistas médicos habilitados devem apresentar, além do CRM, também um RQE referente a sua especialização. Consultando pelo portal do CFM, descobri que os médicos que me acompanharam nos últimos 4 anos não tinham RQE e portanto não poderiam ter se declarado psiquiatras.&#xA;&#xA;O lado bom dessa experiência, além de eu ainda estar aqui para escrever esse texto, é que a crença de que eu estava irreparavelmente quebrada foi substituída pela crença de que eu estava apenas sendo sabotada por médicos imperitos. E isso bastou para reviver uma forte pulsão de vida em mim. Se o problema estava na inadequação do tratamento, havia esperança. A mente superdotada engajou com o problema, assumindo para si a responsabilidade de prescrever um tratamento assertivo.&#xA;&#xA;Por esta experiência, nesse momento confio mais em mim do que em qualquer profissional médico. E a auto confiança gera ação, que gera resultados, que melhora a tão surrada autoestima. Faz algumas semanas que estou bem, sem ideações, sem autolesão, sem planejamento, apenas com pensamentos ordinários que tenho conseguido responder de forma rápida e autônoma. Sei que é pouco tempo e que estou longe de estar curada. Ainda estou sensível e disfuncional, mas a diferença é facilmente notada por pessoas próximas, e por mim própria.&#xA;&#xA;As ações autodestrutivas que eu cometi não foram de todo ruins. O processo de isolamento e introspecção, altamente catabólico, permitiu que eu expurgasse elementos obsoletos da minha vida. Assim, meu olhar se desconectou de quem eu fui, do que fiz e do que desejava para observar as possibilidades que pairam no horizonte.&#xA;&#xA;Preciso reaprender a sonhar e, para isso, o primeiro obstáculo que se impõe é conhecer o que é verdadeiramente possível, afinal sonhos sem materialidade não inspiram ação. Voltei a estudar e a cuidar de mim, e estou intrinsecamente motivada. Tenho agora um plano dentro de minhas capacidades.&#xA;&#xA;Adeus&#xA;&#xA;Por questões de segurança, estou eliminando meus rastros digitais. Não abandonarei a tecnologia, afinal creio que devemos obter o máximo possível do que estiver disponível, inclusive aproveitando-nos de ferramentas e infraestrutura hostis. Não há motivo para pânico, mas tampouco é sensato ignorar a intensa vigilância e controle fortalecendo-se ano após ano e aprisionando-nos cada vez mais. O meio digital não é seguro, especialmente para grupos minorizados.&#xA;&#xA;Mais do que reduzir a quantidade de informações sobre mim que são coletadas, quero principalmente reduzir a influência da máquina ideológica sobre mim e prevenir que minhas opiniões formadas por estudo insuficiente tenham lugar no debate público. Portanto não espere por meu retorno neste blog ou em qualquer outra plataforma de mídia social. Caso alguém reivindique esta identidade em qualquer lugar da Internet daqui pra frente, assuma ser um homônimo, fraude ou coação.&#xA;&#xA;Em tempo, gostaria de retificar algumas posições que tomei anteriormente, à luz do meu vigente entendimento. Não retiro as críticas feitas à FE, pois tenho hoje ainda mais certeza de que agi corretamente em me desfiliar de uma organização eleitoreira, mas é necessário aqui um tanto de autocrítica para que meus textos anteriores não sejam influenciadores de reflexões incorretas.&#xA;&#xA;Inclusão&#xA;&#xA;Meu maior erro provavelmente foi tropeçar na ideologia liberal e acreditar que direitos legislados eram garantidos. Entendo hoje que, mesmo em organizações progressistas, sempre haverão as posições mais atrasadas que devem ser combatidas de forma permanente. A classe é o principal motor do fazer político, mas nenhuma organização pode fechar os olhos para as necessidades concretas de elementos específicos, principalmente aquelas que se propõem a lutar pelo fim da desigualdade social e de toda opressão.&#xA;&#xA;Meu erro prático na Força Esperança foi não saber reconhecer quais as minhas demandas particulares e esperar que me ajudassem apenas baseado em uma identidade. Ausente essa autopercepção, estive inapta para solicitar adaptações e fiquei a mercê do que a sociedade capacitista estava disposta a oferecer sem luta: nada. Eu deveria também ter sido mais acolhedora comigo mesma, com minhas próprias limitações, inclusive as temporárias, e não cedido à pressão do ritmo e modo de trabalho dentro da organização. Isso teria evitado crises e atos impulsivos inapropriados, mas o erro às vezes é o custo do aprendizado.&#xA;&#xA;Parte do meu isolamento atual é justamente um esforço para me desenvolver protegida dos estímulos, longe da reatividade da Internet e da máscara social que eu construí tentando me adequar a identidades e papéis que não me serviam.&#xA;&#xA;Big Tech&#xA;&#xA;A raiz da minha discordância é hoje o ponto que menos sinto capacidade de opinar. Aceitei que eu preciso de muito estudo ainda para poder desenvolver de forma robusta uma argumentação sobre o impacto causado pelo avanços das tecnologias da informação/comunicação nas táticas revolucionárias do século XXI.&#xA;&#xA;Posso não ter a competência para defender minha visão, mas tenho a profunda convicção que a atuação truculenta e violenta dos serviços de inteligência e de polícia possui sinergia com o aparato de mídia burguesa e a assimilação inesgotável de &#34;dados&#34; à respeito de nossa vida privada e pública. E que todo esse conjunto opera para esmagar até as menores aspirações progressistas.&#xA;&#xA;Posso estar errada, mas posso estar no caminho certo também, e para debater isso eu preciso estudar mais para merecer a atenção de pessoas capazes de mais do que rotular sem argumentar, esquivando-se de um debate que poderia consolidar a linha correta.&#xA;&#xA;Felizmente existem muitas pessoas inteligentes no mundo, e se existir algo para ser descoberto, eventualmente alguém irá descobrir, se é que já não foi descoberto. Pode demorar anos ou séculos, mas o proletariado fiel à doutrina das condições de sua própria libertação vencerá, libertando assim toda a humanidade. A idade média durou mil anos, mas mesmo com todo o poder que a igreja católica romana acumulou para si, a ordem social mudou. Sou otimista em acreditar que a mudança da era atual para a próxima levará bem menos que mil anos, e que já estamos em seus anos finais.&#xA;&#xA;Hoje entendo a questão do desenvolvimento e soberania nacionais como tarefas secundárias. A prioridade é apoiar as massas camponesas em sua luta organizada contra o agronegócio, dando fim às atrasadas relações semifeudais e realizando a Revolução Agrária, bandeira unificadora de todas as classes exploradas no Brasil.&#xA;&#xA;Classe&#xA;&#xA;Declarei anteriormente fazer parte da classe trabalhadora. Hoje entendo que essa nomenclatura dilui a nível teórico as diferenças de classe. Afinal, mesmo os bilionários declaram &#34;trabalhar&#34; dezenas de horas por semana e tem-se tornado lugar comum dizer que os empreendedores, ou pequenos proprietários, são os que mais trabalham dentro de um negócio.&#xA;&#xA;O mais correto seria reconhecer que eu, e minha família, apesar de assalariados e desprovidos de meios de produção, somos ainda assim pequenos-burgueses. O distanciamento das condições do proletariado corrompe nossa visão de mundo e nos torna vacilantes. Não é nossa renda, mas a forma como participamos na produção, que permite afeiçoarmo-nos à ideologia burguesa.&#xA;&#xA;Palavras finais&#xA;&#xA;Eu não sou uma intelectual. Eu sou apenas uma pessoa criativa, com facilidade para aprender e que articula bem as ideias. É por minha inclinação para ser polímata e não por arrogância que eu extrapolo minha formação acadêmica e mergulho hoje nas humanidades.&#xA;&#xA;Por minha condição de minoria social, é de meu genuíno interesse superar o quanto antes a sociedade atual e suas opressões; é por meu estado de organismo vivo, de vital necessidade reverter as mudanças climáticas e impedir o desenrolar de uma nova guerra mundial nuclear interimperialista; porém, enquanto pequeno-burguesa, sou sedutoramente tentada pelo oportunismo que coloca as débeis vitórias da social-democracia e as vantagens pessoais imediatas, como melhores condições de trabalho e renda, acima dos interesses permanentes e de longo prazo da classe proletária.&#xA;&#xA;A certeza permanece de que o proletariado tem como única arma a organização na sua luta pelo poder, mas eu não sou uma proletária ainda. Apesar da inevitável decadência da pequena-burguesia, essa é a posição que eu me encontro e da qual me recuso a abandonar voluntariamente, ao menos até que a revolução democrática avance.&#xA;&#xA;Sendo pequeno-burguesa, é mais fácil conquistar migalhas para si e uns poucos do que pão para todos. Porém, se os frutos positivos desse esforço são apropriados de maneira privada, ou por um pequeno grupo, nada mais justo também que os frutos negativos sejam suportados pelos mesmos que nos períodos positivos se beneficiaram, afinal são os riscos do empreendimento previstos na ideologia burguesa. Não há nada que se possa exigir do povo quando viramos-lhe as costas. A partir daqui seria desonesto me lamuriar pela crescente degradação ambiental, social e econômica em minha vida. Isto pois, diante da oportunidade de me proletarizar e servir ao povo lutando de forma científica contra o capitalismo, eu optei pela via liberal burguesa, julgando ser mais provável e capaz de ainda conquistar uma vida melhor para mim agindo de forma individualista e corporativista, assim como fazem, conscientemente ou não, tantos outros elementos da esquerda liberal e da direita civil.&#xA;&#xA;Admito que essa suposta escolha pouco tem de livre, pois opera sobre a ignorância parcial das leis da natureza e exibe a dominação de sentimentos oscilantes de medo e potência sobre a razão. Como tal, é uma posição mutável que depende do conhecimento possuído a respeito das necessidades do mundo material e do estado de agudização da crise capitalista.&#xA;&#xA;Por essa vacilação, verifico que a pequena e média burguesia não podem ser revolucionários legítimos, mas tão somente companheiros situacionais enquanto estiverem a lutar contra o latifúndio e o imperialismo de forma prática e não apenas em palavras e desejos. Compete ao proletariado e semi-proletariado, aliando-se à classe campesina em sua luta pela terra, guiados pelo socialismo científico e unidos em uma Frente Única dos trabalhadores, dirigir a Revolução de Nova Democracia como processo ininterrupto para o socialismo. Afinal, estes sim, nada tem a perder a não ser os seus grilhões.&#xA;&#xA;Referências&#xA;&#xA;Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico - F. Engels.&#xA;O Brasil é 85% urbano? A Revolução Agrária está ultrapassada? - J. P. Fragoso&#xA;Quem são os amigos do Povo? - &#34;Limaxe&#34;&#xA;]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>O compartilhamento deste texto é permitido segundo a licença <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nd/4.0/legalcode.pt" rel="nofollow">CC BY-ND 4.0</a>.</p>

<p>Tags: #Militância #Pessoal</p>

<p>Os últimos meses foram turbulentos. Nessa turbulência, desenvolvi a habilidade de me automutilar e formulei planos de tirar minha própria vida. Mudanças irresponsáveis na prescrição medicamentosa feitas por um médico que mentia ser psiquiatra coincidiram com a interrupção da melhora que eu relatei na última publicação. Deveria ser óbvio, mas eu precisei passar por muito sofrimento até me ensinarem que especialistas médicos habilitados devem apresentar, além do CRM, também um RQE referente a sua especialização. Consultando pelo portal do CFM, descobri que os médicos que me acompanharam nos últimos 4 anos não tinham RQE e portanto não poderiam ter se declarado psiquiatras.</p>

<p>O lado bom dessa experiência, além de eu ainda estar aqui para escrever esse texto, é que a crença de que eu estava irreparavelmente quebrada foi substituída pela crença de que eu estava apenas sendo sabotada por médicos imperitos. E isso bastou para reviver uma forte pulsão de vida em mim. Se o problema estava na inadequação do tratamento, havia esperança. A mente superdotada engajou com o problema, assumindo para si a responsabilidade de prescrever um tratamento assertivo.</p>

<p>Por esta experiência, nesse momento confio mais em mim do que em qualquer profissional médico. E a auto confiança gera ação, que gera resultados, que melhora a tão surrada autoestima. Faz algumas semanas que estou bem, sem ideações, sem autolesão, sem planejamento, apenas com pensamentos ordinários que tenho conseguido responder de forma rápida e autônoma. Sei que é pouco tempo e que estou longe de estar curada. Ainda estou sensível e disfuncional, mas a diferença é facilmente notada por pessoas próximas, e por mim própria.</p>

<p>As ações autodestrutivas que eu cometi não foram de todo ruins. O processo de isolamento e introspecção, altamente catabólico, permitiu que eu expurgasse elementos obsoletos da minha vida. Assim, meu olhar se desconectou de quem eu fui, do que fiz e do que desejava para observar as possibilidades que pairam no horizonte.</p>

<p>Preciso reaprender a sonhar e, para isso, o primeiro obstáculo que se impõe é conhecer o que é verdadeiramente possível, afinal sonhos sem materialidade não inspiram ação. Voltei a estudar e a cuidar de mim, e estou intrinsecamente motivada. Tenho agora um plano dentro de minhas capacidades.</p>

<h2 id="adeus">Adeus</h2>

<p>Por questões de segurança, estou eliminando meus rastros digitais. Não abandonarei a tecnologia, afinal creio que devemos obter o máximo possível do que estiver disponível, inclusive aproveitando-nos de ferramentas e infraestrutura hostis. Não há motivo para pânico, mas tampouco é sensato ignorar a intensa vigilância e controle fortalecendo-se ano após ano e aprisionando-nos cada vez mais. O meio digital não é seguro, especialmente para grupos minorizados.</p>

<p>Mais do que reduzir a quantidade de informações sobre mim que são coletadas, quero principalmente reduzir a influência da máquina ideológica sobre mim e prevenir que minhas opiniões formadas por estudo insuficiente tenham lugar no debate público. Portanto não espere por meu retorno neste blog ou em qualquer outra plataforma de mídia social. <strong>Caso alguém reivindique esta identidade em qualquer lugar da Internet daqui pra frente, assuma ser um homônimo, fraude ou coação.</strong></p>

<p>Em tempo, gostaria de retificar algumas posições que tomei anteriormente, à luz do meu vigente entendimento. Não retiro as críticas feitas à <em>FE</em>, pois tenho hoje ainda mais certeza de que agi corretamente em me desfiliar de uma organização eleitoreira, mas é necessário aqui um tanto de autocrítica para que meus textos anteriores não sejam influenciadores de reflexões incorretas.</p>

<h2 id="inclusão">Inclusão</h2>

<p>Meu maior erro provavelmente foi tropeçar na ideologia liberal e acreditar que direitos legislados eram garantidos. Entendo hoje que, mesmo em organizações progressistas, sempre haverão as posições mais atrasadas que devem ser combatidas de forma permanente. A classe é o principal motor do fazer político, mas nenhuma organização pode fechar os olhos para as necessidades concretas de elementos específicos, principalmente aquelas que se propõem a lutar pelo fim da desigualdade social e de toda opressão.</p>

<p>Meu erro prático na <em>Força Esperança</em> foi não saber reconhecer quais as minhas demandas particulares e esperar que me ajudassem apenas baseado em uma identidade. Ausente essa autopercepção, estive inapta para solicitar adaptações e fiquei a mercê do que a sociedade capacitista estava disposta a oferecer sem luta: nada. Eu deveria também ter sido mais acolhedora comigo mesma, com minhas próprias limitações, inclusive as temporárias, e não cedido à pressão do ritmo e modo de trabalho dentro da organização. Isso teria evitado crises e atos impulsivos inapropriados, mas o erro às vezes é o custo do aprendizado.</p>

<p>Parte do meu isolamento atual é justamente um esforço para me desenvolver protegida dos estímulos, longe da reatividade da Internet e da máscara social que eu construí tentando me adequar a identidades e papéis que não me serviam.</p>

<h2 id="big-tech">Big Tech</h2>

<p>A raiz da minha discordância é hoje o ponto que menos sinto capacidade de opinar. Aceitei que eu preciso de muito estudo ainda para poder desenvolver de forma robusta uma argumentação sobre o impacto causado pelo avanços das tecnologias da informação/comunicação nas táticas revolucionárias do século XXI.</p>

<p>Posso não ter a competência para defender minha visão, mas tenho a profunda convicção que a atuação truculenta e violenta dos serviços de inteligência e de polícia possui sinergia com o aparato de mídia burguesa e a assimilação inesgotável de “dados” à respeito de nossa vida privada e pública. E que todo esse conjunto opera para esmagar até as menores aspirações progressistas.</p>

<p>Posso estar errada, mas posso estar no caminho certo também, e para debater isso eu preciso estudar mais para merecer a atenção de pessoas capazes de mais do que rotular sem argumentar, esquivando-se de um debate que poderia consolidar a linha correta.</p>

<p>Felizmente existem muitas pessoas inteligentes no mundo, e se existir algo para ser descoberto, eventualmente alguém irá descobrir, se é que já não foi descoberto. Pode demorar anos ou séculos, mas o proletariado fiel à doutrina das condições de sua própria libertação vencerá, libertando assim toda a humanidade. A idade média durou mil anos, mas mesmo com todo o poder que a igreja católica romana acumulou para si, a ordem social mudou. Sou otimista em acreditar que a mudança da era atual para a próxima levará bem menos que mil anos, e que já estamos em seus anos finais.</p>

<p>Hoje entendo a questão do desenvolvimento e soberania nacionais como tarefas secundárias. A prioridade é apoiar as massas camponesas em sua luta organizada contra o agronegócio, dando fim às atrasadas relações semifeudais e realizando a Revolução Agrária, bandeira unificadora de todas as classes exploradas no Brasil.</p>

<h2 id="classe">Classe</h2>

<p>Declarei anteriormente fazer parte da classe trabalhadora. Hoje entendo que essa nomenclatura dilui a nível teórico as diferenças de classe. Afinal, mesmo os bilionários declaram “trabalhar” dezenas de horas por semana e tem-se tornado lugar comum dizer que os empreendedores, ou pequenos proprietários, são os que mais trabalham dentro de um negócio.</p>

<p>O mais correto seria reconhecer que eu, e minha família, apesar de assalariados e desprovidos de meios de produção, somos ainda assim pequenos-burgueses. O distanciamento das condições do proletariado corrompe nossa visão de mundo e nos torna vacilantes. Não é nossa renda, mas a forma como participamos na produção, que permite afeiçoarmo-nos à ideologia burguesa.</p>

<h2 id="palavras-finais">Palavras finais</h2>

<p>Eu não sou uma intelectual. Eu sou apenas uma pessoa criativa, com facilidade para aprender e que articula bem as ideias. É por minha inclinação para ser polímata e não por arrogância que eu extrapolo minha formação acadêmica e mergulho hoje nas humanidades.</p>

<p>Por minha condição de minoria social, é de meu genuíno interesse superar o quanto antes a sociedade atual e suas opressões; é por meu estado de organismo vivo, de vital necessidade reverter as mudanças climáticas e impedir o desenrolar de uma nova guerra mundial nuclear interimperialista; porém, enquanto pequeno-burguesa, sou sedutoramente tentada pelo oportunismo que coloca as débeis vitórias da social-democracia e as vantagens pessoais imediatas, como melhores condições de trabalho e renda, acima dos interesses permanentes e de longo prazo da classe proletária.</p>

<p>A certeza permanece de que o proletariado tem como única arma a organização na sua luta pelo poder, mas eu não sou uma proletária ainda. Apesar da inevitável decadência da pequena-burguesia, essa é a posição que eu me encontro e da qual me recuso a abandonar voluntariamente, ao menos até que a revolução democrática avance.</p>

<p>Sendo pequeno-burguesa, é mais fácil conquistar migalhas para si e uns poucos do que pão para todos. Porém, se os frutos positivos desse esforço são apropriados de maneira privada, ou por um pequeno grupo, nada mais justo também que os frutos negativos sejam suportados pelos mesmos que nos períodos positivos se beneficiaram, afinal são os riscos do empreendimento previstos na ideologia burguesa. Não há nada que se possa exigir do povo quando viramos-lhe as costas. A partir daqui seria desonesto me lamuriar pela crescente degradação ambiental, social e econômica em minha vida. Isto pois, diante da oportunidade de me proletarizar e servir ao povo lutando de forma científica contra o capitalismo, eu optei pela via liberal burguesa, julgando ser mais provável e capaz de ainda conquistar uma vida melhor para mim agindo de forma individualista e corporativista, assim como fazem, conscientemente ou não, tantos outros elementos da esquerda liberal e da direita civil.</p>

<p>Admito que essa suposta escolha pouco tem de livre, pois opera sobre a ignorância parcial das leis da natureza e exibe a dominação de sentimentos oscilantes de medo e potência sobre a razão. Como tal, é uma posição mutável que depende do conhecimento possuído a respeito das necessidades do mundo material e do estado de agudização da crise capitalista.</p>

<p>Por essa vacilação, verifico que a pequena e média burguesia não podem ser revolucionários legítimos, mas tão somente companheiros situacionais enquanto estiverem a lutar contra o latifúndio e o imperialismo de forma prática e não apenas em palavras e desejos. Compete ao proletariado e semi-proletariado, aliando-se à classe campesina em sua luta pela terra, guiados pelo socialismo científico e unidos em uma Frente Única dos trabalhadores, dirigir a Revolução de Nova Democracia como processo ininterrupto para o socialismo. Afinal, estes sim, nada tem a perder a não ser os seus grilhões.</p>

<h1 id="referências">Referências</h1>
<ul><li><a href="https://www.marxists.org/portugues/marx/1880/socialismo/index.htm" rel="nofollow">Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico – F. Engels.</a></li>
<li><a href="https://www.youtube.com/watch?v=tMpkqkQPIIo" rel="nofollow">O Brasil é 85% urbano? A Revolução Agrária está ultrapassada? – J. P. Fragoso</a></li>
<li><a href="https://web.archive.org/web/20240929174614/https://valedospomares.wordpress.com/2024/02/26/quem-sao-os-amigos-do-povo/" rel="nofollow">Quem são os amigos do Povo? – “Limaxe”</a></li></ul>
]]></content:encoded>
      <author>vereda</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/sjetudgrnh</guid>
      <pubDate>Mon, 21 Apr 2025 05:19:11 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Ligeirezas mentirosas</title>
      <link>https://blog.ayom.media/yuribravos/ligeirezas-mentirosas</link>
      <description>&lt;![CDATA[Outro dia estava escutando o podcast Fio da Meada, o episódio com a Paola Carosella sobre cozinhar como um ato de rebeldia. &#xA;&#xA;Ela falava sobre como lhe cansava os vídeos que um tomate cai numa bancada e aparece completamente picado, um frango é jogado numa frigideira e surge já dourado e de como tudo isso não ensina a cozinhar coisa nenhuma. &#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Uma das coisas inusitadas que faço é dar aulas de acrobacia. Pratico desde 2013, com um ano de pausa enquanto fiz intercâmbio. Isso soma mais de dez anos de prática. Alguns alunos ficam assombrados com certas coisas que demonstro para tentar ensinar. Quase sempre é possível ver na cara deles o pensamento que diz se eu tivesse talento como ele tem...&#xA;&#xA;  Não dá pra comparar dez anos de prática com dois meses.&#xA;&#xA;Sempre ressalto que as coisas levam tempo. Como eles, eu também tentei várias coisas, repetidas vezes, sem conseguir executar de forma minimamente decente. Mas à força de repetição as poses e técnicas foram evoluindo até o que hoje eles veem como um único movimento perfeito do início ao fim. Sendo que, na realidade, eu estou num nível só ligeiramente acima da média. Tem tantos movimentos que ainda não domino completamente e tantos outros que até executo, mas estão longe de serem executados de forma limpa e fluida. &#xA;&#xA;Os vídeos da internet que muitas vezes usamos como inspiração para as aulas são também uma armadilha, pois nunca revelam quanto tempo de prática foi preciso para executar aquilo num único take cravado.&#xA;&#xA;Até nos vídeos que mostram tentativas até acertar, o olho mais treinado sabe que as pessoas estão errando de mentirinha para dar a impressão que em três ou quatro tentativas tiveram êxito.&#xA;&#xA;Muitas vezes meu papel de instrutor é lembrar que não dá pra comparar dez anos de prática com dois meses.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Voltando ao podcast com a Paola, ela conta como não aceitou fazer vídeos rápidos ensinando a cozinhar e que decidiu fazer vídeos de uma hora. E que eles estavam indo bem.&#xA;&#xA;Verdade que o Youtube privilegia vídeos mais longo atualmente, pois eles são passíveis de monetização para o criador (ou você não notou que todos os vídeos agora tem mais de dez minutos?) e porque podem inserir mais propagandas dentro da duração. Mas a Paola está certa em mostrar que cozinhar leva tempo. Jogar o tomate na bancada não vai fazê-lo aparecer picado, bater seis fotos em stop motion da colher de pau dentro da panela com molho e transformar num gif não vai reduzir esse molho instantaneamente. Você não pode apressar o fogo. &#xA;&#xA;Ou pode. Sua comida vai queimar.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Vi também um canal, que acho até interessante sobre coquetelaria, ensinando a fazer um super suco de limão que dura muito tempo na geladeiras. &#xA;&#xA;Note que esse vídeo tem 17min pra entrar exatamente naquela questão da monetização do Youtube, mas vamos relevar dessa vez.&#xA;&#xA;Suco de limão é algo que se torna muito azedo se não for consumido pouco tempo depois de feito. Faz parte da oxidação dessa bebida. No vídeo o rapaz explica com detalhes como isso gera desperdício do próprio suco de limão e de tempo, já que é preciso espremer uma quantidade enorme de limões todos os dias para ter o suco necessário para fazer os drinks.&#xA;&#xA;Então para acabar com todo esse desperdício, descobriram que se você colocar proporções exatas de ácido málico e ácido cítrico com cascas de limão, deixar extrair os óleos da casca e depois juntar o suco de dois limões e completar com água você faz um &#34;super suco de limão&#34; que rende muito e dura muito tempo na geladeira!&#xA;&#xA;E assim nós adentramos o mundo dos drinks ultraprocessados! 🍹&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;É claro que, em restaurantes ou bares que fazem centenas de drinks por dia e que os clientes esperam ser atendidos com a rapidez de um reels, pode ser que consigamos justificar o fato de criar uma bebida sabor limão com 10% de suco integral para fazer drinks.&#xA;&#xA;Ou não. Eu gostaria de beber um drink feito com suco de limão de verdade, mesmo que talvez demore dois minutos a mais para ser feito (o que eu acredito que seja o tempo médio de preparo de suco de um limão). &#xA;&#xA;Eu realmente não gostaria de beber algo feito com dois pózinhos brancos adicionados de água feito para me enganar. Não importa quanto tempo ele dure na geladeira ou se ele tenha sabor artificial idêntico ao natural. As papilas gustativas não saberão diferenciar, talvez, mas quais serão as consequências de saúde dessa ligeireza mentirosa?&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Conclusões&#xA;As coisas levam tempo e nós só estamos enganados quanto ao efeito instantâneo das redes sociais e da internet. Nada é instantâneo, só não sabemos quais foram os artifícios usados para acelerar o resultado. Se por um lado diminuir o tempo de algumas coisas é muito bom, por outro, acreditar que sempre dá para ser mais rápido é fonte de alienação e frustração. Isso irá nos enganar ou nos esgotar.&#xA;&#xA;Avisos da Paróquia&#xA;O Danilo jogou ao vento que eu poderia fazer um blog de sommelier de RPG e talvez faça algo assim mesmo! Provavelmente uma coluna aqui, falando dos jogos que estejam ocupando meu imaginário e o que estou pensando disso.&#xA;&#xA;É isso, e até lá!]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Outro dia estava escutando o podcast <a href="https://radionovelo.com.br/originais/fiodameada/paola-carosella-e-cozinhar-como-um-ato-de-rebeldia/" rel="nofollow">Fio da Meada</a>, o episódio com a Paola Carosella sobre cozinhar como um ato de rebeldia.</p>

<p>Ela falava sobre como lhe cansava os vídeos que um tomate cai numa bancada e aparece completamente picado, um frango é jogado numa frigideira e surge já dourado e de como tudo isso <strong>não ensina a cozinhar</strong> coisa nenhuma.</p>

<hr>

<p>Uma das coisas inusitadas que faço é dar aulas de acrobacia. Pratico desde 2013, com um ano de pausa enquanto fiz intercâmbio. Isso soma mais de dez anos de prática. Alguns alunos ficam assombrados com certas coisas que demonstro para tentar ensinar. Quase sempre é possível ver na cara deles o pensamento que diz <em>se eu tivesse talento como ele tem...</em></p>

<blockquote><p>Não dá pra comparar dez anos de prática com dois meses.</p></blockquote>

<p>Sempre ressalto que as coisas levam tempo. Como eles, eu também tentei várias coisas, repetidas vezes, sem conseguir executar de forma minimamente decente. Mas à força de repetição as poses e técnicas foram evoluindo até o que hoje eles veem como um único movimento perfeito do início ao fim. Sendo que, na realidade, eu estou num nível só ligeiramente acima da média. Tem tantos movimentos que ainda não domino completamente e tantos outros que até executo, mas estão longe de serem executados de forma limpa e fluida.</p>

<p>Os vídeos da internet que muitas vezes usamos como inspiração para as aulas são também uma armadilha, pois nunca revelam quanto tempo de prática foi preciso para executar aquilo num único <em>take</em> cravado.</p>

<p>Até nos vídeos que mostram tentativas até acertar, o olho mais treinado sabe que as pessoas estão errando de mentirinha para dar a impressão que em três ou quatro tentativas tiveram êxito.</p>

<p>Muitas vezes meu papel de instrutor é lembrar que não dá pra comparar dez anos de prática com dois meses.</p>

<hr>

<p>Voltando ao podcast com a Paola, ela conta como não aceitou fazer vídeos rápidos ensinando a cozinhar e que decidiu fazer vídeos de uma hora. E que eles estavam indo bem.</p>

<p>Verdade que o <em>Youtube</em> privilegia vídeos mais longo atualmente, pois eles são passíveis de monetização para o criador (ou você não notou que todos os vídeos agora tem mais de dez minutos?) e porque podem inserir mais propagandas dentro da duração. Mas a Paola está certa em mostrar que <strong>cozinhar leva tempo</strong>. Jogar o tomate na bancada não vai fazê-lo aparecer picado, bater seis fotos em <em>stop motion</em> da colher de pau dentro da panela com molho e transformar num <em>gif</em> não vai reduzir esse molho instantaneamente. Você não pode apressar o fogo.</p>

<p>Ou pode. Sua comida vai queimar.</p>

<hr>

<p>Vi também um canal, que acho até interessante sobre coquetelaria, ensinando a fazer um <a href="https://youtu.be/KUH9xBi8ZLw" rel="nofollow">super suco de limão que dura muito tempo na geladeiras</a>.</p>

<p><em>Note que esse vídeo tem 17min pra entrar exatamente naquela questão da monetização do Youtube, mas vamos relevar dessa vez.</em></p>

<p>Suco de limão é algo que se torna muito azedo se não for consumido pouco tempo depois de feito. Faz parte da oxidação dessa bebida. No vídeo o rapaz explica com detalhes como isso gera desperdício do próprio suco de limão e de tempo, já que é preciso espremer uma quantidade enorme de limões todos os dias para ter o suco necessário para fazer os drinks.</p>

<p>Então para acabar com todo esse <em>desperdício</em>, descobriram que se você colocar proporções exatas de ácido málico e ácido cítrico com cascas de limão, deixar extrair os óleos da casca e depois juntar o suco de dois limões e completar com água você faz um “super suco de limão” que rende muito e dura muito tempo na geladeira!</p>

<p>E assim nós adentramos o mundo dos <strong>drinks ultraprocessados</strong>! 🍹</p>

<hr>

<p>É claro que, em restaurantes ou bares que fazem centenas de drinks por dia e que os clientes esperam ser atendidos com a rapidez de um <em>reels</em>, <strong>pode ser</strong> que consigamos justificar o fato de criar uma bebida sabor limão com 10% de suco integral para fazer drinks.</p>

<p>Ou não. Eu gostaria de beber um drink feito com suco de limão de verdade, mesmo que talvez demore dois minutos a mais para ser feito (o que eu acredito que seja o tempo médio de preparo de suco de um limão).</p>

<p>Eu <em>realmente não gostaria</em> de beber algo feito com dois pózinhos brancos adicionados de água feito para me enganar. Não importa quanto tempo ele dure na geladeira ou se ele tenha <em>sabor artificial idêntico ao natural</em>. As papilas gustativas não saberão diferenciar, talvez, mas quais serão as consequências de saúde dessa <em>ligeireza mentirosa</em>?</p>

<hr>

<h2 id="conclusões">Conclusões</h2>

<p>As coisas levam tempo e nós só estamos enganados quanto ao efeito instantâneo das redes sociais e da internet. Nada é instantâneo, só não sabemos quais foram os artifícios usados para acelerar o resultado. Se por um lado diminuir o tempo de algumas coisas é muito bom, por outro, acreditar que sempre dá para ser mais rápido é fonte de alienação e frustração. Isso irá nos <em>enganar</em> ou nos <em>esgotar</em>.</p>

<h3 id="avisos-da-paróquia">Avisos da Paróquia</h3>

<p>O <a href="bertha.social/@radiocorsa_br" rel="nofollow">Danilo</a> jogou ao vento que eu poderia fazer um blog de sommelier de RPG e talvez faça algo assim mesmo! Provavelmente uma coluna aqui, falando dos jogos que estejam ocupando meu imaginário e o que estou pensando disso.</p>

<p>É isso, e até lá!</p>
]]></content:encoded>
      <author>yuribravos</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/i753t7wklv</guid>
      <pubDate>Fri, 21 Mar 2025 14:52:40 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Cultivo</title>
      <link>https://blog.ayom.media/drax/cultivo</link>
      <description>&lt;![CDATA[Cultivo&#xA;&#xA;&#x9;É um dia como outro qualquer na minha humilde fazenda, exceto pela tempestade que ao longe se aproxima. É noite e posso sentir minha exaustão após um longo dia de trabalho. O vento lá fora está muito forte e posso perceber que no horizonte relampeja.Vou fechar as portas e janelas e aguardar a tempestade passar.&#xA;&#x9;Um ensurdecedor estrondo me surpreende, aparentemente, um raio caiu bem no meu quintal. Agora a escuridão me cerca e eu me encolho na cama rezando para esse caos passar… E sem perceber, eu apago, um novo dia nasceu.&#xA;&#x9;Hora de avaliar os danos, parecem bem menores do que o esperado. Um ou outro galho caído e no meio do quintal, uma marca, deve ser o ponto onde o raio atingiu. Por mais que tenha deixado um largo círculo de grama queimada no chão, estranhamente, não gerou um incêndio e a parte mais estranha de tudo isso é que bem no centro desse círculo uma pequena planta nasceu. Sim, eu sei que é de se estranhar esse fenômeno, mas acima de tudo a misteriosa planta me fascinou, decido cultivá-la.&#xA;&#x9;Uma semana se passou, a planta parece com muita saúde, todo dia tenho ido regá-la e ela já se estruturou em um caule de uns 20 cm. Mas algo está me incomodando, parece que as minhas atividades rotineiras que tanto me acostumei estão me cansando mais do que o normal. É algo sutil, porém notável.&#xA;&#x9;Faz um mês que eu ritualmente cuido da planta, agora ela se ergueu como uma vistosa pequena árvore de não mais que 1 m. Meu cansaço aumentou significativamente a ponto que passei a deixar algumas tarefas de lado, mas não consigo deixar de cuidar dela. A planta está se tornando uma prioridade na minha vida.&#xA;Três meses… Meus animais definham, minhas plantações morrem, minha casa está um caos… E eu… Estou sem energia. Mas a planta está bem! Isso é o que importa!&#xA;Minha mente não funciona mais... Cansaço e fome me tomam… Mas, tenho que terminar de cultivar a planta. Eu abro a porta para o quintal enquanto sinto minha vida se esvair... Eu a vejo, ela deve ter… 1,60… Minha altura… He he… Agora que parei para pensar, essa é uma planta estranha… Da raiz saem dois caules que mais se parecem pernas e estes se juntam num… Tronco? Do tronco saem dois galhos… São braços? E então, no topo, o que parece ser uma cabeça.&#xA;&#x9;Me aproximo… A lentos passos me arrasto para aquela que tenho dedicado meus últimos meses… Ela não só parece ter um corpo humano… Altura, proporções e até mesmo as feições do estranho rosto de madeira e folhagens se pareciam… Comigo? A planta começa a mexer…&#xA;&#x9;Ela move suas pernas... Erguendo-as da terra... E se cortando de suas raízes… Minha visão está embaçando… Sinto minha vida se afastando de mim… Respiração pesada… Minhas pernas não mais me sustentam e caio de joelhos no chão… Eu olho para cima enquanto ela se aproxima…&#xA;Ela se inclina na minha direção… Agora não parece mais de madeira nem mesmo é verde… Uma perfeita cópia minha… E então ela suspira nos meus ouvidos as últimas palavras que irei ouvir na minha existência…&#xA;— Agradeço pela minha vida.&#xA;&#xA;]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Cultivo</p>

<p>    É um dia como outro qualquer na minha humilde fazenda, exceto pela tempestade que ao longe se aproxima. É noite e posso sentir minha exaustão após um longo dia de trabalho. O vento lá fora está muito forte e posso perceber que no horizonte relampeja.Vou fechar as portas e janelas e aguardar a tempestade passar.
    Um ensurdecedor estrondo me surpreende, aparentemente, um raio caiu bem no meu quintal. Agora a escuridão me cerca e eu me encolho na cama rezando para esse caos passar… E sem perceber, eu apago, um novo dia nasceu.
    Hora de avaliar os danos, parecem bem menores do que o esperado. Um ou outro galho caído e no meio do quintal, uma marca, deve ser o ponto onde o raio atingiu. Por mais que tenha deixado um largo círculo de grama queimada no chão, estranhamente, não gerou um incêndio e a parte mais estranha de tudo isso é que bem no centro desse círculo uma pequena planta nasceu. Sim, eu sei que é de se estranhar esse fenômeno, mas acima de tudo a misteriosa planta me fascinou, decido cultivá-la.
    Uma semana se passou, a planta parece com muita saúde, todo dia tenho ido regá-la e ela já se estruturou em um caule de uns 20 cm. Mas algo está me incomodando, parece que as minhas atividades rotineiras que tanto me acostumei estão me cansando mais do que o normal. É algo sutil, porém notável.
    Faz um mês que eu ritualmente cuido da planta, agora ela se ergueu como uma vistosa pequena árvore de não mais que 1 m. Meu cansaço aumentou significativamente a ponto que passei a deixar algumas tarefas de lado, mas não consigo deixar de cuidar dela. A planta está se tornando uma prioridade na minha vida.
Três meses… Meus animais definham, minhas plantações morrem, minha casa está um caos… E eu… Estou sem energia. Mas a planta está bem! Isso é o que importa!
Minha mente não funciona mais... Cansaço e fome me tomam… Mas, tenho que terminar de cultivar a planta. Eu abro a porta para o quintal enquanto sinto minha vida se esvair... Eu a vejo, ela deve ter… 1,60… Minha altura… He he… Agora que parei para pensar, essa é uma planta estranha… Da raiz saem dois caules que mais se parecem pernas e estes se juntam num… Tronco? Do tronco saem dois galhos… São braços? E então, no topo, o que parece ser uma cabeça.
    Me aproximo… A lentos passos me arrasto para aquela que tenho dedicado meus últimos meses… Ela não só parece ter um corpo humano… Altura, proporções e até mesmo as feições do estranho rosto de madeira e folhagens se pareciam… Comigo? A planta começa a mexer…
    Ela move suas pernas... Erguendo-as da terra... E se cortando de suas raízes… Minha visão está embaçando… Sinto minha vida se afastando de mim… Respiração pesada… Minhas pernas não mais me sustentam e caio de joelhos no chão… Eu olho para cima enquanto ela se aproxima…
Ela se inclina na minha direção… Agora não parece mais de madeira nem mesmo é verde… Uma perfeita cópia minha… E então ela suspira nos meus ouvidos as últimas palavras que irei ouvir na minha existência…
— Agradeço pela minha vida.</p>
]]></content:encoded>
      <author>drax</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/018a00xkgw</guid>
      <pubDate>Thu, 06 Mar 2025 01:16:14 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>A tentação no terror e na política</title>
      <link>https://blog.ayom.media/guguzeco/a-tentacao-no-terror-e-na-politica</link>
      <description>&lt;![CDATA[h1A tentação no terror e na política/h1&#xA;&#xA;Se pararmos pra pensar, a tentação, passar vontade, não é condenável. Mas diziam que são sete pecados capitais: a gula, luxúria, vaidade, orgulho, raiva e mais uns outros tantos. &#xA;&#xA;Mas querer comer mais um pouco é condenado? Os mandamentos católicos apostólicos romanos indicam que querer se amostrar, cogitar em se orgulhar, pensar em transar, sentir tesão leva a gente pro tormento eterno no colinho do capeta?&#xA;&#xA;Não faço a menor ideia da resposta biblicamente correta disso aí. Nunca li a bíblia por inteira, por que peguei canseira das missas católicas de domingo depois de pegar bicho do pé na Igreja. Apesar disso, esse monte de pertubação de juízo católica fez morada na minha cabeça. A culpa e a autoindulgência sempre tiveram seu lugarzinho aqui. Mas esses tempos me peguei pensando muito na tentação.&#xA;&#xA;Pertubação de juízo, passar vontade. Talvez essa seja uma forma boa de olhar pra tentação. Aquela voz baixinha de desenho animado que não te dá paz, sobrevoando teu ombro, aquele pensamento intrusivo de fazer uma parada que talvez tu saiba que não possa. &#xA;&#xA;Na política, a extrema-direita morre da tentação: tu não pode ter o menor contato com um mínimo de solidariedade que corre o risco de virar &#34;comunista&#34;. Tinha aquela história, que aparece no filme do ex-presidente Mujica preso na ditadura Uruguaia (eu acho), de que os milico tinham medo que os guerrilheiros convencessem até os torturadores e os convertessem no pecado de ser revolucionário, tamanha era a lábia que imaginavam que a galera tinha.&#xA;&#xA;Mihakil Bakunin, anarquista russo das antigas e anticlerical, escreveu um texto chamado &#34;CATECISMO REVOLUCIONÁRIO&#34;. Teria ele, um ateu anticlerical, sofrido tentação da disciplina da Igreja para pensar a organização política que colocaria o capital abaixo? Provavelmente não. Mas todo o texto &#34;Deus e o Estado&#34;, sua crítica ao idealismo parte da noção de que se um iluminado tenta organizar a vida dos outros com ideias única e exclusivamente strikedo seu cu/strike da sua cabeça certamente vai terminar brutalizando a vida, como foram as Igrejas católicas, o Estado e o capitalismo. De toda forma, ele se &#34;suja&#34; de tudo que critica para, enfim, fazer sua crítica.&#xA;&#xA;Ver a tentação como algo positivo talvez possa ser nada mais do que uma forma de sentimento de lidarmos com a contradição e a encararmos, superar a curiosidade e se situar no mundo.&#xA;&#xA;Na ficção, os filmes de terror a tentação é um sentimento de lei. Vampiros são esses seres: sedutores, mas violentos, apropriados em algumas histórias pra questionar as hierarquias sociais, o racismo e a LGBTfobia (o patriarcado depende), mas moralmente questionáveis. Sentem uma vontade incontrolável de sangue e de seduzir homens e mulheres por esporte (e fome), mas também deslocados da sociedade e injustiçados. Eles encarnam um bom exemplo de tentação.&#xA;&#xA;Os filmes e histórias de terror são vários e infinitos, mas sempre me questionei strongo por quê/strong de termos tanta curiosidade com essas histórias. Seria a tentação de ver o diferente? De ver uma pertubação na ordem conservadora dos vários contos de terror com monstruosidades? Por que ver algo que nos dá medo? É pela adrenalina?&#xA;&#xA;Não tenho as respostas disso. Mas foram pensamentos que me passaram nos últimos meses, vivenciando a volta de uma extrema-direita fascista no mundo enquanto leio e assisto histórias de vampiros como a série Entrevista com um Vampiro, os animes Vampire Hunter D: Bloodlust, mangás de horror do Junji Ito com incômodos mundanos levados ao absurdo e lendo contos de terror paraenses de Tanto Tupiassu no livro Dois Mortos e a Morte. &#xA;&#xA;Como a tentação pode ser cultivada na política revolucionária? Como a tentação pode ser cultivada na superação definitiva do capital, do racismo e do patriarcado? Não tenho certeza, mas se para os capitalistas reacionários que organizam nossas vidas ser tentado é um problema, talvez haja um ponto aqui. Recentemente traduzida no Brasil, no livro Multidões e partido a comunista Jodi Dean incorpora um debate anarquista e autonomista e nos traz a importância da solidariedade enquanto um sentimento central na organização política comunista, por que só ela seria capaz de romper com esta ordem das coisas que bota cada um pra pensar no seu próprio umbigo, o individualismo burguês. Só a solidariedade rompe barreiras policiais que impedem um ato contra aumentos de tarifa de andar, impede um despejo de uma ocupação de prédios da especulação imobiliária ou produz comida de forma igualitária e sem veneno. Só a solidariedade cria um mundo novo.&#xA;&#xA;Talvez devêssemos cultivar, junto dela, da tentação. Se os conservadores e reacionários nos dizem diariamente que essa vida é ruim, é realmente bruta, viril e violenta, &#34;só os fortes sobrevivem&#34;, em lugar dessa barbaridade devemos cultivar a tentação pela vida, pela solidariedade, igualdade e liberdade. strongInstingar e incomodar com a tentação de que a vida pode ser melhor, mais leve e menos bruta/strong . Lembrar isso junto aos nossos e aos de baixo que foram seduzidos por ideias reacionárias é uma forma de desatar o nó entre as classes populares e o fascismo.&#xA;&#xA;Fim deste rascunho e ideias jogadas ao ar.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h1>A tentação no terror e na política</h1>

<p>Se pararmos pra pensar, a tentação, passar vontade, não é condenável. Mas diziam que são sete pecados capitais: a gula, luxúria, vaidade, orgulho, raiva e mais uns outros tantos.</p>

<p>Mas querer comer mais um pouco é condenado? Os mandamentos católicos apostólicos romanos indicam que querer se amostrar, cogitar em se orgulhar, pensar em transar, sentir tesão leva a gente pro tormento eterno no colinho do capeta?</p>

<p>Não faço a menor ideia da resposta biblicamente correta disso aí. Nunca li a bíblia por inteira, por que peguei canseira das missas católicas de domingo depois de pegar bicho do pé na Igreja. Apesar disso, esse monte de pertubação de juízo católica fez morada na minha cabeça. A culpa e a autoindulgência sempre tiveram seu lugarzinho aqui. Mas esses tempos me peguei pensando muito na tentação.</p>

<p>Pertubação de juízo, passar vontade. Talvez essa seja uma forma boa de olhar pra tentação. Aquela voz baixinha de desenho animado que não te dá paz, sobrevoando teu ombro, aquele pensamento intrusivo de fazer uma parada que talvez tu saiba que não possa.</p>

<p>Na política, a extrema-direita morre da tentação: tu não pode ter o menor contato com um mínimo de solidariedade que corre o risco de virar “comunista”. Tinha aquela história, que aparece no filme do ex-presidente Mujica preso na ditadura Uruguaia (eu acho), de que os milico tinham medo que os guerrilheiros convencessem até os torturadores e os convertessem no pecado de ser revolucionário, tamanha era a lábia que imaginavam que a galera tinha.</p>

<p>Mihakil Bakunin, anarquista russo das antigas e anticlerical, escreveu um texto chamado “CATECISMO REVOLUCIONÁRIO”. Teria ele, um ateu anticlerical, sofrido tentação da disciplina da Igreja para pensar a organização política que colocaria o capital abaixo? Provavelmente não. Mas todo o texto “Deus e o Estado”, sua crítica ao idealismo parte da noção de que se um iluminado tenta organizar a vida dos outros com ideias única e exclusivamente <strike>do seu cu</strike> da sua cabeça certamente vai terminar brutalizando a vida, como foram as Igrejas católicas, o Estado e o capitalismo. De toda forma, ele se “suja” de tudo que critica para, enfim, fazer sua crítica.</p>

<p>Ver a tentação como algo positivo talvez possa ser nada mais do que uma forma de sentimento de lidarmos com a contradição e a encararmos, superar a curiosidade e se situar no mundo.</p>

<p>Na ficção, os filmes de terror a tentação é um sentimento de lei. Vampiros são esses seres: sedutores, mas violentos, apropriados em algumas histórias pra questionar as hierarquias sociais, o racismo e a LGBTfobia (o patriarcado depende), mas moralmente questionáveis. Sentem uma vontade incontrolável de sangue e de seduzir homens e mulheres por esporte (e fome), mas também deslocados da sociedade e injustiçados. Eles encarnam um bom exemplo de tentação.</p>

<p>Os filmes e histórias de terror são vários e infinitos, mas sempre me questionei <strong>o por quê</strong> de termos tanta curiosidade com essas histórias. Seria a tentação de ver o diferente? De ver uma pertubação na ordem conservadora dos vários contos de terror com monstruosidades? Por que ver algo que nos dá medo? É pela adrenalina?</p>

<p>Não tenho as respostas disso. Mas foram pensamentos que me passaram nos últimos meses, vivenciando a volta de uma extrema-direita fascista no mundo enquanto leio e assisto histórias de vampiros como a série Entrevista com um Vampiro, os animes Vampire Hunter D: Bloodlust, mangás de horror do Junji Ito com incômodos mundanos levados ao absurdo e lendo contos de terror paraenses de Tanto Tupiassu no livro Dois Mortos e a Morte.</p>

<p>Como a tentação pode ser cultivada na política revolucionária? Como a tentação pode ser cultivada na superação definitiva do capital, do racismo e do patriarcado? Não tenho certeza, mas se para os capitalistas reacionários que organizam nossas vidas ser tentado é um problema, talvez haja um ponto aqui. Recentemente traduzida no Brasil, no livro Multidões e partido a comunista Jodi Dean incorpora um debate anarquista e autonomista e nos traz a importância da solidariedade enquanto um sentimento central na organização política comunista, por que só ela seria capaz de romper com esta ordem das coisas que bota cada um pra pensar no seu próprio umbigo, o individualismo burguês. Só a solidariedade rompe barreiras policiais que impedem um ato contra aumentos de tarifa de andar, impede um despejo de uma ocupação de prédios da especulação imobiliária ou produz comida de forma igualitária e sem veneno. Só a solidariedade cria um mundo novo.</p>

<p>Talvez devêssemos cultivar, junto dela, da tentação. Se os conservadores e reacionários nos dizem diariamente que essa vida é ruim, é realmente bruta, viril e violenta, “só os fortes sobrevivem”, em lugar dessa barbaridade devemos cultivar a tentação pela vida, pela solidariedade, igualdade e liberdade. <strong>Instingar e incomodar com a tentação de que a vida pode ser melhor, mais leve e menos bruta</strong> . Lembrar isso junto aos nossos e aos de baixo que foram seduzidos por ideias reacionárias é uma forma de desatar o nó entre as classes populares e o fascismo.</p>

<p>Fim deste rascunho e ideias jogadas ao ar.</p>
]]></content:encoded>
      <author>Lento, pero escrevo</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/x4scnrm973</guid>
      <pubDate>Fri, 24 Jan 2025 04:17:24 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Outro dia tentaram me matar</title>
      <link>https://blog.ayom.media/yuribravos/outro-dia-tentaram-me-matar</link>
      <description>&lt;![CDATA[Eu dirijo há mais de uma década. Nunca me envolvi em nenhum acidente sério, embora tenha tido uma ou outra batida de leve, sem danos além dos materiais.&#xA;&#xA;Tirei a carteira de moto depois que casei, pois só tinha uma vaga e não cabiam dois carros. A primeira coisa que me deixou abismado com a motoescola é o fato — completamente aberrante, mas encarado como normal — de não ter aulas práticas no trânsito. &#xA;&#xA;Tudo que te ensinam é se equilibrar sobre a moto e andar na primeira marcha. Nem ensinam a passar as marchas. Isso fica para o motociclista descobrir sozinho no meio da rua. Daí entendi porque há tantos motociclistas que dirigem de forma imprudente e sem noção: eles não foram ensinados a trafegar no meio de outros veículos.&#xA;&#xA;Dito isso, eu já tinha mais de dez anos de prática no volante quando tirei a carteira de moto, então sempre dirigi de forma prudente. De forma correta. Até que, outro dia, tentaram me matar.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Eu também ando de bicicleta. Já andei mais. Por duas vezes fui derrubado por motoristas de carro que ignoraram qualquer regra básica de trânsito como preferênciais. Um deles fugiu, a outra se comprometeu a pagar pelo menos o conserto da minha bicicleta. Em ambos os casos a coisa me pareceu mais desatenção que qualquer outra coisa. &#xA;&#xA;Uma desatenção, é óbvio, pavimentada sobre a percepção que a rua pertence aos carros e que, portanto, tudo mais deve parar e esperar que façam o que bem entenderem.&#xA;&#xA;Nenhuma desculpa para o carrocentrismo das nossas vias urbanas.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Voltava do meu treino, pelo caminho que sempre faço. Tinha passado no mercado pra comprar algo para preparar a janta. No meu caminho, eu dobro à esquerda num entroncamento entre duas avenidas. A pista da direita também é bem comprometida, o que me faz, normalmente, seguir na pista da esquerda por 4 ou 5 quarteirões antes de dobrar no tal entroncamento.&#xA;&#xA;O que não deveria ser um problema, já que vou rodando na velocidade máxima da via, 50km/h. Idealmente ninguém deveria fazer ultrapassagens se seguimos na velocidade máxima. Ainda mais depois das 20h, quando sequer tem trânsito pesado.&#xA;&#xA;Pois bem, nesse dia eu seguia na faixa da esquerda, faltavam 3 quarteirões para virar. Notei, pelo retrovisor, um carro vindo em alta velocidade. Deu sinal de luz, buzinou. Fiz um gesto para que ele seguisse pela direita que estava completamente livre, afinal, logo mais eu iria virar à esquerda.&#xA;&#xA;O motorista assim o fez, mas jogou o carro para cima de mim. Não passou perto o bastante para ser um problema. Não acelerei, apesar de tê-lo xingado mentalmente, e deixei o infeliz seguir seu caminho. Não fiz qualquer gesto agressivo. &#xA;&#xA;Acontece que, como todos sabemos, correr é um auto-engano. Quando chegou no sinal do entroncamento e eu segui para o espaço de espera dos motociclistas, que fica à frente dos carros, acabei passando esse mesmo motorista, que esperava na fila da esquerda. Não fiz nenhum gesto, não alterei a velocidade, apenas segui meu caminho. Parei no mesmo sinal que ele.&#xA;&#xA;O assassino saiu da fila, passou para a direita, parou o carro do meu lado. Baixou o vidro e começou a gritar sobre como eu precisava aprender a dirigir. Não respondi nada, não esbocei reações. O sinal abriu. Saí com minha moto. E pela segunda vez o assassino jogou o carro para cima de mim, dessa vez, encostando. &#xA;&#xA;A sorte é que estava em baixa velocidade. Não cheguei a cair, embora tenha danificado minha moto. Ele fugiu, certo da impunidade. &#xA;&#xA;Fiquei incrédulo. Respirei fundo. A moto ainda funcionava. Segui para casa. Botei uma braçadeira pra segurar a carenagem da moto enquanto não consertava. Registrei um boletim de ocorrência. No dia seguinte, fui à autarquia municipal de trânsito solicitar as filmagens das câmeras. Pois, talvez ele não sabia, mas aquele cruzamento é videomonitorado 24h. Abri o processo de solicitação e aguardei. Quase vinte dias depois, recebi as filmagens.&#xA;&#xA;Infelizmente as instituições não funcionaram: as filmagens pegam exatamente o momento, mas é impossível identificar a placa do carro. A qualidade da imagem é péssima para esse tipo de detalhe.&#xA;&#xA;  Ainda assim, se você souber maneiras de melhorar a nitidez de uma filmagem de forma quase mágica, estou aberto a sugestões.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Depois disso, pela primeira vez na vida — as benesses das minhas circunstâncias — fiquei receoso de me locomover na cidade. Pois é evidente que aquele motorista queria me matar. Ele não tinha nenhum motivo para isso, mas queria. &#xA;&#xA;Outro dia, voltando do trabalho 17h, vi uma outra pessoa com um  carro grande — evidentemente — dirigindo numa velocidade absurda para as vias coletoras que faziam aquele caminho. O trânsito nem estava caótico, seguia normal. Mas a pessoa dirigia com clara sede de sangue. Quem ela queria matar? &#xA;&#xA;Não sei. Espero que não seja eu, que fiz tudo direitinho, sem fazer mal a ninguém, e ainda assim, virei alvo de matador.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Eu dirijo há mais de uma década. Nunca me envolvi em nenhum acidente sério, embora tenha tido uma ou outra batida de leve, sem danos além dos materiais.</p>

<p>Tirei a carteira de moto depois que casei, pois só tinha uma vaga e não cabiam dois carros. A primeira coisa que me deixou abismado com a <em>motoescola</em> é o fato — completamente aberrante, mas encarado como normal — de não ter aulas práticas no trânsito.</p>

<p>Tudo que te ensinam é se equilibrar sobre a moto e andar na primeira marcha. Nem ensinam a <strong>passar</strong> as marchas. Isso fica para o motociclista descobrir sozinho no meio da rua. Daí entendi porque há tantos motociclistas que dirigem de forma imprudente e sem noção: eles não foram ensinados a trafegar no meio de outros veículos.</p>

<p>Dito isso, eu já tinha mais de dez anos de prática no volante quando tirei a carteira de moto, então sempre dirigi de forma prudente. <strong>De forma correta</strong>. Até que, <em>outro dia</em>, <em>tentaram me matar</em>.</p>

<hr>

<p>Eu também ando de bicicleta. Já andei mais. Por duas vezes fui derrubado por motoristas de carro que ignoraram qualquer regra básica de trânsito como <em>preferênciais</em>. Um deles fugiu, a outra se comprometeu a pagar pelo menos o conserto da minha bicicleta. Em ambos os casos a coisa me pareceu mais <em>desatenção</em> que qualquer outra coisa.</p>

<p>Uma desatenção, é óbvio, pavimentada sobre a percepção que a rua pertence aos carros e que, portanto, tudo mais deve parar e esperar que façam o que bem entenderem.</p>

<p>Nenhuma desculpa para o carrocentrismo das nossas vias urbanas.</p>

<hr>

<p>Voltava do meu treino, pelo caminho que sempre faço. Tinha passado no mercado pra comprar algo para preparar a janta. No meu caminho, eu dobro à esquerda num entroncamento entre duas avenidas. A pista da direita também é bem comprometida, o que me faz, normalmente, seguir na pista da esquerda por 4 ou 5 quarteirões antes de dobrar no tal entroncamento.</p>

<p>O que não deveria ser um problema, já que vou rodando na velocidade máxima da via, 50km/h. Idealmente ninguém deveria fazer ultrapassagens se seguimos na velocidade máxima. Ainda mais depois das 20h, quando sequer tem trânsito pesado.</p>

<p>Pois bem, nesse dia eu seguia na faixa da esquerda, faltavam 3 quarteirões para virar. Notei, pelo retrovisor, um carro vindo em alta velocidade. Deu sinal de luz, buzinou. Fiz um gesto para que ele seguisse pela direita que estava completamente livre, afinal, logo mais eu iria virar à esquerda.</p>

<p>O motorista assim o fez, mas jogou o carro para cima de mim. Não passou perto o bastante para ser um problema. Não acelerei, apesar de tê-lo xingado mentalmente, e deixei o infeliz seguir seu caminho. Não fiz qualquer gesto agressivo.</p>

<p>Acontece que, como todos sabemos, correr é um auto-engano. Quando chegou no sinal do entroncamento e eu segui para o espaço de espera dos motociclistas, que fica à frente dos carros, acabei passando esse mesmo motorista, que esperava na fila da esquerda. Não fiz nenhum gesto, não alterei a velocidade, apenas segui meu caminho. Parei no mesmo sinal que ele.</p>

<p>O assassino saiu da fila, passou para a direita, parou o carro do meu lado. Baixou o vidro e começou a gritar sobre como eu precisava aprender a dirigir. Não respondi nada, não esbocei reações. O sinal abriu. Saí com minha moto. <strong>E pela segunda vez o assassino jogou o carro para cima de mim, dessa vez, encostando</strong>.</p>

<p>A sorte é que estava em baixa velocidade. Não cheguei a cair, embora tenha danificado minha moto. Ele fugiu, certo da impunidade.</p>

<p>Fiquei incrédulo. Respirei fundo. A moto ainda funcionava. Segui para casa. Botei uma braçadeira pra segurar a carenagem da moto enquanto não consertava. Registrei um boletim de ocorrência. No dia seguinte, fui à autarquia municipal de trânsito solicitar as filmagens das câmeras. Pois, talvez ele não sabia, mas aquele cruzamento é videomonitorado 24h. Abri o processo de solicitação e aguardei. Quase vinte dias depois, recebi as filmagens.</p>

<p>Infelizmente as instituições não funcionaram: as filmagens pegam exatamente o momento, mas é impossível identificar a placa do carro. A qualidade da imagem é péssima para esse tipo de detalhe.</p>

<blockquote><p><strong>Ainda assim, se você souber maneiras de melhorar a nitidez de uma filmagem de forma quase mágica, estou aberto a sugestões.</strong></p></blockquote>

<hr>

<p>Depois disso, pela primeira vez na vida — as benesses das minhas circunstâncias — fiquei receoso de me locomover na cidade. Pois é evidente que aquele motorista <em>queria me matar</em>. Ele não tinha nenhum motivo para isso, mas queria.</p>

<p>Outro dia, voltando do trabalho 17h, vi uma outra pessoa com um  carro grande — evidentemente — dirigindo numa velocidade absurda para as vias coletoras que faziam aquele caminho. O trânsito nem estava caótico, seguia normal. Mas a pessoa dirigia com clara sede de sangue. Quem ela queria matar?</p>

<p>Não sei. Espero que não seja eu, que fiz tudo direitinho, sem fazer mal a ninguém, e ainda assim, virei alvo de matador.</p>
]]></content:encoded>
      <author>yuribravos</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/1jdepkoi8g</guid>
      <pubDate>Mon, 09 Dec 2024 11:46:24 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Paz entre nós</title>
      <link>https://blog.ayom.media/vereda/paz-entre-nos</link>
      <description>&lt;![CDATA[O compartilhamento deste texto é permitido segundo a licença CC BY-ND 4.0.&#xA;&#xA;Tags: #Militância #Pessoal #Neurodivergência&#xA;&#xA;Introdução&#xA;&#xA;Faz 4 meses que abandonei a Força Esperança. Nesse período passei por um mergulho em profunda depressão, mas hoje, estando em clara tendência de deixar os dias assustadores para trás, posso reavaliar a minha relação com a FE.&#xA;&#xA;Não sabe o que é a Força Esperança? Leia meu texto Desfiliação.&#xA;&#xA;Esse texto é um resgate de coisas que já falei antes, mas com um olhar mais analítico permitido pela maior tranquilidade emocional, afim de processar o que ocorreu comigo. Na última seção vou além do retorno ao passado e traço caminhos para o futuro. Tenha em mente que esse ainda assim é um relato subjetivo, que não leva em consideração as versões das diferentes pessoas envolvidas.&#xA;&#xA;Começo&#xA;&#xA;Começando do começo, eu vinha tratando um quadro depressivo-ansioso desde o começo de 2021, fruto da pressão no trabalho, mas com remédio e terapia estava estável. Mesmo com esse suporte, eu adoeci pra valer em 2023. O diagnóstico oficial foi de transtorno misto ansioso e depressivo (F41.2) combinado com esgotamento (Z73.0). Na época, o esgotamento parecia se sobressair. Eu estava exausta para tudo. Pensei que nunca mais fosse conseguir voltar a trabalhar com o rendimento que eu antes tinha. E, passado mais de 1 ano deste colapso, apesar de grande melhora, posso dizer que ainda não recuperei a energia e estabilidade que eu tinha antes.&#xA;&#xA;Necessário pontuar que a piora do meu quadro coincidiu com o momento em que passei a ser contabilizada para a cota PcD no trabalho, e discriminada como tal, porém sem obter adaptações razoáveis nos termos da lei. Esse tratamento diferenciado, combinado com o pessimismo sobre a estagnação de carreira de uma PcD, minou a minha autoestima.&#xA;&#xA;Foi também por volta desse momento que conhecidos me falaram de um tal de comunismo na Internet. Achei que seria algo tosco, mas fui aos poucos sendo convencida pela dialética materialista e a revolta foi me radicalizando. Me convenci que eu não teria chance de lutar sozinha e que precisaria me organizar. Me aproximei da FE, comecei a estudar e a participar das atividades.&#xA;&#xA;Desde o começo esclareci a minha situação: eu estava adoecida pelo esgotamento e em recuperação. Minha coordenação compreendia que por causa disso eu não poderia participar de todas as atividades, mas isso não impediu que eu fosse estimulada a me envolver cada vez mais: mais participação em brigadas de venda de jornal, mais cotas individuais de jornal para vender, mais participação em atos e atividades de finanças, mais estudo e apresentação. Minha coordenação me disse que era o papel dela me estimular a fazer cada vez mais. Afinal, os comunistas praticam a profissionalização do trabalho de militância e nisso a FE era exemplar, mas havia um óbvio problema: Eu não estava em plenas condições de trabalhar.&#xA;&#xA;Eu errei em ceder a esse estimulo. É parte do quadro clínico de esgotamento o histórico de alto envolvimento com o trabalho. E eu estava novamente cometendo o mesmo erro que me fez adoecer por causa de meu ofício. E minha coordenação não me ajudou a encontrar formas de aliviar o autojulgamento de &#34;estar fazendo menos do que eu deveria&#34;, muito pelo contrário, já que nos fazia ler materiais que explicitavam a importância moral do comprometimento e da disciplina. Ao invés de me parabenizar pelo que eu havia conseguido, eu recebia o estímulo a fazer ainda mais. Isto era contraprodutivo para meu momento de recuperação.&#xA;&#xA;Afastamento&#xA;&#xA;Em determinado momento eu desenvolvi hiperfoco em certa pauta compatível com o programa da FE. Observei que haviam organizações brigando por mudanças políticas com relação ao uso de dados e da tecnologia da informação. Como boa militante, passei a tentar convencer os companheiros de que precisaríamos debater essa pauta como organização também, assim como já era feito com a questão sindical, estudantil e feminina. Era, e ainda é, minha crença que a questão da tecnologia da informação necessita ser trabalhada de maneira organizada, sem aventureirismos.&#xA;&#xA;Claramente eu estava propondo uma pauta que era maior do que a FE. As tentativas de trabalhar esse tema eram negligenciadas com argumentos fracos como &#34;A FE é uma organização dentro da lei e não há motivos de tratar esse tema&#34;. E por não verem o tema como relevante, o assunto foi silenciado: Comportamento típico de quadros antigos que insistem em interpretar novos fenômenos da forma que lhes é familiar. A pauta que estava em pleno debate público internacional foi menosprezada internamente. Não tive o espaço para desenvolvê-la e apresentá-la a mais pessoas além do meu núcleo imediato.&#xA;&#xA;Aqui entra em ação a obstinação natural de uma pessoa autista. Quanto mais me ignoravam e me davam justificativas fracas, mais forte ficava meu interesse, mais eu me aprofundava no assunto, mais eu pesquisava, para poder convencer as pessoas de que esse assunto era (é!) importante. Eu fui fisgada pelo hiperfoco, e isso tem seu lado bom e seu lado ruim.&#xA;&#xA;Eu pedi ajuda de minha coordenação para me ajudar a manter a calma, mas a ajuda que ela podia oferecer era insuficiente. Acabei agindo desesperadamente e quebrando a disciplina numa tentativa de chamar a atenção. A autocrítica é óbvia, pois eu já sabia que estava agindo de forma incorreta mesmo antes de me advertirem.&#xA;&#xA;Contudo, continuo sem saber como poderia ter agido melhor. Sendo a pauta suprimida silenciosamente e estando desconfiada de omissão da minha coordenação, o que eu poderia fazer? A hierarquia não permitia que eu levasse a pauta para amplo debate, sob argumentos que não convenciam logicamente e sequer indicavam ter havido decisão coletiva anterior. Sem democracia não se pode exigir disciplina. Eu rejeito a acusação de individualismo e de desvio pequeno-burguês de minha parte. Se eu agi da forma como o fiz, foi por não ser capaz de tratar o assunto de outra forma. Há uma grave incoerência entre o que é dito (operamos na legalidade) e o que é praticado (decisões tomadas por organismos ocultos, sem envolvimento das bases). Que queriam que eu fizesse? Que me resignasse com o silêncio e aceitasse a minha insignificância em propor reivindicações?&#xA;&#xA;Na ocasião da crítica realizada sobre minha conduta houve ainda um erro de agregar na mesma oportunidade a devolutiva sobre o teor da matéria que eu havia escrito. Julgaram meu texto idealista e anticientífico. Quem julgou, isso eu não tive o direito de saber. A devolutiva me foi passada anonimamente por minha coordenação. Seria eu idealista ou seria o avaliador secreto um passivo oportunista?&#xA;&#xA;Me permitam demonstrar fraqueza por um instante. Essa devolutiva me destruiu um pouco mais. Eu estava há meses trabalhando nesse tema, de modo que ele tomou a importância de missão para mim, incentivada por minha coordenação que me exigia uma proposta mais estruturada para levar o tema para a apreciação do organismo superior. E depois de todo o tempo de pesquisa e estudo tudo que eu tive o direito de receber foram 2 rótulos negativos provindos de um avaliador anônimo. Isso me fez ter, em 2024, meu segundo colapso, sem haver ainda me recuperado do primeiro.&#xA;&#xA;Os sentimentos de inutilidade e incapacidade retornaram, e eu chorei a maior parte dos dias naquela semana. Permito-lhes que me chamem de fraca ou de doente, ou até mesmo de imatura. O que rejeito, porém, é que me digam que eu estava errada. A mágoa era o sentimento possível naquele momento adoecido, mas hoje, entendendo que eu tinha a razão, posso transformar esse sentimento em raiva útil.&#xA;&#xA;A conduta autodestrutiva que eu desenvolvi nesses 4 meses de depressão profunda, felizmente está ficando para trás.&#xA;&#xA;Reorganize-se da forma que der&#xA;&#xA;Mesmo acreditando que eu estava correta eu não tenho força ainda para voltar naquele ambiente e lutar para que o certo seja aplicado. Por meu movimento de autopreservação fui chamada de sectarista. Isso consolida a crença de que eu não sou bem-vinda naquele espaço. Não há acolhimento de minha condição de saúde, nem tampouco de minha neurodivergência. Podem me chamar de idealista, mas eu continuarei defendendo que ninguém é obrigado a estar em um espaço em que se é excluído. Se o preço para isso é não poder atuar na construção da revolução brasileira, então esse é um custo que eu terei que arcar. A gente faz o que dá, e pra mim não dá pra seguir recuperando minha saúde e minha capacidade de trabalhar naquele coletivo.&#xA;&#xA;Acredito hoje no que disseram algumes amigues: que a organização necessita merecer a nossa participação tanto quanto nós necessitamos merecer estar na organização. Eu sou uma pessoa neurodivergente, com necessidade de suporte aumentada por conta do adoecimento que o trabalho me proporcionou e do qual tenho ainda sequelas. Se uma organização de massas tal qual a FE não é capaz de me acolher, ela então não me representa. Arrisco que não representa nenhuma pessoa com deficiência ou que se encontre incapacitada para o trabalho de forma temporária ou definitiva.&#xA;&#xA;Felizmente eu fui acolhida em outra organização, de ideologia anarquista. Não que eu tenha passado a rejeitar o marxismo e os aportes de validez universal de Lênin sobre como realizar a revolução. Acontece que neste momento eu necessito mais do que contribuir para a construção do socialismo científico. Preciso voltar a me julgar útil e competente. O coletivo anarquista me oferece uma forma de me integrar no trabalho coletivo dentro das minhas possibilidades, e isso favorece a minha cura.&#xA;&#xA;O anarquismo é o meio-termo que permite que eu siga trabalhando coletivamente, de forma não alienada, no presente. E vendo a enorme quantidade de pessoas neurodivergentes que estão em coletivos anarquistas, vejo que não sou só eu que, apesar de rejeitar a ideologia individualista, não se adequa para estar em um coletivo marxista-leninista. Os comunistas estão falhando conosco, e não poderemos trabalhar juntos enquanto o capacitismo não for adequadamente tratado.&#xA;&#xA;Lembro que autistas verbais (comumente chamado de nível &#34;leve&#34;) tem 9 vezes mais chance de cometer suicídio do que pessoas neurotípicas. Prosseguir moralizando inadequações de neurodivergentes é fazer pouco caso dos problemas comportamentais e de convivência que caracterizam o quadro de TEA, bem como outras condições. Demandar a inclusão hoje é garantir que o movimento trabalhador cresça com o apoio das potencialidades de neurodivergentes, para que não tenha que, vitoriosa a revolução, condenar-nos dissidentes que devem ser exterminados.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>O compartilhamento deste texto é permitido segundo a licença <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nd/4.0/legalcode.pt" rel="nofollow">CC BY-ND 4.0</a>.</p>

<p>Tags: #Militância #Pessoal #Neurodivergência</p>

<h2 id="introdução">Introdução</h2>

<p>Faz 4 meses que abandonei a Força Esperança. Nesse período passei por um mergulho em profunda depressão, mas hoje, estando em clara tendência de deixar os dias assustadores para trás, posso reavaliar a minha relação com a FE.</p>

<p>Não sabe o que é a Força Esperança? Leia meu texto <a href="https://blog.ayom.media/vereda/desfiliacao" rel="nofollow">Desfiliação</a>.</p>

<p>Esse texto é um resgate de coisas que já falei antes, mas com um olhar mais analítico permitido pela maior tranquilidade emocional, afim de processar o que ocorreu comigo. Na última seção vou além do retorno ao passado e traço caminhos para o futuro. Tenha em mente que esse ainda assim é um relato subjetivo, que não leva em consideração as versões das diferentes pessoas envolvidas.</p>

<h2 id="começo">Começo</h2>

<p>Começando do começo, eu vinha tratando um quadro depressivo-ansioso desde o começo de 2021, fruto da pressão no trabalho, mas com remédio e terapia estava estável. Mesmo com esse suporte, eu adoeci pra valer em 2023. O diagnóstico oficial foi de transtorno misto ansioso e depressivo (F41.2) combinado com esgotamento (Z73.0). Na época, o esgotamento parecia se sobressair. Eu estava exausta para tudo. Pensei que nunca mais fosse conseguir voltar a trabalhar com o rendimento que eu antes tinha. E, passado mais de 1 ano deste colapso, apesar de grande melhora, posso dizer que ainda não recuperei a energia e estabilidade que eu tinha antes.</p>

<p>Necessário pontuar que a piora do meu quadro coincidiu com o momento em que passei a ser contabilizada para a cota PcD no trabalho, e discriminada como tal, porém sem obter adaptações razoáveis nos termos da lei. Esse tratamento diferenciado, combinado com o pessimismo sobre a estagnação de carreira de uma PcD, minou a minha autoestima.</p>

<p>Foi também por volta desse momento que conhecidos me falaram de um tal de comunismo na Internet. Achei que seria algo tosco, mas fui aos poucos sendo convencida pela dialética materialista e a revolta foi me radicalizando. Me convenci que eu não teria chance de lutar sozinha e que precisaria me organizar. Me aproximei da FE, comecei a estudar e a participar das atividades.</p>

<p>Desde o começo esclareci a minha situação: eu estava adoecida pelo esgotamento e em recuperação. Minha coordenação compreendia que por causa disso eu não poderia participar de todas as atividades, mas isso não impediu que eu fosse estimulada a me envolver cada vez mais: mais participação em brigadas de venda de jornal, mais cotas individuais de jornal para vender, mais participação em atos e atividades de finanças, mais estudo e apresentação. Minha coordenação me disse que era o papel dela me estimular a fazer cada vez mais. Afinal, os comunistas praticam a profissionalização do trabalho de militância e nisso a FE era exemplar, mas havia um óbvio problema: Eu não estava em plenas condições de trabalhar.</p>

<p>Eu errei em ceder a esse estimulo. É parte do quadro clínico de esgotamento o histórico de alto envolvimento com o trabalho. E eu estava novamente cometendo o mesmo erro que me fez adoecer por causa de meu ofício. E minha coordenação não me ajudou a encontrar formas de aliviar o autojulgamento de “estar fazendo menos do que eu deveria”, muito pelo contrário, já que nos fazia ler materiais que explicitavam a importância moral do comprometimento e da disciplina. Ao invés de me parabenizar pelo que eu havia conseguido, eu recebia o estímulo a fazer ainda mais. Isto era contraprodutivo para meu momento de recuperação.</p>

<h2 id="afastamento">Afastamento</h2>

<p>Em determinado momento eu desenvolvi hiperfoco em certa pauta compatível com o programa da FE. Observei que haviam organizações brigando por mudanças políticas com relação ao uso de dados e da tecnologia da informação. Como boa militante, passei a tentar convencer os companheiros de que precisaríamos debater essa pauta como organização também, assim como já era feito com a questão sindical, estudantil e feminina. Era, e ainda é, minha crença que a questão da tecnologia da informação necessita ser trabalhada de maneira organizada, sem aventureirismos.</p>

<p>Claramente eu estava propondo uma pauta que era maior do que a FE. As tentativas de trabalhar esse tema eram negligenciadas com argumentos fracos como “A FE é uma organização dentro da lei e não há motivos de tratar esse tema”. E por não verem o tema como relevante, o assunto foi silenciado: Comportamento típico de quadros antigos que insistem em interpretar novos fenômenos da forma que lhes é familiar. A pauta que estava em pleno debate público internacional foi menosprezada internamente. Não tive o espaço para desenvolvê-la e apresentá-la a mais pessoas além do meu núcleo imediato.</p>

<p>Aqui entra em ação a obstinação natural de uma pessoa autista. Quanto mais me ignoravam e me davam justificativas fracas, mais forte ficava meu interesse, mais eu me aprofundava no assunto, mais eu pesquisava, para poder convencer as pessoas de que esse assunto era (é!) importante. Eu fui fisgada pelo hiperfoco, e isso tem seu lado bom e seu lado ruim.</p>

<p>Eu pedi ajuda de minha coordenação para me ajudar a manter a calma, mas a ajuda que ela podia oferecer era insuficiente. Acabei agindo desesperadamente e quebrando a disciplina numa tentativa de chamar a atenção. A autocrítica é óbvia, pois eu já sabia que estava agindo de forma incorreta mesmo antes de me advertirem.</p>

<p><strong>Contudo, continuo sem saber como poderia ter agido melhor.</strong> Sendo a pauta suprimida silenciosamente e estando desconfiada de omissão da minha coordenação, o que eu poderia fazer? A hierarquia não permitia que eu levasse a pauta para amplo debate, sob argumentos que não convenciam logicamente e sequer indicavam ter havido decisão coletiva anterior. Sem democracia não se pode exigir disciplina. Eu rejeito a acusação de individualismo e de desvio pequeno-burguês de minha parte. Se eu agi da forma como o fiz, foi por não ser capaz de tratar o assunto de outra forma. Há uma grave incoerência entre o que é dito (operamos na legalidade) e o que é praticado (decisões tomadas por organismos ocultos, sem envolvimento das bases). Que queriam que eu fizesse? Que me resignasse com o silêncio e aceitasse a minha insignificância em propor reivindicações?</p>

<p>Na ocasião da crítica realizada sobre minha conduta houve ainda um erro de agregar na mesma oportunidade a devolutiva sobre o teor da matéria que eu havia escrito. Julgaram <a href="https://blog.ayom.media/vereda/cryptorave-tecnologia-e-politica-sao-indissociaveis" rel="nofollow">meu texto</a> idealista e anticientífico. Quem julgou, isso eu não tive o direito de saber. A devolutiva me foi passada anonimamente por minha coordenação. Seria eu idealista ou seria o avaliador secreto um passivo oportunista?</p>

<p>Me permitam demonstrar fraqueza por um instante. Essa devolutiva me destruiu um pouco mais. Eu estava há meses trabalhando nesse tema, de modo que ele tomou a importância de missão para mim, incentivada por minha coordenação que me exigia uma proposta mais estruturada para levar o tema para a apreciação do organismo superior. E depois de todo o tempo de pesquisa e estudo tudo que eu tive o direito de receber foram 2 rótulos negativos provindos de um avaliador anônimo. Isso me fez ter, em 2024, meu segundo colapso, sem haver ainda me recuperado do primeiro.</p>

<p>Os sentimentos de inutilidade e incapacidade retornaram, e eu chorei a maior parte dos dias naquela semana. Permito-lhes que me chamem de fraca ou de doente, ou até mesmo de imatura. O que rejeito, porém, é que me digam que eu estava errada. A mágoa era o sentimento possível naquele momento adoecido, mas hoje, entendendo que eu tinha a razão, posso transformar esse sentimento em raiva útil.</p>

<p>A conduta autodestrutiva que eu desenvolvi nesses 4 meses de depressão profunda, felizmente está ficando para trás.</p>

<h2 id="reorganize-se-da-forma-que-der">Reorganize-se da forma que der</h2>

<p>Mesmo acreditando que eu estava correta eu não tenho força ainda para voltar naquele ambiente e lutar para que o certo seja aplicado. Por meu movimento de autopreservação fui chamada de sectarista. Isso consolida a crença de que eu não sou bem-vinda naquele espaço. Não há acolhimento de minha condição de saúde, nem tampouco de minha neurodivergência. Podem me chamar de idealista, mas eu continuarei defendendo que ninguém é obrigado a estar em um espaço em que se é excluído. Se o preço para isso é não poder atuar na construção da revolução brasileira, então esse é um custo que eu terei que arcar. A gente faz o que dá, e pra mim não dá pra seguir recuperando minha saúde e minha capacidade de trabalhar naquele coletivo.</p>

<p>Acredito hoje no que disseram algumes amigues: que a organização necessita merecer a nossa participação tanto quanto nós necessitamos merecer estar na organização. Eu sou uma pessoa neurodivergente, com necessidade de suporte aumentada por conta do adoecimento que o trabalho me proporcionou e do qual tenho ainda sequelas. Se uma organização de massas tal qual a FE não é capaz de me acolher, ela então não me representa. Arrisco que não representa nenhuma pessoa com deficiência ou que se encontre incapacitada para o trabalho de forma temporária ou definitiva.</p>

<p>Felizmente eu fui acolhida em outra organização, de ideologia anarquista. Não que eu tenha passado a rejeitar o marxismo e os aportes de validez universal de Lênin sobre como realizar a revolução. Acontece que neste momento eu necessito mais do que contribuir para a construção do socialismo científico. Preciso voltar a me julgar útil e competente. O coletivo anarquista me oferece uma forma de me integrar no trabalho coletivo dentro das minhas possibilidades, e isso favorece a minha cura.</p>

<p>O anarquismo é o meio-termo que permite que eu siga trabalhando coletivamente, de forma não alienada, no presente. E vendo a enorme quantidade de pessoas neurodivergentes que estão em coletivos anarquistas, vejo que não sou só eu que, apesar de rejeitar a ideologia individualista, não se adequa para estar em um coletivo marxista-leninista. Os comunistas estão falhando conosco, e não poderemos trabalhar juntos enquanto o capacitismo não for adequadamente tratado.</p>

<p>Lembro que autistas verbais (comumente chamado de nível “leve”) <a href="https://www.canalautismo.com.br/artigos/riscos-de-suicidio-em-autistas/" rel="nofollow">tem 9 vezes mais chance de cometer suicídio do que pessoas neurotípicas</a>. Prosseguir moralizando inadequações de neurodivergentes é fazer pouco caso dos problemas comportamentais e de convivência que caracterizam o quadro de TEA, bem como outras condições. Demandar a inclusão hoje é garantir que o movimento trabalhador cresça com o apoio das potencialidades de neurodivergentes, para que não tenha que, vitoriosa a revolução, condenar-nos dissidentes que devem ser exterminados.</p>
]]></content:encoded>
      <author>vereda</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/cs71awjq42</guid>
      <pubDate>Mon, 14 Oct 2024 18:56:50 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Receita: Bolo Pão de Mel</title>
      <link>https://blog.ayom.media/yuribravos/receita-bolo-pao-de-mel</link>
      <description>&lt;![CDATA[Contextos&#xA;&#xA;Essa é uma das melhores receitas que faço. Mal me lembro onde eu a encontrei pela primeira vez. Acho que numa versão antiga do Receitas de Minuto. Fiz umas pequenas adaptações, alterando a proporção de farinha de trigo e leite; e guardei a receita já adaptada em anotações próprias.&#xA;&#xA;Porém, fazia algum tempo que não colocava esse bolo para assar. Por ser um bolo pão de mel, o ingrediente essencial e chave para ficar uma delícia é: mel.&#xA;&#xA;E qualquer um que frequente um supermercado ou lojinhas à granel sabe o preço proibitivo de uma garrafa de mel.&#xA;&#xA;Eu perdi meus atravessadores pessoais desse líquido viscoso e dourado: os pais de um amigo moravam no interior (Tianguá), e iam e vinham com frequência para a capital, agora se mudaram de vez e já não podem fazer o tráfico.&#xA;&#xA;Até o dia que, após comentar com uma colega de trabalho sobre esse bolo, ela ficou de me trazer mel. Demorou, mas ela chegou com um pote daqueles de geléia cheinho de mel bem claro. Como gratidão, fiquei de levar o bolo para os colegas e, num domingo à tarde, tomei coragem de prepará-lo (não que seja difícil o preparo, mas às vezes só queremos ficar de barriga pra cima nos domingos à tarde).&#xA;&#xA;Receita&#xA;&#xA;Ingredientes&#xA;&#xA;Bolo&#xA;&#xA;1 colher (sopa) de bicarbonato de sódio em pó&#xA;3 xícaras (chá) de leite&#xA;3 colheres (sopa) de manteiga&#xA;3 xícaras (chá) de açúcar&#xA;1 xícara (chá) de mel&#xA;5 xícaras (chá) de farinha de trigo&#xA;1 colher (sopa) de canela em pó&#xA;&#xA;Ganache&#xA;&#xA;100gr de chocolate meio amargo derretido&#xA;Creme de leite&#xA;&#xA;Modo de Preparo&#xA;&#xA;Untar a forma e pré-aquecer o forno a 200~230°C.&#xA;Dissolva o bicarbonato em uma xícara de leite.&#xA;Coloque na batedeira junto com todos os outros ingredientes. Sem uma ordem específica. Botar os secos primeiros talvez ajude a não voar farinha por aí. &#xA;Bater até ficar homogêneo.&#xA;Levar ao forno por cerca de 30 a 40 minutos. Fazer o teste do palito para ter certeza.&#xA;Deixe o bolo esfriar para desenformar.&#xA;Para ganache, derreta o chocolate em banho maria ou pondo de 30 em 30 segundos no microondas. Adicione creme de leite ao chocolate derretido. Isso sempre faço no olho, perdoe. Evite por muito creme de leite para não ficar sem gosto. Depois basta espalhar sobre o bolo.&#xA;&#xA;Fotos dessa belezura&#xA;&#xA;Foto da massa homogênea dentro da batedeira. O gancho da batedeira está levantado e os pingos da massa mostram que fica mais líquida mesmo&#xA;&#xA;  Observem a consistência da massa, é mais líquida mesmo.&#xA;&#xA;Foto de dois bolos pão de mel ainda na forma sobre um tampo de madeira. A cor deles é morena clara.&#xA;&#xA;  Fui obrigado a fazer dois bolos: um pro trabalho e um para casa, pois minha esposa não admitiu dividir. Essa foto foi batida logo após eles sairem do forno. Observem que o bolo fica moreninho mesmo, mas ainda claro.&#xA;&#xA;Foto de dois bolos pão de mel ainda na forma. Eles estão mais escuros do que no momento que saíram do forno.&#xA;&#xA;  Essa foto foi batida no dia seguinte, antes de desenformar. Vejam que eles ficam mais morenos. Lembrem disso pra evitar queimar. &#xA;&#xA;Foto do bolo partido, a massa interior tem cor marrom clara, parece bastante aerada. O bolo está coberto com ganache de chocolate.&#xA;&#xA;  Me diga se essa foto não entregou tudo?&#xA;&#xA;Perguntas perguntadas com frequência&#xA;&#xA;Qual o tamanho da forma para essas quantidades?&#xA;Uma forma grande de bolo furado no meio, normalmente com 24cm de diâmetro. Normalmente eu faço metade dessa receita para uma forma de 20cm de diâmetro.&#xA;&#xA;Pode trocar a manteiga por margarina?&#xA;Pode, não tem grandes alterações de sabor ou textura…&#xA;&#xA;Ao desenformar, mesmo untando bem, uma parte ficou grudada na forma. O que fazer?&#xA;Fica mesmo, desconfio que é fruto da alteração de proporções de leite e farinha que fiz. A massa fica menos densa quando crua, em compensação fica bem molhadinha quando pronto. Aceitei que há males que vem para o bem! Também é uma ótima desculpa para cobrir o bolo de ganache.&#xA;&#xA;Pode fazer a ganache com chocolate ao leite?&#xA;Aposto 10 real contigo que com chocolate meio amargo o equilíbrio do bolo e da cobertura vai ser melhor, mas seja livre.&#xA;&#xA;Precisa mesmo cobrir com ganache?&#xA;Não, ninguém é obrigado a ser feliz!&#xA;&#xA;Pode trocar mel de abelha por mel karo?&#xA;Não! Saia imediatamente daqui!]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h2 id="contextos">Contextos</h2>

<p>Essa é uma das melhores receitas que faço. Mal me lembro onde eu a encontrei pela primeira vez. Acho que numa versão antiga do <a href="https://receitasdeminuto.com/" rel="nofollow">Receitas de Minuto</a>. Fiz umas pequenas adaptações, alterando a proporção de farinha de trigo e leite; e guardei a receita já adaptada em anotações próprias.</p>

<p>Porém, fazia algum tempo que não colocava esse bolo para assar. Por ser um bolo pão de mel, o ingrediente essencial e chave para ficar uma delícia é: mel.</p>

<p>E qualquer um que frequente um supermercado ou lojinhas à granel sabe o preço proibitivo de uma garrafa de mel.</p>

<p>Eu perdi meus atravessadores pessoais desse líquido viscoso e dourado: os pais de um amigo moravam no interior (Tianguá), e iam e vinham com frequência para a capital, agora se mudaram de vez e já não podem fazer o tráfico.</p>

<p>Até o dia que, após comentar com uma colega de trabalho sobre esse bolo, ela ficou de me trazer mel. Demorou, mas ela chegou com um pote daqueles de geléia cheinho de mel bem claro. Como gratidão, fiquei de levar o bolo para os colegas e, num domingo à tarde, tomei coragem de prepará-lo (não que seja difícil o preparo, mas às vezes só queremos ficar de barriga pra cima nos domingos à tarde).</p>

<h2 id="receita">Receita</h2>

<h3 id="ingredientes">Ingredientes</h3>

<p><strong>Bolo</strong></p>
<ul><li>1 colher (sopa) de bicarbonato de sódio em pó</li>
<li>3 xícaras (chá) de leite</li>
<li>3 colheres (sopa) de manteiga</li>
<li>3 xícaras (chá) de açúcar</li>
<li>1 xícara (chá) de mel</li>
<li>5 xícaras (chá) de farinha de trigo</li>
<li>1 colher (sopa) de canela em pó</li></ul>

<p><strong>Ganache</strong></p>
<ul><li>100gr de chocolate meio amargo derretido</li>
<li>Creme de leite</li></ul>

<h3 id="modo-de-preparo">Modo de Preparo</h3>
<ol><li>Untar a forma e pré-aquecer o forno a 200~230°C.</li>
<li>Dissolva o bicarbonato em uma xícara de leite.</li>
<li>Coloque na batedeira junto com todos os outros ingredientes. Sem uma ordem específica. Botar os secos primeiros talvez ajude a não voar farinha por aí.</li>
<li>Bater até ficar homogêneo.</li>
<li>Levar ao forno por cerca de 30 a 40 minutos. Fazer o teste do palito para ter certeza.</li>
<li>Deixe o bolo esfriar para desenformar.</li>
<li>Para ganache, derreta o chocolate em banho maria ou pondo de 30 em 30 segundos no microondas. Adicione creme de leite ao chocolate derretido. Isso sempre faço no olho, perdoe. Evite por muito creme de leite para não ficar sem gosto. Depois basta espalhar sobre o bolo.</li></ol>

<h2 id="fotos-dessa-belezura">Fotos dessa belezura</h2>

<p><img src="https://capivarinha-s3.s3.de.io.cloud.ovh.net//c089b549-626f-4d6e-949c-fa4573ce5a7d.webp" alt="Foto da massa homogênea dentro da batedeira. O gancho da batedeira está levantado e os pingos da massa mostram que fica mais líquida mesmo"></p>

<blockquote><p>Observem a consistência da massa, é mais líquida mesmo.</p></blockquote>

<p><img src="https://capivarinha-s3.s3.de.io.cloud.ovh.net//419a2fcf-32b4-430a-80eb-e67b8e8c044f.webp" alt="Foto de dois bolos pão de mel ainda na forma sobre um tampo de madeira. A cor deles é morena clara."></p>

<blockquote><p>Fui obrigado a fazer dois bolos: um pro trabalho e um para casa, pois minha esposa não admitiu dividir. Essa foto foi batida logo após eles sairem do forno. Observem que o bolo fica moreninho mesmo, mas ainda claro.</p></blockquote>

<p><img src="https://capivarinha-s3.s3.de.io.cloud.ovh.net//5bb84fe1-6fa6-4587-babf-c91d8dc74537.webp" alt="Foto de dois bolos pão de mel ainda na forma. Eles estão mais escuros do que no momento que saíram do forno."></p>

<blockquote><p>Essa foto foi batida no dia seguinte, antes de desenformar. Vejam que eles ficam mais morenos. Lembrem disso pra evitar queimar.</p></blockquote>

<p><img src="https://capivarinha-s3.s3.de.io.cloud.ovh.net//8f287793-e8ee-4ff4-84cd-b7d34883a2e3.webp" alt="Foto do bolo partido, a massa interior tem cor marrom clara, parece bastante aerada. O bolo está coberto com ganache de chocolate."></p>

<blockquote><p>Me diga se essa foto não entregou tudo?</p></blockquote>

<h2 id="perguntas-perguntadas-com-frequência">Perguntas perguntadas com frequência</h2>

<p><strong>Qual o tamanho da forma para essas quantidades?</strong>
Uma forma grande de bolo furado no meio, normalmente com 24cm de diâmetro. Normalmente eu faço metade dessa receita para uma forma de 20cm de diâmetro.</p>

<p><strong>Pode trocar a manteiga por margarina?</strong>
Pode, não tem grandes alterações de sabor ou textura…</p>

<p><strong>Ao desenformar, mesmo untando bem, uma parte ficou grudada na forma. O que fazer?</strong>
Fica mesmo, desconfio que é fruto da alteração de proporções de leite e farinha que fiz. A massa fica menos densa quando crua, em compensação fica bem molhadinha quando pronto. Aceitei que há males que vem para o bem! Também é uma ótima desculpa para cobrir o bolo de ganache.</p>

<p><strong>Pode fazer a ganache com chocolate ao leite?</strong>
Aposto 10 real contigo que com chocolate meio amargo o equilíbrio do bolo e da cobertura vai ser melhor, mas seja livre.</p>

<p><strong>Precisa mesmo cobrir com ganache?</strong>
Não, ninguém é obrigado a ser feliz!</p>

<p><strong>Pode trocar mel de abelha por mel karo?</strong>
Não! Saia imediatamente daqui!</p>
]]></content:encoded>
      <author>yuribravos</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/hm3rlnebbw</guid>
      <pubDate>Fri, 20 Sep 2024 19:14:06 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Cryptorave – Tecnologia e Política são Indissociáveis</title>
      <link>https://blog.ayom.media/vereda/cryptorave-tecnologia-e-politica-sao-indissociaveis</link>
      <description>&lt;![CDATA[Tags: #Militância&#xA;&#xA;Nota da autora, 19 de setembro de 2024: Este texto foi escrito em 12 de maio de 2024 e enviado para a redação paulista de um certo jornal comunista. O texto até então não foi publicado e a justificativa oficial foi que a redação estava sobrecarregada para revisá-lo e publicá-lo. Hoje, após 4 meses de espera, acho que posso afirmar que a falta de retorno sobre o texto reflete uma omissão incorreta da redação do jornal. Confiante de estar defendendo a linha correta, e tendo as possibilidades de debate interno no partido sido negadas, torno público este texto para que seja conhecido e criticado abertamente.&#xA;&#xA;Nota da autora, 24 de setembro de 2024: Faço a autocrítica e considero incorreta minha atitude de expor o nome da organização e do jornal. O objetivo deste compartilhamento é tornar a matéria pública para debate e não em criticar o trabalho desta ou daquela organização.&#xA;&#xA;O compartilhamento deste texto é permitido segundo a licença CC BY-ND 4.0.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Nos dias 10 e 11 de maio de 2024 ocorreu em São Paulo mais uma edição da Cryptorave, o maior evento aberto e gratuito de criptografia e segurança do mundo, que reuniu, em 24 horas, diversas atividades sobre segurança, hacking, privacidade e liberdade na rede. Inspirada em uma ação global para disseminar e democratizar o conhecimento e conceitos básicos de criptografia e software livre, o evento teve início em 2014, como reação à divulgação de informações que confirmaram a ação de governos e corporações para manter a população mundial sob vigilância e monitoramento constantes.&#xA;&#xA;O público presente revelou à quem mais interessa debater segurança digital e tecnopolítica. Mulheres, pessoas negras, neurodivergentes e trans marcaram forte presença tanto na plateia quanto no palco, contrariando o estereótipo de um setor dominado por homens cis héteros e brancos. Um lembrete de quais são os grupos dentro da classe trabalhadora que mais sofrem opressão e violência, inclusive nos espaços digitais.&#xA;&#xA;O keynote de abertura, sob o tema “Tecnologias de IA e seu impacto nas vidas e narrativas Palestinas” reforçou o posicionamento político do evento, denunciando mais uma vez como as tecnologias digitais tem sido usadas para explorar e violentar a população.&#xA;&#xA;Mesmo onde não há uma guerra declarada, governos ainda perseguem sua própria população tratando-a como um inimigo interno. O Movimento Passe Livre (MPL) propôs uma roda de conversa sobre segurança e autodefesa trazendo informações sobre como movimentos sociais estão sendo criminalizados, e que isso é um projeto de São Paulo, do Brasil e de toda a América Latina.&#xA;&#xA;Relatos de vazamentos de informações internas dos movimentos e coação de menores de idade para fazer a identificação de pessoas em fotos publicadas em mídias sociais confirmaram que a preocupação com segurança não se trata de paranoia. Trata-se de uma postura urgente para garantir os direitos constitucionais à  livre manifestação de pensamento, a plena liberdade de associação para fins lícitos, a inviolabilidade da intimidade e da vida privada, a inviolabilidade das comunicações - salvo com permissão judicial - e o direito à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais.&#xA;&#xA;No keynote de encerramento “Tecnoautoritarismo: Spyware, OSINT e outras tecnologias de vigilância na América Latina” foram denunciadas as táticas de censura e espionagem dos governos contra nossos companheiros no Equador, Colômbia e México. Fica evidente, a partir de contratos de governos na América Latina para uso de ferramentas de espionagem israelense, que o avanço da máquina de guerra sobre a Palestina não é apenas uma ameaça imediata para o povo palestino, mas também uma ameaça para nós na América Latina, ao passo que o desenvolvimento de software para a guerra israelense são financiados com dinheiro público de governos latino-americanos e usados, sem a devida previsão legal, contra o próprio povo.&#xA;&#xA;As novas tecnologias informacionais são a tônica de nosso velho e admirável mundo novo. Um mundo onde tudo muda a velocidades crescentes, mas apenas para intensificar e diversificar as velhas formas de produção e extração de mais-valia. É preciso rever o colonialismo não como um fenômeno do passado, mas como um processo que perdura e se atualiza com novas expressões, e que hoje se apresenta em formato digital. A questão da tecnologia não é uma questão isolada, mas parte da materialidade do nosso tempo, se inserindo nas relações sociais como um elemento constitutivo da sociedade.&#xA;&#xA;Não é mais tolerável que militantes ignorem o debate sobre segurança da informação. Dados e metadados estão sendo coletados em enorme escala e armazenados indefinidamente em grandes centros de processamento de dados. Essas informações são agregadas com uso de técnicas de inteligência artificial (IA) para reduzir o trabalho vivo necessário, permitindo aumentar a quantidade de informações processadas por governos e corporações em uma escala sem precedentes. Técnicas estas que avançam ano após ano, e que poderão ser aplicadas retroativamente em dados coletados no presente para o perfilamento de militantes e ações contrarrevolucionárias.&#xA;&#xA;O esforço e o custo necessários para adotar e manter soluções alternativas, independentes de plataformas controladas pelos monopólios de tecnologia, devem ser priorizados para a segurança de nossos militantes e a continuidade de nossa luta, ao passo que atrapalham a coleta de informações e, por consequência, as práticas de espionagem adotadas pelos governos contra a sua própria população.&#xA;&#xA;É preciso lutar pelo fim da exploração, mas também pelo fim da expropriação de dados. O atual estágio de desenvolvimento tecnológico abriu novos caminhos para a exploração do trabalho, mas também as formas de lutar e se organizar. O caminho contudo permanece familiar: tomada de consciência e muita organização popular!]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Tags: #Militância</p>

<p><em>Nota da autora, 19 de setembro de 2024: Este texto foi escrito em 12 de maio de 2024 e enviado para a redação paulista de um certo jornal comunista. O texto até então não foi publicado e a justificativa oficial foi que a redação estava sobrecarregada para revisá-lo e publicá-lo. Hoje, após 4 meses de espera, acho que posso afirmar que a falta de retorno sobre o texto reflete uma omissão incorreta da redação do jornal. Confiante de estar defendendo a linha correta, e tendo as possibilidades de debate interno no partido sido negadas, torno público este texto para que seja conhecido e criticado abertamente.</em></p>

<p><em>Nota da autora, 24 de setembro de 2024: Faço a autocrítica e considero incorreta minha atitude de expor o nome da organização e do jornal. O objetivo deste compartilhamento é tornar a matéria pública para debate e não em criticar o trabalho desta ou daquela organização.</em></p>

<p>O compartilhamento deste texto é permitido segundo a licença <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nd/4.0/legalcode.pt" rel="nofollow">CC BY-ND 4.0</a>.</p>

<hr>

<p>Nos dias 10 e 11 de maio de 2024 ocorreu em São Paulo mais uma edição da Cryptorave, o maior evento aberto e gratuito de criptografia e segurança do mundo, que reuniu, em 24 horas, diversas atividades sobre segurança, <em>hacking</em>, privacidade e liberdade na rede. Inspirada em uma ação global para disseminar e democratizar o conhecimento e conceitos básicos de criptografia e software livre, o evento teve início em 2014, como reação à divulgação de informações que confirmaram a ação de governos e corporações para manter a população mundial sob vigilância e monitoramento constantes.</p>

<p>O público presente revelou à quem mais interessa debater segurança digital e tecnopolítica. Mulheres, pessoas negras, neurodivergentes e trans marcaram forte presença tanto na plateia quanto no palco, contrariando o estereótipo de um setor dominado por homens cis héteros e brancos. Um lembrete de quais são os grupos dentro da classe trabalhadora que mais sofrem opressão e violência, inclusive nos espaços digitais.</p>

<p>O <em>keynote</em> de abertura, sob o tema “Tecnologias de IA e seu impacto nas vidas e narrativas Palestinas” reforçou o posicionamento político do evento, denunciando mais uma vez como as tecnologias digitais tem sido usadas para explorar e violentar a população.</p>

<p>Mesmo onde não há uma guerra declarada, governos ainda perseguem sua própria população tratando-a como um inimigo interno. O Movimento Passe Livre (MPL) propôs uma roda de conversa sobre segurança e autodefesa trazendo informações sobre como movimentos sociais estão sendo criminalizados, e que isso é um projeto de São Paulo, do Brasil e de toda a América Latina.</p>

<p>Relatos de vazamentos de informações internas dos movimentos e coação de menores de idade para fazer a identificação de pessoas em fotos publicadas em mídias sociais confirmaram que a preocupação com segurança não se trata de paranoia. Trata-se de uma postura urgente para garantir os direitos constitucionais à  livre manifestação de pensamento, a plena liberdade de associação para fins lícitos, a inviolabilidade da intimidade e da vida privada, a inviolabilidade das comunicações – salvo com permissão judicial – e o direito à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais.</p>

<p>No <em>keynote</em> de encerramento “Tecnoautoritarismo: <em>Spyware</em>, OSINT e outras tecnologias de vigilância na América Latina” foram denunciadas as táticas de censura e espionagem dos governos contra nossos companheiros no Equador, Colômbia e México. Fica evidente, a partir de contratos de governos na América Latina para uso de ferramentas de espionagem israelense, que o avanço da máquina de guerra sobre a Palestina não é apenas uma ameaça imediata para o povo palestino, mas também uma ameaça para nós na América Latina, ao passo que o desenvolvimento de software para a guerra israelense são financiados com dinheiro público de governos latino-americanos e usados, sem a devida previsão legal, contra o próprio povo.</p>

<p>As novas tecnologias informacionais são a tônica de nosso velho e admirável mundo novo. Um mundo onde tudo muda a velocidades crescentes, mas apenas para intensificar e diversificar as velhas formas de produção e extração de mais-valia. É preciso rever o colonialismo não como um fenômeno do passado, mas como um processo que perdura e se atualiza com novas expressões, e que hoje se apresenta em formato digital. A questão da tecnologia não é uma questão isolada, mas parte da materialidade do nosso tempo, se inserindo nas relações sociais como um elemento constitutivo da sociedade.</p>

<p>Não é mais tolerável que militantes ignorem o debate sobre segurança da informação. Dados e metadados estão sendo coletados em enorme escala e armazenados indefinidamente em grandes centros de processamento de dados. Essas informações são agregadas com uso de técnicas de inteligência artificial (IA) para reduzir o trabalho vivo necessário, permitindo aumentar a quantidade de informações processadas por governos e corporações em uma escala sem precedentes. Técnicas estas que avançam ano após ano, e que poderão ser aplicadas retroativamente em dados coletados no presente para o perfilamento de militantes e ações contrarrevolucionárias.</p>

<p>O esforço e o custo necessários para adotar e manter soluções alternativas, independentes de plataformas controladas pelos monopólios de tecnologia, devem ser priorizados para a segurança de nossos militantes e a continuidade de nossa luta, ao passo que atrapalham a coleta de informações e, por consequência, as práticas de espionagem adotadas pelos governos contra a sua própria população.</p>

<p>É preciso lutar pelo fim da exploração, mas também pelo fim da expropriação de dados. O atual estágio de desenvolvimento tecnológico abriu novos caminhos para a exploração do trabalho, mas também as formas de lutar e se organizar. O caminho contudo permanece familiar: tomada de consciência e muita organização popular!</p>
]]></content:encoded>
      <author>vereda</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/t6ey5y9kkd</guid>
      <pubDate>Thu, 19 Sep 2024 16:58:51 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Más notícias para o Mastodon</title>
      <link>https://blog.ayom.media/yuribravos/mas-noticias-para-o-mastodon</link>
      <description>&lt;![CDATA[Quem me segue lá pelo @yuribravos@bolha.one viu que tomei dois dias para testar o Sharkey na capivarinha.club.&#xA;&#xA;Pensei algumas várias vezes antes de fazer isso, já que o Mastodon já é um microblog e eu definitivamente não preciso de dois. Acontece que tenho uma sanha por testar coisa nova.&#xA;&#xA;Experimentações &amp; repetório&#xA;&#xA;Jogo RPG desde os 17 anos. Comecei com um sistema, que joguei durante muitos anos. Aí conheci outro. Depois mais um. Depois mais outro. E hoje conheço e joguei algumas dezenas de sistemas de RPG. Me divirto muito de conhecer novas mecânicas e de vê-las em jogo, mesmo que seja só uma vez. Acho que foi jogando vários RPGs que eu entendi a importância de ter repertório. &#xA;&#xA;  Inclusive se você quiser ver algumas sugestões de jogos de RPG dadas por mim, fiz metade da hashtag #rpgaday2024. A vida me deu rasteiras na metade, mas fica essa contribuição.  &#xA;Ceci n&#39;est pas une citation&#xA;&#xA;Sim, e o que tem a ver?&#xA;&#xA;Tem a ver que essa minha incapacidade de ficar sem testar um negocinho novo me mordeu outra vez e decidi pular dentro da capivarinha para descobrir um fork do Misskey. Cabe dizer que o Arlon, companheiro aqui de blog.ayom.media no Ideias de Chirico já havia alardeado aos quatro ventos como o Mastodon era limitado e não tinha várias coisas legais que outras plataformas como o Akkoma e o Misskey tinham.&#xA;&#xA;Ele e o Kariboka — que mantém a harpia.red e esse ótimo post com links para várias instâncias br do fediverso — vez ou outra mostram como o Akkoma é legal.&#xA;&#xA;Acontece que a estética mais crua das instâncias de Akkoma que vi não me atraía muito. E sim, para mim, ser bonito é essencial. Não à toa uso o Phanpy como cliente web do Mastodon.&#xA;&#xA;Até que apareceu uma instância brasileira no Sharkey. E olha só a cara dessa desgraçada: &#xA;&#xA;Screenshot da página de login da capivarinha.club. Do lado esquerdo, um quadro contém uma mensagem de apresentação da instância, que a descreve como um ambiente relaxante e rebelde, e sobre o quadro o mascote: uma capivara com um lenço vermelho e preto atado ao pescoço. Do lado direito, sobem notas postadas pelos usuários, com as reações dadas a cada nota. O site têm cores em tons de rosa principalmente e tipografia sem serifa e bem arredondadas&#xA;&#xA;Não me contive e decidi testar!&#xA;&#xA;Maximalismo?&#xA;&#xA;A primeira impressão é que o Sharkey é um mundo. Tem muitas timelines, mais que o Mastodon. Você pode reagir com qualquer emoji que a instância tiver personalizado. Tem um sistema de desbloqueio de conquistas. A página web tem widgets na lateral que são personalizáveis. Tem umas paradas como antenas e canais que eu ainda estou tentando entender melhor como funcionam (e que constinuem timelines também). E as más línguas ainda dizem que tem joguinhos dentro da parada (esses não achei e é provável que não os procure).&#xA;&#xA;Então, ao primeiro momento, fiquei confuso. Passei um dia apenas olhando todas as abas, todas as configurações possíveis (e são muitas). E decidi levar adiante o teste. &#xA;&#xA;Nomadismo digital&#xA;&#xA;Aqui foi que me dei conta que o fediverso permite um nomadismo digital diferente do home office pelo mundo a fora: é possível trocar de redes sociais. Sem o sofrimento de começar do zero.&#xA;&#xA;Baixei a lista de pessoas que seguia no Mastodon e importei o arquivo no Sharkey. Alguns momentos depois, já seguia mais de cem pessoas. Minha timeline no Sharkey estava tão povoada quanto a do Mastodon. Foi quando entendi que o verdadeiro valor da rede social são as pessoas que você segue. Pude, então, fazer um teste perfeitamente equiparado entre as plataformas, já que não estava tolhido por não ter conteúdo para ver.&#xA;&#xA;Isso foi incrível.&#xA;&#xA;Personalização&#xA;&#xA;Algo que gosto muito é poder personalizar as coisas. Adoro isso no RPG. Adoro isso em qualquer coisa que use. O Sharkey parece ter sido feito por pessoas que adoram isso também.&#xA;&#xA;Mexer nas configurações dele é um mundo sem fim. Tem muita coisa que você pode habilitar e desabilitar. Inclusive configurar sua reação padrão, já que não existe uma única reação possível. Deixei minha reação padrão uma estrela, como é originalmente o favorito no Mastodon.&#xA;&#xA;Isso se estende também para o aplicativo Aria. Dá para personalizar a cor de fundo de alguns tipos de nota. Aproveitei isso para chupinhar o Phanpy e pintar de laranja as DMs. O aplicativo inclusive permite ajustar quais botões aparecem para interagir com as notas. Botei o botão de tradução, para facilitar minha vida, e o de reação automática, já que boa parte das pessoas que sigo são do Mastodon (e ao que me consta, parece que eles só recebem favoritos se usar a reação padrão).&#xA;&#xA;É possível, inclusive, ajustar o tamanho desses botões. Aumentei o tamanho dos meus pois, muitas vezes, estava abrindo a nota invés de interagir com ela.&#xA;&#xA;Poder fazer tudo isso é incrível!&#xA;&#xA;E acho que esse é o grande ponto forte do Sharkey: poder fazer muita coisa, inclusive não usar todas as coisas que ele oferece. Lá tem suporte nativo para markdown e, embora eu ame botar um negritozinho aqui outro ali, devo usar só em 10% das postagens que faço. Ainda assim, é melhor poder fazer do que não poder fazer.&#xA;&#xA;Mastodon ou Sharkey?&#xA;&#xA;E agora que descobrimos que o Mastodon não é a plataforma mais legal de microblogging do fediverso? É ótimo haver opções. Poder levar as pessoas que você segue de um lugar para outro é o que garante que você pode, de fato mudar de instância a qualquer momento. &#xA;&#xA;Não fiz ainda nenhuma migração. Talvez nem faça, pois aparentemente não precisarei. Da mesma forma que apenas desativei minha conta no Pixelfed, talvez deixe uma conta congelada num dos dois lugares. &#xA;&#xA;Se você está no fediverso, mas somente no Mastodon, talvez valha a pena conhecer outras plataformas. Pra mim valeu demais!]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Quem me segue lá pelo <a href="https://bolha.one/@yuribravos" rel="nofollow">@yuribravos@bolha.one</a> viu que tomei dois dias para testar o Sharkey na <a href="https://capivarinha.club" rel="nofollow">capivarinha.club</a>.</p>

<p>Pensei algumas várias vezes antes de fazer isso, já que o Mastodon já é um microblog e eu definitivamente não preciso de dois. Acontece que tenho uma sanha por testar coisa nova.</p>

<h2 id="experimentações-repetório">Experimentações &amp; repetório</h2>

<p>Jogo RPG desde os 17 anos. Comecei com um sistema, que joguei durante muitos anos. Aí conheci outro. Depois mais um. Depois mais outro. E hoje conheço e joguei algumas dezenas de sistemas de RPG. Me divirto muito de conhecer novas mecânicas e de vê-las em jogo, mesmo que seja só uma vez. Acho que foi jogando vários RPGs que eu entendi a importância de ter <em>repertório</em>.</p>

<blockquote><p>Inclusive se você quiser ver algumas sugestões de jogos de RPG dadas por mim, <a href="https://bolha.one/users/yuribravos/statuses/112886978487212488" rel="nofollow">fiz metade da hashtag #rpgaday2024</a>. A vida me deu rasteiras na metade, mas fica essa contribuição.<br>
<em>Ceci n&#39;est pas une citation</em></p></blockquote>

<h2 id="sim-e-o-que-tem-a-ver">Sim, e o que tem a ver?</h2>

<p>Tem a ver que essa minha incapacidade de ficar sem testar um negocinho novo me mordeu outra vez e decidi pular dentro da capivarinha para descobrir um fork do Misskey. Cabe dizer que o Arlon, companheiro aqui de blog.ayom.media no <a href="https://blog.ayom.media/ideiasdechirico/" rel="nofollow">Ideias de Chirico</a> já havia alardeado aos quatro ventos como o Mastodon era limitado e não tinha várias coisas legais que outras plataformas como o Akkoma e o Misskey tinham.</p>

<p>Ele e o Kariboka — que mantém a harpia.red e <a href="https://social.harpia.red/objects/bfa4af87-4eed-4097-b817-7bc9dd5c3192" rel="nofollow">esse ótimo post com links para várias instâncias br do fediverso</a> — vez ou outra mostram como o Akkoma é legal.</p>

<p>Acontece que a estética mais crua das instâncias de Akkoma que vi não me atraía muito. E sim, para mim, ser bonito é essencial. Não à toa uso o <a href="https://github.com/cheeaun/phanpy" rel="nofollow">Phanpy</a> como cliente web do Mastodon.</p>

<p>Até que apareceu uma instância brasileira no Sharkey. E olha só a cara dessa desgraçada:</p>

<p><img src="https://capivarinha.club/files/0f788310-75c5-4116-9f9e-12f1d816d4dd" alt="Screenshot da página de login da capivarinha.club. Do lado esquerdo, um quadro contém uma mensagem de apresentação da instância, que a descreve como um ambiente relaxante e rebelde, e sobre o quadro o mascote: uma capivara com um lenço vermelho e preto atado ao pescoço. Do lado direito, sobem notas postadas pelos usuários, com as reações dadas a cada nota. O site têm cores em tons de rosa principalmente e tipografia sem serifa e bem arredondadas"></p>

<p>Não me contive e decidi testar!</p>

<h2 id="maximalismo">Maximalismo?</h2>

<p>A primeira impressão é que o Sharkey é um mundo. Tem muitas timelines, mais que o Mastodon. Você pode reagir com qualquer emoji que a instância tiver personalizado. Tem um sistema de desbloqueio de conquistas. A página web tem widgets na lateral que são personalizáveis. Tem umas paradas como antenas e canais que eu ainda estou tentando entender melhor como funcionam (e que constinuem timelines também). E as más línguas ainda dizem que tem <strong>joguinhos</strong> dentro da parada (esses não achei e é provável que não os procure).</p>

<p>Então, ao primeiro momento, fiquei confuso. Passei um dia apenas olhando todas as abas, todas as configurações possíveis (e são muitas). E decidi levar adiante o teste.</p>

<h3 id="nomadismo-digital">Nomadismo digital</h3>

<p>Aqui foi que me dei conta que o fediverso permite um nomadismo digital diferente do home office pelo mundo a fora: é possível trocar de redes sociais. Sem o sofrimento de começar do zero.</p>

<p>Baixei a lista de pessoas que seguia no Mastodon e importei o arquivo no Sharkey. Alguns momentos depois, já seguia mais de cem pessoas. Minha timeline no Sharkey estava tão povoada quanto a do Mastodon. Foi quando entendi que o verdadeiro <em>valor</em> da rede social são as pessoas que você segue. Pude, então, fazer um teste perfeitamente equiparado entre as plataformas, já que não estava tolhido por não ter conteúdo para ver.</p>

<p>Isso foi <em>incrível</em>.</p>

<h3 id="personalização">Personalização</h3>

<p>Algo que gosto muito é poder personalizar as coisas. Adoro isso no RPG. Adoro isso em qualquer coisa que use. O Sharkey parece ter sido feito por pessoas que adoram isso também.</p>

<p>Mexer nas configurações dele é um mundo sem fim. Tem muita coisa que você pode habilitar e desabilitar. Inclusive configurar sua reação padrão, já que não existe uma única reação possível. Deixei minha reação padrão uma estrela, como é originalmente o favorito no Mastodon.</p>

<p>Isso se estende também para o aplicativo <a href="https://f-droid.org/packages/com.poppingmoon.aria/" rel="nofollow">Aria</a>. Dá para personalizar a cor de fundo de alguns tipos de nota. Aproveitei isso para chupinhar o Phanpy e pintar de laranja as DMs. O aplicativo inclusive permite ajustar quais botões aparecem para interagir com as notas. Botei o botão de tradução, para facilitar minha vida, e o de reação automática, já que boa parte das pessoas que sigo são do Mastodon (e ao que me consta, parece que eles só recebem favoritos se usar a reação padrão).</p>

<p>É possível, inclusive, ajustar o tamanho desses botões. Aumentei o tamanho dos meus pois, muitas vezes, estava abrindo a nota invés de interagir com ela.</p>

<p><strong>Poder</strong> fazer tudo isso é incrível!</p>

<p>E acho que esse é o grande ponto forte do Sharkey: poder fazer muita coisa, inclusive não usar todas as coisas que ele oferece. Lá tem suporte nativo para markdown e, embora eu ame botar um negritozinho aqui outro ali, devo usar só em 10% das postagens que faço. Ainda assim, é melhor <strong>poder fazer</strong> do que não poder fazer.</p>

<h2 id="mastodon-ou-sharkey">Mastodon ou Sharkey?</h2>

<p>E agora que descobrimos que o Mastodon não é a plataforma mais legal de microblogging do fediverso? É ótimo haver opções. Poder levar as pessoas que você segue de um lugar para outro é o que garante que você <strong>pode, de fato</strong> mudar de instância a qualquer momento.</p>

<p>Não fiz <del>ainda</del> nenhuma migração. Talvez nem faça, pois aparentemente não precisarei. Da mesma forma que apenas desativei minha conta no Pixelfed, talvez deixe uma conta congelada num dos dois lugares.</p>

<p>Se você está no fediverso, mas somente no Mastodon, talvez valha a pena conhecer outras plataformas. Pra mim valeu demais!</p>
]]></content:encoded>
      <author>yuribravos</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/td21bw62px</guid>
      <pubDate>Fri, 06 Sep 2024 19:45:29 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Informatização e superação dos processos manuais</title>
      <link>https://blog.ayom.media/vereda/informatizacao-e-superacao-dos-processos-manuais</link>
      <description>&lt;![CDATA[Tags: #Militância&#xA;&#xA;Não basta organizar a classe trabalhadora, é preciso educá-la para gerir a produção de maneira científica.&#xA;&#xA;De pouco adianta desenvolver hábitos e competências em cima de ferramentas e serviços que fortalecem a subordinação ao imperialismo. Patentes, marcas, direito autoral e todo o conjunto de leis de &#34;propriedade intelectual&#34;¹ são usados para nos aprisionar enquanto usuários de &#34;soluções&#34;² sob forte controle do grande capital internacional.&#xA;&#xA;Obviamente rejeitamos a ideia de usar a língua estrangeira como principal ferramenta de comunicação dentro de nossas organizações e conhecemos a importância de uma moeda própria para a soberania nacional. Deveria ser óbvio então que precisamos resistir a usar ferramentas de processamento da informação que não possam ser rapidamente substituídas por alternativas sob controle popular.&#xA;&#xA;O uso de produtos de software privativo (Windows, MS Office, Google Drive, AWS EC2, Zoom, etc) em detrimento de produtos de software livres (Linux-libre, Libreoffice, Nextcloud, KVM/QEMU, Jitsi, etc) precisa ser encarado como subordinação à superpotências estrangeiras e negação da nossa soberania. Mais do que o simples consumo de bens manufaturados no exterior, em detrimento da produção nacional: Esses produtos possuem características exclusivas que os tornam impossíveis de serem replicados, nos colocando em uma relação colonialista cada vez mais grave a medida que permitimos que eles tornem-se monopólios de nossos hábitos computacionais.&#xA;&#xA;O nosso esforço organizativo precisa substituir os processos artesanais e manuais por alternativas cada vez mais informatizadas, mas sempre usando ferramentas que jamais nos aprisionem em um colonialismo digital tais como os softwares privativos.&#xA;&#xA;Desconfie de qualquer revolucionário que adote uma postura rebaixada e se recuse a reconhecer a importância dos meios computacionais para a sociedade do século XXI, resignadamente aceitando usar, bem como promover, softwares não livres.&#xA;&#xA;Esses são alguns coletivos e organizações com caráter de classe que estão hoje pavimentando o caminho para o controle popular:&#xA;&#xA;https://nucleodetecnologia.com.br/&#xA;https://psoltecnologia.com.br/&#xA;https://brigadadigital.tec.br/&#xA;&#xA;¹ Por que a propriedade intelectual é um termo enganoso&#xA;² O que nos é ofertado como solução para nossos problemas é na verdade solução para os problemas do imperialismo em como nos vigiar e controlar]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Tags: #Militância</p>

<p>Não basta organizar a classe trabalhadora, é preciso educá-la para gerir a produção de maneira científica.</p>

<p>De pouco adianta desenvolver hábitos e competências em cima de ferramentas e serviços que fortalecem a subordinação ao imperialismo. Patentes, marcas, direito autoral e todo o conjunto de leis de “propriedade intelectual”¹ são usados para nos aprisionar enquanto usuários de “soluções”² sob forte controle do grande capital internacional.</p>

<p>Obviamente rejeitamos a ideia de usar a língua estrangeira como principal ferramenta de comunicação dentro de nossas organizações e conhecemos a importância de uma moeda própria para a soberania nacional. Deveria ser óbvio então que precisamos resistir a usar ferramentas de processamento da informação que não possam ser rapidamente substituídas por alternativas sob controle popular.</p>

<p>O uso de produtos de software privativo (Windows, MS Office, Google Drive, AWS EC2, Zoom, etc) em detrimento de produtos de software livres (Linux-libre, Libreoffice, Nextcloud, KVM/QEMU, Jitsi, etc) precisa ser encarado como subordinação à superpotências estrangeiras e negação da nossa soberania. Mais do que o simples consumo de bens manufaturados no exterior, em detrimento da produção nacional: Esses produtos possuem características exclusivas que os tornam impossíveis de serem replicados, nos colocando em uma relação colonialista cada vez mais grave a medida que permitimos que eles tornem-se monopólios de nossos hábitos computacionais.</p>

<p>O nosso esforço organizativo precisa substituir os processos artesanais e manuais por alternativas cada vez mais informatizadas, mas sempre usando ferramentas que jamais nos aprisionem em um colonialismo digital tais como os softwares privativos.</p>

<p>Desconfie de qualquer revolucionário que adote uma postura rebaixada e se recuse a reconhecer a importância dos meios computacionais para a sociedade do século XXI, resignadamente aceitando usar, bem como promover, softwares não livres.</p>

<p>Esses são alguns coletivos e organizações com caráter de classe que estão hoje pavimentando o caminho para o controle popular:</p>
<ul><li><a href="https://nucleodetecnologia.com.br/" rel="nofollow">https://nucleodetecnologia.com.br/</a></li>
<li><a href="https://psoltecnologia.com.br/" rel="nofollow">https://psoltecnologia.com.br/</a></li>
<li><a href="https://brigadadigital.tec.br/" rel="nofollow">https://brigadadigital.tec.br/</a></li></ul>

<p>¹ <a href="https://www.gnu.org/philosophy/not-ipr.pt-br.html" rel="nofollow">Por que a propriedade intelectual é um termo enganoso</a>
² O que nos é ofertado como solução para nossos problemas é na verdade solução para os problemas do imperialismo em como nos vigiar e controlar</p>
]]></content:encoded>
      <author>vereda</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/e2z7ha7ssp</guid>
      <pubDate>Thu, 05 Sep 2024 15:24:31 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>A ficção valor</title>
      <link>https://blog.ayom.media/resenhacibernetica/a-ficcao-valor</link>
      <description>&lt;![CDATA[A ficção valor&#xA;&#xA;Em Marx aprendemos que no Capitalismo impera a lei do valor. &#xA;&#xA;O valor significa que há uma equivalência geral de tudo com tudo. Mas o valor não é o valor de troca, no qual a troca &#34;zeraria&#34; o valor (valor de soma zero), mas sim o valor de &#34;acumulação&#34;, de soma não nula. &#xA;&#xA;Isso significa que o valor não é uma equivalência geral, mas que se sustenta sobre uma &#34;inequivalência&#34;. Esta não equivalência corresponde, segundo Marx, ao trabalho não pago do trabalhador. Assim, o trabalhador recebe um salário pela sua &#34;força de trabalho&#34;, que é um valor de troca, mas seu trabalho não pago é um excedente além da troca, que fica com o empregador. &#xA;&#xA;Marx diz que o capitalismo só ocorre porque há um &#34;trabalhador livre&#34;, que aceita não só vender (alienar) sua força de trabalho por um salário, mas trabalhar um pouco mais sem ser remunerado. Este valor não pago é o valor propriamente dito, i.e., o mais-valor, porque sempre acumula. Acumula precisamente sob a forma de capital. &#xA;&#xA;Mas Marx também diz, n&#39;O Capital, que antes da acumulação do trabalho não pago, houve uma acumulação primitiva que gerou o &#34;capital inicial&#34;, que correspondeu aos &#34;cercamentos&#34; (enclosures) das terras. Com isso, aquilo que era abundante, as terras comunais (the commons), tornou-se raro. Ora, o capital só viceja onde há raridade. &#xA;&#xA;Os cercamentos liberaram os trabalhares da terra para serem &#34;livres&#34; na cidade. Livres para serem explorados e trabalharem o trabalho não pago. &#xA;&#xA;Outro grande pensador chamado Karl, o Polanyi, disse que havia três mercadorias &#34;fictícias&#34;: a terra, o trabalho e o dinheiro. Fictícias porque são mercadorias que não podem ser trocadas, a não ser por meio de ficções chamadas falácias. &#xA;&#xA;Assim, é lícito pensar, baseado nos dois Karls, que o capital é gerado ficcionalmete nesta ordem: primeiro, ocorreram os cerceamentos; esses criaram os trabalhadores livres e o trabalho não pago; e o trabalho não pago gerou o capital financeiro, que pode ser vendido como se fosse uma mercadoria. &#xA;&#xA;Podemos assim citar três modos de produção do capital e não apenas um como queria Marx: a expropriação da terra (da natureza) pelos cerceamentos, a exploração dos trabalhadores pelo trabalho não pago (nos cercados fabris da produção) e a especulação do dinheiro, nos cercadinhos financeiros das &#34;bolsas&#34; e &#34;bancos&#34;. &#xA;&#xA;O que é fictício no capital é precisamente esse ato de cercar, de impor um limite onde antes não havia. Mas essas cercas são antes de tudo simbólicas, pois o que garante a propriedade de um bem comum a não ser um acordo simbólico imposto ou não pela força bruta? &#xA;&#xA;Alguém, em algum momento, disse: &#34;isto aqui é meu&#34;. E deste ato de fala nasceu a ficção do valor. E daí a expropriação, a exploração e a especulação foram apenas a consequência denominada de Capital, o &#34;valor que se autovaloriza&#34;. &#xA;&#xA;]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>A ficção valor</p>

<p>Em Marx aprendemos que no Capitalismo impera a lei do valor.</p>

<p>O valor significa que há uma equivalência geral de tudo com tudo. Mas o valor não é o valor de troca, no qual a troca “zeraria” o valor (valor de soma zero), mas sim o valor de “acumulação”, de soma não nula.</p>

<p>Isso significa que o valor não é uma equivalência geral, mas que se sustenta sobre uma “inequivalência”. Esta não equivalência corresponde, segundo Marx, ao trabalho não pago do trabalhador. Assim, o trabalhador recebe um salário pela sua “força de trabalho”, que é um valor de troca, mas seu trabalho não pago é um excedente além da troca, que fica com o empregador.</p>

<p>Marx diz que o capitalismo só ocorre porque há um “trabalhador livre”, que aceita não só vender (alienar) sua força de trabalho por um salário, mas trabalhar um pouco mais sem ser remunerado. Este valor não pago é o valor propriamente dito, i.e., o mais-valor, porque sempre acumula. Acumula precisamente sob a forma de capital.</p>

<p>Mas Marx também diz, n&#39;O Capital, que antes da acumulação do trabalho não pago, houve uma acumulação primitiva que gerou o “capital inicial”, que correspondeu aos “cercamentos” (enclosures) das terras. Com isso, aquilo que era abundante, as terras comunais (the commons), tornou-se raro. Ora, o capital só viceja onde há raridade.</p>

<p>Os cercamentos liberaram os trabalhares da terra para serem “livres” na cidade. Livres para serem explorados e trabalharem o trabalho não pago.</p>

<p>Outro grande pensador chamado Karl, o Polanyi, disse que havia três mercadorias “fictícias”: a terra, o trabalho e o dinheiro. Fictícias porque são mercadorias que não podem ser trocadas, a não ser por meio de ficções chamadas falácias.</p>

<p>Assim, é lícito pensar, baseado nos dois Karls, que o capital é gerado ficcionalmete nesta ordem: primeiro, ocorreram os cerceamentos; esses criaram os trabalhadores livres e o trabalho não pago; e o trabalho não pago gerou o capital financeiro, que pode ser vendido como se fosse uma mercadoria.</p>

<p>Podemos assim citar três modos de produção do capital e não apenas um como queria Marx: a expropriação da terra (da natureza) pelos cerceamentos, a exploração dos trabalhadores pelo trabalho não pago (nos cercados fabris da produção) e a especulação do dinheiro, nos cercadinhos financeiros das “bolsas” e “bancos”.</p>

<p>O que é fictício no capital é precisamente esse ato de cercar, de impor um limite onde antes não havia. Mas essas cercas são antes de tudo simbólicas, pois o que garante a propriedade de um bem comum a não ser um acordo simbólico imposto ou não pela força bruta?</p>

<p>Alguém, em algum momento, disse: “isto aqui é meu”. E deste ato de fala nasceu a ficção do valor. E daí a expropriação, a exploração e a especulação foram apenas a consequência denominada de Capital, o “valor que se autovaloriza”.</p>
]]></content:encoded>
      <author>Resenha Cibernética</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/x3ow98nkz4</guid>
      <pubDate>Tue, 27 Aug 2024 01:17:43 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>O próprio e o impróprio</title>
      <link>https://blog.ayom.media/resenhacibernetica/o-proprio-e-o-improprio</link>
      <description>&lt;![CDATA[O próprio e o impróprio &#xA;&#xA;Seguindo os passos de Engels em A Origem da Família, eu diria que a luta de classes mais primordial é entre proprietários (que definem o que é próprio) x desapropriados (que são impróprios). Desapropriados daquilo que é comum a todos. Próprio/Impróprio é a distinção fundamental de todo meio (medium). Engels escreveu que esta distinção marca o início do patriarcado. O matriarcado seria então uma sociedade em que tudo é próprio, tudo é comum.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>O próprio e o impróprio</p>

<p>Seguindo os passos de Engels em A Origem da Família, eu diria que a luta de classes mais primordial é entre proprietários (que definem o que é próprio) x desapropriados (que são impróprios). Desapropriados daquilo que é comum a todos. Próprio/Impróprio é a distinção fundamental de todo meio (medium). Engels escreveu que esta distinção marca o início do patriarcado. O matriarcado seria então uma sociedade em que tudo é próprio, tudo é comum.</p>
]]></content:encoded>
      <author>Resenha Cibernética</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/dck65zf5z4</guid>
      <pubDate>Fri, 09 Aug 2024 00:04:26 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Como tomar decisões: Meus Princípios Gerais de Operação</title>
      <link>https://blog.ayom.media/vereda/como-tomar-decisoes-meus-principios-gerais-de-operacao</link>
      <description>&lt;![CDATA[Tags: #Pessoal&#xA;&#xA;Stay On The Path. Photo by Mark Duffel on Unsplash&#xA;&#xA;“Tô pensando em chegar aí na quinta e sair daí no domingo. O que você acha? Me avisa se for muito tempo pra você”&#xA;&#xA;Era véspera de um feriado prolongado e uma amiga estava planejando passar alguns dias na minha casa, em São Paulo. Eu havia acabado de dedicar um esforço descomunal pra lançar o novo site da DandaraLab com um prazo apertado e estava com demandas atrasadas, inclusive a negociação de duas novas parcerias da DiversifiX. A única coisa que eu conseguia pensar sobre o feriado é que seria a minha chance de me adiantar com os projetos que estavam sob minha responsabilidade.&#xA;&#xA;“Tá tranquilo. Vai ser fantástico. Você é a única que ainda não veio me ver em sp!”&#xA;&#xA;Eu não tinha tempo a perder e mesmo assim parei por 4 dias para dedicar tempo e atenção a ela. Foi um feriado maravilhoso que nos deixou ótimas memórias. Essa poderia ter sido uma decisão demorada e fonte de medo de fazer a escolha errada, mas felizmente eu relembrei um dos meus princípios e nele fundamentei a minha decisão:&#xA;&#xA;  Eu estabeleço e cuido de relacionamentos pessoais como uma das minhas maiores prioridades. Eu sempre tenho tempo para família ou para um amigo de verdade. Minha lista de tarefas e calendário refletem o quanto eu valorizo as pessoas na minha vida.&#xA;&#xA;O que são princípios?&#xA;&#xA;Princípios são normas de conduta, geralmente impostas por terceiros, para cumprir exigências morais ou legais. Devido ao caráter forçado, muita gente tem memórias ruins ao falar de princípios, mas existe um grande valor em reconhecer e utilizar uma lista pessoal de princípios.&#xA;&#xA;Estando consciente disso ou não, todas as pessoas possuem certos valores e seguem determinados princípios derivados deles. Todos possuem uma bússola interna dizendo não apenas aquilo que é certo ou errado, mas também indicando aquilo que vai gerar mais satisfação de vida.&#xA;&#xA;Inspirada no post General Operational Principles do Taylor Pearson e no livro Work the System do Sam Carpenter eu resolvi também dedicar tempo para identificar e documentar o que eu acredito e valorizo.&#xA;&#xA;Os Princípios Gerais de Operação são basicamente uma síntese daquilo que a nossa bússola moral tenta nos dizer, registrados de forma explícita para facilitar a tomada de decisões.&#xA;&#xA;Sempre que não houver uma forma clara de resolver alguma coisa, sempre que uma decisão precisar ser tomada, os Princípios Gerais de Operação são uma sólida referência guiando minhas ações para me gerar maior satisfação e menos arrependimentos.&#xA;&#xA;  “Estes são meus princípios. Se você não gosta deles, tenho outros!” - GROUCHO MARX&#xA;&#xA;O documento de princípios precisa ser rígido, porém mutável. Para que os princípios sirvam como guia de conduta, eles precisam ser estáveis independente das circunstâncias. Porém também devem ser algo vivo, que se adapta para acompanhar as mudanças de nossa bússola moral ao longo do tempo. Alguns valores permanecem conosco por toda a vida, mas outros tem sua importância modificada conforme atravessamos diferentes fases da vida.&#xA;&#xA;Eu produzi meu primeiro documento de Princípios Gerais de Operação em Outubro de 2018. Ocasionalmente eu dedico um tempo para rele-lo, mantendo todos eles frescos na cabeça, e para revisar cada um dos itens que eu mantenho nesta lista. Alguns princípios surgiram depois, conforme eu percebi que certas coisas importantes para mim não estavam ainda contempladas. Outros princípios foram reescritos para passar uma mensagem que fosse mais verdadeira para mim. A essência do documento porém continua a mesma e eu acho que, conforme o tempo passa, tenho cada vez mais clareza daquilo que eu valorizo e de como deve ser minha atitude para aproveitar cada vez mais a vida.&#xA;&#xA;Sem mais demoras, apresento a minha lista na forma como ela está em Julho de 2024:&#xA;&#xA;(meus) Princípios Gerais de Operação&#xA;&#xA;Como eu recebo aquilo que o mundo me traz&#xA;&#xA;Coragem: Eu não fujo de confrontos ou de oportunidades por causa do medo. Eu atuo fora da minha zona de conforto.&#xA;Aprendizado: Eu acredito que todo evento pode contribuir para o meu crescimento. É meu dever encontrar o valor e o aprendizado mesmo nas situações ruins.&#xA;Firmeza: Flexibilidade tem medida certa. A rigidez é a nossa estrutura permanente para enfrentar o inesperado.&#xA;&#xA;Como eu invisto minha energia&#xA;&#xA;Atenção: Eu direciono meu foco para aquilo que é mais importante para mim em cada momento. Eu não permito que outros tópicos roubem minha atenção.&#xA;Equilíbrio: Eu valorizo viver de forma plena e integrada e por isso eu busco obter satisfação em todas as áreas que são valiosas pra mim.&#xA;Intenção: Eu conscientemente aloco a minha energia de forma construtiva para que ela não assuma espontaneamente formas destrutivas.&#xA;Qualidade: Todas as coisas grandes e valiosas exigem esforço e comprometimento. Em todas elas eu estou disposta a me esforçar, fazer mais do que é esperado e persistir. Inspiração: [The Dip]&#xA;&#xA;Como eu lido comigo e com outras pessoas&#xA;&#xA;Autenticidade: Eu acredito que vulnerabilidade e sinceridade são os caminhos para conexões genuínas e bons relacionamentos.&#xA;Intuição: Eu invisto em minha auto percepção. Eu presto atenção e respeito aquilo que meu corpo e meus instintos tentam me dizer.&#xA;Desenvolvimento: Eu fortaleço contradições e o debate para promover o amadurecimento meu e alheio.&#xA;Diversidade: Eu valorizo e respeito a diversidade. Eu apresento minha forma de ser e pensar como um único exemplo dentre as múltiplas possibilidades e não como a única opção possível. Inspiração: [Pedagogia do oprimido]&#xA;Comunidade: Eu estabeleço e cuido de relacionamentos pessoais como uma das minhas maiores prioridades. Eu sempre tenho tempo para família ou para um amigo de verdade. Minha lista de tarefas e calendário refletem o quanto eu valorizo as pessoas na minha vida.&#xA;&#xA;Como eu atuo no mundo&#xA;&#xA;Legado: Quando tomo decisões, considero os efeitos de ordens superiores e não somente os efeitos mais diretos; eu sigo a perspectiva do sistema no longo prazo.&#xA;Propósito: Tudo que eu faço serve a uma visão maior que eu tenho para mim e para o mundo. Eu fabrico a realidade que eu quero que exista. &#xA;Colaboração: Eu acredito que obtemos melhores resultados quando existe colaboração profunda e solidária entre pessoas. Inspiração: [Linus Torvalds]&#xA;Repetição: Eu sou o que faço repetidamente. Cada ação não é um evento isolado, mas um reforço para os neurônios que moldam meu comportamento e personalidade. Inspiração: [The Bowling Game Kata]&#xA;Condicionamento: Eu me lanço consistentemente em desafios para me manter sempre apta para aproveitar oportunidades e superar contratempos. Inspiração: [Antifragile]&#xA;Sustentabilidade: Eu reconheço a importância de estar descansada para tomar boas decisões e produzir trabalho de qualidade. Se eu estou cansada, eu trato de descansar para atacar novamente o problema quando estiver recuperada.&#xA;&#xA;Hierarquia de Valores&#xA;&#xA;Esta seção é um experimento, inspirado pela Teoria da Desintegração Positiva de Dąbrowski. Dediquei um tempo para ponderar qual a hierarquia que os princípios mencionados tem para mim. O resultado atual segue abaixo:&#xA;&#xA;Autenticidade&#xA;Coragem&#xA;Atenção&#xA;Intuição&#xA;Desenvolvimento&#xA;Aprendizado&#xA;Legado&#xA;Propósito&#xA;Equilíbrio&#xA;10. Firmeza&#xA;11. Intenção&#xA;12. Qualidade&#xA;13. Colaboração&#xA;14. Diversidade&#xA;15. Repetição&#xA;16. Comunidade&#xA;17. Condicionamento&#xA;18. Sustentabilidade]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Tags: #Pessoal</p>

<p><img src="https://images.unsplash.com/photo-1508726096737-5ac7ca26345f" alt="Stay On The Path. Photo by Mark Duffel on Unsplash"></p>

<p>“Tô pensando em chegar aí na quinta e sair daí no domingo. O que você acha? Me avisa se for muito tempo pra você”</p>

<p>Era véspera de um feriado prolongado e uma amiga estava planejando passar alguns dias na minha casa, em São Paulo. Eu havia acabado de dedicar um esforço descomunal pra lançar o novo site da DandaraLab com um prazo apertado e estava com demandas atrasadas, inclusive a negociação de duas novas parcerias da DiversifiX. A única coisa que eu conseguia pensar sobre o feriado é que seria a minha chance de me adiantar com os projetos que estavam sob minha responsabilidade.</p>

<p>“Tá tranquilo. Vai ser fantástico. Você é a única que ainda não veio me ver em sp!”</p>

<p>Eu não tinha tempo a perder e mesmo assim parei por 4 dias para dedicar tempo e atenção a ela. Foi um feriado maravilhoso que nos deixou ótimas memórias. Essa poderia ter sido uma decisão demorada e fonte de medo de fazer a escolha errada, mas felizmente eu relembrei um dos meus princípios e nele fundamentei a minha decisão:</p>

<blockquote><p>Eu estabeleço e cuido de relacionamentos pessoais como uma das minhas maiores prioridades. Eu sempre tenho tempo para família ou para um amigo de verdade. Minha lista de tarefas e calendário refletem o quanto eu valorizo as pessoas na minha vida.</p></blockquote>

<h2 id="o-que-são-princípios">O que são princípios?</h2>

<p>Princípios são normas de conduta, geralmente impostas por terceiros, para cumprir exigências morais ou legais. Devido ao caráter forçado, muita gente tem memórias ruins ao falar de princípios, mas existe um grande valor em reconhecer e utilizar uma lista pessoal de princípios.</p>

<p>Estando consciente disso ou não, todas as pessoas possuem certos valores e seguem determinados princípios derivados deles. Todos possuem uma bússola interna dizendo não apenas aquilo que é certo ou errado, mas também indicando aquilo que vai gerar mais satisfação de vida.</p>

<p>Inspirada no post <a href="https://taylorpearson.me/principles/" rel="nofollow">General Operational Principles do Taylor Pearson</a> e no livro <a href="https://www.workthesystem.com/" rel="nofollow">Work the System do Sam Carpenter</a> eu resolvi também dedicar tempo para identificar e documentar o que eu acredito e valorizo.</p>

<p>Os Princípios Gerais de Operação são basicamente uma síntese daquilo que a nossa bússola moral tenta nos dizer, registrados de forma explícita para facilitar a tomada de decisões.</p>

<p>Sempre que não houver uma forma clara de resolver alguma coisa, sempre que uma decisão precisar ser tomada, os Princípios Gerais de Operação são uma sólida referência guiando minhas ações para me gerar maior satisfação e menos arrependimentos.</p>

<blockquote><p>“Estes são meus princípios. Se você não gosta deles, tenho outros!” – GROUCHO MARX</p></blockquote>

<p>O documento de princípios precisa ser rígido, porém mutável. Para que os princípios sirvam como guia de conduta, eles precisam ser estáveis independente das circunstâncias. Porém também devem ser algo vivo, que se adapta para acompanhar as mudanças de nossa bússola moral ao longo do tempo. Alguns valores permanecem conosco por toda a vida, mas outros tem sua importância modificada conforme atravessamos diferentes fases da vida.</p>

<p>Eu produzi meu primeiro documento de Princípios Gerais de Operação em Outubro de 2018. Ocasionalmente eu dedico um tempo para rele-lo, mantendo todos eles frescos na cabeça, e para revisar cada um dos itens que eu mantenho nesta lista. Alguns princípios surgiram depois, conforme eu percebi que certas coisas importantes para mim não estavam ainda contempladas. Outros princípios foram reescritos para passar uma mensagem que fosse mais verdadeira para mim. A essência do documento porém continua a mesma e eu acho que, conforme o tempo passa, tenho cada vez mais clareza daquilo que eu valorizo e de como deve ser minha atitude para aproveitar cada vez mais a vida.</p>

<p>Sem mais demoras, apresento a minha lista na forma como ela está em Julho de 2024:</p>

<h2 id="meus-princípios-gerais-de-operação">(meus) Princípios Gerais de Operação</h2>

<h3 id="como-eu-recebo-aquilo-que-o-mundo-me-traz">Como eu recebo aquilo que o mundo me traz</h3>
<ul><li>Coragem: Eu não fujo de confrontos ou de oportunidades por causa do medo. Eu atuo fora da minha zona de conforto.</li>
<li>Aprendizado: Eu acredito que todo evento pode contribuir para o meu crescimento. É meu dever encontrar o valor e o aprendizado mesmo nas situações ruins.</li>
<li>Firmeza: Flexibilidade tem medida certa. A rigidez é a nossa estrutura permanente para enfrentar o inesperado.</li></ul>

<h3 id="como-eu-invisto-minha-energia">Como eu invisto minha energia</h3>
<ul><li>Atenção: Eu direciono meu foco para aquilo que é mais importante para mim em cada momento. Eu não permito que outros tópicos roubem minha atenção.</li>
<li>Equilíbrio: Eu valorizo viver de forma plena e integrada e por isso eu busco obter satisfação em todas as áreas que são valiosas pra mim.</li>
<li>Intenção: Eu conscientemente aloco a minha energia de forma construtiva para que ela não assuma espontaneamente formas destrutivas.</li>
<li>Qualidade: Todas as coisas grandes e valiosas exigem esforço e comprometimento. Em todas elas eu estou disposta a me esforçar, fazer mais do que é esperado e persistir. Inspiração: [The Dip]</li></ul>

<h3 id="como-eu-lido-comigo-e-com-outras-pessoas">Como eu lido comigo e com outras pessoas</h3>
<ul><li>Autenticidade: Eu acredito que vulnerabilidade e sinceridade são os caminhos para conexões genuínas e bons relacionamentos.</li>
<li>Intuição: Eu invisto em minha auto percepção. Eu presto atenção e respeito aquilo que meu corpo e meus instintos tentam me dizer.</li>
<li>Desenvolvimento: Eu fortaleço contradições e o debate para promover o amadurecimento meu e alheio.</li>
<li>Diversidade: Eu valorizo e respeito a diversidade. Eu apresento minha forma de ser e pensar como um único exemplo dentre as múltiplas possibilidades e não como a única opção possível. Inspiração: [Pedagogia do oprimido]</li>
<li>Comunidade: Eu estabeleço e cuido de relacionamentos pessoais como uma das minhas maiores prioridades. Eu sempre tenho tempo para família ou para um amigo de verdade. Minha lista de tarefas e calendário refletem o quanto eu valorizo as pessoas na minha vida.</li></ul>

<h3 id="como-eu-atuo-no-mundo">Como eu atuo no mundo</h3>
<ul><li>Legado: Quando tomo decisões, considero os efeitos de ordens superiores e não somente os efeitos mais diretos; eu sigo a perspectiva do sistema no longo prazo.</li>
<li>Propósito: Tudo que eu faço serve a uma visão maior que eu tenho para mim e para o mundo. Eu fabrico a realidade que eu quero que exista.</li>
<li>Colaboração: Eu acredito que obtemos melhores resultados quando existe colaboração profunda e solidária entre pessoas. Inspiração: [Linus Torvalds]</li>
<li>Repetição: Eu sou o que faço repetidamente. Cada ação não é um evento isolado, mas um reforço para os neurônios que moldam meu comportamento e personalidade. Inspiração: [The Bowling Game Kata]</li>
<li>Condicionamento: Eu me lanço consistentemente em desafios para me manter sempre apta para aproveitar oportunidades e superar contratempos. Inspiração: [Antifragile]</li>
<li>Sustentabilidade: Eu reconheço a importância de estar descansada para tomar boas decisões e produzir trabalho de qualidade. Se eu estou cansada, eu trato de descansar para atacar novamente o problema quando estiver recuperada.</li></ul>

<h2 id="hierarquia-de-valores">Hierarquia de Valores</h2>

<p>Esta seção é um experimento, inspirado pela <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Desintegra%C3%A7%C3%A3o_positiva" rel="nofollow">Teoria da Desintegração Positiva de Dąbrowski</a>. Dediquei um tempo para ponderar qual a hierarquia que os princípios mencionados tem para mim. O resultado atual segue abaixo:</p>
<ol><li>Autenticidade</li>
<li>Coragem</li>
<li>Atenção</li>
<li>Intuição</li>
<li>Desenvolvimento</li>
<li>Aprendizado</li>
<li>Legado</li>
<li>Propósito</li>
<li>Equilíbrio</li>
<li>Firmeza</li>
<li>Intenção</li>
<li>Qualidade</li>
<li>Colaboração</li>
<li>Diversidade</li>
<li>Repetição</li>
<li>Comunidade</li>
<li>Condicionamento</li>
<li>Sustentabilidade</li></ol>
]]></content:encoded>
      <author>vereda</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/2u0bev8p59</guid>
      <pubDate>Sat, 20 Jul 2024 17:29:32 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Relacionalidade</title>
      <link>https://blog.ayom.media/resenhacibernetica/relacionalidade</link>
      <description>&lt;![CDATA[Relacionalidade&#xA;&#xA;Quando se adota a perspectiva da relacionalidade abandona-se a ideia de coisas que existem independentemente. Em outros termos, mais filosóficos: a ideia de essência intrínseca. Toda essência é extrínseca. &#xA;&#xA;Ou seja, não há uma relação que se estabelece entre duas coisas (objetos) que existissem previamente à relação. O que existe é uma relação que se desdobra em (pelo menos) dois polos (se há mais de dois polos, trata-se de uma hiperrelação). Se esses dois polos se diferenciam, a relação é uma diferença (relação diferencial). &#xA;&#xA;Por isso, deve-se também abandonar a ideia de materialidade. Na Teoria da Relatividade, por exemplo, energia e matéria são intercambiáveis. &#xA;&#xA;Uma relação, assim, não é exatamente uma &#34;coisa&#34;. Uma relação é algo que se diferencia de uma ausência de relação. Ou seja, que se diferencia do vazio. Uma relação é assim uma diferença entre ela mesma e o vazio. Toda relação tem essa “mesmidade”, o que quer dizer que ela se autorreferencia. &#xA;&#xA;Portanto, uma mudança de paradigma da relacionalidade é a questão do vazio. O vazio significa basicamente que não há essência intrínseca. O primeiro a conceituá-lo desta forma, foi o indiano budista Nagarjuna, com o termo sunyata. Sunyata é o vazio, mas o ocidente conceitua este conceito como &#34;nada&#34;. Porém, o vazio budista não é nada, mas simplesmente indica que tudo que é, cria-se em termos de dependência, ou interdependência. O conceito de relação indica essa interdependência. Por exemplo, a terra e a lua não existem por si só, mas numa relação de interdependência. Uma sociedade não é um agregado de &#34;egos&#34;, mas um conjunto de relações entre &#34;ego&#34; e &#34;alter&#34;. Uma sociedade é um conjunto de relações sociais, ou de alteridade, não um conjunto de egos. Ego e alter são os polos de uma relação social. &#xA;&#xA;Se uma relação se diferencia em polos, isso quer dizer que cada um deles é uma “porta de entrada” à relação, isto é, uma abordagem. Uma relação pode ser abordada através de seus polos. É como se a relação tivesse que ser entendida com duas perspectivas diferentes. Se uma relação tem os polos A e B, AB é diferente de BA. Ou seja, a relação tem orientação. &#xA;&#xA;Chamamos essa diferenciação orientada (ou orientável) de mediação. A relação possui um “meio” que é justamente o que conduz de A a B. Por isso, a escola que o indiano Nagarjuna defendia chamava-se Madhyamaka, ou Escola do Caminho do Meio. No entanto, a diferença de percurso que se fazia de A para B e de volta à A, não encontrava o mesmo A (o mesmo polo) do início. Isso significa que o tempo se infiltrou na relação. &#xA;&#xA;Para o paradigma da relacionalidade, o conceito de meio (medium) substitui o de matéria. Toda relação tem meio. A relacionalidade é uma medialidade]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Relacionalidade</p>

<p>Quando se adota a perspectiva da relacionalidade abandona-se a ideia de coisas que existem independentemente. Em outros termos, mais filosóficos: a ideia de essência intrínseca. Toda essência é extrínseca.</p>

<p>Ou seja, não há uma relação que se estabelece entre duas coisas (objetos) que existissem previamente à relação. O que existe é uma relação que se desdobra em (pelo menos) dois polos (se há mais de dois polos, trata-se de uma hiperrelação). Se esses dois polos se diferenciam, a relação é uma diferença (relação diferencial).</p>

<p>Por isso, deve-se também abandonar a ideia de materialidade. Na Teoria da Relatividade, por exemplo, energia e matéria são intercambiáveis.</p>

<p>Uma relação, assim, não é exatamente uma “coisa”. Uma relação é algo que se diferencia de uma ausência de relação. Ou seja, que se diferencia do vazio. Uma relação é assim uma diferença entre ela mesma e o vazio. Toda relação tem essa “mesmidade”, o que quer dizer que ela se autorreferencia.</p>

<p>Portanto, uma mudança de paradigma da relacionalidade é a questão do vazio. O vazio significa basicamente que não há essência intrínseca. O primeiro a conceituá-lo desta forma, foi o indiano budista Nagarjuna, com o termo sunyata. Sunyata é o vazio, mas o ocidente conceitua este conceito como “nada”. Porém, o vazio budista não é nada, mas simplesmente indica que tudo que é, cria-se em termos de dependência, ou interdependência. O conceito de relação indica essa interdependência. Por exemplo, a terra e a lua não existem por si só, mas numa relação de interdependência. Uma sociedade não é um agregado de “egos”, mas um conjunto de relações entre “ego” e “alter”. Uma sociedade é um conjunto de relações sociais, ou de alteridade, não um conjunto de egos. Ego e alter são os polos de uma relação social.</p>

<p>Se uma relação se diferencia em polos, isso quer dizer que cada um deles é uma “porta de entrada” à relação, isto é, uma abordagem. Uma relação pode ser abordada através de seus polos. É como se a relação tivesse que ser entendida com duas perspectivas diferentes. Se uma relação tem os polos A e B, AB é diferente de BA. Ou seja, a relação tem orientação.</p>

<p>Chamamos essa diferenciação orientada (ou orientável) de mediação. A relação possui um “meio” que é justamente o que conduz de A a B. Por isso, a escola que o indiano Nagarjuna defendia chamava-se Madhyamaka, ou Escola do Caminho do Meio. No entanto, a diferença de percurso que se fazia de A para B e de volta à A, não encontrava o mesmo A (o mesmo polo) do início. Isso significa que o tempo se infiltrou na relação.</p>

<p>Para o paradigma da relacionalidade, o conceito de meio (medium) substitui o de matéria. Toda relação tem meio. A relacionalidade é uma medialidade</p>
]]></content:encoded>
      <author>Resenha Cibernética</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/980hiz5u51</guid>
      <pubDate>Wed, 17 Jul 2024 14:31:25 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Parentalidades em pedaços, LGBTs e capitalismo</title>
      <link>https://blog.ayom.media/guguzeco/parentalidades-em-pedacos-lgbts-e-capitalismo</link>
      <description>&lt;![CDATA[h3Parentalidades em pedaços, LGBTs e capitalismo/h3&#xA;&#xA;emApesar de ampliar a  abrangência da licença maternidade, o STF restirngiu a licença-maternidade a apenas uma das mães em casais lésbicos. Um dos argumentos? Austeridade sobre a previdência./em&#xA;&#xA;Colagem de família picotada com partes do corpo de varias fotos diferentes formando o corpo das pessoas em questão. Da esquerda pra direita, há uma filha, uma mãe, um pai e um filho&#xA;&#xA;emColagem feita por Gee v&#xA;Voucher para a primeira edição da Zine International Anthem (1977) da banda de anarcopunk inglesa, Crass. Uma família feita em pedaços/em&#xA;&#xA;No dia 13 de Março de 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu que mães não gestantes tem direito à licença maternidade. Uma vitória grande para todas as LGBTs vivendo suas parentalidades em pedaços, que pode ter repercussão mesmo para casais de dois homens, garantindo alguma licença para famílias que não tem nenhuma.&#xA;&#xA;Mas as LGBTs mais velhas tem razão quando não reivindicavam o reconhecimento como uma família nuclear monogâmica. Isso põe tetos reais nas nossas vidas: na mesma decisão, restringiram a licença maternidade a só uma das mães. A outra tem direito à licença paternidade, míseros 5 dias.&#xA;&#xA;As duas consequências disso: de um lado, o Estado tratará uma das mães como um homem e a forçará a se distanciar de sua cria. De outro, lauda novamente que homens não devem cuidar de suas crias.&#xA;&#xA;É a versão institucional de &#34;quem é o homem ou a mulher da relação&#34; em LGBTs.&#xA;&#xA;A resposta deveria ser simples. É quem se identifica. E independente do gênero e do arranjo familiar, cuidar de uma criança recém nascida exige MUITO trabalho. Nada mais justo que quem cuide, seja em duas pessoas, três ou uma família inteira tenha licença remunerada digna pra isso.&#xA;&#xA;Mas qual foi um dos argumentos para impedir que duas mulheres em união homoafetiva tivessem direito à licença maternidade? A austeridade: segundo argumento da Procuradoria Geral da República, a href=&#34;https://www.youtube.com/live/oe-VWZ5uh1g?si=RtX4zYPrFdkBZw-&#34;acatado por boa parte dos Ministros/a, isso sobrecarregaria a previdência social. Mais especificamente &#34;Não criar despesas de previdência social sem previsão de receitas&#34;. O que é engraçado quando consideramos que o mesmo tribunal não considera que referendar e endurecer a criminalização da maconha, debatida também nas últimas semanas, aumenta gastos do Estado - afinal, vigiar e punir custa muito caro.&#xA;&#xA;Isso nos dá pista dos termos da disputa pela legislação de licença paternidade que precisará ocorrer até agosto de 2025, prazo limite estabelecido pelo STF para que o Congresso decida sobre essa omissão. O que nos faz considerar a hipótese de que mesmo entre conservadores, no mímimo não há disposição para se opor a ela, pois sinaliza para o apoio a algum modelo de família tradicional e, em uma esfera pública cada vez mais atenta aos direitos e vozes das mulheres, dificilmente se oporão a ela de forma aberta. Será sempre uma morosidade e oposição de forma envergonhada ou entre iguais: &#34;quais garantias haverão ao homem provedor?&#34;, &#34;Homem não amamenta, talvez não precise de 180 dias como a mulher&#34; e , por fim, &#34;isso irá sobrecarregar a previdência social&#34;. Essa é a deixa perfeita para a seletividade patriarcal e capitalista funcionarem: o judiciário e o restante do Estado brasileiro pode até garantir o reconhecimento formal de famílias não heterossexuais. Mas garantir condições materiais pra isso?Jamais. O homem (pai) deve dividir igualmente o trabalho do cuidado igualmente de seus filhos. Mas garantir condições materiais pra isso? Talvez não, talvez uma licença mais curra seja melhor gerar superávit primário para o pagamento de juros.&#xA;&#xA;Todavia, os conservadores e capitalistas não são todo poderosos, videntes, bastiões da estratégia. Eles erram e falham, não atoa, mexer com aposentadoria e direitos previdenciários, dos quais as licenças fazem parte, é altamente antipopular. Um sinal disso é que, a href=&#34;https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2024/04/para-76-dos-brasileiros-licenca-paternidade-deveria-ser-maior-diz-datafolha.shtml&#34; segundo pesquisa do Data Folha publicada em 02 de Abril de 2024/a, a ampliação da licença maternidade e paternidade tem, respectivamente, apoio de 83% e 76% dos brasileiros. Até mesmo entre o empresariado entrevistado, onde há o menor apoio, 68% se disseram favoráveis.&#xA;&#xA;E provavelmente manterá intocado o consenso tabu da nossa seguridade social: de que só tem direito quem trabalha no mercado de trabalho formal. No caso julgado pelo STF, a outra mãe, que gestou, é uma trabalhadora informal e que não teve direiro a licença em função disto. A consequência disso também é racial, visto que pais e mães não brancos terão menos acesso ao período essencial de licença, por que estão em maiores taxas de informalidade.&#xA;&#xA;Tabela retirada do Sistema SIDRA do IBGE com dados da PNAD Contínua trimestral em 2023. Nela estão os dados da taxa de informalidade no mercado de trabalho segundo a raça&#xA;emDados da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD) contínua de 2023 do IBGE/em&#xA;&#xA;Novamente, a disputa conservadora será acanhada contra a ideia de uma licença paternidade. Provavelmente, tentarão restringir de forma velada ao máximo possível por meio da austeridade - com o menor tempo e restrito aos trabalhadores formais - e de forma aberta a quem não for família, na visão deles - casais LGBTs. Se mesmo Ministros de um tribunal que foi colocado como progressista, em relação ao último governo de extrema-direita, utilizaram esse argumento de equilíbrio fiscal, o que impede dos conservadores o fazerem? &#xA;&#xA;Assim, VALE MUITO a pena brigarmos coletivamente pela aprovação do Estatuto da Parentalidade (PL 1974/2021), projeto de lei dos deputados Sâmia Bonfim (PSOL) e Glauber Braga (PSOL), que defende que duas pessoas responsáveis pelos cuidados tenham direito a 180 dias de licença remunerada. &#xA;&#xA;Ainda que foque em apenas duas pessoas e em trabalhadores formais, mas é uma proposta excelente e a mais radical de Licença Parental igualitária hoje e que bate nessas amarrações entre patriarcado, racismo, sexualidade e capitalismo. Infelizmente, nos falta organização parental para lutar pelo cuidado. Nessa perspectiva de tudo o que foi dito, a decisão judicial em torno dessas duas mães sobre o direito a licença mais longas não diz respeito apenas às LGBTs, mas interessa e impacta todos aqueles(as) que exercem o trabalho do cuidado ou dele dependem.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h3>Parentalidades em pedaços, LGBTs e capitalismo</h3>

<p><em>Apesar de ampliar a  abrangência da licença maternidade, o STF restirngiu a licença-maternidade a apenas uma das mães em casais lésbicos. Um dos argumentos? Austeridade sobre a previdência.</em></p>

<p><img src="https://crassahistory.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/07/internation1.jpg" alt="Colagem de família picotada com partes do corpo de varias fotos diferentes formando o corpo das pessoas em questão. Da esquerda pra direita, há uma filha, uma mãe, um pai e um filho"></p>

<p><em>Colagem feita por Gee v
Voucher para a primeira edição da Zine International Anthem (1977) da banda de anarcopunk inglesa, Crass. Uma família feita em pedaços</em></p>

<p>No dia 13 de Março de 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu que mães não gestantes tem direito à licença maternidade. Uma vitória grande para todas as LGBTs vivendo suas parentalidades em pedaços, que pode ter repercussão mesmo para casais de dois homens, garantindo alguma licença para famílias que não tem nenhuma.</p>

<p>Mas as LGBTs mais velhas tem razão quando não reivindicavam o reconhecimento como uma família nuclear monogâmica. Isso põe tetos reais nas nossas vidas: na mesma decisão, restringiram a licença maternidade a só uma das mães. A outra tem direito à licença paternidade, míseros 5 dias.</p>

<p>As duas consequências disso: de um lado, o Estado tratará uma das mães como um homem e a forçará a se distanciar de sua cria. De outro, lauda novamente que homens não devem cuidar de suas crias.</p>

<p>É a versão institucional de “quem é o homem ou a mulher da relação” em LGBTs.</p>

<p>A resposta deveria ser simples. É quem se identifica. E independente do gênero e do arranjo familiar, cuidar de uma criança recém nascida exige MUITO trabalho. Nada mais justo que quem cuide, seja em duas pessoas, três ou uma família inteira tenha licença remunerada digna pra isso.</p>

<p>Mas qual foi um dos argumentos para impedir que duas mulheres em união homoafetiva tivessem direito à licença maternidade? A austeridade: segundo argumento da Procuradoria Geral da República, <a href="https://www.youtube.com/live/oe-VWZ5uh1g?si=RtX4zYPr_FdkBZw-" rel="nofollow">acatado por boa parte dos Ministros</a>, isso sobrecarregaria a previdência social. Mais especificamente “Não criar despesas de previdência social sem previsão de receitas”. O que é engraçado quando consideramos que o mesmo tribunal não considera que referendar e endurecer a criminalização da maconha, debatida também nas últimas semanas, aumenta gastos do Estado – afinal, vigiar e punir custa muito caro.</p>

<p>Isso nos dá pista dos termos da disputa pela legislação de licença paternidade que precisará ocorrer até agosto de 2025, prazo limite estabelecido pelo STF para que o Congresso decida sobre essa omissão. O que nos faz considerar a hipótese de que mesmo entre conservadores, no mímimo não há disposição para se opor a ela, pois sinaliza para o apoio a algum modelo de família tradicional e, em uma esfera pública cada vez mais atenta aos direitos e vozes das mulheres, dificilmente se oporão a ela de forma aberta. Será sempre uma morosidade e oposição de forma envergonhada ou entre iguais: “quais garantias haverão ao homem provedor?”, “Homem não amamenta, talvez não precise de 180 dias como a mulher” e , por fim, “isso irá sobrecarregar a previdência social”. Essa é a deixa perfeita para a seletividade patriarcal e capitalista funcionarem: o judiciário e o restante do Estado brasileiro pode até garantir o reconhecimento formal de famílias não heterossexuais. Mas garantir condições materiais pra isso?Jamais. O homem (pai) deve dividir igualmente o trabalho do cuidado igualmente de seus filhos. Mas garantir condições materiais pra isso? Talvez não, talvez uma licença mais curra seja melhor gerar superávit primário para o pagamento de juros.</p>

<p>Todavia, os conservadores e capitalistas não são todo poderosos, videntes, bastiões da estratégia. Eles erram e falham, não atoa, mexer com aposentadoria e direitos previdenciários, dos quais as licenças fazem parte, é altamente antipopular. Um sinal disso é que, <a href="https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2024/04/para-76-dos-brasileiros-licenca-paternidade-deveria-ser-maior-diz-datafolha.shtml" rel="nofollow"> segundo pesquisa do Data Folha publicada em 02 de Abril de 2024</a>, a ampliação da licença maternidade e paternidade tem, respectivamente, apoio de 83% e 76% dos brasileiros. Até mesmo entre o empresariado entrevistado, onde há o menor apoio, 68% se disseram favoráveis.</p>

<p>E provavelmente manterá intocado o consenso tabu da nossa seguridade social: de que só tem direito quem trabalha no mercado de trabalho formal. No caso julgado pelo STF, a outra mãe, que gestou, é uma trabalhadora informal e que não teve direiro a licença em função disto. A consequência disso também é racial, visto que pais e mães não brancos terão menos acesso ao período essencial de licença, por que estão em maiores taxas de informalidade.</p>

<p><img src="https://ayom.media/system/media_attachments/files/112/340/654/305/819/909/original/2a3b724449ce05ba.jpg" alt="Tabela retirada do Sistema SIDRA do IBGE com dados da PNAD Contínua trimestral em 2023. Nela estão os dados da taxa de informalidade no mercado de trabalho segundo a raça">
<em>Dados da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD) contínua de 2023 do IBGE</em></p>

<p>Novamente, a disputa conservadora será acanhada contra a ideia de uma licença paternidade. Provavelmente, tentarão restringir de forma velada ao máximo possível por meio da austeridade – com o menor tempo e restrito aos trabalhadores formais – e de forma aberta a quem não for família, na visão deles – casais LGBTs. Se mesmo Ministros de um tribunal que foi colocado como progressista, em relação ao último governo de extrema-direita, utilizaram esse argumento de equilíbrio fiscal, o que impede dos conservadores o fazerem?</p>

<p>Assim, VALE MUITO a pena brigarmos coletivamente pela aprovação do Estatuto da Parentalidade (PL 1974/2021), projeto de lei dos deputados Sâmia Bonfim (PSOL) e Glauber Braga (PSOL), que defende que duas pessoas responsáveis pelos cuidados tenham direito a 180 dias de licença remunerada.</p>

<p>Ainda que foque em apenas duas pessoas e em trabalhadores formais, mas é uma proposta excelente e a mais radical de Licença Parental igualitária hoje e que bate nessas amarrações entre patriarcado, racismo, sexualidade e capitalismo. Infelizmente, nos falta organização parental para lutar pelo cuidado. Nessa perspectiva de tudo o que foi dito, a decisão judicial em torno dessas duas mães sobre o direito a licença mais longas não diz respeito apenas às LGBTs, mas interessa e impacta todos aqueles(as) que exercem o trabalho do cuidado ou dele dependem.</p>
]]></content:encoded>
      <author>Lento, pero escrevo</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/0topszi5z9</guid>
      <pubDate>Thu, 14 Mar 2024 19:19:25 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Bits, Dits, Sits</title>
      <link>https://blog.ayom.media/resenhacibernetica/bits-dits-sits</link>
      <description>&lt;![CDATA[Bits, Dits, Sits&#xA;&#xA;Bits: entropia informacional (incerteza) de Shannon medida quantitativamente por códigos sintáticos. &#xA;&#xA;Dits: informação semântica (distintiva). Medida por signos em grandezas quantitativa e qualitativa. Constituídas por linguagens. &#xA;&#xA;Sits: informação situacional ou referencial. Medida de sentido em grandezas apenas qualitativas (virtuais). Composta por sistemas de sentido (sociais). &#xA;&#xA;]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Bits, Dits, Sits</p>

<p>Bits: entropia informacional (incerteza) de Shannon medida quantitativamente por códigos sintáticos.</p>

<p>Dits: informação semântica (distintiva). Medida por signos em grandezas quantitativa e qualitativa. Constituídas por linguagens.</p>

<p>Sits: informação situacional ou referencial. Medida de sentido em grandezas apenas qualitativas (virtuais). Composta por sistemas de sentido (sociais).</p>
]]></content:encoded>
      <author>Resenha Cibernética</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/jbxis8zxxo</guid>
      <pubDate>Sat, 24 Feb 2024 14:46:02 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>IA e a explosão de conteúdo</title>
      <link>https://blog.ayom.media/resenhacibernetica/ia-e-a-explosao-de-conteudo</link>
      <description>&lt;![CDATA[&#xA;IA e a explosão de conteúdo &#xA;&#xA;Na era das mídias de difusão, havia poucos produtores de conteúdo e muitos receptores. &#xA;&#xA;Com as redes sociais, todo receptor se tornou também um emissor. Houve então uma explosão na produção de conteúdo. Mas não houve um aumento na recepção. Ela continuou de tamanho comparativamente semelhante.&#xA;&#xA;O resultado foi um aumento na oferta de conteúdo sem o mesmo aumento de demanda (atenção). Isso causou uma redução no valor da produção de conteúdo. &#xA;&#xA;Aí entraram os algoritmos. Estes provocam uma redução na oferta, selecionando o &#34;conteúdo relevante&#34; para a recepção. A razão disso foi para elevar o preço do conteúdo. Usuários passaram a pagar para &#34;turbinar&#34; seu conteúdo. &#xA;&#xA;Ao mesmo tempo, entrou conteúdo &#34;redundante&#34;, isto é, conteúdo de marketing. É esse conteúdo que efetivamente interessava às redes sociais. &#xA;&#xA;Basicamente com as IA generativas aumenta ainda mais a oferta de conteúdo. Mas a demanda de recepção permanece basicamente inalterada. &#xA;&#xA;Isso indica uma tendência à &#34;superprodução&#34; de conteúdo e a redução de seu valor global. Segundo a teoria do valor trabalho, o preço do conteúdo informativo tende a zero. &#xA;&#xA;Veremos então um acirramento do uso de algoritmos para reduzir o alcance do conteúdo. Algoritmos servirão como uma represa para impedir o escoamento do conteúdo. &#xA;&#xA;Veremos até que ponto o &#34;transbordo&#34; da geração de conteúdo irá efetivamente mudar as condições de produção do &#34;intelecto coletivo&#34;. &#xA;&#xA;]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>IA e a explosão de conteúdo</p>

<p>Na era das mídias de difusão, havia poucos produtores de conteúdo e muitos receptores.</p>

<p>Com as redes sociais, todo receptor se tornou também um emissor. Houve então uma explosão na produção de conteúdo. Mas não houve um aumento na recepção. Ela continuou de tamanho comparativamente semelhante.</p>

<p>O resultado foi um aumento na oferta de conteúdo sem o mesmo aumento de demanda (atenção). Isso causou uma redução no valor da produção de conteúdo.</p>

<p>Aí entraram os algoritmos. Estes provocam uma redução na oferta, selecionando o “conteúdo relevante” para a recepção. A razão disso foi para elevar o preço do conteúdo. Usuários passaram a pagar para “turbinar” seu conteúdo.</p>

<p>Ao mesmo tempo, entrou conteúdo “redundante”, isto é, conteúdo de marketing. É esse conteúdo que efetivamente interessava às redes sociais.</p>

<p>Basicamente com as IA generativas aumenta ainda mais a oferta de conteúdo. Mas a demanda de recepção permanece basicamente inalterada.</p>

<p>Isso indica uma tendência à “superprodução” de conteúdo e a redução de seu valor global. Segundo a teoria do valor trabalho, o preço do conteúdo informativo tende a zero.</p>

<p>Veremos então um acirramento do uso de algoritmos para reduzir o alcance do conteúdo. Algoritmos servirão como uma represa para impedir o escoamento do conteúdo.</p>

<p>Veremos até que ponto o “transbordo” da geração de conteúdo irá efetivamente mudar as condições de produção do “intelecto coletivo”.</p>
]]></content:encoded>
      <author>Resenha Cibernética</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/uw7wxna9t7</guid>
      <pubDate>Sat, 24 Feb 2024 12:47:02 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>O DIA QUE A CIDADE PAROU </title>
      <link>https://blog.ayom.media/guguzeco/strong-o-dia-que-a-cidade-parou</link>
      <description>&lt;![CDATA[strong O DIA QUE A CIDADE PAROU &#xA;(por causa de uma fila)/strong&#xA;&#xA;em Essa crônicazinha foi escrita em 22 de Agosto de 2018 após a fila do busão para a Universidade de Brasília, a linha 0.110, dar a volta na rodoviária todinha por conta de falta veículos e de obras inacabáves na rodoviária do Plano Piloto. Fazia não muito tempo, o passe estudantil de geral tinha sido bloqueado/em&#xA;&#xA;2030, futuro próximo da distopia estudantil. Um policial observa um grupo de estudantes enfileiradas(os), fecham o Eixo Monumental e o Eixão Sul, avenidas enormes e de alta velocidade. Puto, ele saca o spray de laser, ergue o cassetete que dá choque, aciona seus colegas de motos voadoras pela telepatia e pergunta ao estudante mais perto:&#xA;&#xA;&#34;Ei caralho, vai estudar! Sai dessa rua, muleque. Por que você tá aí?&#34;&#xA;&#xA;&#34;Perdão, senhor. Quero estudar, mas estou apenas esperando a fila do 0.110, como todo mundo aqui no eixo monumental.&#34;&#xA;&#xA;&#34;E por que porra tem um monte de estudante enfileirados fechando Eixão Sul, seu mentiroso?&#34;&#xA;&#xA;&#34;Aquela é a fila do DFTRANS, senhor. As pessoas estão apenas tentando resolver o problema do seu passe estudantil.&#34;&#xA;&#xA;Frustrado e sem poder fazer nada para diminuir as filas, o policial desistiu da sua lombra institucional. O DFTRANS continuou paranoico atrás de &#34;fraudes no passe livre&#34;. A quantidade de ônibus do 0.110 continuava a mesma, independente da UnB ter se tornado uma cidade a parte com 200.000 estudantes, que flutuava no céu com a força da pedância e o sonho de alguns acadêmicos em viverem mais perto do mundo da lua empresarial.&#xA;&#xA;As filas cresceram e já podiam ser vistas pelo satélite lançado diretamente da base de lançamento aeroespacial Alcântara Business, vendida para uma multinacional dos Estados Unidos. A fila já fazia os contornos do DF, chegando perto do entorno. &#34;O quadradinho do lobby&#34; se transformou no quadradinho da fila estudantil.&#xA;&#xA;Assim, finalmente, o DF parou.&#xA;&#34;O poder se sabotou&#34;, gritou a fila com alívio, alegria e cansaço.&#xA;&#xA;emO futuro da fila está próximo.em/&#xA;&#xA;Arte feita sobre o Mapa do DF, em tons roxeados, chapiscados como ruído de televisão]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong> O DIA QUE A CIDADE PAROU
(por causa de uma fila)</strong></p>

<p><em> Essa crônicazinha foi escrita em 22 de Agosto de 2018 após a fila do busão para a Universidade de Brasília, a linha 0.110, dar a volta na rodoviária todinha por conta de falta veículos e de obras inacabáves na rodoviária do Plano Piloto. Fazia não muito tempo, o passe estudantil de geral tinha sido bloqueado</em></p>

<p>2030, futuro próximo da distopia estudantil. Um policial observa um grupo de estudantes enfileiradas(os), fecham o Eixo Monumental e o Eixão Sul, avenidas enormes e de alta velocidade. Puto, ele saca o spray de laser, ergue o cassetete que dá choque, aciona seus colegas de motos voadoras pela telepatia e pergunta ao estudante mais perto:</p>

<p>“Ei caralho, vai estudar! Sai dessa rua, muleque. Por que você tá aí?”</p>

<p>“Perdão, senhor. Quero estudar, mas estou apenas esperando a fila do 0.110, como todo mundo aqui no eixo monumental.”</p>

<p>“E por que porra tem um monte de estudante enfileirados fechando Eixão Sul, seu mentiroso?”</p>

<p>“Aquela é a fila do DFTRANS, senhor. As pessoas estão apenas tentando resolver o problema do seu passe estudantil.”</p>

<p>Frustrado e sem poder fazer nada para diminuir as filas, o policial desistiu da sua lombra institucional. O DFTRANS continuou paranoico atrás de “fraudes no passe livre”. A quantidade de ônibus do 0.110 continuava a mesma, independente da UnB ter se tornado uma cidade a parte com 200.000 estudantes, que flutuava no céu com a força da pedância e o sonho de alguns acadêmicos em viverem mais perto do mundo da lua empresarial.</p>

<p>As filas cresceram e já podiam ser vistas pelo satélite lançado diretamente da base de lançamento aeroespacial Alcântara Business, vendida para uma multinacional dos Estados Unidos. A fila já fazia os contornos do DF, chegando perto do entorno. “O quadradinho do lobby” se transformou no quadradinho da fila estudantil.</p>

<p>Assim, finalmente, o DF parou.
“O poder se sabotou”, gritou a fila com alívio, alegria e cansaço.</p>

<p><em>O futuro da fila está próximo.<em/></p>

<p><img src="https://ayom.media/system/media_attachments/files/111/995/047/391/404/292/original/e1696e9e324893eb.png" alt="Arte feita sobre o Mapa do DF, em tons roxeados, chapiscados como ruído de televisão"></p>
]]></content:encoded>
      <author>Lento, pero escrevo</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/hiwbupbsga</guid>
      <pubDate>Thu, 25 Jan 2024 16:28:14 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>6 meses de vida e a urgência da Licença Parental</title>
      <link>https://blog.ayom.media/guguzeco/6-meses-de-vida-e-a-urgencia-da-licenca-parental</link>
      <description>&lt;![CDATA[h16 meses de vida e a urgência da Licença Parental/h1&#xA;&#xA;em Você sabe quantas horas por dia se gasta para amamentar um bebê? E arrotar, cochilar, dormir? Um pouco das razões de ser absurdo uma licença paternidade de 5 dias /em&#xA;&#xA;Coruja buraqueira em seu ninho feito por genteCoruja buraqueira na pracinha. Na época da foto, brava e gritando com as pessoas por que tinha dado cria recentemente&#xA;&#xA;Semana passada nossa filha fez 6 meses de vida. E sem a licença parentalidade de 6 meses que conquistamos no Programa de Pós-Graduação de Ciência Política da UnB, teria sido absurdamente mais exaustivo para nós, para minha companheira, para nossa família e para nossa filha. Esse é o período recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para que a alimentação do bebê seja exclusivamente de leite materno. Além do contato pele a pele, que estimula e acalma a criança, o aleitamento garante mais saúde pois passa os anticorpos - até mesmo de vacinas - e é um alimento supernutritivo para a criança.&#xA;&#xA;Mas sabe quantas horas por dia se gasta com um bebê para que isso seja possível? E todas as outras necessidades, quanto tempo duram? Odeio essa exposição, mas vou contar um relato pessoal por que muitas pessoas que não convivem ou conviveram com bebês e crianças, em especial homens como eu, não tem a mínima ideia do quão trabalhoso é manter um recém nascido vivo.&#xA;&#xA;h3NAS PRIMEIRAS SEMANAS DE VIDA:/h3&#xA;O bebê ainda está aprendendo a mamar, por isso passa muito tempo mamando. Várias vezes, foram 40 minutos para nossa filha estar satisfeita. Depois disso, ela ainda não sabe arrotar ou mesmo tossir para se desengasgar. Então são mais 20 minutos para que a criança arrote, no ombro ou na vertical com nosso apoio. Por dia são, em média 10 a 12 mamadas. Se apenas a mulher ou a pessoa que amamenta também for a responsável por colocar a criança para arrotar, são strong12 horas por dia apenas mamando./strong&#xA;&#xA;h3NOS PRIMEIROS TRÊS MESES:/h3&#xA;Depois melhora um pouco, piora um pouco. Sendo otimista, são em torno de 7 a 10 mamadas por dia e elas duram 20 minutos, mais os 20 minutos arrotando. Só aqui, quando tudo vai bem são mais em 4 horas e meia do seu dia /em. &#xA;&#xA;Mas além disso, a criança precisa cochilar durante o dia para dormir bem a noite, evitando uma noite estressante em que precisemos acordar de uma em uma hora e em que tranquilize apenas mamando. E descansar é essencial para a pessoa que amamenta conseguir produzir leite. A criança precisa cochilar em torno de 3 a 5 horas POR DIA e algumas só cochilam mamando ou no colo depois de balançar por em média 20 minutos. São pelo menos mais 3 horas. &#xA;&#xA;strongSão quase sete horas ao todo que o bebê pode acabar passando só no braço./strong&#xA;&#xA;h3ENTRE OS 3 E 6 MESES/h3&#xA;As mamadas melhoram, são mais rápidas. Mas a partir dos três meses a criança passa a perceber tudo ao seu redor. Então os cochilos dela são mais difíceis, por que ela distrai com tudo. E novamente, para produzir leite a pessoa que amamenta precisa também conseguir descansar. Se o bebê não cochila? Bom, a noite ele provavelmente não dorme direito, logo quem amamenta também não dorme e pode ter mais dificuldade ainda para amamentar.&#xA;&#xA;O bebê passa intervalos de tempo maiores sem mamar. A cada duas ou três horas durante 10 a 20 minutos. Só isso, já dá em torno de 2h30min por dia apenas no peito. E, como dito, cochilar também é essencial: nessa idade precisam de 3 a 5 horas de cochilos diurnos. São pelo menos cinco horas por dia com a criança no colo.&#xA;&#xA;img src=&#34;https://i.pinimg.com/originals/8f/56/95/8f56950fbc7a7f933c549b53c01d8cfe.jpg&#34;/&#xA;emCasa de João de Barro em um poste. Um ninho de um pássaro mais tranquilo, mas que perdeu a tranquilidade no diabo do poste/em&#xA;&#xA;h3O dia tem 24 horas?/h3&#xA;&#xA;Narro tudo isso a partir de uma dedicação bem objetiva, que é a quantidade de horas. em Foram 180 dias em que a nossa filha precisava entre 5 horas de colo por dia, nos melhores momentos, a 12 horas por dia, nos momentos mais difíceis /em.&#xA;&#xA;Nessa conta não considerei outras tantas horas que a mãe ou pessoa que amamenta pode precisar passar ordenhando leite para ter um estoque de leite, caso precise ter qualquer outra obrigação normal de uma pessoa adulta que lhe impeça de estar longe da filha por algumas poucas horas. Não considerei que a mãe ou pessoa que amamenta precisa se alimentar bem, beber uma quantidade enorme de água, urinar, defecar, tomar banho e viver em um lugar minimamente organizado e limpo para passar por esse momento caótico que é o puerpério.&#xA;&#xA;Aliás, não considerei uma coisa básica do strongtrabalho/strong de cuidar de um bebê pequeno: tem toda a parte subjetiva de como está nossa cabeça, o zelo, os medos, o morrer de amores, as oscilações de humor, as pressões e o julgamento constante de tudo ao seu redor. São muitas outras horas do seu dia que você passará tentando entender quem é você no meio de tudo isso - e se você é um pai que cuida igual, também passará por isso.&#xA;&#xA;Autora Silvia Federici segurando um pano escrito &#34;isso que chamam de Amor é trabalho não pago&#34;Aqui em casa somos muito fechados com Silvia Federici. Mas desde que soubemos da gravidez, o tanto que a gente já chorou de exaustão é o mesmo tanto que a gente ama nossa filha. Viver na contradição tem dessas coisas&#xA;&#xA;h3A licença parental radical ou licença de cuidado /h3&#xA;&#xA;Como o dia tem apenas 24 horas por dia, obviamente é completamente insustentável amamentar e cuidar sozinha. Eu honestamente não sei como trabalhadoras informais sem direito à licença-maternidade, mães solo e sem rede de apoio dão conta. Provavelmente não dão, mas o sofrimento nesse período da vida é tão naturalizado e normalizado que ninguém se importa. Mesmo que se opte por dar fórmula por falta de tempo, exaustão ou isolamento, há todas as outras coisas que precisam ser feitas.&#xA;&#xA;Hoje em dia a licença paternidade não existe, a não ser que você considere que em 5 dias você pode cuidar plenamente do seu bebê que acabou de vir ao mundo, acompanhar seu desenvolvimento, ser pai e aliviar sua companheira que amamenta.&#xA;&#xA;Mesmo algumas instituições do Estado já reconhecem a necessidade de criar um licença real, como sinalizou a href=&#34;https://g1.globo.com/politica/noticia/2023/12/14/stf-estabelece-prazo-para-o-congresso-regulamentar-a-licenca-paternidade.ghtml&#34;decisão do Supremo Tribunal Federal (STF)/a obrigando que em até 18 meses o congresso estenda e decida sobre a licença paternidade. Até alguns capitalistas e seus gestores progressistas já reconheceram essa urgência e aderiram à a href=&#34;https://www.coalizaolicencapaternidade.com.br/take-action&#34;Coalizão Licença Paternidade (COPAI)/a. Nesse sentido também é que vai o a href=&#34;https://www.camara.leg.br/propostas-legislativas/2284867&#34;Projeto de Lei 1974/2021 /a das deputadas Sâmia Bonfim e Glauber Braga, que criam a licença parentalidade remunerada por 180 dias para duas pessoas responsáveis pela criança.&#xA;&#xA;Mesmo que a Licença seja estendida, devíamos ir até além. Por que é a coisa mais comum do mundo que quando nasce um bebê, as avós e as tias se desdobrem para cuidar também. Ou seja, dois adultos sozinhos não são suficientes para cuidar de um bebê de uma forma digna e não exaustiva. Todas as pessoas que se desdobram pra tocar o strongtrabalho/strong de cuidar de um bebê em suas famílias estendidas, não tradicionais, LGBTs e que fogem à família monogâmica nuclear - papai, mamãe, criança e cachorro - deveriam ter direito a 180 dias de licença remunerada - sejam elas empregadas formalmente ou não. &#xA;&#xA;Esse é um passo essencial para que as mulheres não precisem se strongsobrecarregar/strong com 12 horas ou mais do seu dia para o strongtrabalho/strong de cuidar. E nós, homens, temos feito muito pouco nessa briga coletiva para cuidar que deveria nos mobilizar tanto quanto todas as outras lutas coletivas. Que a briga por uma licença parentalidade digna seja um primeiro passo para isso.&#xA;&#xA;Vários cavalos-marinho, grávidos próximo a um coralAo contrário do que dizem os capitalistas e os conservadores, que  &#34;macho&#34; já é biologicamente predisposto a não cuidar, na natureza o cavalo-marinho &#34;macho&#34; &#34;engravida&#34;. Como será que os conservadores vão reagir quando souberem que homens podem amamentar?&#xA;]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h1>6 meses de vida e a urgência da Licença Parental</h1>

<p><em> Você sabe quantas horas por dia se gasta para amamentar um bebê? E arrotar, cochilar, dormir? Um pouco das razões de ser absurdo uma licença paternidade de 5 dias </em></p>

<p><img src="https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/ae/Casa_de_coruja_buraqueira.jpg" alt="Coruja buraqueira em seu ninho feito por gente"><em>Coruja buraqueira na pracinha. Na época da foto, brava e gritando com as pessoas por que tinha dado cria recentemente</em></p>

<p>Semana passada nossa filha fez 6 meses de vida. E sem a licença parentalidade de 6 meses que conquistamos no Programa de Pós-Graduação de Ciência Política da UnB, teria sido absurdamente mais exaustivo para nós, para minha companheira, para nossa família e para nossa filha. Esse é o período recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para que a alimentação do bebê seja exclusivamente de leite materno. Além do contato pele a pele, que estimula e acalma a criança, o aleitamento garante mais saúde pois passa os anticorpos – até mesmo de vacinas – e é um alimento supernutritivo para a criança.</p>

<p>Mas sabe quantas horas por dia se gasta com um bebê para que isso seja possível? E todas as outras necessidades, quanto tempo duram? Odeio essa exposição, mas vou contar um relato pessoal por que muitas pessoas que não convivem ou conviveram com bebês e crianças, em especial homens como eu, não tem a mínima ideia do quão trabalhoso é manter um recém nascido vivo.</p>

<h3>NAS PRIMEIRAS SEMANAS DE VIDA:</h3>
O bebê ainda está aprendendo a mamar, por isso passa muito tempo mamando. Várias vezes, foram 40 minutos para nossa filha estar satisfeita. Depois disso, ela ainda não sabe arrotar ou mesmo tossir para se desengasgar. Então são mais 20 minutos para que a criança arrote, no ombro ou na vertical com nosso apoio. Por dia são, em média 10 a 12 mamadas. Se apenas a mulher ou a pessoa que amamenta também for a responsável por colocar a criança para arrotar, são <strong>12 horas por dia apenas mamando.</strong>

<h3>NOS PRIMEIROS TRÊS MESES:</h3>
Depois melhora um pouco, piora um pouco. Sendo otimista, são em torno de 7 a 10 mamadas por dia e elas duram 20 minutos, mais os 20 minutos arrotando. Só aqui, quando tudo vai bem são mais <em> 4 horas e meia do seu dia </em>. 

Mas além disso, a criança precisa cochilar durante o dia para dormir bem a noite, evitando uma noite estressante em que precisemos acordar de uma em uma hora e em que tranquilize apenas mamando. E descansar é essencial para a pessoa que amamenta conseguir produzir leite. A criança precisa cochilar em torno de 3 a 5 horas POR DIA e algumas só cochilam mamando ou no colo depois de balançar por em média 20 minutos. São pelo menos mais 3 horas. 

<strong>São quase sete horas ao todo que o bebê pode acabar passando só no braço.</strong>

<h3>ENTRE OS 3 E 6 MESES</h3>
As mamadas melhoram, são mais rápidas. Mas a partir dos três meses a criança passa a perceber tudo ao seu redor. Então os cochilos dela são mais difíceis, por que ela distrai com tudo. E novamente, para produzir leite a pessoa que amamenta precisa também conseguir descansar. Se o bebê não cochila? Bom, a noite ele provavelmente não dorme direito, logo quem amamenta também não dorme e pode ter mais dificuldade ainda para amamentar.

O bebê passa intervalos de tempo maiores sem mamar. A cada duas ou três horas durante 10 a 20 minutos. Só isso, já dá em torno de 2h30min por dia apenas no peito. E, como dito, cochilar também é essencial: nessa idade precisam de 3 a 5 horas de cochilos diurnos. São pelo menos cinco horas por dia com a criança no colo.

<img src="https://i.pinimg.com/originals/8f/56/95/8f56950fbc7a7f933c549b53c01d8cfe.jpg"/>
<em>Casa de João de Barro em um poste. Um ninho de um pássaro mais tranquilo, mas que perdeu a tranquilidade no diabo do poste</em>

<h3>O dia tem 24 horas?</h3>

<p>Narro tudo isso a partir de uma dedicação bem objetiva, que é a quantidade de horas. <em> Foram 180 dias em que a nossa filha precisava entre 5 horas de colo por dia, nos melhores momentos, a 12 horas por dia, nos momentos mais difíceis </em>.</p>

<p>Nessa conta não considerei outras tantas horas que a mãe ou pessoa que amamenta pode precisar passar ordenhando leite para ter um estoque de leite, caso precise ter qualquer outra obrigação normal de uma pessoa adulta que lhe impeça de estar longe da filha por algumas poucas horas. Não considerei que a mãe ou pessoa que amamenta precisa se alimentar bem, beber uma quantidade enorme de água, urinar, defecar, tomar banho e viver em um lugar minimamente organizado e limpo para passar por esse momento caótico que é o puerpério.</p>

<p>Aliás, não considerei uma coisa básica do <strong>trabalho</strong> de cuidar de um bebê pequeno: tem toda a parte subjetiva de como está nossa cabeça, o zelo, os medos, o morrer de amores, as oscilações de humor, as pressões e o julgamento constante de tudo ao seu redor. São muitas outras horas do seu dia que você passará tentando entender quem é você no meio de tudo isso – e se você é um pai que cuida igual, também passará por isso.</p>

<p><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/w_1200,h_600,c_fill,f_jpg,q_auto:good,fl_progressive:steep,g_auto/https://bucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com/public/images/b90a6c50-cf9b-4341-a124-05cb5c431e94_599x597.png" alt="Autora Silvia Federici segurando um pano escrito &#34;isso que chamam de Amor é trabalho não pago&#34;"><em>Aqui em casa somos muito fechados com Silvia Federici. Mas desde que soubemos da gravidez, o tanto que a gente já chorou de exaustão é o mesmo tanto que a gente ama nossa filha. Viver na contradição tem dessas coisas</em></p>

<h3>A licença parental radical ou licença de cuidado </h3>

<p>Como o dia tem apenas 24 horas por dia, obviamente é completamente insustentável amamentar e cuidar sozinha. Eu honestamente não sei como trabalhadoras informais sem direito à licença-maternidade, mães solo e sem rede de apoio dão conta. Provavelmente não dão, mas o sofrimento nesse período da vida é tão naturalizado e normalizado que ninguém se importa. Mesmo que se opte por dar fórmula por falta de tempo, exaustão ou isolamento, há todas as outras coisas que precisam ser feitas.</p>

<p>Hoje em dia a licença paternidade não existe, a não ser que você considere que em 5 dias você pode cuidar plenamente do seu bebê que acabou de vir ao mundo, acompanhar seu desenvolvimento, ser pai e aliviar sua companheira que amamenta.</p>

<p>Mesmo algumas instituições do Estado já reconhecem a necessidade de criar um licença real, como sinalizou <a href="https://g1.globo.com/politica/noticia/2023/12/14/stf-estabelece-prazo-para-o-congresso-regulamentar-a-licenca-paternidade.ghtml" rel="nofollow">decisão do Supremo Tribunal Federal (STF)</a> obrigando que em até 18 meses o congresso estenda e decida sobre a licença paternidade. Até alguns capitalistas e seus gestores progressistas já reconheceram essa urgência e aderiram à <a href="https://www.coalizaolicencapaternidade.com.br/take-action" rel="nofollow">Coalizão Licença Paternidade (COPAI)</a>. Nesse sentido também é que vai o <a href="https://www.camara.leg.br/propostas-legislativas/2284867" rel="nofollow">Projeto de Lei 1974/2021 </a> das deputadas Sâmia Bonfim e Glauber Braga, que criam a licença parentalidade remunerada por 180 dias para duas pessoas responsáveis pela criança.</p>

<p>Mesmo que a Licença seja estendida, devíamos ir até além. Por que é a coisa mais comum do mundo que quando nasce um bebê, as avós e as tias se desdobrem para cuidar também. Ou seja, dois adultos sozinhos não são suficientes para cuidar de um bebê de uma forma digna e não exaustiva. Todas as pessoas que se desdobram pra tocar o <strong>trabalho</strong> de cuidar de um bebê em suas famílias estendidas, não tradicionais, LGBTs e que fogem à família monogâmica nuclear – papai, mamãe, criança e cachorro – deveriam ter direito a 180 dias de licença remunerada – sejam elas empregadas formalmente ou não.</p>

<p>Esse é um passo essencial para que as mulheres não precisem se <strong>sobrecarregar</strong> com 12 horas ou mais do seu dia para o <strong>trabalho</strong> de cuidar. E nós, homens, temos feito muito pouco nessa briga coletiva para cuidar que deveria nos mobilizar tanto quanto todas as outras lutas coletivas. Que a briga por uma licença parentalidade digna seja um primeiro passo para isso.</p>

<p><img src="https://marsemfim.com.br/wp-content/uploads/2013/11/gravidos-.jpg" alt="Vários cavalos-marinho, grávidos próximo a um coral"><em>Ao contrário do que dizem os capitalistas e os conservadores, que  “macho” já é biologicamente predisposto a não cuidar, na natureza o cavalo-marinho “macho” “engravida”. Como será que os conservadores vão reagir quando souberem que homens podem amamentar?</em></p>
]]></content:encoded>
      <author>Lento, pero escrevo</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/b21benygbe</guid>
      <pubDate>Sat, 13 Jan 2024 15:14:17 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Considerações sobre o artigo &#34;Positive and differential diagnosis</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ana/b-consideracoes-sobre-o-artigo-i-positive-and-differential-diagnosis</link>
      <description>&lt;![CDATA[b Considerações sobre o artigo i&#34;Positive and differential diagnosis&#xA;of autism in verbal women of typical intelligence: A Delphi study [1]&#34;/i/b&#xA;&#xA;DISCLAIMER IMPORTANTE: o artigo fala principalmente de autismo de nível de suporte 1, apesar de não citar o termo, e eu também falo disso aqui. Mulheres com níveis de suporte mais alto também sofrem com demora em seus diagnósticos, mas as questões identitárias são sensivelmente diferentes às que eu experiencio. &#xA;&#xA;-----&#xA;&#xA;Olá, sou Ana, uma pessoa autista adulta (25 anos), identificada socialmente como mulher e diagnosticada tardiamente (24 anos). Já escrevi anteriormente sobre minha experiência de diagnóstico tardio de autismo.&#xA;&#xA;Recentemente, acabei me desvencilhando de acompanhar conteúdos e discussões acerca de autismo, em uma tentativa de me dar o espaço necessário para processar o diagnóstico sem intervenções de redes sociais. Entretanto, participo do grupo de WhatsApp &#34;Autistas - UNICAMP&#34;, minha alma mater, que reúne pessoas autistas da Unicamp e relacionadas. Algumas vezes, pessoas compartilham materiais acadêmicos sobre autismo por lá, e o artigo aqui citado em especial me chamou atenção. &#xA;&#xA;Em &#34;Positive and differential diagnosis of autism in verbal women of typical intelligence: A Delphi study&#34; (CUMIN, PELAEZ, MOTTRON, 2022) ês autories reconhecem os critérios diagnósticos do espectro autista (de acordo com o DSM-V e o CID-11) vagos. Atualmente, nos EUA, um dos países com a maior documentação estatística acerca do assunto, a prevalência de autismo é de 1 para 36 crianças [2], o que pode estar relacionado a diversos fatores. Entretanto, a proporção entre meninos e meninas é de 4 para 1, o que reacende a discussão sobre o processo diagnóstico de TEA em meninas. &#xA;&#xA;Historicamente, o processo diagnóstico de TEA em meninas vem sido prejudicado por preconceitos de gênero e enviesamento dos próprios critérios e testes diagnósticos. Principalmente no tocante a diagnósticos tardios femininos, há uma dificuldade em diferenciar o autismo, um transtorno biopsicossocial, de condições psiquiátricas, como o transtorno de personalidade limítrofe (borderline). O ponto do estudo, portanto, foi averiguar os critérios específicos de diferenciação diagnóstica para mulheres adultas com inteligência &#34;normal&#34;, por parte de especialistas em autismo envolvidos com esse perfil em sete países. &#xA;&#xA;Foram 37 os critérios citados em comum por 20 profissionais entrevistades, separados nas seguintes categorias: fatores de complexidade no atendimento, como gerir esses fatores, sinais típicos de autismo em mulheres e diagnósticos diferenciais e comorbidades. &#xA;&#xA;Entre os fatores de complexidade no atendimento, três coisas me chamaram a atenção: o auto-diagnóstico, condições de estigma relacionadas a transtornos comórbidos e reações negativas com o (não-)diagnóstico.&#xA;&#xA;O autodiagnóstico de autismo é um tópico extremamente inflamado dentro da comunidade autista e arredores (como pais, profissionais de saúde, etc.). Grande parte des defensories de auto-diagnóstico estão de acordo que o autodiagnóstico é apenas a primeira parte do processo diagnóstico e não o ponto de chegada. Entretanto, principalmente entre adolescentes, cresce a quantidade de pessoas envolvidas em reconhecer transtornos por meio de listas superficiais em redes sociais com conteúdos cada vez mais pulverizados e até falsos. Cada vez mais, quando têm acesso ao processo diagnóstico oficial, adolescentes e adultes chegam cheies de certeza de seus diagnósticos, o que atrapalha substancialmente o próprio processo. &#xA;&#xA;Qualquer pessoa que tenha o mínimo conhecimento acerca do DSM-V, um manual estadunidense e o principal manual utilizado no Brasil para orientação de processos diagnósticos psiquiátricos e afins, sabe o quanto pode ser sutil b e política /b a diferença entre diagnósticos. É difícil de chegar a uma conclusão certeira até mesmo para profissionais, mas de alguma forma criou-se a narrativa de que qualquer um pode se autodiagnosticar autista, porque &#34;ninguém conhece você melhor que você mesmo&#34;. Essa parte é particularmente delicada porque muitas pessoas têm seus acessos a diagnósticos negados sistematicamente por diferenças raciais, econômicas e de gênero. Entretanto, o que deve ser envisionado aqui não é a banalização do diagnóstico e sim o questionamento das condições socioeconômicas degradantes a que nós pessoas marginalizadas somos expostas, e, por que não?, a própria categoria diagnóstica. &#xA;&#xA;O neoliberalismo cria as categorias médicas psiquiátricas e as explora enquanto identidades, em um ciclo retroalimentado. 10 anos atrás, quando eu ainda era adolescente e o autismo não era assunto muito comum em redes sociais brasileiras, já se colocava na biografia de sites como Twitter certos indicadores como &#34;bipolar&#34; ou &#34;borderline&#34;. Em outras palavras, não é exatamente um fenômeno pós-TikTok ou restrito a adolescentes nascides após 2003. Infelizmente, o que se observa é cada vez menos a denúncia das intrínsecas relações entre psiquiatria e neoliberalismo e cada vez mais o abraço em identidades. Eu entendo esse fenômeno como vizinho a outro típico do neoliberalismo: todos nós queremos ser úniques, e cada identidade que colocamos em nossas descrições nos ajuda a nos afirmarmos contra o mundo. Em um mundo adoecido de capitalismo tardio, dominado por relações precárias e expropriação de mais-valor extrema, b todos sofremos /b. Aqui não se trata de dizer que &#34;todo mundo é um pouco autista&#34;, afinal de contas, todes sofremos, mas nossos sofrimentos podem ser distintos e o autismo é uma categoria definida. O que coloco em questionamento é a certeza adolescente e jovem-adulta de que sofremos mais do que ês outres e que somos especiais por isso, como se o ônus de sofrer estivesse vinculado inecessariamente/i a um transtorno psiquiátrico... o que não deixa de ser uma postura individualista! &#xA;&#xA;O gancho aqui exposto me leva ao segundo tópico: condições de estigma relacionadas a transtornos comórbidos. A depressão, o transtorno bipolar, o transtorno de ansiedade, o transtorno de personalidade limítrofe, todos eles carregam um pesado estigma social de serem questões puramente pessoais. Quem carrega esses transtornos o carrega por questões individuais, sendo a cura uma questão individual também. &#34;Tem que ter a terapia em dia&#34;, diz a massa jovem em relação a parceires afetivo-sexuais, como se a terapia fosse a panaceia dos problemas psicossociais. Ao contrário, a delimitação do conceito de neurodiversidade coloca no cérebro biológico a &#34;culpa&#34; de sermos quem somos. Não podemos ter culpa sobre nossos sofrimentos se é algo que nascemos com, ou seja, nos afastamos do estigma de sermos responsáveis por nosso próprio &#34;fracasso&#34;. Já não devemos algo à sociedade, ela quem nos deve algo, porque somos diferentes e a nossa diferença importa. &#xA;&#xA;Note que eu definitivamente não concordo com essa leitura sobre os transtornos mentais, e também não afirmo que a vida de autista/neurodiverse é flores. Nós autistas sofremos sistematicamente com exclusão em vários aspectos sociais, mas aqui meu foco é outro: o uso da linguagem e da identidade para, individualmente, nos resguardarmos do sentimento desgraçado de ser uma falha. Ao abraçar a alcunha de &#34;depressives&#34;, nos indicamos individualmente doentes, e nos colocamos na terapia. Ainda que a depressão tenha também sido cerebralizada (um termo usado por Ortega, em &#34;Somos Nosso Cérebro?&#34;), o autismo é especialmente cerebralizado. No autismo, somos nosso cérebro, ele comanda todas as partes do nosso ser. Essa cerebralização de fenômenos psicossociais como se o cérebro fosse de fato uma CPU natural é uma visão neoliberal e colonizada. Desde quando uma parte do nosso corpo (o cérebro) recebeu uma importância desenfreada em nosso senso comum? A proliferação de abordagens neurocientíficas, que acrescentam o prefixo &#34;neuro&#34; em toda e qualquer coisa, gera a neurodiversidade, mas também a &#34;neuroindividualização&#34; (acabei de inventar esse termo). Nós autistas somos um corpo uno, nosso cérebro é apenas parte de nós. Quando compramos essa lógica cerebralizante, estamos também sumindo perante o capital. Em resumo, é meu cérebro que é assim, eu sou diferente e pronto e acabou.&#xA;&#xA;Mas, afinal de contas, existem cérebros típicos? É a pergunta de milhões. Mesmo assim, diversos membros da comunidade autista parecem se segurar em uma premissa de que são um mundo à parte, com uma diversidade natural não vista em nenhuma outra parte da sociedade, e até mesmo colocam questões morais no meio, taxando ês &#34;neurotípiques&#34; de pessoas intrinsecamente ruins. Criamos uma divisão entre &#34;nós&#34; e &#34;elus&#34; que é completamente cinza, ou seja, não tem um critério claro. E mesmo que esse critério fosse claro, é justificado nos fecharmos em um círculo de pureza? Afinal de contas, como o próprio estudo aponta: i&#34;A diagnosis of autism can provide a feeling of belonging to a community, and some clinicians felt that the autism as a social identity resonated particularly with their female patients. Many clinicians indicated that autism was seen by their patients and clients as more socially acceptable than a mental health condition, which could complicate the process of making a differential diagnosis and receiving a stigmatizing label.&#34;/i &#xA;&#xA;A construção da identidade é algo importantíssimo para nosso reconhecimento junto à sociedade. Entretanto, é perceptível a monetização da identidade, e o autismo não deixa de ser uma das identidades que entram nesse balaio. Quando chegam aos consultórios agarrados à certeza de que &#34;meu cérebro é diferente, não é minha culpa&#34;, ês pacientes reagem (muito) mal à notícia de que não preenchem critérios diagnósticos para autismo. Voltam à estaca de &#34;você pode ter outro transtorno, um que vai ser sua culpa&#34;. O boom da procura por diagnósticos tardios de autismo também está relacionado, portanto, ao estigma de diagnósticos correlacionados que são duramente estigmatizados e individualizados (as próprias categorias diagnósticas de que fazem parte segundo o DSM-V são o estigma da loucura, levando as pessoas a não verem melhora substancial nos seus quadros, claro!)&#xA;&#xA;Passando ao terceiro tópico, o de sinais típicos de autismo em mulheres adultas. São listados 11 sinais, dos quais destaco: &#34;Autistic women, despite presenting as intelligent, had often failed to achieve expected levels of personal/professional success&#34;, e &#34;In autistic women, gender may be expressed more fluidly, with less attachment to the gender binary, or femininity may appear forced/rehearsed&#34;.&#xA;&#xA;A marca social da diferença está muito relacionada à questão diagnóstica do autismo e esses dois tópicos são sintomáticos. Primeiramente, o que é &#34;alcançar níveis de sucesso profissional/pessoal&#34; em um contexto em que sofremos brutalmente com o desemprego, o subemprego, a inflação, a substituição por tecnologias, entre outros? Algum des tides &#34;neurotípiques&#34;, por mais inteligentes que sejam, conseguem alcançar esses níveis de sucesso profissional/pessoal? O que é essa métrica do &#34;sucesso&#34;? Utilizar um critério associado ao sucesso de uma pessoa, atrelando-o ainda à noção de inteligência, é também um sintoma neoliberal por trás das avaliações neuropsicológicas e psiquiátricas. Parece, então, que ao observar ume indivídue que não responde adequadamente à pressão neoliberal, e juntarmos a um conjunto de características que se destacam em meio a uma pretensa normalidade, precisamos patologizá-le. &#xA;&#xA;Ainda dentro da diferença, a aparição do critério de expressão de gênero fluida como atrelado ao autismo também é preocupante. Quantas mulheres e outras pessoas que desviam da norma de gênero foram internadas em sanatórios ao longo da história? Desvincular gênero e sexualidade de critérios patológicos é mandatório em um cenário antimanicomial. É verdade que nós autistas por sermos menos ligades a normas e convenções sociais, estamos mais propenses a nos expressarmos mais livremente. Entretanto, o desconforto e o rechaço a normas sociais de gênero e sexualidade é uma coisa perfeitamente normal em uma sociedade repressiva de desviantes. No grupo des autistas da Unicamp, mais de uma vez pessoas relatam seu desconforto com normas de gênero como se fosse um trejeito autístico. Na verdade, esse é um desconforto... humano. Tentar vincular as duas coisas como intrínsecas, além de problemático, volta ao assunto de buscar formas de nos colocarmos como especiais perante o resto da sociedade, uma conduta individualizante que nos isola e não nos une em torno da luta por uma sociedade melhor. &#xA;&#xA;Por fim, ainda no tópico de internação manicomial de mulheres e pessoas desviantes de normas de gênero em geral, o próprio estudo apresenta a histórica vinculação entre transtornos psiquiátricos e autismo, como diagnósticos facilmente trocados erroneamente. &#34;Borderline Personality Disorder is highly present in autism assessment clinics as a past diagnosis and/or a potential differential diagnosis&#34; e &#34;Autistic women can superficially present with signs resembling Borderline Personality Disorder&#34;. Isso porque, além de toda a problemática neoliberal apresentada, o gênero é uma camada de interpretação importante. Mulheres desviantes só podem ser loucas, atípicas, &#34;com cérebro diferente&#34;. O que está em jogo aqui é, de fato, a mudança de uma linguagem patologizante para outra que, apesar de parecer menos patologizante, ainda ressoa nas entrelinhas dentro da lógica capitalista. &#xA;&#xA;&#34;Ah, mas Ana, tudo para você é capitalismo? O autismo não ia existir no comunismo?&#34; Isso (as condições de uma sociedade comunista existente) eu já não sei informar, mas a percepção de diagnósticos psiquiátricos e adjacentes está intimamente ligada com o desenvolvimento da medicina, que, oras, anda de mãos dadas com o capitalismo, o racismo e a misoginia, entre outros. Ao abraçar acriticamente identidades provenientes da lógica médica presente no DSM-V, de forma até mesmo agressiva, estamos nos deixando engolir.&#xA;&#xA;Atenciosamente,&#xA;&#xA;Uma autista possivelmente borderline possivelmente louca possivelmente... só humana.&#xA;&#xA;Referências na ordem em que aparecem:&#xA;&#xA;[1] Cumin, J., Pelaez, S., &amp; Mottron, L. (2022). Positive and differential diagnosis of autism in verbal women of typical intelligence: A Delphi study. Autism, 26(5), 1153–1164. https://doi.org/10.1177/13623613211042719&#xA;[2] Data &amp; Statistics on Autism Spectrum Disorder, por Centers for Disease Control and Prevention (2022): https://www.cdc.gov/ncbddd/autism/data.html&#xA;]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><b> Considerações sobre o artigo <i>“Positive and differential diagnosis
of autism in verbal women of typical intelligence: A Delphi study [1]”</i></b></p>

<p>DISCLAIMER IMPORTANTE: o artigo fala principalmente de autismo de nível de suporte 1, apesar de não citar o termo, e eu também falo disso aqui. Mulheres com níveis de suporte mais alto também sofrem com demora em seus diagnósticos, mas as questões identitárias são sensivelmente diferentes às que eu experiencio.</p>

<hr>

<p>Olá, sou Ana, uma pessoa autista adulta (25 anos), identificada socialmente como mulher e diagnosticada tardiamente (24 anos). Já escrevi anteriormente sobre minha experiência de diagnóstico tardio de autismo.</p>

<p>Recentemente, acabei me desvencilhando de acompanhar conteúdos e discussões acerca de autismo, em uma tentativa de me dar o espaço necessário para processar o diagnóstico sem intervenções de redes sociais. Entretanto, participo do grupo de WhatsApp “Autistas – UNICAMP”, minha alma mater, que reúne pessoas autistas da Unicamp e relacionadas. Algumas vezes, pessoas compartilham materiais acadêmicos sobre autismo por lá, e o artigo aqui citado em especial me chamou atenção.</p>

<p>Em “Positive and differential diagnosis of autism in verbal women of typical intelligence: A Delphi study” (CUMIN, PELAEZ, MOTTRON, 2022) ês autories reconhecem os critérios diagnósticos do espectro autista (de acordo com o DSM-V e o CID-11) vagos. Atualmente, nos EUA, um dos países com a maior documentação estatística acerca do assunto, a prevalência de autismo é de 1 para 36 crianças [2], o que pode estar relacionado a diversos fatores. Entretanto, a proporção entre meninos e meninas é de 4 para 1, o que reacende a discussão sobre o processo diagnóstico de TEA em meninas.</p>

<p>Historicamente, o processo diagnóstico de TEA em meninas vem sido prejudicado por preconceitos de gênero e enviesamento dos próprios critérios e testes diagnósticos. Principalmente no tocante a diagnósticos tardios femininos, há uma dificuldade em diferenciar o autismo, um transtorno biopsicossocial, de condições psiquiátricas, como o transtorno de personalidade limítrofe (borderline). O ponto do estudo, portanto, foi averiguar os critérios específicos de diferenciação diagnóstica para mulheres adultas com inteligência “normal”, por parte de especialistas em autismo envolvidos com esse perfil em sete países.</p>

<p>Foram 37 os critérios citados em comum por 20 profissionais entrevistades, separados nas seguintes categorias: fatores de complexidade no atendimento, como gerir esses fatores, sinais típicos de autismo em mulheres e diagnósticos diferenciais e comorbidades.</p>

<p>Entre os fatores de complexidade no atendimento, três coisas me chamaram a atenção: o auto-diagnóstico, condições de estigma relacionadas a transtornos comórbidos e reações negativas com o (não-)diagnóstico.</p>

<p>O autodiagnóstico de autismo é um tópico extremamente inflamado dentro da comunidade autista e arredores (como pais, profissionais de saúde, etc.). Grande parte des defensories de auto-diagnóstico estão de acordo que o autodiagnóstico é apenas a primeira parte do processo diagnóstico e não o ponto de chegada. Entretanto, principalmente entre adolescentes, cresce a quantidade de pessoas envolvidas em reconhecer transtornos por meio de listas superficiais em redes sociais com conteúdos cada vez mais pulverizados e até falsos. Cada vez mais, quando têm acesso ao processo diagnóstico oficial, adolescentes e adultes chegam cheies de certeza de seus diagnósticos, o que atrapalha substancialmente o próprio processo.</p>

<p>Qualquer pessoa que tenha o mínimo conhecimento acerca do DSM-V, um manual estadunidense e o principal manual utilizado no Brasil para orientação de processos diagnósticos psiquiátricos e afins, sabe o quanto pode ser sutil <b> e política </b> a diferença entre diagnósticos. É difícil de chegar a uma conclusão certeira até mesmo para profissionais, mas de alguma forma criou-se a narrativa de que qualquer um pode se autodiagnosticar autista, porque “ninguém conhece você melhor que você mesmo”. Essa parte é particularmente delicada porque muitas pessoas têm seus acessos a diagnósticos negados sistematicamente por diferenças raciais, econômicas e de gênero. Entretanto, o que deve ser envisionado aqui não é a banalização do diagnóstico e sim o questionamento das condições socioeconômicas degradantes a que nós pessoas marginalizadas somos expostas, e, por que não?, a própria categoria diagnóstica.</p>

<p>O neoliberalismo cria as categorias médicas psiquiátricas e as explora enquanto identidades, em um ciclo retroalimentado. 10 anos atrás, quando eu ainda era adolescente e o autismo não era assunto muito comum em redes sociais brasileiras, já se colocava na biografia de sites como Twitter certos indicadores como “bipolar” ou “borderline”. Em outras palavras, não é exatamente um fenômeno pós-TikTok ou restrito a adolescentes nascides após 2003. Infelizmente, o que se observa é cada vez menos a denúncia das intrínsecas relações entre psiquiatria e neoliberalismo e cada vez mais o abraço em identidades. Eu entendo esse fenômeno como vizinho a outro típico do neoliberalismo: todos nós queremos ser úniques, e cada identidade que colocamos em nossas descrições nos ajuda a nos afirmarmos contra o mundo. Em um mundo adoecido de capitalismo tardio, dominado por relações precárias e expropriação de mais-valor extrema, <b> todos sofremos </b>. Aqui não se trata de dizer que “todo mundo é um pouco autista”, afinal de contas, todes sofremos, mas nossos sofrimentos podem ser distintos e o autismo é uma categoria definida. O que coloco em questionamento é a certeza adolescente e jovem-adulta de que sofremos mais do que ês outres e que somos especiais por isso, como se o ônus de sofrer estivesse vinculado <i>necessariamente</i> a um transtorno psiquiátrico... o que não deixa de ser uma postura individualista!</p>

<p>O gancho aqui exposto me leva ao segundo tópico: condições de estigma relacionadas a transtornos comórbidos. A depressão, o transtorno bipolar, o transtorno de ansiedade, o transtorno de personalidade limítrofe, todos eles carregam um pesado estigma social de serem questões puramente pessoais. Quem carrega esses transtornos o carrega por questões individuais, sendo a cura uma questão individual também. “Tem que ter a terapia em dia”, diz a massa jovem em relação a parceires afetivo-sexuais, como se a terapia fosse a panaceia dos problemas psicossociais. Ao contrário, a delimitação do conceito de neurodiversidade coloca no cérebro biológico a “culpa” de sermos quem somos. Não podemos ter culpa sobre nossos sofrimentos se é algo que nascemos com, ou seja, nos afastamos do estigma de sermos responsáveis por nosso próprio “fracasso”. Já não devemos algo à sociedade, ela quem nos deve algo, porque somos diferentes e a nossa diferença importa.</p>

<p>Note que eu definitivamente não concordo com essa leitura sobre os transtornos mentais, e também não afirmo que a vida de autista/neurodiverse é flores. Nós autistas sofremos sistematicamente com exclusão em vários aspectos sociais, mas aqui meu foco é outro: o uso da linguagem e da identidade para, individualmente, nos resguardarmos do sentimento desgraçado de ser uma falha. Ao abraçar a alcunha de “depressives”, nos indicamos individualmente doentes, e nos colocamos na terapia. Ainda que a depressão tenha também sido cerebralizada (um termo usado por Ortega, em “Somos Nosso Cérebro?”), o autismo é especialmente cerebralizado. No autismo, somos nosso cérebro, ele comanda todas as partes do nosso ser. Essa cerebralização de fenômenos psicossociais como se o cérebro fosse de fato uma CPU natural é uma visão neoliberal e colonizada. Desde quando uma parte do nosso corpo (o cérebro) recebeu uma importância desenfreada em nosso senso comum? A proliferação de abordagens neurocientíficas, que acrescentam o prefixo “neuro” em toda e qualquer coisa, gera a neurodiversidade, mas também a “neuroindividualização” (acabei de inventar esse termo). Nós autistas somos um corpo uno, nosso cérebro é apenas parte de nós. Quando compramos essa lógica cerebralizante, estamos também sumindo perante o capital. Em resumo, é meu cérebro que é assim, eu sou diferente e pronto e acabou.</p>

<p>Mas, afinal de contas, existem cérebros típicos? É a pergunta de milhões. Mesmo assim, diversos membros da comunidade autista parecem se segurar em uma premissa de que são um mundo à parte, com uma diversidade natural não vista em nenhuma outra parte da sociedade, e até mesmo colocam questões morais no meio, taxando ês “neurotípiques” de pessoas intrinsecamente ruins. Criamos uma divisão entre “nós” e “elus” que é completamente cinza, ou seja, não tem um critério claro. E mesmo que esse critério fosse claro, é justificado nos fecharmos em um círculo de pureza? Afinal de contas, como o próprio estudo aponta: <i>“A diagnosis of autism can provide a feeling of belonging to a community, and some clinicians felt that the autism as a social identity resonated particularly with their female patients. Many clinicians indicated that autism was seen by their patients and clients as more socially acceptable than a mental health condition, which could complicate the process of making a differential diagnosis and receiving a stigmatizing label.”</i></p>

<p>A construção da identidade é algo importantíssimo para nosso reconhecimento junto à sociedade. Entretanto, é perceptível a monetização da identidade, e o autismo não deixa de ser uma das identidades que entram nesse balaio. Quando chegam aos consultórios agarrados à certeza de que “meu cérebro é diferente, não é minha culpa”, ês pacientes reagem (muito) mal à notícia de que não preenchem critérios diagnósticos para autismo. Voltam à estaca de “você pode ter outro transtorno, um que vai ser sua culpa”. O boom da procura por diagnósticos tardios de autismo também está relacionado, portanto, ao estigma de diagnósticos correlacionados que são duramente estigmatizados e individualizados (as próprias categorias diagnósticas de que fazem parte segundo o DSM-V são o estigma da loucura, levando as pessoas a não verem melhora substancial nos seus quadros, claro!)</p>

<p>Passando ao terceiro tópico, o de sinais típicos de autismo em mulheres adultas. São listados 11 sinais, dos quais destaco: “Autistic women, despite presenting as intelligent, had often failed to achieve expected levels of personal/professional success”, e “In autistic women, gender may be expressed more fluidly, with less attachment to the gender binary, or femininity may appear forced/rehearsed”.</p>

<p>A marca social da diferença está muito relacionada à questão diagnóstica do autismo e esses dois tópicos são sintomáticos. Primeiramente, o que é “alcançar níveis de sucesso profissional/pessoal” em um contexto em que sofremos brutalmente com o desemprego, o subemprego, a inflação, a substituição por tecnologias, entre outros? Algum des tides “neurotípiques”, por mais inteligentes que sejam, conseguem alcançar esses níveis de sucesso profissional/pessoal? O que é essa métrica do “sucesso”? Utilizar um critério associado ao sucesso de uma pessoa, atrelando-o ainda à noção de inteligência, é também um sintoma neoliberal por trás das avaliações neuropsicológicas e psiquiátricas. Parece, então, que ao observar ume indivídue que não responde adequadamente à pressão neoliberal, e juntarmos a um conjunto de características que se destacam em meio a uma pretensa normalidade, precisamos patologizá-le.</p>

<p>Ainda dentro da diferença, a aparição do critério de expressão de gênero fluida como atrelado ao autismo também é preocupante. Quantas mulheres e outras pessoas que desviam da norma de gênero foram internadas em sanatórios ao longo da história? Desvincular gênero e sexualidade de critérios patológicos é mandatório em um cenário antimanicomial. É verdade que nós autistas por sermos menos ligades a normas e convenções sociais, estamos mais propenses a nos expressarmos mais livremente. Entretanto, o desconforto e o rechaço a normas sociais de gênero e sexualidade é uma coisa perfeitamente normal em uma sociedade repressiva de desviantes. No grupo des autistas da Unicamp, mais de uma vez pessoas relatam seu desconforto com normas de gênero como se fosse um trejeito autístico. Na verdade, esse é um desconforto... humano. Tentar vincular as duas coisas como intrínsecas, além de problemático, volta ao assunto de buscar formas de nos colocarmos como especiais perante o resto da sociedade, uma conduta individualizante que nos isola e não nos une em torno da luta por uma sociedade melhor.</p>

<p>Por fim, ainda no tópico de internação manicomial de mulheres e pessoas desviantes de normas de gênero em geral, o próprio estudo apresenta a histórica vinculação entre transtornos psiquiátricos e autismo, como diagnósticos facilmente trocados erroneamente. “Borderline Personality Disorder is highly present in autism assessment clinics as a past diagnosis and/or a potential differential diagnosis” e “Autistic women can superficially present with signs resembling Borderline Personality Disorder”. Isso porque, além de toda a problemática neoliberal apresentada, o gênero é uma camada de interpretação importante. Mulheres desviantes só podem ser loucas, atípicas, “com cérebro diferente”. O que está em jogo aqui é, de fato, a mudança de uma linguagem patologizante para outra que, apesar de parecer menos patologizante, ainda ressoa nas entrelinhas dentro da lógica capitalista.</p>

<p>“Ah, mas Ana, tudo para você é capitalismo? O autismo não ia existir no comunismo?” Isso (as condições de uma sociedade comunista existente) eu já não sei informar, mas a percepção de diagnósticos psiquiátricos e adjacentes está intimamente ligada com o desenvolvimento da medicina, que, oras, anda de mãos dadas com o capitalismo, o racismo e a misoginia, entre outros. Ao abraçar acriticamente identidades provenientes da lógica médica presente no DSM-V, de forma até mesmo agressiva, estamos nos deixando engolir.</p>

<p>Atenciosamente,</p>

<p>Uma autista possivelmente borderline possivelmente louca possivelmente... só humana.</p>

<p>Referências na ordem em que aparecem:</p>

<p>[1] Cumin, J., Pelaez, S., &amp; Mottron, L. (2022). Positive and differential diagnosis of autism in verbal women of typical intelligence: A Delphi study. Autism, 26(5), 1153–1164. <a href="https://doi.org/10.1177/13623613211042719" rel="nofollow">https://doi.org/10.1177/13623613211042719</a>
[2] Data &amp; Statistics on Autism Spectrum Disorder, por Centers for Disease Control and Prevention (2022): <a href="https://www.cdc.gov/ncbddd/autism/data.html" rel="nofollow">https://www.cdc.gov/ncbddd/autism/data.html</a></p>
]]></content:encoded>
      <author>groselhas</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/oa9erbzkcq</guid>
      <pubDate>Wed, 12 Jul 2023 23:19:30 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Eles vão vender reconhecimento facial como solução pro racismo</title>
      <link>https://blog.ayom.media/pedro/eles-vao-vender-reconhecimento-facial-como-solucao-pro-racismo</link>
      <description>&lt;![CDATA[olá usuários deste sítio cibernético.&#xA;&#xA;gostaria de partilhar com vocês uma ideia que me ocorreu.&#xA;&#xA;é que fui numa farmácia comprar desodorantes e enquanto olhava as gondolas fui abordado por uma atendente: &#34;Com licença, o senhor gostaria de ajuda&#34;. Disse-a que não, que estava apenas olhando, e então me ocorreu que a lembrança de que eu, negro, 1,83m, dreads, moletom, sou assustador.&#xA;&#xA;ao realizer tal fato, logo pus me a pagar, pois em nada me interessa amedrontar as moçoilas ja que São Paulo é mesmo uma cidade perigosa para uma farmácia as 20h da noite. negar o problema da segurança pública nos afasta das pessoas em geral e em nada ajuda, além de ser desnecessário para afirmar uma luta anti-racista e de esquerda, só demonstra falta de capacidade de lidar com o Real e sua incapacidade de se escrito de maneira confortável em nosso discurso.&#xA;&#xA;além disso perdi o gosto por zanzar pelas gondolas e ter o prazer de consumir como qualquer outra pessoa.&#xA;&#xA;ao efetuar o pagamento no entanto, fiz questão de fazê-lo com meu Apple Watch. não nego o gozo de quebrar com as expectativas de vez em quando. ostentar para nós tem um significado diferente embora eu não me ilude que isto seja algum tipo de vitória coletiva ou até mesmo individual. vendo minha força de trabalho para o sistema (vale do silício) e compro brinquedos caros para me entreter e esquecer de tal fato. nada revolucionário nisso.&#xA;&#xA;mas foi sair da loja que me dei conta que talvez ela pensasse que eu roubara tal relógio. é meio chato porquê meu plano de surpreendê-la sendo um negro com certo poder aquisitivo então provavelmente falhara. que pena.&#xA;&#xA;e então me veio o seguinte insight:&#xA;&#xA;no futuro, eu terei um chip implantado em mim ou haverá um reconhecimento facial, ou algo do gênero, e toda minha ficha será levantada em segundos via internet. &#xA;&#xA;eles vão vender essa realidade aterrorizante como uma solução para o racismo.&#xA;&#xA;hoje a minha ficha é pseudo-levantada a partir do meu rosto, cabelo e roupas. mas com esse upgrade, eles lerão meu rosto ou meu chip ou ainda celular e rapidamente saberão que sou um homem honesto e trabalhador, que jamais foi parar numa delegacia nem por um baseadinho (como muitos de meus conhecidos brancos), nunca roubou nem uma bala (como muitos de meus conhecidos brancos) e que nem sequer pechincha ou parcela o pagamento das coisas. nunca se endividou, exímio pagador, estudado (nível superior), gentil, que até ajudou algumas velhas (brancas) a atravessarem a rua outro dia. que tem empatia até com o pobre trabalhador que me toma por assaltante (coitado, ser assaltado é foda e é um medo real!).&#xA;&#xA;e me veio à cabeça que eu vou me ficar mais tranquilo com essa tecnologia. e o trabalhador também.&#xA;&#xA;é uma merda isso. deve ser uma merda pra você ler isso. tomara que seja, significa que você entende o real impacto desse insight: eles vão vender reconhecimento facial como solução pro racismo. assim como vendem camera na farda do PM como solução pra violência policial.&#xA;&#xA;e talvez estejam certos. afinal de contas a escolha é entre o ruim e o pior.&#xA;&#xA;fique ligado. em breve mais textos irritantes, imorais, alienados, verdadeiros harakiris sociais!&#xA;]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>olá usuários deste sítio cibernético.</p>

<p>gostaria de partilhar com vocês uma ideia que me ocorreu.</p>

<p>é que fui numa farmácia comprar desodorantes e enquanto olhava as gondolas fui abordado por uma atendente: “Com licença, o senhor gostaria de ajuda”. Disse-a que não, que estava apenas olhando, e então me ocorreu que a lembrança de que eu, negro, 1,83m, dreads, moletom, sou assustador.</p>

<p>ao realizer tal fato, logo pus me a pagar, pois em nada me interessa amedrontar as moçoilas ja que São Paulo é mesmo uma cidade perigosa para uma farmácia as 20h da noite. negar o problema da segurança pública nos afasta das pessoas em geral e em nada ajuda, além de ser desnecessário para afirmar uma luta anti-racista e de esquerda, só demonstra falta de capacidade de lidar com o Real e sua incapacidade de se escrito de maneira confortável em nosso discurso.</p>

<p>além disso perdi o gosto por zanzar pelas gondolas e ter o prazer de consumir como qualquer outra pessoa.</p>

<p>ao efetuar o pagamento no entanto, fiz questão de fazê-lo com meu Apple Watch. não nego o gozo de quebrar com as expectativas de vez em quando. ostentar para nós tem um significado diferente embora eu não me ilude que isto seja algum tipo de vitória coletiva ou até mesmo individual. vendo minha força de trabalho para o sistema (vale do silício) e compro brinquedos caros para me entreter e esquecer de tal fato. nada revolucionário nisso.</p>

<p>mas foi sair da loja que me dei conta que talvez ela pensasse que eu roubara tal relógio. é meio chato porquê meu plano de surpreendê-la sendo um negro com certo poder aquisitivo então provavelmente falhara. que pena.</p>

<p>e então me veio o seguinte insight:</p>

<p>no futuro, eu terei um chip implantado em mim ou haverá um reconhecimento facial, ou algo do gênero, e toda minha ficha será levantada em segundos via internet.</p>

<p>eles vão vender essa realidade aterrorizante como uma solução para o racismo.</p>

<p>hoje a minha ficha é pseudo-levantada a partir do meu rosto, cabelo e roupas. mas com esse upgrade, eles lerão meu rosto ou meu chip ou ainda celular e rapidamente saberão que sou um homem honesto e trabalhador, que jamais foi parar numa delegacia nem por um baseadinho (como muitos de meus conhecidos brancos), nunca roubou nem uma bala (como muitos de meus conhecidos brancos) e que nem sequer pechincha ou parcela o pagamento das coisas. nunca se endividou, exímio pagador, estudado (nível superior), gentil, que até ajudou algumas velhas (brancas) a atravessarem a rua outro dia. que tem empatia até com o pobre trabalhador que me toma por assaltante (coitado, ser assaltado é foda e é um medo real!).</p>

<p>e me veio à cabeça que eu vou me ficar mais tranquilo com essa tecnologia. e o trabalhador também.</p>

<p>é uma merda isso. deve ser uma merda pra você ler isso. tomara que seja, significa que você entende o real impacto desse insight: eles vão vender reconhecimento facial como solução pro racismo. assim como vendem camera na farda do PM como solução pra violência policial.</p>

<p>e talvez estejam certos. afinal de contas a escolha é entre o ruim e o pior.</p>

<p>fique ligado. em breve mais textos irritantes, imorais, alienados, verdadeiros harakiris sociais!</p>
]]></content:encoded>
      <author>blog do pedro</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/32eivnriwd</guid>
      <pubDate>Wed, 21 Jun 2023 23:35:00 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Suplício ao privilégio</title>
      <link>https://blog.ayom.media/pedro/suplicio-ao-privilegio</link>
      <description>&lt;![CDATA[Não façais, vocês, atos performativos em nome de ressentidos, pois estes que aí estão, jamais se alegrarão. Além de que teus recalques em nada servem. Gozai de tua fortuna. É tudo o que tens. Quem sabe assim te livres para algo além de ti mesmo e então podeis ouvir.]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Não façais, vocês, atos performativos em nome de ressentidos, pois estes que aí estão, jamais se alegrarão. Além de que teus recalques em nada servem. Gozai de tua fortuna. É tudo o que tens. Quem sabe assim te livres para algo além de ti mesmo e então podeis ouvir.</p>
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      <author>blog do pedro</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/euzudu1jwr</guid>
      <pubDate>Sat, 20 May 2023 22:04:03 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Problemáticas e possibilidades dentro do veganismo: o veganismo é cristão?</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ana/problematicas-e-possibilidades-dentro-do-veganismo-o-veganismo-e-cristao</link>
      <description>&lt;![CDATA[Problemáticas e possibilidades dentro do veganismo: o veganismo é cristão?&#xA;&#xA;Começo o texto me apresentando brevemente.&#xA;&#xA;Sou Ana, 24 anos, (ovolacto)vegetariana desde 2018, vegana em alguns períodos dentro desse espaço de tempo (2018-2023). Antes que alguma pessoa vegana torça o nariz e diga que não há &#34;ex-vegane&#34;, apenas aqueles que não entenderam de fato os princípios éticos do veganismo, peço calma. Melhor ler o texto inteiro antes de julgar.&#xA;&#xA;E por que eu dei uma &#34;pausa&#34; no veganismo?&#xA;&#xA;O principal motivo foi a minha incapacidade de me organizar cotidianamente para cozinhar, fruto de uma disfunção executiva associada a um autismo identificado tardiamente, aliado ao desenvolvimento de um incipiente transtorno alimentar. O veganismo propõe a adoção do vegetarianismo estrito, e dietas restritivas podem levar a episódios de compulsão alimentar. Em resumo, eu não estava comendo, e quando comia, comia alimentos de origem animal escondida em grandes quantidades. Não me orgulho disso; obviamente, minha experiência não deve ser basilar para justificar por que o veganismo não dá certo ou qualquer bobagem do tipo. Apenas relato minha experiência pessoal.&#xA;&#xA;O vegetarianismo estrito é uma dieta baseada apenas em produtos de origem vegetal. Como o veganismo prevê a não-exploração de animais em todas as esferas da vida humana, por consequência todos os veganos são vegetarianos estritos, mas é possível ser vegetariano estrito e não ser vegano.  &#xA;&#xA;Fora os aspectos práticos, posso dizer que durante a pandemia de COVID-19, o veganismo foi meu interesse especial. Dessa forma, eu dormia e acordava pensando em implicações éticas do veganismo; relato essa questão para que compreendam que não sou uma pessoa iniciante no assunto. Militei pela causa, participei de coletivos locais e nacionais, e mesmo assim, achei prudente me afastar. Alguma coisa havia estremecido minha fé no veganismo. &#xA;&#xA;A essa altura, pessoas veganas que leem o texto já devem ter pensado: como assim você militava comendo coisas de origem animal escondida? A cara não queimava de vergonha? Pois é, queimava. Foi aí que eu comecei a perceber que alguma coisa não estava andando bem. &#xA;&#xA;Por que algo que deveria me enriquecer eticamente, ser um modo de vida saudável e com compaixão, estava me trazendo um nível de stress significante ao ponto de me levar a um transtorno alimentar? &#xA;&#xA;O uso da palavra &#34;fé&#34; alguns parágrafos atrás não foi por coincidência. A relação das pessoas veganas com o veganismo é similar a de uma fé professa, apesar do veganismo não ser uma religião, e os princípios éticos do veganismo esbarram muitas vezes em uma ética cristã.&#xA;&#xA;Elaboro.&#xA;&#xA;A ideia de que o veganismo está intrinsecamente ligado ao cristianismo não é minha, na verdade, ela foi cantada por indígenas (em retomada ou não) no Twitter alguns anos atrás. Gostaria de lembrar a pessoa que tocou nesse assunto para dar-lhe os devidos créditos, mas infelizmente já não me lembro exatamente quem foi. &#xA;&#xA;Enfim, não é novidade que o veganismo, especialmente o veganismo praticado por pessoas brancas, está frequentemente em embates com culturas indígenas. Afinal de contas, se o veganismo é atravessado por uma ética animal que busca abolir a exploração animal, o vegano não pode relativizar o que julga ser exploração animal. Diversas culturas, indígenas ou não, utilizam de produtos animais e animais em si. Portanto, a interface entre veganos (especialmente brancos) e indígenas é permeada por racismo.&#xA;&#xA;Aqui eu de forma alguma afirmo que o veganismo é necessariamente branco ou que indígenas não podem ser veganos. Qualquer pessoa pode ser vegana, e o veganismo conta com expoentes em diversas etnias. Entretanto, é importante reforçar os embates entre a ética vegana e os paradigmas culturais vigentes em sociedades. &#xA;&#xA;A pessoa indígena em questão delimitou as aproximações entre veganismo e cristianismo enquanto uma parte cultural importante da sociedade em que vivemos, especialmente quando analisamos as origens do veganismo no Ocidente. É verdade que hoje em dia o veganismo praticado no sul global tem atravessamentos anti-capitalistas fortes, muito mais do que no norte global. Entretanto, as raízes epistemológicas do veganismo seguem com forte influência europeia, e cristã.&#xA;&#xA;Venho repetindo a influência cristã no veganismo, mas por que afirmo isso?&#xA;&#xA;O vegano não pode utilizar de animais, ou de seus derivados, porque, devido à senciência (capacidade de animais humanos ou não de sentirem sensações de forma consciente), seria imoral ser dono, explorar, utilizar, aproveitar-se, machucar, matar, qualquer outro ser senciente. O ponto de discordância mais crucial ocorre entre veganos e outras culturas que têm relações diversas com animais. Aqui, não me refiro à cultura pecuarista de dominação animal. Definitivamente, essa cultura é destrutiva, machista e cruel (para descrever isso, o livro A Política Sexual da Carne, de Carol J. Adams, é exemplar). Refiro-me, entretanto, a cosmovisões de pessoas que enxergam os animais como seus iguais, mas não têm essa premissa de que matar ou utilizar-se de produtos animais seja algo eticamente repreensível. &#xA;&#xA;Lógico que não defendo que matar seja acriticamente correto. Aqui, o que está em jogo é o papel da morte em cada sociedade. A visão da morte enquanto algo carregado negativamente não é unanimidade em todas as culturas, nem todas as mortes são processos violentos. É nesse aspecto que o veganismo se aproxima do cristianismo: a máxima &#34;não matarás&#34; é o ponto principal do veganismo.&#xA;&#xA;A esse ponto do texto, você talvez esteja se dizendo: &#34;mas a relação de povos originários com animais não é a mesma que nós na sociedade ocidental temos&#34;. E concordo com seu pensamento. A crueldade com que animais humanos e não-humanos são tratados em meio ao capitalismo tardio não tem precedentes, e deve ser combatida. Talvez nesse aspecto o termo &#34;especismo&#34; seja importante para descrever a relação de superioridade, reafirmada na Bíblia cristã, entre humanos e animais não-humanos. &#xA;&#xA;O especismo é a noção de que humanos são superiores a outros animais não-humanos. Entretanto, esse conceito é atravessado por diversas questões: TODOS os humanos são vistos como superiores a outros animais, ou essa noção vale apenas para os brancos? E quais são as manifestações do especismo nas relações humanos-animais não-humanos?&#xA;&#xA;Outro aspecto tipicamente cristão do veganismo é a relação de abstinência e culpabilização individual. Os veganos são esperados de se absterem de todos os produtos possíveis de origem animal, gerando um sentimento de culpa gigantesco naqueles que não o conseguem por razões múltiplas. Como eu ilustrei nos primeiros parágrafos do texto, a abstinência é um fardo pesado e pouco eficaz para a transformação de visão de mundo de uma pessoa. No veganismo, o adepto é tratado como um ex-dependente químico é tratado na igreja, falando muitas vezes da vida pecaminosa que levava antes de ser eticamente correto. &#xA;&#xA;Como sou uma pessoa que se identifica como ateísta e que fugiu da(s) igreja(s) cristã(s) desde os 9 anos, todos esses aspectos foram muito pesados para mim, e o são para outras pessoas.&#xA;&#xA;Obviamente, nada se compara ao sofrimento animal em tempos de capitalismo tardio, e eu concordo com isso. O que está em disputa aqui é: a existência de visões de mundo que permitem imaginar novas relações com animais indicam que não necessariamente precisamos passar pelo veganismo. Há outras possibilidades.&#xA;&#xA;Não escrevo essas palavras para incentivar o consumo de produtos de origem animal ou o tratamento degradante de animais, na verdade, penso que o primeiro precisa ser reavaliado e o segundo, abolido. Escrevo para afirmar que o veganismo é um caminho muito cristão de resolver o problema que o próprio cristianismo ajudou a impor: a superioridade de humanos em relação a animais. Talvez outras formas de enxergar o mundo e de tratar respeitosamente os animais sejam possíveis. &#xA;&#xA;Esse texto nem de longe esgota as problemáticas e possibilidades do veganismo, não cheguei nem a abordar a polêmica das questões climáticas e ambientais. Entretanto, espero ter contribuído para o debate dentro da comunidade vegana.&#xA;&#xA;P.S.: estou aberta a críticas e sugestões e admito que meu conhecimento do cristianismo não é tão forte quanto poderia ser, então posso ter me equivocado em algum ponto. Fiquem à vontade para contribuir.&#xA;&#xA; &#xA;&#xA;]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Problemáticas e possibilidades dentro do veganismo:</strong> <em>o veganismo é cristão?</em></p>

<p>Começo o texto me apresentando brevemente.</p>

<p>Sou Ana, 24 anos, (ovolacto)vegetariana desde 2018, vegana em alguns períodos dentro desse espaço de tempo (2018-2023). Antes que alguma pessoa vegana torça o nariz e diga que não há “ex-vegane”, apenas aqueles que não entenderam de fato os princípios éticos do veganismo, peço calma. Melhor ler o texto inteiro antes de julgar.</p>

<p>E por que eu dei uma “pausa” no veganismo?</p>

<p>O principal motivo foi a minha incapacidade de me organizar cotidianamente para cozinhar, fruto de uma disfunção executiva associada a um autismo identificado tardiamente, aliado ao desenvolvimento de um incipiente transtorno alimentar. O veganismo propõe a adoção do vegetarianismo estrito*, e dietas restritivas podem levar a episódios de compulsão alimentar. Em resumo, eu não estava comendo, e quando comia, comia alimentos de origem animal escondida em grandes quantidades. Não me orgulho disso; obviamente, minha experiência não deve ser basilar para justificar por que o veganismo não dá certo ou qualquer bobagem do tipo. Apenas relato minha experiência pessoal.</p>

<p>*O vegetarianismo estrito é uma dieta baseada apenas em produtos de origem vegetal. Como o veganismo prevê a não-exploração de animais em todas as esferas da vida humana, por consequência todos os veganos são vegetarianos estritos, mas é possível ser vegetariano estrito e não ser vegano.</p>

<p>Fora os aspectos práticos, posso dizer que durante a pandemia de COVID-19, o veganismo foi meu interesse especial. Dessa forma, eu dormia e acordava pensando em implicações éticas do veganismo; relato essa questão para que compreendam que não sou uma pessoa iniciante no assunto. Militei pela causa, participei de coletivos locais e nacionais, e mesmo assim, achei prudente me afastar. Alguma coisa havia estremecido minha <strong>fé</strong> no veganismo.</p>

<p>A essa altura, pessoas veganas que leem o texto já devem ter pensado: como assim você militava comendo coisas de origem animal escondida? A cara não queimava de vergonha? Pois é, queimava. Foi aí que eu comecei a perceber que alguma coisa não estava andando bem.</p>

<p>Por que algo que deveria me enriquecer eticamente, ser um modo de vida saudável e com compaixão, estava me trazendo um nível de stress significante ao ponto de me levar a um transtorno alimentar?</p>

<p>O uso da palavra “fé” alguns parágrafos atrás não foi por coincidência. A relação das pessoas veganas com o veganismo é similar a de uma fé professa, apesar do veganismo <em>não</em> ser uma religião, e os princípios éticos do veganismo esbarram muitas vezes em uma ética cristã.</p>

<p>Elaboro.</p>

<p>A ideia de que o veganismo está intrinsecamente ligado ao cristianismo não é minha, na verdade, ela foi cantada por indígenas (em retomada ou não) no Twitter alguns anos atrás. Gostaria de lembrar a pessoa que tocou nesse assunto para dar-lhe os devidos créditos, mas infelizmente já não me lembro exatamente quem foi.</p>

<p>Enfim, não é novidade que o veganismo, especialmente o veganismo praticado por pessoas brancas, está frequentemente em embates com culturas indígenas. Afinal de contas, se o veganismo é atravessado por uma ética animal que busca <em>abolir</em> a exploração animal, o vegano não pode relativizar o que julga ser exploração animal. Diversas culturas, indígenas ou não, utilizam de produtos animais e animais em si. Portanto, a interface entre veganos (especialmente brancos) e indígenas é permeada por racismo.</p>

<p>Aqui eu de forma alguma afirmo que o veganismo é necessariamente branco ou que indígenas não podem ser veganos. Qualquer pessoa pode ser vegana, e o veganismo conta com expoentes em diversas etnias. Entretanto, é importante reforçar os embates entre a ética vegana e os paradigmas culturais vigentes em sociedades.</p>

<p>A pessoa indígena em questão delimitou as aproximações entre veganismo e cristianismo enquanto uma parte cultural importante da sociedade em que vivemos, especialmente quando analisamos as origens do veganismo no Ocidente. É verdade que hoje em dia o veganismo praticado no sul global tem atravessamentos anti-capitalistas fortes, muito mais do que no norte global. Entretanto, as raízes epistemológicas do veganismo seguem com forte influência europeia, e cristã.</p>

<p>Venho repetindo a influência cristã no veganismo, mas por que afirmo isso?</p>

<p>O vegano não pode utilizar de animais, ou de seus derivados, porque, devido à senciência (capacidade de animais humanos ou não de sentirem sensações de forma consciente), seria imoral ser dono, explorar, utilizar, aproveitar-se, machucar, matar, qualquer outro ser senciente. O ponto de discordância mais crucial ocorre entre veganos e outras culturas que têm relações diversas com animais. Aqui, não me refiro à cultura pecuarista de dominação animal. Definitivamente, essa cultura é destrutiva, machista e cruel (para descrever isso, o livro A Política Sexual da Carne, de Carol J. Adams, é exemplar). Refiro-me, entretanto, a cosmovisões de pessoas que enxergam os animais como seus iguais, mas não têm essa premissa de que matar ou utilizar-se de produtos animais seja algo eticamente repreensível.</p>

<p>Lógico que não defendo que matar seja acriticamente correto. Aqui, o que está em jogo é o papel da morte em cada sociedade. A visão da morte enquanto algo carregado negativamente não é unanimidade em todas as culturas, nem todas as mortes são processos violentos. É nesse aspecto que o veganismo se aproxima do cristianismo: a máxima “não matarás” é o ponto principal do veganismo.</p>

<p>A esse ponto do texto, você talvez esteja se dizendo: “mas a relação de povos originários com animais não é a mesma que nós na sociedade ocidental temos”. E concordo com seu pensamento. A crueldade com que animais humanos e não-humanos são tratados em meio ao capitalismo tardio não tem precedentes, e deve ser combatida. Talvez nesse aspecto o termo “especismo*” seja importante para descrever a relação de superioridade, reafirmada na Bíblia cristã, entre humanos e animais não-humanos.</p>

<p>*O especismo é a noção de que humanos são superiores a outros animais não-humanos. Entretanto, esse conceito é atravessado por diversas questões: TODOS os humanos são vistos como superiores a outros animais, ou essa noção vale apenas para os brancos? E quais são as manifestações do especismo nas relações humanos-animais não-humanos?</p>

<p>Outro aspecto tipicamente cristão do veganismo é a relação de abstinência e culpabilização individual. Os veganos são esperados de se absterem de todos os produtos possíveis de origem animal, gerando um sentimento de culpa gigantesco naqueles que não o conseguem por razões múltiplas. Como eu ilustrei nos primeiros parágrafos do texto, a abstinência é um fardo pesado e pouco eficaz para a transformação de visão de mundo de uma pessoa. No veganismo, o adepto é tratado como um ex-dependente químico é tratado na igreja, falando muitas vezes da vida pecaminosa que levava antes de ser eticamente correto.</p>

<p>Como sou uma pessoa que se identifica como ateísta e que fugiu da(s) igreja(s) cristã(s) desde os 9 anos, todos esses aspectos foram muito pesados para mim, e o são para outras pessoas.</p>

<p>Obviamente, nada se compara ao sofrimento animal em tempos de capitalismo tardio, e eu concordo com isso. O que está em disputa aqui é: a existência de visões de mundo que permitem imaginar novas relações com animais indicam que não necessariamente <strong>precisamos</strong> passar pelo veganismo. Há outras possibilidades.</p>

<p>Não escrevo essas palavras para incentivar o consumo de produtos de origem animal ou o tratamento degradante de animais, na verdade, penso que o primeiro precisa ser reavaliado e o segundo, abolido. Escrevo para afirmar que o veganismo é um caminho muito cristão de resolver o problema que o próprio cristianismo ajudou a impor: a superioridade de humanos em relação a animais. Talvez outras formas de enxergar o mundo e de tratar respeitosamente os animais sejam possíveis.</p>

<p>Esse texto nem de longe esgota as problemáticas e possibilidades do veganismo, não cheguei nem a abordar a polêmica das questões climáticas e ambientais. Entretanto, espero ter contribuído para o debate dentro da comunidade vegana.</p>

<p>P.S.: estou aberta a críticas e sugestões e admito que meu conhecimento do cristianismo não é tão forte quanto poderia ser, então posso ter me equivocado em algum ponto. Fiquem à vontade para contribuir.</p>
]]></content:encoded>
      <author>groselhas</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/2rzcp1vmra</guid>
      <pubDate>Sun, 26 Feb 2023 17:50:46 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Melodrama</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ana/melodrama</link>
      <description>&lt;![CDATA[Melodrama&#xA;&#xA;Quem é essa pessoa dirigindo o carro?&#xA;Quem é essa pessoa olhando o motorista?&#xA;Você manteve os olhos fixos no semáforo,&#xA;mas o semáforo já estava amarelo.&#xA;Os tendões brancos em torno do volante,&#xA;o pé semicontrolado no acelerador.&#xA;Entra, a casa é sua;&#xA;Da janela, a vista era cor de rubi.&#xA;Meus lábios, já secos, procuraram os seus,&#xA;mas um beijo não é um beijo&#xA;se de volta os outros lábios não te beijam.&#xA;Difícil saber o que fiz de errado,&#xA;mais difícil ainda o que fiz de certo.&#xA;Você não se dá bem com minha família, disse-me;&#xA;Nem minhas crias sua barriga quer carregar.&#xA;O que temos em comum, então?&#xA;Nada além de um grande fio verde,&#xA;mas a tesoura estava em tuas mãos.&#xA;Essa é a fita mais dolorida,&#xA;saiu pela porta mais escura, &#xA;não sem antes um afago,&#xA;mas o gato já não estava lá para observar.&#xA;Gosto de me abraçar em noites assim,&#xA;seus braços não estão aqui para sentir&#xA;as lágrimas grossas, escarlates, a cair.&#xA;Seria eu digna de ser amada&#xA;ou apenas um lampejo de ser humano&#xA;escrevendo suas querelas tristes&#xA;no meio da madrugada?]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><em>Melodrama</em></p>

<p>Quem é essa pessoa dirigindo o carro?
Quem é essa pessoa olhando o motorista?
Você manteve os olhos fixos no semáforo,
mas o semáforo já estava amarelo.
Os tendões brancos em torno do volante,
o pé semicontrolado no acelerador.
Entra, a casa é sua;
Da janela, a vista era cor de rubi.
Meus lábios, já secos, procuraram os seus,
mas um beijo não é um beijo
se de volta os outros lábios não te beijam.
Difícil saber o que fiz de errado,
mais difícil ainda o que fiz de certo.
Você não se dá bem com minha família, disse-me;
Nem minhas crias sua barriga quer carregar.
O que temos em comum, então?
Nada além de um grande fio verde,
mas a tesoura estava em tuas mãos.
Essa é a fita mais dolorida,
saiu pela porta mais escura,
não sem antes um afago,
mas o gato já não estava lá para observar.
Gosto de me abraçar em noites assim,
seus braços não estão aqui para sentir
as lágrimas grossas, escarlates, a cair.
Seria eu digna de ser amada
ou apenas um lampejo de ser humano
escrevendo suas querelas tristes
no meio da madrugada?</p>
]]></content:encoded>
      <author>groselhas</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/0o7uvcy05f</guid>
      <pubDate>Fri, 24 Feb 2023 17:34:26 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Reminiscência</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ana/reminiscencia</link>
      <description>&lt;![CDATA[Reminiscência&#xA;&#xA;Reminiscência é uma recordação do passado. &#xA;&#xA;O filme Her (Spike Jonze, 2013) ensinou que &#34;o passado é apenas uma história que nós nos contamos&#34;. O passado existe em nossa mente como um eco, encantado com um filtro que assume a cor que decidimos colocar nele. &#xA;&#xA;Se meu passado tivesse uma cor, ela certamente seria azul escuro. Não aquele azul bonito que nos tira o fôlego ao olhar para o céu, mas um azul escuro, um azul apático. Quem colocaria essa cor por lá teria sido eu mesma.&#xA;&#xA;Acho que sempre fui uma criança melancólica, e na adolescência não foi diferente. Minha incapacidade de me ligar emocionalmente com meus amigos de escola me levou, anos mais tarde, a passar algumas noites de sono sonhando com o que poderia ter sido, mas não foi. O bullying que sofri no começo da adolescência foi um motor para eu querer pintar minhas experiências de azul escuro. Eu não entendia por que tanta gente não gostava de mim, e ativamente se movimentava para me machucar. Longe de eu ter sido perfeita ou não-problemática, com certeza participei de processos que machucavam outros. Mas é claro, para mim, que a balança pesava contra minha existência.&#xA;&#xA;Entrei no ensino médio em 2013 e passei alguns dos anos mais desgraçados da minha vida. Eu não me identificava com a maioria dos meus colegas de turma, que tinham condições econômicas diferentes e assuntos que não me contemplavam; os poucos com quem eu tinha algum assunto, mais uma vez eu não conseguia manter laços emocionais com eles. Outros, ainda, eram amigos que eram incapazes de manter relações saudáveis comigo, enquanto eu era incapaz de fazer o caminho contrário. Fiquei conhecida no máximo como a menina invocada, a bravinha, ou, na maioria das vezes, invisível. As vantagens de ser invisível...&#xA;&#xA;Quando entrei na faculdade, fiz uma escolha deliberada de inventar uma personagem diferente, dessa vez eu não seria a pessoa chata, eu ia ser querida e legal. Hoje entendo esse processo como parte do masking do autismo, mas não vou focar nesse assunto, pois entendo esse viés como menos importante aqui. De qualquer forma, tentei muito ser a pessoa que todos gostavam, só para descobrir que ninguém se deixou enganar pela minha máscara, minha nova personagem. Criei inúmeros desafetos durante meus anos de graduação. Dos 013 aos 019, todos os anos têm assunto para lembrar de mim como uma insuportável. Mas eu era realmente insuportável?&#xA;&#xA;Talvez eu tenha feito escolhas erradas durante meus anos de graduação, escolhas que me levaram a descontar os pesos de ser uma farsa ambulante em pessoas que não tinham nada a ver com o assunto. Mais de uma vez, ativamente machuquei pessoas com minhas palavras. Mas eu não fui especialmente insuportável, ou deliberadamente uma pessoa ruim, eu só queria ser querida. Na ânsia de ser vista como uma pessoa legal, as pessoas me viram como ridícula. Como disse um amigo meu, as pessoas não riam comigo. Elas riam de mim.&#xA;&#xA;Felizmente, eu consegui fazer amigos queridos durante os anos de graduação. Muitos já se afastaram e se perderam pela vida, talvez nunca mais nos falemos. Sobraram uns cinco para contar história, e está ótimo. Porque o fardo do masking, de ser uma farsa, é muito pesado para carregar, e ele não durou muito tempo. Eu só posso ser eu. E meu eu é, assumidamente, insuportável para muitas pessoas. Talvez aquilo que eu mais tenha aprendido durante os últimos anos tenha sido que, não importa o que façamos ou quem sejamos, nunca vamos agradar a todos. É possível que não agrademos nem metade das pessoas com quem interagimos. Eu sou, de fato, uma pessoa difícil de lidar em diversos aspectos. Mas quem convive comigo sabe das delícias que podem aproveitar estando próximos de mim, também. Mais uma pessoa como qualquer outra, porque todos têm altos e baixos.&#xA;&#xA;O resumo dessa história e a moral eu não sei. Olho para trás com certa dor em perceber que fiz tantas inimizades e desafetos durante minha trajetória, devido à minha personalidade difícil e pouco convidativa, mesmo (e principalmente) quando eu tentava esconder isso e ser querida. Ainda hoje sofro com esses problemas de comunicação, também no ambiente de trabalho. Só que, ao mesmo tempo, estou ativamente ciente de que ser querida por todos é, também, uma farsa. Por isso, já não busco esse estado de ser. Ainda bem. &#xA;&#xA;Meu eu do passado teria orgulho de quem eu sou hoje e isso é o que importa.&#xA;&#xA;Cheers.&#xA;&#xA;]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Reminiscência</strong></p>

<p>Reminiscência é uma recordação do passado.</p>

<p>O filme Her (Spike Jonze, 2013) ensinou que “o passado é apenas uma história que nós nos contamos”. O passado existe em nossa mente como um eco, encantado com um filtro que assume a cor que decidimos colocar nele.</p>

<p>Se meu passado tivesse uma cor, ela certamente seria azul escuro. Não aquele azul bonito que nos tira o fôlego ao olhar para o céu, mas um azul escuro, um azul apático. Quem colocaria essa cor por lá teria sido eu mesma.</p>

<p>Acho que sempre fui uma criança melancólica, e na adolescência não foi diferente. Minha incapacidade de me ligar emocionalmente com meus amigos de escola me levou, anos mais tarde, a passar algumas noites de sono sonhando com o que poderia ter sido, mas não foi. O <em>bullying</em> que sofri no começo da adolescência foi um motor para eu querer pintar minhas experiências de azul escuro. Eu não entendia por que tanta gente não gostava de mim, e ativamente se movimentava para me machucar. Longe de eu ter sido perfeita ou não-problemática, com certeza participei de processos que machucavam outros. Mas é claro, para mim, que a balança pesava contra minha existência.</p>

<p>Entrei no ensino médio em 2013 e passei alguns dos anos mais desgraçados da minha vida. Eu não me identificava com a maioria dos meus colegas de turma, que tinham condições econômicas diferentes e assuntos que não me contemplavam; os poucos com quem eu tinha algum assunto, mais uma vez eu não conseguia manter laços emocionais com eles. Outros, ainda, eram amigos que eram incapazes de manter relações saudáveis comigo, enquanto eu era incapaz de fazer o caminho contrário. Fiquei conhecida no máximo como a menina invocada, a bravinha, ou, na maioria das vezes, invisível. As vantagens de ser invisível...</p>

<p>Quando entrei na faculdade, fiz uma escolha deliberada de inventar uma personagem diferente, dessa vez eu não seria a pessoa chata, eu ia ser querida e legal. Hoje entendo esse processo como parte do masking do autismo, mas não vou focar nesse assunto, pois entendo esse viés como menos importante aqui. De qualquer forma, tentei muito ser a pessoa que todos gostavam, só para descobrir que ninguém se deixou enganar pela minha máscara, minha nova personagem. Criei inúmeros desafetos durante meus anos de graduação. Dos 013 aos 019, todos os anos têm assunto para lembrar de mim como uma insuportável. Mas eu era realmente insuportável?</p>

<p>Talvez eu tenha feito escolhas erradas durante meus anos de graduação, escolhas que me levaram a descontar os pesos de ser uma farsa ambulante em pessoas que não tinham nada a ver com o assunto. Mais de uma vez, ativamente machuquei pessoas com minhas palavras. Mas eu não fui especialmente insuportável, ou deliberadamente uma pessoa ruim, eu só queria ser <em>querida</em>. Na ânsia de ser vista como uma pessoa legal, as pessoas me viram como ridícula. Como disse um amigo meu, as pessoas não riam comigo. Elas riam <em>de mim</em>.</p>

<p>Felizmente, eu consegui fazer amigos queridos durante os anos de graduação. Muitos já se afastaram e se perderam pela vida, talvez nunca mais nos falemos. Sobraram uns cinco para contar história, e está ótimo. Porque o fardo do masking, de ser uma farsa, é muito pesado para carregar, e ele não durou muito tempo. Eu só posso ser <em>eu</em>. E meu eu é, assumidamente, insuportável para muitas pessoas. Talvez aquilo que eu mais tenha aprendido durante os últimos anos tenha sido que, não importa o que façamos ou quem sejamos, nunca vamos agradar a todos. É possível que não agrademos nem metade das pessoas com quem interagimos. Eu sou, de fato, uma pessoa difícil de lidar em diversos aspectos. Mas quem convive comigo sabe das delícias que podem aproveitar estando próximos de mim, também. Mais uma pessoa como qualquer outra, porque todos têm altos e baixos.</p>

<p>O resumo dessa história e a moral eu não sei. Olho para trás com certa dor em perceber que fiz tantas inimizades e desafetos durante minha trajetória, devido à minha personalidade difícil e pouco convidativa, mesmo (e principalmente) quando eu tentava esconder isso e ser querida. Ainda hoje sofro com esses problemas de comunicação, também no ambiente de trabalho. Só que, ao mesmo tempo, estou ativamente ciente de que ser querida por todos é, também, uma farsa. Por isso, já não busco esse estado de ser. Ainda bem.</p>

<p>Meu eu do passado teria orgulho de quem eu sou hoje e isso é o que importa.</p>

<p>Cheers.</p>
]]></content:encoded>
      <author>groselhas</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/4khxbddg99</guid>
      <pubDate>Wed, 25 Jan 2023 14:09:17 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Autismo e outras drogas</title>
      <link>https://blog.ayom.media/ana/autismo-e-outras-drogas</link>
      <description>&lt;![CDATA[Autismo e outras drogas&#xA;&#xA;Receber o diagnóstico de autismo aos 24 anos é estranho.&#xA;É como receber a resposta de uma pergunta que você nunca perguntou, mas ao mesmo tempo, sempre (se) perguntou. &#xA;Um gosto do sentimento de inadequação é normal na adolescência. Eu já não sou adolescente há alguns anos e esse sentimento não me abandonou.&#xA;Era meu aniversário em uma noite gelada de junho de 2021, olhei para meu então namorado e falei: &#34;acho que tem alguma coisa errada comigo&#34;.&#xA;Cinco anos antes, um amigo meu me deu uma bronca amigável: &#34;falar com você é engraçado. Você não me olha no olho, parece que tá viajando&#34;. Desde então, todas as interações com as pessoas vieram com um &#34;será que estou olhando para essa pessoa?&#34;&#xA;Aos 20, trocando de psiquiatra, contei para a médica que em nenhum período da minha vida soube dizer que eu estava com sede antes de minha garganta estar pegando fogo, ou quando ir ao banheiro antes de sentir uma dor absurda. Ela achou engraçado que meus amigos me lembravam de fazer essas coisas, eu já achava uma humilhação.&#xA;Ainda aos 20, um episódio com um professor orientador de auxiliar didático na faculdade fez eu desenvolver certo trauma. Ele chegou a afirmar que eu era a pior pessoa que ele havia conhecido. Tudo por causa de uma falha de comunicação, em que eu fui incapaz de entender o que era o correto socialmente.&#xA;Aos 3, eu já lia e escrevia como uma criança de seis, sete anos. As pessoas achavam fofo, mas isso seria fatal para um destino marcado pelas grandes pressões colocadas em mim.&#xA;Aos 13, a obsessão por aviões comerciais começou. Eu passava horas sem comer nem dormir apenas alimentando os conhecimentos de aviação, vendo programas e vídeos no YouTube, acompanhando mapas e planespotting. &#xA;Mas foi só aos 23, em 2022, que os pratos que eu estava segurando em mãos, quentes demais, foram estilhaçados no chão. Precisei varrer a bagunça para fora da casa. Pedi demissão de um emprego que me remuneraria 5 mil reais por mês: eu era professora na rede estadual de São Paulo, um emprego nada fácil, mas que acabara de receber aumento salarial. Cada vez eu chegava em casa mais cansada, precisava dormir mais de 12 horas por dia, várias vezes perdia a hora por não conseguir ir ao trabalho sem passar mal de nervoso e querer me machucar. 40h por semana era, e ainda é, uma carga insuportável para mim. Minha casa estava um caos completo, a louça criando mofo, o banheiro cheirando a urina felina e as roupas, sem lavar por três semanas. Eu já estava quase reutilizando calcinhas.&#xA;Eu não entendia por que mesmo medicada e tratada da depressão a bagunça reinava.&#xA;Autista. Ana Paula necessita de suporte leve: tem dificuldades na comunicação, mas sem que isto limite sua interação social significativamente. Problemas de organização e planejamento podem prejudicar a independência.&#xA;O processo diagnóstico está lento, caro e ainda em processo, entre a suspeita e o parecer da neuropsicóloga foram quase dois anos, e a psiquiatra ainda não fechou o laudo, pois está coletando pareceres com minha psicóloga. Mas, dentro de mim e com as profissionais que me acompanham, o quadro está desenhado. &#xA;Ouvindo o podcast da Rádio Novelo sobre uma pessoa cega em processo de adaptação com seu cão-guia, senti-me abraçada. A moça relatou a dificuldade que foi aceitar-se enquanto uma pessoa com deficiência: em um dia, ela era normal, no outro, após relatório médico, deficiente.&#xA;Hoje eu entendo que o autismo é uma deficiência biopsicossocial e que muito provavelmente já se nasce autista. Então, eu sempre fui uma pessoa com deficiência, apesar de apenas aos 24 encontrar palavras para descrever a minha condição. &#xA;Minha psiquiatra ficou com certo receio de que eu fosse levar o diagnóstico para o lado negativo, ou pior, tomar a identidade como algo fechado em si. Como se ser autista fosse a única coisa que eu pudesse ser, e alguns profissionais ruins e autistas recém-diagnosticados acabam pensando assim. Eu entendo esses autistas: quando algo tão caro para nós chega com tanto atraso, nós queremos ficar abraçados à tábua da identidade. Ela explica com nomes médicos para a sociedade o porquê de não gostarmos que nos toquem, explica porque nós geralmente vamos embora mais cedo das festas ou porque temos movimentos repetitivos estranhos. &#xA;Eu sou autista, entretanto, sou muito mais do que isso. Vários adjetivos e títulos se aplicam a mim e autista é apenas um deles. Não apaguem isso da minha identidade, mas também não me resumam a ela, e aqui também cabe um tom de autocrítica. Porque às vezes, na ânsia de comprovar para eu mesma um diagnóstico extremamente subjetivo apesar de clínico, acabo me autossabotando. Onde é que já se viu um autista estar feliz (contém ironia)?&#xA;Por um tempo, tive medo de falar sobre o assunto publicamente e ser julgada por pessoas que não entendem a complexidade da situação. Só que escrever sempre foi uma válvula de escape para mim, desde que, aos seis anos, escrevia um diário com palavras como &#34;pisina&#34; (piscina). Compartilhar faz parte desse processo, receber um retorno das pessoas que se importam comigo é importante. Por isso, obrigada por ler esse texto. Outros virão.&#xA;]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Autismo e outras drogas</strong></p>

<p>Receber o diagnóstico de autismo aos 24 anos é estranho.
É como receber a resposta de uma pergunta que você nunca perguntou, mas ao mesmo tempo, sempre (se) perguntou.
Um gosto do sentimento de inadequação é normal na adolescência. Eu já não sou adolescente há alguns anos e esse sentimento não me abandonou.
Era meu aniversário em uma noite gelada de junho de 2021, olhei para meu então namorado e falei: “acho que tem alguma coisa errada comigo”.
Cinco anos antes, um amigo meu me deu uma bronca amigável: “falar com você é engraçado. Você não me olha no olho, parece que tá viajando”. Desde então, todas as interações com as pessoas vieram com um “será que estou olhando para essa pessoa?”
Aos 20, trocando de psiquiatra, contei para a médica que em nenhum período da minha vida soube dizer que eu estava com sede antes de minha garganta estar pegando fogo, ou quando ir ao banheiro antes de sentir uma dor absurda. Ela achou engraçado que meus amigos me lembravam de fazer essas coisas, eu já achava uma humilhação.
Ainda aos 20, um episódio com um professor orientador de auxiliar didático na faculdade fez eu desenvolver certo trauma. Ele chegou a afirmar que eu era a pior pessoa que ele havia conhecido. Tudo por causa de uma falha de comunicação, em que eu fui incapaz de entender o que era o correto socialmente.
Aos 3, eu já lia e escrevia como uma criança de seis, sete anos. As pessoas achavam fofo, mas isso seria fatal para um destino marcado pelas grandes pressões colocadas em mim.
Aos 13, a obsessão por aviões comerciais começou. Eu passava horas sem comer nem dormir apenas alimentando os conhecimentos de aviação, vendo programas e vídeos no YouTube, acompanhando mapas e planespotting.
Mas foi só aos 23, em 2022, que os pratos que eu estava segurando em mãos, quentes demais, foram estilhaçados no chão. Precisei varrer a bagunça para fora da casa. Pedi demissão de um emprego que me remuneraria 5 mil reais por mês: eu era professora na rede estadual de São Paulo, um emprego nada fácil, mas que acabara de receber aumento salarial. Cada vez eu chegava em casa mais cansada, precisava dormir mais de 12 horas por dia, várias vezes perdia a hora por não conseguir ir ao trabalho sem passar mal de nervoso e querer me machucar. 40h por semana era, e ainda é, uma carga insuportável para mim. Minha casa estava um caos completo, a louça criando mofo, o banheiro cheirando a urina felina e as roupas, sem lavar por três semanas. Eu já estava quase reutilizando calcinhas.
Eu não entendia por que mesmo medicada e tratada da depressão a bagunça reinava.
Autista. Ana Paula necessita de suporte leve: tem dificuldades na comunicação, mas sem que isto limite sua interação social significativamente. Problemas de organização e planejamento podem prejudicar a independência.
O processo diagnóstico está lento, caro e ainda em processo, entre a suspeita e o parecer da neuropsicóloga foram quase dois anos, e a psiquiatra ainda não fechou o laudo, pois está coletando pareceres com minha psicóloga. Mas, dentro de mim e com as profissionais que me acompanham, o quadro está desenhado.
Ouvindo o podcast da Rádio Novelo sobre uma pessoa cega em processo de adaptação com seu cão-guia, senti-me abraçada. A moça relatou a dificuldade que foi aceitar-se enquanto uma pessoa com deficiência: em um dia, ela era normal, no outro, após relatório médico, deficiente.
Hoje eu entendo que o autismo é uma deficiência biopsicossocial e que muito provavelmente já se nasce autista. Então, eu sempre fui uma pessoa com deficiência, apesar de apenas aos 24 encontrar palavras para descrever a minha condição.
Minha psiquiatra ficou com certo receio de que eu fosse levar o diagnóstico para o lado negativo, ou pior, tomar a identidade como algo fechado em si. Como se ser autista fosse a única coisa que eu pudesse ser, e alguns profissionais ruins e autistas recém-diagnosticados acabam pensando assim. Eu entendo esses autistas: quando algo tão caro para nós chega com tanto atraso, nós queremos ficar abraçados à tábua da identidade. Ela explica com nomes médicos para a sociedade o porquê de não gostarmos que nos toquem, explica porque nós geralmente vamos embora mais cedo das festas ou porque temos movimentos repetitivos estranhos.
Eu sou autista, entretanto, sou muito mais do que isso. Vários adjetivos e títulos se aplicam a mim e autista é apenas um deles. Não apaguem isso da minha identidade, mas também não me resumam a ela, e aqui também cabe um tom de autocrítica. Porque às vezes, na ânsia de comprovar para eu mesma um diagnóstico extremamente subjetivo apesar de clínico, acabo me autossabotando. Onde é que já se viu um autista estar feliz (contém ironia)?
Por um tempo, tive medo de falar sobre o assunto publicamente e ser julgada por pessoas que não entendem a complexidade da situação. Só que escrever sempre foi uma válvula de escape para mim, desde que, aos seis anos, escrevia um diário com palavras como “pisina” (piscina). Compartilhar faz parte desse processo, receber um retorno das pessoas que se importam comigo é importante. Por isso, obrigada por ler esse texto. Outros virão.</p>
]]></content:encoded>
      <author>groselhas</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/zqq4w9m2ya</guid>
      <pubDate>Wed, 18 Jan 2023 02:07:03 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Arte IA</title>
      <link>https://blog.ayom.media/pedro/arte-ia</link>
      <description>&lt;![CDATA[Vejo algo de positivo nos avanços das artes geradas por computador.&#xA;&#xA;Essa opinião não vem a mim de forma confortável. Muito pelo contrário. Como alguém de orientação marxista, observo o desemprego tecnológico com bastante receio.&#xA;&#xA;Mas essa preocupação não me cega de observar a forma como essa bomba pode arrasar com as nossas definições atuais do fazer artístico, nos forçando um verdadeiro reset.&#xA;&#xA;No cenário atual, a grande massa daqueles que se dizem artistas pouco se preocupam o que eu considero arte, que tem algo de expressar o indizível, o irreprimível e converter ideias e imaginação em mensagem palpável sensorial.&#xA;&#xA;Essa é uma definição bastante pessoal. Mas esse é meu blog logo tudo aqui são definições bastante pessoais.&#xA;&#xA;A maioria dos artistas estão unicamente preocupados em impressionar outras pessoas. Não há nada de errado em querer impressionar, inclusive todos os artistas querem em algum nível impressionar, mas o problema é que receber um elogio de alguém é apenas uma migalha para quem quer verdadeiramente realizar seu potencial artístico. &#xA;&#xA;É uma etapa inicial da vida de um artista entender que receber uma confirmação de que você minimamente aprendeu o básico do seu ofício   não deveria ser uma necessidade. Seria como um medico cirurgião se ver realizado em simplesmente ser chamado de doutor e nem prosseguir em tentar salvar a vida de alguém. Qualquer um com um jaleco branco pode ser chamado de doutor assim como qualquer um que saiba minimamente sombrear uma esfera vai ser chamado de artista. A missão é muito maior que isso, mas a baixa autoestima é tão grande que muitos se dão por satisfeitos por isso.&#xA;&#xA;Mas muitos prosseguem porém ainda nessa mesma chave, a da falta, onde se está sempre tentando chegar no próximo nível técnico, passar de ano. Esses são mais raros. Eles são perderam no deleite de impressionar por técnica e estética. São os que mais temem as IA. Surfaram por décadas o privilégio de saberem renderizar belos cabelos, rostos baseados em estéticas eurocentricas, esculpir corpos e agora se veem desesperados porque as máquinas podem fazer o mesmo em questão de segundos e o progresso dessa tecnologia mal começou.&#xA;&#xA;O uso de imagens com copyright é antiético e deve ser combatido, mas todos sabemos que nada disso vai adiantar porque no fim do dia o problema é o desemprego tecnológico e é inerente ao sistema capitalista já que existe a contradição de que quem consome o faz vendendo sua força de trabalho, e quem produz quer baratear sua produção o máximo possível. O resultado é um espiral de buraco negro rumo a singularidade. Não há escapatória.&#xA;&#xA;Logo, há de se pensar a arte além de seus limites puramente mercadológicos. O viver de arte sempre foi parte do fazer artístico desde o renascimento. Por exemplo a Monalisa foi um Freela do da Vinci. Ele não necessariamente teria pintado aquela mulher se ela não fosse a esposa de um rico mercador de Florença.&#xA;&#xA;As IA matam essa forma de viver de arte, onde sobrevive o mais habilidoso. Sobra algo? Se sobrar, sobra uma arte livre disso. Se não sobrar, arte então nunca existiu, foi um delírio. Tendo acreditar na primeira hipótese.&#xA;&#xA;Mas como o artista vai sobreviver. Eu não sei, eu não quero falar disso nesse texto. Só sei que artistas darão seus pulos e de alguma forma continuarão existindo.&#xA;&#xA;Mas o que muito me interessa o que será essa arte nova então? No primeiro momento seremos inundados por uma tsunami de feitos artísticos tecnicamente impressionantes. Ainda mais do que já somos. Em seguida ficaremos anestesiados. Então vamos prestar atenção nas ideias das imagens, porque a habilidade técnica será completamente planificada. Todos terão as mesmas possibilidades técnicas. O critério então do que chama atenção vai ser puramente conceitual. Não seria isso uma libertação para arte? Artistas serão livrados das distrações dos sombreamentos dos feitos técnicos ou então serão formados a sempre inventar novos estilos, o que também seria muito bom.&#xA;&#xA;Eu não sinto confortável de dar essa opinião visto que ela a mim soa excessivamente otimista e ingênua, mas não posso evitar expressar pra onde minhas coordenadas atuais me apontam.&#xA;&#xA;Fique a vontade de apontar eventuais erros e discordâncias ou opiniões pelo meu mastodon @pedro@ayom.media ou por e-mail pedro@pedromaciel.com]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Vejo algo de positivo nos avanços das artes geradas por computador.</p>

<p>Essa opinião não vem a mim de forma confortável. Muito pelo contrário. Como alguém de orientação marxista, observo o desemprego tecnológico com bastante receio.</p>

<p>Mas essa preocupação não me cega de observar a forma como essa bomba pode arrasar com as nossas definições atuais do fazer artístico, nos forçando um verdadeiro reset.</p>

<p>No cenário atual, a grande massa daqueles que se dizem artistas pouco se preocupam o que eu considero arte, que tem algo de expressar o indizível, o irreprimível e converter ideias e imaginação em mensagem palpável sensorial.</p>

<p>Essa é uma definição bastante pessoal. Mas esse é meu blog logo tudo aqui são definições bastante pessoais.</p>

<p>A maioria dos artistas estão unicamente preocupados em impressionar outras pessoas. Não há nada de errado em querer impressionar, inclusive todos os artistas querem em algum nível impressionar, mas o problema é que receber um elogio de alguém é apenas uma migalha para quem quer verdadeiramente realizar seu potencial artístico.</p>

<p>É uma etapa inicial da vida de um artista entender que receber uma confirmação de que você minimamente aprendeu o básico do seu ofício   não deveria ser uma necessidade. Seria como um medico cirurgião se ver realizado em simplesmente ser chamado de doutor e nem prosseguir em tentar salvar a vida de alguém. Qualquer um com um jaleco branco pode ser chamado de doutor assim como qualquer um que saiba minimamente sombrear uma esfera vai ser chamado de artista. A missão é muito maior que isso, mas a baixa autoestima é tão grande que muitos se dão por satisfeitos por isso.</p>

<p>Mas muitos prosseguem porém ainda nessa mesma chave, a da falta, onde se está sempre tentando chegar no próximo nível técnico, passar de ano. Esses são mais raros. Eles são perderam no deleite de impressionar por técnica e estética. São os que mais temem as IA. Surfaram por décadas o privilégio de saberem renderizar belos cabelos, rostos baseados em estéticas eurocentricas, esculpir corpos e agora se veem desesperados porque as máquinas podem fazer o mesmo em questão de segundos e o progresso dessa tecnologia mal começou.</p>

<p>O uso de imagens com copyright é antiético e deve ser combatido, mas todos sabemos que nada disso vai adiantar porque no fim do dia o problema é o desemprego tecnológico e é inerente ao sistema capitalista já que existe a contradição de que quem consome o faz vendendo sua força de trabalho, e quem produz quer baratear sua produção o máximo possível. O resultado é um espiral de buraco negro rumo a singularidade. Não há escapatória.</p>

<p>Logo, há de se pensar a arte além de seus limites puramente mercadológicos. O viver de arte sempre foi parte do fazer artístico desde o renascimento. Por exemplo a Monalisa foi um Freela do da Vinci. Ele não necessariamente teria pintado aquela mulher se ela não fosse a esposa de um rico mercador de Florença.</p>

<p>As IA matam essa forma de viver de arte, onde sobrevive o mais habilidoso. Sobra algo? Se sobrar, sobra uma arte livre disso. Se não sobrar, arte então nunca existiu, foi um delírio. Tendo acreditar na primeira hipótese.</p>

<p>Mas como o artista vai sobreviver. Eu não sei, eu não quero falar disso nesse texto. Só sei que artistas darão seus pulos e de alguma forma continuarão existindo.</p>

<p>Mas o que muito me interessa o que será essa arte nova então? No primeiro momento seremos inundados por uma tsunami de feitos artísticos tecnicamente impressionantes. Ainda mais do que já somos. Em seguida ficaremos anestesiados. Então vamos prestar atenção nas ideias das imagens, porque a habilidade técnica será completamente planificada. Todos terão as mesmas possibilidades técnicas. O critério então do que chama atenção vai ser puramente conceitual. Não seria isso uma libertação para arte? Artistas serão livrados das distrações dos sombreamentos dos feitos técnicos ou então serão formados a sempre inventar novos estilos, o que também seria muito bom.</p>

<p>Eu não sinto confortável de dar essa opinião visto que ela a mim soa excessivamente otimista e ingênua, mas não posso evitar expressar pra onde minhas coordenadas atuais me apontam.</p>

<p>Fique a vontade de apontar eventuais erros e discordâncias ou opiniões pelo meu mastodon @pedro@ayom.media ou por e-mail pedro@pedromaciel.com</p>
]]></content:encoded>
      <author>blog do pedro</author>
      <guid>https://blog.ayom.media/read/a/mvnras811h</guid>
      <pubDate>Sat, 17 Dec 2022 00:10:06 +0000</pubDate>
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